Aluno da Unesp descreve estudo sobre obra de Ana Paula Maia, autora indicada a prêmio importante na área de literatura
Jorge Luiz Menezes Adas
Nilce Pereira
- Obras de Ana Paula MaiaO Interreceu os Mortos · De Cada 500 Uma Alma · Búfalo Selvagens · Assim na Terra como Embaixo da Terra · Poética da brutalidade
- Análise da condição humanaFalências estatais · Falências morais · Falências religiosas · Banalidade do mal · Necropolítica
- Prêmios literários Ana Paula MaiaPrêmio São Paulo de Literatura · International Booker Prize · Padma Viswanathan
- Teóricos do grotescoMikhail Bakhtin · Wolfgang Kaiser · Victor Hugo
Podcast Unesp. Neste episódio do Podbilce, o entrevistado é Jorge Luiz Menezes Adas, aluno do curso de licenciatura em Letras e que desenvolve pesquisa de iniciação científica na área de literatura brasileira, sob a orientação da professora Cláudia Maria Seneviva Nigro, do Departamento de Letras Modernas do IBILCE.
Jorge descreve em detalhes o estudo, no qual enfoca em particular o elemento grotesco nas obras da autora Ana Paula Maia.
Bom, na minha pesquisa atual, eu trabalho com três obras da autora brasileira Ana Paula Maia, sendo O Interreceu os Mortos, de 2018, De Cada 500 Uma Alma, de 2021, e Búfalo Selvagens, de 2024. E essas três obras compõem a chamada Trilogia do Fim, que vai marcar uma continuidade no projeto literário da autora. Ela publica o seu primeiro livro em 2003, chamado O Habitante das Almas Subterrâneas.
E em 2018 e 2019 ela vai conquistar uma dobradinha no Prêmio São Paulo de Literatura, um dos principais prêmios literários aqui no Brasil, com o livro Assim na Terra como Embaixo da Terra e com Interesseus Mortos. E hoje em dia ela está em bastante evidência, principalmente por conta da indicação à final do International Booker Prize, que é o principal prêmio de literatura traduzido no mundo, concorrendo com Assim na Terra como Embaixo na Terra, que foi traduzido pela Padua Viswanathan.
que já tem uma experiência traduzindo obras brasileiras. Ela traduziu Graciliano Ramos e a Djamila Ribeiro. Eu estou torcendo muito para Ana Paula Maia, porque o Brasil ainda não possui nenhuma conquista no International Booker Prize. Já tivemos alguns autores, como o Paulo Scott, como o Itamar Vieira Jr. e o Raduana Sark, que são excelentes autores, que nunca ganharam o prêmio. Então eu espero que a Ana Paula Maia e a Padma tragam esse prêmio para o Brasil.
curiosidades a parte, vou falar um pouquinho agora da minha pesquisa, como eu já mencionei a trilogia vai marcar uma continuidade no projeto literário da autora, e alguns pesquisadores que já trabalharam com as obras dela dizem que esse projeto é marcado por uma chamada poética da brutalidade mas o que vai ser essa poética da brutalidade?
Como características principais, a gente vai ter a linguagem direta e visceral. Nas obras da Ana Paula Maia, a gente consegue ver frases muito curtas, uma linguagem muito cinematográfica empregada ali nas obras. E não só essas frases muito curtas, mas um vocabulário muito carregado de itens pesados. Sangue, partes de corpos, descrições extremamente vívidas de situações grotescas. Grotesco, eu vou acabar mencionando mais pra frente.
