Episódio #125 - Os Filmes de Federico Fellini - Parte 1
Alexandre, Fred e o crítico Rafael Amaral (Blog “Palavras de Cinema”) começam neste episódio a primeira parte da homenagem do PFC ao centenário de Federico Fellini, diretor dos mais influentes do cinema mundial, daqueles que virou adjetivo. Esta primeira parte de dois episódios chega para você neste dia 20 de janeiro, data em que Fellini completaria 100 anos se estivesse vivo, e neste áudio conversamos sobre a obra e vida do diretor, desde seu primeiro filme, passando com destaque por “A Estrada da Vida” (La Strada, 1954), “Noites de Cabíria” (Le notti di Cabiria, 1957) e fechando com um dos longas que mais representa o próprio diretor, “A Doce Vida” (La Dolce Vita, 1960). Não trataremos nestes áudios de “Oito e Meio”, pois este clássico já teve episódio dedicado, basta acessar aqui.
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ATENÇÃO: TIVEMOS QUE REPUBLICAR ESTE EPISÓDIO EM FUNÇÃO DO SPOTIFY CONTESTAR O USO DE MÚSICAS ESPECÍFICAS. ESTE EPISÓDIO FOI LANÇADO ORIGINALMENTE EM 20 DE JANEIRO DE 2020.
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- Centenário de Federico Fellini
- Noites de Cabíria
- A Doce Vida
- Estilo de Vida
- Colaboração com Julieta Massina
- Influência do Neorrealismo
- Trilha Sonora de Nino Rota
- Cinematografia e claro-escuro visual
- Paparazzi e Cultura de Celebridades
- Crítica Social em Fellini
Música
Fala, meus amigos do PFC. Este é o episódio 125 do podcast Filmes Clássicos. Nele traremos mais um episódio especial. Desta vez, celebraremos aqui o centenário do senhor Federico Fellini, diretor italiano, que vai ter aqui a sua biografia, filmografia, debatida em dois episódios. Essa é, portanto, a parte 1.
Numa série aí de dois áudios que você terá um agora, dia 20 de janeiro. Nesta exata data, Feline estaria completando aí seus 100 anos se estivesse vivo. Portanto, até a gente adiou esse episódio, né? Geralmente a gente lança os episódios no dia 15. Excepcionalmente lançamos aqui no dia 20. E depois a gente vai lançar uma segunda parte em março. Aguarde para você ouvir.
Outra coisa importante também de falar aqui neste episódio é uma notícia de primeira mão. Possivelmente você estará ouvindo pela primeira vez, ouvindo ou lendo ou o que seja, sabendo pela primeira vez de um lançamento super especial do nosso parceiro, o Versátil Home Video, a maior distribuidora de DVDs e Blu-rays de filmes clássicos, antigos, filmes de arte, filmes de primeira qualidade do país.
A Versátil vai estar lançando uma edição especial sobre o Fellini, sobre 100 anos do Fellini. Essa edição contará com filmes que a Versátil ainda não lançou. Mas a grande notícia é que a gente recebeu informação de que fora essa edição de 100 anos, a Versátil também vai lançar diversos filmes do Fellini que ela tem em catálogo e que já foram lançados por ela antes. Ela fará relançamentos para comemorar também esses 100 anos.
Então, por exemplo, todos os filmes que a gente vai discutir aqui nesse episódio, na parte 1, menos o Noite de Cabiria, estarão em breve disponíveis em DVD para você comprar. Basta para isso você acessar a homepage da Versátil, versatilhv.com.br, que em breve terá informações sobre esse grande lançamento da Versátil Home Video.
Vamos todos aguardar e enquanto isso não acontece, você pode conhecer mais um pouco sobre a obra, a filmografia do Federico Fellini, ouvindo aqui o nosso cast. Tá beleza?
Galera, esse episódio já vai começar, mas antes a gente deixa aquele recadinho. Para achar a gente, basta procurar a nossa página filmesclassicos.com.br. Lembrando que a gente está em vários agregadores de podcast. Estamos no Spotify, temos um canal do YouTube e também estamos no iTunes. Basta procurar o nosso nome.
Podcast Filmes Clássicos. A gente tem um grupo e uma página no Facebook. Para entrar no grupo, você precisa mandar um inbox para Fred Sanjuro ou Alexandre Cataldo. E agora também a gente tem um perfil no Instagram. Só procurar a gente, Podcast FC.
Então galera chegou a hora aí falar do Federico Fellini, meu xará a gente pode chamar assim né Alexandre?
Se eu morasse na Itália... Bom, eu moro aqui no Fontana de Treve, é o nome do meu condomínio aqui. Opa, começou bem. Já posso me chamar de Federico. Já encontrou alguma Anitta, Eckberg ou similar por aí? Não, a fonte aqui é muito pequena, cara. Não dá para essas brincadeiras, não. Bom, hoje eu estou falando aqui do Rio de Janeiro, como sempre. Fred Almeida e lá de Blumenau fala Alexandre Cataldo.
E aí, tudo bom, gente? Beleza, aí um alô oficial. E a gente convidou para fazer esse episódio aqui, a primeira parte de uma série de dois episódios sobre o Fellini. A gente chamou, voltando aqui no nosso podcast, lá do blog Palavras de Cinema, o Rafael Amaral, fala jornalista de Jundiaí, não é isso, Rafael?
Exatamente, Fred, Alexandre, mais uma vez muito obrigado pelo convite, e falar de Fellini é sempre um desafio, e eu espero poder contribuir aqui com esses episódios. Beleza, tenho certeza que vai, obrigado aí pela tua presença mais uma vez, e vamos lá Alexandre, cair dentro lá daquela biografia, eu tenho certeza que você fez uma aí para o Fellini.
Tem uma história interessante aí. Como não, né? Como não? Esse é um diretor que dá para dizer que talvez o nome dele é mais famoso até do que os filmes dele. Vocês não acham?
Acho que tem muita gente que fala Feline, filme de Feline, Felineano. Tipo Godard também. As pessoas às vezes conhecem o nome do Godard, mas não necessariamente sabem citar um filme. Exatamente. Eu acho que é um caso dele. Ele é um cara que virou uma lenda mesmo, em vida ainda. Não precisou ter um revival da obra dele. Ele desfrutou disso e virou lenda. Com aquele estilo bem...
bem próprio, bem peculiar, assim que distinguem a ponto de chegar a ter esse adjetivo, o feliniano. Bom, mas esse camarada aí, o Federico Felini, ele nasceu na cidade de Rimini, uma cidadezinha pequena do litoral do Mar Adriático, uma cidade praiana e uma cidade que era meio balneário, recebia muito...
Muita gente de outros países, muito alemão, muito escandinavo na temporada de verão. Nasceu em 1920, no dia 20 de janeiro, ou seja, completando 100 anos. A gente está vivenciando o centenário de nascimento do Fellini.
E, bom, uma coisa que a gente tem sempre que deixar claro quando vai falar de Fellini, a gente até comentou sobre isso também quando a gente fez o episódio sobre o Otoimezzo, um episódio específico, e por isso até a gente vai deixar ele de fora dessa nossa série de dois agora, porque ele já está tratado lá, mas uma coisa que a gente sempre tem em mente é que, assim, o próprio Fellini admitia que não era para acreditar em tudo que ele falava em entrevista.
Ele gostava muito de inventar, gostava muito de sonhar e muitas vezes sonhava tanto e sonhar acordado, imaginar com algumas coisas que depois de um tempo ele já não sabia distinguir o que era realidade do que era sonho. Então tem a clássica história que ele contava.
quando ele tinha por volta de oito anos, ele fugiu da escola e passou um dia, ou alguns dias, sei lá, junto de uma trupe circense, que ele chegou inclusive a fazer pequeno serviço, dar banho em elefante, e coisa que foi desmentida pela mãe dele, quando ele já era consagrado, numa entrevista ele contou isso, a mãe dele...
falou, ah, eu escutei lá que você falou isso numa entrevista, mas isso não é verdade, você nunca fugiu, nunca foi pra um circo. Então, e ele próprio em outras entrevistas, ele próprio em outras entrevistas falava isso, né, não acredite em tudo que eu digo em entrevistas, sem contar que essa coisa do sonho, né, do onírico, do... era assumida por ele, chega a estar em...
vários filmes falas nesse sentido, se não me engano, no abismo de um sonho, tem uma personagem que fala assim, a verdadeira vida é aquela dos sonhos, algo desse tipo, é o que ele realmente acreditava, não era uma...
Não era uma jogada de marketing ou nada disso. Era como ele via a vida. Enxergava a vida. Essa cidadezinha dele. E essa vida provinciana vai estar em muitos filmes. Isso é um componente fortíssimo da obra dele toda. Ainda que se possa fazer aquela também clássica de extinção.
antes e depois do Otimeso, por exemplo, ou antes e depois do Adolte Evita, como preferir. Não sei se vocês concordam. Muita gente chega a falar que ele, no início, estava muito influenciado pelo neorrealismo, ou que eu, particularmente, não acho que seja tão verdade assim. Eu acho que ele vai gradativamente mudando. Mas a verdade é que, já no início, ele não era muito amarrado com isso, não. Ele, como diretor, não.
Mas como escritor, acho que não dá para separar os dois. Escritor e diretor, ele como escritor sim. Já que ele fez roteiro do Paisá, fez roteiro do Roma, Cidade Aberta. Naquele período pós-guerra, que não foi exatamente ali que ele começou a trabalhar no cinema. Já tinha começado um pouquinho antes, em 1942.
Até por ajuda de um grande amigo dele, que era um ator consagrado, já o Aldo Fabriz, comediante. Ele conseguiu um trabalho para ele, para trabalhar no roteiro de um filme, aquele avante de aposto, de um cara chamado Mário Bonar. E dali ele começou, e naquele, você veja, nesse momento ele está fazendo os famosos Telefone Bianco, os filmes escapistas ainda.
Depois disso, em 1942, 1943, eu acho que ele escreve uns quatro ou cinco roteiros, inclusive eu acho que algum deles não acreditado nesse período. Depois disso, o cinema, por um período de um, dois anos na Itália, ele fica praticamente estagnado, com a Tinetità bombardeada, sendo ocupada como abrigo.
Ou seja, para. E aí, quando ocorre a liberação de Roma pelos aliados, pelos americanos, em 1944, a partir dali, quem quer retomar o trabalho dentro do cinema, quem quisesse trabalhar fazendo cinema, com pouquíssimos recursos, faltava energia, faltava filme, película para filmar.
não tinha estúdio, não tinha instalação para filmar, quem quisesse fazer cinema teria que filmar em locação, teria que ir para a rua, com poucos recursos, pouco dinheiro para contratar atores. Não tinha dinheiro para contratar atores. Daí surge o neorrealismo. É muito mais do que uma questão estética, uma necessidade. Uma estética ou uma...
uma proposta bem demarcada era muito mais uma necessidade. Inclusive o próprio Fellini depois diz que em muitos casos até isso era usado meio como desculpa para a falta de qualidade mesmo, para a falta de criatividade e tal. Mas a verdade é que ele nunca se alinhou muito. Um filme que, por exemplo, muita gente cita como um Fellini ainda...
Neorrealista, que é o... A gente vai falar, vai começar destacando ele daqui a pouco, que é o Iviteloni, os Boas Vidas. Os Boas Vidas. Esse filme foi criticadíssimo na época, justamente...
por se afastar do neorrealismo. Então hoje muita gente diz que ainda é um feline neorrealista, mas ali ele já na época foi criticado por isso. Tanto é que depois ele aceita fazer aquele episódio lá no Lamorenti, justamente para mostrar que conseguiria fazer um filme neorrealista e também não vai conseguir. O episódio dele começa meio neorrealista e depois desanda para outra coisa também.
Mas essa, voltando lá atrás, ele traz esses traços pessoais dele da infância para os filmes, como, por exemplo, o cinema Fulgor que está em Amarcord, um cinema que existia mesmo lá em Rimini, que ele frequentava, foi onde ele começou a ver filme, ter contato com...
E vale destacar que ele assistia, entre os cineastas de cabeceira dele nessa época, do fulgor, era justamente Chaplin, Howard Lloyd e os irmãos Marx, quer dizer, eram os gênios da comédia. O que já dá uma ideia do que a predileção e o estilo que ele adotaria depois. E um fetiche que ele tinha era conhecer a Mae West. Ele cita isso várias vezes na biografia dele.
que ele vai lembrar da M.I.O.S. na hora de escolher a personagem que vai fazer, a Silvia lá de Dolce Vito, uma mulher exuberante, de seios fartos, aquela coisa, enfim. É a Gradisca também, do Amar Kord, né? Ah, é aquela prostituta, né? Não, não, a Gradisca é a outra, é a que vai se casar com o militar, com o fascista. Ah, sim, sim, isso.
Enfim, ele tem esse primeiro contato, vendo filmes mesmo, mas o fato é que ele, como muito frequentemente acontece com a juventude mais criativa, mais ousada dessa cidade, sem muita opção, sem muito futuro, ele vai sair da cidade, ele sai ali com 17 anos, vai primeiro para Florença, para escrever.
um semanário satírico, ele fica pouco tempo, quatro meses, volta para Roma, aliás, desculpa, volta para Rímine, mas não vai conseguir ficar lá muito tempo, então ele convence a mãe dele a permitir que ele vá estudar, ele convence meio que mentindo para ela que vai estudar direito em Roma.
