#906 CPMI do tráfico de armas: iniciativa vai trazer soluções reais?
Especialistas, profissionais de segurança e representantes da sociedade civil articulam a criação de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para investigar o tráfico de armas e munições no Brasil. A proposta surge da necessidade urgente de um diagnóstico nacional atualizado sobre as rotas e os mecanismos que alimentam o mercado ilegal, fortalecendo facções criminosas e elevando os índices de violência armada. A CPMI vai conseguir ser uma importante ferramenta no debate e enfrentamento ao tráfico de armas? Para conversar sobre a iniciativa e o cenário brasileiro, convidamos o Pastor Henrique Vieira, deputado federal (Psol-RJ), membro da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados; e André Batista, coronel da reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ex-comandante do Comando de Operações Especiais (COE) e especialista em segurança pública. Agora disponível na Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro, 80.5 FM.
Kaique Santos
Rafael Costa
André Batista
Henrique Vieira
- Programa Brasil contra o Crime OrganizadoOrigem das armas: importação e fabricação nacional · Rotas de contrabando: Paraguai, Bolívia, Argentina, Uruguai, EUA · Desvio de armas de órgãos públicos · Poder bélico dos fuzis · Lavagem de dinheiro e financiamento do crime · Conexão com tráfico de drogas
- Porte e Posse de ArmasNecessidade de diagnóstico nacional atualizado · Fortalecimento de facções e milícias · Rotas e mecanismos do mercado ilegal · Comparativo com CPIs anteriores · Caráter misto e nacional da proposta
- Criminalidade Rio de JaneiroDesafio do armamento superior do crime · Influência de governadores e corrupção · Dificuldade de patrulhamento em áreas dominadas pelo crime · Uso de barricadas pelo crime organizado · Modelos de combate ao crime em outros países
- Violência PolicialIneficiência de operações letais · Criminalização de pobres, negros e favelas · Operação Contenção no Rio de Janeiro · Diferença entre confronto e execução sumária · Impacto da misoginia e racismo na violência
- Tráfico de armas para BrasilEstatuto do Desarmamento · Falta de rastreamento de armas · Renovação de licenças CAC e risco de limbo · Cooperação internacional limitada · Penalidades brandas para porte de fuzil
Jabuticaba Sem Caroço, o podcast que descaroça a jabuticaba nossa de cada dia.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que 107.653 armas foram apreendidas em 2025 em todo o país. Trata-se do maior volume registrado nos últimos quatro anos.
Com base nesse levantamento, o deputado pastor Henrique Vieira, do PSOL do Rio de Janeiro, protocolou a criação de uma comissão parlamentar mista de inquérito para investigar o tráfico de armas no Brasil. A proposta busca apurar rotas, desvios e interesses econômicos por trás do comércio ilegal que abastece facções, milícias, feminicídios e outras formas de violência urbana.
Diante desse cenário, organizações da sociedade civil lançaram um manifesto em defesa da CPMI. O documento já reúne mais de 100 assinaturas e destaca a falta de um diagnóstico nacional atualizado sobre o mercado ilegal de armas no Brasil. Eu sou o Rafael Costa. E eu sou o Kaique Santos e você está ouvindo o podcast Jabuticaba Sem Caroço da Agência Internacional de Notícias Sputnik Brasil. Abrindo os trabalhos.
Mas antes de iniciarmos os trabalhos, peço para você, ouvinte, avaliar o nosso programa após ouvir o episódio. É simples, vai lá na aba sobre do nosso perfil em sua plataforma de áudio favorita e coloca para a gente cinco estrelinhas para fazer este conteúdo chegar a mais pessoas.
Lembramos também que você pode acompanhar esse podcast no site da Sputnik Brasil, acessando noticiabrasil.net.br e na Rádio Sputnik Metropolitana em 80.5 FM do Rio de Janeiro. Vamos então para a nossa primeira entrevista. Politicando por aí.
A gente recebe agora no Jabuticaba Sem Caroço o pastor Henrique Vieira, deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, membro da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara. Deputado, seja bem-vindo ao Jabuticaba. Muito obrigado pela disponibilidade em conversar aqui com a gente, com os nossos ouvintes, tudo bem? Tudo ótimo, obrigado aí pela oportunidade.
Deputado, o senhor já havia protocolado anteriormente uma proposta de CPMI sobre o tráfico de armas e agora isso parece ter ganhado mais força com a mobilização da sociedade civil a partir desse manifesto lançado. Por que o senhor defende a criação dessa CPMI?
Porque nós temos que entender esse fluxo que abastece, sobretudo, o crime organizado no Brasil com armas e munições, sejam as facções ou as milícias, o que faz...
com que haja controle territorial de um determinado espaço, é justamente a presença da arma de fogo. Ela é o elemento objetivo que permite a intimidação, a coação, o controle. Então a pergunta é, de onde vem a arma, de onde vem a munição?
Sejam as rotas que vêm do exterior, as falhas no sistema de fronteira, ou as fábricas que já existem no Brasil de montagem de armas a partir de peças que são importadas, ou os desvios intencionais das forças de segurança pública. Então aí tem o elemento de corrupção.
dentro das forças de segurança, mas nós entendemos que tem um problema estrutural, um problema histórico, tem gente lucrando com isso, e esse fator armado é o que lá na ponta possibilita o domínio territorial. Então tem um fato relevante, tem um objeto delimitado, tem abrangência nacional, tem repercussão na vida do povo, na nossa opinião isso é pertinente,
está dentro das possibilidades e das competências do Parlamento por meio desse instrumento, que é a Comissão Parlamentar de Inquérito.
Decidi propor de forma mista para envolver tanto a Câmara quanto o Senado. E também é um contraponto a uma lógica de força bruta e racional que produz operações policiais letais que são absolutamente ineficientes, servem para palco eleitoral em cima de sangue e geralmente...
ou quase sempre criminaliza como um todo pobres, negros, favelas e periferias no Brasil. Então é um apontamento para uma inteligência eficiente ao invés de uma força bruta, irracional e genocida.
E a sua fala orna muito com o que eu ia te perguntar agora, né? Se é interesse deles de resolver esse problema, né? Quando a gente vê a nossa guerra urbana aqui no Rio de Janeiro, né, gente? A gente mata mais do que a guerra que estava no exterior. Que tristeza!
