Episódios de África em Clave Cultural: personagens e eventos

África em Clave Cultural: personagens e eventos 07.05.2026

07 de maio de 202628min
0:00 / 28:59
Participantes neste episódio5
D

Dulce Araújo

HostJornalista
F

Filintilísio

ConvidadoPoeta e editor
I

Inocência Mata

ConvidadoProfessora
P

Pedro Negri

Participante
S

Sérgio Fonseca

Participante
Assuntos5
  • Diário de Santa FaustinaVida e obra da poeta e combatente pela liberdade · Eventos em homenagem à efeméride · Papel da mulher africana na luta anticolonial · Legado de Alda Espírito Santo e sua geração
  • Rodrigo PachecoComparação com a geração da utopia · Idealismo e coerência da geração de Cabral · Legado e inspiração para as gerações futuras
  • Massacre em ShreveportOcorrência e repercussão do massacre · Destruição e reconstrução do monumento em homenagem às vítimas · Desencanto de Alda Espírito Santo com a viragem neoliberal
  • Conhecimento e AprendizadoImportância de levar a obra de Alda Espírito Santo para as escolas · Necessidade de estudar a história da independência · Proposta de transformar a casa de Alda Espírito Santo em museu
  • Abordagens coletivas versus individuaisContraste entre a ética do coletivo e o individualismo · Exemplo de Alda Espírito Santo e sua geração na priorização do coletivo
Transcrição67 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

África em clave cultural. Personagens e eventos. Independência total. É o que a poeta e combatente pela liberdade da África, Alda Espírito Santo, sonhava para Santo Meio Príncipe e que exprimiu já no Hino Nacional, de cuja letra foi autora.

2026 é o ano centenário do seu nascimento, ocorrido a 30 de abril de 1926. Vários os eventos para marcar a efeméride dentro e fora do país. De 2 a 6 de julho próximo terá lugar, por exemplo, em Santo Tomé, uma conferência internacional sobre ela, com a participação de vários países da expressão portuguesa.

A Rádio Vaticano não fica atrás nessa homenagem à matriarca da independência de Santo Meio Príncipe, como ela era conhecida. Para o efeito, propomos hoje uma entrevista com a professora Inocência Mata, santumense especialista em literaturas africanas, docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, naturalmente, também a crónica de Filintilísio.

sobre o percurso daquela que ele define de património vivo do Renascimento Africano. Eu sou Dulce Araújo e, saudando-vos, vos convido desde já a entrar em atmosfera santomense com esta peça musical de Sérgio Fonseca, Santo Meio Príncipe.

Transcrição e Legendas Pedro Negri

Vamos agora até Lisboa, onde o também poeta e editor Filinte Lísio, Rosa de Porcelana Editora, nos diz quem era Alda Espírito Santo. Em tempo de celebração do centenário de nascimento da escritora poetisa e política, Alda Espírito Santo é por todos lembrada como uma figura de referência maior.

da luta para a independência e da reconstrução nacional da República de São Tomé e Príncipe. Nascida em 30 de abril de 1926, na cidade de São Tomé, Alda Neves da Graça, de Espírito Santo, filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios,

fez seus estudos primários em Santo Mé e estudos secundários em Portugal, onde também frequentou a universidade, que não completou, em parte devido às suas atividades políticas. Na sua passagem por Lisboa, foi marcante o seu ativismo na tomada de consciência anticolonial, ao lado de alguns contemporâneos como a Mirka de Cabral.

Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente da emblemática Casa dos Estudantes do Império. Notável foi a sua verticalidade, coerência e coragem enquanto parte do movimento pela libertação de Santo Mém e Príncipe.

Em 1975, após a independência do seu país, ocorrida em 12 de junho, exerce diversas funções de Estado, entre as quais de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura e Presidente da Assembleia Nacional em duas legislaturas.

para além de secretária-geral da União Nacional de Escritores e Artistas de Santo Ben e Bílice. Em 1976, publica um livro de poemas intitulado O Jogral das Ilhas e em 1978 o livro de poemas É o Nosso Solo Sagrado da Terra.

uma coletânea dos poemas produzidos por Alda entre os anos de 1950 e 1970. Segundo o poeta português Manuel Alegre, a sua poesia teve importância em todo o movimento anticoloniano e em todos os países da expressão portuguesa. Por os anos, desde a independência de Santo Mé, uma voz feminina recita o poema Trindade.

um dos mais emblemáticos com que a escritora imortalizou o massacre em Santo Mé em 1953. Aliás, todo o seu discurso poético exalta a luta do povo santumense e as tradições culturais do seu país.

