Episódios de Desculpa Alguma Coisa

Cecilia Malan fala da relação com a família, divórcio, carreira no jornalismo e novo livro

06 de maio de 202653min
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No episódio de hoje do Desculpa Alguma Coisa, Tati Bernardi recebe a jornalista e escritora Cecília Malan. Ela falou do seu livro “Eu e Elas”, da boa relação com a família e da entrevista emocionante com Gisèle Pelicot. Filha do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, a jornalista conta como foi ingressar na profissão e o apoio que recebeu da família após o fim do seu casamento com um francês. Ela também fala do seu livro inspirado na foto com a filha nos estúdios Globo, em Londres, que viralizou nas redes sociais e a necessidade de dar voz às mulheres que, assim como ela, são mãe e às vezes não têm com quem deixar os filhos para sair e trabalhar. #tatibernardi #DesculpaAlgumaCoisa #ProgramasCanalUOL #t2e98

Participantes neste episódio1
C

Cecília Malan

ConvidadoJornalista
Assuntos7
  • Livro Eu e ElasMaternidade e rede de apoio · Mulheres trabalhadoras · Histórias de mães solo · Gisèle Pelicot
  • Entrevista com Gisèle PelicotViolência doméstica · Abuso sexual · Resiliência e perdão · Gisèle Pelicot
  • Prêmio RBS de JornalismoJornalismo internacional · Estágio na Globo · Renato Machado · Renata Vasconcelos
  • Pauta Identitaria e CulturalInfância nos Estados Unidos · Bilinguismo · Brasília · Plano Real
  • Elegância e JornalismoComportamento e postura · Comunicação cativante · Doçura e humanidade
  • Autoconhecimento e TerapiaImportância da terapia · Privilégio e bem-estar
  • Dicas culturaisDocumentário Band on the Run · Livro e filme Hamnet
Transcrição143 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá, vai começar mais um Desculpa Alguma Coisa. E hoje eu estou com ela, que é jornalista, correspondente internacional da TV Globo em Londres. Ela é elegantérrima, gata, bonita demais. Chegou aqui, ah, estou com a cara lavada, já era 200 vezes mais bonita do que eu, depois de 20 horas de maquiagem. Ela é mãe da Olímpia e agora ela é escritora. Escreveu esse livro aqui, muito legal, a gente vai falar muito sobre ele.

Cecília Malan, muito legal que você está aqui. Prazer é todo meu, Tati. Uma honra, muito chique ter você aqui. Vamos começar falando sobre esse livro que tem uma história linda. Você entrou ao vivo no programa. Qual que era o programa? O Bom Dia Brasil.

E a sua filhinha tem até a fotinho aqui, a capa é uma ilustração de uma foto que viralizou na internet, né? Você postou no Instagram uma foto em que você precisou entrar ao vivo e a sua filha estava grudadinha na sua perna. Exatamente. Tudo começou com essa foto, Tati. Foi em dezembro de 2023, eu acordei sem rede de apoio, ela desmoronou da noite para o dia, como acontece com tantas mães que trabalham.

E ou eu não ia trabalhar ou eu levava a pequena comigo embaixo do braço. Ela tinha quatro anos e pouco. E ela estava de férias escolares. Então, não tinha escola, não tinha para onde levá-la. E não tive dúvida. Falei, bora. Levei um monte de coisa de casa, brinquedo, bichinho de pelúcia para ela se entreter.

E fomos. E ela me viu entrar primeiro no Hora 1, que eu faço normalmente os jornais da manhã, o Imponto, da Globo News, depois o Bom Dia Brasil, e eu tinha falado pra ela, olha, mamãe vai entrar ao vivo quatro vezes. E de fato entrei. E esqueci que eu tinha um despede no final do Bom Dia Brasil. Então na cabecinha dela, eu já tinha feito minhas quatro, já aguentei aqui quietinha.

Vou lá correr e dar um abraço na minha mãe. Mas eu ainda estava ao vivo. A Ana Paula Araújo, apresentadora do Bom Dia Brasil, estava me chamando. Eu senti o abraço e sabia que a câmera só me pegava até a cintura. Então, que ela não ia aparecer em quadro. Aí, abracei ela. Ela ficou quietinha. Acho que ela sentiu, assim. E terminou tudo bem. Respirei super aliviada depois. Mas começou com isso. Aí, uma produtora, super amiga minha... E aí

captou o momento, tirou essa foto. Eu gosto da foto. Até esteticamente nem é das mais bonitas. Sim, mas o momento ele indica. O cinegrafista atrás não aparece o rosto dele, tem uma cadeira em primeiro plano, mas eu acho que ela diz muito. E eu quis guardar esse momento. Eu uso o meu Instagram um pouco como um álbum de fotos. Então, para ver num futuro distante, relembrar momentos bons, não tão bons, mas, enfim, ajuda.

Me ajuda a me situar no tempo, o que eu fiz a cada momento. E postei. E fiquei muito surpresa e muito comovida, genuinamente, com a repercussão que teve e que eu não esperava de forma alguma. Milhares de mensagens de mães brasileiras, país afora.

me mandando não só mensagens dizendo, nossa, quem diria, você aí em Londres e eu aqui, também levando a minha filha para o trabalho, me senti representada, me identifiquei de alguma maneira. Isso chegou para você pelo Instagram? Pelo Instagram, tanto em comentários abertos como mensagens diretas.

E muitas começaram a me mandar fotos delas com os filhos. Que coisa... Nas situações mais diversas, Tati. Então, tinha, assim, diretora de empresa numa reunião de conselho com um filho pequeno embaixo da mesa. Enfermeira em hospital com a filha no corredor. Caixa de supermercado com o filho do lado ajudando a embalar os produtos.

Eu falei, gente, isso é incrível. Tem uma coisa aqui. Falei, não é possível que independa de onde a gente mora, da nossa profissão, que todas nós passamos por situações tão similares. De emoções, de sensações, de aflições, de angústias. Quem que era a tua rede de apoio? Você falou que caiu naquele dia?

Naquele dia especificamente Eu tenho uma babá que ficou doente Acontece, não pôde ir Eram seis da manhã Eu não ia ligar pro meu ex-marido O pai dela, não sei como é a agenda dele Ele mora em Londres Mas confesso que eu nem pensei nessa possibilidade Porque até explicar tudo era mais fácil Já pegar e levar comigo

E a sua mãe vai muito pra Londres também? Minha mãe vai muito pra Londres, mas nesse dia eu não tava lá. Então, que é com certeza com quem eu mais conto nessa vida, o apoio da minha mãe que passa a maior parte do ano em Londres nos ajudando. Mas foi isso, foi um caso que não tinha ninguém, não foi a primeira vez.