E ele até se inscreve na Universidade de Roma, mas ele não vai nas aulas e tudo. Na verdade, ele queria ir para Roma. E aí, segundo ele, é quando ele começa a viver. Seria o segundo nascimento dele quando ele chega em Roma, ali por volta de 39, 40. E ele vai, ele adora desenhar, né? Então ele vai trabalhar...
primeiro por algumas semanas no jornal Hipópolis, depois ele entra numa revista satírica, Marca Aurélio, onde daí ele começa a publicar seus cartuns, pequenas histórias, também começa a trabalhar para a rádio, escrevendo peças radiofônicas, e também começa a escrever gags, cenas cômicas para...
para alguns filmes, que são esses filmes de 1942, que ele começa a escrever até por ajuda do Aldo Fabriz. Nessa época também, em 1943, é quando ele conhece a Giulietta Massina. Foi até uma coisa interessante, ele tinha escrito uma...
uma peça, um programa radiofônico, todo domingo à noite, era transmitido, que era o Tico e Palina, uma dupla cômica, e a voz da Palina era de uma tal Julieta Mazina, que ele já conhecia a voz dela, mas um belo dia foram apresentados, e, enfim, a mulher que encarnava aquela personagem criada por ele, escrita por ele, acabou...
conquistando ele, se casariam meio que na corrida, nas pressas, em 43. A única esposa dele. Se casariam em um período de guerra, uma sensação de urgência, de ter que definir as coisas. Provavelmente apressou, se casou com a Macina, que eu acho que é uma personagem fundamental na carreira dele. Não dá para falar da...
da carreira do Fellini sem falar dela até porque ela foi fundamental não por ter tido bons papéis mas graças ao desempenho dela e muitas vezes a ajuda dela ele realmente conseguiu chegar no auge dois dos grandes filmes dele são estrelados por ela em papéis tido bons papéis
marcantes, inesquecíveis. Eu diria que o Julieta dos Espíritos também é inesquecível. Pelo menos no meu caso, eu acho brilhante. É, esse eu ainda não vi. Vamos falar no segundo episódio, é um filme que eu vi há muito tempo, que era o Rever. Brilhante. Reservou o Rever para fazer o segundo episódio. Ele também trabalha fazendo entrevistas de atores em sets de filmagem, nessa época.
E é importante ter sempre em mente essa coisa que ele absorvia pessoas que ele conhecia no dia a dia, situações, tudo isso passava a fazer parte de um universo que ele naturalmente usaria mais à frente. Por exemplo, nessa época que ele fazia entrevista de atores, chegou um vigarista lá para ele, oferecendo para ele comprar diamantes para um preço lá bem módico.
para ele vender para os astros, quando ele fosse fazer essas entrevistas, tivesse acesso a essas pessoas, aí ele revendia para os astros, ele desconfiou, não comprou. Depois soube de um outro repórter lá, que foi fazer esse negócio, o cara acabou perdendo emprego, quase foi preso, que os diamantes eram falsos, naturalmente.
E isso ele lembraria depois, lá na frente, em 1955, quando ele vai fazer aquele filme Atrapaça, que foi um filme até mal sucedido dele e tal, mas essa situação de ter que lidar com vigaristas, não foi só esse caso, isso era algo corriqueiro naquele período do pós-guerra, o pessoal dando nó em rabo de cachorro para conseguir sobreviver, fazendo o que era possível.
Esses pequenos detalhes autobiográficos também são marca na filmografia dele. Cada filme você vai apontar alguma coisa. Você está falando da saída dele de Rimini para Roma basicamente é o final do Evitemone. Sem dúvida.
identificação total do próprio Fellini com o personagem do Moraldo, que é esse que sai. Franco Interleng. Interleng? Interleng. Interleng. O Fellini também, essa coisa do desenho que a gente já falou, isso era fundamental pra ele. Ele achava que ampliava a capacidade de observação, quando o cara tinha esse olho pro desenho. Então...
Toda a carreira dele, ele aplicou essa máxima de que ele não escolhia atores necessariamente pela voz ou pelas outras características, mas era o cara que se adequava ao desenho, à imagem que ele tinha feito. Não é no 8,5 que o personagem Marcelo Mastroianni faz os desenhos também? Acho que sim. Se não me falha a memória, ele ficava desenhando também.
Ele fala isso, por exemplo, quando ele encontrou pela primeira vez, pessoalmente, a Anita Ekber, que ele, aliás, ele viu, acho que uma entrevista dela, uma foto dela, aí falou, não, é o meu desenho que tomou vida, né? Porque era a imagem que ele tinha daquela personagem, né? Então, é outra característica dele, né? Dessa coisa visual, né? E foi por causa dessas caricaturas, né? Que ele...
acabar da guerra e como não tinha produção cinematográfica, para sobreviver ele abriu uma loja, ele abriu uma lojinha para fazer caricaturas, numa rua movimentada lá, que era muito frequentada pelos americanos, que estavam os soldados americanos lá da ocupação, e aí começou a fazer caricaturas lá junto com um amigo, até que um belo dia entra na loja lá um...
um cara que ele conhecia mais ou menos do cinema, mas que era o senhor Roberto Rossellini, justamente para convidá-lo a colaborar no roteiro de Roma Cidade Aberta, do filme que viria a ser o Roma Cidade Aberta. Ele ficou um pouco decepcionado, porque com o andamento da conversa ele descobriu que, na verdade, o Rossellini não foi atrás dele.
pelo talento dele como roteirista, mas porque ele sabia que ele era muito amigo do Aldo Fabriz, e ele queria, o Rosalind queria o Aldo Fabriz no filme, naquele papel do padre, vocês vão lembrar, né? É um sujeito meio bochechudinho, meio gordinho, enfim. Mas um cara que tinha feito já muito sucesso, mas sempre mais vinculado a comédias, assim, né? E ele ficou meio chateado, mas tudo bem, né? Vamos embora. Aí chamou o Aldo Fabriz, que não gostou nada do papel, né?
o filme mais pesado, mas acabou aceitando, né? E aí, com essa aceitação, ele ficou confirmado no projeto, né? E, inclusive, fez também o filme seguinte, né? O Paisar.
também trabalhando no roteiro, o filme seguinte do Rossellini, em 1946. Foi. Pegando a carona que o Fred disse antes, eu acho que o Fellini neorrealista eu vejo também mais nos roteiros do que no Fellini diretor. Eu acho que talvez o Luzes, o primeiro filme dele, Mulheres e Luzes, tem um pouquinho, um pezinho, um pouco mais um neorrealismo, mas ainda assim eu acho que não vejo muito ele como um diretor neorrealista, não.
Eu acho que, inclusive eu estava lendo, eu não me lembro onde foi agora, que mais do que neorrealista, o Fellini era um cara muito ligado à cultura de massa, né? E eu acho que isso causava muita confusão, porque ele abordava muito nos seus filmes as figuras da cultura de massa da Itália, né? Os pequenos, as pequenas pessoas e tal, e muita gente confundia um pouco isso com o neorrealismo, eu acho. Então eu não vejo tanto neorrealismo, não.
Eu andei lendo também um livro onde o autor falava isso. Ele citava muito, no caso, o La Estrada. Mas que os personagens do Fellini...
eles não eram os típicos homens e mulheres que a gente está acostumado a ver nos filmes do neorrealismo. São aqueles personagens que representam a população italiana da época. Então, ele falava isso em relação ao Zampano e a Giosomina, que são personagens atípicos, se você for fazer essa comparação. Agora, eu acho que ele...
Esses primeiros filmes, como você estava falando, eles são mais próximos realmente do neorrealismo. Eu acho que a grande característica dele, do Fellini, é que ele vai, aos poucos, na obra dele, inserindo esses elementos de sonho. Então, ele parece que muitas vezes o filme...
Principalmente nesse início, ele é ancorado na realidade, mas ele coloca alguns elementos de sonho. Aí quando a gente for falar dos filmes, eu comento algumas coisas assim. É, não, eu entendo, e um pouco sim, mas eu tenho muita dificuldade de ver até já no próprio Mulheres e Luzes, por exemplo.
a questão do neorrealismo eu sei que isso não precisa ser 100% mas essa coisa por exemplo ele praticamente nunca trabalhou com ator amador ou não profissional exceto lá naquele episódio que é o agência matrimoniale do do Amor Entitar em que ele tem o ator principal ator mesmo né
e cercado de amadores. Agora, no próprio Mulheres e Luz, você vê uma trupe de teatro Vauderville,
de avante espetáculo como eles chamavam lá na Itália em busca de condições para produzir, você está falando do meio artístico então até escolha por falar do meio artístico já difere um pouco o abismo de um sonho então nem se fala, o abismo de um sonho é uma comédia é claro
E aí, de novo, é também o mundo artístico, porque ele está falando daquele... Teatro de revista, né? É, do fotorromance. Fotorromance, exatamente. Das telenovelas, né? Essas novelas são quadrinhos fotografados. Eu acho que é quase uma analogia que ele faz com o próprio mundo do cinema, da ilusão. Sim, sim, totalmente.
Totalmente. Até porque os caras para fazer as fotos, eles quase que recriam ali, eles vão para a locação, eles reproduzem como se fosse uma imagem só para tirar foto. Ele era muito fiel aos amigos, então ele insistiu em ter nesse filme o Alberto Sordes, que não era um cara muito popular nesse momento, ele viria a ser ainda, ele era considerado um canastrão mesmo, e era um pouco mesmo.
E até é engraçado que ele bateu o pé para o Alberto Sorda e para o Leopold Trieste, que também não era ator ainda, ele era escritor, Leopold Trieste. Tem uma história curiosa aí do Leopoldo, né? Eu só ia citar que você falou Leopold Trieste, eu lembrei. Lembrando que o Leopold Trieste é o padre do filme Cinema Paradiso. Padre do Cinema Paradiso, ele está no Poderoso Chefão 2. Exatamente, está no Poderoso Chefão 2 também.
É o cara que quer expulsar a mulher lá por causa do cachorro, né? Não poder deixar fuga. Ele é um daqueles caras que é um rosto frequente, que quem vê muito filme, por exemplo, italiano...
entre 50 e sei lá, 80 vai ver ele em algum filme sabe como o Fellini convenceu ele a virar ator o Fellini falava pra ele, olha eu acho você um clown perfeito chamava os atores as pessoas que tinham potencial de serem atores de comédia, ele chamava de clown de palhaço mesmo ninguém mais clown do que a Julieta né
Do que a Julieta, né? Mas ele, pro Trieste, ele falou o seguinte, olha, Leopoldo, eu sei que você tem aí um problema de... Você tá reclamando porque não tem oportunidade de conhecer muitas mulheres, tem um problema sexual, não sei o quê. Porque pensa o seguinte, se você virar ator, você vai ter toda hora uma maquiadora maquiando você, vai ter uma mulher cuidando do seu cabelo, vai ter outra ajeitando a gravata. Então, assim, você amplia...
as suas chances de conhecer mulheres. Eu vejo o Leopold Trieste ele é praticamente uma continuação do personagem do Pepino de Filippo ali do Mulheres e Luzes, que é um cara que está no Boccaccio também. Principalmente no Boccaccio lá que ele faz o...
com o doutor Antônio, as tentações do doutor Antônio, no episódio do Fellini. É o típico cara meio abobalhado, meio salame. Abobalhado e castrado mesmo. Castrado, bobo. Como é que se fala? Pela própria educação religiosa. Um cara todo bitoladão. E ele é exatamente isso no Abismo de um Sonho. No Abismo de um Sonho, ele é o corno. Ele é o corno.
É o cornudo italiano, né? É ele que vai repetir esse papel no divórcio à italiana depois do Jeremy? Não lembro se é ele. Não, acho que não é ele. Não, não é ele o cornudo, né? No que eu lembro, não. Posso estar enganado.
Mas eu acho que, assim, você falou aí, são dois filmes, já que a gente está comentando rapidinho sobre esses dois filmes, Mulheres e Luz e Abismos e Sonhos, são filmes muito semelhantes. Até essa busca do personagem, que um é um personagem masculino, que está iludido com uma figura feminina, então ele abandona até a personagem da Julieta Massina, que é uma atriz.
Para perseguir essa ilusão. Para depois voltar para a personagem da Massina. E aqui é o contrário. É a mulher do Leopoldo Trieste. A personagem da mulher é dele. Que corre atrás do tal do Sheik Branco. Que é essa figura do Alberto Sordi.
Mas são filmes muito semelhantes, né? Só corrigindo aqui, ó. Eu falei... Ele tá, sim, no Divórcio Italiano, tá? Ele faz o papel do Carmelo, mas ele não é o cornudo. E ele tá no Seduzido e Abandonado, que ele tem um papel maior. E também é o excelente do Jeremy, também.
ele, assim, só lembrando a gente estava falando do começo sério o começo mesmo foi lá em 42 mas o começo sério mesmo Cocô escrevendo o Roma Cidade Aberta e o Paz lá antes de começar a dirigir ele escreveu diversos outros roteiros principalmente ali tanto pro Rossellini, quanto pro Alberto Latuada e pro Pietro Germi ele está em vários como os
Por exemplo, o Sem Piedade, o Santos Apietar, de 1948, que é um filme do Latoada, e foi o primeiro filme da Julieta Massina, que mesmo sendo coadjuvante nesse filme, ganhou o Nastro D'Argento, um prêmio importante no cinema italiano, por atuação, e fez outros filmes para o Latoada, a ponto de ter virado sócio do Latoada, quando o Latoada resolveu abrir a sua própria produtora. Então eles fundaram a Capitolium, que fez...
o único filme, o primeiro e último filme da Capitólio, que foi o Mulheres Ilusos, justamente, que foi um fracasso, perderam todo o dinheiro, o Fellini e o Latuada, que foi, inclusive, ele contracena o que ele, esse filme, o Pepino lá, a mulher lá é a Carla del Podio, que está em vários filmes do Latuada. A esposa do Latuada.
