Episódios de O Assunto

A crise de saúde mental entre os jovens brasileiros

02 de abril de 202630min
0:00 / 30:36
Convidado: Daniel Becker, pediatra, sanitarista, escritor e ativista pela infância. Autor do livro “Os mil dias do bebê”. Os adolescentes se sentem cada vez mais solitários, desamparados e insatisfeitos com a própria imagem. Esse é o diagnóstico da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada pelo IBGE para entender a realidade dos 12 milhões de brasileiros que têm entre 13 e 17. O levantamento ouviu 118 mil estudantes em 2024: 30% deles afirmam que se sentem tristes “sempre” ou “na maioria das vezes”. A pesquisa desenha um quadro especialmente duro para as meninas: um terço delas relata ter sofrido alguma humilhação dos colegas, uma em cada quatro já foi assediada sexualmente – 12% afirmam que foram estupradas. No caso dos garotos, os dados indicam que eles têm mais dificuldade de fazer amigos e sofrem mais de solidão. Este episódio apresenta um relato de mãe e filha que ilustram o triste cenário da crise de saúde mental entre os adolescentes. Depois, Natuza Nery entrevista o pediatra, sanitarista, escritor e ativista pela infância Daniel Becker. Becker, que é também autor do livro “Os mil dias do bebê”, explica os danos que uma adolescência vivida dentro das telas e das plataformas digitais causam a estes jovens. Ele também alerta pais, mães e educadores para os sintomas de depressão e ansiedade e orienta sobre as melhores abordagens para conversar com filhos e estudantes.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
D

Daniel Becker

ConvidadoPediatra e sanitarista
Assuntos1
  • Saúde Mental JuvenilPesquisa Nacional de Saúde do Escolar · Danos da adolescência digital · Misoginia e saúde mental · Solidão entre meninos · Impacto das redes sociais
Transcrição80 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

A gente liga 99,8% do Brasil. Liga histórias, liga momentos, liga a vida. Distribuidoras de energia. A gente liga o Brasil. Antes de começar, um aviso. Este episódio tem conteúdo sensível. Se você ou alguém que você conhece estiver precisando de ajuda, procure o CVV, o Centro de Valorização da Vida, pelo número de telefone 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas.

Eu percebi que ela não estava conseguindo dormir, que ela só queria dormir se fosse durante o dia. À noite ela não dormia. Aí eu tive que sentar com ela e conversar. Filha, o que está acontecendo? Essa é a voz da mãe de uma adolescente, entrevistada por nossa produtora Nayara Felizardo. Nós preferimos omitir o nome para preservar a família. Eu só queria ficar deitada na minha cama. Isso me deixava mais triste, porque eram coisas que eu gostava, coisas que me animavam e eu já não queria mais fazer.

Eu já não estava mais me reconhecendo. E essa falta de reconhecimento me fazia ficar pior cada vez mais. E essa voz que você acabou de ouvir é da filha dela. Você vai ouvir o relato dessas duas vozes ao longo do episódio.

Aí ela dizia assim, eu tô morrendo, é uma dor, é uma dor, tá me sufocando, tá me sufocando. E ela mudava de cor, assim que ela é morena, ela mudava de cor. E ela dizia assim, a senhora não tá vendo que eu tô morrendo sem fôlego? Meu fôlego tá acabando, tá acabando, tá acabando e eu tô morrendo, eu tô morrendo.

Essa jovem, hoje com 18 anos, conta um pouco mais da angústia que viveu. Lidei com isso por um longo período da minha vida. Com 15 anos foi o pico de tudo. Eu não conversava com ninguém sobre, porque para mim era eu por mim mesma.

Eu não tinha que depender de ninguém, eu tinha que conseguir lidar com tudo, com aquela idade que eu tinha. E essa constante cobrança, esse sofrimento em silêncio, me fazia desanimar diariamente. Com o tempo, veio a perca de interesse em tudo que eu fazia.

Esse caso ilustra dados da pesquisa feita pelo IBGE sobre a realidade dos 12 milhões de brasileiros que têm entre 13 e 17 anos. Em 2024, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar ouviu 118 mil estudantes. 30% deles afirmam que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes.