É autora do Hino Nacional e de várias obras literárias em que se destacam Mataram o Rio da Minha Cidade, Mensagens do Solo Sagrado e Cantos do Solo Sagrado, entre outras. Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias, nomeadamente em Poesia Negra de Expressão Portuguesa, de 1958.

Poetas de Santo Mê e Príncipe, de 1963, No Reino de Caliban II, de 1976, Sonha Mamana África, 1988, O Coro dos Poetas e Procedores de Santo Mê, em 1992, entre outros.

bem como em jornais e revistas lusófonas. A Alda Espírito Santo, uma das vozes mais conhecidas da poesia africana da língua portuguesa, morreu aos 82 anos, em 9 de março de 2010, em Luanda, deixando um legado multifacetado do compromisso cívico, palavra poética e engajamento patriótico.

o governo santumense decretara na altura o luto oficial de cinco dias. No ano passado, a escritora santumense Alda de Barros fez uma vibrante homenagem à sua conterrânea, Alda Espírito Santo, na sétima edição do Festival de Literatura Mundo do Sal, em tributo aos 50 anos da independência de Angola, Cabo Verde, Moçambique e Santumé e Príncipe, através das figuras literárias da Augustinho Neto.

Onésimo Silveira, Noéme de Sousa e Alda Espírito Santo. Neste ano de 2026, o seu centenário convida uma reflexão sobre o papel da mulher africana na luta anticolonial e na afirmação de uma África renascida. Alda Espírito Santo convoca exigese em prol de ideais da soberania, liberdade e prosperidade, que devem acompanhar a arte e a escrita.

Música

Na Chibetela, Camura, governo de Mora Cepa. Que povo, Chinasamundo, cá viver. Na Chibetela, Camura, governo de Mora Cepa.

Professora Inocência Mata, muito obrigada por estar mais uma vez connosco na Rádio Vaticano no programa África em Clave Cultural Personagens e Eventos. Eu agradeço o convite mais uma vez.

Portanto, a professora Inocência Mata, 30 de abril de 2026, marca o centenário de nascimento de Alda Espírito Santo, poeta, combatente, considerada matriarca da nação santomense, primeira mulher presidente do parlamento no país e em África.

Portanto, como sua ilustre conterrânea, estudiosa de literaturas africanas, e que, portanto, conhece a Alda Espírita Santo também como poeta, é também ativista e pessoa muito atenta e crítica em relação ao seu país. Portanto, tendo em conta tudo isso, o que é que se lhe oferece dizer às nossas e aos nossos ouvintes sobre a Alda Espírita Santo? Mais uma vez, obrigada, Dulce, pelo convite.

para falar de uma das consciências fundadoras do país, no caso de São Tomé e Pris, mas também dos cinco países africanos, de língua oficial portuguesa e de África. Alda Espírito Santo é uma mulher de ação, de pensamento, uma mulher de palavra, palavra política, literária, cívica, educativa. Enfim, ela se soube reunir com poucos.

a criação literária, o compromisso político e a pedagogia de esperança. Ela faz parte daquela geração que Mário Pinto de Andrade dignou geração de Cabral, de Amica Cabral, portanto, e esse grupo, como nós sabemos, é o grupo dos ilustres, ilustres que levaram, claro que continuaram, eles não caíram do céu, continuaram o trabalho que vinha tendo feito.

desde os finais do século XIX e princípios do século XX, mas levaram à contestação nacionalista, teve rosto, palavra, teve ação, enfim. E ela faz parte dessa geração, de um diálogo contínuo entre o político e o humano, entre o ideológico e o poético.

entre a sala de aula, no caso dela, e a prata pública, entre o sonho de libertação e o trabalho cotidiano pela dignidade. O legado dela, assim como o legado de todos eles, ou quase todos, eu diria mesmo todos, atravessa múltiplas dimensões. Portanto, política em primeiro lugar, crítica também.

e também literária. Ela é autora do hino nacional, ela é como professora primária que ela foi, ela foi sobretudo educadora, ela é educadora de uma geração, essa geração que hoje tem 70 anos, é uma geração que ela foi doutora, podemos assim dizer, no país, porque ela é...

dentro dessa geração de Cabral, dos poucos que não saíam do país. E a sua obra poética, a sua obra ensaística, está firmemente ancorada na experiência colonial, na utopia da libertação, fazendo da língua portuguesa o território de pertença plural e de resistência feminina. E então eu estou convencida de comemorar o seu centenário.

