“Tivemos dias em que gastámos mais de €30 mil em gasóleo”, recorda administrador da Tecfil, três meses depois da tempestade "Kristin"
Meses depois da passagem da tempestade “Kristin”, que deixou um rasto de destruição na região de Leiria, há empresas que continuam longe da normalidade e ainda a lidar com os efeitos diretos da falta de eletricidade e dos prejuízos acumulados. Na Marinha Grande, a Tecfil foi uma das mais afetadas. Em fevereiro, a empresa já tinha alertado para o impacto financeiro de operar com geradores e sem ligação à rede. Mas o que mudou desde então e até que ponto é possível recuperar de um choque desta dimensão? A análise é do gerente Paulo Valinha
See omnystudio.com/listener for privacy information.
Juliana Simões
Cátia Mateus
Paulo Valinha
- Impactos das tempestades de verãoDanos e prejuízos acumulados · Operação com geradores · Cortes de energia e qualidade da rede · Custos diários com combustível · Impacto financeiro e perdas · Atrasos na produção e entrega de produtos · Resiliência e recuperação empresarial
- Financiamento e Viabilização de ProjetosAtraso e limitações dos apoios estatais · Dificuldade de acesso a financiamento · Necessidade de soluções extraordinárias · Medidas de apoio à manutenção de postos de trabalho · Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) · Projetos de investimento tecnológico e exportação
- Recuperacao e SaudeImportância da colaboração dos trabalhadores · Impacto emocional e preocupação dos trabalhadores · Necessidade de ausência para reparação de casas · Reavaliação e otimização de processos · Resiliência e aprendizagem com a crise
- Importância da Escalabilidade e Mercado GlobalFio de enfardar a palha · Mercado internacional (Austrália, EUA, Canadá, Argentina, México, Brasil, Europa) · Confiança dos clientes na recuperação · Normalização da situação e entrega de mercadoria
Olá, eu sou Juliana Simões e está a ouvir o Economia Dia a Dia, o podcast que lhe dá respostas simples e resumidas para os principais temas da economia nacional e internacional. Há uns meses o Expresso falou com a Techfield, na Marinha Grande, uma das empresas afetadas pela tempestade Christian, que ficou sem eletricidade e a trabalhar com geradores para não parar completamente. Agora voltamos ao tema para perceber o que mudou e como está hoje a situação.
O nosso convidado é Paulo Valim, administrador da Techfield. Paulo, olá, bem-vindo. Obrigada. Olá, bem-vindo. Muito obrigado pela convidada.
vídeo.
Olá, eu sou a Cátia Mateus e este é o Céu é o Limite, um podcast onde os líderes das empresas portuguesas conversam sobre o seu percurso profissional, os altos e baixos que enfrentaram ao longo do caminho, as ideias mais ousadas, mas também os erros e fracassos, sempre com uma boa dose de gargalhadas pelo caminho. Junte-se a mim nestas conversas, ouça o céuéolimite em expresso.pt ou na sua app de podcasts preferida e deixe-se inspirar.
Paulo, comecemos pelo início, naturalmente, passadas estas semanas, a eletricidade já foi reposta, como é que está a situação atual? Sim, a eletricidade efetivamente já foi reposta, em relação à eletricidade temos alguns senãos ainda, mas é normal, em tempestade foi realmente muito forte e eu não quero dizer isto por uma questão de crítica, porque acho que as pessoas que estiveram envolvidas fizeram um grande trabalho.
mas ainda hoje, em relação à energia elétrica, temos alguns cortes, cortes que ninguém sabe porquê, mas são porque quando a energia e as ligações elétricas foram repostas, nem tudo foi posto como deve ser, resumo eu.
foi um bocadinho posto um bocado assim para desarrascar e por vezes surgem alguns problemas que têm como consequência realmente cortes que nós não esperamos. E isso um corte, por exemplo, na nossa empresa, numa das empresas, porque nós tivemos quatro empresas nesta região que foi afetada, não é só a Techfield, mas tem impacto muito grande porque faz com que as linhas parem depois para normalizar produtos.
para homogenizar qualidade de produtos, para arrancar e fazem imensos desperdícios e para termos uma ideia, por exemplo, na Tecfil um corte representam cerca de 5 mil euros de perca, não é? E temos dias que às vezes já tivemos três cortes e por semana temos quatro ou cinco ou seis.
