Episódios de Quanto Vale Essa História?

O SEGUNDO ARMÁRIO

23 de junho de 202637min
0:00 / 37:05
Participantes neste episódio2
B

Bianca Della Fancy

Host
K

Kalel

ConvidadoDrag queen
Assuntos5
  • Vida Drag em SPO fascínio pela liberdade no universo drag queen · O crescimento da identidade drag como paixão e hobby · O desafio de esconder a identidade drag do pai · A descoberta do pai sobre os pertences de drag · A decepção do pai com a identidade drag
  • A História de Kalel: Saindo do ArmárioIdentidade gay e a relação com o pai · Silêncio e indiferença do pai após a revelação · A dor da distância emocional
  • Relação com a FamíliaA indiferença do pai como forma de tratamento de silêncio · A decisão de morar de aluguel e a saudade do pai · A prima Camila como ponte para a reaproximação · A retomada da relação através de vídeos aleatórios · O pai demonstrando interesse pela drag de Kalel · O convite para a Parada do Orgulho LGBTQIA+ · O pai de Kalel vestido de drag na Parada do Orgulho · O abraço de reconciliação e as palavras do pai
  • Vira Casacas Podcast e ApoioEpisódios abertos e exclusivos para apoiadores · Grupo do Telegram para apoiadores · Valor da assinatura e benefícios
  • O Papel da Arte e da CriaçãoA importância da arte drag como forma de expressão e resistência · O machismo e o patriarcado como barreiras à aceitação · A evolução e o amadurecimento pessoal e familiar
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BDBianca Della Fancy

Eu sou Bianca Della Fence e sejam bem-vindos ao Quanto Vale Essa História? E aí, meus amores, cês tão boas? Eu espero que sim, dentro do famigerado possível, é claro. Hoje é terça-feira, dia de episódio aberto pra todo mundo ouvir, disponível em todas as plataformas de streaming. Mas não se esqueça que estamos aqui toda terça, quinta e sexta. Quinta-feira apenas pra apoiadores, com o nosso Proibidão. Ai, menino mau! E sexta-feira, apenas pra apoiadores também, com a nossa Hora Extra, tá bom?

Eu, Bianca Della Fence, tendo um momento íntimo com vocês, apoiadores, tá? Então se você não apoia a gente ainda, tá perdendo tempo. As melhores histórias da Poderosfera estão disponíveis aqui apenas pra apoiadores. E parece que é caro, né? Já que é tão bom. Pior que não, viu, fia? R$13, pela bagatela de R$13, você tem acesso aos episódios que são exclusivos pra apoiadores. E além disso, é claro, tem outras coisinhas, né. Como o nosso grupo do Telegram, onde eu estou lá conversando diariamente com vocês.

E apoiadores passam na frente e têm direito a coisinhas, fofocas, bastidores das histórias que somente apoiadores podem ver, tá bom? Então quando tem foto, quando tem vídeo, quando tem algum áudio que vem junto com a história, vai direto lá pro nosso grupo do Telegram. Apenas pra apoiadores. Então se você quer saber das fofocas completinhas, basta apoiar o podcast. Baratinho, R$13, tá bom? Bora começar? Bora que eu tô ansiosa pela história de hoje!

Bora, bora, bora! E a história de hoje se chama... O Segundo Armário. Ai, meu Deus. As histórias desse mês estão um pouco... Como eu posso dizer? Tão me pegando bastante. Em todos os sentidos. O Proibidão foi ótimo. As histórias de terça Estão me pegando bastante no lugar sentimental. Chorei já bastante esse mês. Vamos ver o que a história de hoje nos aguarda. Oi, madrinha!

?Voz B

Já começou ruim.

BDBianca Della Fancy

Tudo bem por aí? Ai, corrida a vida. Eu espero que você e toda a equipe desse império multimilionário construído à base de esquema de pirâmide estejam ótimos.

?Voz B

É muito bom lembrar, esquema de pirâmide, gente. Já falei que a gente aqui é pior que a Renaudet. Pega! E compartilha com a sua amiga, pra ela compartilhar com a amiga dela, que vai compartilhar com a amiga da amiga. E assim, a família do Quanto Vale Essa História vai ficando cada vez maior. E eu gosto assim.

