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Porto Blue Fest

03 de julho de 202636min
0:00 / 36:15

Entrevista Exclusiva. Biografia.

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Host
A

Adalberto Ribeiro

ConvidadoProdutor cultural, programador e promotor
Assuntos5
  • Baco Exu do Blues· CulturaFado · Muddy Waters · B.B. King · Robert Johnson · Escravatura nos EUA
  • Portugal e experiências de MarceloAdalberto Ribeiro · Trovas Trovás Soltas · Porto Blues Fest · Santa Maria Blues · European Blues Challenge · Música Blues
  • Trajetória Profissional de Gustavo HardtEngenharia · Vilar de Mouros · Articket · Trovas Soltas · António Ferro
  • Música e a cidade de Porto AlegreConcha Acústica, Jardins do Palácio Cristal · Cosimo · Didi Priest · In Rock We Trust · Sustentabilidade Ambiental
  • Festivais de MusicaIlha de Santa Maria, Açores · Emanuel Soares · Luís Zona Alto · Ambiente de Blues
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?Voz A

Olá a todos, bem-vindos ao programa Tuga Mix. Hoje temos como convidado Adalberto Ribeiro. Portanto, Adalberto Ribeiro é produtor cultural, programador e promotor português, sendo uma das figuras mais ativas no desenvolvimento do circuito blues em Portugal nas últimas duas décadas. Está associado à produtora Trovas Trovás Soltas, através da qual tem coordenado, programado e produzido vários festivais, concursos, iniciativas ligadas aos blues, quer nacional, quer europeu.

Portanto, o seu trabalho tem, pelo aquilo que temos vindo a conhecer e que o Nuno me enviou, portanto, tens duas vertentes, não é? Portanto, bem-vindo aqui ao programa e obrigado por estares aqui estes breves minutos.

?Voz B

Obrigado a nós e obrigado eu. Peço a oportunidade de nós falarmos um bocado sobre o blues, que é aquele género de música que a mim tanto me apaixona e que, digamos, que é a minha forma profissional de viver a música. E portanto, é sempre muito bom podermos falar sobre o blues e sobre os festivais que nós, que existem em Portugal, e a forma como Portugal está cada vez mais a absorver estes géneros de música.

?Voz A

Sim, como é que, queres falar um pouco como é que tu entraste nesta atividade? Surgiu por iniciativa iniciativa tua ou porque surgiu em Portugal a oportunidade de os Luzes também entrarem em força aqui para nós, principalmente?

?Voz B

Isto acontece, eu quando comecei, eu tenho outra formação académica, tenho formação em engenharia e quando cheguei aqui no Porto, na altura naquele momento das fitas, tive ligado à organização e o bicho entrou e eu gostei e a partir de 95 mais ou menos, no século passado, eu comecei a mexer-me um bocadinho dentro deste meio. E trabalhei, fiz desde queima de fita, fiz sarau, fiz diversos jazz, estive ligado por várias vezes a Vilar de Mouros, a Carriçais e por aí fora.

E a certa altura eu cheguei a uma altura da minha vida, logo depois de ter feito a última edição que fiz de Vilar, que foi em 2014, creio eu.

?Voz A

Ok.

?Voz B

Eu disse que o rock para mim já estava, já era suficiente. Eu tinha trabalhado em Espanha também, em Vigo, onde tinha trabalhado com grandes bandas numa numa promotora que era Articket, que era uma promotora bastante grande em Vigo. E portanto, quando cheguei a 2014, acabou 2014, acabei de largar o monstro. Em 2015 eu disse: "Opa, vou procurar num nicho do mercado." Sim, já que eu estou, não é?

?Voz A

E assim, olha, agora vou fazer aqui um virar de página.

?Voz B

Rock and roll é muito bom de fazer, só que é muito estressante, é uma violência em termos de de trabalho. Eu disse: já chega, já tenho a minha dose, portanto agora vou me dedicar a outro género de música, vou procurar um nicho do mercado que não esteja explorado ainda e vou começar eu a plantar as coisas. Encontrei o blues e comecei aos pouquinhos a mexer-me. Ou seja, nós na altura, quando eu abri a Trovas Soltas em 2007, eu trabalhava comigo, trabalhava o António Ferro.

O António Ferro era um dos grandes músicos nacionais, também muito ligado à programação nacional de blues, e nós começamos por aí a fazer alguns hávamos festivais, fazíamos o Santa Maria Blues, depois o Seiya, e começámos a ligar-nos basicamente a este meio. Isto começou, digamos que chegar ao blues, eu cheguei por ter feito uma análise fria e calculista de que neste mercado estaria mais aberto, com menos concorrência, para eu poder entrar, ser o primeiro e poder fazê-lo crescer. E aí pronto, e foi assim que as coisas começaram.