E entre as meninas, esse índice é ainda pior, 41%. Para quase 20% deles, a vida não faz sentido. Pensamentos ruins surgiam em quase todos os momentos que eu me lembro. Quando as coisas boas aconteciam, eu ficava triste porque eu não sentia que eu merecia estar vivendo nada bom.

Porque já que eu desejava não estar mais viva, na minha cabeça não fazia sentido eu poder passar por isso. Comecei a perceber a quantidade de cicatrizes que estavam nas pernas, nas coxas, muitas cicatrizes. Eu percebi que estava tudo estranho, mas não imaginava que tinha chegado a esse ponto. Aí aqui comigo ela tentou duas vezes e aquilo ali acabou comigo. Aquilo ali acabou comigo.

E é um cenário que só se agrava e é especialmente duro para as garotas. Cerca de 30% das meninas sentem que ninguém se preocupa com elas e relatam ter sofrido alguma humilhação dos colegas. Uma em cada quatro já sofreu assédio sexual. 12% dizem que foram estupradas. A maioria relata preocupação excessiva com o dia a dia. Agora ouça o que Félix Rogério Moreira observa na escola onde ele é diretor.

As meninas têm se demonstrado bem mais frágeis em relação aos meninos. Uma pressão excessiva social sobre elas, os arquétipos de beleza, o que a sociedade tem cobrado das meninas traz um peso enorme. Então, a gente observa no contexto escolar que as meninas se mutilam, se isolam, apresentam quadros de depressão, muitas também com síndrome do pânico. Esses casos não eram observados.

há poucos anos atrás. O que acontece é que com essas situações psicológicas vivenciadas pelas alunas, o prejuízo acadêmico-escolar também é muito grande.

A dinâmica nas escolas é a seguinte. São os garotos os que menos sofrem bullying. E são os que mais praticam. A misoginia entre jovens é um problema global. Uma pesquisa realizada pelo King's College de Londres aponta o seguinte. A geração Z, ou seja, aqueles que têm entre 14 e 30 anos, é a geração que mais defende a submissão das mulheres em relação aos homens.

Isso não significa que os garotos também não sofram. A pesquisa conduzida pelo IBGE indica que eles são mais propensos a não desenvolverem relações próximas, ou seja, não fazem amigos. E pagam o preço da solidão. Ouça o que diz agora Alexandre Schneider, consultor e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo.

Na Inglaterra, eles acabaram de lançar, inclusive, um relatório, num grupo de pesquisa, o relatório chama The Lost Boys. E eles mostram que os meninos estão, de um lado, se sentindo fragilizados por uma série de questões, são eles, eles têm desempenho pior do que as meninas.

eles são a maioria dos neném, aqueles que não estudam e não trabalham na Inglaterra, eles sentem a falta de uma imagem paterna, muitos são filhos de famílias monoparentais, e tudo isso tem jogado eles direto nesses grupos da internet que de alguma forma praticam, eles chamam isso de manosfera ou machosfera. Aqui no Brasil isso também está acontecendo.

Especialistas listam motivos dessa tragédia. Uma crise econômica global, onde pautas civilizatórias regridem, e um ambiente digital sem supervisão. Hoje, a criança ou o adolescente não estão seguros, trancados no seu quarto.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a crise de saúde mental entre os jovens brasileiros. Neste episódio, eu converso com o pediatra, sanitarista e ativista pela infância Daniel Becker. Daniel é autor do livro Os Mil Dias do Bebê. Quinta-feira, 2 de abril.

Doutor Daniel, eu fiquei horrorizada com a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, que foi feita pelo IBGE. São dados aterradores sobre como estão vivendo os nossos jovens. A gente até mostrou, na abertura desse episódio, alguns dados dos mais chocantes sobre saúde mental de crianças e adolescentes.

Eu queria ouvir a tua avaliação para tentar entender o que está acontecendo com esses adolescentes, por que eles estão desesperançosos. A gente vê que os nossos jovens, que devem estar vivendo a fase mais alegre, mais descontraída, mais prazerosa da vida, que é a adolescência, que tem seus percalços, é claro, mas que tem muitos prazeres e descobertas, descobertas da sexualidade, das amizades, dos esportes.

as conquistas, os programas com a família, os programas com os amigos, isso tudo está se tornando tristeza, confinamento. Primeiro a gente tem que olhar para os fatores gerais que estão fazendo com que a vida da humanidade se torne mais complexa. Na nossa juventude, a gente não enfrentava as ameaças que esses adolescentes estão enfrentando hoje e estão cientes dessas ameaças.