A Julieta Massina já era esposa do Fellini, então foi um filme de casais ali. Os dois diretores casados com as duas atrizes. Ainda fez para o Rossellini, o Francisco Aralto de Deus.
trabalha inclusive como ator num segmento de um filme do Rossellini que ele escreve o roteiro e trabalha como ator O Milagre e o Miráculo tem lá um feline de cabelo tingido de louro nesse filme é esse com a Ana Maianni, não é? isso, a Ana Maianni é uma camponesa que
acha que ele é São José. Exatamente. Inclusive, vale lembrar que o Latoada, ele dirigiu um filme que eu já vi, que é bem interessante também, que é chamado O Bandido, que também é com a Ana Maiane. Isso, é de 46, é com aquele cara que vai estar num filme que a gente vai comentar hoje, que é o... e estava numa gravação que a gente fez ano passado aí, de uma Dicas Triplas, que é o... um cara... era muito...
Ele era muito popular, um ator muito popular, que eu estou esquecendo o nome dele agora. Espera aí, vamos resgatar aqui. Lembra? Aquele ator lá do... Qual filme? A Medeo, você é esse? A Medeo, isso. A Medeo Nazari. A Medeo Nazari. Ele faz o ator no Noite de Cabira. Ele faz o Ildivo lá, o Ildivo. O galã, né? O galãzão. A Medeo Nazari é o especialista em roubo de diamantes lá no...
Os Sicilianos, não sei se você lembra que a gente comentou. Ele vem contra o personagem de Agabã. Ano passado. Lá em 2019, lembra? Lá em 2019. Agora esse Mulheres e Luzes, já que a gente está falando de atores aí, tem duas curiosidades. Passar rapidinho. Não sei se vocês reconheceram o trompetista do filme. É o John Kitzmiller.
que é o... Eu achei curioso que ele tá no primeiro filme do James Bond, ele tá no Satânico Doutor No, ele é o Quarrow, que é o cara que recebe o James Bond lá na Jamaica e tal. E tem também uma atriz brasileira, né?
A Van Jaurico, que é uma mulher que fez o cangaceiro lá do Lima Barreto, que é um filme brasileiro bem popular também. Ela é aquela mulher que... Ela é aquela cantora de rua, ela canta uma música popular brasileira. Ela fala português ali naquela cena. Fala português, isso. Bem interessante isso, no primeiro filme dele. É verdade. Agora, Abismo de um Sonho tem uma coisa que não dá pra deixar de falar, que é uma...
primeira entrada da personagem da Kabiria. Exatamente. Inclusive, essa cena e essa personagem é que inspirou o Noite de Kabiria. Foi daí que ele começou, ele teve a ideia para escrever o roteiro depois do Noite de Kabiria.
cena curtinha, né? Ela aparece lá e... E outra coisa também que a gente não pode deixar de falar do Abismo de um Sonho é que começa ele uma colaboração com três caras aí que vão ser frequentes, principalmente nesse período que a gente vai comentar, que são os roteiristas Túlio Pinelio e Annie Flyano e o compositor Nino Rota, né? Nino Rota.
Na verdade, o Pinielli e o Flayano já trabalham no Mulheres e Luzes também. O Pinielli é um cara que já escrevia... Mas o Abílio de um Sonho é um filme mais do Fellini, né? Mesmo, né? Ele diz que o Latuada foi muito generoso convidando ele pra co-dirigir e, enfim, mas que no final cada um achava que o filme era mais seu, mas enfim.
Agora o Pinelli já escrevia pela toada e o Flyano foi alguém que o Feline se lembrou lá da época daquela revista Marca Aureli e tal, ele chamou pra ajudar também. Agora o Nino Rota começa aí e vai até a sua morte, até 79, fazendo as trilhas do Feline. Agora uma coisa interessante desse filme aí, da participação e da relação com a Aureli e tal,
da Julieta com isso tudo, é que o produtor desse filme, pelo menos o produtor inicial, um tal de Rolvere, ele não gostou da ideia seguinte, que era justamente o La Estrada, que era a ideia do Felipe fazer o La Estrada na sequência. E esse produtor não... saiu fora porque achou que era um filme pesado demais, até que ele conseguiu um outro cara, chamado Pegoraro.
pra fazer o La Estrada, mas mesmo assim esse cara ainda falou, não, mas não agora, vamos fazer um outro filme mais leve antes, e aí ele vai vir com a ideia do Boas Vidas, né? E outra coisa, além de não fazer já, arruma uma outra atriz pra ser essa Geosomina, porque a Julieta Massina não tem condições. E aí ele conta que, ele conta que depois que, isso ainda durante a rodagem do...
do Sheik, do Abismo de um Sonho. Depois que ele viu ali aquela pequena cena da Julieta, ele se convenceu, esse produtor aí, que poderia ser a Julieta mesmo, lá na frente, para fazer o...
O papel, né? Na noite. Não, pra fazer o papel da Geossomina na estrada. É porque acho que a grande questão aí é que achavam a Julieta Máxima muito velha pro papel da Geossomina, porque teoricamente a Geossomina seria uma adolescente, uma menina, uma adolescente, que tava sendo vendida por um cara, né? Ela era um ano mais nova do que o Filipe 21, então ela já tinha ali seus 33 anos, né? Exato. E eles queriam uma pessoa mais que um cara de adolescente, né?
Então vamos para o Boas Vidas, que é um dos filmes dos quatro que a gente escolheu para destacar hoje é o primeiro, filme de 53. E eu acho que ele é celebrado como o primeiro grande filme dele. É, sem dúvida. Eu acho que é o filme que projetou ele internacionalmente. Por ter ganho também o prêmio em Veneza, e teve uma distribuição internacional em seguida.
Eu acho que é um dos filmes mais pessoais. Mais engraçados. Mais autobiográficos. É um filme que eu acho que guarda bastante relação com a Marcotti depois também. É, com o próprio Ladotevita, porque parece até que a ideia é que, aí já estou pulando para o final, que eu já comentei,
Aquela história do personagem do Moraldo. Moraldo Nelatita. Ele sairia, teria um segundo filme que ele chegou a escrever um draftzinho do roteiro, que seria justamente isso, Moraldo na cidade, que depois ele utilizou como outra ideia para desenvolver o Ladotevita. Quer dizer, ele sai da cidadezinha pequena ali, e qual é a cidadezinha que eles moram no Ivitelone, eu não lembro.
Não é Rimini, né? Não é mencionado. É pra ser uma dublê de Rimini, né? Seria a vida pacata em uma cidade litorânea, mas tem um outro nome que agora eu não me recordo também. Quer dizer, não fica muito claro, mas a ideia é que ele vá pra Roma, ele vai pra cidade grande.
Eu acho interessante, isso aí é admitido, isso aí não é especulação de que o personagem do Marcello Rubini, o Marcello Mastroianni lá do Ocevita, seria realmente essa sequência, e ele chega a dizer que até o Guido, lá de Otto Emezzo, também daria pra ser considerado uma sensação, que ele só não repetiu o nome do personagem.
muito medo de ser Marcello também, porque ele queria diferenciar bem os personagens dos dois filmes, queria ficar bem marcado, até porque ele tinha essa mania mesmo de repetir o nome do ator no personagem, no Vitellone, isso aí, dos cinco principais ali, três são assim, né, o Alberto Sordi é o Alberto, o Leopoldo Trieste é o Leopoldo, e o cantor lá, que é o Ricardo Fellini, irmão dele, né.
É o Ricardo. É o Tenor, né? Ele era cantor mesmo, né? Ele era cantor, mas o Felim diz que o problema dele é que ele não tinha nenhuma ambição. Diz que ele teria condição de virar um cantor lírico, realmente, cantor de ópera profissional, mas ele não tinha a menor vontade e aquele que está no vitelona ali é mais ou menos ele, assim, se contentar em cantar em festas e tal. No concurso do início é ele que está anunciando o concurso no início do filme.
Agora aí o pessoal, os produtores reclamaram bastante do Fellini, porque eles diziam que o filme não tinha uma estrela.
E que o Felino estava escalando ali os mesmos atores de fracassos anteriores, né? Estava se referindo ao Alberto Sord e o Leopoldo Trieste. E que eram amigos, né? Era uma turma de amigos, né? É, ele bancou os caras. Ah, e só não foram quatro com nome, igual porque o ator que ia fazer o Fausto, né? O Fausto era um ator Fausto, alguma coisa, que acabou sendo mudado de uma hora e entrou o Franco Fabrizzi, né? Franco Fabrizzi, mas parece que para o...
Para o Fellini meio que dar um calabouca nesses produtores, ele teria, inclusive, contactado o Vitório de Sica. E o Vitório de Sica faria a parte que é do Sérgio Natale. Aquele ator homossexual, né?
Isso, aí quando ele explicou pro De Sica que o personagem tinha traços homossexuais, não sei o que, e se ia ficar claro no filme, o De Sica pulou fora porque ficou com medo de ser marcada, né? O engraçado é que o ator que aceitou fazer o Maierone lá, ele... não disseram pra ele que era assim, né? Então... Só depois de ter filmado é que ele começou a ouvir as conversas, não sei o que...
E aí ele... Já tava na lata. Aí explicaram pra ele, ficou meio assim, mas no final ele concluiu, é, o personagem ficou meio ambíguo, mas... Não tinha. O filme é tão autobiográfico, na partida do Moraldo, né? Tudo bem, né, que os filmes do Felini, outra marca registrada é a dublagem, né? E ele adorava isso. Ele dizia que dava liberdade pra ele dirigir o... E aí
o visual, os movimentos, sem se preocupar com captação de som, depois ele dava a voz que ele quisesse. De forma geral. Inclusive isso está lá no Noite Americana, você lembra que a personagem da Valentina Cortese não consegue decorar as falas? Sim, sim. Fala, vamos fazer... Eu posso ficar só falando números, que nem eu fazia com o Feliz. Como eu fazia com o Feliz. E ele fazia isso mesmo, e ele admite que fazia isso mesmo as vezes.
Ah, mas os diretores de todos os filmes eram dublados. Mas ele próprio, Fellini, dubla aquela fala final do Moraldo no trem, na janela do trem, quando ele fala adio Guido, para aquele garotinho lá, o garoto, né? Sim, o que fica, né? Aliás, eu acho que aquele garoto ali também tem, eu vejo relação, fiquei pensando com a menina lá, a Paola lá do...
do lado do Tevita, né? Termina o filme, né? Os dois, assim, são personagens meio que que estão ali ofertando uma uma humanidade uma humanidade pra um cara que tem um mau caminho, né? É, mostrando uma chance de redenção, né? Pra um cara que tá meio perdido na vida, né?
Você quer ver outra conexão? É o final do Noite de Cabília, que ela é cercada por adolescentes cantando e tal, são pessoas jovens, parece que o jovem para ele está dando simbolismo da esperança. Penso que o moral da ilha é salvo.
Ele se salva, ele age. Os outros estão meio adormecidos. O Moraldo vai começar a viver. Interessante esse link com a Doce Vida, porque eu também já li, e achei bem interessante essa colocação, de que o personagem do Moraldo, que está indo embora, do Vitelloni, ele é o Marcelo Mastroianni e a Doce Vida, o cara que vai para Roma. Foi isso que a gente comentou.
ele teria escrito até um roteiro que seria isso mesmo, né? Mas ele acabou... Moraldo Nelatita. É. O Franco Interlengue, que é quem faz o Moraldo, né? Que é até um cara que faleceu aí recentemente, há poucos anos. Não sei se vocês viram, devem ter visto, mas é um filme bem interessante do De Sica, né? O Xuxa. O Vítimas da Tormenta. Isso. Vítimas da Tormenta. Ele é um daqueles dois adolescentes lá. É, não. Ele é o... Acho que o principal, né? É.
No final tem o lance do cavalo, né? Exatamente. Agora, o Fellini, assim, né? Esse filme, depois de dois fracassos, era decisivo, né? Se viesse mais um fracasso, ele mesmo fala, né? Provavelmente, meus filmes teriam ficado em dois e meio. É. Mas... E é um filme que, realmente, eu acho que os produtores deram uma chance pra ele, né? Acho que...
De uma forma geral, já comentei aqui, estavam insatisfeitos com a escolha dos atores. O título também desagradou, né?
Porque o título e vitelone seria algo como... Seriam os bezerrões. Os filhos de mamãe, né? O pé da letra seria os bezerrões, né? Os bezerrões. É, porque vem de vitela, né? É, o pé da letra, né? No fundo são esses filhos de mamãezinha, né? Que os caras de 30, 40 anos que não saem...
Não saem de casa, vivem a boa vida ali e tal. Não desmamou. Bezerrão que não desmamou. Eu já vi uma... Eu já vi uma outra definição que vitelone significa os barrigas gordas. Também tem essa definição aí, né? Mas a tradução realmente é o Bezerrão. Mas eu acho que a ideia é essa aí, né? Eu acho interessante esse filme. Eu lembro que quando eu vi a primeira vez, que é até um pouco confuso,
Porque o personagem do Franco Fabrides, que é o Fausto, ele se casa na marra, que engravidou a menina, e vai sair da cidade. E aí no período que ele está fora...
o grupo continua sendo de cinco, né? Porque tem um outro cara lá, meio agregado, que fica sempre junto, né? Então, um dos planos mais bonitos desse filme, que é eles, assim, num pier, à beira-massa, você vê que tem cinco caras ali, mas só que o...
O Fausto tá morando fora. É o outro, né? É o dublê do Fausto. Essa sequência eu acho muito interessante, porque tem aquele diálogo, eu acho que é o... Não lembro qual deles que fala, eu acho que é o Albert Sord que fala, né? Se você me desse 10 mil francos, 10 mil liras, não lembro, eu pularia aqui nesse oceano, né? Mesmo estando frio.
