Entre Espanha e França, ao redor dos Pirenéus: a História milenar do discreto reino de Navarra
Neste episódio de “A História repete se”, Margarida de Magalhães Ramalho e Lourenço Pereira Coutinho conversam sobre a História de Navarra, um pequeno reino com origens no século IX e que, de forma surpreendente, se prolongou até 1841.
Quais as origens de Navarra e de que forma se relacionou com os estados muçulmanos e cristãos peninsulares? Por que motivo foi governado por dinastias de origem francesa durante mais de dois séculos? Como foi integrado em Espanha no princípio do século XVI? Por fim, qual a explicação para ter durado como reino até 1841 e qual a sua evolução daí até ao presente?
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- Historia do FrevoOrigens no século IX · Relação com estados muçulmanos e cristãos · Governo por dinastias francesas · Integração em Espanha · Manutenção como reino até 1841 · Evolução até o presente · Marca Hispânica · Reino de Pamplona · Dinastia Jimena · Sancho III de Navarra · Sancho VI de Navarra · Fernando Magno · Ramiro I de Aragão · Conde de Champagne · Sancho VII de Navarra · Rainha Branca de Navarra · Juan II de Aragão · Carlos, Príncipe de Viana · Fernando o Católico · Henrique IV de Navarra · Carlos X · Filipe V de Espanha · Carlos Maria Isidro · General Espartero · Francisco Franco · ETA · PSOE · Geroabai · Contigo Zorequín · Pamplona · Pirineus · França · Espanha · Aragão · Castela · País Basco · Catalunha · Caminhos de Santiago · Guerra Civil de Espanha · Primeira Guerra Carlista · Comunidade Foral de Navarra · Opus Dei · Universidade de Navarra
Eu tenho um sonho
Olá, bem-vindos a um novo episódio de A História Repete-se, com Margarida de Magalhães Ramalho. Olá, Margarida. Olá, Lourenço. E comigo, Lourenço Pereira Coutinho.
Hoje vamos falar sobre a história de um Estado Peninsular esquecido, o Reino de Navarra, um território que, durante séculos, foi atravessado pelos Pirineus e disputado por França e Espanha e que, na sua máxima extensão, teve cerca de 20 mil quilómetros quadrados, ou seja, mais ou menos o tamanho do Condado Portocalense que se estendia do Rio Minho ao Rio Mondego.
Olá, sou a Jórgina Angélica. Eu sou a Paula Cardoso. Juntas criámos o tal podcast. Um espaço de conversas reais, profundas e sem filtros. Todas as quintas-feiras damos a conhecer novas pessoas com ideias e trajetórias que inspiram mudança. Podem ouvir-nos em todas as plataformas de podcast e nos sites do Expresso e SIC Notícias.
Navarra é um bom exemplo das diferenças entre o Ocidente e Oriente Peninsular, não só geográficas como também históricas.
Noutros episódios, já referimos, por exemplo, o relativo desinteresse dos muçulmanos pelo noroeste peninsular, o que permitiu a formação de reinos cristãos. A leste, os muçulmanos tinham interesse em avançar até os Pirineus e chegar a território dos francos, intenção que foi travada por Carlos Martel, em 732, na Batalha de Poitiers.
O seu neto, Carlos Magno, estabeleceu em finais do século VIII a chamada Marca Hispânica, isto é, um conjunto de territórios, aliados ou mesmo governados por francos, que tinham a missão de travar o avanço dos muçulmanos.
No entanto, os territórios, na maioria condados da marca, cedo procuraram a sua autonomia face aos francos, desde logo na célebre Batalha de Roncesvalles, em 778. Por outro lado, alguns destes territórios sobreviveram graças à sua neutralidade e a alianças com o Califado Córdoba.
Foi o caso do chamado Reino de Pamplona, uma estrutura política surgida no século IX, que foi governada pelos chamados Vascões e teve Inigo Iniguez Arista por seu primeiro caudilho. Por sua vez, o sul deste território seria governado por um século pelos Banuquasi, uma linhagem de hispano-romanos convertidos ao islamismo.
O pacto dos reis de Pamplona com os muçulmanos foi quebrado no século X com o advento de uma nova dinastia, a Jimena. O primeiro-rei desta nova fase, Sancho Garcês I, passou à ofensiva e iniciou a expansão do seu território.
Este atingiu a sua maior dimensão no século XI, durante o reinado de Sancho III, época em que se estendeu às zonas atuais da Cantábria, Castela Leão, Rioja e País Vasco. Note-se que as cidades vascas de Vitória e São Sebastián foram fundadas nesta fase, mais concretamente no reinado de Sancho IV.
Pamplona seria, por esta altura, a cidade cristã mais rica da península, isto por ser um ponto de confluência entre os mundos muçulmano e cristão e, também, um ponto de passagem do Alen Pirineus, facto que ganhou maior relevância com a crescente importância dos Caminhos de Santiago. O século XI seria, simultaneamente, a época de apogeu e de início do longo ocaso do Reino de Pamplona.
Notes aqui, Reino de Pamplona, que só passou a ser chamado Reino de Navarra em 1162. Isto por decisão de Sanches VI, o sábio, que considerava que Navarra, possivelmente uma evolução ou corrupção linguística de Basco, representava melhor a totalidade do território que governava do que Pamplona, que se referia a uma cidade. Qual foi então a principal causa do início do declínio do Reino de Navarra?
A principal foi sem dúvida o crescimento dos dois territórios com que fazia fronteira, Aragão e Castela. Aliás, um dos filhos de Sanjo III de Navarra seria o importante Fernando Magno, rei de Leão, graças ao seu casamento, e conde de Castela, território que herdou de sua mãe.
O tempo de Fernando Magno, que era bisavô de Dom Afonso Henriques, marcou o início de uma inversão de forças entre os territórios muçulmanos e cristãos, que passaram consistentemente à ofensiva. Paradoxalmente, Castela e Leão prosperaram com a dinastia navarra iniciada com Fernando Magno, mas não o seu território de origem, encravado entre Castela e Aragão.