Já aconteceu de novo depois, não será a última. E eu tenho a sorte de ter colegas extremamente acolhedores. No trabalho. No trabalho. Ela ficou lá e... Ela ficou o dia inteiro. Foram oito horas de trabalho e lá ela ficou. Ela ficou o dia todo. Ela ficou o dia todo. É.

E ela curtiu? Ela adora, porque o bom é que ela já conhece todo mundo, então ela se sente à vontade. Aí eu olhava assim, ao vivo olhava de canto de olho, ela estava jogando aviãozinho de papel com o editor de imagem ou desenhando com uma outra produtora ou com um cinegrafista. O chefe do escritório à época é um grande amigo meu e ele...

Ele é, inclusive, padrinho da Olímpia, então eles têm uma conexão linda. Aí ficavam rodopiando, ela mostrando as poses do balé, ele imitando. Enfim, foi... Aqui ela tá com uma roupinha de balé. Ela tá com um tutu de balé. Ela se veste já há muitos anos. Eu não tenho nenhuma autoridade de se sentir.

E foi essa a história. E aí, meses depois, ou até quase um ano depois, conversando com uma amiga querida, que também é jornalista, que também é mãe solteira, falou, Cissa, isso dá um livro. Você tem que ouvir essas mulheres. Se lança, se joga nisso.

E você já tinha uma vontade de fazer um... Já tinha passado? Eu sempre me interessei por mães. Depois que eu virei mãe, eu sempre adorei ouvir histórias de outras mães, entender, aprender. E ela plantou essa sementezinha, assim, aproveita essa oportunidade. E aí começou o processo de entender até logisticamente como escolher essas possíveis entrevistadas, como entrar em contato.

como a estrutura do livro. Você contratou uma pesquisadora? Não, eu fiz tudo sozinha. Fui entrando nos perfis, bisbilhotando a vida alheia. Claro que muitos perfis fechados, então esses eu tive que descartar. Mas nas bios já falavam. Mãe de... Dava os nomes dos filhos. Mãe solo.

tinha lá algumas, já falavam suas profissões, ou as suas cidades, estados, aí fui montando um raio-x de Brasil. Nesse livro são 21 mulheres, todas são mães solo? Não, tem de tudo. Tem de tudo. Tem mãe casada, divorciada, mãe solo, mãe com mãe, tem até duas meninas, duas mulheres que não são mães ainda, mas que flertam com a ideia.

Eu vi, eu passei por algumas histórias e eu vi muitas falando da própria mãe. Impressionante como a maternidade traz a nossa mãe, né? Claro, claro. E isso que foi tão gostoso, porque assim como você, eu gosto dessa troca, eu gosto de entrevistar. É a parte que eu mais gostei do livro, inclusive.

E eu começava cada conversa com uma pergunta e terminava com a mesma pergunta. Mas a conversa em si ia levando o seu rumo. E alguns assuntos recorrentes voltavam, mães sendo uma delas. A relação da nova mãe com a sua mãe, a relação da avó.

Duas histórias me pegaram muito. Me lembrou até, não sei se você viu o filme novo dos irmãos Dardene, que chama Jovens Mães. Não. Vai mexer com você. Você que acabou de lançar esse livro, me lembrou um pouco. Porque tem isso no Jovens Mães. Mexeu muito comigo a história da mulher que se torna mãe, mas ela própria foi abandonada pela mãe dela. Isso tem nesse filme também e é a história do filme que mais mexe comigo.

Tem duas que foram abandonadas. E tem uma outra que, quando engravida, descobre que a mãe tem câncer. Que também é outra. Impressionante como a gente fala da nossa mãe quando a gente... Eu só falava da minha mãe quando eu fiquei grávida. Eu também. Ainda só falo.

É muito fofo. Não, porque a gente passa a entender tanta coisa. Ela já foi jornalista, assim como meu avô materno, meu irmão mais novo. Então, é uma profissão que corre no sangue da família. Ela se reinventou lá para os 50 anos de idade, virou corretora imobiliária, um segundo ato. E é a avó mais... A Olímpia resume bem, ela fala assim, a vovó deixa eu fazer tudo.

Ah, entendi. Ela é aquela... Aquela que não tem limite. Que não tem limite. Generosa. Minha mãe é uma contadora de histórias. Então, eu sinto que ela deriva um prazer enorme de contar histórias do passado, rememorar o passado, falar das...

das memórias afetivas dela para a Olímpia, que é uma excelente ouvinte. Então, minha filha fica ali ouvindo, se alimentando com essas histórias do passado da minha mãe. É uma relação muito bonita.

E ela vai muito pra Londres ou ela mora uma parte? Ela mora em Londres, ela se mudou pra Londres. O dia que eu avisei os meus pais que eu ia me separar, eles chegaram na cidade no dia seguinte. Eu tenho o privilégio de ter essa rede de apoio magnífica, rede de afeto dos dois. Sempre contei muito com eles. E aí meu pai voltou e ela falou, ah, quer saber, vou ficar.

E a sua vida tinha que idade? Menos de um. Era bem neném. Bem neném. Decidi me separar em plena pandemia, pleno lockdown em Londres. O timing não foi dos mais apropriados, mas é uma coisa que eu senti que eu precisava fazer. E sinto que foi a decisão certa. E aí ela foi ficando.

Não vou reclamar, né? É uma super ajuste. E ela mora com vocês. Ela é agente imobiliária, como eu disse. Ela alugou o apartamento no fim do corredor. Gênia. Gênia. Então, temos a nossa privacidade, mas eu abro a porta.

grito socorro, ela vem correndo. E ela mora, o que? Metade do ano lá? Não, ela fica a maior parte do tempo. Ela vem ao Brasil, fica três meses e depois volta, porque tem um irmão mais novo aqui que sente muita falta dela, que fica pedindo para que ela volte. Eu já falei para ele que ela vai voltar o dia que ele decidir ter um filho. Então, para ele apressar logo isso. Tem alguém mais novo, tem alguém mais novo, ainda que é a sua filha. E o seu pai com isso?