BDBianca Della Fancy

"Pode me chamar de Kalel. Eu sou um gay cis e acompanho o podcast desde o primeiro dia. Faço drag também." Nossa, sinto muito, Kalel. "E você é uma das minhas inspirações diárias de carisma." autenticidade, coragem e talento. E bota coragem nisso, viu, galera? Obrigada, meu amor. Eu queria compartilhar com todos vocês uns momentos mais importantes da minha vida. Desejo muito amor pra todos nesse mês do orgulho.

?Voz B

Ai, uma história de orgulho! Bom, esse mês tem bastante coisa acontecendo, né, gente. Vocês já sabem que tá rolando São João, também tá rolando o Orgulho. Sim, sim, sim, somos todas muito orgulhosas, não só esse mês como o ano todo. Também tem a Copa, muitas coisinhas.

BDBianca Della Fancy

E o Quanto Vale a História tá tendo episódio sobre tudo, tá?

?Voz B

Se você não tá acompanhando, minha filha, bora maratonar.

BDBianca Della Fancy

Olhando hoje, eu acho engraçado como passei boa parte da minha adolescência me preparando para uma conversa que nem sabia exatamente como aconteceria. Eu já sabia que era gay muito antes de contar pra qualquer pessoa. E desde o começo eu também sabia que aquilo era complicado dentro da minha casa. A minha mãe tinha morrido quando eu era criança.

?Voz B

Ai, meus pêsames, meu amor. Sinto muito.

BDBianca Della Fancy

E meu pai era a minha única família próxima. Éramos só nós dois no dia a dia. Muitos anos. Ele era um homem simples e trabalhador. Não era um cara agressivo, mas também nunca foi alguém que falasse sobre sentimentos. Então eu cresci observando comentários aqui e ali, piadas de parentes, conversas durante o almoço, e fui entendendo que aquele assunto provavelmente não seria recebido com entusiasmo quando finalmente contei. Já tinha passado anos ensaiando esse momento.

Eu imaginava discussões enormes, portas batendo, talvez até ser expulso de casa. Nada disso aconteceu. O que aconteceu foi quase pior. Meu pai ficou em silêncio. Um silêncio tão desconfortável, que eu preferia que ele tivesse falado qualquer coisa.

?Voz B

Ai, gente, já tô toda arrepiada, não sei nem para onde vamos, mas já tô toda daquele jeitão.

BDBianca Della Fancy

Ele depois fez algumas perguntas que claramente não sabia formular direito. Perguntou se eu tinha certeza, perguntou desde quando eu sabia, perguntou se alguém tinha me influenciado. Eu respondi Tudo. Depois disso, a vida continuou, mas não exatamente igual. Durante meses, parecia que havia um elefante branco enorme no meio da sala, e os dois fingiam que ele não existia. A gente continuava tomando café na mesma mesa, assistindo televisão no mesmo sofá e dividindo a mesma casa. Mas existia uma distância nova.

?Voz B

Gente, só quem viveu sabe, né? Essa distância, ela não é física, né? Porque as pessoas estão ali, embaixo do mesmo teto. Mas é uma distância que ela grita, mas ela é silenciosa, mas ela grita tão alto. Só quem viveu sabe. Nossa!

BDBianca Della Fancy

O curioso é que, apesar de tudo, Eu não fiquei surpreso. Era exatamente o tipo de dificuldade que eu já esperava enfrentar. Eu sofri, é claro, mas era uma dor para a qual eu vinha me preparando havia muito tempo. Aos poucos, as coisas foram melhorando. A convivência foi vencendo a resistência. Meu pai percebeu que eu continuava sendo a mesma pessoa que sempre tinha sido. E com o passar do tempo, A situação tinha encontrado um equilíbrio.

E eu realmente achei que aquela tinha sido a parte mais difícil da minha vida. Gente, eu não tô conseguindo nem interromper muito pra fazer comentários, né?

?Voz B

Vocês tão percebendo?

BDBianca Della Fancy

Porque eu já estou completamente entregue a essa história.

?Voz B

Tipo assim, eu preciso saber o que vai acontecer. Então não tem nem muito o que dizer. A única coisa que eu posso dizer nesse momento é que estou realmente entregue. Vivi coisas muito parecidas que eu vou compartilhar com vocês no final da história, como sempre faço. Me abrindo aqui com vocês. Mas como já disse, essa distância, já passei por essa distância, o olhar, né, um olhar não é um olhar que a gente já viu antes, né, ainda mais quando é o olhar de alguém que a gente ama, que tá ali convivendo com a gente, né, um olhar difícil de lidar, muito difícil de lidar.