Note-se que Aragão também começou com uma dinastia de origem navarra, mais concretamente com Ramiro I de Aragão, filho bastardo de Sancho III de Pamplona e meio-irmão de Fernando Magno. Sem possibilidades de se expandir, Navarra sobreviveu a partir do século XIII graças à sua política de alianças.
Ao contrário, por exemplo, do que aconteceria no outro extremo da península, onde a Galiza, também impedida de se expandir por Portugal e Leão, acabou integrada neste último reino. Em 1234, o conde de Champagne, tio Baldo I, herdou o trono de Navarra por morte de seu tio materno, Sancho VII.
Foi o princípio de uma ligação privilegiada de Navarra com o Alain Pidineus e com os franceses que se prolongou até o século XVI. Com efeito, até 1512, o reino de Navarra foi governado por dinastias francesas. Os contos de Champagne, os capetos da linha dos reis de França, os contos de Évreux, os contos de Foix.
Tal contribuiu para a singularidade de Navarra e também para a manutenção da sua independência. Uma das curiosidades de Navarra foi o elevado número de rainhas reinantes que teve. No tempo medieval e no início da Idade Moderna, tal significava muitas vezes uma mudança de dinastia, o que aumentava as probabilidades de instabilidade política.
Foi o que aconteceu mais uma vez em 1451, quando morreu a Rainha Branca de Navarra da dinastia de Evreux. Então, o seu marido, o rei Juan II de Aragão, recusou-se a entregar o trono de Navarra ao filho e herdeiro de ambos, Carlos, príncipe de Viana.
Foi o princípio de uma longa guerra civil em Navarra, protagonizada pelos biamonteses, apoiados pelos castelhanos, e pelos agramonteses, apoiados por aragoneses e franceses.
Este conflito debilitou Navarra, que perdeu então território e população, e facilitou a posterior ingerência no território do rei Fernando de Aragão, o célebre Fernando o Católico, que era meio-irmão de Carlos, príncipe de Viana, que entretanto morrera em 1461.
Em 1512, num contexto de grande rivalidade entre França e Aragão, rivalidade que se estendia ao espaço italiano, Fernando, o católico, reagiu à assinatura do Tratado de Blois entre João III de Albrete, rei de Navarra, e Luís XII, rei de França, e invadiu o território de Navarra.
No ano seguinte, as Cortes de Navarra, compostas unicamente por biamonteses, reconheceram Fernando o Católico como Rei de Navarra.
Por sua vez, em 1515, as cortes castelhanas de Burgos retificaram a decisão, reconhecendo que a coroa de Navarra passaria para a descendência de Joana Alouca, rainha de Castela e filha de Fernando Católico. Foi assim que a parte peninsular do Reino de Navarra saiu da órbita francesa e foi herdada pelo imperador Carlos V.
filho da Rainha Joana de Castela e neto de Fernando Católico. Por sua vez, a Navarra Francesa, ou Baixa Navarra, manteve-se como reino e com uma dinastia francesa, os d'Albert. E a partir de finais do século XVI, a coroa de Navarra passou a estar unida à de França, com a subida ao trono de Henrique IV e o início da dinastia de Bourbon.
Os reis bourbon franceses continuaram a intitular-se reis de Navarra, isto até Carlos X, que morreu em 1830. Note-se, porém, que o reino de Navarra foi, claro, suprimido entre 1790 e 1814, desde a Revolução Francesa até à restauração de Luís XVIII. Quanto à Navarra espanhola, já um território diminuto, manteve-se surpreendentemente como reino até 1841.
governada por um vice-rei sediado em Pamplona. Para que tal fosse possível, Navarra beneficiou de ter apoiado o candidato vitorioso durante a guerra de sucessão de Espanha, que foi Filipe de Anjou, o primeiro rei borbão de Espanha, como Filipe V.
Isto ao contrário de Aragão e da Catalunha, que apoiaram o arquiduque Carlos de Habsburgo. Como resultado, Navarra manteve os seus privilégios e foeiros com a dinastia de Bourbon, enquanto a Catalunha os perdeu. No século XIX, Navarra era um território eminentemente rural, conservador e católico, que continuava a gozar de privilégios fiscais e de governo no contexto da monarquia espanhola.
Assim, foi um dos focos de resistência à instauração do Estado Liberal, de cunho centralista. Entre 1833 e 1840, Navarra foi um dos principais cenários da depois chamada Primeira Guerra Carlista, com os carlistas, defensores dos direitos ao trono espanhol do infante Carlos Maria Isidro, a combaterem sob o lema Deus, Pátria, Rei, depois adotado pelos tradicionalistas.
Esta guerra, que provocou cerca de 200 mil mortos, terminou com a vitória dos liberais comandados pelo general Espartero e teve por consequência a chamada Lei Passionada, de 1841, aprovada pelas Cortes Gerais Espanholas durante a regência de Espartero e que decretou o fim do reino de Navarra e dos seus foeiros. Então, Navarra passou a província de Espanha, embora mantendo alguma autonomia político-administrativa.
Nas décadas seguintes, a Catalunha e as Vascongadas, o atual País Basco, conheceram um grande desenvolvimento económico e industrial, o que resultou na emergência da sua burguesia e operariado, e no desejo de uma maior autonomia do governo de Madrid. Pelo contrário, o território vizinho do antigo reino de Navarra manteve-se eminentemente rural, católico e conservador.
Navarra voltou a ser um dos palcos principais das duas guerras carlistas seguintes, contra o Estado Liberal, em 1846-1849 e em 1872-1876. O chamado carlismo, equivalente na sua primeira fase ao miguelismo português,
embora com uma componente autonómica, evoluiu no século XX para o tradicionalismo, já não defensor do absolutismo, mas sim do regresso a um regime inspirado pelas instituições medievais e baseado em corporações.
A chamada Comunhão Tradicionalista, muito ativa em Navarra, que teve nos chamados Requetés a sua milícia paramilitar, participou ativamente na Guerra Civil de Espanha, ao lado dos nacionalistas, chegando a integrar cerca de 60 mil voluntários. Para consternação de alguns dos seus líderes, esta foi integrada em 1937 e por decreto de Francisco Franco, no Movimento Nacional. No pós-Guerra Civil,
diversos tradicionalistas pediram a Franco que abandonasse o totalitarismo e voltasse ao espírito inicial do movimento, restaurando a minorquia tradicional. No entanto, tal não veio a acontecer. Apesar disto, Navarra foi compensada pelo seu apoio aos nacionalistas, isto ao contrário da Catalunha e do País Vasco. Toda esta história explica em parte as diferenças políticas entre estes territórios.