?Voz A

Criaste uma forma de haver também, obviamente, o espaço para o blues, portanto criaste uma forma de dar destaque aos blues, à música blue, ao fim e ao cabo, não é?

?Voz B

Sim, nós fomos criando alguns festivais, alguns que já existiam, que nós fomos potenciar, como o Blues em Gaia.

?Voz A

Exato.

?Voz B

Eu trouxe pela última vez o último concerto do Alvin Lee em Portugal, fomos nós que o fizemos lá em Gaia. Como fazíamos o Saia, fizemos também em Lourosa, fiz em Évora, Santa Maria nos Açores, que ainda existe, que ainda que eu também ainda produzo, ao fim de 22 anos, ainda somos nós que lá estamos, já fazemos parte.

?Voz A

Lá nos Açores? Sim.

?Voz B

Lá nos Açores?

?Voz A

Bem, os Açores já está um pouco ligado às pessoas que vão para os Estados Unidos, se calhar junta-se um bocado os blues, mais com os americanos que ainda estão lá.

?Voz B

Santa Maria Luz é uma história muito engraçada, eu costumo contar isto inclusive lá fora na Europa. Uma ilha que está no meio do Atlântico, tem 5.800 habitantes, que de repente faz um... alguém se lembrou, o Emanuel Soares lembrou-se, um dia acordou e disse: vou fazer um festival blues aqui no meio." E fez. E a primeira vez que ele fez aquilo, aquilo era muito rudimentar, um palco muito estranho, um PA às cores, mesas esquisitas, tudo muito estranho.

Mas o ambiente que lá se vivia era incrível, era o verdadeiro ambiente de blues, percebes? Era uma coisa... famílias de... Harmonia muito grande, toda a gente a trabalhar, e eles que não são profissionais daquela organização, que são—

?Voz A

Mas sentiram ali aquele cheirinho que é isto, o ambiente.

?Voz B

Mas o Luís Zona Alto até assim a dito: olha, nós vamos ter que dar um jeito a isto, porque o palco não serve, vamos ter que começar a crescer um bocadinho, mas não podemos perder esta rusticidade que vocês têm, porque isto é que é o blues, isto é que é a essência da música que nós tanto gostamos. E de repente aquilo explode e nós temos 6 mil pessoas no festival, é o maior festival Muito bom, estamos a falar do espaço que há, não é?

?Voz A

E das pessoas que estão lá.

?Voz B

Já compraram um terreno enorme junto ao mar para fazer o festival, já fazem um terreno próprio, foram evoluindo, foram investindo e tudo isto pensado por eles e hoje têm uma pérola em termos europeus inclusive do que são os festivais de blues. Portanto, e tudo isto foi crescendo E eu fui crescendo com eles também, fomos fazendo ali e fomos criando novas marcas, depois apareceu o Maia, depois apareceu o Porto, agora apareceu o Águeda.

?Voz A

Já vi que és uma pessoa do Norte, tens aí várias, não é? Aproveita jovemente aí o espaço do Norte, que as pessoas do Norte são extraordinárias, muito sinceramente.

?Voz B

Mas eu também já fiz um festival de blues e reggae em Monsaraz, portanto nós andamos—

?Voz A

Ótimo, pois é isso, é isso. Isto foi em que ano? Portanto, o início, esse início que falaste agora, por exemplo, nos Açores.

?Voz B

Foi em 2006.

?Voz A

2006, portanto já com 20 anos. Portanto, ao fim destes anos, o que é que criou-se uma grande maturidade e uma forma de estar anual, não é? Já se criou ali uma marca, não é?

?Voz B

Neste momento Portugal já existe no mundo e na Europa dos blues. Existem cada vez mais festivais de blues organizados em Portugal. O que é realmente muito bom, porque quanto mais festivais houver, mais as pessoas conseguem ouvir, ouvem falar neste género e chegam ao género de música. Isto é um género, é um nicho de mercado, não são festivais de massas. As bandas que nós temos em Portugal, que já são, temos várias bandas muito boas, também lutam e para poderem sobreviver no blues, que é muito difícil, porque Mais uma vez, não é um isto de massas, mas com o crescimento e o aparecimento de vários festivais hoje, desde o Algarve até cá acima, existem festivais de blues, cada vez se ouve falar mais nisso e também começamos a despertar o interesse de alguma imprensa, alguma média, da RTP também, de alguns canais começam a olhar para nós já, o que é que se passa aqui. Quem são estes malucos que andam aqui a fazer?