Junto com o olhar vem a distância, enfim, muitas outras coisas que aparecem depois que a gente fala sobre a nossa sexualidade abertamente, né? E eu tenho certeza que muitos de vocês, assim como eu, logo na primeira página dessa história já estão se relacionando com ela. Porque é isso, né, gente? Já passamos por isso. Muitos de nós já passaram por isso. Eu espero que não passem mais. Espero que esteja tudo bem por aí. Mas... Já logo falo de antemão que se não estiver tudo bem por aí, vai ficar tudo bem. Mas a gente vai conversar mais daqui a pouco. Vamos continuar.

BDBianca Della Fancy

O problema é que ser gay não seria a única coisa que eu viria a esconder. Enquanto toda aquela história acontecia, outra parte da minha vida estava crescendo em segredo. Começou com vídeos que eu assistia na internet. Depois, com maquiagem comprada escondido. Depois, Com tentativas desastrosas de me montar quando a casa estava vazia. Eu achava fascinante a liberdade que existia no universo drag queen.

?Voz B

Ai, gente, eu vou chorar. Meu Deus, é a minha história!

BDBianca Della Fancy

Ai, foi eu que escrevi isso aqui, gente?

?Voz B

Eu tava dopada? Eu não lembro.

BDBianca Della Fancy

Não era sobre fingir ser outra pessoa, era justamente o contrário. Eu sentia que podia exagerar características minhas que passavam despercebidas percebidas no dia a dia. O que começou como curiosidade virou hobby, que depois virou paixão. E sem perceber, eu já estava me apresentando em pequenos eventos, participando de concursos e construindo uma identidade drag que começava a ocupar um espaço enorme na minha vida. Só que havia um detalhe importante.

Eu ainda morava com meu pai. Gente, ai, já passei por tudo isso, mulher! Toda engatilhada, toda cagada, meu Deus. No começo, eu acreditava sinceramente que conseguiria esconder aquilo para sempre. Quem já conviveu com uma drag sabe que existe uma quantidade absurda de objetos envolvidos na operação. Perucas ocupam espaço, Saltos ocupam espaço, figurinos ocupam espaço, maquiagem ocupa espaço. Eu escondia as poucas coisas que tinha em caixas, armários e malas. Durante um tempo funcionou, depois começou a falhar.

?Voz B

Ai, meu Deus, gente, esse momento é muito difícil quando as coisas começam a sair do nosso controle.

BDBianca Della Fancy

Quando a nossa drag começa a ter vida própria e as coisas dela simplesmente começam a aparecer pelos cantos da casa.

?Voz B

Meu Deus do céu! Ai, tô preocupado com o que vai acontecer com ela, gente. Bichinha. Ô meu Deus.

BDBianca Della Fancy

Meu pai encontrava um cílio postiço perdido no banheiro. Eu inventava uma desculpa.

?Voz B

Que que você falava, meu Deus? Que que será que você falava? Era de uma mina? Ai pai, foi a mina que veio aqui ontem. Ai, veio uma menina aqui ontem, pai.

BDBianca Della Fancy

Tô namorando com ela.

?Voz B

Ai, será? Não, né? Não tem como, já falou que é gay, né? Putz, e agora? Qual desculpa você falava? Ai, tô curiosa demais.

BDBianca Della Fancy

Ele encontrava uma embalagem de maquiagem, eu inventava outra desculpa. Até que chegou um dia em que simplesmente não havia mais desculpas possíveis. Lembro exatamente da cena. Voltei para casa depois de uma apresentação e encontrei meu pai sentado sozinho na cozinha. Em cima da mesa estavam algumas das minhas coisas. Não, não, meu Deus!

?Voz B

Ai, o embate!

BDBianca Della Fancy

Uma peruca, um salto alto, algumas maquiagens. Eu nem precisei perguntar o que tinha acontecido. Bastou olhar para a expressão dele e foi naquele momento que descobri que sair do armário pela segunda vez podia ser muito pior do que da primeira. Quando contei que era gay, ele pareceu confuso. Dessa vez ele parecia decepcionado.

?Voz B

Ai, gente, ai, meu Deus do céu! Gente, eu vou contar pra vocês como foi pra mim. Assim que eu acabar a história, eu vou contar, porque muitas coisas são muito parecidas, realmente. As experiências não são únicas, a gente— meu Deus, a história do outro atravessa muito a nossa, sem a gente conhecer o outro. Que doideira, que doideira.