A partir de 1978, a região de Navarra integrou-se positivamente na democracia espanhola e no sistema das autonomias. Pelo contrário, também sofreu com o terrorismo da ETA, que provocou mais de 40 vítimas no território.
região de base conservadora, que votava tradicionalmente à direita, a atual Comunidade Fural de Navarra, uma das autonomias de Espanha, tem evoluído no sentido de uma maior diversidade política, sendo atualmente governada por uma coligação de centro-esquerda, que integra o PSOE, a Geroabai, uma coligação nacionalista, e a esquerdista Contigo Zorequín.
Margarida, de facto isto foi uma viagem... É uma viagem longa, mas é uma viagem muito curiosa. E eu não sei se tu ficaste com a mesma sensação que eu, que gosto particularmente de acompanhar a história de Espanha e a antiga história dos reinos medievais de Espanha.
o conhecimento que tinha Navarra era diminuto. No meu caso era praticamente nulo, basicamente. E é um reino com semelhanças e também com particularidades em relação aos outros reinos peninsulares e até onde se podem fazer uma série de comparações e contrastes. Surpreendeu-te esta história de Navarra?
Surpreende-me, sobretudo, porque há aqui coisas que são óbvias e que nós todos mais ou menos vamos encontrar paralelo na história até do próprio Condado Portuguesa e toda a Idade Média, tudo aquilo acaba por ter muitos pontos de afinidade e de alguma maneira...
estas dores de crescimento que vão ser comuns a quase todos os reinos ibéricos, pela sua proximidade aos reinos muçulmanos, o estarem, no caso de Navarra, sobretudo, mas também todos os outros da sua proximidade à França.
Mas há aqui particularidades curiosas ao mesmo tempo, porque já não é só a questão de estarem permanentemente em guerra e em contendas. Uma das coisas que eu, por exemplo, achei bastante curiosa, e indo agora um bocado mais para trás,
A existência de Pamplona, que teoricamente é criada ainda no Império Romano por Pompeu, quando a sua passagem na Península Ibérica, mas aquilo não é exatamente uma cidade. É um conjunto de burgos que se odeiam e que têm cada um as suas estruturas militares e as suas muralhas. Ou seja, há aqui...
Mesmo em territórios relativamente curtos, há uma tensão permanente que não sei se é tão comum assim a outras situações. Até pela geografia, não é? Pronto. Por ser uma... Eu queria chegar, por ser uma região, ou estar próximo de uma região montanhosa, que é os Pirineus, que de alguma forma também vai determinar as características deste povo.
Eu achei piada num texto que eu encontrei em espanhol, de um historiador espanhol, sobre este período, e em que ele referia-se um bocadinho à diferença no pequeno reino de Navarra entre o que ele chama os montanheiros, os que estão na montanha, e os que estão embaixo, no Val do Ebro. Portanto, há uma diferença, enquanto que os do Val do Ebro, apesar de tudo, acabam...
por ter influência ou receber uma influência para já romana e são acessíveis à romanização e até depois à própria influência das civilizações muçulmanas e modernares, enquanto que os da montanha não querem nada.
Aliás, a história dos povos da montanha na península é também muito interessante, porque temos os astorianos, que são a base, mais a ocidente. As vascongadas, como eram chamadas na altura, que hoje em dia é chamado o País Vasco, em que várias teorias, hoje em dia algumas refutadas,
que dizem que não só esses povos não sofreram influência romana, como não sofreram influência visigoda, nem muçulmana. Pois não. Portanto, daí serem absolutamente únicos. Exatamente. Aliás, ele diz exatamente isso. Eles não querem, não apanham nada dos muçulmanos, não querem nada dos godos, não querem nada até dos francos. Eles são...
independentes e um bocadinho impremiáveis às coisas, só que essa impremiabilidade também não lhes dura para sempre. Mas aqui neste caso de Pamplona não é bem assim. Uma das coisas interessantes é que é um território que mistura exatamente essa zona de montanha com uma zona de vale, sobretudo no Val do Ebro. Mas já é uma zona de vale.
E nessa zona há de facto durante muito tempo, e são zonas claramente contrastantes, um pacto com os muçulmanos. Claro, eles pagavam imposto ao reino de Córdoba. E para eles eles mantinham uma neutralidade, apesar da religião também seriam cristãos.
Eles também não queriam a ingerência dos francos, porque uma das coisas muito interessantes, quando falamos na alta idade média, do que foi o travão, e isso é uma grande diferença para o que se passa ao Ocidente, eu referi na introdução, porque os muçulmanos objetivamente tinham interesse em avançar pelos Pirineus e aqui ao Ocidente não tinham...
Portanto, era uma zona mais deserta ou de menos acutilância dos muçulmanos. Mas quando Carlos Magno estabelece as marcas, e essas marcas ao princípio são claramente territórios ou sob o domínio ou aliados dos francos, a distância dos Pirineus ou o facto dos Pirineus separarem-nos do outro lado...
dá-lhes um grande sentimento e uma grande vontade de autonomia. E esses territórios, de facto, desde muito cedo, todos esses condados da marca, como o Urguel, como depois a Barcelona e a Cataluña, vão criar essas aspirações de autonomia. Portanto, não querem a influência dos francos. Estão em rebelião com os pais.
Pois, e ali, o que é interessante em Navarra, é que Navarra é um território diminuto, é um território com uma extensão muito... Agora, durante algum tempo, e beneficiando muitíssimo com os caminhos de Santiago, aliás, como Castela também beneficiou, Castela estrutura-se com os caminhos de Santiago. E a importância que este caminho francês tem...
para o desenvolvimento todo do norte peninsular à época. Para Pamplona foi essencial o início dos Caminhos de Santiago, portanto a partir do século IX, século X, que é a altura do seu apogeu. É este ponto de confluência com um pacto. Como é que surge o apogeu de Navarra? Com um pacto com os muçulmanos, por um lado, por outro, como um interposto.
entre a Europa transpirinaica e Santiago. Aliás, eles estão sempre a querer, de alguma maneira, criar as tais, como tu há bocado referias, e muito bem, há uma certa vontade sempre de evitar conflitos, ou pelo menos evitar aqueles conflitos com os exteriores que lhes possam ser... Aham.
