Episódios de Vida em França

O masculinismo em França, um fenómeno que deixou de ser periférico

01 de julho de 202615min
0:00 / 15:36

No passado dia 24 de Junho, foi publicado aqui em França um relatório do Senado sobre os movimentos masculinistas. Outrora considerado um fenómeno social periférico, o masculinismo, uma forma agressiva do machismo que pode inclusivamente traduzir-se, em tentativas de assassínios ou actos terroristas dirigidos contra mulheres, tem vindo a ter cada vez mais eco nomeadamente junto da população jovem.

Ao cabo de sete meses de trabalho e entrevistas a varias centenas de pessoas, a comissão dos direitos das mulheres do Senado chegou à conclusão que o fenómeno que abrange os "incels" -solteiros involuntários- e outros subgrupos tendencialmente ligados à extrema-direita representa um “risco real para a democracia e a coesão social”, constituindo um “movimento social e político” estruturado, que coloca em questão a igualdade entre homens e mulheres.

As autoras do documento recordam nomeadamente dados já apresentados num relatório governamental do inicio deste ano, segundo os quais 22 milhões de franceses reconhecem aderir a pelo menos uma forma de sexismo, sendo que entre eles, 10 milhões -ou seja 17% da população francesa- se reconhecem numa forma de sexismo "hostil".

O relatório cita ainda os resultados de um estudo da Universidade de Dublin, segundo o qual, nas redes sociais, nomeadamente o TikTok e o YouTube, um jovem é exposto a conteúdos masculinistas no espaço de apenas 23 minutos.

Foi neste âmbito que a RFI falou com Luísa Semedo, militante feminista e investigadora associada na área de filosofia na Universidade da Sorbonne Nouvelle.

O que é o masculinismo

Para a universitária "O masculinismo é uma forma mais radical, daquilo que nós já conhecíamos, que era o machismo, o patriarcado, o sexismo, mas agora com uma forma radicalizada, que é uma forma que tem uma acção que vai para além das palavras. Ou seja, muitas destas pessoas que estão no masculinismo são consideradas praticamente como terroristas, ou seja, são pessoas que podem passar a actos violentos contra mulheres. Há uma continuidade nesta questão da dominação dos homens em relação às mulheres e do sexismo, àquilo que nós conhecemos até agora. Tem uma forma 'normalizada'. E esta nova forma, que é a forma hostil, é uma forma de organização que permite fazer mal às mulheres de forma muito mais radical e mais criminalizada".

Segundo a estudiosa, o surgimento desta forma mais agressiva do sexismo tem elo com a maior afirmação do feminismo nestes últimos anos, nomeadamente através de movimentos como o 'Metoo'. "Cada vez que há avanços em relação a direitos, há muitas vezes a reacção daqueles que se julgam ser os lesados desse avanço de direitos. E aqui é o caso. Ou seja, o facto de haver um movimento feminista que é forte e que tem conseguido algumas conquistas, faz com que haja esta reacção de pânico em relação a este movimento progressista. E há um segundo factor, que me parece bastante importante, que é a questão das redes sociais. Ou seja, nós estamos aqui face a um fenómeno que não conhecíamos antes, que é uma forma de propagar estas ideias, que é muito mais rápida, que é mundial, e que permite esta radicalização", considera.

A sensibilização, a educação e a economia como vectores de luta

No seu relatório, as senadoras fazem um pouco mais de 20 recomendações, nomeadamente em torno das redes sociais, a seu ver o principal vector desta ideologia. Apelam a uma maior vigilância, mais transparência nos algoritmos que condicionam o acesso a determinados conteúdos, e também que as páginas masculinistas deixem de poder gerar rendimentos financeiros. Preconizam ainda aulas dedicadas às relações homem-mulher nas escolas, bem como campanhas de sensibilização no seio da população.

Luísa Semedo identifica precisamente a educação e a 'economia do masculinismo' como sendo pistas estratégicas de luta. "Deve haver duas frentes de combate: uma que passa pela educação, como é óbvio. Ou seja, é fazer com que estes jovens, mesmo que se confrontem com este tipo de conteúdos, entendam porque é que é mau, entendam qual é o perigo e não adiram a estas teses. E a segunda frente é atacar de forma legal quem produz estes conteúdos. Parece-me, para já, desmonetizar eventualmente este tipo de canais, porque é preciso perceber que aqui também é uma questão de dinheiro que está presente. Os masculinistas, os que são os gurus do masculinismo, ganham dinheiro com isto e, portanto, têm todo o interesse em continuar. E se forem desmonetizados e se forem também responsabilizados por aquilo que estão a divulgar, penso que também é uma das formas de combater", diz.