Estão enfrentando, no futuro deles, muito próximo, uma crise climática que é catastrófica, que se promete catastrófica e que já está se fazendo presente. Além disso, você tem uma série de fatores brasileiros que também agravam a situação dos adolescentes brasileiros.

Em primeiro lugar, a desigualdade. Então, você tem adolescentes que são de classes menos privilegiadas, mais baixas na escala social, que sofrem com restrição de direitos. E os adolescentes negros que são perseguidos, que não podem correr na rua, que viram ladrões, que não podem andar descontraídos.

porque são bandidos, adolescentes que não podem se divertir porque podem ser criminalizados, porque podem ser humilhados por serem negros e por serem pobres, etc. Depois você tem a questão das meninas, as que têm medo porque vivem numa cultura do estupro, que vivem numa cultura também de feminicídio, de ódio, de ódio à mulher, de misoginia. Como mãe, eu me sentia arrasada.

Ela chegou a ver essa escena que ele batia em mim na frente dela e tudo, que eu fazia de tudo para ela não ver. E, infelizmente, ela presenciou muitas brigas e eu jamais imaginava que tinha mexido com ela daquele jeito. E aí você tem os fatores que vão, digamos assim, afunilando para dentro da família.

Você tem hoje famílias que têm dificuldade de construir vínculos mais profundos, mais afetivos com seus filhos desde a infância. E quando chega isso na adolescência, essa construção tardia já não é mais tão boa. Se você não teve uma boa conexão, construiu uma relação de amizade e confiança com a sua criança, vai ser muito difícil conseguir fazer isso na adolescência.

E aí é briga, é bronca. Ele muitas vezes não conta, se afasta porque não tem confiança, porque essa confiança não foi construída na infância. E por que não está sendo construída? Esses problemas pareciam se multiplicar e aumentar cada vez mais. Eles acabavam se tornando enormes na minha cabeça. E eu não conseguia lidar com...

Tudo ao mesmo tempo. Acredito que o maior fator era a autocobrança. Eu sempre queria tentar ser o melhor possível em tudo para deixar as outras pessoas orgulhosas, felizes. E na minha cabeça eu não podia falhar de jeito nenhum.

Porque a vida urbana, especialmente, afasta as famílias. Quanto mais abaixo na escala social, maior esse afastamento fica. Pessoas que chegam muito tarde em casa, trabalham em escala 6x1, enfrentam engarrafamentos que moram longe do trabalho e chegam exaustos e não tem como realmente ficar conversando, cuidando com o filho, porque tem que cozinhar, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. A conexão vai se dissolvendo entre pais e filhos desde a infância.

E chega na adolescência, essas figuras estão muito longe uma da outra. E aí você tem os fatores que estão levando a o pior deles, que é o confinamento dentro de casa e, portanto, o confinamento dentro da tela. Diferentemente da minha época, a adolescência hoje acontece dentro de plataformas digitais. E aí eu quero te ouvir sobre as consequências disso.

Há 50, 60 anos atrás, o território do adolescente era a rua, era o bairro. Descia, chegava da escola, descia, botava uma roupa, um short, uma blusa, ia jogar bola, bolinha de gude, pular uma lelinha, conversar, ia na casa dos amigos, jogava videogame com fulano, chamava o amigo na casa dele. Enfim, isso está em extinção. O território...

O território do adolescente hoje é cada vez mais o quarto, cada vez mais fechado, e dentro do quarto, cada vez mais o computador e o celular, quando tem um computador. As pessoas mais pobres ficam dentro do celular. E aí, encerrando essa panorâmica difícil, você tem o vício imposto pelas redes sociais. Vocês falaram outro dia em um episódio sobre o processo da meta e do YouTube, que estão viciando crianças e adolescentes.

O vício é, digamos assim, a porta aberta para o dano. Eles criam inúmeros mecanismos de segurar, de reter a atenção de adolescentes dentro dessas telas. Aquele aparelhinho se torna a coisa mais importante da vida. E aí você tem um fenômeno extraordinário, porque você tem o afastamento da criança e do adolescente dos principais fatores que formaram a espécie humana.