Justamente para se afirmarem como um território de passagem. Porque um território aberto à passagem tem que ser um território relativamente neutro, senão é muito mais difícil de controlar. Sem dúvida nenhuma. E o que é também interessante em Navarra, e aqui podemos pensar num outro ponto que é a grande força de atração que tem o centro peninsular, é que tanto Castela como Aragão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão sen
começam, também como referido, isto não é nada novo, com dinastias navarras, como reinos. Surgem como reinos, portanto já eram territórios, já eram condados, existiu o Condado de Castelo e o Condado de Aragão, e sobem a reino...
com elementos de uma dinastia navarra. Que de alguma forma até acaba por ter, mesmo que pouco tempo, um papel quase que predominante dentro dos reinos peninsulares, pelo menos daquela zona. Margarida, numa fase em que a relação com o mundo muçulmano e com o califado foi pactada e não foi de conquista,
de Navarra ou Pamplona, chamamos aqui de Pamplona-Navarra, mas por simplificação vamos chamar Navarra. Portanto, também como eu disse na introdução, no século XII o reino de Pamplona muda para o reino Navarra, mas não implica qualquer estrutura nem na sua dinastia nem no seu modo de funcionamento.
Mas Navarra perde protagonismo justamente quando a relação nesta zona leste da península com os muçulmanos deixa de ser pactada e passa a ser de conflito permanente. E aí ganham vantagem, enquanto Navarra teve aquela tradição de negociação e de pacto que a manteve durante dois séculos.
Como um reino estruturante nesta zona da Península, a partir do momento em que a relação com os muçulmanos passa a ser uma relação predominantemente beligerante, é Castelo e Aragão que tomam a dianteira. Que tomam a dianteira porque são eles que estão, no fundo, a avançar para as conquistas para o sul.
Exato. Ao ponto de deixarem Navarra encravada e sem hipótese de expansão. Não é qualquer hipótese, não podes ir para parte nenhuma. Exato. Apesar de Navarra se estender para uma zona para lá dos Pirineus,
mas também por manifesto desinteresse da França feudal, não é? A França feudal que vivia também bastante dividida e portanto também permitia que aquilo de alguma forma pudesse... Essa que é a parte que eu acho mais curiosa, é como é que apesar de tudo...
Um território que parte, que não é propriamente muito grande, no entanto consegue manter uma unidade que vai perdurar quase que para além, embora não sendo conhecido, e nós hoje em dia raramente as pessoas sabem o que é que foi o reino de Navarra, e não deixa de ser curioso como ele chega quase até ao século XX. É. É uma coisa, é quase que um paradoxo.
É, eu acho que a nós é capaz de despertar tanta curiosidade, e isto é muito mal comparado, porque obviamente Portugal, para além da dimensão, para além do impacto e para além do seu papel, mas muitas vezes pessoas que conheçam mal a história peninsular perguntam-se mas porquê que Portugal permaneceu, se estruturou como um país independente e permaneceu independente?
obviamente, mais uma vez, o caso de Navarra é muito diferente, porque Navarra, pela dimensão, mas há um outro paralelo. No caso de Navarra é sobretudo por esta ambiguidade, porque Navarra acaba por beneficiar também, por exemplo, no espaço francês. Agora falávamos que parte de Navarra estendia-se por França. Nessa altura, para além de França estar dividida...
A Navarra tinha como vizinhos, por exemplo, no docado da Quitânia, ingleses, que também eram senhores feudais franceses. Portanto, era mais um território, um pequeno território, que depois às tantas é governado por dinastias francesas.
O que lhe garante uma certa continuidade, pelo menos nos espaços franceses, que não iriam ser invadidos. Portanto, no fundo, o reino de Navarra não era maior que muitos condados ou educados que existiam na altura, mas tinha a dignidade real. Portanto, era até algo mais de prestígio do que de peso político. De alguma maneira, dentro do espírito ainda da própria idade média.
para o reino que dominasse, poderia ser o leão, ou ainda estamos a falar, no começo. Até não era mal que houvesse vários reinos, portanto, permitia que o imperador da Espanha até tinha vários reinos vassalos.
E no século XII existiu, foi o tempo de facto do grande equilíbrio dos reinos peninsulares, em que existiam cinco reinos mais ou menos com a mesma dimensão, Navarra mais pequeno, mas Portugal, Castela, Leão, Aragão e Navarra. O que também explica porque é que...
O Dom Afonso Henrique, quando se auto-intitula rei, não causa, a meu ver, um grande frisson no seu primo, rei de Castela, porque, de alguma forma, enquanto ele prestava salagem, é mais um reino do meu império.
Depois as coisas começam a agudizar. Mas digamos que é que nós estamos também a olhar para um momento em que toda a mentalidade funcionava ou a parte política funcionava com essa característica de não ser difícil aceitar que vários reinos estivessem conglomerados sobre a tutela de um, que era o principal, no fundo.
Agora, essa situação evolui. E muito. E Navarra, a partir do século XIII, que é uma altura em que é um ponto de viragem, porque, sobretudo depois da Batalha de Navas de Losa, há uma afirmação dos grandes reinos, que eram, sobretudo, Portugal, Castelo e Aragão. São depois os três grandes reinos que ficam, porque Castela já está junta com Leão, Castela-Leão no século XIII já está, desde a década de 1830, e, portanto, ficam estes três grandes reinos.
E Navarra permanece ali como um símbolo de um tempo anterior e de uma relação. E Navarra é interessante porque é o símbolo de uma boa relação com o mundo muçulmano e de uma coexistência relativamente, relativamente, estamos a falar para os padrões medievais, pacífica com o mundo muçulmano. Depois também...
