#83 O que a música clássica pode ensinar sobre gestão? Com Ana Flávia Cabral
Nesse episódio do Isso Ninguém Vê, Cláudio Zaidan e Dan Stulbach recem Ana Flávia Cabral, Vice-Presidente Executiva e Superintendente da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, para uma conversa que conecta música clássica, gestão e impacto social. Com mais de 25 anos de experiência entre o setor público, mercado financeiro e cultura, ela compartilha aprendizados sobre liderança, governança, sustentabilidade e tomada de decisão em ambientes complexos. Ao longo do episódio, foi abordado como a lógica de uma orquestra pode inspirar empresas e instituições, além dos bastidores de projetos culturais no Brasil e o papel da arte na transformação social. Um episódio para quem busca visão estratégica, carreira e novas formas de pensar gestão, a partir de um lugar que quase ninguém vê.
Cláudio Zaidan
Dan Stulbach
Ana Flávia Cabral
- Musica ClassicaLiderança e governança · Impacto social da música · Educação musical · Transparência na cultura · Convergência entre setores
- Cultura de Trânsito no BrasilPolítica pública de cultura · Modelo de gestão da USESP · Lei Rouanet
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Todo brasileiro é cliente da Núclea e não sabe. Descubra como a Núclea está trabalhando com você em núclea.com.br. Olá, salve, salve, bom dia, boa tarde, boa noite a todo mundo que está nos ouvindo. Mais uma vez, um prazerzaço receber você. Eu e Cláudio Zaidan estamos rosteando este programa já há quatro temporadas. Mais de 80 programas, Cláudio Zaidan, é verdade isso? É verdade esse bilhete?
Tudo bem, Dom? É verdade, é verdade. Mais de quatro temporadas, ou na quarta temporada, mais de 80 episódios. E estão todos aí. As pessoas podem ouvir todos eles nas plataformas de áudio.
E claro, podem conversar com a gente no Instagram, o do Isso Ninguém Vê, dizendo de qual entrevista gostou mais. Quem quer que venha aqui conversar com a gente, quem você sugere que seja o nosso convidado aqui no Isso Ninguém Vê, já são mais de 80 episódios, quarta temporada, só gente boa, só convidados bons, só conversas de primeira qualidade. E hoje, nem se fala ainda.
Nisse fala porque ela já estava falando que vai ver minha peça, já ganhou muitos pontos. Além de todo o trabalho maravilhoso que ela faz, desenvolve. Enfim, estamos muito felizes de te receber, Ana. Ana Flávia, seja bem-vinda. Muito obrigada. É um privilégio, é uma honra. Estou super animada para a gente conversar aqui hoje.
Ana Flávia, uma honra nossa. A Ana Flávia é vice-presidente executiva e superintendente geral da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, conselheira, Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, conselheira da Núclea, a Núclea Educação, que trabalha com o mercado financeiro e com N iniciativas de tecnologia.
que facilitam a vida de todo mundo. E a Ana Flávia, no tempo todo de carreira, uma carreira extraordinária, muito bem sucedida, onde as coisas aconteceram na velocidade certa, exatamente pela competência que ela tem, ela tem ocupado posições em direção de empresas no mercado financeiro, setor elétrico, passou pela Fundação Osesp.
antológica Fundação Osesp, do Governo do Estado de São Paulo, BID, Ministério da Cultura, advogada pela PUC São Paulo, é mestre também pela USP, MBA em Gestão de Bens Culturais pela FGV, e professora da Faculdade de Direito da FGV Rio de Janeiro, e autora da obra Osesp, um caso de sucesso.
Enfim, isso é parte do currículo, mas um currículo formidável. E eu queria começar por esse último item, minha cara na Flávia. O Zesp, qual o tamanho desse projeto, suas consequências culturais, sociais, como é que você enxerga uma iniciativa já histórica como a O Zesp?