?Voz A

O ideal seria, como por exemplo o Flip La Féria, de vez em quando eu tenho ido às revistas, sempre que há uma revista, e já entrevistei o Flip La Féria, é poder haver a hipótese de, como tu falaste, RTP ou SIC, por exemplo, não é, poderem gravar um espetáculo e passar a ser televisivo. E é uma forma de divulgar, e essas pessoas que se enquadram nessa música Ou às vezes não é bem o enquadraço, é momentos que nós temos na vida em que não queremos rock, mas queremos algo tipo estar a beber ali um martini e ouvir os blues, por exemplo.

?Voz B

Há uma coisa engraçada que eu também costumo dizer às pessoas, ou seja, toda a gente gosta de blues. Não há ninguém que não goste. Aqueles que sabem o que é o blues e aqueles que não sabem, mas que gostam. Quem é que não gosta de Beatles?

?Voz A

Aí está.

?Voz B

Quem é que não gosta de Rolling Stones? Led Zeppelin, são tudo bandas que vieram ter raiz no blues.

?Voz A

É tudo a minha altura.

?Voz B

A história está cheia disso. O blues nos Estados Unidos ganhou a dimensão que ganhou dando luz ao Muddy Waters, ao B.B. King.

?Voz A

Exato.

?Voz B

Foi com a chamada British Invasion, quando os Rolling chegaram lá e quando os Beatles chegaram e perguntaram: olha, eu quero ir ver um concerto do de uma de volta.

?Voz A

Isto é apenas uma conversa aqui.

?Voz B

Há uma inversão engraçada e portanto as pessoas muitas vezes gostam tanto de Rolling Stones e por aí fora e os Rolling Stones são uma banda de blues na sua essência, na sua raiz, são. Ainda bem, há 2 ou 3 anos lançaram um álbum de blues outra vez.

?Voz A

Pois há uma coisa interessante, como eu moro aqui na área de Lisboa, portanto na grande área de Lisboa em que é luz, nós temos vinda no TARC, nos nos últimos anos, já por exemplo muitos americanos também vieram para cá, para Portugal. Já começas a notar ali alguma ligação? Já houve alguma hipótese de, por exemplo, existem determinados departamentos, não é, em que são as comunidades americanas, por exemplo, não é, em que tem a hipótese de ter esse, ter a hipótese de serem comunicados que existem cá em Portugal também estes espetáculos? Já pensaste nisso de alguma forma?

?Voz B

Nós já fizemos e fazemos regularmente alguns protocolos com com a embaixada dos Estados Unidos, de forma a podermos promover o blues, porque o blues é uma forma de música americana. Exato, exato. E vamos ver, o que eu tenho notado realmente muito, nomeadamente aqui no Porto e nas Caldas do Rainho, onde também participo, no centro organizado pelo Mário Branquinho, nós programamos a parte do blues internacional. Nota muito a presença de muitos americanos que vão lá assistir aos concertos.

Ou seja, e aqui no Porto, o Porto Blues Fest já começa a ter 30, 40% dos seus, da sua assistência já são estrangeiros.

?Voz A

Não só aqueles que vêm visitar o Porto, mas que não tanto, ainda menos valor que aquilo que é nosso, obviamente. Mas acho que agora este retorno, não é, como estou a ouvir para cá, há este retorno. E todos aqui vários festivais que eu estou a ver aqui na biografia, não é? O Porto Blue Fest, Gaia Blues, Santa Maria Blues, Lisboa, pronto, falando da capital, obviamente, Coimbra, Maia, Erguengos Wine and Blues. Como é que, por exemplo, Erguengos, que ambiente é que é criado ali?

Tens um espaço e Crias, existe algum ambiente que se cria juntamente com a música?

?Voz B

Como é que é? O que nós fizemos?

?Voz A

Sim, o que quer dizer com isto é, estes estão ali a assistir ao espetáculo ou eventualmente há também alguma interatividade no local onde isso acontece?

?Voz B

Nós fazíamos o festival durante aquela férias chamadas "port games". E nós utilizávamos o palco deles, ou seja, a feira começaria num dia, nós fazíamos 2 dias antes.

?Voz A

Exato, é ótimo.

