Na região de Leiria, “houve empresas que tomaram as encomendas dos seus concorrentes para não falhar nas respostas”
Meses depois da tempestade que atingiu a região de Leiria, persistem sinais de recuperação desigual no tecido empresarial, com empresas ainda a enfrentar falhas nas telecomunicações e constrangimentos operacionais. Que balanço podemos fazer? é de Henrique Carvalho, da NERLEI Associação Empresarial da Região de Leiria.
Este é um episódio especial do Economia Dia a Dia. O Expresso está em Leiria, uma das zonas mais afetadas pela intempérie, para acompanhar no terreno os efeitos económicos da tempestade e perceber como está a ser feita a recuperação
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Juliana Simões
Cátia Mateus
Henrique Carvalho
- Recuperação FinanceiraFalhas nas telecomunicações e redes elétricas · Atrasos nas entregas e perdas contratuais · Apoios governamentais e autárquicos · Endividamento das empresas · Relações com seguradoras e atrasos em peritagens
- Impactos das tempestades de verãoDanos e perdas financeiras · Fragilidades da economia regional · Capacidade de resposta das empresas
- Governo e Gestao PublicaResposta de curto prazo das autarquias · Medidas do Governo (Segurança Social, IEFP, Banco Português de Fomento) · Plano de Recuperação e Resiliência Territorial (PTRR)
- Resiliência pessoal e institucionalEmpresas que assumiram encomendas de concorrentes · Sentido de responsabilidade dos colaboradores · Culturas empresariais fortes
- Plano de Transformação, Recuperação e ResiliênciaPressão nos serviços de construção e mão de obra · Recuperação da confiança dos clientes · Manutenção da atividade empresarial
Olá, eu sou a Juliana Simões e está a ouvir o Economia Dia a Dia, o podcast que lhe dá respostas simples e resumidas para os principais temas da economia nacional e internacional. Esta semana o Expresso está na região de Leiria para acompanhar no terreno o impacto da tempestade Crissin que atingiu Portugal no início deste ano.
Depois de um inverno marcado por fenómenos meteorológicos extremos, várias empresas enfrentaram danos significativos, interrupções na atividade e perdas financeiras, num contexto que veio expor fragilidades e testar a capacidade de resposta da economia regional. Meses depois, muitas empresas ainda estão em processo de recuperação, o que levanta dúvidas sobre a dimensão real dos prejuízos e a eficácia dos apoios disponíveis.
Para nos ajudar a perceber o que está a acontecer na região de Leiria, convidámos Henrique Carvalho da NERLE, Associação Empresarial da região de Leiria. Henrique, olá, obrigada por estar connosco. Boa tarde, obrigado pelo convite.
Olá, eu sou a Cátia Mateus e este é o Céu é o Limite, um podcast onde os líderes das empresas portuguesas conversam sobre o seu percurso profissional, os altos e baixos que enfrentaram ao longo do caminho, as ideias mais ousadas, mas também os erros e fracassos, sempre com uma boa dose de gargalhadas pelo caminho. Junte-se a mim nestas conversas, ouça o céuéolimite em expresso.pt ou na sua app de podcasts preferida e deixe-se inspirar.
Para começar, para termos aqui algum contexto, perguntava-lhe que leitura faz do impacto económico da tempestade de Crisino no tecido empresarial da região de Liria. Muito boa tarde, novamente. É muito importante que o Expresso esteja em Liria, novamente, porque tivemos uma situação de bastante impacto e é muito importante que a comunicação social continue a dar voz ao território e a este sítio que teve impactos tão fortes. Em termos de danos nas empresas…
Aquilo que está estimado quer pelas apólices de seguros ativadas, quer por aquilo que também já foi publicado no PTRR, estimamos que o valor dos impactos diretos ronda em os 1.200, 1.300 milhões de euros. Temos que excluir daqui uma variável que é difícil de quantificar.
e que vai demorar tempo a ter uma ideia mais concreta e que diz respeito às penalizações decorrentes de atrasos nas entregas a clientes e ou perdas contratuais associadas a essas falhas. Portanto, diríamos, é uma estimativa dentro daquilo que podemos admitir, que seguramente 1.500 milhões de euros no mínimo é aquilo que podemos dizer que existiram de impactos ao nível das empresas nesta região.