é revisitar não apenas a história desta mulher, mas a história dos outros dessa geração. Amica Cabral, Mário Pim de Andrade, Agostinho Neto, Maria Helena Velhena, que é a primeira mulher de Amica Cabral, Masco Cabral, Marcelinho dos Santos, Noemi de Sousa.

Portanto, é uma geração que abre horizontes e que reconhece a força da palavra, da escrita e hoje, ainda hoje, continua a ensinar-nos, diferentemente de outras gerações, porque eu faço uma diferença entre a geração de Cabral e a geração da Utopia, diferentemente da geração da Utopia, que é muito nos desiludiu, como nós vemos no livro A Geração da Utopia de Tepetela,

A geração de Cabral é uma geração que, eu costumo dizer, morreu de pé com os seus ideais. A geração da utopia é aquela que vem imediatamente aos independentistas, não é? É, é. A geração da utopia também é independentista, mas é uma geração, na verdade, dos anos 60, 65. Esses jovens são jovens que Papatela designou como a geração da utopia.

e que grande parte tomada em permanência exiludiram em muitos aspectos, não é? Enquanto a geração de Cabral é uma geração que realmente acreditou, é a geração que, portanto, que está a fazer 100 anos, não é? Entre 2021 e 2030, 28, não é? Os últimos são de 28. É uma geração que, portanto, que realmente muito convivisa dos seus ideais, nós até podemos dizer, e eu digo,

bastante ortodoxa, não é? Mas que acreditava puramente naquilo que apregoava, não é? A geração de Alta Espírito Santo, a Mica Cabral, que fosse vivo, Mário Pinho de Andrada, Cristina Neto, Lúcio Lara, Matrinho dos Santos, Mondelano, se fosse vivo. Portanto, uma geração, na verdade, uma geração muito coerente, não é? É uma geração que morreu pobre.

É quanto muitos da geração da utopia São os grandes Muitos, não todos, como é óbvio Os grandes milionários Desses países Professora Inocência Mata Para além desse olhar de estudiosa E crítica em relação A Alda Espírito Santo e aos da sua geração Chegou a conhecê-la pessoalmente? Ah, sim, sim Conheci a Alda Espírito Santo Tive o privilégio de privar Com a Alda Espírito Santo E aí

Aliás, com Alda Espírito Santo, com Mário Pinto de Andrade, com Manuela Margarido, Alfredo Margarido, com Noêmia de Sousa. Tive o privilégio de privar e realmente eram pessoas extraordinárias. Pessoas que realmente, para quem a questão da dignidade humana vinha sempre em primeiro lugar. Portanto, é esta recordação que lhe fica quando estava próxima dela.

E no caso particularmente de Alba Espírito Santo, era uma pessoa que eu digo era bastante ortodoxa, mas era de uma bondade extraordinária. Eu costumo dizer, aliás, escrevi uma vez um texto sobre Alba Espírito Santo e conheci o texto com aquela frase de Che Guevara, endurecer sem perder a ternura.

realmente era uma pessoa generosa, uma pessoa boa, uma pessoa afetiva, uma pessoa atenta ao social, atenta aos outros, uma pessoa...

extremamente humana, não é? E que nem sempre os políticos estão, como nós sabemos. Precisamente, ela não só tinha essa atitude, mas também o hino que ela escreveu, o Hino Nacional, fala de independência total de Santo Tomé e pensando também na África em geral. Se tivesse de comparar o Santo Tomé de hoje com o Santo Tomé sonhado pela Alda, o que é que diria, sobretudo,

Estou a pensar nessa geração a que se referia há pouco e que são os milionários, nem todos, claramente. Eu acho que, aliás, ela já morreu bastante desencantada. Eu só vou contar um episódio, não estou a apontar baterias para ninguém, mas eu costumo dizer que ela começou a morrer em agosto de 2009 e com ela ela estava...

extremamente trínsito, revoltada por causa de um episódio que tinha a ver com. Porque ela tem poemas sobre o massacre de Batepá, não é? O massacre que começou no dia 3 de fevereiro de 1953. Ela estava em São Tomé e foi ela que passou informação aos seus companheiros. Ela tinha regressado tempo antes. E logo...