Esse diálogo eu acho muito interessante Porque já envolve essa questão Do oceano, que é uma outra questão Muito cara pro Fellini Essa questão do oceano como uma saída De possibilidade, como uma mudança de lugar Como que se ao mesmo tempo Aqueles caras não querem ir embora Porque eles estão ali vivendo
nas saias da mãe ainda, né? Como o Vitelloni. Mas, ao mesmo tempo, tem um certo desespero de estar parado no tempo ali, né? De estar sem fazer nada. Eu acho que o filme representa isso bem. E vamos lembrar aqui, né? A questão do oceano, do mar, ela vai aparecer em vários filmes do Fellini, né? Vai aparecer na estrada, e começa e termina no oceano. E, obviamente, no final do A Doce Vida. É, Laná Vevá também, né? Laná Vevá, Amarcor também.
Ele foi um pouco criticado, como já tinha falado, porque a imprensa estava sempre esperando filmes na linha neorrealista, e acusaram ele de botar muito sentimento nesse filme, isso irritou um pouquinho ele.
e irritou ele a ponto de pensar, bom, agora eu vou mostrar para esses caras que se eu quiser eu faço um filme realista. Então, ele aceitou o convite do Cesare Zavattini, para fazer um dos seis segmentos daquela antologia lá, O Amor em Titar, ele dirige o quarto segmento, que é o Agência Matrimonial. O filme...
Tem um único ator profissional, né? Que é o Antônio Tifariello, né? Que é um cara que depois até viraria documentarista e tal. E os demais eram padrão neorrealismo, né? Amadores mesmo. É, tem uma história curiosa aí que eu li, né? Porque parece que era um projeto aí, como você falou, do Cesare Zavattini, de fazer tipo um filme que servisse como se fosse uma peça jornalística, né?
Seria algo bem quase... Documental mesmo. É, próximo do documentário, é isso que eu ia falar. E aí ele pensou, bom, vou reunir vários diretores que vão dirigir não atores na linha do neorrealismo, com histórias que seriam reais. E aí parece que o Fellini enganou o Zavattini.
porque veio com essa história aí do... Eu não vi o filme, tá? Se via, não lembro, mas parece que era agência matrimonial, né? Um jornalista era uma agência matrimonial, ele se passava por um cara que queria casar, né?
Só que ele queria conseguir uma mulher que aceitasse casar com lobisomem. Não, é assim. Ele é um jornalista que está escrevendo um artigo sobre as agências matrimoniais. Então, para conseguir entrar lá e ter informação, ele se passa por um cliente, mas não exatamente para conseguir uma noiva para ele. Ele inventa. Na verdade, ele inventa na hora. Ele vai meio despreparado, então ele inventa na hora uma história. Fala, é um amigo.
Um amigo meu, que tem uma doença, vive isolado, mas é um cara muito rico.
é um cara muito rico e não sei o que, mas ele precisa de alguém que cuide dele, mas é um cara que às vezes tem uns surtos, ele sobe doença tal, e aí aparece uma menina, né, depois no dia seguinte a dona da agência liga, né, uma menina, mas uma menina muito inocente e, assim, sofrida, né, sofrida mesmo, daquele tipo assim que não tem muito, não vai...
perdedor, assim, né, que não sabe que não vai conseguir um casamento com ninguém, então, enfim aceita qualquer coisa pra casar e ele leva ela pra passear pra explicar tudo, né porque a dona da agência não tinha explicado exatamente e
E ele espera, na verdade ele inventa uma história tenebrosa assim, só para estar ali e entrevistar, para saber também o que a mulher espera de uma coisa assim, mas ele nunca queria querer fazer um convite que alguém pudesse aceitar, porque ele não tinha ninguém para casar com a mulher mesmo. Então ele fala uma coisa bem assim para a mulher desistir, só que para a surpresa dele a mulher não desiste, porque ela está tão desesperada para conseguir qualquer casamento. Que até com o lobisomem ele ia casar. Aí ele...
Mas a conclusão dessa história toda é que parece que ele contou essa história para o Zavattini e falou que tinha acontecido. E o Zavattini acreditou, então ele conseguiu encaixar uma história que não tem nada a ver com o realismo. Para você, Fred, que pelo menos como eu, não sei se o Rafael também sofre dessa doença, que é o seguinte, a gente vê um rosto num filme e depois... Porra!
Essa é aquela pessoa que fez uma ponta lá no outro filme. Enfim, essa menina desse filme, ela depois trabalha de novo no Lastrada. Ela faz a freira. Aquela freira que tem algumas cenas ali com a Geossomina. Que chama ela para ficar no convento. Isso, isso. Ah, fica aqui e tal. Isso, pelo visto deu certo, apesar de ser amadora.
Conseguiu uma pontinha. É, mas ele diz que a história acabou que deixou de ser neorealista, porque virou quase um filme de terror. Esculhambou o filme do Zabatino. Mas tá bom. Vamos pro próximo aí? Mas aí ele vai, né? Pro Lastrada, né? Eu acho que...
Eu tenho muita dificuldade de escolher entre esses quatro que a gente vai destacar hoje qual que eu prefiro. Eu gosto muito de todos. É difícil mesmo. Eu não sabia que eu gostava de todos. Precisei rever. Todos achei. Eu acho que como produção gigantesca o lado do Utivita sem dúvida é maior, mas acho que todos são muito bons.
Esse realmente fez dele um popstar no mundo. Ele e a Julieta, fez deles realmente celebridades.
deu Oscar em 56. De filme estrangeiro. Com uma defasagem, deu Oscar de filme estrangeiro. O Fellini mesmo concorreu a 12 Oscars. Nunca ganhou nenhum. No fundo, ele ganhou... Só o honorário, né? Ele só ganhou o honorário no final, em 93, sei lá. No ano que ele morreu, 93. No ano que ele morreu. Só que ganhou alguns prêmios de filme estrangeiro, que não iam para ele, iam para os produtores.
Mas continue. E tem uma questão também, a Estrada da Vida foi o primeiro filme a ganhar a categoria de estrangeiro, porque a categoria não existia, né? Ela foi criada, aí o Estrada da Vida ganhou, e no ano seguinte o Fellini ganhou de novo com A Noite de Cabira, ele ganhou duas vezes em seguida. Foi. Eles já vinham premiando ali, meio que extra-oficialmente, né? Até o Vítimas da Tormenta é um filme que ganha um prêmio especial. A Shomon também. A Shomon também, é.
agora o nesse filme ele começa trabalhar com um diretor de fotografia que vai fazer vários com ele, que é o Otello Martelli principalmente o lado do Tieto, é o mais importante o cara veteraníssimo e pô, esse filme a gente podia fazer um episódio sobre ele, que tem tanta coisa interessante começa isso que você falou Rafael, o filme começa termina na beira do mar é é É...
E a estrada, o que seria a estrada do filme? Talvez é o caminho que vai de uma praia a outra dessas aí. É o que a gente cria, né? É curioso. Eu gosto desse filme e uma coisa que eu reparei revendo ele recentemente é que, com exceção daquela parte final, que é praticamente um epílogo, quando a gente fica sozinho com o personagem do Zampano, do Anthony Quinn,
todo o filme, o filme inteiro, ele é praticamente a Gelsomina está em todas as cenas, né? Ela está em todos os momentos do filme e ela está. Com a exceção do Zampano, do Anthony Quinn, que às vezes ele sai, dá uma escapada com a mulher e tal, e ela fica sozinha. E o Feline sempre nos mantém com ela. E eu fiquei observando, né, que o filme praticamente todo ele é meio que visto pelo ponto de vista dela.
que talvez o Zampano não seja um cara tão ameaçador quanto pareça, né? Ele é grandão, tem aquele jeito marrento, mas eu acho que muito do Zampano é o olhar dela. O Zampano que a gente está vendo é o Zampano da Gelsomina.
E no final, o Fellini faz uma coisa totalmente ao contrário, né? Porque naquele epílogo, você vê que o Zampano já aparece com um cara totalmente diferente, um cara derrotado, largado às traças, com uma outra roupa, com outro figurino, envelhecido. Eu acho muito interessante essas diferenças que o filme traz. É que parece que o personagem dela é que modifica o dele, né? Porque assim... Sim, sim. Ele, naquela pureza dela, né? Ela tem...
problema mental qualquer ali, você vê que ela tem um problema, mas ela também é muito sensitiva, muito pura, então acaba modificando ele de alguma forma, ele se dá conta do que ele perdeu, porque ela, início do filme, ela é vendida como se fosse uma escrava em um objeto, até até...
Ela é estuprada pelo cara, né? Na continuação do que tinha acontecido com uma irmã dela, né? Isso. Que ele tinha levado antes. Ele foi lá, na verdade, pegar uma reposição, né? Pegar a segunda ali, né? Então, é uma realidade dura ali, né? Só que ela, naquele mundo dela ali...
É, ela tem alguma alguma desconexão provavelmente, mas ela exatamente, você vê uma cena por exemplo em que ela ela está toda ferrada eu não sei se é numa daquelas fugas, eu acho que é uma daquelas fugas dela ou depois de ter se traído que ela está andando na estrada ela senta assim no na beira da estrada assim num barranco E aí
Sim, sim. O personagem normal ia botar a cabeça entre as pernas, ia chorar, ia se desesperar. Ela faz o quê? Ela põe o dedo num buraco, tira lá um inseto e fica sorrindo e entretida com aquilo. Quer dizer, ela, por um lado, passa uma ideia de problema mental, por outro, passa uma ideia de uma pessoa que tem uma vida interior riquíssima. Um poder de observação e poder de...
superação de dar a volta por cima, de ver a alegria nas pequenas coisas. Ela consegue prever que a chuva está chegando, não tem uma coisa dessa? Ela sente que a chuva está chegando. Ela escuta o barulho da eletricidade no poste, ela encosta o ouvido no poste, assim, para escutar o... Ela tem superpoderes. Pois é. E é um filme muito sobre solidão, eu acho, assim, sobre a necessidade que as pessoas têm a todo custo de ter alguém, né? Você vê que... É...
Mesmo quando ela teve a oportunidade de largar o cara, ela quis continuar com ele, né? Ou ela voltava depois, ele tava na prisão... Isso é engraçado, isso é engraçado porque ela sabe quem ele é, mas ela tá alienada a ele até um certo ponto, porque ela não consegue se despregar do cara, né? E tem uma coisa interessante que eu tava lendo, um texto do Georges Sadeau, que é um historiador crítico francês.
E o George Sadow coloca que a Itália estava dividida naquele momento, quando o filme estreou, porque os católicos apreciaram o filme, só que os marxistas não gostaram justamente pela questão neorrealista, dizendo que o filme traía a questão neorrealista.
Só que o Sadow faz uma abordagem interessante porque ele vai à contramão dessas duas leituras. Ele diz que esse é um filme sobre uma crítica à mulher-objeto, porque no filme o Zampano é um típico homem italiano que transforma sua mulher em um objeto. Transforma uma mulher em um objeto. E o Sadow conta uma história interessante que certa vez ele se encontrou com o Fellini, ele estava conversando com o Fellini.
E o Fellini disse pra ele que uma vez recebeu uma carta de uma mulher dizendo que foi com o marido assistir A Estrada da Vida no cinema. E que no final do filme, o marido pediu desculpa pra ela. Porque o marido falou assim, poxa, eu era um zampano e não sabia. E ela diz na carta pro Fellini, poxa, eu agradeço você, porque eu também era uma geossomina e não sabia. Você sabia? Vocês sabiam que chegou a existir um clube de geossomina na praga?
É, inclusive... Não, é verdade. O clube de Zampano deve ter... As mulheres entravam nesse clube e tinham reuniões lá, escreviam cartas para a Julieta Massina contando que eram maltratadas pelos maridos e tal. É, exatamente. Mas o próprio Fellini, ele falava isso justamente quando ele era atacado.
por não ser um filme que seguia o realismo. Acho isso uma besteira incrível. O cara pode fazer o que ele quiser.
Mas enfim, ele falava assim, existem muito mais zampanôs do que ladrões de bicicleta. Querendo dizer o seguinte, existem muito mais homens desse tipo brutos, brutamontes na Itália, que tratam mal suas mulheres e tal, do que pessoas que estão passando dificuldade do personagem de ladrões de bicicleta. Para quem se questiona, como assim o Anthony Quinn?
primeiro lembrar que essa prática não era exclusiva do Fellini, era muito comum atores americanos fazerem filmes na Itália nessa época. Na verdade é uma tradição que ia perdurar e talvez ia aumentar até lá nos anos...
60 e 70. E não só o Anthony Queen, tem o Richard Baze Hart também. O Anthony Queen, no caso, ele estava em Roma filmando um filme lá que ele era Invasão de Bárbaros no Brasil, Atila. Em italiano é Atila, que fala, mas é Invasão de Bárbaros. Ele fazia o Atila, o rei dos Hunos, com a Sofia Loren, na época quase desconhecida.
Daí surgiu o convite, parece que o Zampano meio que herdou um pouco de rei dos unos, aquela coisa de brutalidade. O Dino de Laurentiis queria para o papel o Bert Lancaster, que era um cara que tinha sido acrobata, profissional, antes de ser ator.
O interessante é que tanto o Anthony Quinn quanto o Richard Bazehart foram apresentados ao Fellini pela Julieta. Ela muitas vezes fazia essa intermediação aí. Eu acho o Anthony Quinn um baita de um ator. Um cara que muitas vezes a gente não presta muita atenção. Mas a gama dele como ator, os papéis diferentes que ele consegue fazer.
Lawrence Darab, esse aqui é totalmente diferente. O cara é um animal. Zorbo grego. Tem uma finitude aí de papéis diferentes, quando não era muito comum os atores fazerem tanta variação de papéis e tal. Agora, a personagem da Geossomina, ele cria, ele imagina ela...
uma série de influências, a partir de uma série de influências, desde lá daqueles personagens da comédia de arte italiana, do renascentismo, Pierrot, aquela coisa toda. Tem cenas de Chaplin ali. É Chaplin, Jacques Tati também pode ser citado.