Eles estão casados há 50 anos, Tati. Então, eles têm lá o entendimento deles. Eles se falam todos os dias, morrem de rir um com o outro. Eles têm uma parceria, assim... E ele vai bastante também. Ele vai bastante também. Ele ia muito a trabalho. Agora ele está... Não posso nem dizer desacelerando, porque ele continua incrivelmente produtivo para um homem de 83 anos. Incrível. É. Mas ele vai bastante para ver a filha. Não.

mentira, não é pra ver a filha, é pra ver a neta, eu já me conformei com isso, entendo que é a pessoa mais importante, mas também vejo que ela claramente...

rejuvenesceu e reenergizou os dois. Então... É a primeira neta? É a primeira neta da minha mãe com o meu pai. O meu pai tem um filho do primeiro casamento e ele tem uma filha de 18 anos agora, que é um espetáculo. Entrou agora para o direito na UER. Você nasceu onde? Eu nasci no Rio. É. E aí fui morar nos Estados Unidos com quatro meses.

Por causa do seu pai. Por causa do meu pai. Foi trabalhar nas Nações Unidas, em Nova York. Então, eu fui criada lá. Passei os primeiros 14 anos da minha vida nos Estados Unidos. O inglês é a minha primeira língua. Eu ainda sonho e faço contas em inglês. Mas o português é a minha língua emocional.

Então, os seus pais falavam em português? Sempre, sempre. Então, eu gosto de brigar em português, não em inglês. Mas, é... Então, é curioso ver que agora a minha filha também está sendo criada fora do Brasil, também está sendo alfabetizada em inglês. Percebo já que a língua emocional dela é o português quando ela tem um pesadelo, ou quando acontece alguma coisa na escola, ela vem me contar em português. Então, esse elo continua forte, que é muito importante para mim.

Nossa, que interessante Quando ela tem alguma questão Ela conversa no dia a dia Ela conversa em inglês com você? Eu falo só em português com ela Mas agora que ela já está há alguns anos na escola O inglês virou a língua Mais do dia a dia dela Então eu percebo assim, quando eu busco na escola É inglês, ela vai falando inglês Vai falando inglês e eu respondo em português Aí quando a gente chega em casa, já baixou um pouco a adrenalina Já reencontrou as coisinhas dela Aí ela já vai passando pro português Aí no fim da noite já E aí

E em que momento ela... E francês ela fala com o pai. Ela fala com o pai. E nesse sentido, o divórcio ajudou, porque eu e ele falávamos uma mistura de inglês e francês. E aí agora, na casa dele, é só francês. Então, o francês dela, ela já tá fluente nas três... E vocês têm uma... Vocês têm uma divisão, assim, ele fica com ela alguns dias da semana? Como que...

Ela dorme com ele dez dias no mês. Então, a maior parte do tempo é comigo. Mas é um excelente pai. E é um pai presente. E eles têm uma relação divertida. Então, eu acho...

Não posso privá-la disso. Então, por isso que o nosso futuro é em Londres. E até é uma cidade neutra, porque não é nem a França, nem o Brasil. Então, acho que funciona. E ele também vai morar em Londres por bastante tempo. Ele não tem ideia de... Ele adoraria voltar para a França, como qualquer francês. Mas a gente tomou essa decisão juntos.

E aí você mora até que idade? Seu pai se muda para... Aí o papai ficou quatro anos nas Nações Unidas, em Nova Iorque. Aí depois fomos para a capital, Washington. Fiquei quase dez anos lá, porque ele trabalhava no Banco Mundial. E aí ele ficou numa ponte aérea Brasília-Washington durante uns anos, porque ele veio para renegociar a dívida externa, foi presidente do Banco Central.

começou a implementar o Plano Real e ele sempre falava assim, não, mas é temporário, é temporário. Então a gente ia ficando. Aí um dia minha mãe falou, ah, chega disso, não é temporário coisa nenhuma, vamos todos a Brasília. Então eu fiz o segundo grau em Brasília. Caí de paraquedas lá com um super sotaque americano.

mal sabia ler e escrever em português porque meus pais simplesmente não pensaram nisso nossa caramba, e aí como foi? foi insano não voltaria a morar em Brasília você chegou lá em qual série? cheguei com 14 anos que é uma época difícil em qualquer lugar seja na cidade onde você foi criada com seus amigos da vida toda seja numa cidade nova onde você está tentando se reinventar

Foi um período complicado, mas fiz bons amigos que eu tenho até hoje, mas acho que eu nunca mais voltei. E você ficou quanto tempo? Quatro anos. Quatro anos. Aí me formei. Na época do Plano Real, você tinha que idade? Essa idade, 13, 14, 15. Foram oito anos que o papai foi ministro. Ministro da Fazenda. É.

E aí você, porque eu lembro assim, Pedro Malan, Pedro Malan só se falava, né? E tinha uma... Como que foi essa época pra você? Eu acho curioso ter virado jornalista depois de ter vivido essa época em Brasília, porque o papai tava muito...

em destaque na imprensa, dividir opiniões. Acho que com o tempo, talvez, as pessoas vão reconhecer o que foi feito pelo Brasil à época. Eu sou uma que já reconhece.

Me dá muita aflição quando eu vejo uma geração muito mais nova. Não sabe o que significa o plano real. Nunca viveu a hiperinflação. Mudou a vida da minha família. Mudou a vida dos brasileiros. Um dos quartos maiores da minha casa era de estoque de comida.

Porque a gente não sabia se o açúcar ia estar cinco vezes. A minha infância era... A dispensa era a coisa maior, assim. É, porque você ganhava o salário, saía correndo para comprar. Você não sabia se era o dia seguinte. Aquela barulho da maquininha ali, né?

trocando de preço e não permitia as pessoas fazer planos você não sabia onde a situação econômica sua, individual e do país ia estar em poucas semanas e meses, então claro que como filha eu tenho um orgulho enorme acho que foi uma época que o governo brasileiro principalmente em grande parte o Ministério da Fazenda foi composto por o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí o Ministério Daí

burocratas, tecnocratas, não eram políticos, eram pessoas que tinham larga qualificação para o trabalho que tinham. E foi uma época muito rica de ideias, de visão de país.

muito orgulho, tem que ter eu tenho muito orgulho mas era uma época de assédio em cima do seu pai você tem uma lembrança você tem voz de jornalista dessa época eu tenho uma lembrança maluca, assim a gente tá jantando e aí passou alguém vendendo rosas, e meu pai comprou uma rosa pra mim, fiquei toda ali feliz com o gesto e aí saiu em alguma coluna assim, malã, visto jantando com amantes, sabe esse tipo de dit

E assim, eu adolescente, 16, 15, 16 anos, sabe? Então, assim, muito invasivo. Mas isso não é o jornalismo sério. Então, eu convivi com jornalistas incríveis à época, que conviviam com meu pai também.