?Voz B

Aproveitávamos aquela infraestrutura toda à volta, das barraquinhas e tudo, e as pessoas que lá iam também. Ao longo dos 5 anos em que fizemos aquilo, nós conseguimos criar uma comunidade de gente que ia de propósito ver o festival. E vinham de Lisboa também, vinham do Algarve, nós Tentamos fazer programações equilibradas, mas sempre com nomes que fossem transversais, como são os Animals ou como são os Tânia Zapata, também lá estiveram, os Dr.

Feelgood e por aí fora. Ou seja, bandas míticas que têm legião de fãs e que podem trazer gente e que de uma forma nós também mostramos o blues.

?Voz A

Falando aqui, mantendo aqui o nosso pensar. Tu falaste há pouco de bandas portuguesas, queres dar o nome de algumas para quem está a ouvir pela primeira vez e eventualmente se calhar já ouviu algumas músicas e não sabe que são portugueses que estão a cantar, não é?

?Voz B

Olha, nós aqui em cima no Norte felizmente estamos bem servidos pelos Buddha Power Blues aqui de Braga, pelos Peter Stommer da The Blues Society aqui também aqui do Porto, São duas grandes bandas. O Kikan, The Blues Refugees, do Algarve, o Vítor Bacalhau. Em Lisboa, como é que eles se chamam, que também já foram representar Portugal ao ABC na altura para ir na Alemanha, já nem me lembro. Eu vou lembrar do nome deles, mas são tudo bandas top.

?Voz A

Top, exato.

?Voz B

Mas cada vez top, mas top porque, por exemplo, Os Kikwende Blues Refugees vieram, foram representar Portugal ao European Blues Challenge que nós organizámos, nós aqui em Braga, em 2024, ficaram em 3º lugar entre 24 bandas europeias. Sim. O Vitor Bacalhau, quando eu fui júri do EBC em Hel na Noruega, ficou em 3º lugar. Portanto, estamos a falar já de um país que chegou apenas em 2016 a esta organização que se chama European Blues Union.

Que organiza aquilo que é a Eurovisão do Blues, que é o European Blues Challenge. Na verdade é que nós chegámos lá e eles já sacaram prémios, os Peterson ficaram em 5º lugar. Portanto, estamos a falar de bandas que têm já um reconhecimento, já começam a ter algum trabalho internacional, o que é realmente muito, muito positivo.

?Voz A

Exato, exatamente. Eu estou a ler aqui a biografia, portanto, a programação procura misturar artistas tradicionais de blues com músicas de outras áreas, tendo criar novos públicos para o género, para o género, numa, portanto, tentas criar aqui, ou seja, juntamente com os portugueses, também algumas bandas que vêm de fora para este espetáculo atuar.

?Voz B

Alguma, vou te dar, deixa-me só dar-te um exemplo. O blues está a passar por uma fase que nós todos, nós estamos a ficar mais velhos, desculpa, e com cabelo branco. Então, um dia destes, nós não vamos ter muita gente aí a ver, a ir aos blues, porque já não estamos cá. Pois. A minha intenção hoje em dia, ou já de uns anos para cá, é misturar, é fundir algumas, algumas coisas, misturar o blues com jazz, como quando nós fizemos com o Buda e com a Maria João, fizemos aqueles dois discos.

Como eu já fiz em Coimbra, em que juntei, fiz um programa que dizia: e se o Cais Paredes e o B.B. King se encontrassem e fossem beber um copo a um bar, o que é que ia acontecer? Juntei a guitarra de Coimbra com músicas do B.B. King e estou sempre à procura de encontrar novas sonoridades para poder chamar gente cada vez mais jovem para o blues. É certo que nós temos uma mesma geração internacional de guitarristas e bateristas e cantores cada vez mais que estão a chegar ao blues, que são mais novos, mas em Portugal isso ainda não está a acontecer.

Nós, em Europa, a Europa está a envelhecer e mesmo nós dentro da EBU temos esta luta que é tentar trazer cada vez mais gente nova para o blues. E essa é a intenção de eu fazer esse tipo de de fusão e de buscar clássicos com gente jovem para que as pessoas possam, para que a gente possa ir buscar a malta nova para o blues. De outra forma, nós não vamos conseguir crescer muito mais. Mas, a mais, nós temos que dar oportunidade aos miúdos de poderem tocar e de procurarem o seu próprio blues e que não copiem, e sobretudo que não copiem aquilo que já foi feito.

