Letrux: “O DESEJO une meu novo trabalho e minha maternidade.”
- Presença maternaExperiência da maternidade com Yoko · Desejo de ser mãe · Família não convencional
- Novo disco: Sad Sexy Silly SongsConceito do disco: triste, sensual e bobo · Processo criativo e colaborações · Estética minimalista e voz em primeiro plano · Disco como transição e desejo
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Está começando Vozes da Vez, com Fabiane Pereira. Oferecimento Natura Musical. Nos encontramos na música.
Olá, eu sou Fabiane Pereira e este é o Vozes da Vez, o talk radio show da Nova Brasil FM. Neste podcast você vai ouvir o que está sendo feito hoje na música brasileira. São entrevistas que informam e aprofundam conversas que nos ajudam a entender o Brasil contemporâneo. Toda semana um novo encontro com gente interessante e interessada em compartilhar boas histórias, ideias e experiências.
compromisso de democratizar o acesso à informação e valorizar a diversidade da música brasileira. O Vozes da Vez desta semana recebe uma artista super sagaz que transforma vulnerabilidade em linguagem e intensidade em estética.
e sentimento em palavra. Eu tô falando da cantora, compositora, escritora e atriz carioca Letrux. Uma das vozes mais singulares da música brasileira contemporânea, Letícia Novaes, que também responde pelo nome de Letrux, tem uma obra marcada por lirismo, ironia, desejo e uma coragem rara de se expor. Sem filtros, sem medo e sem concessões.
Ela está lançando disco novo e é por isso que eu a trouxe aqui no Vozes da Vez. Antes da gente ouvi-la, eu quero lembrar você que o Vozes da Vez vai ao ar todo sábado, às 8 da manhã, pela rede de rádios Nova Brasil FM. Por aqui, no formato podcast, você pode ouvir sempre, quando, onde e a hora que quiser na sua plataforma de streaming de áudio preferida.
Se você é daqueles que prefere assistir a conversa, me encontra no canal da Nova Brasil no YouTube. E ó, pra gente continuar conectado, manda um salve no meu perfil do Instagram, arroba a Fabiane Pereira.
Vozes da Vez. Vozes da Vez. Com Fabiane Pereira. Letrux. Ei, Fabi. Vozes da Vez. Cara, eu tava pensando. É tão bom a gente se acompanhar, né? A gente tem muita história já, né? É maravilhoso. Lembro... Não sei se eu lembro a primeira vez que você me entrevistou enquanto Letuce. Mas eu lembro daquela época. Rio de Janeiro. Eu lembro daquele festival que teve no Teatro Odisseia. Que Letuce ganhou. Sim, Festival Faro.
Não sei se podia falar, pode falar. Festival Faro. Eu lembro que ali a gente começou a estreitar mais, mas já tinha tido alguma entrevista antes, mas aí eu não lembro exatamente a primeira, que aí a memória perimenopausa já não dá.
E sabe uma coisa que eu lembro muito do Letuce? É o churrasquinho que ficava naquele rooftop, no terraço, de um lugar no centro do Rio de Janeiro. Espaço acústica, chamava, não existe mais. Era na Rua da Carioca, esquina com a Praça Tiradentes, um lugar histórico para a história do samba, do carnaval, do Rio, para a história do Rio. Era todo domingo do verão. Aquilo, eu até brinco com o Lucas, eu falo, cara, ali eu me tornei cantora. Porque...
Todo domingo tinha show, tinha convidado todo domingo, então você tinha que ensaiar a música do convidado, ensaiar. E não eram as suas músicas? Não eram as nossas músicas, eram músicas que a gente brincava, música de churrascaria, mas no melhor sentido, adoro música de churrascaria. A gente cantava xadê, a gente cantava pagode, a gente cantava até Celine Dion, versão reggae, um dia a gente mandou.
Aquilo foi tipo, vira cantora, vai, aprende a cantar. Tem muita gente, muita cantora fala que aprendeu a cantar na noite, porque você vai se virando. Aquilo foi a minha noite, mas era de tarde. Mas sim, mas sim, total. Foi uma prática todo domingo ali, era uma loucura. Era uma loucura.
Você fez 45 ou 44? 44, eu sou de 82. Como é que você está lidando? Você falou agora da pele menopausa. Como é que você está lidando? Porque eu comecei falando de quanto tempo a gente se conhece, quantas vezes que a gente já se cruzou profissionalmente. Porque pessoalmente, então, a gente nem lembra mesmo. Mas como é que você está lidando? Está gostando? Fala a verdade, porque você é sincero.
Não, eu sou super sincera, mas o que eu vou dizer, eu acho que tem a ver com as outras idades também. Amo e odeio. Eu amei e odiei ter 30, eu amei e odiei ter 20. Ótima resposta, vou começar a usar. Por que é, Brasil? Porque lembra quando a gente tinha 19, eu não ficava, uau, tenho 19, era terrível às vezes, porque inexperiência. Sim, e maturidade. E maturidades, era terrível. Acho que 30, eu comecei também a fazer psicanálise, aí talvez eu fui gostando mais de estar viva, mas tinha momentos terríveis com 30 também.
Nossa, 30 para mim, o meu retorno de Saturno foi... Foi babado, meu também. Eu e o Lucas, a gente separou. Então, eu acho que estou com 44 e continuo amando e odiando. Eu acho que vai ser assim para sempre. Vão ter momentos que você vai falar, Glória, que coisa maravilhosa. Vão ter momentos que você vai falar, Socorro, Deus. Sim, sim. Mal, né?
Você acabou de lançar um disco novo. Um trava-línguas. Um disco trava-línguas, que eu quero falar sobre isso. Mas antes, hoje é véspera do Dia das Mães. Eu quero falar sobre maternidade, que é um assunto que nos une. A gente tem vivenciado a maternidade. Aliás, eu tenho um livro para te indicar. Ah, obrigada. Matricência. A gente tem vivenciado a maternidade juntas. Sim. E eu quero saber como é que está isso para você.
Que transbordamento a Yoko te trouxe. Eu não sou mãe genitora, para deixar claro. Eu tentei, não consegui. Eu tive um problema no meu ovário, um tumor. Graças a já não foi câncer, mas foi um tumor. Aí tive que tirar o tumor e o ovário. Enfim, você acompanhou. Me deu até uma santinha que eu preciso te devolver. Eu preciso te devolver essa santinha. Não precisa me devolver, fica lá. Se alguma outra pessoa precisar, eu vou fazer essa santinha passar.
E aí, eu tenho um relacionamento que, de alguma maneira, as pessoas falam, é não convencional, mas o mundo está mudando tanto que eu já acho que dá para dizer que é um relacionamento e acabou, não precisa... Também não precisa especificar a gente. Exato, eu tenho uma relação com o Titi, vai fazer 13 anos e há 4 anos eu estou com a Kátia e a gente vive na mesma casa do seu... Minha vizinha. Vizinhas e a Kátia sempre teve esse sonho de engravidar e eu pensei, nossa...