O primeiro poema sobre o massacre de Batepá é precisamente o de Agostinho Neto, não é? Massacre de São Tomé. Ele não se chamava Massacre de Batepá, não é? Porque ele escreveu esse poema em cima do acontecimento. E ela tinha conseguido passar mensagem e o Mário Pinto de Andrade escreve um artigo em Paris sobre esse massacre. E foi um massacre, né? Que demorou, assim, foi uma coisa que demorou cerca de um mês.

sempre a matar pessoas, não é? Começou no dia 3 de fevereiro. As pessoas eram atiradas, mortas eram atiradas numa praia, que é a praia de Fernão Dias. Todas as pessoas sabem, porque isto é assinalado todos os anos, desde a independência, que aquela praia, a praia de Fernão Dias...

É a praia onde os corpos eram atirados, isso aparece nos poemas, aparece nos contos, nos romances. Entretanto, depois da independência, fez-se um monumento de homenagem às vítimas do massacre de Batequados. E, em 2009, houve um governo, tomado pela febre neoliberal de desenvolvimento do país, aquilo que chamavam de desenvolvimento do país, que era fazer um porto de águas profundas.

E então o que é que fizeram? Havia um projeto e o projeto tinha que ser na praia de Fernão Dias. E o que é que fizeram? Partiram o monumento. Partiram o monumento que já estava pronto. Ela ficou apoplética.

A Dona Alda não conseguia entender. Quer dizer, então não havia um outro lugar para fazer o tal porto de águas profundas. Tinha que ser precisamente onde estava o monumento. Ela estava apoplética. E pior que tudo foi em 2009. E pior que tudo é que nem sequer construíram o tal porto de águas profundas. Quando eu estive com ela, ela estava apoplética. Ela não entendia essa...

viragem neoliberal, de repente, a Donalda era uma pessoa pobre. Houve uma vez, só para ter uma ideia, estava a falar com um político, ela era pobre, não tinha dinheiro, porque ela não roubou, está a perceber? Ela pertence àquela geração que achava realmente que o povo vinha em primeiro lugar. E um político, desses que andam por aí e que acham que a ética do ser ...

É que é a ética que deve prevalecer, não é? Nesses países, a ética do ser substituiu a ética do ser. Um político desses fez-me assim, mas ela também esteve no poder tanto tempo, como é que ela ficou assim? E eu volto para ele. Ela devia ter roubado, não é verdade? Ela devia ter roubado. Incrível. Teve a coragem de dizer isso. Ela esteve tanto tempo no poder.

Ela era uma pessoa que vivia da sua parte da reforma, que vivia da boa vontade das pessoas que reconheciam nela. Ela não conseguia comprar um carro, não é? Teve que ter o Estado a dar-lhe um carro. No que eu acho muito bem, não é? Quer dizer, quando nós vemos...

Essa gente que não fez nada pelo país, com autogips, top de gama, não é? Ela não tinha que ir para comprar um carro. E eu penso que essa geração, por tudo que a gente possa dizer deles, eu tenho muita coisa que se diga, não é? Eu tenho muita coisa a dizer sobre essa geração de Cabral. Por tudo que eu possa dizer deles, eram pessoas que acreditavam naquilo que diziam. E ela realmente...

ela morreu bastante desencantada com o país. Professora Licência Mata, há uma série de eventos para celebrar o centenário de nascimento da Alda Espírito Santo, vai haver em Santo Menno, no mês de julho, que é o mês da independência, uma grande conferência, etc. Há algum evento, algum aspecto que a seu ver deve ser tomado em consideração nessas celebrações, tanto dentro como fora do país?

Tem havido muita coisa, né? Tem havido muita coisa. Mesmo aqui em Portugal, já houve um evento que nós fizemos no dia 29. Vai haver no dia 15 de maio, estou a falar só aqui em Portugal. Em São Tomé, por isso, tem havido muita coisa, um envolvimento, a comissão de que eu faço parte. Nós fizemos uma coisa diferente, que é levar a aula do Espírito Santo para as escolas.

e com algo do Espírito Santo levar a palavra dessa geração de Cabral. Porque os jovens, os meninos, não conhecem a luta da independência. Os meninos não conhecem, não sabem, como diz um poema de Manoel Rui, não sabem quanto postou a independência. A história não é estudada. É uma história ainda muito facciosa. Ela não é estudada.