Todo este tempo das dinastias francesas, a meu ver, é o que acaba por lhe garantir a sua autonomia e algum apoio durante o século XIII até ao século XV. E depois era suficientemente pequena para também, se calhar, não os incomodar muito do que se lá passava. Repara, durante todo o século XIV e grande parte do século XV, o foco estava na conquista à sul. Claro.
Não estava em conquistar um pequeno reino montanhoso. Que é que isso interessa? Que ainda por cima teve como reis senhores feudais franceses. E até por uma política de boa vizinhança, não seria a melhor decisão atacá-lo e ainda arranjar mais um conflito desnecessário com o Correio de França para uma região que, enfim... Que não valia a pena, no fundo. Pela qual não valia a pena. Agora...
passa a valer a pena. E aqui também há a curiosidade, mas isto é uma questão meramente de acaso. De, em Navarra, ter existido muitas rainhas, o trono ter recaído em rainhas muitas vezes. E uma delas é, que tu já falaste, da branca filha do tal Carlos o Nobre, se não me engano, que é uma personagem curiosa, porque ela vai ser, por casamento, rainha da Sicília.
Vai ter um papel como regente da Sicília interessante. Aparentemente ela terá até tido uma atuação bastante curiosa a quando da erupção do Etna. Tem uma atitude, o rei não está porque estava em guerra a Algures, mas ela está como regente e ela acaba...
por ter até um papel bastante curioso. Mas é, vai ser, depois de viúva, obrigada a regressar, porque, entretanto, a morte dos seus dois, os dois que estavam na linha de sessão, ela acaba por ir... Ficar herdeira do trono. Do trono de Navarra. E ao casar com Juan II de Aragão, que depois essa é outra história que é curiosa, porque é que esta atitude de Juan II em relação ao seu filho primogénito para pior senão.
Porque o próprio Juan II achava-se com direito ao trono de Navarra. Claro! Mas porquê? Porque no fundo a família de Aragão e de Navarra também era mais ou menos a mesma. Porque a dinastia era a mesma. Ou seja, nesta altura em que os Estados eram vistos como património pessoal, Juan II achava que não devia ser ele...
rei em Aragão e o filho, e o trono passar diretamente para o filho sem passar por ele. Ele achava-se que tinha direito a ser rei de Navarro. Diriam as más línguas que tudo isso também tinha a ver com a pressão que a sua segunda mulher vai fazer para que ele afaste o príncipe Carlos de Viana porque provavelmente ela quereria fazer subir a sua descendência.
Onde estava Fernando Católico, que era meio irmão de Carlos de Viana, e vai acabar por subir. E essa pretensão, depois dessa guerra civil... É, que dá uma direita até à própria Catalunha de tomar atitudes interessantes de defesa da legitimidade do príncipe herdeiro, que é curioso também, no fundo.
Porque aqui a política aragonesa e a política de Navarra estavam estreitamente ligadas. A Catalunha estava integrada na coroa de Aragão desde o século XII. E, portanto, a Catalunha também, neste seu desejo de autonomia e de vincar a sua personalidade, vai-se revoltar contra Juan II e vai dizer que não, e de facto o trono passaria... Obrigou-se a soltar o príncipe que o rei tinha mandado prender, a determinada altura mandou prender.
Estamos a falar de pai e filho. Pai e filho, pronto. Como o século XV. É muito curioso porque o século XV, e aqui em Navarra também se vê isto, é o século das guerras entre famílias. Repara, a Guerra das Rosas. Isto é exatamente no mesmo período da Guerra das Rosas. Eu acho que...
em Inglaterra. Os chamados laços de família não são os que nós temos hoje. Nem por sombras. Nem por sombras. Não tem nada a ver com... É um bocado indiferente ser pai ou filho. É uma luta de poder. É uma luta de poder. Mas tiveste muitas neste século. Em Portugal também, a Batalha de Alfa-Rubeira, por exemplo, também está nesta linha. Também está nesta linha. E depois o que Dom João II...
a relação de D. João II com os cunhados cunhados e primos com os duques de Viseu Agora tenho graça teres falado, porque isso foi uma das coisas que me surpreendeu, é que no meio disto tudo aparece um Pedro de Portugal filho precisamente do infante D. Pedro, que vai morrer em Alfa Robeira
e que ainda chega a ser nomeado como rei de Navarra, embora que... Pela sua pretensão ao trono de... E por ser conde de Urguel, por ser filho de Isabel de Urguel, de uma princesa... Como tudo aqui na península, eles se entrelaçavam. E aqui, claramente, Aragão e Navarra eram praticamente a mesma família, e isso será o que vai legitimar depois Fernando o Católico.
Mas aqui já num contexto diferente, porque repara, aqui no século XVI, quando finalmente Navarra é integrada na coroa de Espanha, já no tempo de Carlos V, e aqui isto é uma fase que a antecede, o facto de haver uma influência francesa, que no século XIII, no século XIV e durante parte do século XV, não foi problemático, porque o foco estava à sul.
Passa a ser, porque também muito porque Fernando de Aragão, não é? Claro. O rei de Aragão, dito católico, depois o marido de Isabel de Castela. Fernando de Aragão inicia uma disputa pelos territórios italianos com o rei de França, na altura Carlos VIII, mas que é uma disputa que se vai estender e prolongar pelo século XVI, a rivalidade depois entre Espanha e França. Apenha e a França, que vai ter as suas consequências.
Por aí fora. Há lá longo. Há lá longo. Vem até ao século XVIII, pelo menos. Sim, até à Guerra de Sessão, quando os borbons sobem ao trono de Espanha. Exatamente. Mas nesta altura era decisivo para Fernando do Católico impedir que qualquer dinastia francesa estivesse no trono de Navarra e...
é quando ele, reagindo a um pacto entre Navarra e França, e já o rei Luís XII na altura, e sendo ele um inimigo figadal de França e do rei Luís XII, conquista o reino de Navarra. Se eu agora penso que não estou a dizer mal, isso também acaba por ter a ver com a posição que Navarra vai ter de apoio ao Papa de Avignon.
