Peça de teatro "Au Ciel" transforma adeus às avós em viagem cósmica e poética
A peça de teatro “Au Ciel” [“No céu”] é uma ilustração de como a poesia e a imaginação podem ser a melhor forma para explicar o que não se consegue explicar, nomeadamente para falar sobre a perda de um ente querido às crianças. Neste espectáculo, que está a ser apresentado no festival Off Avignon, o público embarca numa viagem espacial com uma criança, Ariane, que vai procurar a avó Philomène que – dizem os adultos – foi “para o céu”. Esta é “uma história de amor às avós”, conta a sua autora Cindy Rodrigues, que é também uma das três intérpretes em palco. A protagonista é representada por uma marioneta inspirada no filme “Ma Vie de Courgette” e o espectáculo usa “o espaço como cenário, como lugar de viagem, mas também como metáfora da ausência”.
A história passa-se passa no verão de 1969. Em palco, há uma janela horizontal gigante que, ora se abre para as esculturas voadoras que acompanham as aventuras cósmicas de Ariane, ora se transforma numa televisão analógica a preto e branco. Dessa televisão tanto saem imagens da chegada do homem à lua, como noticiários burlescos sobre a viagem de uma menina de sete anos pelo espaço. Há, ainda, um sósia francês do Elvis Presley profundamente deprimido, um arlequim filósofo num dos planetas, uma professora de ciência que é todo um planeta e extraterrestres em forma de peúgas super coloridas que não têm emoções. A “descolagem” começa com “a partida da avó para o céu” porque Ariane não percebe para onde ela foi. A história foi imaginada e escrita por Cindy Rodrigues, uma das três intérpretes em palco, da Compagnie du Radis Couronée, que fala da peça como “uma história de amor às avós”. Foi com ela que falámos no Fabrik Théâtre, onde o espectáculo está a ser apresentado no âmbito do Festival Off Avignon.
RFI: Do que é que fala para si este espectáculo?
Cindy Rodrigues, Actriz e autora de “Au Ciel”: “É a história de uma menina de sete anos a quem dizem que a avó foi para o céu. Esta expressão é muitas vezes usada pelos adultos para falar com as crianças sobre a morte porque é um tema sensível, porque por vezes não encontram as palavras e têm medo de causar tristeza. Então, a Ariane, que não percebe bem o que quer dizer ‘ir para o céu’, vai iniciar uma grande viagem pelo espaço à procura da avó e de respostas para estas perguntas. Este espectáculo interroga a forma como as crianças compreendem o conceito de morte, mas fala também da dificuldade de os adultos em acompanharem as crianças quando elas próprias se confrontam com a experiência do luto.”
A Cindy é a autora do texto. Como surgiu a ideia de o escrever?
“Este texto nasceu de uma conversa com o encenador. Ele tinha o desejo de criar um espectáculo situado no espaço. Durante o processo de escrita, o conceito do luto surgiu com relativa naturalidade, pois o céu está frequentemente associado à ideia da separação. Queríamos explorar o espaço como cenário, como lugar de viagem, mas também como metáfora da ausência.”
Porque é que decidiu situar a acção em 1969, no contexto da chegada do homem à Lua?
“Porque gosto da ideia de que as pequenas histórias se encontram com a grande história, criando um elo entre a ficção e os factos históricos. A alunagem da Apollo 11 foi um evento muito marcante que as novas gerações conheceram na escola, mas para certos adultos que assistiram ao espectáculo é também um salto no passado.”
Qual é a ligação que a Cindy Rodrigues tem com a personagem Ariane?
“Penso que a ligação que tenho à personagem da Ariane é o amor que tenho pelas minhas duas avós, queria homenagear as relações particulares que cada criança pode ter com os seus avós, essas figuras ao mesmo tempo próximas e um pouco à distância, que são fontes de ternura, de memórias. Quando nos tornamos adultos, procuramos manter vivo esse vínculo espacial.”
Até que ponto é que o teatro, a arte, a poesia, as marionetas ajudam a explicar melhor a perda de um ente querido aos mais pequenos?
“O teatro, a poesia, as marionetas podem contribuir para explicar melhor a perda de um ente querido às crianças pequenas. Elas não dão uma resposta à morte, oferecem um espaço seguro para a expressar, para a viver simbolicamente. O espectáculo de teatro cria uma situação colectiva em que a criança pode assistir a uma história que se assemelha à sua experiência sem ser directamente confrontada com a sua realidade.”
Este é um teatro de marionetas. Há muitos objectos em palco, é muito visual, e também há muita música. Como é que foi o processo de criação da marioneta Ariane e o que é que os bonecos permitem expressar que actores em carne e osso não expressam da mesma forma?
“Trabalhamos em colaboração com Nadine Delannoy, que foi responsável pela construção da marioneta. Entre as nossas referências encontrava-se a personagem do filme de animação “Ma Vie de Courgette”, com os seus grandes olhos e uma cabeça maior do que o corpo. Trata-se de uma marioneta de tipo bunraku, uma forma tradicional japonesa de teatro de marionetas, manipulada por duas ou três pessoas. A utilização de uma marioneta para representar a nossa protagonista, que é uma criança, permite transpor a realidade para um plano mais poético, criando uma maior empatia em relação à personagem e uma identificação mais universal por parte do público.”
O luto, a imaginação, a infância são os temas da peça. O espectáculo quer falar simultaneamente a várias gerações?
“Sim, sim, totalmente. Gosto da ideia de que um espetáculo possa ser intergeracional. Claro que os níveis de compreensão não são os mesmos para as crianças e para os adultos, mas acredito que as crianças são muitas vezes muito mais maduras do que se pensa. E quanto aos adultos, nunca estão realmente longe da sua própria infância.”
O que é que representa estar no Festival de Avignon? Não é complicado financeiramente?
“Sim, sim, naturalmente. Participar no festival representa um grande risco financeiro para as companhias. Cada ano há mais espectáculos e nunca se pode ter a certeza de recuperar os custos, mas quando funciona, isso abre uma oportunidade de oferecer uma bela temporada ao espectáculo e assim acreditamos e queremos que funcione.”