História com história se faz, né, Cláudia? Eu estava aqui refletindo sobre isso, conversando, me preparando para falar com vocês. E é interessante a gente pensar em USESP já como um fato histórico. Eu estava lá no início de tudo, não existia fundação. Eu fui assessora jurídica, né? Fiz parte do time do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando ele reuniu, então, grandes personalidades, digamos, do mundo político, do mundo da gestão.
e da sociedade civil para se comprometerem num projeto de política cultural de Estado. E o que isso significa? A escolha ali foi a escolha de uma orquestra sinfônica, já bem cultural do Estado de São Paulo, com uma longa trajetória, mas no universo da política cultural, da gestão pública das políticas culturais,
Nós temos, e talvez hoje a gente viva um momento diferente, mas 21 anos atrás, quando a gente assinou o primeiro contrato de gestão com o Estado de São Paulo da USESP, não é um ambiente muito profissional. Então, a gestão da cultura é muito informal, sempre foi muito informal.
Eu fui primeira turma dessas tarefas todas acadêmicas aí. Eu fui aluna de primeiras turmas. Então, pela primeira vez, a academia estruturava uma visão de preparação científica, acadêmica, para esse universo de gestão cultural.
A própria USESP, o modelo de trabalho dos músicos, eles eram contratados, cada um de um jeito, mas como bolsistas para dar aula, mas no fundo eram empregados mesmo do Estado, prestando serviço, tocando concerto para a sociedade. Então eu cheguei para...
Trazer uma contribuição jurídica com uma proposta de organização de todo esse universo de talentos e riquezas. E com isso, então, a gente promoveu a institucionalização da Osesp em fundação.
E a gente podia agregar os coros, né? A gente podia agregar os projetos de educação musical que eles desenvolviam na Sala São Paulo e a própria administração da Sala São Paulo. Então, o meu resumo com tudo isso é como é importante quando o poder público, sociedade civil, academia, artistas se integram num projeto eficaz, organizado.
para que isso realmente proporcione um bem à sociedade. Então, seriedade e gestão são questões imprescindíveis no sucesso de qualquer organização, mas sem dúvida nenhuma na cultura é fundamental. Ana, você está dando entrevista de pé? Estou sem cargo.
Ah, tá. Eu tô vendo você toda alta. Essa é a primeira vez na história que ia ter um convidado que ficasse de pé dando entrevista, entendeu? Ana, coisa de grana, né? Grana pública e cultura no Brasil virou uma polêmica recesa.
recente, eu vou dizer assim, né, politizar essa questão, claro, tem, tudo bem eu acho que politizar não é o problema, porque também todo mundo tem que participar e querer entender o que se faz com o dinheiro público que é de todos nós, mas aonde você vê que essa questão, ela acabou indo pra um lugar errado e onde você acha que ela tá no lugar certo, o que você acha, o que se deve fazer com o dinheiro público em relação à cultura, na sua opinião?
Eu acho que o primeiro lugar é destinar o orçamento público para essa finalidade com uma lógica de organização, de objetivo, de missão de metas. Porque quando o dinheiro é disponibilizado no varejo, então um pouquinho aqui para alguma coisa, um pouquinho aqui para outra coisa, o governo federal pensa do jeito, estadual de outro, municipal de outro.
não ter convergência acaba gerando ruído. Então, a cultura é imprescindível que a gente tenha uma unicidade no sentido de qual objetivo a gente pretende com o apoio do poder público para esse fim.
E é claro, porque a gente está falando de cultura, o universo do artista, o universo da cultura, ele é subjetivo. Então não é como a gente estabelecer uma política pública de saúde onde é possível compartimentar o que são os objetos produzidos a partir daquele investimento.
O Podio de Cultura a gente está falando e tomara que seja mesmo muito diverso, muito abrangente em todas as linguagens, de todas as formas, que inclusive acho que é difícil da gente antecipar isso. Mas o objetivo comum deve ser promover a cultura a partir de todas as vozes.
todas as pessoas. Eu penso que esse é um objetivo final. Como fazer isso é uma grande questão. A gente passou recentemente pelas discussões de Aldi Blanc, que é a transferência de fundo a fundo. Eu estava no Ministério da Cultura quando a gente estava discutindo ainda como promover cultura. A gente está falando de dez anos atrás, né? É pouco tempo. Então, eu começo assim.