Que lindo, porque eu sempre tive o sonho de ser mãe. Exatamente, a gravidez não era um sonho, eu queria ser mãe. Adotiva, eu não sabia ainda o que ia acontecer na minha vida. Então, quando ela transparece esse desejo, eu falo, uau.
Isso vai dar bom, isso vai dar bom. E eu escolhi esse nome, a Kátia queria um nome que não terminasse em A, e eu admiro muito a Yoko Ono, e aí pensei na Yoko, e a cara dela, você olha para ela e fala, ela tem cara de Yoko. Ela tem cara de Yoko. Ela tem cara de Yoko. E vivemos essa família, essa nova família, nós quatro, numa casa cheia de oxitocina, ninguém briga mais, está todo mundo meio...
Porque é um delírio, né, Fabi? É um delírio. E tudo dá vontade de chorar. Eu olho para ela e penso, ele é tão bonito.
Eu acho que eu nunca vou superar tudo da vontade de chorar. Tudo da vontade de chorar. Ela segurou o pepino. Ela segurou o pepino. É tudo muito emocionante. É muito especial. Eu não tenho essa vivência da amamentação. Não fui eu que gerei. Mas eu sou muito maternal. Sempre fui. A banda sempre brinca. Ela vem, mãe Letícia, dizer para a gente levar o casaquinho. Eu sempre tive o cuidado. Eu sou de manjar também. Então tem coisas que eu sempre fui muito...
cuidadora, cuidadosa, então eu acho que ter uma filha muda absolutamente tudo, o nosso olhar pra tudo, pra água, você fala uma caneca, tudo eu fico e é muito lindo, olha que eu já sou bem memorialista sobre minha infância, meu primeiro livro é cheio de coisas da infância, mas como ela existir, tá me fazendo cavucar umas memórias da minha infância, eu olho pra ela e fico o
Mas será que quando eu era bebê, aí eu pergunto pra minha mãe e pro meu pai? Vai cavucando muita coisa da gente também. Coisas boas e coisas ruins e tudo bem. São vários ciclos, são vários processos, né? Mas eu tô muito feliz, assim. Todo dia é um pequeno milagre.
Todo dia é uma descoberta, todo dia é um fascínio. E é um bichinho ainda, tem seis meses. Ela está mais perto de um animal do que de mim, de um ser humano. Sim, sim. Ela é um bichinho. Ou não, ou nós estamos mais perto do que...
Ela é muito bichinho ainda. Às vezes ela vem assim, ela segura os pés e as mãos em mim, como se fosse um macaquinho ainda. Sim, sim. O ser humano vai crescendo, vai ficando mais bípede, né? Vai esquece do pé. A gente depois só usa o pé pra correr, pra andar. Mas o pé, ela ainda agarra. Amiga, mas quando eles vão crescendo, eu venho do futuro aquela.
e começa aquela fase deles entenderem que eles não estão no mesmo corpo que a gente, eles também agarram como macaquinhos. O Bento também tem isso. Que amor. Eu quero saber como é que a maternidade é o seu primeiro trabalho que você lança pós Yoko.
Eu acho que ele não tem exatamente a ver... Ah, tem uma coisa... A única coisa que eu posso dizer que tem a ver com maternidade é sobre o desejo, né? Eu desejei ter uma família do jeito que eu desejei. Do jeito que algumas pessoas acham esquisito, algumas pessoas condenam, mas eu realizei esse desejo. E esse trabalho também, o Sad, Sexy, Silly, Songs...
ele é fruto de um desejo. Tem gente que diz que esse disco está triste. Eu falo, a primeira palavra do título é sad. É triste. É que eu traduzo. Traduzo, exato. É triste, sensual e bobo. Músicas tristes, sensuais e bobas. Essa é a tradução, né? Então, eu quis fazer. Eu tinha algumas músicas, algumas foram recuperadas do passado e outras foram criadas para esse trabalho.
Chamei a Mamonde, chamei a Jadissa, Bruno Capinã, algumas outras figuras. E falei, vamos brincar, vamos fazer uma música sexy, vamos brincar, vamos fazer uma música triste, vamos brincar, vamos fazer uma música boba. Eu acho que é o único cruzamento que eu vejo da maternidade, porque não tem nenhuma música pra criança, nada que fale sobre isso, mas é um trabalho fruto do meu desejo. E a maternidade também, ela veio através de um desejo muito grande que eu queria ser mãe, eu queria ter uma família, eu queria criar essa família.
Do jeito que eu queria. O disco também é do jeito que eu quis.
Olha como é que a arte é uma coisa muito doida. Eu ouvindo o seu disco, é um disco menos. Sim. No sentido que todos os outros três discos lançados com a Persona Letru, que são discos muito. Super camadas sonoras, mil coisas acontecendo. Esse, claro, total minimalista. Eu achei que isso que tivesse a ver com a maternidade. Pode ser também. Porque eu pensei muito no silêncio que a maternidade traz, principalmente nos primeiros meses. Sim. É um silêncio que eu nunca tinha vivenciado na vida. Sim.
A casa do recém-nascido, ela é... Ela é mágica, né? É mágica. Você falou assim, ninguém está brigando, todo mundo tinha de oxitocin. E é isso. E aí, quando eu ouvi o seu disco... Interessante essa visão. Eu falei, olha, é um disco materno, nesse sentido de menos. Não dá para ter muito barulho com um nenenzinho em casa. A minha viagem foi nessa... Pode ser. Não, adorei. É muito legal lançar um disco e ter essa visão de fora. Porque, às vezes, você...
pensou numa coisa, mas as pessoas pensam em outras. Eu acho isso fascinante. A arte é isso, né? Adorei. Adorei. Pode ser que tivesse alguma coisa. Eu não sou inconsciente, sei lá. É total. Eu não queria tanto barulho, porque eu estava com uma recém-nascida. Então, gente, eu adorei. Vou responder isso agora.
E foi o primeiro disco que você lançou que começa pelo título. Me conta sobre isso. Ah, a primeira música, né? Que você fez o disco pelo título, não foi? Mas o Climão também, de alguma maneira, quando eu e a Artur, a gente tentou alguns editais, a gente tinha esse título já.
E não tinha todas as músicas. Tinha algumas. Tinha algumas. Não, eu acho que eu sou bem norteada, guiada por títulos. Pela palavra, né? Pela palavra, exato. Então, aí se tem essa palavra, sad, sexy, climão, prantos. Aí depois algumas coisas vão sendo criadas. Não foi exatamente o primeiro, mas realmente esse título foi assim.
Agora deixa eu dar uma olhada no que eu tenho, o que eu tenho que compor, o que eu tenho já do passado, o que dá para encaixar aqui. Esse título me veio num caderninho de anotações, que eu tenho muitos caderninhos. Um dia eu fiquei olhando assim e falei... Mas as palavras já estavam juntas? Elas já estavam juntas, só que tinha também small. Era sad, sexy, silly, small. Era muita coisa. Eu falei, gente, vou tirar uma e deixar só quatro. E está mais preciso, fica mais redondinho. Quatro, pá. Muito bom.