BDBianca Della Fancy

Talvez eu esteja sendo injusto ao dizer que ele parecia decepcionado. Talvez ele estivesse apenas assustado, mas foi assim que eu senti.

?Voz B

Eu sei bem, nossa, eu sei bem, como eu sei, gente.

BDBianca Della Fancy

Nos dias seguintes, ele parou de conversar comigo. Não houve uma grande briga, houve algo que eu considero muito mais difícil: indiferença. O seu pai tem uma dinâmica de tratamento de silêncio, hein?

?Voz B

Ai, ai, ai. Só eu tô percebendo isso, gente? Só eu estou percebendo isso? Tudo bem que às vezes a pessoa precisa de um tempo ali pra assimilar, né, o que tá acontecendo e tal, mas essa indiferença agora e no começo o silêncio dele é, querendo ou não, uma forma de lidar com a situação, né, que é tratamento de silêncio. É uma forma, sim, de fazer você se sentir mal. Tô errada, gente?

BDBianca Della Fancy

Ai, meu Deus. Nós morávamos no mesmo lugar, mas parecia que tínhamos virado estranhos, totalmente estranhos dessa vez. Eu chegava em casa e encontrava a porta do quarto dele fechada. Tomávamos café em horários diferentes, almoçávamos em horários diferentes. Nenhuma palavra era dita e aquilo começou a me consumir.

?Voz B

Gente, olha como o machismo, como o patriarcado e como o machismo agem sobre as pessoas, né? Ao invés de ter uma conversa e perguntar o que é aquilo que estava acontecendo, apoiar o próprio filho, né? Tentar entrar no mundo do filho, a pessoa se fecha. Porque o feminino, olha só, gente, o feminino é, para muitas pessoas, né, é pior do que você ser gay. Isso é uma realidade. Você ser gay é uma situação difícil para um cara machista lidar.

Né? Agora, você ser drag, você usar de signos femininos, né, ditos como de mulher, é pior do que você ser gay. Tem muita gente que vive uma situação como essa e lá dentro, porque nem sempre isso é verbalizado, muitas vezes rola esse silêncio, essa indiferença, que é extremamente desconfortável, né? Então, muitas vezes lá dentro a pessoa pensa: "Cara, você teve a sorte de nascer um homem." "e você está indo contra isso?

BDBianca Della Fancy

Você teve a sorte de nascer no topo da cadeia e você vai se vestir de mulher? O que a gente tem mais abaixo na cadeia?" Tem muita gente que pensa isso, gente.

?Voz B

Esse tremendo absurdo.

BDBianca Della Fancy

É por isso também que a arte drag é tão importante, né?

?Voz B

Por isso que é tão importante a gente ir contra essa Essa cultura que já está instaurada na nossa sociedade há muito, muito tempo, infelizmente. Ai, meu Deus.

BDBianca Della Fancy

O pior é que eu entendi a parte do que ele sentia. Meu pai tinha passado anos tentando aceitar uma realidade. Quando finalmente parecia ter conseguido, surgiu outra que ele não compreendia. Eu não o odiava por isso, mas também não podia deixar de ser quem eu era para facilitar a vida dele. Isso aí, mulher! Depois de alguns meses vivendo naquele clima insuportável, tomei uma decisão que vinha adiando. Fui morar de aluguel com alguns amigos.

?Voz B

Nossa, você saiu de casa!

BDBianca Della Fancy

As semanas seguintes foram estranhas. Eu sentia um alívio por não viver mais naquele ambiente pesado, mas também Ai, eu sentia muita falta dele. Minha vida finalmente podia existir sem esconderijos. Eu podia me montar sem medo de ouvir uma porta abrindo. Ainda assim, às vezes pegava o celular para mandar mensagem e desistia. Até que minha prima Camila começou a servir de ponte. Um dia ela me ligou e no meio da conversa comentou casualmente que meu pai tinha perguntado se eu estava conseguindo pagar as contas.

Alguns dias depois, disse que ele perguntou se eu estava bem. E assim fui descobrindo que ele continuava pensando em mim, mesmo quando fingia que não.

?Voz B

Ai, tantas camadas, tantas camadas! Por que que não fala direto, né, gente? E assim, é inevitável, eu consigo, né, de fato, realmente consigo entender que é uma pessoa que teve uma outra criação, outro tempo, não sabe o que é isso, nunca viu um show da Pabllo, nunca entrou no canal da Bianca Dalla Fence, não tem repertório sobre isso, né? Eu entendo isso, entendo, mas é muito injusto também pensar que o filho precisa passar por uma situação dessas, uma vez que ele não tá fazendo nada de errado, né?