Portanto, sim, já temos energia, mas a qualidade de energia ainda não é aquela que deve de ser. Mas, mais uma vez, acho que temos que compreender essa situação, mas pedimos às pessoas que têm poder para resolver isso, para que realmente estejam atentas, porque nem tudo está ainda a 100%. E agradecíamos, em nome de toda a indústria, que realmente essa situação seja revista o mais depressa possível.
Sei que a empresa esteve dependente de geradores durante um bom período. Tem noção do impacto económico e financeiro que essa situação trouxe à empresa? Sim, o impacto económico foi de várias vertentes. Primeiro porque tivemos que ter uma rúbrica que não estávamos à espera, que é a compra de combustíveis.
que pesou muitíssimo, tivemos dias que em alguns picos tivemos que gastar mais do que 20 mil litros de gás óleo, naquela altura o preço de gás óleo estava sensivelmente a 1 hora e 1,5, portanto isto equivalia a dizer 30 mil euros por dia em alguns dias, e a grande maioria dos dias durante o mês e uma semana que tivemos sem energia nós atingimos isso, com exceção dos primeiros 5 ou 6 dias não tivemos nenhum gerador.
só para experimentar máquinas, para ter algumas pequenas produções, para fazer os mínimos, digamos, daquilo que os clientes iam exigindo. Porque se não tivéssemos isso, então tínhamos tido realmente grandes e maiores problemas do que tivemos e ainda estamos a ter ondas de choque desses problemas.
Mas, assim, a outra questão é a questão de que não podemos trabalhar, portanto isso também tem um impacto financeiro, económico e financeiro grande, porque não tivemos receitas que estávamos à espera também para fazer tudo isto junto, é realmente um período que nos fez reinventar em alguns pontos de vista, como víamos as empresas, e as pessoas estão a corresponder, as pessoas que...
trabalham, colaboram nas empresas, estão realmente a ser peça fundamental para realmente darmos a volta por cima. Não se dá a volta a uma situação destas ao fim de 100 dias, ou ao fim de dois meses, estarmos com condições para poder trabalhar minimamente.
mas estamos no caminho e estamos a fazer todos, em verdade, todos aquilo que sabemos fazer e podemos fazer para encontrarmos novamente uma luz sólida, digamos, de sol a brilhar e de céu limpo, com possibilidade de ver realmente uma vida normal, porque ainda hoje não temos ainda uma vida, não podemos dizer que temos uma vida normal.
O que é que está a pesar neste momento? Quais são os maiores problemas que o Teofil enfrenta? Para além da eletricidade, desses cortes que eu ia falar? Um dos produtos que nós temos é sazonal, que é um produto importante, que é o fio de enfardar a palha e que nós temos clientes em todo o mundo, desde a Austrália.
Estados Unidos, Canadá, Argentina, México, Brasil, toda a Europa. E, claro que esta situação fez com que houvesse um mês e tal parado de produção, fez com que os atrasos na produção também fossem enormes.
E neste momento há clientes que estamos a se agirir, eles estão a compreender também na nossa situação. Até hoje não temos atrasos significativos, digamos, na entrega da mercadoria e não estamos, por via de ser um produto sazonal, não estamos a ter impacto negativo nos nossos clientes. Os clientes até, inclusive, estão a dar-nos os parabéns porque pensavam que...
que as coisas assustaram-se com a situação, mas nós sempre lhe disseram, tenham confiança em nós, porque nós, digamos, estamos aqui a fazer e vamos tentar fazer tudo o que tiver ao nosso alcance para que não haja realmente, para que nós não falhamos, porque nós temos um excelente produto e eles gostam do nosso produto e querem mesmo o nosso produto.
precisam do nosso produto para os clientes poderem trabalhar e realmente assustaram-se pela situação, mas como disse, hoje estamos a conseguir normalizar a situação, ainda não está 100% normalizada, mas está no caminho para isso.