E aí você falou também, numa entrevista sua, que, de certa forma, Sad Sex, Sealy Songs, eu tenho que ler, gente, senão eu não vou conseguir falar isso. É um disco que encerra uma trilogia. Ou seja, encerraria uma tetralogia. Sim. Não, eu acho que ele é um disco de transição. E aí eu quero saber, só para complementar, por que que como Mulher-Girafa é uma bobagem? Não, mas é porque...
Quando eu falo bobagem, silly, é no melhor sentido da palavra. Eu sou uma amante, eu sou uma palhaça, eu sou cláudia, né? Eu tenho uma palhaça dentro de mim, que é a cláudia. Eu amo bobagem. Se não houvesse bobagem, a gente estava aqui pagando conta e tremendo no capitalismo. Socorro Deus.
Se não fosse um meme... Já estamos. Já estamos. Se não fosse um meme, se não fosse jogar um carteado com as amigas e falar piada e morrer de rir. E morrer de rir com criança também é fascinante. Bebê e criança são muito engraçados.
Se não fosse essas bobagens, gente... Então, eu acho que quando eu fiz Mulher Girafa, depois da pandemia, que foi punk, foi foda, eu quis fazer um disco meio bicho. E é aquilo... Assim, eu não estou dizendo que foi bobo, mas estou dizendo que, se eu tiver que encaixar, o climão foi sexy, aos prantos foi mais sad. E a Mulher Girafa teve uma coisa meio silly, mas no melhor sentido da palavra, sabe? Virar bicho é uma bobeira, uma bobagem, é besteira, mas com um bom sentido.
É leve. É leve, exatamente. A bobeira tem uma leveza. E a Mulher Girafa teve uma leveza. Após a pandemia, eu falei, nossa, gente. Depois dos prantos, depois da pandemia, quis fazer umas músicas, chamei o João Brasil, que é uma das pessoas mais alegres que eu conheço no planeta. Um dia eu virei para o João e falei, João, você fica triste às vezes. Aí ele pensou e falou...
Não muito. Eu falei, nossa, o João está... Eu não sei qual é a palavra, quando a pessoa é budista, com decorado, ele ganhou a ordem budista, da monja, não sei o quê. Ele é esse nível. O João está num grupo que eu participo. Ele é esse nível. E ele dá umas tiradas, assim, geniais. Ele é muito especial. Então, quando eu chamei ele para produzir Mulher Girafa, eu falei, eu quero essa leveza, eu quero esse lugar.
E a leveza de um DJ, que o João tem essa coisa. Tem isso. Então, quando eu falo que a Mulher Girafa é boba, muita gente fala que é um disco bobo. Meus fãs defendendo o meu trabalho de mim. Eu entendi esse bobo, essa bobagem como leveza. Isso, é sobre isso. É isso, é exatamente isso.
E aí, eu já te disse, o que bateu em mim desse menos. Mas o que bateu em você? Por que essa escolha estética de depois de discos com tantas camadas, você resolver fazer um disco... Eu acho que todo artista... Quer dizer, não sei se todo, mas eu sinto que todo artista que brinca de tocar violão ou que compõe no violão não é possível. Olha, bota num detector de mentiras. Nunca pensou em fazer um disco mais violão?
Porque é o início da criação. Muitas músicas nascem assim. Outras nascem voz e piano, outras já nascem lá. Mas é sempre voz e alguma coisa mínima. No beat, tem muita gente que já faz música com o synth, o computador. Mas, no meu caso, mais canção popular brasileira, muita música nasce voz e violão.
Então, eu cresci com roda de violão, eu sou fruto de acústico MTV, eu sou de uma geração luar, a gente ficava tocando Legião Urbana. Eu até aprendi a tocar piano quando era adolescente, mas eu lembro de eu falar para minha mãe, mas o piano não dá para levar para a praia.
Entendeu? Então o violão é um instrumento fascinante. Então eu acho que eu sempre tive esse desejo, mas esse desejo ficou oculto porque eu estava ali surfando outras ondas, a onda de ter banda, de fazer festival com banda que eu amo, sou apaixonada. Daqui a pouco a gente volta. Mas eu quis brincar de outra coisa. Eu quis brincar de fazer um disco acho que, sei lá, toda cantora compositora tem um desejo de um disco mais voz e violão. Aí, claro.
Tem a ver também com uma questão de circulação, de ser menos gente circulando? Cara, Fabi, sabia que não? Porque o que acontece? Como ele é mais denso, triste, ele não é um show para festival. Eu tenho muita noção disso.
Mas vários festivais, como Coala, por exemplo, tem um teatro ali. Tem espaços melhores. Pois é, mas a gente fez... Eu sabia, assim, olha, gente, é um projeto quase... Não é paralelo, porque, enfim, todos os meus projetos são válidos, são importantes, mas eu sei que ele não vai circular em palcão, em festivalzão, que nem eu fazia com a banda, porque ele tem uma pegada teatro. Eu amei fazer estrear no Sesc Pinheiros, eu botei cenário, eu botei uma cama.
Eu tenho consciência disso e para mim está tudo bem, sabe? Não tem problema. Daqui a pouco eu faço show em festival, daqui a pouco sei lá o quê. Eu realmente quis seguir meu desejo. Eu quis fazer o disco que eu queria. Eu sei que isso às vezes parece uma ofensa. Algumas pessoas ficam assim...
Meu Deus. Mas você recebeu? Ah, vai ver. Jura mesmo? O ódio chega assim, né? Quer dizer, ele nem bate na porta, né? Tem gente que... O disco saiu meia-noite, eu acho que uma e meia da manhã já tinha uma pessoa assim, dormir no meio. Eu só vi no dia seguinte, né? Mas dormir no meio...
troço horroroso, melancolia, não sei o quê. Aí eu falei, você dormiu porque já era meia da manhã. Gente, mas o que que leva? Eu realmente não consigo entender. Teve duas pessoas que eu respondi. Eu falei, olha, quando o Caetano, a PJ Harvey, lançam um trabalho e eu não gosto...
Eu vou no WhatsApp e converso com os meus amigos. Pô, não curti muito. Eu não vou na página da PJ Harvey ou do Caetano e falo Não gostei. É uma audácia. Aí eu escrevi assim, mas eu prezo pela elegância.
E as pessoas são diferentes. Terminei assim. Eu lembro que esse fã botou assim, com todo respeito. Ele começou com todo respeito. E eu terminei com todo respeito. Somos diferentes. Besteira. Me avisar. O que você quer que eu faça com essa informação, amor? O Clarice Lispector falou. Ou toca ou não toca.
Se não tocou, não precisa me avisar. É o tal, eu vou parar de te seguir. É, entendeu? Não precisa me avisar que você não gostou. O que essa informação vai fazer? Deixa eu mudar rapidinho, então, porque o arroba Jefferson. O que eu posso fazer com isso? O seu desejo de ouvinte, ele não influencia no meu desejo de criação. Eu sei que parece louco. Não influencia nem no processo de feitura? Nem no processo de feitura, Fabi. Eu realmente sou maluca.