Então, a convívio com a luz do sol, o movimento durante o dia, o sono durante a noite, olha só, tudo está acabando. A brincadeira com os pares, a interação social, a criatividade, o pensar, o enfrentar dos momentos de tédio, que é fundamental para liberar a imaginação, para a autorreflexão, que mesmo que não seja consciente, ela acontece. A necessidade de enfrentar esses momentos difíceis.

necessidade de enfrentar frustrações e lidar com elas, a necessidade de enfrentar conflitos quando estão interagindo entre pares ou na família, porque os conflitos ensinam muito o que os americanos chamam de friction, quer dizer, as dificuldades que a vida impõe, tudo isso desaparece dentro das redes sociais.

e as crianças não estão mais tendo que enfrentar esse tipo de situações. As experiências sociais, familiares, esportivas, naturais, quer dizer, na natureza, escolares, que eles precisam viver para se desenvolver, inclusive o adolescente que está desenvolvendo, naquele momento da puberdade, as funções executivas, estão desaparecendo. E a gente troca isso por 5, 6, 8, 10 horas de conteúdo muito nocivo que a gente pode falar de hoje.

Doutor Daniel, como mãe de um adolescente, é um período muito desafiador. Eu sinto essa tristeza e essa preocupação cotidianamente. A pesquisa traz dados muito sérios, muito graves, porque ela mostra, no caso das meninas, uma tristeza e uma insatisfação que é mais presente entre elas.

Eu queria entender por que isso tem a ver com a misoginia que você se referia, esse medo permanente pelo fato de ser menina, de ser mulher. Já os meninos, a pesquisa indica que eles têm mais dificuldades de fazer amigos. Pergunto se isso tem a ver com videogame e também com o tempo de tela. Queria entender melhor essas duas consequências na clivagem de gênero. Isso tem tudo a ver com o mundo digital.

A gente conhece os recortes de gênero dos prejuízos causados pelo excesso de telas, especialmente o excesso de redes sociais. O tempo passado em redes sociais com seus algoritmos nocivos que empurram o pior conteúdo possível para que a criança ou adolescente...

seja retido ali, porque engajam e elas ficam sendo estimuladas por aqueles vídeos curtos que fragmentam a atenção. Além dessas, a pesquisa foca em danos à saúde mental, as emoções. A gente tem que também lembrar que os danos acontecem à cognição, eles estão deixando de aprender, porque não conseguem prestar atenção.

Mas em relação à saúde mental, existem os danos mais amplos que atingem ambos os sexos, por exemplo, a disseminação do ódio, do racismo, da intolerância, do fascismo. Tudo isso está crescendo negacionismo, né? Crianças acreditando que não tem crise climática, que a terra é plana, que vacina não funciona, que precisa comer só carne, que legume faz mal, enfim. Esse tipo de circulação de fake news e de mentiras.

na internet que fazem tão mal e que estão atingindo crianças de ambos os sexos. Agora, no recorte de gênero, o que acontece? As meninas, isso é uma experiência que já foi feita inúmeras vezes, e aparecem de vez em quando os estudos. Quando você cria uma conta de adolescente de 13 anos, que é a idade supostamente permitida pelas redes sociais, de menina...

Acontecem duas coisas. Primeiro, os predadores. Qualquer foto que ela coloque, pode ser um selfie de rosto, ela vai começar a receber comentáriozinhos de predadores. Ai, que linda gatinha que vem no direct. Imediatamente. Impressionante. 32 segundos ao tempo médio. E segundo, o conteúdo que ela começa a receber é sempre o mesmo. A experiência de uma delas, que é na Inglaterra, foi clicar só em gatinhos naquelas buscas.

mas ela começa a receber no seu feed vídeos de beleza, e esses vídeos vão piorando, e vão começando a se tornar extremos. E ela vai vendo aquelas mulheres filtradas artificialmente, com a sua beleza inflada artificialmente, e vendendo produtos para elas.

e vai vendo também as amigas dela postando vidinhas editadas, onde elas estão fazendo festas, indo em festas, fazendo viagens com a família, ou as blogueirinhas infantis, que são extremamente tóxicas, fazendo dancinhas em Paris e não sei o quê, sempre cheia de amigos, e ela vivendo ali a vidinha dela.

média, normal, com a sua barriguinha, suas espinhas, e ela começa a se odiar. No documentário que a Globo fez, espetacular, Anatomia do Post, tem uma frase de uma menina que acompanha uma blogueirinha dessas que revela tudo. Eu não sei o que seria a beleza perfeita, mas eu acho que eu consigo ver em todos menos em mim.