É necessário organizar a cultura em política pública como qualquer outra política. O artista não tem um papel menor do que o cientista na sociedade. A gente só falou de infraestrutura do ser humano, a gente organizar comportamento, a gente organizar visão de mundo, a gente organizar como as pessoas se relacionam entre si e no todo, a participação cidadã.
Isso vem do campo dos sentimentos, do campo das emoções, do campo das virtudes, a gente está falando de educação humanista. Então, organizar uma política pública é fundamental. Quando a gente organiza uma política pública, a gente está falando de orçamento, de onde ele vem, como ele é usado, como ele é monitorado e na gestão de tudo isso. Então, que objeto a gente encontra?
a supervisão desse recurso tem que estar adestrita aos objetivos. Ou seja, a gestão da cultura é tão séria quanto qualquer outro tema do poder público. Então, a gente no universo desorganizado acaba sendo afetado por desorganizações no uso do recurso também. Aí quando a gente vai para os tribunais de contas, que são as autoridades encarregadas de supervisionar o uso do recurso público na esfera administrativa.
Os tribunais de contas precisam estar capacitados, paramentados para analisar a cultura. É muito complicado quando a gente coloca a cultura em um processo licitatório, porque a licitação é feita justamente para ser impessoal. Como é que a gente coloca um produto subjetivo, criativo, que deve seguir o fluxo das ideias, num aparato compartimentado que é e tem que ser...
como tem que ser a licitação. Então, por isso, o caso do AUSESP é um caso de referência, o modelo de gestão é de referência, porque está dentro dessa lógica de Estado de contratualização dos resultados, então não entra como licitação, entra em um grau de liberdade de gestão. E, finalmente, o uso do recurso público tem que seguir uma lógica de finalidade.
É imprescindível que haja transparência. Então, eu acho que as instituições culturais precisam prestar contas não só para os órgãos administrativos, mas para a sociedade. A transparência é uma ferramenta de gestão e é uma ferramenta de monitoramento e controle pela própria sociedade. É uma forma de a gente compartilhar essas responsabilidades. Então, imagino que, resumindo tudo isso, a gente precisa levar a cultura a sério como qualquer outro tema que faz parte da gestão de uma sociedade democrática.
O Ana Flávio, você falou da necessidade de convergência entre iniciativas da União com as iniciativas do Estado, dos municípios. Não é que não seja uma coisa aleatória, cada um vai numa direção, para que haja, enfim, um projeto, uma ideia, uma ideia global de investimentos na cultura.
Você falou em convergência. E as empresas e o setor privado? E particularmente o mercado financeiro? Você já encontrou convergências entre o mercado financeiro e iniciativas culturais, inclusive na área da Orquestra Sinfônica?
Eu vim ter essa experiência de uma forma mais acentuada na Orquestra Sinfônica Brasileira, porque a OSB não conta com apoio público, não conta com recurso do poder público, assim como a USESP e todas as outras instituições culturais do país.
A USB nasceu para ser a orquestra de representação da cultura brasileira, dentro e fora do Brasil, com uma dotação assamentária do governo federal atribuída por Getúlio Vargas. A gente está falando ali de vários empresários cariocas brasileiros que se reuniram para criar a USB com o apoio da ideia de um maestro paraibano, que foi José Siqueira, e com o apoio do poder público.
Quando o Rio deixa de ser capital federal, o recurso deixa de ser de natureza federal e passa a contar com o apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em um dado momento isso acaba. E a OSB entrou num processo de falência.
mais possível manter aquela organização sem recurso, obviamente, como em qualquer situação. E a gente precisou buscar na iniciativa privada o apoio necessário para reguer a USB e construir um projeto de permanência.
E foi então com essa construção de uma visão de valor social, como é que uma orquestra sinfônica pode contribuir, qual é o papel de uma orquestra sinfônica numa sociedade.
E como é que a música pode contribuir como ferramenta para as dinâmicas sociais? Ao problematizar e trazer essa reflexão para os empresários, eu pude fazer esse canal, tive muitas portas abertas, a despeito das fechadas, mas tive muitas portas abertas e tive a alegria de contar com grandes CEOs, executivos, que deram ouvidos para mim. E antigamente era...