Eu acho que eu sou maluca. Eu tenho tesão em criar, eu tenho tesão em ver.
as caraminholas da minha cabeça tomarem formatos. E se eu tivesse essa preocupação, eu falaria, vamos fazer um show para festival, agora vai ser um formato reduzido para não gastar dinheiro com a banda. Eu não podia ter pensado isso. Estou gastando muito, minha banda é enorme, minha equipe é enorme. Não, eu quero uma banda pequena para eu não gastar tanto dinheiro, mas vamos fazer um disco bombante. E não é, é um disco mais introspectivo.
Porque o desejo, ele é indomável. Sim. O desejo, ele é o desejo. Então, eu obedeci e lancei esse disco. E é muito louco, porque quem tá gostando, tá me falando coisas muito profundas. Gente, eu adorei o disco. Eu não sabia nem que alguém tinha criticado. Ah, quando? Ih, Brasil.
Mas quem está gostando Está de um jeito muito Não consigo parar de ouvir Não consigo parar de chorar É porque é um disco quase mântrico Ele tem 30 minutos, ele é bem papum Mas ele tem uma profundidade Que é real Eu não sou
Da música, então eu vou falar com a minha linguagem. Você já é da música. Mas eu acho que ele tem sons que elevam a sua mente. Sim. Eleva, não é palavra. Ele tem sons que deixam a sua mente numa mesma frequência. Que lindo, isso é bem mantra, né? É o que o mantra... Eu acho também que era um disco que eu queria mostrar mais. Minha voz, né? Os outros discos, como tem muita camada sonora, que eu amo, sou apaixonada.
acaba que a minha voz é mais um elemento. Eu adoro essa voz. Aí, de alguma maneira, nesse disco, a minha voz está mais na frente, ela tem mais presença. Acho que também foi um desejo de cantora, de, olha, também sei cantar, sei lá, mostrar a minha voz. E uma coisa que eu achei legal, já que você falou da voz, eu falei com o João, assim, João, o meu inglês é macarrônico.
Falei, João, eu estou entendendo tudo que a Letícia está falando em inglês. Sabia que muita gente me falou isso, falou, caralho. E eu sei que você fala muito bem inglês. Não, mas eu falo também de um jeito. Teve gente que falou assim, a Letrux é muito louco, porque eu nem sou muito fã de inglês, mas você falando, eu gosto, é um inglês carioca, é um inglês quase Fernanda Toro.
People, you have no idea. Lembra quando ela falou isso no palco? Isso foi maravilhoso. People, you have no idea. Então, não é o inglês, oh my God, this is like, oh my God, não é inglês Kardashian. É inglês eu, Tijuca, fiz cursinho de inglês. Então, muita gente comentou assim, cara, eu nem sou fã da língua, mas você falando inglês que eu consigo entender.
Você compõe inglês com frequência? Isso é... Tá no seu dia a dia? Tava falando com a Kelly, minha melhor amiga, que é amiga de Carol Porto. Claro, Kelly Freitas, Portugal. Aí a gente tava conversando, ela falou, amiga, eu não esqueço que a sua primeira composição no violão chama Love Sucks. O amor é uma merda, né? Em tradução, assim, bem...
Letícia, eu falo mal o inglês, mas assim, o óbvio eu sei. Sei lá, mas também para os ouvintes. Para os ouvintes. E eu acho que eu sou, Fabi, é muito foda, né? A gente cresceu ali com MTV, a gente cresceu. Inclusive, a língua inglesa me chega pela música. Sim.
Isso foi muito importante. E vários cursos de inglês davam música também para a gente. Super! Eu fazia CCAA e eu lembro que tinha aula de música. A gente analisando a letra do Nirvana, a gente analisando a letra da Alanis Morissette. Alanis era nossa. Era a minha aula favorita.
Então, eu acho que está muito perto de mim, sabe? É uma língua que está perto da minha vida. Eu vejo sério, vejo filme, vejo sei o quê, ouço muita música. Eu tenho composições também em francês, tenho uma música em espanhol, no Aos Prantos, que não colou, a galera fica, ela só faz música em inglês.
Cadê que essa pessoa sabe a música em espanhol do Os Prontos? Não sabe, é só pra ser chato. Então eu gosto de língua, minha mãe é professora de francês, é só uma pessoa que gosta de... Meu irmão mora... Meu irmão morou anos na Inglaterra, eu tenho um sobrinho inglês. Minha filha vai ser trilingue, né? Porque a Cátia é alemã. Sua filha não chama Ana, chama Yoko. Chama Yoko. E a Cátia é alemã, ela só fala em alemão com a Yoko, eu só falo em português, mas eu e a Cátia, às vezes, a gente fala em inglês, entre nós duas.
Gente do céu, coitada da cabecinha dessa criança. Não dizem que é a melhor época. Eu sei que dizem que sim, né? Dizem que...
Meu sobrinho inglês não fala português. Meu irmão não foi tão... Às vezes eu falava português com ele, ele fingia que eu não estava me ouvindo. Eu falava, tem que insistir. Meu sobrinho não fala. Meu sobrinho não fala português. É uma pena, a gente só fala inglês. E ele tem aquele inglês bem British. Oh, meu Deus! Então, eu gosto de língua. Gosto de língua, gosto de tradução, eu gosto de ver filme em outra língua. Eu amo... As pessoas falam assim, mas eu não entendi nada.
Sabe aquela banda Sigurós, que é da Islândia, lá da terra da Bió? Sei, sei. Eu não entendo uma palavra, eu ouço, choro. Mas Letícia, é música, você não precisa entender uma palavra. Certo.
Eu sou muito apaixonada por letra, né? Até falo na primeira música, eu falo, tô aqui pela letra. Eu sou uma alucinada por letra de música. Mas isso não é a única coisa que existe. Música são... Tem música instrumental. A gente pode ver uma música japonesa. E não entender por nenhuma. Exatamente. A música instrumental que eu mais choro na vida é uma música... A música que eu mais choro na minha vida é uma música instrumental, uma sinfonia do Bach. Então...
Música é a magia, é uma loucura. Tudo pode acontecer. Você pode até se irritar. Falar, nossa, me fez lembrar de alguém, me bateu um cheiro. Música é sinestesia, bate cheiro, bate lembrança, bate... Te lembra uma cor, me lembrou a infância, sei lá. É uma loucura. Amamos música. Eu perguntei para você se essa questão do disco ser menor, no sentido... Não sei qual palavra que eu posso usar. Eu estou usando minimalista. Minimalista. Então, pronto.
Um disco com menos camadas, se tinha a ver com a questão de circulação. E aí agora eu te pergunto se um disco bilingue tem a ver com circulação novamente. Ah, não. Foi só um desejo mesmo. Me veio. Eu tô muito mercadológico, né? Não, mas é importante. Acho importante essas perguntas. Eu gosto muito de fazer show lá fora. A gente já tem... Acho que eu já fui cinco vezes. Cinco vezes. Já fui em vários formatos.
Eu já te vi em Portugal. Com a banda toda ou foi Redux? Porque a gente tem vários formatos. Eu te vi cantar, é porque eu não consegui chegar no show, então eu te vi com o Arthur cantando fora do lugar. Ah, é? Não. É isso, nossa, tem muito tempo. Valsa, lembrei. Não, então já fui em vários formatos. Eu e Arthur. Já fui eu sozinha. Já fui eu e a banda toda. Já fui eu e Redux. Mas toda vez que a gente está lá fora...