Saber que é uma chaga que principalmente o Rio de Janeiro carrega há muitos e muitos anos. Tivemos a Operação Contenção no ano passado, que matou 120 pessoas, sendo essas pessoas, de acordo com a polícia, de acordo com a nossa segurança pública aqui, pessoas ligadas ao tráfico de drogas. E a pergunta que eu quero te fazer, deputado, é quando a gente olha...
para o armamento do crime é muito superior ao armamento da polícia é muito superior a do próprio exército por quê? Olha, tem alguns pontos aí para a gente pensar junto
Primeiro, eu concordo com o que você está falando. Foram 122 mortos na Penha e no Alemão ano passado. Enquanto nós estamos conversando aqui, nesse exato momento, eu falei ano passado, mas me deu um lapso temporal agora, eu perdi um pouco a dimensão. Tá certo, foi ano passado, 2025, em outubro.
Certo. 122 mortos na Penha e no Alemão. E nesse momento, enquanto nós conversamos aqui, o crime está intacto. Onde? Na Penha e no Alemão. Na verdade, fazendo um exercício ainda mais...
inteligente, digamos assim, na semana seguinte à operação, ou no dia seguinte à operação, o crime já estava lá, intacto. Então, não era sobre segurança. Era sobre espetáculo político eleitoral vendendo uma ilusão de segurança.
às custas do sangue do povo e do cansaço das pessoas. Importante dizer isso. Nunca foi sobre segurança. Aliás, o governo Cláudio Castro acumulou operações letais. E recusou a ajuda do governo federal, né?
Exatamente. E por que essa CPMI? Porque a lógica continua intacta. Vai lá, mata e tem um recorte territorial, obviamente tem, porque é favela, porque é povo negro, porque é povo pobre. Então fica mais fácil construir essa imagem.
do bandido. Se ali tinham bandidos, olha, provavelmente sim. Daí você precisa ter inteligência, mandado judicial, para poder efetuar o que a lei prevê. Não tem na lei brasileira a licença para execução sumária.
E do jeito que a perícia foi feita, não está muito evidente se foi em legítima defesa ou defesa de si, de terceiros, ou se foi execução. 122 pessoas, a pergunta é legítima e necessária. Foi confronto?
ou foi execução. Mas, muitas câmeras desligadas, perícia mal feita, uma certa blindagem ali sobre o local, culpabilizando a própria população em vários momentos. Então, tem uma lógica.
que não é eficiente do ponto de vista da segurança e se alimenta da violência. E a CPMI entra aí, porque o fuzil continua chegando, a munição continua chegando, e com esse fator armado...
o crime continua tendo o elemento objetivo para dominar o território e maltratar as nossas famílias, o nosso povo. Então, também é importante deixar evidente isso. Não se trata de romantizar ou idealizar o crime organizado.
Ele é terrível, ele é torturante, ele maltrata a nossa gente, ele intimida o nosso povo, tanto as facções quanto as milícias. Só que operações letais não resolvem o problema.
E a arma de fogo é um elemento objetivo de domínio territorial. Então, vamos nos empenhar em entender como a arma chega, que caminho ela percorre, onde estão as lacunas de fiscalização, onde precisa melhorar para impedir que a arma e que a munição chegue, quais os elementos...
que apontam para corrupção policial, em que a mesma polícia que resgata o fuzil devolve o fuzil, às vezes, entende? Então, é aí que entra. Sobre o poder armado do tráfico, olha, deixa eu te fazer uma ressalva, se possível. É sim um poder armado relevante, tanto do tráfico quanto da milícia. Por isso a pergunta, como é que chegou ali esse poder armado?
Mas não dá para cravar ou afirmar que este poder armado é superior, em termos quantitativos e qualitativos, do poder armado da polícia e do exército. Isso já não afirmaria. É um poder armado relevante, o suficiente para maltratar a nossa gente, matar muita gente e controlar territorialmente, o que é gravíssimo. Então...
Mas eu não cravaria que o poder armado das facções e da milícia é superior à da polícia e do exército, das forças armadas brasileiras. Isso não dá para cravar. Eu diria até que não é, na verdade. O que mais me chama a atenção é...
O quanto nós temos aí uma espécie indiretamente de jogo combinado. Isso que me preocupa, de você ter forças políticas e policiais corrompidas. E aqui não estou generalizando nem os agentes políticos, muito menos os agentes policiais.
Mas a minha pergunta, onde eu gostaria de conduzir essa CPMI é, quando a gente fala de corrupção policial e política, não é algo casual, de vez em quando, ou individual?
Eu quero chamar a atenção para algo estrutural e permanente, que ao longo do tempo está alimentando o crime organizado, inclusive com armas e munições. Então é menos se...
A arma que está lá é mais poderosa. E mais sobre como essa arma chegou lá e como continua chegando lá e o quanto tem agentes políticos e policiais lucrando e alimentando. Depois, olha que curioso, vai lá, faz uma operação espetacular.
capitaliza eleitoralmente em cima disso, porque as pessoas no seu dia a dia estão lutando para sobreviver e com medo legítimo então a primeira sensação de muita gente é isso vai me proteger, entende? mas quando eu falo jogo combinado é
Será que os mesmos atores que alimentam o crime depois vão lá de forma fake combater o crime para sair ganhando eleitoralmente em cima disso e continuar depois alimentando o crime? Olha a lógica perversa que pode acontecer no Brasil e, por exemplo, no Rio de Janeiro. Entende?
Então, pegar esse fluxo que me chama a atenção e aí talvez perceber que ele não é pontual, ele não é de vez em quando, mas ele está entranhado na política brasileira e entranhado.
especialmente no meu estado, que é o estado do Rio de Janeiro. Não é qualquer coisa, né? Você vai lá e o presidente da Alerje, o Bacelar, estava obstruindo investigações relacionadas ao Comando Vermelho. O outro deputado ali era um agente direto do Comando Vermelho.
quanto os outros ali relacionados a facções e outros relacionados à milícia. No caso da Marielle Franco, por exemplo, a delegacia de homicídio responsável por investigar o homicídio, você descobre que recebe mensalidade para não investigar o homicídio. Então calma aí, tem alguma coisa aí que é estrutural e que está vinculando política, polícia e crime organizado no Brasil e no Rio.