Vamos encontrar ali na hora do almoço, que é o intervalo que eu tenho para te atender. Hoje em dia eu marco reunião e estou dentro da ordem do dia. Se tornou importante, as pessoas foram entendendo a importância dessa contribuição da música, da cultura para a construção de valor social. E por que isso é convergente?
Porque a empresa precisa ter a noção de valor social porque ela está prestando serviços ou produzindo riqueza ou produzindo bens de consumo para pessoas. Então é para a sociedade. A empresa, muitas vezes, no caso de infraestrutura, por exemplo, ela está contida em territórios com impacto ecológico, com impacto do meio ambiente. Então a gente tem hoje 40 patrocinadores.
É um caso de sucesso. A gente está entre os maiores projetos de lei Rouanet do Brasil, mas a gente só pode ter esse projeto também considerado exitoso porque há a lei de fomento. Sem a lei Rouanet, seria impossível ter a USB hoje, porque os empresários, de fato, contam com o incentivo fiscal. E eu acho que essa lógica que o poder público nos oferece, oferece a lei de incentivo, o empresário acredita na mesma coisa que o produtor cultural,
e desconto do imposto de renda, então eu acho que tudo isso funciona muito bem, tem um azeitamento aí produtivo. Muito bom, estava aqui vendo outras coisas, né, sobre a sua trajetória, uma trajetória, o fato de você ser mulher, te criou obstáculos, você teve impedimentos, preconceitos, você está balançando a cabeça, já imagino que sim, né?
É impossível não balançar a cabeça do Teito ou não dar muitos sinais que antecipem. Mas olha, eu vejo ao mesmo tempo essa construção pessoal de trabalho muito positiva, porque não é só na questão da música, no poder público. Eu fui a única secretária de planejamento do governo federal ali na minha época, então secretária de pasta, mesmo sendo cultura uma pasta menor, muito jovem também.
E no mundo das orquestras sinfônicas, que durante muito tempo foram comparadas às estruturas militares, então é interessante pensar, é remanescente da cultura militarista, hoje em dia eu trabalho com as forças armadas, eu trabalho com o exército, eu trabalho com a marinha, de forma muito próxima, que a gente tem projetos contra a gente, inclusive.
de educação musical. Mas acho que há, de um modo geral, quando a gente fala de uma sociedade machista, estruturalmente machista, eu não acho que seja só a questão do corpo feminino a incomodar numa sala. Eu acho que o corpo feminino...
em algum aspecto gera um certo incômodo, mas acho que tem muito de se desacreditar as mulheres, né? Ah, não, isso é muito complexo, não é para mulher, né? Isso não é para mulher, né? E aí a gente ter, assim, a oportunidade também de não só conquistar esses espaços, eu acho que permanecer nesses espaços é ainda mais...
difícil, né, eu acho que a permanência e assegurar a equidade ao longo do tempo é mais difícil do que entrar hoje em dia, mas vejo também assim hoje, ao ter conquistado depois de ter conquistado de ter o respeito dos meus colegas todos o homem também, quando ele se propõe a ser um homem aliado, ele transforma muito a vida de uma mulher, então eu tenho alegria de poder contar com muitos homens aliados que me abriram muitas portas jetzt
Ana Flávia, há cerca de 100 anos, um pouquinho mais, porque o Lênin ainda estava vivo, ele morreu em 24, janeiro de 24, havia um debate incipiente então, porque estavam saindo não só de uma revolução, mas de uma guerra civil, que durou 3 anos e meio.
Mas ali no processo de reconstrução, e particularmente da educação, era uma população com 80% de analfabetos, basicamente uma população construída de camponeses, eram poucos os operários, a população urbana naquele momento. Mas havia uma discussão que era o seguinte.
Nós temos de fazer com que crianças que vão começar a ter interesse para algo além da comida do dia, porque é bom lembrar que tudo isso vem logo na sequência da Primeira Guerra Mundial, que devastou a Rússia. Então os problemas eram imensos. E, no entanto, havia uma preocupação seguinte. Essas crianças não devem ouvir apenas música.