Tem esse barato também, né? Aí me chega um polonês e fala Oi, estou aprendendo português por sua causa e Clarice Lispector. Aí eu falo, gente...
Olha o nível da parada. Olha onde a música chega. Olha onde a música chega, da Tijuca pra Polônia, sei lá. Então você fica assim, uau. Então pode ser que algum inconsciente tenha pensado no mercado, tomara que outras pessoas gostem. Mas realmente, conversando com a Jadza, que também tem muita música bilingue nesse último disco dela, a gente estava assim, cara, amiga, que loucura, né? As pessoas perguntam, mas aí você escolhe em português e...
E a gente, assim, a gente é só um cavalo da musa maior que é a música. A gente só obedece ali, o troço vem. Eu já tentei traduzir coisas que eu fiz em inglês e não rolou. Não rolou. Fiquei, nossa, ficou duro. E em inglês teve um troço. A primeira música é uma música bilingüe, né? Porque eu falo, if we ever stop talking. Aí depois eu falo, guitarra maneira, baixo incrível. Eu tentei cantar, nice guitar, amazing bass.
Falei, ai, que vergonha. Olha, deu vergonha de ser inglês. E até então a música estava em inglês. Aí eu percebi, gente, essa parte eu tenho que falar em português. Eu estou aqui pela letra, não é? I'm here for the lyrics. Não rolou, eu tentei. Só que a outra parte, eu tentei fazer. Se a gente parar de se falar...
Aí eu falei, também não dá certo. Eu falei, nossa, que... Nossa, que curioso. Não sei explicar. Aí vem entre instinto, entra arrepio. Onde arrepia, onde não arrepia, eu só vou seguindo e obedecendo. Você já me falou uma vez que o seu processo de criação é um jogo.
Sim, uma brincadeira. Uma brincadeira, é. Até foi na última entrevista que eu fiz com você, que foi sobre o seu livro, Brincadeiras à Parte e tal. E aí eu queria saber como é que você começa a montar esse jogo? Tipo, considerando imageticamente um quebra-cabeça. Como é que você consegue montar? Tudo depende se estou sozinha ou se estou com parceria, né? Por exemplo, com a Mamundi e com a Jadza, eu mandei uma mensagem, vamos fazer uma música sexy, e as duas vão. Não, pera, seu jogo já está muito lá na frente.
Quando é que você começa a montar? Porque até para você chegar na Mamundi, na Jats, sem mandar música, esse jogo já está pré-montado. Não, não, mas aí me vem assim. Vou fazer um disco com música sexy, eu já tinha esse tema, esse conceito, esse tema, essas atmosferas. Esses moods. Esses moods, essas atmosferas. Aí eu falo, Mamundi, vou fazer uma música sexy com a Mamundi. Mando uma mensagem, Mamundi, vamos fazer uma música sexy. Ela morre de rir e fala, vamos.
Aí você se aproximou dela pelo... Não, vocês sempre foram próximas, óbvio. Mas, sim, a gente é. Por causa do projeto, a gente também se reconectou mais. Mas aí eu lembro que a Mamundi falou, você tem alguma coisa já escrita? Eu falei, tenho, amiga, tenho uma letra aqui. Aí eu mando só a letra para ela. Ela me devolve um violão maravilhoso, gostoso, com algumas melodias, mas aí eu tento encaixar algumas melodias daquela letra.
Fica indo e voltando. Indo e voltando o processinho. Já disse também, me manda uma coisa escrita. Ela faz uma programação. Indo e voltando com as outras pessoas também. Algumas pessoas me mandavam a música nessa data querida. By My Side e My House. Foram essas pessoas, a galera da novela e o Théo Machado. Eles me mandaram o início da música. Aí depois eu desenvolvia. É muito pingue-pongue, né? Tênis, sei lá. Vai.
Joga para outra quadra. Joga para essa quadra. E quando é que você percebe que aquilo está? O jogo está? Quando eu percebo que a música está pronta? É, que o jogo está pronto. Quando a música está pronta. Eu acho que quando vem uma emoção maior, tem uma hora que você fala, quando vem uma onda do arrepio, da emoção, eu falo, acho que chegamos num lugar.
Ano passado, ou retrasado, se eu não estou enganada, você rodou algumas capitais com um projeto que você celebrava 20 anos de carreira. Nesse jogo de processos criativos, durante esses 20 anos, mudou muito? O jeito que você compõe, o jeito que você cria um trabalho, mudou muito?
Eu acho que mudar, com certeza, deve ter mudado, mas não muito. Eu ainda sou aquela menina. Eu ainda sou, de alguma maneira, a pessoa com 22 anos que começou a tocar violão e sente, eu sinto uma sensação da minha vida e aí eu pego o instrumento ou o diário. Eu ainda tenho isso. Fiquei mais consciente.
De mercado. Se apropriou da própria voz. Me apropriei da própria voz, tenho mais consciência. É menos romântica. É, mas não sou cínica. O cinismo jamais me pegará. Eu ainda sou uma pessoa emotiva, emocionada, boba. Eu ainda fico... Não, mas quando eu digo menos romântica, eu fui para um outro lugar na minha cabeça. Quando a gente tem 20 e poucos anos, a gente quer muito que a nossa carreira dê muito certo.
E aí, esse muito certo é o quê com 40 anos? Mas sabia que eu não tinha tanto esse sonho, Fabi? É tão louco, né? Eu era muito desengonçada. Eu não era... Eu quero muito ganhar o Grammy. Nossa, eu não sabia nem que era o Grammy. Eu não sei, eu só queria viver. Sei lá, eu até sou muito grata ao lugar que eu cheguei, porque do jeito destambelhado, despretensioso, eu cheguei num lugar. Sim.
E isso é muito louco. Eu não era muito ambiciosa. Eu não era uma adolescente ambiciosa. Eu não era uma criança. Minha mãe que me matriculou no teatro. Porque eu estava lá na faculdade de letras fazendo. Levando a vida triste. E minha mãe assim, Letícia, você está triste. Vamos fazer teatro.
Nossa, mas você estava já na faculdade? De letras. E a sua mãe que te matriculou nunca soube disso. A minha mãe falou, que ela é formada em letras. Ela falou, minha filha, você tem outra personalidade. Você tem que fazer teatro. A minha mãe me matriculou na Cal. Eu nunca tinha ido no Cosme Velho. Eu chego, fico amiga da Kelly no primeiro dia e falo, que lugar é esse?
Mas mesmo assim, lembro que todo mundo se formava na Cal e ia fazer registro na Globo, né? Eu não fui fazer. Eu fui fazer meses depois. Meu registro era ruim. Paulo Gustavo me mandou mensagem. Falei, amiga, seu registro está horroroso.
porque era um texto da Fernanda Young super dramático e ele me achava muito engraçada. Ele disse, Letícia, você tem que fazer um vídeo engraçado. Aí eu falei, amigo, não sei, eu gosto da Fernanda Young. Ele disse, eu sei, mas você tem que aproveitar a sua graça. Também sempre tive muitos conflitos do que de ser uma coisa. Acho lindo quem fala, eu sou comediante, sou comediante. Eu não consigo...