E parte desse problema tem a ver com armas e munições. E eu queria olhar para isso com mais atenção e inteligência. Deputado, partindo daí, é importante a gente trazer um histórico aqui então. A CPMI do tráfico de armas. É uma comissão parlamentar mista de inquérito que está se propondo.
Mas a gente lembra que aqui no Brasil já tivemos três CPIs voltadas especificamente para esse tema. Primeiro a CPI do tráfico de armas, não mista, instalada na Câmara entre 2005 e 2006. Depois outras duas que aconteceram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Lerge, sendo uma CPI das armas.
em 2011, depois uma nova entre 2015 e 2016, e indo além com temas relacionados à CPI das milícias em 2008 e agora mais recentemente a CPI do crime organizado no Senado. Queria que você trouxesse uma diferença ao propor essa CPMI e...
fizesse uma avaliação também do que tivemos de resultados dessas outras comissões que tentaram ou que trataram do tema do tráfico de armas anteriormente, nesses últimos anos, e trazendo um pouco do que você já sinalizou para nós, do que o senhor sinalizou sobre...
isso não se tornar um caráter político da CPMI, que muitas vezes é o que acaba acontecendo. Eu não sei até qual sua opinião se houve esse caráter político nessas outras CPIs que tivemos. Certo. A CPI do tráfico de armas no Rio apresentou um excelente material. A CPI das milícias no Rio de 2008, na minha opinião, é um marco histórico, histórico, e chegou inclusive a levar a prisão de muitos milicianos.
E mudando um paradigma, porque até então ainda havia uma romantização da milícia como se fosse autodefesa comunitária. Aquela CPI foi fundamental para virar essa chave na opinião pública, até mesmo na imprensa e milícia ser tratada como organização criminosa. Sobre essas duas CPIs eu tenho uma avaliação positiva quanto ao que foi feito, diagnosticado e proposto. Onde está o problema, portanto?
Não na investigação, não no material apresentado, mas depois na não execução daquilo que foi proposto. Então você faz a investigação, você mapeia o problema, você faz uma série de recomendações técnicas e depois, no caso do Rio de Janeiro, os governos pegam isso, jogam na lata do lixo e o problema, tanto das milícias quanto do tráfico de armas, só cresce.
mesmo depois de duas CPIs bem realizadas. Então, aqui é importante entender as competências e os limites de uma comissão parlamentar de inquérito. Primeiro é parlamentar, então ela não é executiva.
Ela é no campo do legislativo e é de inquérito, então ela tem o papel de investigar e tem poder de polícia, pode acessar documentos, convocar depoimentos, tem um poder extraordinário de investigação e pode terminar com indiciamentos e recomendações, mas para aí também.
Porque depois isso tem que ser encaminhado pelo poder executivo. Só que o poder executivo, no caso do Rio de Janeiro, é parte do problema com relação ao crime organizado no próprio Rio de Janeiro. Não tenho nenhum problema em falar isso. Então tem uma avaliação positiva. A CPI do crime organizado aqui, eu acho que ela começou bem, mas ela ficou um pouco confusa no final.
Eu acho que ela ficou, no final das contas, aquém do que ela poderia ser. Então já tem uma avaliação mais crítica da CPI do crime organizado aqui no Congresso. Especificamente a que eu estou propondo, o que tem de singular? O fato de ser mista, então envolver a Câmara e o Senado, e de...
focar especificamente isso é um limite mas ao mesmo tempo é uma potência do que eu estou propondo que é especificamente armas e munições, que no organizado é algo amplo, complexo quando eu
pego essa gaveta e abro, tem um limite, eu estou pegando só esta gaveta e abrindo só esta gaveta, eu estou olhando para algo específico, então não estou olhando, pelo menos diretamente para outras variáveis.
Mas qual é a potência? Ao especificar, eu posso detalhar melhor. Eu posso detalhar mais. Eu posso chegar a conclusões mais específicas, mais objetivas, indiciamentos e recomendações que podem dar certo. E a singularidade é ser nacional. E a questão de armas e munições é nacional, é transnacional, envolve fronteiras.
importações, fábricas clandestinas de montagem e produção em estados diferentes do Brasil. Então a singularidade do que eu estou propondo é o caráter misto, é a abrangência nacional e a especificidade com relação a armas e munições. Porque isso me chama a atenção. Volto ao argumento inicial.
Não é com canivete na mão que um grupo de pessoas consegue dominar uma localidade. O canivete não daria esse poder a essas pessoas, nem a faca, nem o próprio punho. Tem a arma como elemento central. Então eu queria chegar nisso. Agora, o risco da politização. Primeiro, definir melhor esse termo, porque tudo é política.
Agora, eu entendo a sua pergunta, é cair para um lugar mesquinho, partidário, do apequenamento da pauta, porque só pode pegar quem é do campo de lá, do campo de cá se protege. Tudo tem esse risco, mas eu não quero conduzir dessa forma. Estamos falando da vida das pessoas, arma de fogo.
É o que lá na ponta está matando alguém enquanto a gente conversa. É o que lá na ponta está na mão de um homem intimidando uma mulher dentro de casa. Então é algo tão sensível, tão relacionado à integridade física e emocional das pessoas que eu quero tratar com seriedade. Eu sei que o problema é técnico e tudo é político, mas não precisa ser tratado de forma...
digamos assim, pequena. Tem a política com P minúsculo, que é aquela política mesquinha, do debate raso, da perseguição só, da investigação seletiva, que aí tem caráter de perseguição, isso não. Mas a política com P maiúsculo tem que ser reafirmada, né?
que é o senso republicano, o senso democrático, a busca pelo bem comum, as saídas que sejam objetivas para proteger a nossa gente. Eu pretendo fazer uma abordagem assim sobre a questão de armas.
e munições no nosso país. E, deputado, tivemos aí, né, no último governo, o governo Bolsonaro, uma certa flexibilização no acesso às armas no Brasil, né, principalmente, bom, como eu disse, ali entre 2019 e 2022.