Nós precisamos fazer, uma parte da discussão era essa, havia uma corrente que defendia isso. Elas precisam ouvir Bach, não é qualquer música. Elas têm de ler Dostoiévski, Tolstói, não a literatura de livretos da época. Elas precisam ter acesso à grande produção cultural da humanidade. Então, por exemplo, quando o Dan...
se apresenta no teatro, que é o público dele. E, particularmente, no teatro, as pessoas têm que pagar ingresso, etc. O local é limitado. Você tem um número X de cadeiras e tal. E mesmo com vários dias de apresentação...
você tem um circo ali que é atendido por aquele espetáculo. Uma orquestra tocando Sinfonias do Beethoven, então ela vai lá, ela tem um público específico, já acostumado, que sabe o que está ouvindo, está acostumado com o que está ouvindo, conhece o que está ouvindo, conhece não apenas a quinta e a nona, mas conhece a pastoral do Beethoven, enfim. Mas como levaria isso a essa discussão que aconteceu na União Soviética há mais de 100 anos, 103 anos, 102 anos?
levar isso para quem nunca teve nada, para quem hoje tem acesso pelos meios de hoje, na época não havia rádio, hoje você tem rádio.
internet, etc. Mas há muito lixo, uma coisa que é produzida apenas para ser consumida e descartada. É possível fazer ou acreditar em projetos que levem as grandes obras às pessoas que nada têm, que nunca conseguiram ouvir, que não tiveram contato com isso? O Estado e as empresas podem trabalhar nessa direção?
Você fala sobre um monte de coisa maravilhosa. Quero falar, quero comentar tudo. Pois é, não só após-guerra. A gente está falando também, a China fez a mesma coisa. Coreia do Sul fez a mesma coisa. Arábia Saudita fazendo a mesma coisa. Eu sou muito próxima deles há dois anos, trabalhando com eles. Porque a gente, idealmente, não quer só pessoas básicas. A gente quer pessoas extraordinárias, certo?
Então, por que a gente quer promover o acesso a esse tipo de conhecimento, a essa música complexa de Bach, a Tolstói, a Dostoiévski? Por que quem pensa sobre isso? O que se pretende com isso? Se pretende uma sociedade incrível, não uma sociedade básica. Por isso que me incomoda muito quando a gente fala que é programa de saúde básica, a educação básica, o não sei o que básico. Se o nosso poder público está pensando em oferecer só o básico, como é que a gente vai ver...
é extraordinário? Quando é que a gente vai virar um país incrível para competir com os outros incríveis ou com os que estão investindo para que suas pessoas e o seu povo seja incrível? E do ponto de vista de cultura, nós sabemos o quão potencial o Brasil, a cultura brasileira é. Não é só porque está no hype agora, não. Sempre esteve no hype. O brasileiro sempre despertou o interesse das pessoas de fora. Não é pelo exótico.
É pela dimensão extraordinária de causar e de gerar sentimento, de gerar essa complexidade na escuta sonora, na exuberância das nossas paisagens, no colorido das nossas pessoas. Isso tudo não é nada trivial, é um país realmente multitud. Então, o que eu tirei para mim como lição? E muito obrigada por tocar nesse aspecto.
Isso não é poético. Quando a gente está falando de promover acesso a esse tipo de literatura com essa qualidade, esse tipo de música, é uma questão biológica. É despertar processos neurobiológicos. Isso a neurociência explica. A música sinfônica, assim como as línguas estrangeiras, são as duas únicas provocações cerebrais que conseguem atrelar os dois hemisférios do cérebro ao mesmo tempo.