Não, somos geração barra. Geração barra. E não só isso. Além de ser geração barra, eu tenho um genuíno interesse em drama e em comédia. Então, me chamem para dramas e comédias. Então, acho que eu não consegui falar que eu quero que meu disco... Eu não tinha isso. Então, eu sou muito grata. Isso nunca... Você nunca teve isso? Você sempre foi deixando a vida te levar? Deixa a vida me levar. A vida leva eu.
Claro, em algum momento eu percebi, caramba, depois do climão, principalmente, eu percebi, ah, então eu posso viver disso. Acho que eu vou viver de música ou de ser artista, não só de música, porque fiz muita série, escrevi três livros. Então, não é só música. Tem vários outros trabalhos paralelos também que eu faço. Eu acho que é porque o que é a ambição? A ambição é chegar aonde? Você falou o que é dar certo, o que é a ambição? Eu quero continuar...
cantando e compondo. E se algumas pessoas quiserem ouvir, sou grata. E estou feliz, eu não tenho, não sou muito megalomaníaca. Eu sou quase, eu não chego a ser tímida, mas eu tenho quase... Ah, eu quero viver no mato, eu quero... Eu não chego a ser hippie, mas eu tenho uma outra pegada da vida também. Eu não chego a ser hippie?
depende do seu ponto de vista. No meu, tu é bem riponga. Você falou uma coisa que... Você falou da Kelly, que você falou do Paulo Gustavo e tal. Você é uma pessoa de amizades longas. A gente falou da nossa relação e tal. E o Tiago Rebello está com você também há muito tempo. Claro.
Eu queria saber o que você espera que ele traga de novo ou que qualquer parceiro seu, como o Arthur, traga de novo, já que você está com ele há tanto tempo e você já o conhece há tanto tempo. Então, o Rebelinho toca desde o Climão. Ele gravou o Climão, gravou os prantos, gravou a Mulher Girafa.
Ele é ariano também, mas com ascendente e lu em peixe. Ele é um Ares bem molhado. Ele é muito maravilhoso, ele é muito chique. Eu lembro de eu mandar, amigo, tem aqui essa música. Eu mandava para ele a voz e a melodia. Life is to her, life is to... Aí ele me mandava e eu ficava...
Deus! Que classudo! Que classudo! Que chique! Que sofisticado! Eu ficava rebela! O que que é isso? Eu fiquei muito encantada! Eu sabia já disso! Ele tocando no palco, baixo, sempre achei ele chique! Sempre achei que ele se destacava com alguma coisa sofisticada! Mas ele produzindo o disco foi uma surpresa muito astral!
porque é isso, eu gosto de trabalhar com quem eu já conheço, claro, também sou aberta, já fiz tanto fit com banda nova, gente que eu não conheço, mas eu tenho também, eu tenho no meu mapa astral, na Casa 11, que é a casa da vida social, eu tenho câncer ali, então minha vida social é muito canceriana, é família, para sair é um sufoco.
Foi isso tudo eu vi no seu disco. É, está ali, está tudo ali. Na minha cabeça, eu entendo porque a Letícia está fazendo um disco com menos camadas. Porque ela está num momento muito casa. Eu fiquei muito nessa pira. Eu amei essa sua definição. Agora, quando me perguntaram, eu vou falar, olha, eu virei mãe, tudo é mais silencioso. É, não, é bíblia e é.
Você disse aqui, agora há pouco, que tinha canções que você já tinha feito há bastante tempo. Sim. Música tem momento certo? Ai, talvez tenha, sabia? Porque se eu lançasse... Se o Me Dá Frio, talvez ela caberia nos prantos, eu não sei. Mas a outra lá que eu até falo, I wrote this when I was 22, eu fiz essa música com 22. Eu acho que ela só cabia agora. 22 anos depois.
Se fosse muito perto dos 22, hum, que estranho, mas 22 anos depois expirou, datou, como fala? É tão absurdo, porque eu falo me devolve meus DVDs. É hilário isso. Se estivesse perto ainda da era do DVD, eu ia falar, ah, estranho, mas é tão absurdo 22 anos depois que, ai, que engraçado. Alguém de 22 anos ouvindo essa música agora é quase que...
Mas sabia que o que me fez gravar essa música foi um pouco... Eu tocava... Ano passado... Ai, perdida. Ano passado, eu fiz alguns shows voz e violão sozinha para pagar a feitura de clipe. Faz um show aqui, ganha uns 5 mil e paga o clipe. Essas loucuras. Tu é muito capri. E aí... Tu é muito capri. E aí eu lembro que... Eu não sei tocar... Eu não sou instrumentista, não entendo? Eu não sei tocar todas as minhas músicas. Eu sei tocar algumas do Climão, algumas do Osprentes. E no final, eu sempre botava umas das minhas antigas.
que era essa, era Ciúme Me Dá Frio. E as pessoas saíram assim, achando que elas iam falar de ninguém, perguntou por você, do climão que eu sei tocar. Qual é aquela música do Ciúme? Qual é aquela música do Me Devolve Meus DVDs? Aí eu, você gostou? Nossa, a música da minha vida. Eu falava, como que é a música? Eu falava, quantos anos você tem? 25 anos é a música da sua vida.
Mas é a música da minha vida. Então, para não dizer que eu não sou tão... Ah, eu não sou aberta ao que o público, não sei o quê. Não, nesse caso, esse apelo me comoveu. Eu achei bonito as pessoas. Eu sempre tive carinho por essas músicas. Mas acho que o fato de pessoas falarem que eu quero ouvir essas músicas, não tem nas plataformas. Aquilo me deu uma coisa... Uau, acho que está na hora dessas músicas serem registradas.
E revisitar música feita há muito tempo, tem significados diferentes? Tem, tem significados diferentes, mas também você percebe que algumas coisas são prazer. Eu ainda continuo com frio quando tenho ciúme, eu não sou uma ciumenta engalorada, eu sou uma pessoa que ciúme me dá frio, eu fico, gente, me dá um casaco, pelo amor de Deus, ainda. Calma, fala isso sem ser metaforicamente, como assim ciúme te dá frio?
Porque a segunda música do disco se chama Ciúme Me Dá Frio. E eu acho que as pessoas têm uma visão que ciúme é uma coisa assim, novela mexicana, cenas encaloradas. É porque fomos criadas pela Maria do Bairro. Porque fomos criadas pela Maria do Bairro. E novela brasileira mesmo, cenas encaloradas, o calor. E eu, quando percebi que ciúme me dava frio, eu falei, nossa, acho que isso é um fato digno disso.
virar um poema, virar uma música, sei lá. E fiz ali do meu jeito, né? Pra eu me expressar, que eu tenho esse barato de me expressar. E algumas pessoas falaram, Letícia, você... Captou. Você captou uma coisa que eu nunca soube dizer o que eu sentia quando eu sentia ciúme. É frio. Você sabe que essa música me conectou com uma outra música sua, que é o Flirt Revival. Nossa, que loucura. Sabe por quê? Não pela atmosfera sonora da música, mas pela letra mesmo da música.