Sua casa tinha esse movimento de pessoas inteligentíssimas? Sempre teve. Sempre teve movimento de amigos dos meus pais, de conhecidos dos meus pais. Desde a época nos Estados Unidos, eu sempre gostei de fingir que eu estava dormindo no sofá só para ficar ouvindo as conversas dos adultos. Então, sim, foi uma vida muito privilegiada nesse sentido de contatos interessantes, de pessoas com uma troca de ideias ricas.

É, mas continuo achando curioso eu ter entrado para o jornalismo depois dessa experiência. Mas nunca jornalismo econômico ou político, menos ainda. Mas o jornalismo veio na época do vestibular, eu queria fazer arquitetura, prestei para a arquitetura, não passei.

E a segunda opção era jornalismo, visto que avô, mãe, também foi criada numa casa com pilhas de jornal. Então, sempre tive esse exemplo da leitura do jornal, do hábito de se informar, da curiosidade pelo que está acontecendo.

para além da nossa Cuscasas e de ter sido criado lá fora também em contato com eventos mundiais então acho que foi um caminho bem natural entrar para o jornalismo e focar especificamente no jornalismo internacional que é o que eu amo então

E aí, o convite para você ser correspondente internacional veio em que momento? Veio depois de seis anos de casa na Globo. Eu entrei como estagiária, ainda estudando jornalismo na PUC. Passei para o programa estagiar da Globo, que a época era a única porta de entrada. Acho que ainda é, para quem está começando na carreira.

Então, uma série ali de... Um processo de seleção, uma série de etapas, e virei estagiária do Bom Dia Brasil. Na época, comandado pelo Renato Machado, Renata Vasconcelos, também na apresentação, ele e um... Vocês ficaram amigas, né? Super.

amo de paixão. Eu vi uma foto bem bonita de você. Ela é muito querida, acho ela um excelente profissional e o Renato, um mestre do jornalismo brasileiro uma exigência absoluta com texto, com até hoje eu lembro, eu escrevendo os textos em Londres e penso assim, não, o Renato não ia gostar dessa palavra, vou trocar.

É impressionante como tem essas pessoas que marcam. Total. É muito importante. E essa troca, eu acho, de profissionais mais experientes com quem está entrando também é fundamental. Então, eu vejo com muito pesar as redações ficarem cada vez mais jovens. Eu sinto falta do cabelo branco. Sim. Ali nos transmitindo. Desses mestres, né? Desses pessoas que sabem. Mas você tem sentido... Tem sentido menos.

Mas você acha que é uma questão de etarismo, assim? De estarem substituindo... Não sei se é etarismo, não sei se é uma questão financeira. Não sei. Ou se é o ciclo normal. Daqui a pouco sou eu. Deve ter gente já que olha. Já, já. Ai, massa, Cecília já tá lá bilênios.

Tem uma senhora lá com quem eu aprendo muito, né? E ela é super jovem. E aí, esse momento, assim, de mudar completamente de vida, como foi pra você? Chegou esse convite? Você já queria muito? Chegou esse convite depois de seis anos de Bom Dia Brasil, que foi uma escola, assim, é...

É onde você realmente aprende, botando a mão na massa, errando e vendo colegas de altíssimo nível. Aí fizeram o convite para ir como produtora para Londres.

É um convite que você não recusa. Mas, curiosamente, à época eu tinha acabado de começar um mestrado na PUC, tava indo morar sozinha pela primeira vez, tava num relacionamento sério, então foi uma... Deu uma bagunçada na vida. Larguei o curso, fui morar sozinha em Londres, não mais no Rio. Larguei o namorado. Larguei o namorado, o curso. E fui.

Eu acho assim, muitos brasileiros vão a Londres a trabalho para...

ter outras experiências para melhorar a vida, para mandar dinheiro de volta para o Brasil. Conheço vários que sofrem com essa mudança, com essa transição. Para mim, não foi mais fácil, no sentido de que eu já tinha morado fora há muito tempo, domino a língua. Então, a chegada não foi sofrida. O que foi muito novo para mim é que logo depois veio o pedido para começar a fazer vídeo.

E eu tinha ido como produtora. E eu lembro de perguntar ao diretor de jornalismo na época, assim, mas vocês vão me treinar, né? Porque eu nunca fiz um vivo na vida, nunca gravei uma passagem na vida. Não, não, você vai aprender fazendo. Então, isso foi absolutamente aterrorizante. E pegou num lugar de timidez. Total, eu sou super tímida. Isso daqui pra mim é assim. Tô totalmente fora da minha zona de conforto. Você não estudou jornalismo pra tá assim, então, a tua cara. Você queria escrever.

Nem tem isso, você não estuda jornalismo Não deveria ter Estudo jornalismo pra ficar famosa Não, não, não é famosa Mas tem gente que vai pra faculdade Pensando, meu sonho é ser âncora Meu sonho é ter o jornalismo Que entrevista na rua, por exemplo

Não, eu sempre gostei de contar histórias. Então, eu sempre quis ouvir. Ouvir histórias, ouvir diferentes histórias. É o que eu sempre gostei. E eu sempre gostei de tentar entender o que está acontecendo no mundo e fazer sentido daquilo, que é o que eu sinto que eu faço em Londres. Tentar decifrar o mundo.

para o telespectador brasileiro e todas as suas complexidades mil. Então foi um aprendizado, a curva de aprendizado ali foi muito intensa e entre muitos erros e alguns acertos eu fui me encontrando, assim, o meu jeito de falar, de apresentar. E deu muito certo porque as pessoas elogiam uma coisa não não sei, parece que tem eu não sei se tem um curso para falar tem muitos que falam igual.

Tem algum curso que prepare e deixa as pessoas falando tudo igualzinho? E você tem um jeito tão seu ali de... Obrigada. Eu levo isso como uma logística. Acho que uma coisa de destaque é uma elegância que todo mundo fala, que você tem, assim, uma coisa bem elegante.