Eu odeio a minha insegurança com o fúbio. Eu odeio a minha personalidade. E odeio a minha aparência. Então, essa junção do medo, da cultura do estupro, da violência que está circulando nas escolas, especialmente, junto com esse massacre...

leva, e aí esse massacre é complementado pelos vídeos de apologia à automutilação, de apologia ao suicídio, ela começa a ver vídeos de meninas que falam em suicídio e que se automutilam, e ela vai muitas vezes seguir essas comunidades e vai começar a fazer esse mesmo caminho. Os meninos, a mesma experiência, você cria uma conta de futebol, uma conta de menino de 13 anos que clicou só em futebol,

e imediatamente começa a receber vídeos de violência, violência extrema, pancadarias e linchamentos e porrada de rua, extermínio policial. E aí começa vídeos de bullying, de provocações na escola e ele começa a receber bullying dos seus colegas, ver seus colegas sofrendo bullying ou fazendo bullying com ele.

e ele começa também a receber os conteúdos misóginos. Na violência, ódio, fascismo, tudo no pacote, e aí começam os conteúdos misóginos, que vão se radicalizando também. Uma característica que o algoritmo tem é ir radicalizando os conteúdos à medida que o tempo vai passando e a criança vai ficando cada vez mais nesse conteúdo.

Então ele começa a receber os vídeos, primeiro começam com um memezinho de brincadeira com a mulher, que a mulher tem que pilotar fogão, depois uma piadinha, o cara contando uma piadinha, depois começam os vídeos francamente misóginos, disfarçados de fortalecer o homem, o homem tem que ser mais forte, mais potente, mais alfa, tem esse alfa, o Betinho, o Betinho não serve para nada, que é o discurso em céu, é o discurso Red Pill, o conteúdo é sempre o mesmo.

Os Red Pill, que pregam que é necessário se aproveitar das mulheres e torná-las submissas para recuperar a virilidade perdida em céu. Eles se auto-institulam celibatários involuntários, culpam as mulheres por não conseguirem ter relações sexuais e endossam a violência contra qualquer grupo sexualmente ativo, inclusive contra comunidades LGBTQIA+. Os MGTOW.

Essa é uma sigla para Men Going Their Own Way, em português, homens seguindo o próprio caminho. Eles acreditam que a sociedade deve romper com as mulheres, porque, segundo eles, o feminismo tornou as mulheres perigosas. E aí começam os vídeos francamente misóginos de humilhação, de mulher não tem que dizer não, mulher tem que obedecer, se ela disser não, você tem a licença para estuprar, e a coisa vai se agravando por aí.

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Daniel Becker.

Agora faz sentido para mim a pesquisa que eu vou citar. É um levantamento feito pelo Instituto Global de Liderança Feminina do King's College de Londres, que ouviu mais de 23 mil pessoas. E o resultado é impressionante. Um em cada três jovens entre 14 e 30 anos afirma que a esposa deve sempre obedecer ao marido.

Então vem daí, mais do que a população entre 62 a 80 anos de idade. Ou seja, é uma turma muito mais reacionária do que pessoas de idade acima de 60 anos.

É impressionante. Eu vi essa pesquisa. É o dobro na tua. A minha geração, a gente aprendeu alguma coisa, né? O pessoal que nasceu no pós-guerra, a gente tem 13% só dos homens que acreditam que a mulher deve obedecer ao marido. Dessa galera da geração Z, é exatamente isso. Eles acreditam que a mulher deve obedecer ao marido. Um terço deles. É espantoso. É espantoso. A igualdade de gêneros, que é um dos valores mais básicos...

que a humanidade conseguiu cultivar e que estava realmente florescendo na sociedade, está invertendo o caminho. Eu não sei nem o que pensar disso, é muito grave.