Não sei se Artes Plásticas é um lugar que... Eu acho que é a coisa da letra carioca. E muito literal. Me conectou muito com essa música. Eu fui até reouvir para ver se tinha alguma... Sei lá, vai que é sequencial, sabe? Sim, eu sou uma compositora muito literal. Eu acho até engraçado quando algumas pessoas me marcam naquele meme do Paulo Gustavo cantando Mar, Maremoto, não sei o quê.
São pessoas que nunca me ouviram, que só têm uma visão minha. Porque todas as minhas letras têm verbo, sujeito, verbo, predicado. Adverbo. Eu não sou uma pessoa dadaísta que solta palavras. Todas as minhas músicas são muito literais. Eu não gosto muito nem de metáfora, eu não sou uma pessoa metafórica. Eu sou muito ciúme, me dá frio. Sempre que ela passa, eu ponho um casaquinho. E flerte e revival, talvez você tenha feito essa conexão, porque é uma letra também muito...
Eu te vi, você mexeu demais comigo. Eu sou muito direta. O jeito de você cantar as duas músicas tem uma conexão. Um jeito carioca, um jeito quase falado. Quase falado. Eu tenho isso. Eu gosto. Eu te vi.
A gente começou falando, você começou falando que você teve um tumor, né? A gente começou falando um pouco de maternidade. E aí eu queria falar sobre esses atravessamentos, assim. Como é que você separa, isso é uma discussão muito macro também, mas como é que você separa dores profundas da vida artística, assim?
O cotidiano que tem que resolver dos atravessamentos, daquilo que vai para a sua música. O que você quer compartilhar, o que você não quer compartilhar? Por que eu estou te perguntando isso? Porque quando você recebeu o diagnóstico, você compartilhou. Sim. Você foi para as redes sociais e compartilhou. Mas isso, em nenhum momento pós esse compartilhamento, explicitamente está na sua arte.
É, tem até um textinho do Brincadeiras à Parte que tem alguma coisa, mas é muito pequeno. Eu acho que eu quis fazer um serviço social só. E várias mulheres... Teve uma mulher que falou, você salvou minha vida. Porque ela foi fazer exame. Porque ela foi fazer exame, ela estava com tumor. E o dela estava até mais grave do que eu. Ela chegou a ser câncer. Mais benigno, mas enfim.
Eu acho que era mais... Se a gente fica postando um monte de coisa, entendo, respeito cada um que não queira expor a vida pessoal. Mas se a gente vai ficar só falando vitórias, olha aqui eu, não sei, olha aqui eu ganhando, olha aqui eu na praia incrível. Pô, bicho, sabe? Eu ainda tenho um senso de comunidade, eu ainda tenho um senso de avisa ali para as pessoas que ali está dando... Prestação de serviço, né? Prestação de serviço, ali está dando ruim. Então, aí... É...
mulherada e também pessoas trans que ainda têm útero, ovário, eu falei, cuidado, vai no médico, vai na médica, sabe? Então, foi só uma prestação de serviço mesmo. Hoje, como é que você está se relacionando com as redes sociais que já te fizeram muito mal, assim? Ah, eu estou mais tranquila, Fabi, porque eu tenho dois sovaquinhos de uma neném em casa me esperando. Se você pudesse, eu sairia.
Da rede social? Super! Imagina! Totalmente! Porque realmente é o medo. É o medo de quem não é visto, não é lembrado. Então eu acho que eu já posto menos, eu acho que eu nem posto da minha vida pessoal, minha casa, minhas coisas, eu estou bem mais discreta. Eu até fiquei procurando coisas da Yoko também.
Não tem. Também é uma escolha também minha e da Kátia de preservar, porque é futuro, robô, inteligência artificial, dá muito medo. Mas eu estou lidando melhor. Vêm os ódios e eu cheiro o sovaco da minha filha e tudo passa.
Uma filha num mundo misógino, num mundo em que a escalada da violência doméstica está gigante, como é que isso transita aí na sua cabeça? Eu sei que em algum momento isso vai ser um assunto, isso vai ser um conversado.
Eu ainda estou numa nuvem azulada de proteção, de oxitocina, mas é claro, com a minha história, com a história da Kátia, com a minha preocupação de cidadania, de tudo, isso sempre vai ser uma conversa. Eu acho que eu vou ser uma mãe...
Eu não digo mãe amiga, porque eu tenho até... Você é zero mãe amiga. É, exato. Mas não é mãe amiga, o quê? Todo respeito. Nenhum respeito, gente. Mãe amiga, os filhos estão tudo aí. Sei lá, cada um tem essa história, sua dor, sua delícia. Não acho que eu vou ser mãe amiga. Mas você é uma mãe que conversa, que fala sobre tudo. Mas eu não quero também... Tenho esse exemplo da minha mãe. Acho que minha mãe fez um papel legal, tive uma criação legal, claro.
Dores e delícias, erros e acertos. Minha mãe não me aterrorizou, porque dá muito medo também de aterrorizar uma criança ao falar olha, o mundo é foda, filha. Isso eu não quero, porque eu quero que ela mantenha qualquer conexão com a magia, com o fascínio que é estar viva, que é viver. Então vai ser uma conversa, olha, tem gente ruim no mundo, mas eu tenho muito medo de aterrorizar. O terror é paralisante, né?
Eu tenho medo de aterrorizar também, porque eu tendo a aterrorizar. Porque eu tive uma criação muito aterrorizada. Então, eu tenho medo. Eu não tive uma criação muito aterrorizante, porque minha mãe... Aterrorizante. Eu fiquei depois pensando em aterrorizar.
Minha mãe, ela fez alguma coisa ali que ela... Olha, cuidado, mas também... Vá. Vá. É, eu chegava em casa de show, o show do Paralama é o sucesso, a gente alugava van, ia no Metropólito. Meus pais estavam dormindo. Eu lembro que eu...
o meu pai estava me levando e entrava antes da hora marcada pra ver o que eu tava fazendo que amor que amor mas aí cada um também vai ver a história do seu pai da sua mãe, o que aconteceu
Então, sei lá, não dá para julgar, cara, cada um com a sua maluquice, né? Meus pais estavam dormindo, então eu acho que dá para acreditar na confiança da palavra do que você passa, mas sem também proteger numa bolha e sem aterrorizar. É isso, porque a gente fala de muitas coisas horríveis, é terrível, né? O aumento do número da violência contra a mulher é terrível, mas a gente não pode só dizer que a vida é só isso.
para as nossas filhas. A gente tem que dizer também que no mundo tem gente legal, porque senão essas crianças já estão todas traumatizadas. A geração beta, quem está nascendo agora, estão dizendo até que essa geração vai ser a primeira geração que não é tão inteligente quanto os pais e as mães. É muito louco pensar isso. Toda geração acaba tendo avanços intelectuais do que a outra geração, mas isso já não vai acontecer. Já falam isso.
das telas. Estou tentando segurar. Celular. É uma loucura. Nem quem está perto fica perto. Então, já é uma outra geração. Então, eu não queria passar... Claro, não quero criar uma débil no sentido de não ter consciência. Uma pessoa sem consciência. Desculpa, não sei se pode falar débil. Que horror.