Outra característica são traços de animalização e desumanização nas personagens. Os personagens muitas vezes são comparados a animais. E também a violência é banalizada. Nós temos diversas cenas extremamente violentas ocorrendo em cenários totalmente diferentes. E por conta dessas características, eu analiso a condição humana nessas obras a partir da estética do grotesco. É interessante, se a gente for para qualquer adicionário, a gente vai ver que o grotesco vai causar um...
riso, aversão, ele vai ser ridículo e é considerado esquisito. Só que se a gente for analisar os principais teóricos, né? Eu tô trabalhando com os três principais, que é o Mikhail Bakhtin, o Wolfgang Kaiser e o Vitor Hugo, a gente vai ver que a definição de grotesco não é tão simples quanto parece, né? O grotesco vem desde a época das grotas, né?
A etimologia vem justamente das cavernas, das grotas italianas. E o Bakhtin, por exemplo, vai trabalhar com o lado mais festivo do grotesco. Ele vai analisar a obra do François Rabelais na Idade Média e no Renascimento e vai trazer muitos traços festivos para o grotesco. Já o Kaiser, principalmente o Kaiser, vai trabalhar com o lado mais sombrio do grotesco. Que o mundo, ele usa o termo o mundo aliado, o mundo estranho. O mundo já não passa a ser o mesmo. As personagens começam a estranhar esse mundo em que vivem.
E o Vitor Hugo vai trabalhar muito a arte moderna em contrapartida com a arte antiga. A arte moderna vai ser a arte que vai mesclar o grotesco e o sublime, elementos do feio, elementos do belo, para criar esse contraste. Então a minha pesquisa vai investigar justamente como a estética do grotesco vai servir como uma ferramenta para refletir a péssima condição humana descrita nas obras.
Por exemplo, no primeiro livro eu trabalho com a ideia das falências, a falência estatal, a falência moral e até a falência religiosa. Eu trabalho bastante como a estética do grotesco vai fomentar essas três falências, não só a estética do grotesco, mas como toda a descrição, como essa linguagem visceral, essa linguagem direta, vai promover a ideia das falências. Em breve, acho que mais ou menos em junho, julho até setembro, deve sair meu artigo que eu trabalho com esse primeiro livro.
E no segundo livro vai ser uma sequência direta, bem direta mesmo, do primeiro livro. Eu trabalho, como é uma narrativa em um cenário apocalíptico, eu trabalho com dois suportes teóricos da sociologia, que é a banalidade do mal, da Hannah Arendt, e da necropolítica, do Achille Mbembe, para trabalhar como que é a condição humana, principalmente nesse cenário apocalíptico. Como que as forças estatais atuam nesse cenário apocalíptico.
Bom, pra fechar, eu digo que a obra da Ana Palamai é bem diferente do que a gente tá acostumado, né? Ela traz um cenário bem desolador, um cenário bem catastrófico nas obras dela. E ela é bem diferente, né? Existe sim o tom crítico nas obras dela, só que não um tom direto tal qual como alguns outros autores que a gente tem.
A gente tem um trabalho mais voltado para uma linguagem cinematográfica. Alguns autores vão trabalhar com um estilo bem Pulp Fiction, muito voltado para a cinematografia do Quentin Tarantino, por exemplo. Então é uma obra que merece atenção nossa, não só porque ela está sendo premiada, mas também porque é uma obra muito boa.
A obra do Napalamaia, sim, eu sou suspeito pra falar porque trabalho com ela, mas eu recomendo, assim, de olhos fechados, pra quem não tem problema, obviamente, de ler obras que têm uma violência explícita, muito explícita, situações muito desconfortáveis. A gente tem mortes muito pesadas, mortes de pessoas, assim, que acontecem de uma forma muito brutal, a descrição é muito visceral, como eu já mencionei. Pra quem não tem problema de fazer essa leitura, é uma autora que eu recomendo demais que vocês leiam.
E viva Ana Paula Maia, viva a literatura brasileira, nós temos narrativas incríveis contemporâneas que sim merecem ser reconhecidas pelo público geral. Nilce Pereira, da Unesp de São José do Rio Preto, para o Podbius. Apoio Faperp, Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de São José do Rio Preto. Podcast Unesp.
CEFERP
Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de São José do Rio Preto