Chicago Blues, criar originais. Já foi feito e foi bem feito, portanto não vale a pena, nós estamos a copiar aqueles géneros, mas tentar criar um género novo, percebes? E é isso a intenção deste tipo de programações, de cruzar os Ténias After com o Spitterstorm que vai acontecer no Porto, é termos uma banda mítica que esteve em Woodstock, que vai, quem vai abrir é uma banda de malta muito mais jovem, músicos todos eles trimbadistas, mas muito mais jovens, para eles poderem cruzar e se poderem conversar e poderem aprender e poderem trocar experiências entre eles, percebes? É um bocado isto também.

?Voz A

Tu tens tanto uma ligação à Europa, não é? Europeia, ao blues. Portanto, tu estás ligado ao circuito europeu através da organização European Blues Challenge, que é isso que é a partir daqui que tudo nasce.

?Voz B

Eu pertenço à direção da European Blues Union. Sim. Ok, e essa organização é que organiza, paraço a redundância, que organiza o European Blue Challenge. E eu, enquanto estava solto, organizei este evento que é considerado, que é a mesma coisa que Eurovisão. Eu costumo dizer isto, é uma provocação, espero que ninguém me leva mal, mas o European Blue Challenge é a mesma coisa que Eurovisão, mas com música. É a única diferença, é que nós fazemos música, mas não há política em cima.

Pronto, exatamente, não é só música. Nós fizemos a primeira vez em Portugal em 2019, em Ponta Delgada, com o apoio do Santa Maria Blues. Fizemos há 2 anos em Braga também, nós. O ano passado fizemos em parceria com a organização em Split, e este ano tivemos em parceria com organização na Polónia. Para o ano vamos estar em Vila do Conde a fazer também as coisas, e em 2028, se tudo correr bem, estaremos em Espanha a fazer também este evento.

E portanto, este evento que congrega 24 bandas de 24 países diferentes em 2 meios finais e uma final conjuga também um Blues Market, que é uma exposição de festivais, de bandas que podem conversar, podem trocar contactos e fechar negócios. E portanto é essa organização onde eu estou ligado e onde tem essa direção, né?

?Voz A

Exato. Eu estou aqui a ver o póster, 24 e 25 de julho, Concha Acústica, Jardins do Palácio Cristal, no Porto. Exatamente. Queres falar o que é que vai acontecer nesse dia, nestes dias?

?Voz B

Mais uma vez, mais uma vez, para te dizer que Nós criamos o Porto Blues Fest, que não se reduz só ao festival de blues, de música, com os concertos das bandas e não sei quê. Nós temos um âmbito muito maior. E aquilo que mais nos importa, mais uma vez, é o apoio aos jovens. Nós temos uma parceria com a Academia de Guitarra do Porto, que tem como método de ensino blues. Exato. Essa parceria desenvolvemos desde o ano passado um palco jovem.

Onde damos oportunidade a combos da Academia de Guitarra do Porto a tocarem naquele palco a partir das 18:30. São 2 horas de concerto onde os miúdos são tratados como qualquer músico profissional, com as mesmas exigências, obviamente, mas também com a mesma mordomia. Eles também gostam de terem o seu catering, o seu sítio, e nós tratamos as pessoas todas iguais. E é uma forma de os preparar também a eles para o futuro, quando acabarem o curso e quiserem ser músicos, percebes?

E dá-lhes a possibilidade de poderem tocar e escrever e dizer: vocês façam as vossas coisas, não interessa se é bom, se é mau, façam as vossas coisas, são as vossas. Cheguem lá e mostrem, que vocês têm lá um espaço para mostrar o vosso trabalho. E isso é importante para lhes darem incentivo para eles comporem, escreverem e fazerem o seu próprio blues, percebes?

?Voz A

Exato.

?Voz B

Depois, em parceria também com a European Blues Union, nós enviamos o melhor aluno da academia para um workshop em outubro na Noruega, na Little Steven Blues School. Little Steven é o guitarrista do Bruce Springsteen e ele vai estar com mais de 220 miúdos da Europa toda durante 4 dias intensivos de aprendizagem e de convívio. Mais uma vez, para dar esta— nós queremos sempre, sempre, o nosso grande foco é termos os jovens juntos, junto do blues, e que comecem a tocar e a fazer.

Eu quero é ter bandas deles já no próximo ano. Já queria contratar um trio, um quarteto deles, pagar-lhes «Vejam tocar, que vocês já merecem», porque isto é a única forma que nós temos que este género vá sobreviver, senão desde nós morremos, não é? Temos outra função importante para nós que é a parte ambiental. Nós quase desde o início temos uma ligação, acho que há milagres, aqui no Porto à Universidade Católica Portuguesa, e é uma forma que nós encontramos de podermos obviar a nossa pegada.