BDBianca Della Fancy

Não é mal para ninguém. Nem pra ele mesmo, muito pelo contrário.

?Voz B

Tantas possibilidades ruins que ele podia ser nessa vida e ele escolheu ser drag queen. Ele escolheu ser artista. Que coisa maravilhosa. Mas realmente tem gente que não entende. Tem gente que tem uma cabeça que tá em outro tempo. Tá em outra era. Isso é muito complicado, gente.

BDBianca Della Fancy

A retomada da nossa relação começou do jeito mais aleatório possível. Um dia recebi um vídeo no WhatsApp. Era um vídeo idiota do YouTube. YouTube, um cachorro fazendo alguma coisa engraçada. Não tinha texto, não tinha explicação, não tinha nada.

?Voz B

Aí ele te mandou?

BDBianca Della Fancy

Eu achei que ele tinha enviado por engano e ignorei. Algumas semanas depois recebi outro vídeo. Dessa vez era um macaco roubando comida de turistas. Eu ri sozinho e dessa vez Decidi responder. Mandei um emoji rindo. Alguns minutos depois, apareceu uma mensagem perguntando se eu estava bem. Ai, gente. Respondi que sim. Perguntei se ele estava bem também. Ele respondeu que sim. A conversa morreu ali. Mas alguma coisa tinha mudado.

A partir daquele momento, começamos a reconstruir a relação de um jeito torto. Não houve pedido de desculpas, simplesmente passamos a nos falar novamente. Primeiro uma vez por semana, depois duas, depois quase todos os dias.

?Voz B

Ai, tô ficando emocionada, gente, tô ficando emocionada.

BDBianca Della Fancy

Às vezes ele mandava vídeos, às vezes eu mandava fotos de alguma comida que eu tinha feito. Aos poucos começamos até a nos visitar. E foi nessa fase que algo curioso aconteceu. Meu pai começou a demonstrar interesse pela minha drag.

?Voz B

Gente, vocês querem me matar! Por que vocês fazem isso comigo?

BDBianca Della Fancy

Um interesse muito, muito tímido, quase escondido. Perguntava quanto tempo demorava para fazer a maquiagem. Perguntava se eu realmente conseguia andar de salto por horas. Perguntava se as perucas eram caras. Eu respondia sempre com muito cuidado. Eu tinha medo de criar expectativas. Eu tinha medo de avançar rápido demais e provocar outro afastamento. Então eu mantinha tudo na superfície. Respondia, mudava de assunto e seguia a vida.

Foi nessa época que surgiu o maior convite que eu já tinha recebido até então. Uma drag conhecidíssima da cena, minha amiga, me chamou pra integrar o elenco de um trio na Parada do Orgulho LGBTQIA+. Eu fiquei eufórico. Passei dias organizando figurino, ensaiando e planejando cada detalhe. Quando a participação Foi confirmada. Eu fiz uma arte no Canva pra divulgar. Era um convite simples. Informava o trio, incentivava amigos a aparecerem e celebrar o Orgulho comigo.

Comecei a disparar pra todo mundo. Amigos, colegas, conhecidos. Então esbarrei no contato do meu pai. Fiquei encarando a tela durante vários minutos.. E no fim mandei.

?Voz B

Ai, gente, que agonia! Meu Deus, eu tô muito ansiosa!

BDBianca Della Fancy

Pensei que talvez ele respondesse com emoji, qualquer coisa, mas ele apenas visualizou. Nenhuma resposta veio. Eu passei a semana inteira tentando me convencer de que eu não me importava e falhei completamente. Quando o dia da parada chegou, eu já tava tão ocupado que quase não pensava mais nisso. As ruas estavam lotadas. Havia música pra todos os lados e gente feliz. Eu passei horas me montando. Era uma das produções mais elaboradas que eu já tinha feito.

A energia era absurda. No chão, dentro do espaço isolado pela corda, eu dançava. Tirava fotos e cumprimentava pessoas enquanto observava aquela multidão colorida se movimentando pelas ruas. E foi justamente quando eu estava distraído que a coisa mais inesperada da minha vida aconteceu. Primeiro, eu vi Camilla. Ela estava alguns metros à frente, do lado de fora da corda, fazendo gestos exagerados para chamar minha atenção. "Eu achei que ela só queria uma foto.