Mas tem, você se coloca de um jeito muito natural, assim, não tem uma coisa impostada, ensaiadinha. E muitos têm uma coisa meio, acho que repórter tem uma coisa muito, né? Acho que deu muito certo. É, eu começo, agora não mais, ela não vai gostar de ouvir isso, mas agora já meio que faço de olhos fechados. Mas no início eu começava, cada frase eu olhava pra câmera e pensava assim, mãe.

E aí começava a falar. Então era como se eu estivesse conversando com a minha mãe. Porque é muito estranho ter só uma câmera na sua frente e você tentar ter alguma naturalidade. Então é normal, eu entendo que as pessoas fiquem talvez um pouco mais robóticas.

Mas eu sempre quis tentar falar. Eu acho que no ar falo do jeito que eu estou falando agora com você. E eu não sou atriz, não sei atuar. Então, eu não consigo fazer uma personagem. Eu estou sendo eu. Que legal, você já contou isso para a sua mãe? Já, claro. Mas ela acha que eu faço isso até hoje.

Isso é tão legal. Você pensava o mãe dentro da sua cabeça e só falava. Você mentaliza, né? Você visualiza. Você fez uma adoração pela sua mãe. Tenho, total. Pela minha mãe e pelo meu pai. Meus irmãos. É uma família muito unida. Gostosa. Muito gostosa. Você fala sempre... Você tem um grupo de WhatsApp dos irmãos? Total. Total. Tem só dos irmãos. Tem os irmãos com os pais. Tem... Que idade eles têm? Um monte de meme pra lá e pra cá.

O Diogo tem oito anos a mais Então vai fazer 50 E o Pedrinho tem Dez anos a menos, então tem 32 Faz 33 em 70 Esse é o que tá novo, que fala pro seu mãe voltar E daí tem o outro irmão Do primeiro casamento do meu pai O Diogo, que vai fazer 50 Ah, então Da sua mãe e do seu pai Você e o Pedrinho, entendi E com o Diogo também você fala muito Nossa, que delícia essa relação Da sua mão

É, assim, claro que eu morando nos Estados Unidos, ele no Rio, mães diferentes, no início era mais uma relação de meio irmão. Hoje é total, o irmão, admiro demais ele profissionalmente, é uma pessoa extremamente discreta, assim como meu pai. Adoro estar com ele, a gente sempre se encontra pra fazer pizza na casa dele, então a Olimpia já pede, assim, quer ir lá fazer pizza na casa do Diogo.

É uma relação muito gostosa. Já passamos natais em Londres juntos. É uma família muito queridinha. E deu muito certo, né? 50 anos os seus pais juntos, mesmo com todas essas viagens. E todas essas provações, né? A Brasília não foi uma época fácil para ninguém. Nossa, sim. Mamãe se reinventando.

A sua mãe era jornalista onde? No JB. Ela cuidava do acervo do JB. Que legal. Trabalhou, inclusive, com o Renato Machado. Olha que incrível como a vida dá voltas. Sim. Você sabe que eu acho que a sua mãe, ela visita você em Londres porque te ama e ama a sua neta, a sua filha, a neta dela. Não tenho nenhuma dúvida disso.

Mas tem uma vingancinha aí também, que agora é ela que viaja muito. Pode ser. Né? Pode ser. Tudo quanto é canto pra você. Tudo quanto é dono. Agora é a minha vez aqui. Aguentei oito anos como esposa de ministro e agora eu tô aqui em Londres na Santa Paz, no silêncio, com meus livros. É o que ela fala, assim. Cecília, eu gosto desse silêncio. Que delícia. Eu entendo. Nossa, eu entendo total. Eu entendo total.

E como que é a sua rotina lá com a sua filha? Ela estuda perto? Como que é o seu dia a dia? Uma loucura. Como imagino que a sua também seja. Mas ela estuda perto da Globo. Meu raciocínio foi, eu passo a maior parte do meu dia no trabalho. Você mora perto da Globo lá? Eu moro a três estações de metrô. Então, eu escolhi uma escola perto do trabalho, porque é isso. Às vezes eu saio correndo, busco ela, volto com ela para o trabalho, porque eu ainda tenho que entrar ao vivo, tenho que gravar uma passagem.

achei mais prático isso do que perto de casa. E aí eu levo e busco três dias na semana, tenho a babá que ajuda, dois dias ela que faz, o pai busca um dia, encaixo aí as atividades mil, porque a Olimpia quer fazer de tudo. Eu acho o máximo ela explorar diferentes atividades e tento encaixar um tempo para mim, nem sempre consigo.

O que você faz? É o ano de bicicleta. Pela cidade? Pela cidade ou quando eu não preciso buscá-la na escola de volta para casa. Não só pelo exercício, mas principalmente pelo silêncio. Esses raros minutos assim. É uma cidade insegura, né? É. Então, isso faz a maior diferença. Você anda com ela a qualquer horário, a hora da pé. Não tenho medo. E viver sem medo é o maior dos luxos. Assim, não tem preço.

As mulheres que você entrevista pro Eu e Elas, vou mostrar de novo, você conheceu pessoalmente? Ainda não, eu vou conhecer quinta-feira agora. No lançamento no Rio. Não, antes eu organizei um café da manhã. Como vai ser a primeira vez que a gente vai se conhecer pessoalmente e tantas juntas ao mesmo tempo, eu falei, vamos fazer alguma coisa só a gente antes, então vai ser um café da manhã.

E depois, no lançamento, vão com família, com amigos. O Chuma falou, vai à minha igreja inteira. Tem outro que falou, estou guardando dinheiro há um ano para comprar a passagem. Então, eu continuo super comovida, Tati. A gente criou uma comunidade. Você está num grupo com elas? A gente tem um grupo, claro, chamado Nosso Livro, em que a gente troca mensagens quase que diariamente. O assunto agora é com que roupa eu vou.

pro lançamento. Eu falei, como vocês se sentirem bem. Então, acho que vai ser uma festinha no dia. Demais, demais. E aí, a editora te procurou ou você teve a ideia e procurou uma editora? Eu tenho um grande amigo que é editor na Record, o Lucas. Aí, numa dessas vindas ao Rio, falei, vamos tomar um café. E comecei falando, olha, tem uma foto minha do trabalho com a Olimpia. Ele falou, sei qual é, eu adoro. O que você tá pensando? Eu falei...