Mas uma pessoa desconectada com o contemporâneo. Uma pessoa desconectada com o que está acontecendo. Não é sobre isso, mas não quero que perca qualquer magia. Porque a vida tem gente legal, tem coisas legais acontecendo. Mas é difícil. É difícil, mas... E a música... Talvez eu esteja cheia de oxitocina também. A música te ajudou a regular a sua vida.
Totalmente. Se não fosse música... Eu ia trabalhar porque eu sou capricórnio, mas eu ia ser maluca. Você ia ser mais maluca. Eu ia ser mais maluca. Entendi o que você quis dizer. Eu ia ser mais maluca. E como é que você traz isso, essa música reguladora, como é que você traz isso para o que você está vivenciando hoje?
Pra Yoko. Ah, eu faço muita música pra ela. Todo dia eu faço uma música. Não sei se é boa, mas todo dia é, vamos, não sei o que, do banho. E aí, cada situação eu crio uma música. Vamos botar a roupa, vamos. Então, é muita criatividade, assim. Você sabe que vai vir um projeto aí, né? Todo mundo tá falando isso, eu não sei, Brasil. Vamos ver. Vamos ver.
Porque eu não sei se as músicas são boas. É muito bobo. Pum, cocô, gente de meleca. As crianças amam, eu sei. O hit lá de casa é a baleia que faz chuá, chuá. Chuá, chuá. Eu ainda não cheguei nessa parte. Não, mas você vai chegar. A gente ainda está só nas músicas autorais. Você vai chegar. Me conta, o que que Sad, Sexy, Silly Songs tem que você acha que contribui de alguma maneira para esse mundo de hoje?
Que forte. Será? Não sei. É uma pergunta tão ambiciosa. E eu sou tão macabeia.
Eu acho que contribui no sentido... Eis uma pessoa... O que te fez fazer esse disco, lançar esse disco? Eis uma pessoa que não relaxa no que parece seguro. Eu. Eis uma pessoa que se instiga, que se intriga.
Que é curiosa. Eu. Eu acho que, se for para deixar algum legado, pensem, caraca, olha a Letrux, que louca. Ela estava ali, três discos com a banda, a maluca vem e mete uma parada lá. É isso, sabe? Se for, faço que, cara, em menos de 70 anos, todo mundo já vai estar meio morto.
Amiga, você está sede, calma. Não, mas olha, eu estava falando que o mundo é legal. Mas é só para dizer que passa rápido. As minhas duas avós são vivas. Uma tem 95, outra tem 96. E elas falam assim, passa muito rápido.
Se a véia de 96 anos fala que passa rápido... Imagina. Eu acho que eu passei a ver que passa rápido com o filho. Total. Nossa, era um zigoto. Agora está uma bolinha comendo um pepino. Então, eu acho que em menos de 70 anos, a gente vai estar morto. Se você não fizer o que você deseja, o que sobra? Então, esse é o legado desse disco. Fazer o que você deseja.
Você está satisfeita com a mulher que você se tornou aos 44 anos?
Satisfeito é uma palavra bem louca, né? Porque tem várias coisas que eu fico, ah, devia mudar, devia mudar. Eu ainda me acho meio preguiçosa. Todo mundo vai falar, imagina, você faz mil coisas, mas ainda tem umas coisas que eu falo, ah, devia fazer mais, devia sair do celular, fazer vôlei. Eu me mudei para o que eu falei, vou fazer vôlei na praia. Cadê que eu consigo fazer um vôlei na praia? Estou lá há 10 anos falando isso. Nadar eu estou conseguindo.
Mar aberto. Mar aberto. Aí eu vou, volto, as tartarugas nadam comigo do meu lado, inacreditável. Você vai ver quando começar a nadar as águas-vivas.
Aí dá medo. A única vez que eu fui nadar mar aberto, eu fiquei com uma queimadura na coxa. Por enquanto foi só a tartaruga. Isso eu consigo, isso é maior. Mas o vôlei, eu queria ter mais força, não consigo. Então, estou satisfeita, mas, claro, questões sempre, questões serão para sempre, entendeu?
Estou num lugar que eu estou curtindo estar viva também. Tenho uma neném envolvida. E neném traz muita alegria, traz muita alucinação, delírio. É delirante ver um neném mexendo assim. A sua conexão com o espiritual depois da Ioco mudou?
Eu sempre fui muito forte nesse assunto, porque eu cresci na Umbanda, meu pé é médio, então tudo tem significado, tudo é um destino, tudo é não sei o quê. Mas eu acho que talvez tenha ficado mais... Flor da pele. É, mais arrepiante, tudo eu me arrepio, tudo eu acho que é um sinal, tudo eu acho que é alguma coisa. Pode ter a ver, sim.
Até a próxima, Letícia Novaes. Obrigada, Fabiane Pereira. Eu que te agradeço. E quero te dizer que eu achei esse disco mais do que bonito, porque bonito é uma palavra que às vezes é genérica demais. Mas eu gosto. Um disco bonito eu acho bonito. Eu acho que às vezes é genérica, mas eu achei um disco profundo.
Obrigada, muita gente falou isso Eu achei um disco que me Trouxe calma Que maravilha, eu adorei que você falou Meio mântrico, eu amei isso É um disco meio mântrico mesmo Vou sair usando isso E a história da maternidade É um disco
É um disco, é bom a gente falar, porque a gente também vai... Sim, elabora. É um disco para a gente chegar em casa. Porque a gente está num mundo tão ruidoso. Sim. E aí a gente chega em casa acelerado. É, ele... E aí você... Ele te aterra em casa, sabe? Eles te colocam naquela frequência gostosa. Que lindo.
Eu achei ele pouquíssimo sad. Pouquíssimo sad. Sex, eu também, eu não sei, eu tô nessa vibe, eu tô nessa vibe pouco hormônio, testosterona. Mais oxitocina. Mas é que como ele é bem dividido. Muito, ele é uma graça. Ele tem as músicas mais... Essa cidade é complicada. A música da Mamundi, ela tem uma gostosura. A da caligrafia também tem uma gostosura. Mas não é que é cega, é que pra cada um sexo é uma coisa, né? Então não é que é sexo, oh meu Deus, lingerie, não sei o quê.
É uma sensual lindagem ali que rola em algumas canções. Outras têm uma bobeira, bobeira no melhor sentido, como a gente falou. E tem outras que têm o violão mais dramático e menor, uma coisa mais para dar uma choradinha. Bom, eu vou falar, Valde, sempre, porque você vai sempre voltar. Eu te espero no próximo projeto, que seja breve. Saúde, obrigada. Saúde com água. Saúde mesmo. Saúde mesmo.
Você ouviu Vozes da Vez, com Fabiane Pereira. Oferecimento Natura Musical. Nos encontramos na música.
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