Continuei caminhando e acenei de volta, só que ela continuava apontando pra pessoa ao lado dela." Pronto, gente, é agora. "Eu olhei rapidamente, não reconheci e continuei andando. Então olhei de novo. Meu pai vestido de drag." Gente, não!

?Voz B

Não! Meu Deus!

BDBianca Della Fancy

Ai, eu vou chorar. Ai, caralho! Puta que pariu! Eu achei sim, né, que fosse o pai dele, mas nunca, gente, nunca, nunca, nunca, nunca pensei que ia estar montado de drag. Ai, meu Deus! Ou melhor, tentando. A peruca estava claramente torta, a maquiagem não fazia sentido algum, o batom tinha ultrapassado todos os limites, a sombra parecia ter sido aplicada dentro de um caminhão em movimento. E havia um colar de flores coloridas tenebroso.

A situação era tão sem sentido que por alguns segundos eu achei que estava olhando para outra pessoa parecida com ele. Mas era ele, era o meu pai. O mesmo homem que tempos antes mal conseguia olhar para as minhas perucas. O mesmo homem que tinha passado um tempão sem falar comigo por causa da minha drag ali, vestido daquele jeito, acenando para mim no meio da maior celebração LGBT do mundo.

?Voz B

Ai, gente, meu Deus do céu!

BDBianca Della Fancy

Meu coração começou a disparar. Eu não sabia se ria ou chorava. Acabei fazendo os dois. Enquanto caminhava na direção deles, eu sentia as lágrimas começarem a cair. Sem qualquer controle. Quando cheguei perto da corda, eu pedi para abrirem passagem e chamei meu pai para entrar. Ele parecia nervoso, muito mais nervoso do que eu. Quando finalmente ficou na minha frente, nós nos abraçamos.

?Voz B

Gente, eu tô— meu Deus, sem condições aqui.

BDBianca Della Fancy

E eu não tô falando de um abraço rápido. Foi aquele tipo de abraço em que duas pessoas ficam vários segundos sem conseguir se soltar, porque existe muita coisa, muita coisa acumulada ali dentro. Eu sentia ele tremendo, sentia minhas mãos tremendo também. Quando finalmente nos afastamos um pouco, eu vi que ele também estava chorando. Foi então que ele falou uma das poucas frases que eu vou lembrar para o resto da meu dia a dia.

Disse que tinha errado muito comigo e que passou muito tempo tentando entender tudo antes de me procurar. Depois deu uma risada olhando para a própria roupa e falou que aquela tinha sido a melhor forma que encontrou de mostrar que me amava. Eu comecei a rir no meio do choro porque, sinceramente, aquela era a pior drag que eu já nunca tinha visto na vida. E ali aconteceu uma coisa que eu nunca tinha sentido antes: a sensação de finalmente não precisar dividir minha vida em compartimentos para caber dentro do amor de alguém.

Passamos o resto do dia juntos. Apresentei meu pai para amigos, artistas e pessoas que faziam parte da minha vida Havia anos sem nunca terem conhecido ele. Em certo momento, alguém elogiou a maquiagem dele e ele respondeu imediatamente que eu é quem tinha maquiado. Eu quase dei um coiô no meu pai por falar um absurdo desses. Se tem uma coisa que eu sei fazer é maquiar. Mas rimos juntos. O trio encerrou o percurso e a multidão começou a se dispersar.

Eu fiquei observando meu pai conversando com alguns dos meus amigos, enquanto segurava uma peruca torta que já tinha desistido de permanecer na cabeça dele, e lembro de pensar que aquela era provavelmente a primeira vez que ele estava conhecendo todas as versões de mim ao mesmo tempo. O filho que ele criou praticamente sozinho. O homem gay, que levou tempo para aceitar, e a drag, que ele demorou ainda mais para compreender. Nenhuma dessas versões parecia competir pela outra, elas simplesmente coexistiam em paz.

E ele estava ali, no meio delas, usando uma maquiagem horrível e um sorriso que eu não via há muito tempo. Gente, palmas, palmas! Ai, meu Deus do céu, meu Deus do céu, porque vocês fazem isso comigo? Gente, que história linda, meu Deus! Nossa, será que eu tô muito emotivo esse mês, gente? Acho que sim, né? Gente, que coisa linda, que coisa linda! Me tocou muito essa história porque, enfim, eu sou uma drag queen Como vocês sabem, e já falei algumas vezes, né, sobre a minha relação com meu pai, que foi uma relação muito difícil, que eu também comecei a me montar morando com meu pai.

