FRANCISCO ABENÇOADO, OU, O GÓTICO BRASILEIRO - UMA ESCRITA ALUCINANTE - PARTE 00
O entrecruzamento e hibridismo entre diversas culturas populares nos meios de comunicação de massa é um ponto razoavelmente pacífico na maioria dos pensadores, tanto da cultura quanto do pensamento de massa. Isso nos aponta que o uso desse universo popular em outras mídias é recorrente, podendo ser traçado desde o mundo antigo na produção atribuída a Homero. Assim, a ideia de uma alta e baixa cultura já foi há muito questionada e refutada por Umberto Eco em suas obras e em especial nas histórias em quadrinhos, se confirma e se expressa.
Nessa comunicação, com base nos conceitos de Marcia Hitomi Namekata e Bruno Bettelheim , iremos analisar alguns pontos da apresentação desse universo popular campestre no filme Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa , e sua reinterpretação do personagem para o cinema.
Para as referências, acessar: https://medium.com/@sombrionauta/francisco-aben%C3%A7oado-ou-o-g%C3%B3tico-brasileiro-apresenta%C3%A7%C3%A3o-2026-uma-escrita-alucinante-parte-3b00e7e03ec8?sharedUserId=sombrionauta
- A interpretação do Maurício de Souza como desenhista de terror e o Gótico BrasileiroMaurício de Souza·Gótico Brasileiro·Francisco Abençoado
- A reinterpretação do filme Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa como terrorChico Bento e a Goiabeira Maravilhosa·Narrativa de terror·Familiaridade horror
- A cultura do trabalhador rural no Brasil e a incompreensão de suas necessidadesTrabalhador rural·Cultura·Bolsa Família
- O conceito de nacionalidade de Florestan Fernandes e o choque cultural da escolaFlorestan Fernandes·Nacionalidade·Escola·Folclore
- A tese de Lovecraft sobre a escrita como um transe que leva à loucuraLovecraft·Escrita·Transe
- A distinção entre terror e horror e a filosofia por trás delesTerror·Horror·Filosofia do Terror
Sombreonauta apresenta Francisco Abençoado, ou o Gótico Brasileiro. Algumas observações sobre cultura popular no filme Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa de 2024. Apresentação feita nas 10ª Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da ECA, no dia 21/08/2026.
Uma escrita alucinante.
Introdução. Antes de continuar, agradeço se puder compartilhar, curtir e se inscrever no canal deste podcast.
Eu partilho o princípio que vocês não compreendem nada sobre Maurício de Souza. Certo, meu tema é simples. Eu vou pegar uma ideia que aparece recorrente nas histórias em quadrinhos do Chico Bento chamada Francisco Abençoado. Qual é o problema de analisar isso? Ou o Gótico Brasileiro? Maurício de Souza nunca se propôs a fazer humor. Ele era um desenhista de terror. Por isso que eu perguntei certas coisas. A minha tese básica é: ele nunca deixou.
É que falta alguma coisa a vocês para entenderem. Coisas que as pessoas não compreendem. Primeiro, as pessoas não compreendem o que é um intelectual que não nasceu na intelectualidade. Ele só tem 3 destinos: não se tornar intelectual; segundo, virar professor; terceiro, virar um burocrata. Aí tem uma coisa sobre virar burocrata: onde Eros e Demétrio falham, o burocrata vence. Se você estudar burocratas escrevendo, eles querem destruir mundos.
E um deles é o Mário de Andrade. Há uma coisa sobre escrever: se você escreve muito e bem, Você começa a entrar em transe. Essa é a tese do Lovecraft. Se você for ler outras coisas sobre isso, por exemplo, ler aquele delicioso autor de novelas, ele tá enlouquecendo. E à medida que ele vai escrevendo enlouquecendo, a escrita dele melhora. É a tese do Mário de Andrade. Não esqueçam que o Mário de Andrade se dedicou junto com o Florestan Fernandes a fazer uma coisa terrível.
O que acontece se eu fundir as duas culturas? Foi pegar a cultura da Itália e juntar com a minha própria cultura. Essa proposta do Mário de Andrade que quase enlouqueceu ele. Ou não. Com certeza enlouqueceu demais. Então o grande problema é: Enchi com Vento a Goiabada Maravilhosa é o melhor filme da Maurício de Souza Produções. Por quê? Porque o pessoal não conseguiu entender o que tava vendo. A narrativa de terror tem uma coisa: você não percebe o que tá acontecendo, né?
A graça de você sofrer sobre o horror, diferença básica. Terror: o ente humano te força a fazer um escorro. Horror: o ente sobrenatural. Essa grande diferença que aparece em Filosofia do Terror. Leia esse negócio, você vai entender. Quando você vai lendo do vento tem algo estranho nele. E ele começa a introduzir um problema de familiaridade horror. Você só teme aquilo que você reconhece, e teme mais quando diz: isso que eu estou vendo sou eu, né?
Se você fugir, você se torna o que você tá vendo. Todo filme de terror no fundo só diz isso: isso que você tá vendo quer te devorar. E como você quer ser devorado? Não quer. Então, à medida que a gente vai estudando o personagem, você tem que entender que a narrativa popular trata o mundo de uma maneira diferente. Por exemplo, a foto que vocês estão vendo são narradores sobre Canudos, e justamente sobre como canudos eram interpretados de fato diferente do que a história normalmente vem a ver.
O pessoal vê canudos basicamente como o quê? Que é um bando de caras que foi enganado por um louco. Se você pega os relatos, eles vão dizer o seguinte: mas ele era um perdedor como nós. Quando perdeu, chamou, nós fomos atrás. Há uma coisa muito interessante sobre o que vocês acham que é um homem do campo. Não existe campo no Brasil, existe trabalhador rural. Então aplicar a ideia camponês não funciona. Só tem uma coisa que esse tipo de gente tolera: trabalho.
O trabalho É o que ele é. Ele começa a se fundir ao local. Você quer acabar com o nortista? Você tira o trabalho dele. Por isso que ele teve uma luta recente contra o PT, porque o PT tava querendo dar Bolsa Família pro nortista. Isso é escravizar ele. Não é um problema de direita e esquerda. É um problema de você não entender que a cultura dele é outra coisa. Então, à medida que a gente vai vendo essas coisas, eu vou trabalhar com o quê?
Com a ideia de nacional do Florestan Fernandes. Todo mundo aqui conhece o professor Florestan Fernandes, que foi alfabetizado já idoso. Entenda uma coisa: a escola tem como função básica que você entre e lentamente odeie seu pai e sua mãe. Toda a cultura deles no campo deve ser esmagada, destruída, e vai ser reduzida a um conceito preconceituoso chamado folclore ou folk. Florestan foi tarde demais, ele já era muito velhão, então não podia ser tirada dele.
A escrita causou um trauma nele, como vocês viram algumas frases. O Florestan Fernandes sempre foi um homem em choque consigo mesmo. Como resolver isso? E nunca resolveu. Mas ele criou um conceito de nacionalidade muito bom. O que é nacionalidade? Basicamente, um local definido por uma força política, e aquelas culturas que aparentemente estão em conflito não estão em conflito. Elas vão chegar num acordo, nem que o acordo seja você morre, eu fico vivo, mas alguma coisa vai acontecer.
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