E isso é promover desenvolvimento extraordinário para as nossas pessoas. Então, Ana, Ana tirou a seguinte lição da minha experiência com o poder público e servir o meu país. Servir o meu país, servir o meu estado, servir a minha cidade. O que eu tiro como lição? Eu não trabalho com música erudita. E eu não trabalho com música clássica. Eu trabalho com música sinfônica.
na medida do possível, de concerto. Porque fazer música sinfônica ao vivo é o que eu realmente desejo e pretendo com o meu trabalho. Proporcionar o encontro. Porque o que acontece num concerto? Acontece um processo de alquimia. A gente está falando de músicos extraordinários que estão ali não para serem individualmente extraordinários. Se todo mundo resolver ser solista, não tem sinfonia, não tem orquestra.
O que tem é a liderança e a construção de um entendimento de várias vozes, de muitos diferentes, porque as pessoas não tocam o mesmo instrumento, né? Há vários naipes, instrumentos distintos, alturas, timbres, sotaques, coisas diferentes, que convergem para um ponto de vista para promover um resultado único, que é uma sinfonia, uma obra e tal. Quase que a gente olha para uma orquestra e nem consegue discernir qual instrumento está tocando, né?
A ideia é virar um uníssono mesmo. A ideia é virar um um dos, que é um dos, que é um dos, que é um dos.
em muitos momentos. Então, assim, eu não trabalho para oferecer, para prestar serviço de erudito, para circunscrever essa experiência a espaços cultos. A gente não está falando de limitar o acesso. Quando a OSB se propõe a um projeto de popularização da música, de educação musical, e a gente vai à casa das pessoas, e quando eu digo vai à casa das pessoas...
isso é no sentido literal mesmo, a gente vai para o interior do Maranhão, a gente vai para o interior de Sergipe, a gente vai para o interior do Brasil, Brasil profundo, a gente está levando essa experiência da escuta, da música complexa, do despertar os dois hemisférios do cérebro, de poder ter acesso a coisas extraordinárias, a gente está levando para as pessoas, com o apoio dos empresários, o Alei Ronet, etc., como a gente falou anteriormente.
Então, por quê? Porque a gente acredita nisso, a gente acredita que proporcionar o acesso a esse tipo de experiência é uma forma de contribuir para a infraestrutura do ser humano. Então, a gente tem cientistas para ciência, grandes pensadores, grandes profissionais e tal, e a gente tem a música sinfônica para proporcionar esse tipo de construção de conhecimento e de experiência.
pra, se Deus quiser, todas as pessoas que a gente puder alcançar, eu queria que fossem todos os brasileiros, todos os cidadãos todas as pessoas que vivem nesse país mas é, porque não sonhar grande também, né, assim, a gente não tem recursos pra isso mas a gente tá aqui pra inspirar e pra sonhar eu sou sonhadora também
Mas imagina que além de sonhadora você, naturalmente você é uma realizadora e você deve ter passado por processos de transformação bastante bonitos de ver, de vivenciar, de participar. Você pode contar algum para a gente, por favor? A gente teve um caso, a gente criou um sistema de monitoramento e avaliação de impacto do projeto.
E antes do aluno ingressar no projeto, hoje em dia a gente faz um questionário para a gente entender o que são os sonhos daquela pessoa, né? Até para entender se o projeto realmente muda alguma coisa. E a gente teve um caso de um jovem...
De um dos nossos interior... Interior de São Paulo, na verdade. Que respondeu que o sonho dele era ser traficante. E essa resposta pra mim parou tudo. Fez todo mundo parar. Falei... A gente pegou a resposta. Falei... Para tudo agora. Vamos todo mundo. Gabinete de crise. Gabinete de crise no seguinte sentido.
Vamos pensar que tipo de experiência a gente está proporcionando. Por quê? Porque quando um jovem de 15 anos de idade coloca que o sonho dele é ser traficante, a meu ver, é o exemplo de sucesso que ele conhece. Bem suceder na vida?
é ter esse tipo de poder, que é o tipo de poder que ele conhece, e esse tipo de riqueza, que é a riqueza que ele conhece, dentro daquele ambiente dele. Então, quando a gente está falando dessa experiência de estar, de ir à casa do outro, por que eu escolhi a escola pública? Para que fosse associada a experiência da educação musical?
objetivamente com espaço de conhecimento, onde é um lugar que em tese é seguro, apesar da gente saber que nem todas as escolas são seguras, mas que a pessoa pudesse sair da sua casa, sair do seu ambiente, onde ele tem aquele tipo de exemplo.
e poder estar imerso num ambiente mais neutro que a escola pública e então ali receber outro tipo de exemplo, né? Que é a experiência da música também para proporcionar a amplitude dos sonhos, né? Perspectiva de futuro. Então, essa é uma história que me marca muito, que me traz muita responsabilidade.