Então, pensei num livro, o que você acha? Ele falou, já é. Acreditou na ideia desde o início. Então, eu sinto que também é um livro muito família, porque o editor é esse amigo de longa data. A ilustração que você elogiou da capa é da minha cunhadinha, a Luísa Nick, namorada do meu irmão. Lindo.

O texto de orelha de uma amiga minha, escritora e mãe também. Então, eu sinto que é um livro feito... É um livro todo de carinho, né? É, exatamente isso. E é um livro abraço, Tati. Eu não tenho nenhuma pretensão literária. Eu não falo sobre políticas públicas, direito das mulheres no livro. Não é um manifesto anti-homem, nada disso. Eu sinto que é um livro abraço de...

uma mãe que se enxerga em outras mães, uma mulher que se enxerga em outras mulheres, e meio que para falar assim, estamos juntas e a gente... Estamos passando por perrengues. Passando pelos perrengues parecidos, mesmo em circunstâncias muito diferentes, e estamos, como sempre, dando um jeito.

E uma coisa que eu, olhando o livro, eu pensei na vontade de muitas dessas mulheres de contar a história. Porque tem uma coisa de mulher não viver ali meio... Conta pro diário, né? Não fala sobre o que passa. Isso deve ter sido muito forte pra elas.

E para mim, porque foi de uma generosidade enorme, não só do tempo delas, como dessa troca de histórias. Não é fácil você abrir o seu universo particular, não é fácil você falar dos desafios da sua vida, muito menos como desconhecida, porque elas podem me ver na televisão de vez em quando.

mas não me conhecem. Sim. Então, eu fiquei muito encantada com a generosidade delas, de falar abertamente, de relembrar mágoas, de relembrar traumas. São guerreiras, são fortes, mulheres fortes. É, e muito importante elas contarem as histórias. Acho que isso deve dar um prazer imenso, assim, de tirar aquilo... Quando você bota pra fora angústia, coisa que passou, trauma.

E várias me escreveram mais recentemente, dizendo assim, ah, na hora adorei a oportunidade, gostei de me sentir vista, me sentir ouvida, gostei de botar as coisas para fora. Mas só agora, quase um ano depois, que eu estou sentindo o efeito disso, de ter falado, de reviver algumas situações.

Uma disso, inclusive, que você citou mais cedo, uma das que foi abandonada pela mãe, abandonada aos sete anos numa rodoviária. Você usa os nomes delas mesmo. E tem as fotos delas. Ah, eu vou mostrar. É tão bonito. É lindo, né? É lindo. Eu amei. Olha que lindo.

Isso é bem bonito. Não sei se vai dar pra ver, mas... Dá pra ver? É. Aí algumas escolheram mandar com os filhos, outras sem. Mas conta, essa aqui foi abandonada pela mãe? E dizendo assim, agora... De como o peso da conversa que a gente teve só bateu agora. Porque ela tava na adrenalina, inclusive que no início ela achava que fosse um golpe.

Que não acreditou que era séria a proposta. Mas ela falou, só agora que eu estou percebendo o que eu realmente vivi e o que aquilo tudo significou. Mexeu com a vida de todas essas mulheres. Isso é muito legal. É muito forte. E você tem vontade de contar alguma coisa mais pessoal sua?

O que você quer saber? Não, não, um livro. Não. Aí eu vejo, se eu respondo. Não. Aqui eu ainda vou tirar de você. Eu tenho um amigo. Não, não, mas fazer um próximo que conte algo mais pessoal. Então, eu tenho um amigo que brinca comigo. Ele fala assim, o seu próximo tem que ser assim. Eu e eles, histórias amorosas. Ou histórias do coração. Eu falei, é ruim. Esse aí é mais... Esse aí é mais... Esse é top.

Porque eu vi uma entrevista sua, você falando que você é jornalista e é a notícia que tem que aparecer e tal. Mas esse aqui não deu um gostinho de puxar umas histórias suas, assim? Porque agora você descobriu uma... Não. É um livro de entrevista mesmo, né?

que é o que eu gosto, e é a parte que eu mais gostei do livro, eu achei muito difícil sentar para escrever, e tanto que eu escrevo pouco, eu deixo muito mais nas vozes delas, elas são as protagonistas da história, eu só meio que costuro não, eu continuo acreditando que eu não sou notícia

Ninguém vai ter interesse nenhum. Eu ouvia mais nada sobre a minha vida. Mas então, talvez, próximos livros contando outras histórias, né? Porque é muito gostoso. É muito gostoso. É muito bom ver a história. É. Você tem esse interesse na vida? Você chega num café? Eu adoro. Já virei amiga da moça que estava sentada do meu lado no avião, vindo para São Paulo, já saiu a história da vida dela toda.

É... Acho uma delícia. Geralmente, são nessas histórias simples que tem tanta coisa boa para a gente ir tirando, né? Você teve uma entrevista... Você fez uma entrevista difícil, né? Com a Gisele Pelicô. Como foi? É... Eu... Bom... Eu fiz primeiro, dois anos antes.

a história quando saiu e o julgamento na cidade. Você cobriu. Eu cobri. Fui com o meu repórter cinematográfico, Ross Salinas. Viajamos até Mazan, que é onde ela morava com o monstro do marido dela. E é onde as violências todas aconteceram.

E fomos a Avignon, uma cidade vizinha, onde o julgamento estava acontecendo. Então, eu já estava muito imersa nessa história. E nesse primeiro encontro, nessa primeira viagem, que virou uma grande reportagem no Fantástico, eu fui à casa onde ela era dopada, drogada e estuprada pelo próprio marido e por mais de 50 homens. Depois, nas investigações, aumentaram esse número para quase 80.

E no tribunal a gente se cruzou muito brevemente. Ela estava entrando e eu fiquei completamente sem palavras. Eu estava com o microfone na mão, mas eu achei a aparição daquela mulher. Você sentia a força interna dela. E ela é pequenininha, ela é baixinha, miudinha, super magrinha, assim, mas...

Tem uma irradia, assim, uma força. E eu fiquei completamente sem. Eu só consegui falar, assim, bonjour, madame enchanté. Que prazer te conhecer.

E antes de conseguir pensar em mais nada, assim, minimamente inteligente para perguntar, todas as mulheres que estavam acompanhando a sessão começaram a bater palmas, a aplaudir. Então, já é de uma emoção só de estar ali. Todas as mulheres. Mulheres. Porque eram mulheres que estavam acompanhando nas duas salas públicas que ficavam lotadas. Jornalistas. Não era nem imprensa, era público.