Que é uma coisa que não deve ter caído muito bem. Sim, mas isso já é posterior. O cisma é anterior, não é? A partir de 1418 já não há... Exatamente, mas há nessa... Isso também acaba... Porque é tal história... É o partido francês. Era o partido francês.
Há uma maneira de manter as coisas tranquilas é pactuar com o lado francês e não com o lado espanhol. Mas aqui torna-se particularmente grave porque Fernando do Católico estava em guerra com o Reino de França. Era Aragão com o Reino de França. Ou seja, a rivalidade entre Espanha e França começa com uma rivalidade entre Aragão e França.
Porque Castela até, nos tempos anteriores, e sabemos, por exemplo, em Algebarrota, que os franceses apoiaram os castelhanos. Não era tanto um problema entre Castela e França, era sobretudo entre Aragão e França. E que depois estende ao reino de Espanha, por consequência, quando Espanha se torna um Estado, portanto, uma união das coroas de Aragão e de Castela.
Mas a partir desta altura, o que é interessante é que também, tal como acontecia com Aragão e com Castela, Navarra, ao ser integrada na coroa de Espanha, mantém os seus fueiros e os seus privilégios. E que os vai manter?
Sempre foi os que na altura não só o Aragão também tinha, como a própria Cataluña também tinha. A grande diferença depois e o que leva a Cataluña a perder os seus privilégios e, no caso de Navarra, a mantê-los, foi ter estado sempre do lado dos vencedores. Eu não diria do lado certo, diria do lado dos vencedores. Do lado dos vencedores. Que ela inclusivamente vai apoiar a sucessão para Filipe V.
Exatamente. Navarra apoia Filipe V, que era neto do rei Sol, no fundo, de Luís XIV, enquanto tanto Aragão como sobretudo a Catalunha são muito penalizados pelo apoio que dão ao arquiduque.
Claro que podemos também aqui recuar um bocadinho e dizer que Navarra foi um reino, um território bem comportado, em 1640, quando a Catalunha iniciou a sua rebelião, não é? Claro. Que se estende por 19 anos e se não fosse isso nós provavelmente teríamos tido mais dificuldade. Se não fosse isso, muito dificilmente Portugal tinha conseguido fazer face ao exército espanhol. A sua independência outra vez.
E Navarra aí mantém-se como um reino sem entrar em rebelião contra o Estado espanhol. Beneficia muito numa altura em que a Catalunha já tinha sido prejudicada pela rebelião em 1640 e 1656. E depois, com a vitória dos Bourbons na Guerra de Sucessão, em 1714 também é considerado pelos catalães...
Um ano negro de perda de foeiros e privilégios. Que em Navarra se manteve. Exatamente premiando... Porque estava do lado do vencedor. Do vencedor. E, surpreendentemente, eu acho que os nossos ouvintes provavelmente não tinham essa ideia, este é um reino que formalmente se mantém até 1841. O que é uma coisa extraordinária. É, de facto, é extraordinária.
Nós também podemos dizer, também existia o Reino do Algarve, mas o Reino do Algarve era algo meramente formal. Era formal, não tinha privilégios específicos. Inclusive a de cunhar moeda.
Portanto, que é um grande privilégio. É um grande privilégio. E isso é interessante. E teve vice-reis até muito tarde, coisa que no Algarve nunca houve. O vice-rei, se calhar gostariam, mas nunca tiveram. Um representante em Pamplona do Rei. Enquanto no espaço francês, o que também é muito interessante, porque os Bourbons eram conhecidos também, e foi o que fizeram em Espanha, por políticas de centralização.
Os Bourbons em França também se mantêm sempre, quando Navarra é incorporada no reino de França, por Henrique IV, o primeiro Bourbon, que herda também pelo lado materno o direito à coroa de Navarra, à coroa de Navarra francesa, do espaço francês, os reis de França mantêm sempre o título de rei de Navarra. Exatamente. Ou seja, não incorporam... Aquilo era importante até do ponto de vista de prestígio.
Era. E na altura era uma coisa simbólica. Como a Espanha também manteve, até às guerras carlistas, o título de rei de Navarra. O que é curioso, no fundo. Mas aqui talvez, no caso de França e de Espanha, como em Espanha Navarra manteve os seus privilégios, o rei de França provavelmente também, na Navarra francesa, pensou, então também vou manter aqui um estatuto especial.
Muito provável. Que era sobretudo um estatuto formal e de prestígio, que era esta ideia de reino, que aliás, quando os Estados-Gerais foram reunidos em 1789, Navarra enviou os seus deputados, mas não eram deputados por França, eram mesmo deputados por Navarra, com o seu caderno de encargos e com as suas reivindicações próprias. O que é muito curioso. É muito curioso. É de facto uma história que é bastante curiosa.
pela sua diversidade em relação a outros casos semelhantes que poderiam ser iguais, mas não são. E mantendo-se discretamente mas manteve os seus privilégios. Se calhar foi esse o segredo da sua longevidade. Foi ter-se mantido discretamente estes privilégios que não eram poucos a nível fiscal, que era muito importante na vida das pessoas. Sobretudo nas populações. Isso era fundamental mesmo.
E de um governo de proximidade, porque um vice-rei tem uma autoridade muito grande. Muito maior, que fosse um alcaide. Sim, sim. E mantém-no até o momento de emergência do Estado Liberal.
O Estado liberal, que é por definição centralista, acaba com tudo o que são especificidades, aliás é uma das ideias da Revolução Francesa, é acabar com tudo o que eram considerados privilégios feudais, uma isenção fiscal, qualquer tipo de diferenciação entre territórios e regiões.
E Navarra, muito sociosa destes seus privilégios, emerge como um foco de resistência contra o Estado Central. É também o berço do que é a resistência carlista contra o Estado Liberal. Que, como eu disse na introdução, é de certa forma...
O que foi em Portugal o migulismo é o carlismo em Espanha. É o paralelo, sim. O Deus, Pátria e Rei, que depois é a base do pensamento tradicionalista do século XX, que depois incorpora, obviamente, pensamentos exteriores, mas a nível do que é a base é este carlismo.
e lutando e fazendo de Navarra o epicentro de várias guerras que provocaram milhares mortos e condicionaram fortemente a história de Espanha na segunda metade do século XIX. E com repercussões mesmo em Portugal, porque o próprio Dom Carlos andou a fugir de determinada altura. Sim, esteve cá.