Acho até o Harpo, Marx, tem uma hora que ela bota o chapéu, né? Lembra o Harpo também. Tem uma influência também mais clara que é citada aí, que é um cartoon da virada do século lá, na verdade foi publicado da virada do século até mais ou menos os anos 30, chamado Happy Hooligan, um cartoon americano.
que teria influenciado visualmente a personagem da Geossomina. Então, assim, não foi do nada, mas eu acho que ficou um papel perfeito para ela roubar o show, apesar do filme acabar sendo mais sobre o Zampanó do que sobre a Geossomina.
porque no final a gente... Ela dá uma roubada mesmo. Mas eu, desculpa, eu vou discordar, eu acho que o filme é mais sobre ela do que sobre ele. Mais sobre ela? Eu acho. Acaba ficando um pouco assim, né, duvidoso talvez, porque no final ela some, né, ele abandona ela, depois sabe que ela morreu. É verdade. E o filme a gente termina vendo a redenção dele, no sentido assim, não redenção, mas ele se torna humano, né, quando ele chora na praia, né.
Ele deixa de ser aquele bruto, desalmado e passa pelo menos ser humano e ser capaz de chorar. Tem uma questão interessante nesse filme que é, que eu até chamo de quarta personagem do filme, que é a trilha do Nino Rota. A trilha do Nino Rota tem uma ligação direta com a personagem da Jossomina.
E no final, quando aquela música volta, a gente entende que é ela que está voltando, ela que está retornando, que ela perdurou ali na cabeça do cara. E eu acho muito interessante esse uso narrativo da música nesse filme, como quase um personagem mesmo. Exatamente. E você sabe que esse filme foi importante para o Nino Rota também, porque essa trilha sonora, para os padrões da época, foi assim, vendeu para caramba.
e ele adquiriu fama internacional com a trilha desse filme. E é curioso que essa composição da Giosomina ele fez baseada numa trilha de um outro cara chamado Arquelândio Corelli, e que ele e o Felim decidiram colocar a música, que essa música apareceria antes no filme, ela ia escutar isso no rádio, não sei o que, e a partir desse momento ia virar justamente o leitmotiv dela ali.
Mas eles decidiram colocar na cena em que o personagem lá do Bobo, do Fool, do Richard Baze Hart, ele convence ela que ela daria uma boa atriz cômica, né? E aí ele toca isso no violino e a partir dali começa a ficar marcado como a música dela, da personagem dela.
E é interessante você... El Mato, né? O louco, né? É interessante esse personagem que, ao mesmo tempo que ele é o louco, ele parece ser o cara mais, né? Ponderado ali, né? São, né? O cara mais realista de toda essa situação. E eu gosto daquele diálogo famoso entre ele e ela ali, quando o Zampan tá preso. Da pedra. Ele fala da pedra, né? Aquele momento da pedra é muito interessante. Todo mundo tem que ter uma serventia na vida, né?
Acho bem legal. Até essa pedra tem uma serventia. E é um diálogo muito cristão. Aí ela pergunta, tá aí, qual que é a serventia da pedra? Ele fala, ah, eu não sei também, mas aqui tem, tem. E você, até você que é uma cabeça e der o cachofra, deve ter uma serventia. Cachofra. Ele é o cara que faz ela meio que desabrochar e falar, expressar e se entender um pouco.
Quando ele morre, ela desaba, né? Ela fica louca de vez. É, ela surta. Aquela cena do convento, é o paralelo que ela própria vê, ela traça com aquelas freiras, né? A diferença é que elas são dedicadas a Deus, a religião, e ela é dedicada, a vocação dela é ficar com aquele cara ali mesmo. Exatamente. A qualquer custo, né? Na cabeça dela. É, o mundo artístico também, né? O Richard Bezerath, ele...
Conheceu aí a amiga, muito amiga da Julieta Massina Valentina Cortese e acabou ficando por lá, casou com ela e ficou por ali mais um tempo. Tanto é que fez o filme seguinte, né? O Trapassa Ele Também Tá. Mas esse filme, porra, foi um sucesso total. Em Veneza ganhou o Leão de Prata também, né? Dividindo. De novo, né? É de novo, só que aí dividindo com sete samurais e sindicatos de ladrões.
coisa pequena né só filminhos proporcionou proporcionou ao Fellini a sua primeira viagem aos Estados Unidos ele, a Julieta e o Dino de Laurentiis vão receber o Oscar, ficam famosos Walt Disney eu confesso que eu não sei se chegou a ser feito ou se ele só quis fazer um comic book lá sobre a personagem Geosomini, um filme sobre a Geosomini eu acho que foi só na intenção não sei eu acho que foi só na intenção
O fato é que ele vem dos Estados Unidos e...
traz uns americanos aí pra fazer o próximo filme. A coisa que irritou muito os neorrealistas de plantão, né, são algumas inserções, como se precisasse, né, pra romper, assim, pra marcar algumas coisas dá pra dizer quase surrealistas mesmo, assim, pra começar, tem uma hora que ela tá chorando na calçada, que ele logo no início do filme, que ele eles vão comer numa taverna lá e ele sai com a prostituta e deixa ela esperando ali.
Ela passa a noite na calçada esperando. E aí passa um cavalo do nada assim na frente dela. Para na frente dela. Mas é isso que eu... Esse tipo de coisa que eu falava quando eu dizia que ele inseria esses momentos oníricos, surrealistas, como você falou. No Ladote Vita também a gente tem um cavalo do nada. Não, no Ladote Vita tem vários. Tem vários, mas eu lembrei da questão do cavalo.
O Ladote Vita lá na Fontana de Treve, por exemplo, no momento que ele vai dar o beijo, que ele entra na água, que ele está encantado lá pela mulher, que é quase uma sereia ali naquele momento ali, a Silvia chama ele para dentro da noite, então, Marcello, não sei o quê. Aí quando ele vai dar o beijo, tem o corte, ele está de dia. Eles estavam de noite e de repente ele está de dia.
tem esses momentos, no final do lado de Otevita também tem a raia no...
que aparece lá, quer dizer, é uma situação realista, aqueles convidados daquela festa vão para a praia, isso tudo poderia estar acontecendo, eles descobrem pescadores que pescaram uma raia, mas aquela raia tem um simbolismo ali. Para começar, aquilo ali é um sonho recorrente que ele teve desde criança, um monstro marinho sendo pescado, um monstro gigantesco, só que no sonho dele ele era uma mulher, era uma mulher gigante, assim. Então, é um elemento de sonho que ele encaixa no...
numa cena que poderia ser real. E ele juntou isso, talvez, com a história recente, na época da rodagem, uma socialite, eu não sei se era socialite, uma mulher de vida mais fácil. Ah, uma socialite que morreu, né? Que foi achada morta. Achada morta, depois de uma... Na praia também. Depois de uma festa dessa, né? Isso, uma noite regada de drogas e sexo sem rock'n'roll.
Tem muito a ver com o Lado de Vita. Agora, tem uma cena, só para da minha parte finalizar, o... Para mim pode acabar também. O Lastrada, né? Que é o... Aquele momento em que os garotos, as crianças levam ela para...
para ver um garoto doente na cama ali. Fantástica. É outra inserção dessas que fica meio perdida no filme, não tem muita relação, mas eu acho que ela meio que se identifica com aquela limitação dele também. Ela ameaça ir lá ajudar ele ou animar ele, mas ficou meio solto aquilo, não entendi muito como ver aquele momento.
Não sei se vocês têm alguma teoria. Eu acho que o filme tem um olhar um pouco cristão, ele tem um olhar religioso. E até pegando o gancho da questão da pedra, do diálogo da pedra, que tem muito uma questão... Inclusive, isso foi uma coisa que a igreja católica gostou, eu acho que um pouco no filme, esse lado religioso. Eu acho que esse encontro com o garoto tem esse lado religioso também, não sei.
ela ali como uma figura de não sei, tentando dar um alento, uma ajuda pra aquele menino doente desvalido ali que tá num convento, né? tá num convento, exatamente eu acho que tem um lado religioso aí, eu penso com certeza tem
E só uma curiosidade, depois que esse filme estreou, saiu não só na Itália, na Europa, um cigarro chamado Zampano. Não sei se vocês sabiam disso. Eu conheço a marca. Como é que era a propaganda? A propaganda devia ser um tamborzinho. Zampano é rivato. Cigarro para você queimar as mulheres. Deve ser algo do tipo a propaganda. Zampano, vou te contar.
Mas, e aí? O Basehart ficou por lá, eles conseguiu depois o Brother Ray Crawford, né, que ele viu num cartaz lá. Ele queria o Humphrey Bogart, né?
queria, você tem certeza? Eu li ele a biografia, ele falando que ele nunca foi com a cara do Humphrey Bogart é mas ele falou pra não acreditar nele ele falou pra não acreditar nele ele chega a falar assim ele chega a falar que o Humphrey Bogart era um cara que passava pra ele a impressão de estar sempre de mau humor, mesmo que ele estivesse na cama com uma mulher
Eu não vi o filme, mas era para interpretar um gangster. Foi um filme muito mal sucedido, foi talvez a pior recepção de todos os filmes dele. Os produtores, na verdade, queriam um novo filme sobre a Geossomina, então ninguém queria bancar um filme diferente. Só quem concordou com ele foi o Gofredo Lombardo, da Titanos.
Só que aí o Goffredo, ele sempre toma lá da carne, né? Ele concordou em bancar esse filme desde que tivesse opção pro próximo.
Aí ele lembra daquela, ele queria fazer um filme meio que à la Lubitsch, de uma comédia de farsa, lembra daqueles vigaristas que ele conheceu no início da carreira em Roma, que queriam sempre oferecer algum grande negócio para eles. E aí vem a... E esse filme, na verdade, tem também a Julieta Massina num papel, ela faz a esposa do Richard B. Serhart, que é um dos vigaristas, mas é um vigarista assim de...
um pouquinho mais de bom coração e tudo e só que os produtores quiseram mandar ele cortar bastante cenas do filme no final, pra encortar o filme ele acabou cortando principalmente as cenas que ela estava e ela ficou putíssima da vida com ele, não entendeu por que, então ele fala, bom, mas eu acho que no filme seguinte eu compensei ela
Que foi o Noites de Cabir e aí mais um daqueles assim que... Esse sim, se o outro tem dúvida, esse não tem nenhuma dúvida, que o filme é dela. Totalmente dela. Ela tá no nome. De novo, na minha opinião, tem aquela questão católica também no filme. A cena da igreja, da procissão. Tem uma cena que até lembra bastante a cena do adulto e vita também, que tem uma...
um dos capítulos do Lador Tevita, que dá pra falar que é um filme de vários capítulos. Exato, é episódico. Um dos episódios é aquele da... Da Madonna. Da Madonna, do milagre das crianças, aquela coisa que acaba com uma morte lá e tal. É impressionante. Agora, eu acho o filme bastante pesado também, né, cara? Essa relação aí de exploração da personagem da prostituta, né? Essa sina de traições e trapaças. Chega a ser jogada no rio, né?
Inicia o filme com ela sendo trapaceada, jogada no rio, para morrer mesmo, porque o cara provavelmente sabia que ela não sabia nadar.
Ele ficou horrorizado lá, o Gofredo Lombardo. E isso acontece depois, no final, né? Quase a mesma coisa, né? Sendo que no final ela realmente perde tudo. Você pode dizer que no final ela só sobrou as roupas do corpo. Na verdade, é mais um filme do Fellini que o início tem muita ligação com o fim, né? Sim, é cíclico. É cíclico, exatamente. É uma questão que ela não consegue se libertar daquilo, né?
E vale lembrar que esse filme, se vocês observarem no crédito do roteiro, ele tem a colaboração do Pierpaolo Pasolini, que assina como colaborador. Tem ali o Pinelli, tem o Fleiano, que já eram colaboradores assíduos do Fellini, e tem o Pasolini. Diz que ele usou o Pasolini porque tinha familiaridade lá com a cena criminal de Roma. Sim, exatamente.
O Pasolini tinha uma... Submundo. Ele tinha uma fascinação pelo submundo, pela vida das prostitutas. Tanto é verdade que depois ele escreveu também o roteiro daquele filme A Longa Noite de Loucuras, do Bolognini.
Também é um filme que se passa na noite de Roma com prostitutas e que é um filmaço também. É muito bom. Isso eu não conheço. Deixa eu anotar o nome aí. É, anota porque é excelente. A Longa Noite de Loucuras. Mauro Bolognini. Mauro Bolognini. A Longa Noite de Loucuras, que é com o roteiro do Pasolini. Que é um filmaço. É um filmaço que pouca gente conhece.
E que também trata dessa questão dessa vida noturna, da prostituição, dos rapazes que saem pra ir atrás das mulheres, das prostitutas e tal. Mas aqui, claro, com o olhar terno, um pouco mais terno, chapliniano do Fellini, sem aquela coisa mais corrosiva que é típica do Pasolini.
O Gofredo Lombardo tinha ficado com direito de sua opção para o próximo filme, mas quando leu esse roteiro, saiu do negócio. Falou sem condições. É, não queriam fazer filme com prostituta. Ele tentava explicar, não, essa cena, por exemplo, da prostituta sendo empurrada no rio. Eu não inventei isso. Isso aconteceu. Até a notícia do jornal. Só que, inclusive, na notícia ela não foi salva, que nem a cabira. A mulher morreu.
O caso do Homem do Saco, aquele cara que vai levar mantimentos para as pessoas que vivem naquelas... Verdade. Real, tinha um cara que fazia isso mesmo nos subúrbios, na periferia. Inclusive, a igreja, uma das objeções que a igreja fez a esse filme foi isso, como se fosse o monopólio da virtude é nosso, como se vocês vão mostrar que tem um cara que faz isso, não é para dar carta. Mas enfim, o único cara que aceitou produzir foi o Dino de Laurentiis.