Você avalia que essas mudanças contribuíram também para o aumento do desvio de armas para o crime? Vale lembrar que as armas as pessoas só podiam ter acesso se tivesse o registro tudo certo.
mas se tratando do Brasil, infelizmente, sempre tem aquele jeitinho. Você acha que isso pode ter, de fato, contribuído para que desse mais munição para o inimigo?
Não tenho a menor dúvida disso. Certa flexibilização foi bondade sua. O governo Bolsonaro abriu a porta, o portão, a portaria, a porteira, tudo para estimular...
o acesso a armas de fogo no Brasil. Os números são estarrecedores, não estou com eles aqui agora, mas cresceu absurdamente a circulação de armas de fogo no Brasil com o estímulo ao acesso a armas feitos.
pelo governo Bolsonaro, foi facilitando tudo o que podia. Eu entendi, estava assim, dialogando com a sua expressão, né? Mas foi isso mesmo, foi uma flexibilização intencional com o objetivo de estimular o acesso. É a visão que eles têm. E isso, primeiro, aumenta o número de armas de fogo em circulação. Segundo, rebaixa o critério para o acesso.
Terceiro, você não faz isso combinando com o aperfeiçoamento dos mecanismos de fiscalização. Então, mais armas, mais munições, mais circulação de arma e de munição na mão de pessoas sem nenhum preparo.
sem nenhuma condição e isso facilita obviamente por quantidade por qualidade o desvio e isso favorece o crime organizado, na minha opinião a política armamentista
da direita é extremamente vantajosa para o PCC, para o Comando Vermelho para o crime organizado no Brasil porque a arma fica ali mais perto, mais disponível a menos um passo para ser desviada e entrar na rota do crime organizado além disso além disso
Tem uma questão de concepção mesmo, porque uma coisa é mais armas e munições com menos controle, mais fácil desvio, ponto. Melhor para o crime organizado. Inclusive desinflaciona a arma, fica mais fácil, se não for por desvio, fazer a compra.
Então até numa lógica de mercado, você vai aumentando a oferta, vai diminuindo o preço, e se não for por roubo e por desvio, vai comprar com mais facilidade. Então a direita é excelente para o crime organizado quando propõe uma política armamentista para o país. E tem um outro elemento que é...
de concepção mesmo, concepção. Eu não acho que a arma de fogo na mão de cada cidadão potencializa a nossa segurança. E tem elementos, dados, pesquisas que apontam para isso, para além da mera opinião. Então, se eu estou, sei lá, num espaço, vou tentar imaginar aqui um ônibus.
e tem ali 60 passageiros, e 50 estão armados porque conseguiram, eu não consigo imaginar esse ônibus mais seguro. Se dentre esses 50, um for um assaltante, dois ou três, eu estou vendo muito mais um tiroteio com muitos mortos do que propriamente a segurança das pessoas sendo preservada. Além disso, o fator surpresa, porque quem vai cometer o crime é o som.
zela pelo fator surpresa, não te liga dizendo olha, você vai passar amanhã às 3 horas da tarde na central do Brasil eu vou te assaltar lá, então você tem algumas horas aí pra se preparar quando eu chegar você saca a arma, não é assim que o crime acontece
A pessoa vai e tem um fator surpresa para efetuar ali o roubo, enfim. Então, a vantagem é, nesse caso, o do criminoso. A chance daquele conflito terminar no efeito morte é muito maior. E ainda tem uma outra visão para concluir esse raciocínio. Nós estamos numa sociedade muito mediada pelo ódio. Estamos apostando pouco no diálogo.
pouco na conciliação que exige paciência para você ouvir o outro, para você pensar na opinião do outro, para você produzir um meio do caminho. As pessoas estão num esgotamento, há um esgotamento individual e coletivo.
Além disso, tem dois elementos aqui estruturantes da sociedade brasileira, que é o patriarcado, a misoginia, que é a expressão do patriarcado e o próprio racismo. Ou seja, o que eu estou querendo dizer? Que essa arma de fogo circulando com mais facilidade, jogada nesse caldo cultural intolerante de cansaço coletivo, e ainda você coloca no meio disso...
A misoginia e o racismo? Não, não, não consigo ver arma de fogo protegendo. Eu consigo ver arma de fogo na mão de um homem nervoso matando uma mulher. Eu consigo ver arma de fogo num conflito urbano, numa briga de bar, numa briga na portaria, numa briga de estádio, gerando o efeito morte.
Então, além do desvio para o crime organizado, mais armas, na minha opinião, nesse caldo cultural da nossa sociedade, potencializam o efeito morte. Então, em nenhum aspecto eu consigo concordar com a política armamentista proposta por alguns setores.
E tem gente que lucra em cima dessa barbárie, politicamente, eleitoralmente e financeiramente. Você citou aí o aumento das armas, né? Eu fui checar aqui junto ao anuário de segurança pública que informou que no governo Bolsonaro tivemos aí um aumento de 474% das armas, né? As armas registradas.
Isso é, são 673,8 mil registros atualmente, aliás, naquela época, e antes do governo tinham apenas 117 mil. É muita coisa, né, Kaique?
É isso. Deputado, muito obrigado pela conversa, pela análise aqui com a gente e por trazer um pouco dessa ideia da CPMI. Claro que a gente vai acompanhar com que tudo isso vai se dar e te convidamos para uma próxima, se assim for necessário, também voltarmos a falar desse tema, já que Pastor Henrique Vieira, deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, também é membro da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara.
Muito obrigado, deputado. Eu que agradeço a troca, a possibilidade de explicar...
a nossa proposta, viu? Um fraterno abraço para vocês e para todas as pessoas que estão nos ouvindo. Obrigado, deputado, e volte sempre. Tchau. Valeu, tchau, tchau. Peço para você, ouvinte, avaliar o nosso programa após ouvir o episódio. É simples. Vai lá na aba sobre, do nosso perfil em sua plataforma de áudio favorita, e coloca para a gente cinco estrelinhas para fazer este conteúdo chegar a mais pessoas.
Você pode acompanhar esse podcast no site da Sputnik Brasil, acessando noticiabrasil.net.br e na rádio Sputnik Metropolitana em 80.5 FM do Rio de Janeiro. No ano passado, apenas no Rio de Janeiro, a Polícia Militar apreendeu 920 fuzis, um aumento de 24% em relação ao mesmo período de 2024. Já as apreensões de outras armas de fogo somaram-se 6.113.