Gente, desculpa que agora eu tô fanha, tá? Já tava fanha antes, agora então, nossa, tô toda entupida, gente. Desculpa, tá? Mas eu me emocionei de verdade. Então é isso, acontece, né? Tem acontecido bastante por aqui, né? Mas eu também comecei a me montar embaixo do teto dos meus pais. E também foi muito complicado pra mim, né. Eu também vivi esse momento de me maquiar escondido. E precisar esperar todo mundo dormir, pra eu sair de casa na pontinha dos pés.

E colocar um salto alto na rua, no meio da rua. Já passei por um momento de ter que voltar pra casa de manhã montada, porque fui tocar numa festa. E aí, precisar me desmontar no meio da rua pra não entrar em casa montada. Então já passei por bocados, muitos bocados. Também passei por esse momento onde fui colocado contra a parede, né. "Que porra é essa? Além de ser gay, agora isso?" Sabe? "Não basta ser gay, agora você vai ser o quê?" Nossa, gente, me pegou muito, muito.

E eu fiquei... Muito pensativa sobre essa conduta do pai, né, nesses momentos de silêncio. Eu comentei com vocês aqui como isso me incomodou, me incomodou muito esse silêncio, esse tratamento de silêncio do pai dele, essa indiferença. E eu não sei o que é pior, porque no meu caso a gente não foi silêncio, no meu caso foi xingamento, foi briga. Eu não sei o que é pior. Eu sabia que eu não ia ser expulso de casa, eu tinha essa certeza, mas ao mesmo tempo os absurdos que eu ouvi me marcaram muito.

E o olhar, né, um olhar de decepção. O olhar do meu pai, gente, era um olhar de decepção. E ele me acompanhou por muitos anos enquanto eu era adolescente. E quando eu comecei a fazer drag, esse olhar só piorou. E era um olhar silencioso, né. Era um olhar que não vinha com nada além de um olhar. Um olhar de decepção. E eu lembro desse olhar, mas felizmente hoje eu lembro desse olhar como um olhar muito distante, gente, porque felizmente na minha família eu também fui responsável pela mudança, pela Sina da minha família.

Eu mudei todos eles. E o momento em que o Kalel viu o pai dele na parada Gente, isso aqui foi a coisa mais maravilhosa que eu já ouvi nos últimos anos da minha vida, tá? Pra mim, aconteceu no ano em que a gente fez o Quanto Vale Essa História ao vivo. E foi muito especial, gente. Porque foi a primeira vez que os meus pais me viram montada pessoalmente. Primeira vez. E eu não sabia que meus pais estariam na plateia. Pra quem não assistiu ainda, lá no meu canal do YouTube tem o episódio ao vivo do Quanto Vale Essa História no teatro.

?Voz B

Tá?

BDBianca Della Fancy

Vai lá assistir que ficou muito bom. O momento em que eu falo dos meus pais, que eles estão na plateia, eu não sabia que eles estariam ali. A minha irmã tinha comentado comigo que ela ia chamar os meus pais, mas não deu certeza de que eles iam, né? E como eles moram em Santos e odeiam vir pra São Paulo, eu pensei que eles não iam vir. Enfim, nem pensei nisso, porque assim como o Kalel, eu também tava muito ocupado, né, com a maquiagem, a produção e tudo.

Então quando eu vi meus pais na plateia, e não só meus pais, como a minha madrinha, meu padrinho, meu primo, minha irmã tava lá. Nenhum deles, gente, tinha visto a minha drag pessoalmente. Nenhum deles. E isso, meu Deus do céu, já é drag há 10 anos, gente, pelo amor de Deus. Nenhum deles tinha visto ainda minha drag. Ali eu falei: realmente, eu arrasei. Eu arrasei. Porque eu realmente consegui mudar os pensamentos machistas e retrógrados do meu pai.

E hoje meu pai me admira muito. Muito, ao ponto dele falar da Bianca abertamente, falar da minha sexualidade numa boa, perguntar sobre namorados. E eu nunca tenho nenhum pra apresentar pra ele. Essa é a merda, né? Ai, meu Deus. Então, nossa, eu me relacionei muito com essa história em vários momentos. Que bom, Kalel, que bom que você foi responsável pela evolução humana do seu pai nessa vida. É isso, sabe? Nada é à toa, eu acredito que nada é por acaso.