Quais são hoje os principais constrangimentos no terreno? Falamos de falta de apoio, mão de obra? Neste momento os constrangimentos que já estão a ser debelados, mas temos muita preocupação de que sejam situações provisórias que possamos ter problemas sérios outra vez dentro de pouco tempo, tem a ver com as redes elétricas e as comunicações, porque as reparações que estão a ser feitas são em muitos casos muito débeis.
Percebe-se, dada a urgência, mas, digamos, com uma situação previsível de fogos e outras, algumas intempéries breves, possamos ter aí problemas significativos. Nomeadamente, no que diz respeito às comunicações, é muito difícil entender tudo o que aconteceu.
porque, digamos, houve quebras nas linhas, isso é óbvio, são situações muito frágeis e, ainda assim, a recuperação tem sido extremamente lenta e as operadoras, de facto, tiveram aqui um comportamento que entendemos como muito difícil, porque poderia seguramente haver soluções mais...
dinâmicas e de maior resposta às urgências, porque em situações de dois meses, um mês, mais de 30 dias, quase a chegar aos 60 dias, em alguns sítios sem comunicações de qualidade, é muito difícil de entender e tem que ser uma coisa a corrigir rapidamente pelas autoridades.
Nesse sentido, como é que avalia a posição do governo e também a questão da autarquia de Leiria, a atuação que tem sido feita nesse sentido? Sim, a atuação de curto prazo das autarquias em Leiria, na região também, Marinha Grande, Pombala, entendemos que melhores nos casos, piores nos outros, não correu tudo perfeito, é óbvio, mas foi um...
Foi uma catástrofe fortíssima, foi uma coisa, digamos, completamente fora de qualquer razoabilidade e de qualquer coisa a que estivéssemos habituados. Portanto, a resposta das autarquias e de proximidade entendemos que em cima da urgência e da emergência foi bastante positiva.
As situações de acessos, de recuperações de muito curto prazo, foi uma situação de proximidade e de uma resposta que entendemos como positiva. Não correu tudo bem, como é evidente, mas claramente que não foi algo que seja esse o grande problema. Aliás, entendemos mesmo que...
seria difícil ter, com a estrutura de país que temos, ter uma resposta, digamos que tivesse sido muito melhor. Teria sido realmente uma grande, grande calamidade a todos os níveis se alguma coisa deste ano tivesse ocorrido durante o dia. Assim, foram situações graves, difíceis, mas a resposta entendemos sempre e sempre o dissemos também desde o início que foi bastante positiva. E do próprio Governo a leitura é semelhante? O Governo teve uma resposta rápida.
teve uma resposta relativamente eficaz nas medidas de curto prazo que foram implementadas, nomeadamente no que diz respeito à segurança social e às medidas do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Foram medidas implementadas rapidamente e que surtiram bom efeito.
A segunda, que foi ao mesmo tempo, mas o segundo patamar de medidas teve a ver com dívida, com as linhas do Banco Português de Fomento. Essas linhas foram implementadas em tempo e em tempo adequado, embora com grandes oscilações de algumas interpretações e de alguns outros critérios entre o próprio Banco Português de Fomento e a banca comercial. Sendo que, da nossa leitura até o momento, é óbvio.
que a banca comercial tomou pouco risco nestas operações, continua, em alguns casos, com alguns atrasos na avaliação, mas, digamos, essa foi uma resposta positiva, mas, atenção, é sempre mais dívida, não é? É sempre mais dívida. Até perguntava nesse sentido se têm dados sobre essa questão do endividamento das empresas. Sim, o endividamento naturalmente aumentou, as empresas tiveram uma situação de enormes prejuízos nos seus equipamentos, nas suas instalações.