A gente tem esse caos, a gente tem casos de meninas que sofrem violência sexual dentro de casa, que vão para a escola e ficam à tarde no projeto de sindão, tá, de chorar, para fugirem de casa, para não estarem em casa o dia inteiro. Então, é um espaço de fuga.
um espaço de fuga, um espaço onde eles veem segurança, um espaço onde eles veem um jeito de sonhar, um jeito de viver diferente e de se sentirem valorizados também, porque a expressão cultural, a expressão musical, no nosso caso, ela dá a oportunidade do indivíduo ser protagonista de alguma coisa, né?
Se ele não pode ser da própria história dentro de casa, né? Mas dentro do seu ambiente, mas que ele possa ser ali no seu desejo de cantar, no seu desejo de estar como plateia diante de uma orquestra sinfônica tocando nessa escola. Então, assim, o nosso projeto de popularização e de educação musical tem a ver com respeitar...
a realidade das pessoas, porque também não adianta eu levar lá, só levar Prokofiev, Divordia, Beethoven, as pessoas não têm ideia do que isso significa. Então, a gente vai escolhendo um repertório brasileiro com que eles possam se identificar, a gente toca música popular mesmo, que está ali no imaginário das pessoas, e a ideia é a gente conseguir construir, estabelecer uma conexão para que aquilo que a gente está oferecendo seja, de fato, transformador. Essas experiências me marcaram muito.
Você chegou a ter algum trabalho conjunto com o João Carlos Martins? Ainda não, mas quando eu vi que ele criou o projeto para a música nas escolas, eu estou aqui na minha lista de tendências, entrar em contato com o maestro. É porque ele é muito preocupado exatamente com isso, de fazer essas fusões da música. Ele que foi considerado durante um tempo um dos melhores, para alguns o melhor intérprete de Bach.
do mundo, e o Dave Brubeck, jazzista, fenomenal, viu ele tocando, não sabia quem era, num bar pequeno, não sei se no norte dos Estados Unidos ou no Canadá, falou, mas o que é esse cara? Quer dizer, ele é genial, depois teve os problemas físicos e tal, mas ele tem muita essa preocupação que você tem.
de levar essas grandes obras, essa música de muita qualidade, para as pessoas ouvirem tudo quanto é lugar, né? Inclusive fazendo fusões com música popular, né? Claro, sabe que uma vez eu recebi uma cartinha de uma aluna de uma escola, dizendo assim, foi incrível vocês terem passado por aqui, eu era uma menina muito tímida, não conversava com ninguém, e depois da experiência, eu passei a conversar com as pessoas agora sem me expressar.
E ela termina a carta assim, Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam Adam
pelo amor de Deus, não vão embora nunca. E a gente vai embora. Eu preciso conversar com o maestro, porque a minha maior dificuldade, que eu acho que esse é o paradoxo do meu trabalho, a gente trabalhar para que isso possa ser, esse bem possa ser de acesso de todos, em todos os lugares.
até no sentido da compreensão, e que isso possa ser permanente. Por isso que eu discuto muito a responsabilidade do Estado em promover política pública, continuidades. Mas ir embora, para mim, é muito difícil, porque eu fico entre a sensação de abandono, eu sei que se a gente for embora e ninguém dá continuidade, as pessoas ficam desamparadas de novo, e às vezes eu não sei se é pior não fazer nada ou...
fazer e depois deixar de fazer. Porque a gente não tem recurso pra ficar. Eu queria que todas as escolas por onde a gente passa, a gente pudesse estabelecer polos fixos.