Como referia, há ainda problemas por solucionar, no seu ponto de vista, o que é que não está a funcionar tão bem? Estamos a falar de questões de apoios, faltam mão de obra, o que é que poderá estar aqui a pesar mais? Fala em mão de obra, como eu disse, as pessoas foram essenciais na recuperação das empresas e sem elas nós não tínhamos conseguido rearmá-las novamente.
e temos a contar com elas para realmente fazer todo esse processo e para fazer a melhoria de processos, como eu disse há pouco também, é, ou seja, reavaliar processos, fazer com que os processos fiquem mais eficientes, ajuda-nos realmente a recuperar um pouco aquilo que nós não fizemos durante o período que devíamos ter feito.
Portanto, há uma coisa curiosa em termos das pessoas, as pessoas ficaram um bocadinho diferentes aqui na região, nota-se que ficaram mais nervosas, ficaram mais preocupadas porque temos que compreender que são pessoas que têm problemas em cada uma das casas onde eles vivem e têm que ser reparadas e temos depois que as pessoas têm que faltar ao trabalho para ir de encontro um bocadinho ao que falou, as pessoas têm que faltar ao trabalho para ir reparar as suas casas, o que é compreensível. Então,
Mas mesmo assim, nas nossas empresas, as pessoas têm sido também compreensivas, têm tido compreensão com aquilo que é necessário à empresa corresponder perante os clientes e tem havido uma gestão, digamos, das pessoas que estão realmente ao serviço da empresa. Agora, em termos de ajudas de Estado, quer dizer...
Foi um bocadinho tardia, talvez, algumas medidas entraram por tardia, outras não funcionaram como deviam ter funcionado, penso que foram limitadas no início, já falei sobre isto várias vezes, por exemplo, um dos, digamos, dos...
dos processos de financiamento pensados que obrigavam às regras de mínimes, mas uma empresa, por exemplo, que tivesse investido fortemente nos últimos anos estava limitada porque tinha os mínimes preenchido, portanto não podia...
não podia, digamos, ter acesso a essas fontes de financiamento de uma forma normal. Nós, mesmo assim, tivemos, mas fomos limitados por isso, portanto, aquilo que nós precisávamos, necessitávamos, não foi possível, digamos, aceder a tudo o que era preciso.
mas pronto, também com a ajuda de alguns fornecedores e com uma boa performance que a empresa também tinha vindo a ter e está novamente a recuperar, nós vamos ser capazes de fazer mais uma vez. Sim, eu até perguntava em relação à própria performance da empresa, qual é que é o impacto estimado desta tempestade.
Quer dizer, temos aqui, em termos de não produção, em termos de custos extra que nós não estávamos à espera, estamos aqui a falar de 2, 3 milhões de euros, talvez, sem dúvida que nós fora os custos emocionais que todos nós tivemos.
porque ninguém consegue, digamos, pôr no lugar que nós tivemos, cada uma das pessoas, das empresas aqui da região, e muitas tiveram piores que nós, porque houve empresas que ainda hoje estão paradas e não sabem quando é que vão arrancar, que isso é, eu não quero, nem sei, pôr-me também a outro patamar, digamos, de intensidade.
que eu também, além de ter passado por este processo, não sei pôr no lugar dessas pessoas, porque realmente são pessoas que estão a sofrer imenso e as pessoas que trabalham nessas empresas também, e aí, sim, é um impacto enorme. Há situações em que nós não conseguimos prever.
contabilizar quanto é que foi os custos. Não é possível, digamos, nós conseguirmos chegar a um valor, este desgaste que existiu, as pessoas a quererem meter a fábrica a trabalhar, a cobrirem os telhados que desapareceram. A nível de endividamento, por exemplo, esta empresa teve que...