A forma de resolver e acudir é utilizar estas linhas, que elas têm um propósito, mas são dívida. Sendo dívida, aumentam o endividamento e sabemos, temos informação, de que as linhas de tesouraria do Banco Português de Fomento associadas à linha de tesouraria foram muito procuradas e estão honestamente com um nível de utilização bastante grande. As linhas associadas ao investimento estão com uma procura menor.
Há vários fatores, seguramente. Há um que é a banca comercial que tem, digamos, inclinado mais o seu esforço de colocação destas linhas na linha de tesouraria em menos, na linha do investimento.
E é verdade que a linha de investimento também tem outras particularidades e outras exigências e as empresas, provavelmente, para haver uma resposta rápida, mais depressa foram às linhas de tesouraria. Mas é um aspecto que ainda vamos continuar a aprofundar e a aconselhar as empresas, como sempre dissemos desde o início, havendo condições, utilizar a linha de investimento, porque o prazo é maior e há uma carência importante de capital.
E a nível de relações com seguradoras, por exemplo, houve problemas? Impressas tiveram que mudar de seguradoras? Tem alguma noção nesse sentido? Quanto às seguradoras, ainda fizemos no dia 29, passado dia 29, um ponto de situação com a Associação Portuguesa de Seguradoras, porque a nossa preocupação é enorme. Há muito atraso nas peritagens.
ou nas peritagens já com o relatório de peritagem concluído, esse atraso nós entendemos-o como mais ou menos aceitável ou normal, porque houve um grande, grande fluxo de apólices, foram acionadas cerca de 30 mil apólices de empresas e, portanto, é uma enormidade em termos de trabalho.
O atraso, entende-se, também houve aqui alguma expectativa criada pelo governo e pelas próprias seguradoras a dizer que havia uma resposta rápida e às vezes esta vontade de dizer que as coisas se resolvem rápido não é igual àquilo que acontece no terreno. Portanto, atraso nas pritagens e na elaboração dos relatórios é um ponto que deve ser atacado e mais...
resolvido por parte das seguradoras, algo que temos vindo sempre, sempre, sempre a insistir, tem a ver com o facto de não haver uma prática generalizada pelas seguradoras de fazer adiantamentos. Já tivemos ações também aqui de alguma sensibilização e aprofundamento, mesmo com equipas.
de peritos que estiveram associados aos fenómenos em Valência e outros grandes fenómenos de catástrofe internacional e é uma boa prática em todo lado que existam 20 a 30% de adiantamentos dos valores reclamados às empresas. E as nossas seguradoras?
claramente não tiveram esse comportamento. Nesta reunião ficou claro que as empresas também deveriam solicitar. Bom, ficamos aqui numa zona que, ok, se calhar as empresas têm alguma resistência em solicitar ou se calhar ficam à espera que a seguradora proponha. E, portanto, é um trabalho de parte a parte, mas claramente que é muito importante que existam adiantamentos.
das seguradoras às empresas, porque essa é a forma mais evidente e rápida de se começar a recuperar, porque as empresas que têm as apólices subscritas, elas devem servir nestas alturas. Esse é um ponto importante. Voltando aqui à atuação do Governo Executivo de Luís Montenegro, lançou aqui o PTRR.
Precisamente como resposta a todas estas exigências, eu perguntava-lhe qual é a leitura que faz deste plano e se há aqui medidas em concreto que podem ajudar a região centro, a região de Líria. Sim, deste plano ainda estamos a estudar e aprofundar também a leitura do mesmo, mas de uma maneira muito genérica, entendemos, temos dois pontos muito claros.
Um é, não existe no plano uma lógica marcadamente territorial, ou seja, este fenómeno aconteceu no essencial na região de Leiria. Conselhos de Leiria, Pombal, Marinha Grande.
alguma coisa batalha, orém, e neste plano do PTRR não se vê ali uma atuação específica no território que teve mais danos. São medidas mais genéricas, não é? São medidas genéricas, é evidente que se fala em recuperação de rede elétrica e de comunicações, quer dizer, onde ela caiu foi aqui mais perto, embora possa ter também outros locais.