E então, o que é que eu penso que deve-se aproveitar esses centenários? Quem diz Aldo Espírito Santo? E também este é o ano de centenário do Vasco Cabral. Daqui a dois anos vai ser o centenário de Andrade. Em 1924 foi do Amílcar. Em 1922 foi do Agostinho Neto. Enfim, deve-se levar aos jovens as crianças.

a palavra dessa geração, que fez a independência. Com muitos erros, mas que fez a independência. Deve-se levar. E no caso particular de Alva Espírito Santo, para além disso, nós estamos a pugnar pela restauração da sua casa de chácara para que essa casa se transforme numa casa-museu. Não está a ser fácil, não é? Não está a ser fácil mesmo porque...

Parece que a família está mais interessada em usufruir daquilo que ela deixou, do material, daquilo material que ela deixou, mas vai-se conseguir, porque felizmente há um depositário que é bastante consciente daquilo que ela realmente queria. Então, que essa casa-museu seja uma casa, portanto, uma espécie de museu da resistência, que não existe em São Tomé Cristo.

E com isso, poder-se também fazer com que seja também um espaço onde se possam discutir, porque foi nessa casa, foi nesse espaço que ela ideologizou esses jovens que, quando se deu 25 de abril, abandonaram os estudos e regressaram ao país para ajudarem a construir o país. E então eu penso que...

No caso de Alba Espírito Santo, essas duas vertentes, a vertente material, patrimonial, melhor dito, e a vertente do conhecimento, levar a palavra, levar ao conhecimento dos jovens o que custou a independência.

E quanto à recuperação do monumento na praia de Fernão Dias, isso está fora de questão, aquilo que tanto amargurou, está fora de questão a recuperação dessa... Não, foi feito, houve um governo que voltou a fazer o monumento, porque aquilo realmente revoltou muita gente, muita gente foi revoltada, mas era necessário, estão a confundir progresso com o desenvolvimento.

desenvolvimento, isto não é desenvolvimento. Não é uma coisa já feita que se parte para construir algo que nunca se construiu. Felizmente, o memorial, era um memorial, o memorial foi construído um outro memorial, não é reconstruído. Foi construído um outro memorial, porque o outro foi completamente destruído. Mas ela já não chegou a ver. Ela morreu em 2010. Penso que esse memorial, o novo.

Acho que foi inaugurado por aí cinco ou seis anos depois. Para concluirmos, professora Inocência Amata, a Alda Espírito Santo continua a ser uma fonte de inspiração também para si, que já é adulta, que tem uma vasta cultura e uma consciência forte daquilo que deve ser a África de hoje e do futuro. Sim, sim, sim. A Alda e o Mário Pinto de Andrade também. Já estamos a...

Já estamos a preparar o centenário de Mário Pinto de Andrade, com eventos que começam este ano. Aliás, começaram o ano passado. O ano passado já participei no Brasil, na USP. Este ano vou participar em dois.

estamos a fazer, estão de ler livros, etc., mas a grande comemoração do centenário de Martim de Andrade será em 2028. Sim, eles continuam a inspirar, sobretudo, pela sua postura, não é? Porque eles continuam a dizer-nos que, assim como foi possível a independência, quando, enfim, quase ninguém acreditava, não é? Também é possível, não é? Refundar o país.

é preciso refundar o país. Eu não digo reconstruir o país, é preciso refundar o país. E eles continuam a dizer-nos isso pelo seu exemplo, não é? Há muitas coisas com as quais nós podemos não estar de acordo, mas eles deixaram uma aura de certeza que vem com a convicção de que estamos a fazer a coisa certa.

E essa coisa certa é pôr o coletivo em primeiro lugar. Coisa que desapareceu completamente, completamente, nos nossos países. O coletivo ficou, na melhor das fotos, no quarto lugar. Primeiro eu, segundo a minha família, terceiro o meu círculo de amigos, quarto os clientes e o povo vem em décimo lugar. Então o que eles nos estão a dizer, o exemplo dessa gente é que...

para haver paz social, o coletivo tem que vir em primeiro lugar. Muito bem, professora Inocência Mata, muito obrigada. Obrigada a mim pelo convite. Chegamos assim ao fim da nossa emissão de hoje, dedicada à figura de Alda Espírita Santo, membro de uma geração que morreu de pé, defendendo com coerência o bem da África.

África em clave cultural, personagens e eventos, volta na próxima quinta-feira, sempre aqui na Rádio Vaticano, com Filinte Lísio, da Rosa de Porcelana Editora, e Dulce Araújo, que vos saúda.