Diante desse cenário surge uma questão central. Os agentes de segurança pública estão preparados para enfrentar armamentos tão pesados? Este é o tema da nossa próxima entrevista. Direto do Palanque.
A gente recebe aqui no Jabuticaba Sem Caroço o André Batista, coronel da Reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ex-comandante do Comando de Operações Especiais, ele que é especialista em segurança pública com 34 anos de trabalho nesta área. Coronel, bem-vindo aqui ao podcast Jabuticaba, tudo bem? Muito obrigado pelo convite, vamos começar a entrevista.
Coronel, uma criação de uma CPMI, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, para investigar o tráfico de armas no Brasil é realmente necessária? Como que você enxerga o cenário brasileiro com relação a isso hoje, atualmente? É, vamos lá, vamos falar de arma, né? As armas no país, hoje, tomando como base o ano de 2024, por exemplo,
representam um grande problema para o Brasil. Nós temos, em média, em 2024 nós tivemos aproximadamente 102 mil armas apreendidas. E isso já teve uma redução de...
de 2%, 2,5% em relação ao ano de 2023. Então, sim, são muitas armas apreendidas por dia, pelas polícias militares, pelas polícias civis, pela polícia rodoviária e pela rodoviária federal. Então, dentro do sistema de segurança, é, sim, um dos maiores problemas brasileiros a distribuição, o contrabando, a fabricação de armas.
dentro do país. E, Coronel, nós vimos aqui recentemente, no Rio de Janeiro, principalmente, uma apreensão muito grande de fuzis. Isso é, como que esses fuzis chegaram no Rio de Janeiro para as mãos erradas dos traficantes, milicianos, enfim, e ninguém viu?
Ou se viram, não liberaram essas armas? Eu queria que você explicasse para a gente como que funciona essa fiscalização, porque é um pouco assim, incrédulo, né? Como que mais de mil fuzis chegaram no Rio de Janeiro e a polícia não viu, né? A segurança pública não viu. O fuzil, ele representa, nessa ordem de 102 mil armas apreendidas, ele representa apenas 3%. É.
do que foi apreendido no Brasil. No entanto, o poder bélico, o poder destrutivo dos fuzis, ele realmente é muito maior do que qualquer outra arma. Portanto, no Rio de Janeiro, há realmente que se fazer a pergunta, de onde vêm esses fuzis? Ora, no Rio de Janeiro, aproximadamente 810 fuzis ano passado. 2025, digo.
É um número absurdo, realmente. Se entram 800 fuzis, é bem provável que tenhamos, isso seja apenas um décimo dos fuzis apreendidos, né? Então ainda devem ter nas mãos de criminosos muitos fuzis a serem apreendidos. E como essas armas chegam? Hoje, parte dessas armas, elas são criadas no Brasil. Partes de armas são importadas, mas infelizmente...
Rafael, o Brasil, o governo brasileiro não tem rastreamento para essas armas. Aí você pergunta assim, como assim? É, a gente não sabe de onde vem, a gente não tem catalogado como essas armas chegam, por onde elas chegam, se elas chegam pelo...
a gente sabe que elas chegam de algum lugar, né? Só tem quatro vias possíveis delas chegarem, né? Pelas estradas federais, nós fazemos fronteira aí com 16 países, países que fazem, são conhecidos por serem contrabandistas de armas, né? Nós temos os aviões, né? Para os aeroportos, nós temos os portos, né? Do Brasil e temos aquele tráfico formiguinha, né? Que e...
que traz aí de outros estados também partes de armas. E temos, infelizmente, o roubo, o destravio de armas dos órgãos públicos.
Isso também é uma fonte de, digamos assim, de recurso para os criminosos, para as organizações criminosas terem esse número de fuzis em campo. Isso é muito complicado, muito complicado. É, Coronel, e a gente tem aqui...
O Estatuto do Desarmamento, que trata um pouco sobre essa questão do tráfico de armas no Brasil, e aí visa punir a importação, a exportação, a venda ou a facilitação dessa entrada de armas e munições sem autorização. Como que o senhor avalia essas leis? Elas são cumpridas? O que falta aí?
para a gente tentar então melhorar esse acompanhamento ou essas falhas já apontadas aqui, como o próprio não ter um rastreamento dessas armas, de quando elas chegam, ou ter certo essa origem delas também? É, primeiro que a lei é uma boa lei, né? Como todas as outras, elas são bastante eficazes, são bem feitas, né? Porém, o grande desarranjo que existe é uma boa lei, né?
Não só na fiscalização, não só no controle proporcional de cada órgão que está dentro dessa lei, falta escala, porque quando as armas chegam aqui, elas já estão praticamente montadas.
em alguns estados, por exemplo, São Paulo, aqui mesmo no Rio de Janeiro, a gente já tomou ciência da construção de partes de arma. Então, o camarada contrabandista, ele importa determinadas peças de arma, é possível importar algumas peças de plástico e montá-las aqui artesanalmente através de impressoras digitais. Então...
O que acontece é que as nossas leis são maravilhosas, são britânicas, vêm da escola de Frankfurt, as nossas leis são ótimas, mas a fiscalização e o controle proporcional de cada instituição precisa ser enfatizado, precisa ser coordenado. A Polícia Federal tem uma missão, o Exército Brasileiro tem outra missão. Olha, só para vocês terem uma ideia, os registros, os CAQs foram para as mãos da Polícia Federal.
e no próximo ano todos os caques que foram
no ano agora de 2026, todos os CACs que foram liberados vão ter que renovar suas licenças. Estima-se que aproximadamente 800 mil CACs fiquem no limbo por falta de fiscalização. Então, assim, é bastante arma em circulação. Pode ser que essas armas saiam do controle e novamente...
caiam nas mãos das organizações criminosas, que são as maiores consumidoras desse contrabando, dessa falta de cooperação, inclusive falta de cooperação internacional. Nós temos poucas cooperações da Polícia Federal com a Interpol, com agências estrangeiras. A gente pensa que, das vezes em que muitas dessas armas foram jogadas no mercado brasileiro, foi por causa de guerras, guerras em andamento.
você tem duas guerras em andamento muito particulares, né? A guerra da Ucrânia, a guerra agora do Irã, e também não deixa de ser, não foi uma guerra, mas foi uma intervenção na Venezuela. Então, todos esses conflitos, eles podem gerar, e provavelmente gerarão, um despejo de armas de guerra aqui no cenário nacional.
porque aqui no Senado Nacional, as drogas, o tráfico de drogas já tem tanto dinheiro, somos aí o segundo maior consumidor de cocaína do planeta, então a gente já tem dinheiro bastante para comprar essas armas quando elas foram despejadas no mercado. E coronel, você que sempre esteve no front, aqui no Rio de Janeiro, a gente sabe que a gente vive uma guerra urbana há anos, há décadas.