O jornalista credenciado podia entrar na sala onde estava acontecendo de fato a audiência. Aí tinham duas salas separadas para o público que quisesse acompanhar. E essas duas salas ficavam lotadas todos os dias. E eram majoritariamente mulheres.

E dando essa força pra ela. Então, saíam das... Elas tinham que entrar na sala antes do julgamento começar. Da sessão começar. Elas saíam, quando ficavam sabendo que a Gisele tava chegando, pra aplaudi-la e depois voltavam pra sala. E...

No meio disso tudo, os réus entravam também. Então, a gente filmou vários dos réus. Era ainda... Muitos usavam máscara, capuz, headphone, boné para esconder o rosto. Que eram os homens que esse marido levava lá. Nossa, que... E alguns, o que me chocou nesse dia foi perceber a falta de vergonha.

Eles entravam com uma postura meio agressiva. Um tentou bater na nossa câmera, empurrou a nossa câmera. Uma atitude desafiadora. E você fala assim, gente, vocês estão num tribunal cheio de policial, jornalista, mulheres que estão aqui dizendo, não aceitamos isso que vocês fizeram. E vocês continuam com uma atitude violenta.

Fiquei mal vendo isso. Nossa, é uma energia horrorosa. É horrorosa. Olhar para cada um sujeito desse. E aí quando ela entra, você vê essa força de encarar isso, de falar, eu não vou me esconder, eu não vou viver no anonimato. Ela abriu mão, ela teria direito perante a lei francesa, ela abriu mão desse anonimato e contou a história dela. Então, o privilégio que foi, dois anos depois,

receber esse convite de sentar e conversar com ela por mais de uma hora dentro do escritório da editora em Paris. Nunca me preparei tanto para uma entrevista. Eu já estou envolvida nessa história e eu...

E foi incrível, Tati, porque ela fala abertamente, ela não se esconde do que ela viveu, ela fala que ela quer acreditar e se mantém aberta ao amor, que é quase impensável depois do que ela sofreu. Ela está num novo relacionamento. Eu conheci, inclusive, o namorado, o parceiro. Então, você fica...

Sem palavras de novo. Você fica completamente maravilhada. Nossa, ela falou não vou deixar isso. Eu vi uma entrevista dela que ela fala uma coisa que, assim, ela fala que ela não vai jogar fora as coisas boas que ela viveu nesse casamento também. É o pai da filha, do filho, não tenho certeza. E isso pra mim me pegou muito. Como assim?

Como assim? Ela fala que ela escolhe Lembrar das boas lembranças Ela falou pra você Inclusive da cidade de Mazã Porque eu falei, qual é a sua relação com Mazã Hoje? Imagino que você nunca mais tenha colocado os pés lá Ela falou, não, foi uma cidade onde eu fui muito feliz Meus netos vinham durante as férias Escolares de verão A gente fazia passeios nas cidades

nos arredores, tem uma montanha lá super conhecida que eles iam escalar. Então, imagina, nós íamos querer passar uma borracha e falar isso nunca existiu, vou apagar isso do meu passado. Não, ela fala, isso não vai me definir, não vai ser essa a minha história. Tanto que ela mantém o nome Pelicô. Que é dele? Que é dele. Por quê?

Porque ela quer ressignificar o nome para a família dela, para os netos dela, para o nome ser ligado à força dela e não à violência que ele cometeu. E o que também muito me impressionou nessa entrevista, no fim ela falou, eu falei assim, e ele? O que ele significa para você agora? Ou você prefere nem sequer falar dele? Ela falou, não, eu não só falo dele, como eu quero ir visitá-lo na prisão.

Aí eu quase engasguei e falei, mas... Pra matar ele? É, só se for, né? Mas por que? Ela falou, não, porque eu quero respostas. Eu falei, mas respostas vão... Alguma resposta pode mudar alguma coisa? O que uma resposta pode mudar nessa história? Ela falou, não, eu quero respostas porque eu quero entender por que ele fez isso e eu quero mostrar pra ele que eu me reergui, que eu ainda tenho a minha vida, que eu sou uma nova mulher. E aí

Esse livro é muito... Essa história... Ela ter topado e a capa é o rosto dela. Eu acho isso muito... Tem aquele livro Vista Chinesa da Tatiana Salim Levi que ela conta o estupro que uma amiga sofreu.

E quando ela foi lançar o livro, ela conta que a amiga ligou pra ela e falou, eu quero que nas entrevistas você não diga uma amiga, eu quero que você diga meu nome. Olha. Eu quero que as pessoas saibam que fui eu que passei por isso. Né? E eu acho que isso é muito importante. Muito. Mas é de uma força. E ela também reconhece isso.

Porque é uma decisão que você está tomando que não vai impactar só a sua vida, impacta a de todos ao seu redor, né? E ela tem três filhos e ela diz claramente que a relação com a filha ficou muito abalada, não só por tudo que aconteceu, mas pela decisão dela de se expor. Porque a filha...

Ela falou, a minha filha não entende como é que eu nunca desmoronei, como é que eu nunca, assim, quis gritar de raiva, porque a filha ainda está num lugar de muito ódio. Claro, traição maior, impossível, né? Seu próprio pai com a sua mãe. Mas ela falou, mas eu não, eu não quis. Eu optei por não seguir esse caminho de ódio e raiva.

Ela falou, eu mantenho a minha leveza. É, eu acho, eu acho, não sei, eu admiro muito, eu acho de uma força absurda, mas eu acho que esse livro é raiva também. Não tem como, né? Ela querer contar essa história, é tipo... Mas ela fala uma coisa também, Tati, que eu achei muito curiosa, eu não tinha pensado nisso. Ela falou, Cecília, eu não tenho lembranças.

Eu estava completamente desacordada. Ela falou, eu não tenho flashback, por exemplo, que alguém que está consciente e sofre uma violência tem. E aquilo vira uma imagem recorrente, aquilo desperta sensações e te leva de volta ao momento. Ela falou, eu não tenho isso. Ela só assistiu aos vídeos uma única vez, que era para tentar identificar os homens. Então, ela conseguiu, assim,

Não sei explicar. Ela quis proteger alguma coisa ali. Ela se expôs até onde... O tanto que dava e protegeu algo que acho que nem ela sabe o que é. Essa história é muito... É muito deprê, muito triste.