Nós pagamos viagens de avião, utilizamos flyers e cartazes, portanto lixo basicamente, Poluímos isto e, portanto, nós, 1 euro de cada pessoa que lá entra, nós damos à Semilauas para fazerem a replantação de árvores no nosso distrito. Nós já participamos inclusive em algumas dessas iniciativas. O Porto Blues Fest não se resume só àquilo que acontece depois à noite na Conchá Acústica. E depois é um festival que tem uma É um estilo muito, muito particular, porque o sítio é lindíssimo, um sítio paradisíaco.

Olá, senhor Gustavo! Nós temos os pavões à solta, as galinhas à solta lá, os miúdos a correr, famílias inteiras deitadas na relva, sentadinhos numa— é um ambiente incrível, incrível.

?Voz A

Exato.

?Voz B

E a construção acústica é uma arte nova, portanto é uma coisa realmente muito bonita e Isso dá realmente uma característica única àquele festival. E depois temos a programação, obviamente, no dia 24 e dia 25. Nós tentamos mais uma vez fundir um bocadinho as coisas, mas este ano, dia 24, temos os Cosimo, os italianos, que não é um blues clássico, vêm fazer um bocadinho de ragtime, de swing dos anos 20, com clarinete, banjo, viola, contrabaixo, bateria, piano. Vai ser uma festa pegada.

?Voz A

Uma mistura agradável, de certeza.

?Voz B

Dá para dançar. E depois temos a A Didi Priest vem do Texas e faz uma mistura daquele blues mais do sul, mais subturno, mas depois enfia lá dentro um bocadinho de gospel, um bocadinho de soul, e aquilo começa a abrir.

?Voz A

Estou curioso, estou curioso.

?Voz B

É uma coisa, é uma coisa, e ela canta muito bem, toca viola, toca guitarra, toca violino, é uma coisa muito boa.

?Voz A

Não leves a mal, eu por acaso ainda, este programa já tem vários anos, E não é por maldade nenhuma, ainda não aconteceu entrevistar blues, por acaso ainda não aconteceu. Já entrevistei fado, artistas conhecidos, esses que andam aí, que nós conhecemos cá em Portugal, não vale a pena estar aqui a dar destaque a eles, mas obviamente se houver a necessidade de divulgar, nós estamos aqui para passar a música para os colegas portugueses, está bem?

Não é? Não é por maldade, simplesmente sim, houve uma banda de jazz, mas era brasileira, sim, que esteve cá, foi em Cascais, foi giro, foi um momento bastante único, é um momento fechado, sim, aí foi jazz, estão agora a acordar, mas foi uma coisa brasileira, uma coisa simples, já foi há uns anos.

?Voz B

O que tu devias fazer era a 24 de junho meter-se num comboiozinho de manhã e vires parar aqui ao Porto e se me confirmasses isso, com quanto tempo eu tenho tanto gosto em receberes aqui.

?Voz A

Agradeço-te imenso. Vamos ver como é que decorre a agenda, mas agradeço-te imenso.

?Voz B

É assim, tu vias ao vivo o que é que eu disse. Aquilo que eu— este entusiasmo todo que eu tenho ao falar do Porto Blues Fest, nomeadamente, porque é meu e do Costa, da In Rock We Trust, somos os dois sócios. É o nosso bebê, é o nosso menino que nasceu em 2017 e nós vamos crescendo com ele, vamos acrescendo e tal.

?Voz A

E se conseguis pôr a picar aí a malta nova para ter originais, eu concordo contigo, não tem que haver originais a essa necessidade, não é?

?Voz B

Tu não consegues sobreviver no mundo da música sendo uma banda de covers. E o problema é quando tu tens a capacidade, quando as pessoas têm no blues, quem vai tocar o que já fez o B.B. King, o que já fez o Muddy, o Robert Johnson, O Charlie Payton, seja quem for, eles já fizeram e fizeram melhor porque é deles.

?Voz A

Pois, exato.

?Voz B

É o Rolling Wolf, aquilo é tudo deles, não vale a pena, vale a pena, mas o blues nasce mesmo nos Estados Unidos, nasce de uma realidade que eles tinham na altura, da escravatura, do algodão, e aquilo nasceu dali.

?Voz A

Tu notas o sentimento no na música, é uma música sentida, será isso?