E que esteve cá e põe alguns problemas em relação a isso. Ele ainda chega a passar ali na zona da Almeida e depois acaba por ser obrigado, de facto, a seguir. Mas o que é facto é que esta personagem, esta ideia do carlismo, de alguma forma, e até por conversas que nós já tivemos sobre isso,
vai perdurar para além desta fase da implantação do liberalismo e, de alguma forma, continua viva ainda dentro de algum espírito daquilo que vai sobreviver para o século XX e que, de fundo, depois explica o seu apoio ao franquismo. Desde logo, um tradicionalismo que se confunde a partir da década de XX, das primeiras décadas do século XX, com o nacionalismo,
e que, apesar de haver aqui uma contradição, porque, por um lado, este tradicionalismo evolui também para a defesa de foeiros. Portanto, ao primeiro, Deus, Pátria e Rei, no século XX, os tradicionalistas juntam Deus, Pátria e Rei e foeiros. E foeiros, que era para não haver confusões. Ao mesmo tempo que a Catalunha...
reclamava exatamente o mesmo. E é muito interessante este paralelo. Porque a Catalunha reclama exatamente o mesmo, só que fazendo através da base e das comissiones obreiras e de alguma burguesia. Porque tem uma economia completamente diferente e uma democracia completamente diferente.
O querer recuperar aquilo que for a autonomia da sua autonomia da Cataluña é muito baseado numa burguesia industrial, liberal, ilustrada e também muito aí já num nacionalismo de base ou socialista ou anarquista, mas é muito mais complexo este movimento autonomista ou mesmo independentista catalão.
enquanto o Navarro se baseia muito na ideia tradicionalista e conservadora. E no catolicismo. É muito interessante esta diferença. Ambos querem o mesmo, autonomia ou o mesmo nacionalismo, com ideologias completamente diferentes. Ou com ideologias diferentes e com objetivos até diferentes. Uma das coisas que é arrepiante pensar o Bispo de Pamplona, no começo da Guerra Civil Espanhola, que defende, basicamente, cruamente, senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão senão sen
quase que a matança dos republicanos, porque estavam numa cruzada de fé, que é uma coisa absurda, completa. Aliás, depois o desencadear da situação da Guerra Civil, e nós sabemos que a Guerra Civil espanhola também teve do lado republicano uma quantidade de excessos graves.
Tive excessos de ambos os lados, não é? Sim, mas comparativamente, se formos entrar em termos estatísticos de fuzilamentos e mortes, não há comparação, porque aquilo que se vai fazer do lado franquista e, sobretudo, o que se vai fazer depois da guerra...
É uma brutalidade, é uma coisa que não tem... A perseguição feita pelos vencedores, claro. A perseguição dos vencedores que vai até ao fim do franquismo. É uma coisa bastante mais complexa, que ainda hoje não temos a dimensão por não saber onde é que estão as valas, não é?
Pois, e de facto o fenómeno desta evolução ideológica e de pensamento e intelectual do tradicionalismo, porque o tradicionalismo depois também tem um pensamento e tem bases intelectuais, como depois em Portugal, com o integralismo, que também vai recuperar muito esta idade de um regresso ao tempo medieval e às corporações e tudo isso, passando pelo que eram os regimes liberais.
Mas este tradicionalismo, quando na emergência da Guerra Civil de Espanha, tem muito esta ideia de cruzada e grande parte desta ideia de cruzada adera a esta ideia de cruzada e os raquetês, que são estas milícias paramilitares muito ativas em Navarra e que têm o seu epicentro em Navarra, grande parte, e depois eles são também organizados em tércios.
a exemplo do que se passava no século XVI, os famosos estércios do Duque de Alba, eles têm esta base e este espírito de cruzada, portanto aderem à guerra civil do lado franquista nacionalista. Sendo que e é importante sempre aqui não simplificarmos e percebermos as nuances
os objetivos não eram exatamente os mesmos, ou seja, os tradicionalistas eram mais próximos de outros generais como o Mola e o Sanjurjo que eram os líderes iniciais do movimento e menos de Franco
Mola até estava em Navarra, por acaso. Mola estava em Navarra, exatamente. E, portanto, como ambos morrem, Franco, que era o terceiro general, já fizemos também um episódio sobre a Guerra Civil de Espanha, Franco, que seria assim o terceiro na cadeia de comando dos nacionalistas, acaba por ser ele a encaixar o assamento. E Franco faz desde logo uma coisa que causa grande frustração a estes raquetês e a este movimento tradicionalista. É integrá-los no movimento nacional e na falange.
Que eles não gostam. Que eles não gostam, porque eles eram noticiosos dos seus feiros. Exatamente. Em todo o caso, mais uma vez, acabam por beneficiar de estarem do lado dos vencedores. Pelo facto de estarem do lado dos vencedores. Ao contrário da Catalunha, bastante penalizada do País Vasco, pela sua estrutura mais liberal, mais cosmopolita.
de serem sido penalizados porque estavam do lado republicano. Sim, Barcelona foi um bastião republicano. Aliás, não tem diretamente a ver, mas é sempre engraçado lembrar que a única fase em que o governo de Salazar
permitiu a saída de republicanos, porque normalmente os republicanos que atravessavam a fronteira eram imediatamente entregues às forças nacionalistas, sabendo de antemão que elas iriam ser fuziladas sumariamente. Há um único caso em que isso não acontece, que é o grupo de republicanos que entra pela zona de barrancos, que fica, que ainda são bastantes, ainda é um grupo bastante elevado.
que é protegido por um guarda fiscal português, que de alguma forma acaba por obrigar o governo português a fretar um barco que leva toda esta gente, que era largas centenas de mulheres, crianças e homens, os levam de volta para Barcelona. É o único caso durante a Guerra Civil em que Portugal...
acabou por, de alguma forma, entregar ao lado republicano aqueles que fugiam para cá e que, se tivessem a sorte de ser protegidos pelas populações da Raia, talvez se salvassem. Mas, infelizmente, muitos deles eram entregues e havia testemunhos bastantes da população da zona de Almeida, para ali abaixo.
de assistirem a fuzilamentos sumários à entrega, quando eram entregues do outro lado da fronteira. Portanto, isto, de facto, também... O que é curioso é que em Pamplona, mais tarde, com a própria industrialização de Pamplona, é das zonas que vai ter mais problemas sindicais.