Mas, claramente, essa ausência de sentido de foco na região parece-nos algo que é até relativamente incompreensível, na medida em que foi criado um plano com imensas medidas genéricas e para o país todo, sem uma perceção que nós temos, obviamente estamos na região e é compreensível que também digamos isto, mas sem esta lógica de foco territorial.
O segundo aspecto é que junta-se num plano um conjunto de medidas, por um lado, umas que são funções normais do Estado, digamos, é business as usual, digamos assim, portanto não se percebe muito bem porque é que se acrescentam a este plano, e depois um conjunto de intervenções que são da área pública, do governo, das autarquias, das comunidades intermunicipais.
E, digamos, para empresas, aliás, está um quadro muito sintético no próprio plano que revela isso. Há uma medida para empresas e que diz respeito à construção de áreas de localização empresarial. Provavelmente poderá ser aprofundado e revisto e trabalhado em conjunto com atores locais para perceber melhor como é que esse investimento nessas áreas de localização empresarial pode ser concretizado.
Mas, digamos, há aqui um conjunto muito grande de ideias que foram lançadas e que ainda nos deixam aqui um pouco, digamos, na expectativa do que é que a partir daquela base se pode fazer. Henrique, só para terminar, perguntava-lhe o pior já passou, o que é que ainda falta fazer?
Sim, digamos, o pior aconteceu num dia ou dois, ou uma semana a seguir, ou duas, portanto, diria, o pior já passou. Há sinais muito interessantes de entreajuda entre as empresas, houve empresas que tomaram as encomendas dos seus concorrentes para não falhar nas respostas.
entre parceiros. Houve um grandíssimo sentido de responsabilidade dos colaboradores das empresas a apoiar a recuperação das suas empresas e das empresas onde as pessoas trabalham. Temos histórias muito interessantes de pessoas com problemas em casa e que no fim agarraram e foram cumprir as suas responsabilidades nos seus locais de trabalho, o que revela culturas empresariais fortes.
e revela também uma dinâmica empresarial regional que tem as suas particularidades, obviamente de pequenas e médias empresas, e de médias empresas interessantes também, onde este sentido de pertença dos próprios colaboradores às organizações se notou, e nós destacamos isso como um aspecto muito positivo.
Constrangimentos fortes existem agora na medida em que é muito importante que existam apoios que mantenham a pressão, digamos assim, porque de facto é preciso recuperar muita coisa. E desses apoios houve uma linha que foi o instrumento financeiro para a inovação e competitividade, o IFIC.
que teve um desenho, digamos, não apropriado, a nosso ver, para atacar o problema que se viveu nas empresas. Veremos se ele vai ter uma nova versão ou um novo aviso que possa suprir as dificuldades que teve o primeiro. E depois há constrangimentos normais de uma altura em que há uma grande pressão pelos serviços de construção.
As obras e os arranjos e a mão de obra é muito difícil de encontrar, digamos, soluções para os problemas da reconstrução e, digamos, há um pico de procura em tudo o que é serviços ligados à recuperação de edifícios e de instalações que tornam todo este problema difícil. E depois há, ainda, digamos, e aí já depende de empresa para empresa, de setor para setor, há um foco ainda importante de recuperar.
um mês e meio, dois meses de paragem, de recuperar os negócios, de recuperar às vezes a confiança dos clientes e de manter a atividade num processo normal. Acreditamos que com a resiliência dos nossos empresários que as coisas se vão resolvendo, mas era muito, muito importante que existisse aqui mais uma ou duas alavancas que permitissem ainda minimizar os problemas que as empresas estão a enfrentar. Fica aqui uma análise. Enrique, muito obrigada.
Muito obrigado também.
American Express
Podcast Céu é o Limite