E que, infelizmente, eu não consigo ter uma esperança de que isso, em algum momento da nossa vida, ou depois da nossa vida, né, isso termine. Eu espero que sim. Mas assim, essa esperança ainda tá bem longe pra mim.
Você que esteve ali no front, né, enfrentando milícia, tráfico, enfim, você acha que hoje a nossa segurança pública, ela consegue competir em questão de qualidade de armas com esses criminosos? Ou estamos falando de uma segurança pública?
do estado do Rio de Janeiro, exemplificando o Rio de Janeiro. Eu sei que os criminosos estão, infelizmente, em todos os estados, mas especificamente do Rio. Você acha que a nossa segurança pública...
Ela é bem armada ou existe aí uma defasagem das armas, os criminosos acabam saindo na frente quando eles têm, por exemplo, acesso a essa quantidade de fuzis que o senhor trouxe aqui no ano passado, também em 2024, enfim.
E isso é o que nós sabemos, né? Isso é o que foi apreendido. Como você bem disse, o que já está na mão deles talvez possa ser até um número maior, né? Em questão de qualidade, como que você enxerga a nossa segurança pública nesse combate, né? Agentes da segurança versus criminosos. Então, vamos lá. Rafael, quando eu era jovem tenente...
nos idos aí de 94, 95, 96, as polícias militares ainda usavam armas bastante obsoletas. Porque até então os criminosos apresentavam nas...
nas incursões, nas favelas, nas comunidades, eles apresentavam, primeiro, um porte bastante limitado de armas de fogo, de armas longas, que a gente chama. Isso nos garantia uma certa inferioridade, porque os criminosos já tinham acesso a armas bastante destrutivas, com poder de destruição maior.
Durante os anos 2000, houve muita evolução das polícias, muita evolução. As polícias hoje estão muito bem equipadas, as polícias estão equipadas inclusive para competir, muitas vezes com material muito acima dos traficantes e milicianos e tal.
ainda nesse diapasão aí, você tem a melhoria da qualidade do treinamento das polícias as polícias resolveram se falar as polícias dos estados resolveram se unir porque já entenderam que os crimes eram transfronteiriços e isso foi muito importante para a melhoria da qualidade da doutrina policial, aí eu posso falar pela polícia militar, que os crimes de combate e
no varejo que a gente chama, o tráfico de drogas, o roubo de veículos, o roubo de rua, isso tudo hoje as polícias do Brasil têm sim melhorado muito em termos de equipamento. É claro que a gente precisa melhorar, nós precisamos cada vez melhorar mais o âmbito do poder.
Nossas polícias, né? Então, a gente vê, em termos nacionais, uma mudança, a utilização já de tecnologia, de contra o crime, né? A gente vê drones sendo utilizados, a gente vê equipamentos eletrônicos.
câmeras com analíticos, como é que chama? De visualização de faces, identificação facial. Você tem uma série de requisitos que, claro, precisam melhorar. A gente precisa... As polícias no Brasil precisam...
melhorar as suas perícias, né? A perícia ainda é atrelada à chefia de polícia civil, isso até onde eu sei, em países mais avançados que nós, elas têm a característica da independência, né? A perícia é independente da polícia civil, uma perícia mais atuante, uma perícia com mais técnica, com mais equipamento, isso sim reduz.
Melhora a qualidade do serviço prestado pelas polícias, porque a polícia ostensiva tem prendido muito. Um dado interessante nessa história toda é que as polícias prendem muito. Por exemplo, só a Polícia Militar do Rio de Janeiro prendeu no ano de 2024, por exemplo, no ano base, prendeu mais de 350 mil pessoas.
Então assim, são muitas pessoas sendo presas, então a polícia está agindo. Você trouxe aqui, coronel, a respeito do Estado, conversando com esses agentes, realmente tivemos aí, principalmente no Estado de São Paulo, governo Tarcísio, uma certa truculência por parte dos agentes. E aqui no Rio também a gente vê...
Um pouco disso. Tivemos aquela situação no ano passado, a operação do ano passado, que resultou ali em mais de 100 mortes de traficantes. Depois entendemos que eram traficantes, mas a que ponto isso é aceitável, até que ponto não é? Porque o traficante também não está preocupado.
com a vida do policial, né? A gente bate muito na polícia, mas a gente precisa entender também que são pessoas que têm suas famílias e que estão ali no fronte, realmente, dessa guerra urbana. Mas, por exemplo, eu queria entender até que ponto o governador tem influência sobre esses agentes, né? Aqui no Rio a gente tem, em 30 anos, o Jabuticaba até acompanhou isso, denunciando.
que tivemos pelo menos sete governadores afastados por causa de corrupção. Então, assim, muitos tiveram acesso também a crimes organizados, né? Tivemos Witzel, Cabral, enfim, entre outros. Assim, num estado que o governo, que é quem cabeça, né? A nossa administração pública está envolvida com... Então, vamos lá.
Enfim, com milícia, com corrupção, com tudo que há de ruim, infelizmente, pensando o Rio de Janeiro de novo, o quanto que isso impacta na qualidade do trabalho desses agentes? Olha, eu estive recentemente em Brasília, por uma câmara técnica de...
entre estados, né? De combate ao crime organizado. Vamos lá. Você falou em sete governadores, presos ou afastados. Isso, sem dúvida, é uma marca muito ruim, é uma demonstração muito ruim de que, infelizmente, a carga da segurança pública não envolve só a polícia. Isso é um fato. Se fosse só a polícia, a gente já teria resolvido o problema, porque a quantidade de prisão que as polícias fazem, a quantidade de armas que são despejadas, por exemplo,
no Brasil por ano, e a apreensão, né? Seria mais ou menos o... Em alguns anos a gente conseguiria tomar o controle desses territórios que foram invadidos por criminosos, né? Eles fazem do território... Fazem da invasão ao território o grande business deles. Então você...