E você ser filho de quem você é também não é por acaso, né? Então você foi responsável pela evolução desse homem que você tanto ama. Saiba disso, orgulhe-se disso, tenha orgulho disso. Pegue isso para você.

?Voz B

Você foi responsável pela evolução do seu pai.

BDBianca Della Fancy

Se hoje ele é uma pessoa com menos preconceito, mais aberta à conversa, ao entendimento, menos fechada, menos silenciosa, menos rancorosa, menos julgativa, é graças a você. Graças a você que está na vida dele e propôs isso, sabe? E não fugiu de quem você é, porque você podia facilmente, Kalel, como você mesmo disse, se diminuir para caber na expectativa dele e ser infeliz pela felicidade dele. Mas você não fez isso. Você saiu de casa, você foi atrás dos seus, você continuou se montando, você foi atrás dos seus sonhos, você realizou os seus sonhos, independente do que ele tá achando, independente do que ele vai pensar de você.

Graças a essa sua força de vontade é que as coisas mudaram. Então meus parabéns, Kalel, e meus parabéns ao seu pai também, que espero que ouça a sua história aqui, né, que pela história de vocês. Parabéns também para o seu pai, parabéns para o seu pai por ter se aberto a isso, né? Mesmo com a idade que tem, com a experiência que tem, calejado, não importa. Nunca é tarde para aprender, nunca é tarde para a gente crescer, nunca é tarde para a gente amadurecer e abandonar velhos hábitos que não funcionam mais, que não fazem mais sentido.

Do nosso ouvido e afastam a gente de quem a gente ama, e afastam a gente da pessoa que a gente quer ser e das pessoas que a gente quer ter perto da gente. Que bom que o Senhor fez isso a tempo, em vida saudável. Que bom que o Senhor fez isso a tempo, tá bom? A tempo de trazer seu filho de volta para você, para perto de você. E eu espero que vocês sejam muito felizes, não só o Kalel e o pai dele, como todos vocês que estão mundo, tá bom?

Espero que vocês estejam bem com a família de vocês. Se por acaso vocês não estiverem, espero muito que essa história traga em vocês um respiro de esperança, que as coisas vão melhorar, vão melhorar. Mas essa história é a prova de que nunca vale a pena abrir mão dos seus sonhos por ninguém, independente de quem seja, tá bom? Eles que acompanhem a gente, eles que corram atrás do prejuízo. Não deixe de viver a vida de vocês por conta Ninguém, mãe, pai, irmão, namorado, não importa.

Vá viver o seu sonho. Você tem essa vida pra viver o seu sonho. E é nela que você tem que viver. Ai, meu Deus! Dito isso... Gente, pelo amor de Deus, quanto vale essa história? Me ajuda. Me ajuda, gente. Eu tô toda cagada! Ai, mulher, o segundo armário. Realmente, gente, sair do armário duas vezes não é fácil. Meu Deus do céu, meu Deus do céu, que história! Que história, gente! Quanto vale essa história? Eu quero muito que vocês vão lá no nosso Instagram, @quantovaleessaistoria.

Comenta uma mensagem pro Kaléo e pro pai dele. Comenta pra mim, por favor. Que eu tenho certeza que o Kaléo vai mostrar pro pai dele essa história. Quero muito que vocês ouçam juntos a história de vocês. E depois leiam os comentários aqui dos nossos ouvintes, tá bom? Então, ouvintes, corre no nosso Instagram. E deixa lá um comentário pro Khaleel e pro pai dele, pra eles verem o que vocês acharam da história deles, tá bom? E deixa a nota de vocês, é claro, de 0 a 10.

Meus amores, por hoje é só. Muito orgulhosas, muito felizes. Ai, mais um final feliz, que bom. É isso, a gente precisa de vez em quando, né, gente? Finais felizes também, né? A gente adora rir da desgraça alheia, mas também é bom a gente se emocionar com a felicidade dos outros, né?

?Voz B

Que também é a nossa. No fim das contas.

BDBianca Della Fancy

Por hoje é só, meus amores. Quinta-feira tem mais episódio Proibidão, apenas pra apoiadores. Um beijo! Tá bom pra você? Nossa, eu não aguento mais chorar nesse podcast, cara. Puta que pariu!

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