Que daí ofereceu um contrato, inclusive, para cinco filmes. Então, o Fellini... O Fellini, assim, ele...
sempre admitiu que era um péssimo negociante. Ele sempre... Isso não era da boca para fora, ele agia assim mesmo. Ele fazia os filmes para se divertir, fazia os filmes que ele queria fazer e por causa disso não ficou tão rico quanto poderia ter ficado. Perdeu uma grana no Antônio Tevita. Perdeu muita grana.
deixou de aproveitar mesmo quando estava no topo da fama ele não fez tanta grana quanto poderia fazer justamente por causa disso ele queria emplacar o filme que ele queria e os produtores sempre pulando fora você vê um cara que já tinha ganho o filme estrangeiro e tudo mesmo assim os caras não acreditavam no filme dele
É engraçado isso, que você acabou de falar que o pessoal queria que ele fizesse um filme em continuação da Geossomina, mas também não queriam fazer. Não queriam fazer antes o La Estrada. Esse aqui tem uma relação direta, que pelo que consta seria a irmã perdida da Geossomina, a Cabira, que vai virar para a Chuta em Roma.
Eu acho que esse personagem da... Maria Tchekarelli. A gente sabe o nome dela, tá? A gente nunca lembra, mas... O Kabiri, ela vem lá do filme, né? De 1914. Não, ele diz que não tem nenhuma relação, cara. É?
Ele diz que não tem nenhuma relação. Você tá me desmentindo geral. Não, não. Eu tô falando que eu li na biografia. Minha fonte é Eu, Fellini, escrito por Charlotte Chandler, com prefácio de Billy Wilder. Uau! Opa! Já tá carinhado. Que foram entrevistas aí, que foram entrevistas aí.
do Fellini, acho que por um período longo até de anos, para essa Charlotte Chandra. Mas ele não falou assim, não acredite que eu falo em entrevistas, então eu vou contestá-lo. Mas o que eu queria dizer é o seguinte, para mim essa personagem da Cabiria, está bem no meio de dois filmes, o La Estrada e o La Dotevita.
quase, né, no meio, tem o bidone aí no meio. Pra atrapalhar. Mas, ela parece que ela é um personagem que transita entre esses dois mundos, né, porque se o La Estrada tá muito centrado naquela pobreza, naquele mundo de pequenas posses ali, né, o Zampano só tem aquele caminhão cheio de tralha e tal, a Giosomina não tem nada praticamente.
Ela tem uma casinha lá caindo aos pedaços. A Cabiria tem uma casinha caindo aos pedaços, só que ela transita no mundo até do Amadeu lá. Amadeu Nazari. Nazari, que ela conhece. Digamos que ela conhece um pouco mais esse universo do que a Geossumina. Ela não foi totalmente excluída. Isso, isso. E o Ladote Evita vai ser só sobre esse universo. Vai ser o Marcelo Mastroianni, que não é desse universo.
Porque ele não é um cara rico, ele é apenas um jornalista que cobre coluna de fofoca, sei lá o que ele faz ali. Mas ele está inserido naquele contexto. O próprio Fellini fala que via nesse filme bastante semelhança com luzes da cidade.
Quando eu comecei a ler, eu falei, ué... Noite de Cabire? Noite de Cabire. Aí ele explica, dá alguns pontos ali, eu falo, é verdade, tem mesmo. A cena do... Tem um mambo que ela dança lá. Tem uma cena do... do Chaco fazendo palhaçada. Sim, é bem legal, é. Quando ela entra no mundo do milionário,
o ator famoso, milionário, mora numa mansão, assim como o personagem do Chaplin também, entra no mundo, vira amigo do milionário, mas o cara só é amigo quando tá bêbado, né? Então é assim, o cara tá na pior, depois quando chega a mulher, o cara tá se recuperando, ele já tranca ela no banheiro lá. Você vê, uma conexão que eu nunca faria. E o final, né? O final, aquela olhada pra câmera, aquela olhada...
Ah, sim. Quebrando a quarta parede, né? Quebrando a quarta parede, criando uma cumplicidade com o espectador e aquele olhar de esperança, aquele...
Choro com sorriso, tem a lágrima, mas também tem o sorriso. Apesar de ter passado por tudo ali. Tem uma declaração do Felino, até queria citar aqui o que ele fala, ele cita que os alicerces dos personagens da Geossomina e da Cabiria são idênticos. A Cabiria, assim como a Geossomina, é uma criatura que vive em um mundo demasiadamente duro e brutal para sua estrutura e é uma vítima da violência.
E depois ele diz que o filme dele, Noites de Cabília, não é um filme sobre prostitutas. Ele diz que escolher uma prostituta como protagonista, seja pelo meu gosto, pelos exemplos extremos, seja porque, objetivamente, a relação de um homem com uma prostituta é talvez uma das mais brutais que existem. Essa declaração está no livro A Arte da Visão. É um livro bem legal, que tem várias entrevistas com o Fellini.
É um livro pequenininho, curtinho e tal. E é bem interessante esses depoimentos aqui. Quem quiser a indicação, vale a pena. Muito interessante essa declaração. Eu acho a última relação que ela tem no filme... Que é com aquele Oscar, né? É, mas eu acho que é o François Perrier, né? Foi a exigência do co-produtor francês do filme, que ele matou francês.
Justamente pra pegar a produção francesa lá, pelo que eu vi. Mas esse cara tá até no Samurai, não sei se vocês vão lembrar dele, o Samurai do Jean-Pierre Melville. Sim, é verdade. Que ele faz o delegado de polícia lá.
Mas o personagem desse cara, pra mim, é o mais cruel de todos, porque ele engana a gente também. Engana a gente também. E aí eu tô dando spoiler, a gente acha que, pô, finalmente ela vai entrar numa boa. Se deu bem. Vai sair daquele mundo, se deu bem, o cara tá apaixonado por ela, e aí o cara faz tudo aquilo pra... Ela é o Didi, cara, ela sempre se dá mal no final.
Não adianta. Sabe que eu gosto de uma coisa no filme, no final, desculpa se eu tô dando spoiler aqui, quem não viu Noite de Camila. Já dei, vários. Vários. Mas tem uma questão, no final, quando é revelado pra nós que ele é um, ele também vai tentar matar ela,
O Fellini, ele filma aquele momento, aquela revelação, como se a gente estivesse entrando em um sonho. Eu não sei se vocês têm essa impressão, mas quando ela vai em direção a ele, que ele tá à beira do lago, ali do rio, a gente vê aquele cara, né, como se ele fosse uma projeção de um sonho.
automaticamente o espectador já pensa não, de novo não, isso não é possível que isso está acontecendo de novo é uma sensação de hoje não mas vai acontecer, tristemente vai acontecer, eu gosto muito daquela maneira como ele aborda esse momento especificamente do Noite de Cabília ele não consegue matar ela exato, ele tem essa porque no fundo ele é um tempo tempo
Um desesperado. Só um cara que tá desesperado. Acho que ele é vítima do ambiente ali, da situação que a Itália pode estar passando. O cara é desesperado mesmo. Mas, pô, a gente tem pena, porque ela vende a casa pra um pessoal mais miserável do que ela. Exatamente. É um ciclo de miséria. O filme acho que é sobre isso. É um ciclo de miséria.
O ciclo de miséria e o otimismo, né? Porque ela tem todas essas quedas ao longo do filme e tá sempre... E no final dá aquele sorriso, né? Não desistindo, né? Aquela cena ali, cara, eu considero um dos finais de filme mais...
bonitos e mais, sei lá, marcantes, assim, de todos os tempos. De todos os tempos, aquela marcha dela, né? Não sei se vocês, bom, vocês devem conhecer a história, mas o Bob Fosse adaptou esse filme pros Estados Unidos, né? Sim, sim. O filme Sweet Charities, né? Sweet Charities.
Charity, meu amor no Brasil é, exatamente mas adaptou pro período dos hippies então no final do Charity são os hippies que estão fletando ali com a personagem da Shirley MacLaine, e depois o Bob Fosse faria a sua versão do 8,5 também com o Alda Jazz também é o seu 8,5, digamos assim é bem lembrado mas, e aí, vamos para o próximo aí? vamos seguir vamos seguir
Mais uma vez, o nosso amigo Fellini tem muita dificuldade para encontrar um produtor. Ele...
acaba encontrando essa figura ali no Angelo Rizzoli, né? Angelo Rizzoli fica meio assim porque ele diz que precisa reconstruir a Via Vêneto, né? Onde passam várias cenas do filme, se passam várias cenas do filme em estúdio.
Pra ter aquele controle que ele gostava de ter nas filmagens e tal. Aí o Riso, ele falou, não, tudo bem, só que... Então vamos fazer o seguinte, eu vou tirar a sua participação percentual na bilheteria do filme. E porra...
Ele acabou tendo que aceitar, não tinha outra opção, queria fazer o filme, recebeu 50 mil dólares só pela direção e foi tudo que ele ganhou desse filme, um relógio de ouro de presente. E o filme rendeu milhões. E o filme fez grana pra caramba. E ele perdeu talvez a maior oportunidade da vida dele de quebrar a banca. Ele poderia ter ficado ricos. Mas é isso que você falou, ele não estava muito preocupado com isso. Cara, como falar de...
Ladouti Evita, é difícil assim, porque tanta coisa pra falar desse filme, tanta coisa interessante. Eu começo falando o seguinte, o que é o Ladouti Evita pra você? O que é o Ladouti Evita, né? E aí eu tava pensando, refletindo sobre isso. O Estrada da Vida é claramente um road movie. Você encaixaria tranquilamente como um road movie. Eu acho que o Fellini, ele é...
diversas vezes faz filmes como se fossem exatamente, como se fossem road movies como se fossem o circo, em que tem um número do acrobata, sai entra outro número, não tem relação esses números que não necessariamente são linkados linkados por um conflito, uma história assim que você vai seguir
mas que todas essas coisas somadas servem para transformar o personagem. Tem um fio condutor, claro, que é o personagem do Martial, nesse caso, que eu tinha um pouco essa sensação, mas eu não sabia explicar, e lendo o que o Fellini próprio fala desse personagem, eu acho que talvez esteja aí a chave para entender.
É um personagem duplo, é como se fossem dois personagens que a gente tem ali do Mastroene. A gente tem o Marcello, que é o personagem principal do filme, que participa das ações, mas tem o Mastroene que é o observador. Tem até uma cena bem, mais ou menos, no meio do filme que eu acho que ele...
ele quer passar essa dicotomia entre esses dois Marcelos, Marcellos ali, não sei se vocês vão lembrar, é um plano do filme, mas se vocês não repararam, podem rever, é bem interessante até, porque é quando ele entra na casa do Steiner, personagem do Alan Cuny, ele entra a primeira vez, que ele encontrou ele, eu acho que numa igreja, não.
Na rua. Não, ele encontrou dentro de algum prédio. Acho que era uma igreja. Pode ser. Aí depois ele vai na casa. Aí ele é convidado. Então ele vai na casa e é recebido na porta pela esposa do Steiner. Ele vai entrando. Na verdade a gente tem uma câmera subjetiva.
A gente não está vendo o Mastroene. A câmera subjetiva, aí você vai lembrar, a mulher dele vem andando em direção à câmera e cumprimenta a câmera, né? Pode entrar, não sei o que e tal. E a gente vê... A visão subjetiva, ele vai entrando, vê lá o Steiner sentado, o Steiner se levanta.
olhando para a câmera, falando com a câmera, vem caminhando olhando para a câmera, falando com a câmera, e daí ele começa a desviar o olhar e vai para o lado, aí a câmera gira, e aí a gente vê um astroiano entrando pelo lado da câmera, então é como se naquele momento você parasse o observador, ele é o observador,
quando está entrando, e naquele plano ele passa a ser participante da ação, a câmera vira, o Steiner está olhando para a câmera, desvia o olhar da câmera para olhar para o lado, e a câmera vira para o lado também e pega o Marcelo. Ele é espectador e personagem.
porque, bom, é um pouco como o Moraldo já era naquele filme, a gente já falou da relação, que é observador, né? Ele observa várias situações em que ele passa, a gente é um personagem um pouco misterioso, a gente sabe muito, assim, da vida dele, do passado dele. Mas, enfim, muita coisa certamente autobiográfica, como, por exemplo, o episódio com o pai.
o Fellini diz que não conheceu o pai de verdade o pai era vendedor era representante de comercial vivia fora de casa ele vendia azeite queijo e tal até ele fala que por causa disso a casa dele estava sempre recheada dessas coisas gostosas mas mas
Só que quando o pai vinha, trazia tudo, mas só que o pai estava sempre fora. E achava que o pai gostava mesmo de ficar fora, porque era difícil conviver com a mãe dele e tal. E nunca conversou de verdade com o pai, né? Que só depois que o pai morreu, aquela velha história, né? Depois que o pai morreu e tal, ele descobriu que o pai...
mesmo fora de casa, estava sempre levando na pastinha dele os primeiros desenhos dele, quando criança e tal, tipo, aquele carinho, né? E ele descobriu isso, ele começou a ver o pai de uma maneira diferente, mas aí já era um pouco tarde. Então ele coloca o personagem do... que é interpretado pelo Aníbal Nink.