Em 10 anos a gente conseguiria, por exemplo, erradicar as quadrilhas de assalto, por exemplo, e roubo de carga e roubo de veículo. Mas isso não acontece assim. Por quê? Porque o crime retroalimenta, ele se abastece de outras questões. Por exemplo, vou te dar um número aqui interessante. O tráfico de drogas e o tráfico de armas, eles são conexos, né? Quem trafica arma, normalmente, trafica droga.
Mas eles aprenderam, de um tempo pra cá, a explorar serviços. Então, assim, ah, mas será que não tem jeito? É, tem jeito. Tem jeito se você sufocar e correr atrás do dinheiro, né? A lavagem de dinheiro hoje é usada pelas grandes organizações criminosas de uma forma não escancarada, né? Você tem aí a associação de postos de gasolina, lojas de shopping.
Você tem fábricas de pães, de gelo. Tudo isso pode ser lavagem de dinheiro dessas organizações criminosas. Então, assim, aprendemos, por exemplo, 250 armas por dia. Tem um dia que você seca a fonte, descobre de onde vem a arma e corre atrás de quem está financiando a importação dessas armas, por exemplo. Então, assim, algumas operações têm sido exitosas. Você citou aí a operação em São Paulo, de Santos.
foi exitosa, houve um êxito ali bastante interessante, com ligação agora já sabida do envolvimento de portos e envolvimento inclusive da Faria Lima, do Centro Financeiro de São Paulo. E aqui no Rio não é diferente não, no Rio é muito semelhante. Acontece que no Rio a geografia daqui, ela permite ao criminoso uma vantagem tática, porque eles se escondem dentro dessas comunidades.
que acaba envolvendo um provável dano colateral, que são as pessoas que moram naquela localidade. Então, assim, o que nós vamos fazer para resolver isso? Bom, a Colômbia já mostrou como faz, El Salvador está mostrando como faz, e alguns estados aqui no Brasil estão mostrando como faz.
A prisão é uma das saídas, você tem que prender muito, tem que encarcerar de verdade e modificar a lei para que o encarcerado banque a pena de ponta a ponta. Porque se ele se servir de qualquer subterfúgio legal, de qualquer benefício que seja...
Ele vai voltar para o crime, porque ele tem dívidas com o crime. Quando o camarada entra para uma facção, se desfaccionado, a partir daí ele tem dívidas. Se ele perde a arma para a polícia, ele tem que repor aquela arma. E para repor aquela arma, ele tem que fazer dinheiro. Para fazer dinheiro, ele tinha assalto.
Então, assim, é um ciclo que tem que ser interrompido. Alguns países já perceberam que a interrupção é dentro da cadeia. É o ciclo ruim, né? Que se chama de porta giratória do crime. A polícia fez o seu trabalho, né? Prendeu o camarada. E aí ele entra no sistema e volta pra rua.
Então ele não acredita mais que vai ficar preso. O camarada que, por associação, está no tráfico e entra com uma arma de fogo que seja um fuzil, ele soma-se à pena em agravamento. 11 meses de pena para quem está com um fuzil na mão. Isso é ridículo. Em qualquer lugar do mundo isso é ridículo. O camarada, por associação ao tráfico, ele pega 15 anos, mas o fuzil não representa nenhum perigo para aumento de pena praticamente. Então a nova lei dos crimes está...
lei antifacção, tá cuidando disso porque realmente era inaceitável o camarada ser preso com o fuzil e bancar 11 meses só de cadeia, né? Afronta a sociedade, afronta a polícia. Então, assim, de todos esses fuzis, eles não vieram de graça, eles não vêm, eles não entregam o fuzil pra polícia.
É a custa de troca de tiro, é a custa de enfrentamento, é a custa de muita bala perdida, de danos colaterais. Então as pessoas nesse meio, no meio urbano, passam a ter no fuzil um quesito bastante complicador. Mas como eu dizia, o tráfico está se moldando aos serviços, por exemplo. Explorando serviços dentro de comunidades, assim como já fazia desde então a milícia.
O crescimento da milícia foi em função da falta de transporte público, da falta de infraestrutura, a falta de serviços mesmo básicos, de saúde, por exemplo. E aí a organização criminal se mete nesse meio e acaba prestando serviço. Então se você for dentro de uma favela hoje e perceber uma padaria muito bacana, muito bem estruturada, é porque é uma padaria do tráfico. Ela está fazendo pão a custo zero de energia.
com mão de obra muito barata, quase escrava, trabalhando dia e noite para competir com quem paga imposto, com os estabelecimentos comerciais que pagam imposto na cidade formal, mais ou menos isso. Coronel, até aproveitar que você trouxe, citou novamente outros países aí, e também toda essa cadeia que realmente existe e deixa tudo mais difícil.
esse processo de recuperação das armas, de combater esse tráfico ilegal de armas, que é o que se pretende a CPMI, pelo menos a ideia do manifesto que foi lançado pela sociedade civil, porque queria entender, vocês estão com conflitos também, em alguns países que podem deixar isso ainda mais complicado, ou seja, tornar as armas mais fáceis nas mãos dos criminosos.
E o processo de tomá-las de volta, a gente sabe que geralmente é por conflitos, por guerras, por operações. E aí, muitas vezes, a gente tem esse cenário trágico de mortes, que não é o que se pretende geralmente. Então, a pergunta é nesse sentido, né?
Existe uma percepção comum de que a maior parte das armas vem de fora do país. Hoje, dá pra gente citar quais são as principais rotas e origens das armas que chegam aqui ao crime organizado no Brasil, nessa ideia? E isso, por que é tão difícil?
responsabilizar quando a gente tem toda essa cadeia que você falou, me lembrou ano passado, se eu não estou enganado, revelando ali esse esquema de lavagem de dinheiro, por conta de fintechs que não tinham as regras bem definidas também para esse dinheiro que ficava alocado ali. Então, que também facilitou e aí foi feita uma operação quando foi descoberto que tinha essa ligação com o crime organizado em São Paulo. Então, queria tentar juntar meio que duas perguntas numa aí.