Constam também no relatório a preconização de aumentar os financiamentos para as organizações de protecção das mulheres e o apelo para que o problema seja tratado a nível interministerial como sendo um caso de segurança pública.

"Sem dúvida que é necessário que o combate também seja por várias frentes e neste caso tem que haver a implicação de vários ministérios. Tem que haver a implicação de algo que se possa criar. Estou de acordo com isso e que haja fundos para que isso seja feito. Mas também é preciso dizer que já há um trabalho de terreno de anos de muitas associações feministas e que já têm as suas redes, já têm as suas formas de funcionar, que são eficazes e que, portanto, também necessitam de dinheiro. Parece-me também importante fazer isso", reforça Luisa Semedo.

França é o segundo país europeu em termos de financiamento ao activismo anti-género

De acordo com a Amnistia Internacional, desde o começo da década de 2010, os movimentos sexistas estruturaram-se até se tornarem uma rede amplamente financiada e transnacional, a França sendo até o segundo país europeu em termos de fundos dedicados ao activismo anti-género.

A Amnistia Internacional identifica "actores privados, grupos políticos e instituições que permitem a existência de estruturas e associações mais pequenas do movimento anti-género" através do seu financiamento.

Num contexto de crescente visibilidade desta corrente, o risco de ataques terroristas masculinistas é acompanhado de perto pelos serviços de inteligência interna (DGSI), que vigiam "uma dezena de indivíduos susceptíveis de radicalização violenta". Segundo o senado, todos têm menos de 21 anos. Em Julho de 2025, a Procuradoria Antiterrorista acusou jovem estudante de 18 anos de ter o projecto de atacar mulheres com facas.

"Estamos num nível de alerta que me parece o apropriado, ou seja, levar a sério, não achar que é só uma questão de moda ou de uma questão só de uns miúdos que se interessam por aquilo e mais ninguém se interessa. Não, nós estamos a falar de toda uma geração que está submetida a este tipo de influências e com vários casos já no mundo de tentativas ou de atentados contra mulheres vindo masculinista que foram perpetrados e que foram conseguidos. Portanto, nós estamos mesmo a falar aqui de um verdadeiro perigo já urgente", considera a investigadora.

O masculinismo e o mundo do espectáculo

Acaso do calendário, a divulgação do relatório do Senado sobre o movimento masculinista em França coincidiu com a "Fashion Week" de Paris. Uma das figuras convidadas para desfilar para uma das marcas presentes no evento, foi Braden Peters, um jovem 'influencer' masculinista americano de 21 anos conhecido sob o nome de 'Clavicular'. Adepto do culto extremo do corpo, próximo dos neonazis no seu país, ele ilustrou-se nomeadamente por filmar-se a ter uma overdose, a atropelar um homem com a sua carrinha, a matar a tiro um crocodilo, e -obviamente- a humilhar mulheres em directo no seu canal.

Para Luísa Semedo, a presença deste jovem na semana da moda parisiense demonstra que "já estamos perante formas que começam a ser 'glamourizada', ou seja, já não estamos só naquele fenómeno do 'incel', ou seja, daqueles solteiros involuntários vistos como o estereótipo de rapazes pelos quais nenhuma miúda se interessa. Nós estamos agora face a 'influencers' que têm um certo 'glamour', um certo charme em relação àquilo que estão a fazer. Ou seja, ainda são mais apelativos para muitos jovens que vão sentir essas pessoas como modelos. E, portanto, é uma diversificação justamente das formas como o masculinismo pode ter".

"A questão de que me parece importante é a do dinheiro. É sem dúvida, tentar fazer com que isto não renda, porque isto rende dinheiro não somente para os 'influencers', mas para a própria sociedade do espectáculo. E portanto, este último caso é um bocado o exemplo disto. Ou seja, a partir do momento em que, de alguma forma, isto render dinheiro, muitas pessoas vão se interessar. E também dizer que tudo isto tem impacto, depois, apesar de tudo, nos próprios partidos políticos, em como estas gerações vão votar, que provavelmente vão ser mais sensíveis a partidos de extrema-direita. E, portanto, isto vai ter impacto em toda a sociedade, não só nos mais jovens", conclui a estudiosa.

O masculinismo em França, um fenómeno que deixou de ser periférico | Castnews Index — Castnews Index