"O parque imobiliário não está preparado para o aumento das temperaturas"
A França enfrenta uma intensa vaga de calor, com temperaturas acima dos 40 graus em várias cidades. Mais de 800 escolas encerraram portas e as autoridades recomendam à população que evite deslocações desnecessárias, privilegiando o teletrabalho sempre que possível. As dificuldades em manter os edifícios frescos durante episódios de calor extremo voltam a expor as fragilidades de uma parte significativa do parque imobiliário francês, alerta Emmanuel Lourenço, engenheiro civil e perito qualificado em desempenho térmico.
O parque imobiliário está preparado para lidar com temperaturas cada vez mais elevadas?
De um modo geral, considera-se que uma parte significativa do parque imobiliário, em particular os edifícios construídos antes de 2008, não está plenamente preparada para responder ao aumento progressivo das temperaturas exteriores sem recurso a sistemas de climatização. Esta realidade decorre, em grande medida, do enquadramento regulamentar vigente à data da sua construção.
Com a implementação do Sistema de Certificação Energética passou a existir requisitos mínimos mais exigentes ao nível do desempenho térmico dos edifícios. Este enquadramento normativo implicou a adopção de soluções de construção mais eficientes, nomeadamente ao nível do isolamento térmico, da envolvente opaca, da qualidade dos envidraçados e do controlo das trocas térmicas com o exterior.
Assim, os edifícios construídos antes desse período tendem a apresentar um comportamento térmico menos eficiente, sendo mais susceptíveis aos ganhos de calor no Verão e às perdas térmicas no Inverno. Como consequência, registam-se maiores níveis de desconforto térmico no interior das habitações.
Ou seja, nos períodos mais quentes a casa torna-se excessivamente quente e, nos períodos mais frios, excessivamente fria…
Exactamente. Isso afecta a qualidade dos espaços interiores e o bem-estar dos ocupantes. Além disso, conduz a um aumento do consumo energético, uma vez que obriga à utilização permanente de sistemas de climatização, quer para arrefecimento no Verão, quer para aquecimento no Inverno.
De que forma é possível alcançar um equilíbrio na construção, ou seja, utilizar materiais que funcionem tanto no Verão como no Inverno?
Todos os materiais podem ser adequados para ambas as estações. A questão fundamental reside na forma como são integrados no projecto. Nos edifícios novos, esse equilíbrio deve ser assegurado desde a fase de concepção. Nos edifícios mais antigos, é necessário estudar cada caso individualmente, identificando oportunidades de melhoria que permitam reduzir a dependência dos sistemas de climatização.
É essencial adoptar uma abordagem integrada e criteriosa. Deve ser considerada a orientação solar do edifício, o tipo de utilização prevista, a selecção dos vidros e as respectivas propriedades térmicas, bem como o tipo de isolamento e as soluções arquitectónicas adoptadas.
Por exemplo, grandes superfícies envidraçadas orientadas a sul podem representar uma vantagem durante o Inverno, aproveitando os ganhos solares para aquecer naturalmente os espaços interiores. No entanto, durante o Verão, podem originar um sobreaquecimento significativo se não forem devidamente protegidas.
Por isso, é indispensável uma articulação eficaz entre arquitectura e engenharia. Nem sempre é um processo simples, mas tem-se assistido a uma evolução muito positiva nesta área.
Qual é o custo de não adaptar o parque imobiliário às temperaturas extremas?
O custo pode ser muito elevado. Em alguns edifícios, a adaptação é particularmente complexa devido a características arquitectónicas específicas, condicionantes patrimoniais ou limitações financeiras.
Tomando um exemplo extremo, não faria sentido aplicar um sistema conhecido como “capoto” - nas paredes exteriores de um castelo histórico. Nesses casos, é necessário recorrer a soluções alternativas, normalmente pelo interior, embora nem sempre seja possível eliminar completamente as pontes térmicas.
A reabilitação térmica dos edifícios é um processo complexo, mas que tem vindo a ser concretizado com sucesso em muitas situações. No entanto, a componente financeira continua frequentemente a ser o principal factor de decisão.
Como devem ser pensadas as novas construções para responder às ondas de calor, que, segundo os especialistas, serão cada vez mais frequentes?
No actual contexto das alterações climáticas, as novas construções devem ser concebidas com base em princípios de elevada eficiência energética e resiliência térmica, de forma a responder adequadamente a fenómenos extremos, como as ondas de calor.
O Sistema de Certificação Energética tem desempenhado um papel importante na melhoria do desempenho dos edifícios, promovendo a adopção de soluções construtivas mais eficientes. Estas passam pela utilização de isolamento térmico de maior qualidade, materiais com melhor comportamento face às variações de temperatura e técnicas construtivas adequadas.
Naturalmente, as soluções variam de país para país, em função das condições climáticas locais. No entanto, o objectivo é sempre o mesmo: assegurar melhores condições de conforto térmico interior, reduzindo a dependência dos sistemas de climatização, tanto no Verão como no Inverno.
Esta semana, em França, as autoridades decidiram encerrar escolas e privilegiar o teletrabalho porque alguns edifícios não oferecem condições para acolher pessoas durante o calor extremo. Que soluções existem para arrefecer edifícios já construídos?
Existem dois tipos de soluções: passivas e activas. As soluções passivas exigem uma análise detalhada de cada edifício e incluem intervenções como a melhoria do isolamento térmico, a substituição de elementos construtivos e a optimização do desempenho da envolvente.
As soluções activas são normalmente mais rápidas de implementar e, em alguns casos, menos dispendiosas. Incluem sistemas de climatização, ventilação mecânica e outros equipamentos destinados a controlar a temperatura interior.
Em França, muitos edifícios foram concebidos sobretudo para responder às necessidades de aquecimento durante o Inverno. É comum encontrar sistemas de aquecimento em edifícios antigos e recentes. No entanto, muitos desses edifícios não dispõem de sistemas adequados para arrefecer os espaços interiores durante os períodos de calor intenso.
No futuro, deverão ser privilegiadas construções próximas de espaços verdes? Começam a surgir jardins em coberturas e edifícios. Poderá essa ser uma das soluções?
Sem dúvida. Os espaços verdes contribuem para a redução da temperatura nas zonas urbanas e ajudam a mitigar o efeito de ilha de calor. É importante que as cidades integrem cada vez mais áreas verdes distribuídas pelos diferentes bairros, e não apenas concentradas em alguns grandes parques. A substituição de superfícies impermeáveis, como o betão e o asfalto, por solos permeáveis e vegetação favorece a evapotranspiração, um processo natural que contribui para o arrefecimento do ambiente.
As coberturas ajardinadas são também uma solução interessante. Além de melhorarem o conforto térmico do edifício, ajudam a reduzir a necessidade de utilização de sistemas de climatização.
Naturalmente, implicam um investimento adicional, sobretudo ao nível estrutural, devido ao peso acrescido. No entanto, quando analisamos o ciclo de vida útil do edifício e os benefícios a longo prazo, trata-se de uma solução que pode revelar-se bastante vantajosa.