?Voz B

É impossível, é impossível, não é impossível ninguém, é impossível alguém ficar indiferente ao blues, como é impossível alguém ficar indiferente ao fado.

?Voz A

Exato.

?Voz B

Porque as duas músicas, sendo de origem da alma do povo, carregam todo esse peso e toda essa energia. E cada uma delas, quer o fado, quer o blues, falam das mesmas coisas. São canções de trabalho, são, falam do nosso dia a dia, de amor, de ódio, de ciúmes, daquilo o que nós passamos no nosso dia a dia. Exatamente. É impossível. Quem está a cantar um blues está a contar a alguém o que lhe aconteceu ou o que viu acontecer. Portanto, isso está lá dentro.

É impossível alguém ficar indiferente a ouvir um blues, como é impossível alguém ficar indiferente a ouvir Fado.

?Voz A

Exato, exatamente.

?Voz B

É a mesma coisa.

?Voz A

Tu este ano fizeste alguma alteração em relação aos anos anteriores? Alguma novidade ou tentas limar algumas arestas ou não há essa necessidade?

?Voz B

Nós vamos, o que nós estamos a tentar fazer agora é consolidar o palco de hoje, o palco, o Youth, que é isso que nós vamos fazer este ano, dando mais condições, preparando mais as coisas para que os miúdos tenham ainda mais condições e é isso que nós neste momento estamos agora, vamos sedimentar aquela parte do do festival. E depois, para o ano que nós fazemos 10 anos, aí vamos pensar em fazer alguma coisa diferente. Mas o objetivo neste momento é consolidar aquilo que nós começamos de novo, começamos este palco hoje, o ano passado, portanto ainda é muito recente, nesta aposta clara com, ou ainda mais clara, porque esta questão das bolsas de estudo.

Ai, temos outro primeiro engraçado, um dos melhores alunos do ano da Academia, desde o início, desde a primeira edição, toca com o Cabeça de Cartaz. Portanto, o miúdo vai tocar com os 10 dias after. E portanto, temos um miúdo que hoje em dia já está a tremer das pernas, que vai partilhar o palco com os— E isso é mais uma oportunidade, é mais uma responsabilidade que nós lhe damos, percebe?

?Voz A

Claro, exatamente.

?Voz B

Nós este ano, como eu disse, estamos a tentar consolidar estes palcos de juventude, E depois no próximo ano, com o 10º aniversário, vamos então ver para onde é que vamos.

?Voz A

Nós ainda temos para aí uns 8 minutos. Queremos saber quem é que tu és afinal.

?Voz B

Como tudo na vida, e a música inclusive, é muito mato. Eu estou ligado às ciências exatas porque engenharia é o que é. Já não exerço, é verdade, há muitos anos, e deixei a engenharia pela música.

?Voz A

Mas és um homem do Porto, não és?

?Voz B

Sou um homem do Porto, triperino, nascido no Porto. Em 78. Portanto, estou daqui, não sou portista, tenho também a dizer a toda a gente, espero que não me levem a mal. Não, eu ia dizer isso, eu não vou falar sobre clubes, mas eu digo que não sou portista, sou dos Paulos Boivin e Benfica, com muito orgulho, e sofro muito também com isso, obviamente. Faz bem. Mas sou do Porto, estou ligado à música porque, e gosto muito daquilo que faço, gosto muito de música, sempre gostei, Toco de vez em quando uma guitarra também, mas muito mal.

Mas puxou-me para isto porque eu sempre gostei de música e portanto agora fui, como não tenho o talento para estar em cima de um palco a cantar e a tocar, fico no backstage atrás na parte organizativa e a poder potenciar esses talentos todos que possam chegar a palco. Mas para mim a vida, a música significa só vida, mais nada. Eu não tenho outra vida que não isto, não consigo ver a fazer outro tipo de coisas que não seja alguma coisa ligada à música.

?Voz A

Ao fim e ao cabo é o teu cantinho, não é? É aquele cantinho que é espaço teu.

?Voz B

É o espaço onde eu me realizo, percebes? Enquanto profissional, enquanto pessoa, enquanto homem. É uma— a música é uma indústria É um bocadinho agressivo, as pessoas acham que é, e é realmente agressivo, mas eu não gosto, também tenho amigos, criei grandes amizades de gente que trabalha comigo, eu normalmente trabalho nisto há 25 anos, há 30, 32, e eu tenho funcionários de sistema de som, técnicos de frente, técnicos de placa, que são os mesmos de sempre, e portanto nós criamos uma amizade muito grande, e ele também, e tenho sempre o prazer de os receber em minha casa e nós estarmos juntos, A música traz isso também, traz essa harmonia e trouxe essa harmonia na minha vida.