E a gente olha com uma certa distância, só que ela está... O Brasil tem isso o tempo inteiro. É muito mais do que a gente imagina. Claro, e por isso que é tão importante falar. Nossa. É. Que bom que você esteve lá com ela. Sim. Qual que foi a entrevista mais difícil que você fez? Essa, sem dúvida. Essa. Sem sombra de dúvida.

E você entrevistou... É porque é difícil você saber conduzir nessa conversa. Até onde você pode ir? O que não é indelicado? Mas são algumas coisas que precisam ser perguntadas. Então, qual é a melhor forma? Eu perguntei, por exemplo, o seu corpo não começou a gritar? Porque imagina essa violência durante 10 anos. Você não começa a ter problemas ginecológicos, que sejam. Até onde você pode perguntar? E até que ponto você pode se envolver também? O que ela respondeu para essa pergunta?

Ela disse que ela começou a ter apagões. Ela foi ao médico, pôs ele do lado, né? Que também é outra coisa. É outra violência. Outra violência. Porque falar que a mulher tá louca. Que era exatamente o que ele falava. Ele falava, imagina. Ela falava, eu não tô me sentindo bem, eu tô com apagões, eu não lembro. Ela falou, por exemplo, eu fui ao cabeleireiro, aí quando eu entrei ele olhou e falou, ué, mas você esteve aqui semana passada? E ela não lembrava. Por quê? Porque ela ainda tava sob o efeito da sedação.

Ela teve um pequeno acidente de carro, ela começou a ficar muito preocupada com esses sinais, queda de cabelo, problemas ginecológicos. E ele falava assim, tá maluca, não tem nada, nem conta pros filhos que você vai preocupar os filhos à toa. Aí, só porque ela insistiu, ela começou a ir aos médicos, mas sempre com ele acompanhando. Como que ela descobre os estupros?

O Dominique, o marido, é preso porque estava filmando por baixo das saias de duas mulheres num supermercado numa cidade vizinha. Um funcionário do supermercado viu, pegou o celular, convenceu as mulheres a ligarem para a polícia e darem queixa.

Durante essa investigação, os policiais decidem confiscar o computador dele. E no computador, em arquivos organizados com data e nome... Tem a mulher dele sendo estuprada há anos. Há anos, há dez anos. É muito doente.

e aí o delegado chamou a Gisele e começou a fazer perguntas sobre o casamento dela, assim, vocês se dão bem? Há quanto tempo vocês estão juntos? Descreve ele. E ela descrevendo um homem adorável que era querido pelos amigos e pelos vizinhos, que sempre ajudava quem precisasse. Nunca tinha percebido nada. Nunca, nunca. Essa história...

Não é à toa que essa história ganhou o mundo, porque é muito essa sombra que pode ter numa pessoa que você nem... E que está nas relações tóxicas o tempo todo e às vezes de uma forma muito sutil.

Tava ali. Tava ali. Ai, gente, que coisa horrorosa. Que coisa horrorosa. Ó, pra gente encerrar, eu quero te fazer uma pergunta que há 10 anos, sempre que você aparece na TV, eu penso que mulher elegante, que mulher elegante, sempre que alguém se refere a você, fala de você com toda a sua inteligência e tal, e também volta na elegância, o que é elegância pra você e por que você é tão elegante? Não, não sei. Não tenho a menor ideia, não sei por que. Mas tem, tem algo muito, muito...

Não elegância num lugar de um elogio banal, assim, mas algo gostoso de ver, assim, sabe? De ter uma coisa... Obrigada. É, uma elegância que, pro jornalismo, é muito importante, assim. A gente vê e é boa de ver. Pro jornalismo? É, porque eu acho que tem... É... Porque não é uma elegância...

classista, não é uma elegância altiva, é uma elegância nocinha. Sabe? É uma coisa próxima, você fala de um jeito gostoso, é o que você falou, vou contar a notícia pra minha mãe, e mesmo assim tem uma elegância. E eu acho que isso dá uma cara pra notícia que deixa a notícia... Não sei.

Bom, eu acho meu pai extremamente elegante, ele é um gentleman no trato. A elegância para mim não são marcas.

O que você tem, não é o materialismo, o que você consegue comprar, quanto você ganha, não é nada disso. É como você se comporta, é como você se interessa pelo outro. É, tá numa doçura sua, numa coisa... É... Acho que...

Por isso que eu acho que é importante para o jornalismo, porque eu acho que isso deixa a notícia mais... Chega mais nas pessoas e chega de um jeito cativante, chega de um jeito sério, chega de um jeito... Às vezes é pesado, mas tem uma certa doçura que a gente consegue ouvir você dando a notícia. Então, eu sempre olhei e falei, sabe? Tinha uma coisa que chamava, assim. Mas acho que você definiu muito bem. E eu acho que doçura nunca é demais. E a gente está precisando. Muito. Você faz terapia? Você faz com...

há anos eu já adoro os seus podcasts sobre isso justamente porque eu falei eu também já tive essa conversa já analisei isso daqui também todo mundo deveria fazer né Tati, desde que ela desde adolescente, é um privilégio e é muito, muito bom

Bom, vamos para o momento dica. Eu vou dar a dica do documentário Band on the Run sobre o clássico álbum do Paul McCartney. Você já viu esse documentário? É muito lindo. É o clássico álbum dele, que ele faz com a banda Wings logo depois que acaba os Beatles, né? E mostra os bastidores de quando ele cria esse álbum. É um, para mim, na minha opinião, é o mais importante, é o melhor dele. E está no Amazon Prime. Agora dá uma dica para a gente hoje, um filme de uma série. Tem a dica deste livro?

muito delicioso aqui mas vou ficar no nosso assunto maternidade mães pra quem não viu ou não leu ainda Hamnets da Maggie O'Farrell o livro e o filme agora com a Jessie Buckley que ganhou o Oscar ganhou tudo e merece merecidamente porque é um filme belíssimo muita doçura mas muita força musica

E muita força feminina, porque assim, você só escutou ele em Shakespeare, faltando cinco minutos com o Cabel Filho, a história dela. É total. É o Shakespeare ali também. É, ele também tá ali. Querida, maravilhoso. Já passou, gente? Muito obrigada. Adorei essa primeira experiência de podcast com você. Quero poder fazer mais. Muito bom. Foi uma delícia. Obrigada, gente. Até semana que vem.

Cecilia Malan fala da relação com a família, divórcio, carreira no jornalismo e novo livro | Castnews Index — Castnews Index