Sim, nós recorremos a algum endividamento, como é óbvio, eu costumo dizer que nós saímos do ortopedista e acho que aqui devia ter havido também alguma atenção porque foram situações extraordinárias que aconteceram nas empresas e ao serem extraordinárias também deviam ter tido, digamos, tratamentos extraordinários, não é? Ou soluções extraordinárias, mas, e por isso é que eu costumo dizer, ou seja, algumas das soluções foram muito boas.
os apoios à segurança social, no nosso caso à manutenção dos postos de trabalho, foram situações que reagiram por parte das instituições públicas, reagiram rápido, e reagiram mediamente rápido, digamos assim, e acho que foram boas medidas. A questão do endividamento é que eu acho que devia ter sido estudado de outra forma, por aquilo que falei há pouco, eu dei o exemplo, que algumas empresas estavam limitadas no acesso.
E também pela questão de que, como é óbvio, estarmos a criar uma situação que não estávamos à espera, que termos que criar dívida, por exemplo, para resolver problemas que não estávamos à espera e estamos a falar de dívida.
centenas de milhares de euros, se não milhões de euros, eu penso que isso devia ter aqui havido uma atenção para que alguns destes valores pudessem ser um dia, ou não um dia, mas imediatamente, serem, digamos, convertidos em não reembolsáveis, digamos assim, porque realmente é uma situação muito extraordinária e que as empresas não criaríamos aqui, penso eu, uma questão de desigualdade, porque aquilo que nós...
tivemos, foi sim uma situação muito dispar com aquilo que aconteceu no resto do país, ainda bem que não aconteceu no resto do país, mas nós podíamos, aqui nesta região, devíamos ter tido algum apoio desse âmbito, porque senão saímos da ortopedia e entramos, digamos, na parte da psiquiatria.
Paulo, só mesmo para terminar, falando precisamente dessas medidas extraordinárias, o governo lançou o PTRR e eu gostava de ouvir a sua opinião sobre este plano. Há aqui medidas concretas que podem funcionar para a região de Leiria?
Sim, nós tivemos duas empresas, três empresas que se candidataram, porque pronto, é uma situação, nós já tínhamos até alguns investimentos planeados e, portanto, foi uma coisa que coincidiu, então veio numa boa altura para nos dar aqui, não temos ainda resposta do que vão ser aprovados, não vão ser aprovados os projetos, acho que na nossa, na Techfield e na Plágio Galo.
e na Bluetech penso que são projetos bons que vão ajudar a desenvolver ainda mais a empresa e fizeram-nos pensar também com aquilo que nos aconteceu e também surgirmos um bocadinho mais reforçados sobre aquilo que é inclusivamente uma situação idêntica, que é uma situação sempre muito difícil de combater ou de fazer face, melhor dizendo, mas é uma situação que também pensámos nestes investimentos, tentar ter estruturas mais robustas, mas com ventos acima dos 200 km hora é sempre muito difícil nós termos qualquer tipo de...
de previsão e de fortaleza instalada para fazer face a isso, que é sempre muito difícil, foi uma coisa realmente muito extraordinária, como falei. Agora, sim, esses projetos, acredito neles, sob o ponto de vista tecnológico também e sob o ponto de vista de exportação das empresas, podem significar e dotar as empresas também de...
de meios que não tinham até então. Nalgumas das empresas até vai, vamos fabricar produtos novos e, portanto, vamos posicionar-nos no mercado de uma forma...
esperamos nós mais robusta, não é? Mais forte, e estas coisas também têm que ser aproveitadas para nos tornar um bocado mais fortes, no fim, nos desgastarem um pouco. Esta resiliência tem que fazer de nós um bocadinho mais, tem que nos trazer outra outra aprendizagem, outra forma de estar.
Paulo, fica aqui uma análise muito avaria para falar, infelizmente não temos mais tempo. Muito obrigada. Hoje é tudo no Economia Dia a Dia. Continua a acompanhar esta edição especial no website e redes sociais do Expresso. A gravação deste episódio esteve a cargo de Gustavo Carvalho. Sou na aplastia de Tomás Delfim. Muito obrigada. E assim obrigada por estar desse lado. Se tem questões ou dúvidas que gostaria de ver explicadas no Economia Dia a Dia, envie um e-mail para jsimões.expresso.empresa.pt
Expresso
Podcast Céu é o Limite