É um ator que faz o pai dele engraçado nesse filme e no 8,5 também. É o mesmo ator que vai fazer o pai dele no 8,5. Deve ser a cara do pai. Exatamente, ele escolheu, como sempre, pela cara do pai. Era um ator já antigo, do cinema italiano lá. E justamente por causa dessa semelhança com o pai. Agora é engraçado assim, como são pessoas de gerações diferentes. Isso fica marcado até na...
ele não tá nem aí que o pai vai ficar lá com a prostituta, né? Ele até ajuda. Ele até ajuda e tal, né? Ele não tá nem aí. O pai não tá muito preocupado também. Sim, mas o pai critica ele porque ele estaria morando com uma mulher sem ser casado. Isso é que é engraçado. Ele fala, eu liguei lá pra sua casa atender uma mulher, ele até mente. Ah, não, era empregado. Era de uma hipocrisia surreal, né? Quer dizer, o cara, por ser de uma geração mais antiga, ele tá mais preso com essas hipocrisias, enquanto ele...
meio que aquele momento ali, social, né? Ninguém é de ninguém, né? Ali pode. Pô, quantas mulheres passam na mão dele ali no longo daquele filme, né? No entanto, não tem nenhuma que seja a mulher da vida dele, não tem nenhuma que seja, né? Vamos contar. Aliás, o filme... Eu acho que o filme já começa bem ousado aí com esse fetiche, né?
dos dois ali, de estabelecer um contato com uma prostituta e aí ir pra casa da prostituta e transar na casa dela. Só usou a casa dela. A Nucaime é personagem dela. Tinha a ser... Tem a personagem da Silvia, a Anitta Ekba. Com quem, na verdade, não...
Não fica evidente que ele teve alguma coisa, mas mesmo assim ele... Parece só um sonho, uma coisa idealizada que não se concretiza. Mesmo assim ele ganha umas bifas do marido dela, aquele ator bêbado lá. Esse. Tem a personagem... Que fez o Tarzan, deve ser inspirado no John Westmiller. Tem a que seria a oficial dele naquele momento.
vive brigando com ela, né? A Ema, da Ivone Fournô, né? Tem a própria mulher que vai com o pai dele, né? Fica meio nas entrelinhas que já tinha tido um caso com ele também, né? Que é a Fanny. Fanny.
e no final na festa também tem aquela do striptease na festa, não, aquela não sei se chega a ter alguma coisa tem uma que ele fica dizendo que tem a cara de anjo fica perseguindo a mulher ali, não sei se rola alguma coisa tem aquela mulher do castelo sim, é verdade
do Castelo. Eu não lembro o nome dela agora. Ele vai até um lugar meio separado, uma sala separada com ela, né? Mas isso tem tudo a ver com essa espécie de crítica que ele tá fazendo, essa parcela da sociedade ali, né? Eu acho que isso tem muito a ver, eu vi que essa época na Itália...
Foi uma época que até os Estados Unidos começou a olhar para Roma de forma diferenciada e Hollywood também. Foi justamente a época que a gente já comentou aqui quando a gente fez o Ben-Hur, que o William Wyler filmou lá em Tinetitá. O Cleópatra foi feito lá.
Era muito viável, era vantajoso por conta dos custos baixos. Inclusive o Cleópatra foi feito parte ali também. E no Cleópatra, nessa época, é que se descobriu, ficou famoso o romance entre o Richard Burton e Elizabeth Taylor. Inclusive eles eram seguidos por fotógrafos. O filme tem essa...
tem essa coisa de ter inventado esse termo, né? Eu pesquisei isso, quer dizer, o termo paparazzi é plural, não é isso, Alexandre? É plural, exato. Do paparazzi, que é o nome do personagem. É, que é o nome do fotógrafo. Porque ele fica chamando de paparazzi. No caso não é bem nome, né? É como se fosse um apelido que ele, Martiello, deu para o fotógrafo, né? Porque não...
Apesar de que existe esse sobrenome na Itália, paparazzi, mas provavelmente ele deu ali aquele apelido para o cara, que é no sentido de ser... É, um sparrow, que em inglês é uma ave. É, como se fosse um orvo, alguém que fica em cima o tempo todo. Isso, é. E acabou sendo cunhado esse termo aí para esses fotógrafos. Plural. Aliás, outros termos vieram desse filme, por exemplo, o próprio Ladolte evita o título.
Essa expressão Dolce Vita, que não era usada no sentido de vida boa, vida fácil, isso entrou no dicionário, assim como a Via Vêneto já era um lugar.
concorrido, movimentado, de badalação, passou a ser muito mais depois do filme. As pessoas iam lá porque havia vênito do filme. E a Fontana de Trevi também. Também. Eu acho que o Fellini foi muito feliz em capturar o que acontecia na época. O sentimento da época. E principalmente uma coisa que marca muito é...
é o crescimento da cidade no boom, na época do boom econômico do pós-guerra. A gente tem a Itália devastada na Segunda Guerra e aí 10 anos depois, meados dos anos 50.
começa aquele boom econômico, então a gente vê uma cidade com muito canteiro de obra, aquela sequência inicial é fantástica, eu acho que um helicóptero carregando a imagem e o helicóptero dos paparazzi seguindo ele. E ele lá de cima já tentando pegar o telefone da mulher lá no prédio. E é engraçado o seguinte, aquilo ali era algo que acontecia mesmo, ele não inventou não. Eu vi um tempo.
uma cena documentária, em documentário, eu não sei se é uma tradição, o que é em algum evento específico lá no Vaticano, dá para comparar, mal comparando com a chegada do Papai Noel de helicóptero no Maracanã, né? Quando eu era criança, sempre tinha, todo ano, chegava a chegada do Papai Noel. Eu já vi, eu já vi.
Então chegava a imagem, eu já vi isso, existia mesmo, carregava a imagem. Então, mas isso é o tipo de coisa, né? É o tipo de coisa que você pode associar a um sonho e que ele insere num ambiente de realidade. Eu acho que cada vez mais ele vai se afastando desse ambiente de realidade para entrar no sonho mesmo, né? Quando ele vai lá para o Laná Vivar, até no 8,5 também.
você já tem essa desconexão. Poxa, e aí você tem, para mim, um dos temas do filme, que é justamente as contradições dessa cidade, desse universo de Roma ou da Itália mesmo, da contradição do...
De um lado aquela coisa da religião, preso às tradições ainda muito fortes. E por outro lado, ele sai ali, para começar a helicóptero, a gente vê lá o foro romano, aquelas coisas, aquelas ruínas. Daí a pouco está passando em cima de uma cobertura com umas mulheres de biquíni. E chega no Vaticano e daí corta para um...
Uma boate lá está tendo um ritual africano. Contradições. A gente vê esses cortes em todo momento. Ele sai de uma festa regada.
Eu acho que ele sai daquela do castelo, eu não lembro de qual que ele sai. Muitas festas que ele vai. E aí, daí a pouco, ele tá na casa do amigo que se suicidou, quer dizer... Eu acho que esse personagem do Steiner é importantíssimo pra história. Eu acho que ele sintetiza bem essa perda, essa...
essa doce vida que de doce não tem nada, né? Eu acho que ele bem, ele sintetiza essa tragédia toda que corre ao fundo e que aos poucos vai dando as caras, né? Durante o filme. Tem um ensaio que eu gosto, uma crítica que o Roger Ebert escreveu sobre esse filme, que ele fala que... Ele adora, né? Ele adora esse filme, ele colocou entre os cem grandes da vida dele e tal, quando ele era vivo, né?
E ele diz que o filme começa com uma imagem bonita, porém sem vida, que é a imagem da santa, e termina com uma imagem feia, porém real, que é a imagem da raia, do monstro. Então tem essa oposição entre começo e fim também nesse filme do Fellini. Eu acho que é uma sacada interessante do olhar do Ibert aí.
E eu acho que, como o Fred, vocês já colocaram, eu acho que esse filme é tão importante porque ele vai captar, eu acho, um sentimento de vazio daquela época. E eu acho que... E é engraçado que esses dois filmes, eu acho que, talvez por caminhos diferentes, eles são filmes irmãos, né?
Eu acho que em 1960 você tem A Doce Vida, do Fellini, e você tem A Aventura, do Antonioni. Ah, sim. E são ambos filmes, eu acho que, apesar dos diretores serem muito diferentes, são filmes que falam do vazio existencial, né? É uma busca constante por um preenchimento existencial que você não encontra. E eu acho que é o tema que vai pautar a década inteira da década de 60, né? É que vai pautar o cinema moderno, inclusive.
iria mais lá atrás no tempo e lembraria da regra do jogo. A regra do jogo, é.
Porque também é um filme que você pode associar a esse aqui. Mas eu acho, Fred, desculpa, só pegando o gancho, apesar das semelhanças, eu acho que a regra do jogo, ela dá um... ela olha pro vazio existencial à beira de uma guerra, de um mundo de incerteza, né? Eu acho que aqui você tem... É um outro momento. Aqui você tem um vazio existencial no meio burguês, né? Num meio abastado e numa Itália que tá vivendo um renascimento econômico, né? O Antonioni faz esse olhar também muito...
aguçado, eu acho, né, quando ele coloca um casal que procura uma pessoa que depois, essa pessoa não interessa mais nada encontrar essa pessoa, né e esses amantes não conseguem se resolver o filme todo, e aqui o Fellini coloca a gente na pele de um jornalista que a gente não sabe muito bem qual é a profissão dele direito, né, ele parece que ele é jornalista, colunista social tem hora que ele parece... Ele queria ser escritor
relações públicas, ele sonhava em ser um escritor e não consegue, quer dizer, é um cara que tá flertando com um monte de coisa e que não tem uma identidade, me parece, muito bem formada, né?
E eu acho que esse filme, eu acho que a cara do cinema moderno, ele é a cara da década mesmo. Eu acho que se fosse para escolher os filmes mais importantes da década de 60, não digo no sentido cinematográfico, não. Eu digo no sentido histórico mesmo, de captar um sentimento da época. Eu acho que a Doce Vida talvez é o mais importante. Certamente é um dos mais.
Certamente. É um filme muito da sua época. Vinculado à sua época. E às vezes eu fico chateado quando as pessoas falam assim, ah, o filme é datado. O filme, ele é... Ele ficou ultrapassado. Eu acho que não é por aí. Eu acho que o filme é um retrato do que ele foi. Pois é. Eu acho que ele não só não é datado como...
até eu acho que foi o Rafael que falou, é um filme que retrata uma época, sim, sem dúvida, se você quer saber como que era Roma nos anos 50 e 60, você vai ver a Doce Vida, que você vai ter uma boa noção, mas...
A essência, é aquela velha coisa que a gente fala, as histórias são... Quantas histórias nós temos? Ah! Oito que se repetem. Não, são mais de 30. Na verdade é a vida, a vida humana. A vida humana se repete. A gente acha que a gente é muito diferente dos homens de 100 anos atrás. Claro, na roupa, na comida, nos carros.
nas máquinas, nos equipamentos, sim, mas na essência é a mesma coisa. Não vem querer me comparar com o Zampano, pelo amor de Deus. Não, você tem uma... Você não tem uma Via Vêneto aqui, mas em cada cidade você tem o seu lugar de perdição, onde a juventude vai... Poderia, de repente, estar...
indo atrás de coisas mais importantes ou saudáveis. Você tem os relacionamentos frívolos. Isso é datado? Não, isso é de todo dia, de agora. É bem interessante o que você falou. As pessoas colecionando mulheres, colecionando namoros, colecionando...
Isso que você disse, Alexandre, é bem interessante, porque você falando isso, já me lembrei agora diretamente dos Boas Vidas, porque esse filme é um filme que capta muito essa camaradagem, essa amizade entre garotos, rapazes, depois homens, que insistem em não envelhecer, que eu acho que todo mundo já viveu um pouco isso. E A Doce Vida é bem essa coisa da...
desse despertar pra noite, pra vida noturna, pra esse mundo, né, de... Um pouco de frivolidades também, né, mas que eu acho que é uma fase pela qual todo mundo passa, eu acho, né, eu não sei.
Acho engraçado que várias vezes no filme eles se referem ao personagem do Mastroianni, como o Giovanotto, é um jovenzinho. O Mastroianni já tinha 36 anos, inclusive ele é meio grisalho no filme. Não é tão Giovanotto assim, já é um vitelonezinho. 36 para 40 a pessoa envelhece brutalmente na década de 60. Mas eu acho, então, por isso que eu lembrei do...
da regra do jogo, porque também me passa essa impressão, ele está retratando ali um pedaço da sociedade italiana que parece que a única preocupação que eles têm é como ocupar o tempo, porque todas as facilidades estão ali, tudo está resolvido, eles não têm que trabalhar, eles não têm que se preocupar com mais nada, a não ser com os relacionamentos amorosos, sexuais e quem pega quem.
E o que eu vou fazer? Exatamente, o que eu vou fazer na festa? A festa sem graça. Vamos fazer o quê? Ah, faz o striptease. Quem vai fazer o striptease? Vai ser você. Se vocês me permitem, eu queria até contar a história do striptease, não sei se vocês sabem, mas esse striptease do final, do A Doce Vida, ele foi inspirado num verdadeiro striptease que aconteceu em 58.
teve uma festa em Roma, aniversário de um aristocrata, um rapaz endinheirado lá, em uma boate que chamava Rugantino. Essa boate era muito frequentada pela juventude dourada, que eles chamavam aquela juventude da época, que iam também ali estrelas de cinema, escritores, intelectuais. E naquela noite, quem estava lá nessa boate era a Anitta Eckberg.
Mas não foi ela que fez a... Não foi ela que fez o striptease. Ela tava por ali, só rondando e tal, se divertindo ali, e ela tava dançando. E uma outra mulher que tava por ali, que não era uma estrela famosa, se chamava Aitinana, não sei se ela era francesa, enfim.
Ela viu a Nitekbag e ela quis aparecer mais que a Nitekbag. E ela começou a fazer um striptease ali, na frente do público, tirar a roupa e tal. E tinha uns caras, uns fotógrafos, que talvez já fossem ali os paparazzi, não sei, enfim. E que eles já estavam ali. Só existiam, só não tinham esse nome, talvez. E fotografaram essa moça, a Itiena Na, tirando a roupa, né? E tem foto disso, até coloquei essa história no meu site, no Palavras de Cinema, tem lá.
Ela chegou a tirar até a parte de cima da roupa e os homens fizeram uma roda ali embaixo. Esses fotógrafos tiraram, captaram o momento e colocaram no jornal. Isso, na época, foi um escândalo. A Itália ficou escandalizada com essas imagens e o Fellini se inspirou nesse episódio dessa boate chamada Rugantino, em 1958, para fazer aquele striptease do final do filme.