Sim, sim. Também tem graça. Mas depois um território compensado ainda por uma imensa zona rural a sul com uma forte implantação do catolicismo, por exemplo, também com uma influência muito grande, isso já a partir da década de, sobretudo, 40, 50, no pós-guerra do Opus Dei, a Universidade de Navarra é fundada pelo Opus Dei. E o hospital, eu acho que são as duas coisas que tem. Portanto, se não há um peso grande da igreja, continua a ter.
Uma igreja conservadora, também é bom apresar que há igrejas e igrejas, convenhemos. E o que é interessante, interessante até do ponto de vista de análise de toda esta zona, é como territórios vizinhos, como a Catalunha, o País Basco e Navarra, mais uma vez, acabam por ter evoluções bastante diferentes.
Sendo que Navarra, estando no meio de ambos, é um bastião de conservadorismo e estas zonas, o País Basco e a Catalunha, pelo contrário, se bem que estas coisas são sempre generalizações, não é? Eu sei. Pergunto eu, que é uma pergunta, é se será...
De alguma forma, há um isolamento territorial, é óbvio, mas isso também há dos outros lados. De qualquer dos modos, tanto o País Vasco como a Cataluña têm acesso ao mar, coisa que Astúrias não têm. Pois. Não sei se isso terá alguma... Astúrias Navarra. Astúrias Navarra. Pois. Não faço ideia. Pois, também. Mas, de alguma maneira, é engraçado pensar, será que tem a ver com isso também?
O facto de um território não ter acesso ao mar condiciona-o muito e molda-o muito, claro. O ser aguerrido. E são mais metidos para dentro, claro. Sobre si próprios. Claro, mas isso sem dúvida. Ainda bem que focaste isso, porque é outro dos aspectos que diferencia dos territórios vizinhos e que marca também...
O contacto de Navarra é, de um lado tem os Pirineus, não é? Portanto, para se chegar à França. Quando muito chega à França. Chega à França e do outro... É a Espanha. É a Aragão, o País Basco e a Catalunha, com quem as relações não foram mais. Não há conflitos entre o País Basco e a Catalunha. É engraçado porque não há conflitos entre Navarra, o País Basco e a Catalunha. Ou seja, não há guerras entre... Haverá sim com o Aragão depois. É engraçado.
Mas o que é interessante também é que, como isto tudo, a história não é estanque e as sociedades evoluem, mesmo o território de Navarra e a cidade de Pamplona, que tradicionalmente votavam conservador ou votavam em partidos de direita, é neste momento liderada por uma coligação de centro-esquerda.
Se bem que, no atual estado também, e não vamos entrar na atualidade da política espanhola, é muito complicado porque há partidos nacionalistas, depois já há partidos que são, por exemplo, a coligação que está no governo Navarro já é uma coligação que integra coligações.
É coligação da coligação. É coligações, como aconteceu no governo de Espanha. Mas a situação política espanhola é sempre mais complexa. É uma situação que está muito complexa, mas a Navarra do século XXI, ou Pamplona e toda a Navarra, não são a Navarra do século XX. Claro. E, portanto, também já evoluíram. Mas talvez tenha a ver com o facto de se ter industrializado e, portanto, acaba também por ter outra área culturalmente.
Outra coisa que teve graça, de alguma maneira, que é o facto de quando se dão as invasões francesas, Pamplona vai ser um dos polos onde os franceses estão mais tempo. Claro. Porque Pamplona é, de facto, entre 1818 e 1813...
estão praticamente sediados ali. Ou seja, também poderia ter havido por essa parte alguma influência, até pelas ideias liberais, mas não. Não, pelo contrário, houve uma resistência. Houve uma resistência feroz, como aliás também houve cá. Nesse aspecto assemelha-se talvez à Sicília e à outra zona, Nápoles e as zonas de... É curioso. Que foram extremamente resistentes.
e pouco permeáveis a essas influências. Exatamente. Margarida, e durante quase uma hora percorremos aqui um bocadinho da história de Navarra da qual obviamente há muito mais a dizer mas o essencial de um Estado tão pequeno, de um território tão pequeno
mas que por diversas questões geográficas, dinásticas e de pactos, conseguiu sobreviver até tão tarde. E sendo um caso raro de um Estado que esteve sempre do lado dos vencedores.
Quase sempre, dos carlistas não, os carlistas foram perdedores, mas mesmo assim conseguiu sempre manter-se à tona e hoje em dia é uma das autonomias espanholas e tem a magnifica cidade de Pamplona.
que vale a pena visitar e já agora o San Fermín também é uma festa é uma festa onde não se dorme e popularizada pelo Hemingway muito popularizada pelo Hemingway que fez bastantes relatos e inspirou-se bastante para escrever alguns dos seus grandes livros
Margarida, nós até para a semana. Até para a semana, Lourenço. Nós voltamos na próxima semana, noutro tempo e noutro espaço. Este episódio conta com a gravação e sonoplastia de Tomás Delfim.
Capa de Tiago Pereira Santos, Coordenação de Joana Beleza e Direção de João Vieira Pereira. Eu sou o Lourenço Pereira Coutinho, este é o podcast A História Repete-se. Voltamos na próxima semana, mas até lá, siga-nos nas apps de podcasts e nas redes sociais do Expresso. Se tiver sugestões ou ideias que queira partilhar com a equipa de podcasts, envie um e-mail para podcasts.empresa.pt
Olá, sou a Jórgina Angélica. Eu sou a Paula Cardoso. Juntas criámos o tal podcast, um espaço de conversas reais, profundas e sem filtros. Todas as quintas-feiras damos a conhecer novas pessoas com ideias e trajetórias que inspiram mudança. Podem ouvir-nos em todas as plataformas de podcast e nos sites do Expresso e SIC Notícias.