Então assim, o maestro tem muita sabedoria nessa coisa do passar do tempo, né? Em deixar legado e tal. Eu sei que a gente deixa legado, eu sei que a gente transforma, não tenho dúvidas sobre isso. Mas eu tenho muita dificuldade de administrar essa passagem de ir embora. A maioria das pessoas que você encontra na caminhada tem talento? Ou são os mané feito eu que não consegue tocar nenhum instrumento? Tem muito talento. O Brasil é muito cheio dessas coisas.
E a maioria deles, depois que você vai embora, acaba não dando continuidade a esse talento, né? É muito difícil. Eu já conheci aluno no interior do Mato Grosso do Sul que aprendeu a tocar Vivaldi de ouvido. Pílio de um servente e de uma moça que era empregada doméstica. Nenhum dos dois tinha esse conhecimento. Você vai falar, se ainda tocasse moda de viola, tonico, tinoco e tal, tem a ver com a nossa cultura. A pessoa tocava em Vivaldi.
Eu fui atrás de encontrar pessoas para me ajudar a pagar uma bolsa de estudos para esse menino ir estudar, ter acesso mesmo, né? Mas na maioria das vezes, essas pessoas não têm um encaminhamento do seu talento.
Você conseguiu a bolsa pra esse garoto? Conseguimos, ele foi estudar fora. E você sabe que em São Paulo a gente tem Projeto Guri, a Imesp, Tom Jobim, né? Em São Paulo a gente tem caminhos pra conseguir promover esses talentos. E em São Paulo é uma coisa totalmente diferente do que a gente vê por aí. Hora das dicas, Cláudio. Dica de livro, filme, música, o que você quiser que esteja vendo, que acho bacana compartilhar com os nossos ouvintes.
Bom, eu vou começar aqui com um livro. O sujeito se chama Alastair Crook, um britânico, e ele fez parte do Serviço Inglês de Inteligência, do MI6. E depois ele rompeu com o MI6 e se tornou um cara que procura enfrentar operações imperialistas e assim por diante. E ele se tornou especialista...
em Oriente Médio e Oriente Próximo. Então ele sabe muito sobre o Irã, sabe muito sobre outros movimentos na região e sobre a Revolução de 79, do Khomeini e tal. E ele escreveu um livro. E hoje tem muita gente falando sobre o Irã e muitas vezes falando de orelhada. Então é bom conhecer o trabalho que ele fez.
Particularmente o livro, o livro não está traduzido, mas hoje com inteligência artificial você consegue, né? Para quem não lê inglês, consegue lá a tradução. O título original é Resistance, The Essence of the Islamist Revolution.
Ou seja, resistência é a essência da Revolução Islâmica. Eu falei em inglês porque se você colocar em português, você não vai encontrar. Mas você vai encontrar a tradução, certamente. O nome dele é Alastair Kruk. Vale a pena para quem se interessa pelo assunto.
Ana, talvez. Aí eu tenho o meu livro de cabeceira que eu acho que todo brasileiro deveria ler, que é Grande Sertão. Assim, pra mim aquilo ali me ajuda a me reconhecer como brasileira e também a entender muito mais os nossos sotaques e as nossas paisagens. Então, pra mim Grande Sertão é o que eu deixaria de dica.
Muito legal. Minha dica também é uma da literatura para o Murakami. Murakami é um grande amante da música. Tem um monte de trilhas, playlists e fala de música nos seus livros. Tem uma obra muito bacana.
E a outra pro Ioiomar, porque o Claudio falou do bar e eu lembrei do Ioiomar na hora. É músico que já veio pro Brasil, tem um disco dedicado à música brasileira, toca a violoncelo. É um gênio aí. Ana, foi um prazerzaço te receber. Muito assunto bom, bom falar de música. Me deu vontade de ligar um som bom depois que a entrevista acabar. Ouve o nosso álbum da USB do Vila Lobos, Baquiana 8. Tá no Spotify. Lindíssimo. A gente ganhou o prêmio da música brasileira. Esse é bem tocante.
Que legal, o Viralobos acho que faria aniversário ontem ou antes de ontem? É, foi ontem, foi o dia da música clássica. Boa, parabéns pelo trabalho. Privilégio, obrigado. Obrigado por tudo.
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