Ele escolhe a Nadia Gray Nadia Gray, exatamente Nadia Gray porque justamente ele queria alguém que Uma mulher que fosse Se atraente Apesar de ser Um pouquinho mais velha assim Mais linda né
mas muito bonita e que não fosse muito vulgar. Não fosse uma mulher que uma coisa seria, por exemplo, striptease da... Não estou dizendo que ela fosse vulgar necessariamente, mas exuberante fisicamente, como a Anita Ekberg. Imagina um anti-striptease da Anita Ekberg e um da Nadia Gray, que é uma pessoa que, em tese, nunca fez um striptease na vida, está meio constrangida com aquilo e tal.
Eu só queria complementar que essa cena final do striptease, que também causou um furor na época quando o filme estreou, é claro, uma cena belíssima, muito boa, mas pro público de hoje lá vai parecer uma cena pacata, cômica. Sim, sim. Mas eu acho que a maior questão ali dessa festa não é esse striptease, eu acho que o que menos choca, pelo menos pra mim naquela festa, é o striptease. Choca mais, por exemplo, ele...
cavalgando, montado na outra mulher. É, porque aquela ali é uma alusão a homogia, né? Na verdade, ele tá falando ali de uma festa que terminou a homogia. Ela dá tapa na cara dele, ele dá tapa na cara dela e ali isso.
até violento ele meio que humilha a mulher enfim, e outros personagens na verdade é uma das várias festas do filme, a outra festa do castelo é aquela festa que fica mais claro tipo a degradação daquela aquela do castelo que é um castelo real e com aristocratas reais que ele usou naquela cena ali e aí
Aquela cesta que a Nicole leva ele naquela ex-modelha. Eu não faço um pior fotografia de moda. Aquela voz estranha daquela mulher. Acho que eles escolheram a pessoa errada pra dublar ela, porque não combina nada com aquela voz. Enfim. E o que é a Doce Vida? Agora deixa a pergunta. Afinal de contas, o que é a Doce Vida? O que é esse filme?
É difícil responder, né? Na verdade, não é o que é, é sobre o que fala esse filme, né? É uma pergunta sobre o fato. Mas você sabe que o próprio Fellini, ele deu uma declaração pra uma entrevista do New Yorker, o jornal.
que ele falava isso, que para ele o cinema já tinha passado uma fase de ficar na narrativa, ficar seguindo a narrativa. Por isso não. E que ele podia se aproximar mais da poesia. Então ele se sentia assim...
que estava um momento em que ele estava tentando fazer uma coisa que fosse mais livre, que não seguisse uma certa construção de história, que tivesse início, desenvolvimento e depois o fim. Então ficou uma coisa mais solta. Mais sobre um sentimento, menos sobre um enredo. É. Você sabe que... ...
fala. Eu vou passar a minha experiência com esse filme, eu vi pela segunda vez apenas agora, na verdade acabei vendo segunda e terceira, que eu vi duas vezes, revi duas vezes eu tinha visto há muito, muito tempo
no mínimo 20 anos, e eu não tinha uma lembrança, assim, dele, a ponto que, pô, hoje pra mim isso já é uma coisa marcante, eu não tinha nem ele no meu acervo, é assim, eu tenho bastante filme, então, não ter um filme significa o seguinte, esse filme nunca me comoveu a ponto de eu comprar, gastar uns 40 pila nele, né?
mas assim eu não sei porquê quer dizer, eu sei, é porque é aquela coisa, eu não tenho vergonha de falar a gente muda a gente cresce como cinéfilo a gente cresce como pessoa até coloquei isso outro dia, postei sobre esse filme porque a gente amadurece como pessoa como cinéfilo e você fica menos dependente de uma história amarrada com início, meio e fim o Fellini fala bom, muita gente critica o filme porque ele não dá todas as respostas mas
Mas se você dá todas as respostas, acaba a graça. Só tem o vazio depois. Em nenhum filme dele você tem todas as respostas. E por causa disso é que a gente, volta e meia, pode se pegar pensando na Cabiria, na Gelsomina, no Zampanó, no Marcello Rubini. É, mais personagens. Porque esses personagens, eles têm vida, como se tivessem vida própria. A Doce Vida marca uma mudança completa no cinema do Fellini, eu acho.
Acho que a partir da Doce Vida, o cinema do Felino vai para um outro caminho. Vai para o segundo episódio que a gente vai fazer aí, que são bem dísparos os dois episódios. Mas deixa eu só acrescentar umas palavrinhas no que você falou aí, porque eu acho que é por aí também, né? Eu acho que a gente acaba, de certa forma, amadurecendo como cinéfilo. Eu tive a mesma experiência, eu não tenho esse filme.
também tem alguns DVDs mas não tinha justamente porque também tive a sensação de quando eu vi de um filme arrastado aquela velha sensação do que nada acontece entre aspas você não sabe qual é a história que você está acompanhando pois é, mas aí que eu acho a gente é de certa forma
eu falo eu, você mesmo, não sei como é a experiência do Rafael, mas a gente, de certa forma, foi educado, entre aspas, a correr atrás do plot. Da narrativa convencional. Do conflito. Da narrativa convencional. O que é essa história? O que vai acontecer agora? Como é que vai ser a conclusão do filme? Não sei o que, não sei o que. Uma vez que você já viu o filme, que você sabe que o filme não segue essa narrativa convencional, você fica mais livre, talvez.
para buscar outras coisas no filme. E também o fato de você assistir mais filmes que não tem essa narrativa, você começa a observar outras coisas. Você tem. Bom, só para ficar claro, eu contei a história, eu só não deixei claro que, revendo agora, estou adorando esse filme. É um filme que, com certeza, eu vou querer rever muitas vezes. Para começar, por uma razão seguinte. É daqueles filmes, e, aliás, foi o primeiro que ele faz em tela panorâmica, né?
em Wide, esse daqueles filmes que se você congelar qualquer frame dele, ele é bonito. É uma bonita fotografia. É fenomenal. É uma bonita fotografia. Você tem vários planos, vários planos de close, de quarta parede quebrada, quando a esposa do Steiner olha para a câmera, no final, quando a menina acaba desviando o olhar e olhando para a câmera, e aí meio que acontece o...
E aí meio que acontece o contrário, né? Parece que volta atrás daquele movimento que eu tinha relatado, né? Ela tá olhando pra ele, que tá meio que do lado, e daí a pouco ela olha pra câmera, cara.
Agora eu vou olhar para o observador, deixar aquele Marcelo, personagem, vou olhar para o observador novamente. O filme também é muito fluido, ele usa muito o traveling, que é uma coisa que ele começa a desenvolver, a ficar seguindo os personagens com aquela câmera que anda, que acompanha. Tem um momento que ele e a Silvia estão andando.
aliás, acho que é a Anu Kaymer ele e a personagem da Anu Kaymer estão andando e a câmera vai seguindo eles, aí tem uma coisa de, um se adianta sai do plano, aí o outro entra, quando ele salta do carro pra entrar na casa do escritório é muito interessante também se você começar a analisar esses movimentos e tem uma trilha sonora
Tem uma trilha sonora muito boa, tem a direção de arte do Piero Gerardi lá, que é o cara até que ganhou o Oscar de figurino, foi indicado. É fantástica também, lembra dos sets que a gente vê ali, né? Acho que a Fontana é a Fontana mesmo, né? Eles filmaram um bloco lá. E bem frio, inclusive.
Mas quase tudo mais é recriado lá em Tinetitá. Bem frio, estava bem frio ainda e a Anitta Egbert tirou de letra, não sei se ela era um pouquinho mais cheinha. O Mastroeno sofreu, precisou usar uma roupa de borracha. Não sei se vocês lembram, mas no filme Nós que nos amávamos tanto, do Hector Escola, ele recria a filmagem dessa cena da Fontana de Treve.
Lembro. E ele usa o próprio Fellini e o próprio Mastroianni no filme. Sim, é. Agora, vale a pena falar também do Mastroianni, a gente não falou muito sobre ele, talvez a gente falasse com o Fio de Oito Medos, que é um cara que muitas vezes perguntam pro Fellini, ele ia ter o alter ego, não, não tem nada de alter ego.
Não vejo ele, só vejo ele como um excepcional ator e que me conhece muito bem, sabe o que eu quero e consegue se moldar perfeitamente, se acha justo ao que eu quero e tal. Agora, é engraçado que eles se conheciam de vista, de cruzar em restaurante, mas não tinham trabalhado juntos. A Julieta tinha estudado com ele na Universidade de Roma.
Tinham feito teatro estudantil juntos na Universidade de Roma. O Mastroiane e a Giulietta apresentaram. E aí o Mastroiane ficou meio chateado, meio irritado, que o Fellini ligou para ele e falou, olha, eu estou te ligando, eu quero você no meu filme, porque eu preciso de um rosto bem normal, um rosto sem personalidade, um rosto inexpressivo, igual o seu.
ele foi inocente não falou por maldade o produtor lá queria o Paul Newman não tinha a menor condição de ser um cara famoso pra viver esse papel não dá pra imaginar o Paul Newman fazendo esse papel e ele queria o Henry Fonda pro Steiner também até chegou a tratar com o Henry Fonda acabou não dando certo Amém
E depois quando o filme passou nos Estados Unidos, o Henry Fonda mandou uma carta para o Fellini. O Fellini ficou todo orgulhoso de receber a carta do Henry Fonda, parabenizando o filme. Agora, outra coisa é assim, acabou o filme, estreou o filme, a igreja católica condenou duramente. Ele falou, o dia que eu fiquei mais ferido por dentro, eu vi uma igreja, tinha um cartaz.
com uma tarja preta em cima do meu nome, dizendo assim, rezem pela salvação da alma do pecador público, Federico Felim. Ele diz assim, tem gente que vai achar assim, ah não, o cara gosta de escandalizar, de fazer um filme escandaloso. Se foi escandaloso, ele fala, foi contra a minha vontade, porque eu não pretendia fazer um filme escandaloso.
não era intenção ele falou, pelo menos eu sei que teve muita gente que não se chocou e gostou do filme também ficou dividido o negócio sempre tem uns puritanos aí de plantão também é isso aí mas vamos encerrar então? na hora
Não vai falar nem do Boccaccio? Fala aí um pouquinho do Boccaccio, você que gosta tanto. Eu não gosto, quer dizer, eu não acho, é como essas antologias, né, são pequenas histórias, e nessa era pra ser seis aí, desistiram lá, eu acho que o Rossellini desistiu, e o Antonioni acabou ficando só quatro.
A gente já até falou do Visconti, quando a gente fez o episódio do Visconti e tal. O Fellini faz as tentações do doutor Antônio, né? Que traz lá o pepino de Filippo, que tinha feito o Lutz de Vareta, né? Mulheres e Luas. E um cara totalmente reprimido, um burguês ali, que trava uma verdadeira cruzada.
para que tirem um outdoor gigantesco que levantam na frente do prédio dele, justamente com a Anitta Eckberg, deitada, gigantesca, fazendo propaganda de leite, com um copo de leite na mão e um decote. Mas não é nada tão assim demais, mas ele faz daquilo como se fosse a maior depravação do mundo.
E ele, no fundo, ele tá reprimindo uma verdadeira atração por ela, né? Depois ela se materializa na frente dele, em sonhos, aquela coisa toda, né? Aí fica patente a hipocrisia do cara. É isso aí, o Bocatio, e depois viria o 8 e meio, né? Como você já falou aí, a gente já fez outro episódio. A gente retoma então de...
Julieta. A gente retoma Julieta dos Espíritos. Isso aí. Eu tô nesse, galera? No Julieta? Ou vai ser outra pessoa? Tá, claro que é você. Então tá bom. Tá aqui, ó. Deu opção para cinco filmes. Quais serão os próximos? O Julieta e qual mais? Julieta, Amarcó, Lanavivar. E não sei se vamos ter talvez o Satiricom. Poxa, eu posso recomendar um? O Casanova. Pode. Roma é brilhante.
O Roma é brilhante, é brilhante. Mas bom, eu tô só uma sugestão. Eu acho que o Casanova é uma bução também. Mas você já conhece a gente, né, Rafael? A gente fala que vai destacar, mas a gente fala um pouco de todos. A oportunidade terá. Sabe que é o Roma e eu tô ansioso pra rever. Nossa, o Roma é brilhante. Porque eu não gostei quando eu vi. Mas há muito tempo atrás, há muito tempo atrás. Nem conta. Não, não, pode ficar tranquilo. Eu adoro esse filme, mas enfim. O Julieta também é brilhante. Deve ser.
O Amarcore, então, nem se fala. Amarcore é sensacional. Ah, o Satiricon vocês vão abordar também? Tem que falar, né? Vamos passar. O Satiricon também é uma obra-prima. O Satiricon, nossa. Muita gente chama de... Como é que é? O Ladoutevita de sandália. É. O Ladoutevita da Roma Antiga. É, exatamente. Da Roma Antiga.
Isso aí. Mas valeu então a tua participação aí, Rafael. Contamos com você para o próximo. Estaremos juntos aí. Eu agradeço muito o convite aqui, a participação. Espero ter contribuído bastante para falar desse mestre absoluto, um dos meus cineastas favoritos, que é o Federico Fellini. Eu agradeço, muito obrigado. Com certeza. Galera, procura lá o canal do Rafael. Isso. Ajuda a chegar nos 10 mil lá no Facebook. Ajuda lá, dá um like lá. Quem sabe eu chego nos 10 mil lá logo.
Eu já fiz a minha parte. Vou ter que criar um perfil falso para dar like de novo. Valeu, Alexandre. Até a próxima. Até a próxima, Fred. Tchau, pessoal. Abraço!
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