Primeiro, as grandes rotas, elas são muito... Você tem as rotas internas e você tem as rotas externas. As rotas externas, desde sempre, desde a década de 80, digamos assim, transformaram o país numa escala, principalmente em Porto de Santos. A gente tem a rota Solimões lá em cima, a rota...
lá do Paraguai, Mato Grosso do Sul, Paraná, que acho que é a rota mais tradicional, que é por onde entra a cidade de leste, aí entra Foz do Iguaçu, Ponta Porã, aquela é a mais famosa. A rota do Paraguai ali. Você tem a rota da Bolívia, você tem...
armamento vindo do Uruguai, da Argentina e dos Estados Unidos. Agora, nós, infelizmente, não temos no Brasil, nem o governo federal tem, a perseguição dessas armas. O que existe hoje no Brasil é uma falta de conhecimento de onde essas armas partiram. Vou dar um exemplo. Nós tivemos no Brasil 400 e...
Por exemplo, no Rio de Janeiro, vou dar o Rio de Janeiro, 475 armas apreendidas no ano passado.
de fuzil, né? E o governo brasileiro não sabe de onde são essas armas. Quem tem esse... a rota exata dessas armas é a Polícia Federal. E a Polícia Federal ela não socializa o banco de dados dela, né? Em termos de conhecimento. Então ainda falta pro órgão central, que é a Senasp, né? Que é o Ministério da Justiça, já que a Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça.
falta conhecimento, divulgação de onde essas armas estão vindo. Então, para uma polícia, por exemplo, do Rio de Janeiro ou da Bahia, para essas polícias identificarem exatamente de onde estão vindo as armas, é difícil, você tem que criar uma estrutura aqui. Então, a estrutura aqui na polícia do Rio de Janeiro é a desarme.
A desarme sabe porque ela fica com a... Você é policial militar, você aprende o fuzil, você apresenta o fuzil na delegacia e ela vai para essa delegacia especializada. A delegacia especializada, ela tenta fazer o caminho inverso da arma.
identificando partes da arma, ela consegue descobrir de onde veio a arma. Só que esse dado também não é um dado socializado. Então quem aprendeu a arma, por exemplo, eu, eu aprendi um AK-47. Aprendi o AK-47, levei pra delegacia, né? E aí, você tem duas possibilidades. Ah, ou ele veio, a rota veio do Paraguai, ou ela veio através de contrabando.
de navio da Ucrânia ou da União Soviética, da Rússia, ou da China, porque existem similares ao AK-47, armas chamadas Norinco, que também são fabricadas na China.
com o mesmo tipo de chassi, digamos assim. Então, infelizmente, no Rio de Janeiro, a gente tem o maior número de apreensões. Mas você tem aí, despontando São Paulo, com mais de 50 fuzis apreendidos em 2024. Você tem a Bahia com 17, Amazonas com 13, Minas Gerais com 26 fuzis, Mato Grosso com 23, por aí você já vê, e o Rio com 215 armas apreendidas.
Por aí você já vê mais ou menos quais são as rotas, por onde essas arramas chegam. Mato Grosso, Minas, Bahia, Amazonas. A Bahia tem copiado muito o Rio de Janeiro, infelizmente.
tem tido números expressivos, cada vez mais expressivos de apreensão de fuzis, e isso é um detalhe muito ruim, porque aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, são cinco fuzis apreendidos por dia, isso é bastante preocupante, é muita coisa. Imaginando o seguinte, nós aqui no Rio de Janeiro, e assim, eu digo Rio de Janeiro e São Paulo, porque são, em termos...
numéricos são as regiões ditas mais perigosas, não são as mais perigosas relativamente mas em termos de números absolutos são os que mais apreendem então assim, é preocupante porque existe um, são megalópolis Rio de Janeiro e São Paulo
E tem muita gente envolvida nessa história. Cada confronto aqui no Rio, por exemplo, nós tivemos uma média de seis confrontos por dia. Você imagina o quanto isso não é pernicioso e como não é trabalhoso para as polícias se meter em seis confrontos com organizações criminosas por dia.
Eu digo confronto armado, tá, pessoal? É bem complicado. Existem áreas aqui que a polícia, por exemplo, deixou de patrulhar por conta da presença de criminosos ostentando fuzis. Então a única saída é o enfrentamento. Nós já partimos para esse dado, esse dado da arma, de fogo, da barricada, em todos os lugares. Hoje mesmo estava vendo que São Paulo já começam a ter barricadas em algumas comunidades.
E aí nós aqui temos o Núcleo de Apoio às Operações Especiais, que é um núcleo que fica dentro do COE, estabelecido dentro do COE para atuação em demolições de barricadas. Aí bota aí o ano 2024, foram 7 mil toneladas de barricadas retiradas por essas operações. As situações são muito delicadas.
O político que quer ganhar essa eleição, ele vai ter que partir para o discurso da área de segurança pública, mas vai ter que mostrar que tem qualidade e tem vontade de confrontar essas organizações criminosas que estão tomando conta do país. Coronel André Batista, da Reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ex-comandante do Comando de Operações Especiais, especialista em segurança pública, muito obrigado por trazer um pouco da sua experiência aqui para a gente no Jabuticaba. Ok, valeu, eu que agradeço, forte abraço.
Obrigado, Coronel. Volte sempre. Tchau. Valeu. Abraço. Tchau.
Nosso tempo acabou, então chegou a hora de colocar ponto final em mais um episódio do Jabuticaba Sem Caroço. Eu te lembro, ouvinte, que você pode avaliar o nosso trabalho. É simples, é só ir na aba sobre do nosso perfil em sua plataforma de áudio favorita e colocar pra gente cinco estrelinhas. Isso ajuda muito o nosso trabalho, né, Kaique? E faz com que o nosso conteúdo chegue a mais pessoas.
É isso, Rafa. E vale lembrar que é possível acompanhar o Jabuticaba nas principais plataformas de streaming de áudio ou no site da Sputnik Brasil, noticiabrasil.net.br e na Rádio Metropolitana, a frequência 80.5 FM do Rio de Janeiro. Até o próximo episódio. Jabuticaba Sem Caroço, o podcast que descaroça a Jabuticaba nossa de cada dia.