A primeira vez que você viu esses casos de violência no Discord, você ficou assustado? Depois, meio que fui acostumado, né? 2015 pra 2016. E isso era um grupo de jogo. Mas não existia um grupo que tinha uma coisa mais diferente. Era muita gente fazendo aplodio. Nazismo, racismo, tipo, livremente. Era misoginia também. Eu já me importunei em algumas garotas, já. Xinguei, então acho que é coisa que eu me arrependo, realmente.

o futuro fica comprometido, o futuro passa a ter clareza de piora. Quando nessa idade a gente tem, em geral, uma expectativa positiva em relação ao futuro, esperançosa em relação ao futuro. Se um terço está assim, imagina...

com o aprofundamento da relação com as telas e o aperfeiçoamento das estratégias dos algoritmos. E só para a título de curiosidade, para quem tem dúvida, porque muita gente pode confundir, geração Z é a geração de nascidos entre 1997 e 2012. E aí, doutor Daniel, eu queria encerrar contigo com uma pergunta.

que eu acho que vai ser muito importante para mães, pais, educadores entenderem quais são os possíveis caminhos para ajudar a despiorar esse cenário, já que melhorar talvez não seja a primeira etapa, acho que despiorar pode ser a etapa mais possível. Quais os sinais eles nos dão? Que tipo de dicas eles nos dão de pistas, melhor dizendo, de que algo assim está acontecendo?

Antuzio, eu não quero terminar a nossa conversa de uma forma tão negativa. Eu concordo com você, a situação é muito complicada, a gente olha para o futuro com um certo pesar, mas a gente tem que entender uma coisa, eu sou um pouco utópico, as utopias, aquela frase do Galeano, são como o horizonte, a gente se aproxima, ele se afasta, mas as utopias também, a gente se aproxima delas, elas se afastam, mas elas estão nos fazendo caminhar. O que está acontecendo?

Nós estamos, desde 2010, vivendo a decadência, o descenso, que é quando os telefones de celular se mastificam, as app stories florescem e as redes sociais especialmente explodem. E agora a inteligência artificial trazendo também outros desafios, outros problemas. Mas, nos últimos dois anos, começa uma reação muito forte da sociedade. Começa a crescer um consenso de que as redes sociais estão fazendo mal, especialmente para crianças e adolescentes. Era um escape para mim. O que você buscava lá nessa rede?

Eu buscava amizades que me levaram aqui. O perfil desses adolescentes é esse. São meninos que não se ajustam ao mundo aqui fora. E lá eles encontram esse pertencimento. E aí eles são captados ou cooptados pelo afeto. Através desse afeto, dessa necessidade de aprovação do grupo, de pertencimento, eles são levados a começar a praticar.

transgressões, e aí aquilo vai aumentando, crescendo. Os dois braços dela é todo de cicatriz, porque ela se automotiva toda, toda. O que você se machuca? Me auto-mitivo, porque é uma forma que eu vejo de sair dessa dor psicológica e do pra dor física. Nós tivemos duas vitórias maravilhosas contra o excesso digital, que foi o banimento do celular na escola, que é absolutamente magnífico.

que são 4, 6, 8 horas sem celular, brincando, interagindo, vivendo em grupo e também aprendendo. E, por outro lado, agora o ECA digital, que vai conseguir, sim, a gente tem que ter esperança, impedir que uma parte desse conteúdo extremamente tóxico chegue às crianças e adolescentes. Então, vai melhorar nesse sentido. E tem muitos países banindo crianças da rede social até 16 anos, enfim.

Tem uma reação mundial, existe uma conscientização gradual da sociedade e das famílias. Eu acho que a situação tende a melhorar, sim. Eu tenho esperança disso. Agora, o que a gente pode fazer em casa, além de confiar nessas políticas públicas e exigir também políticas públicas que permitam que as famílias vão para a rua, que seja uma rua?

um ambiente natural mais agradável, que a gente tenha cidades arborizadas, que tenha praças arborizadas com brinquedos, que tenha campos de esporte, que as pessoas possam praticar, que as crianças possam brincar e os adolescentes e adultos se exercitarem. Eu abraçava ela e chorava e dizia assim...

Filha, eu estou aqui, filha, sente meu abraço, sente que você está comigo, que eu estou com você. Essas crises dava em qualquer horário. Quando eu menos esperava, isso acontecia. E eu abraçava ela. E depois disso, graças a Deus, nunca mais ela teve essas crises. Isso para mim foi uma benção na minha vida. Mas foram cinco meses de...

de desespero, praticamente. Eu vivi de cinco a seis meses de uma verdadeira loucura na minha vida. Em casa, o que a gente tem que notar e o que a gente tem que fazer? Primeiro, notar os sinais de que esse adolescente não quer mais participar de reuniões com a família, de refeições de família que são tão importantes, que não quer conversar, que fica fechado no quarto, lá no celular, com o seu computador. Isso não pode.

tem que proibir, que fica perdendo o sono, que acorda muito cansado com olheira, que não quer ir para a escola, que está com dor de barriga, muitas vezes é sinal de bullying, tem que perguntar na escola como é que ele está, tem que ver as notas dele que começam a cair. Ele tem uma série de sinais importantes, muitas vezes começa com um discurso perigoso, não sirvo para nada, eu sou uma merda, esse mundo está horrível, não quero mais viver nesse mundo.

Atenção, gente, atenção, esse é sinal de depressão, esse é risco de suicídio. Muita atenção.

ao seu adolescente, ao seu pré-adolescente, adolescente, que são os mais atingidos por essa crise de adoecimento. O que me ajudou a passar por tudo foi, na verdade, o tempo. No passar do tempo, eu fui vendo que eu não precisava lidar com tudo sozinha. Eu comecei a conversar e estar com a minha família, carinho, apoio de todo mundo me fez muito bem e me fez passar por tudo.

E a família, obviamente, precisa abrir espaço para esse adolescente. Não pode ser um espaço confrontacional. Tem que ser um espaço amoroso, amistoso, suave, delicado. Não é a relação com o adolescente, não é a relação com a criança. O adolescente quer se afastar naturalmente, então a gente tem que ir até ele, chamar ele para ver um jogo de futebol, chamar ele para jantar, para fazer um programa legal, para ir no cinema, para ver um filme significativo, discutir esse filme, que seja na televisão. Chamar para...

fazer uma reunião dos amigos dele, conversar de leve. Uma boa solução que a gente sempre recomenda é conversar no carro, porque no carro, no ônibus mesmo, a gente não olha para o adolescente, ele não se sente julgado, ele está todo mundo olhando para frente e a conversa flui melhor, porque ele não se sente observado, julgado, ele deixa, a coisa começa a sair. E a gente tem que escutar o adolescente, tem que estar atento ao adolescente.

tem que ter espaço de poder servir para ele como uma fonte de orientação, de guia, mas sem forçar, sem sermão, sem confrontação excessiva. E com muita delicadeza tentar se aproximar dele. E se ele der sinais?

de que a coisa não vai bem, como esses que eu mencionei, tem que realmente entrar em contato com a escola, tentar entender melhor o que está acontecendo, pedir para arregaçar as mangas, arregaçar as pernas e levar para um profissional de saúde mental. É fundamental que os adolescentes mantenham um regime mínimo de contato com o mundo real. Então, os pais têm que restringir o uso de telas, levar esses meninos para a casa dos amigos, para estudar.

para a escola, para os esportes. É fundamental, o esporte salva na adolescência. Pedir uma rede de apoio para que possa ter contato, o avô, a tia, para que possa ter contato também com ele durante a semana. Todas as medidas muito importantes na família. A atenção amorosa ao adolescente hoje é fundamental. Eles dizem que se sentem não vistos, não reconhecidos, e isso agrava tudo. A partir daí, tudo começa a desmoronar também.

Muito obrigada mesmo por ter topado conversar com a gente. Eu acompanho o seu trabalho e muitas vezes me oriento pelo que você diz. Obrigada mais uma vez. Obrigado a você, Natuz. Eu fico felicíssimo de ouvir o que você está dizendo. Isso contaminar você com as minhas utopias me dá esperança. Tudo de bom para você. Obrigado. Prazer falar com vocês.

Este episódio usou áudios da TV Cultura e do documentário Anatomia do Post, do Globoplay. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Nayara Felizardo. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

A crise de saúde mental entre os jovens brasileiros | Castnews Index — Castnews Index