?Voz A

O teu caso traz essa parte toda emocional e o gosto que dá, não é? De tanto trabalho que dá a fazer, o gosto que dá.

?Voz B

Há uma coisa que eu adoro fazer. Quando acabo um concerto, seja onde for, eu vou num teatro, vou ao foyer, se for ao ar livre, vou para a zona de saída, ver as pessoas saírem com um sorriso na cara. E quando vejo toda a gente com um sorriso na cara e feliz da vida, o meu trabalho foi bem feito.

?Voz A

Exato, essa felicidade transmite, passa de sinais positivos, ficas também como estás agora, bastante feliz. Há 30 anos atrás não te vias nisto?

?Voz B

Não, porque eu há 30 anos atrás estava a acabar o curso e estava a pensar no que era normal, ia fazer umas perninhas ali e acolá, pronto, já fazia profissionalmente algumas coisas, mas não era o meu, a minha intenção de de agarrar na música 100%. Não, porque depois o país deu tantas voltas e nós em 2004, mas tivemos a primeira pancada em termos de crise, a construção civil levou uma pancada das grandes, o Estado não pagava, e eu resolvi disso, olha, eu não vou estar para trabalhar aqui para receber em 5 anos ou 6.

Empresa que tinha antes que nessas neiras cheia, tratei disso, agora vão virar para ali. E com mais ou menos 38 anos, 40, mudei, wasimood, para a minha vida.

?Voz A

E foi em boa idade, em boa altura de idade, sim.

?Voz B

Aí disse eu: não quero saber, faca na boca, vamos embora e vamos conseguir. E pronto, e estou até agora em contínuo desde essa altura, 2005 mais ou menos.

?Voz A

Quando estás, ainda temos aqui uns 4 minutinhos, aproveitamos para conversa, quando estás lá fora O que é que feedbacks é que vais recebendo? Não sei se em trabalho relacionado com isto, se são portugueses, se são pessoas que não imigrantes. Que contactos é que tens tido?

?Voz B

Os contactos que tenho regularmente é com malta que não são portugueses, né?

?Voz A

Estão ligados ao blues, não é?

?Voz B

Estão ligados ao blues e são bandas e organizadores de... De festivais como ele, que nós encontramos, quer dizer, temos reuniões de quase a mesma mesa e encontramos pelo menos 2 vezes por ano presencialmente. E às vezes eu vou apresentar a EBU também a alguns festivais aí na Europa e tal, mas é isso, essencialmente eu ligo, estou ligado mais a isso. Nunca já pensei em entrar um bocadinho no mercado da imigração portuguesa, mas estas coisas são miúdas quando se calhar com—

?Voz A

Exato. Eu percebo o que tu estás a dizer. O que se passa aqui é que obviamente que quem mora— eu já vivi nos Estados Unidos e quem está lá fora, pronto, a saudade é sempre aquela música portuguesa, não é? Porque lá fora vivemos com outras músicas.

?Voz B

É uma coisa estranha.

?Voz A

Não é?

?Voz B

Eu em 2013 ou 2014 tive uma turnê com uma banda que é uns fado em si bemol, que misturavam fado com jazz, com blues, com morna, uma coisa assim meio maluca. Nós tivemos duas semanas em Nova Iorque, fizemos dois concertos e apanhámos em alguns deles, alguns bares, alguns clubes de jazz, apanhámos malta jovem de filhos ou netos de portugueses, terceira geração, a queixarem-se precisamente do contrário, dizerem: olha, nós estamos fartos de ver a mesma coisa que vem sempre de lá, aquela malta tem nhã-nhã-nhã e vocês estão aqui, quer dizer, É aquele produto que nós queremos ouvir da música portuguesa.

?Voz A

Um dos objetivos deste programa é realmente isso, é passar o que nós temos, obviamente também tradicional, mas isso da Gift e Boazinha e esses artistas todos têm passado por nós, mas também passar aquilo que é feito por nós menos conhecido. Portanto, o objetivo é esse, para dar destaque. E é como tu dizes, é isso, Nós íamos ter aqui pano para mangas, era mais meia hora de conversa. Gostei imenso de falar contigo. Obviamente que surgiu outra oportunidade, nós podemos falar, quem sabe depois do espetáculo, então, voltar a conversar e poderes fazer aí um review de tudo o que aconteceu.

Mas tens aqui uma antena aberta, caso seja necessário entrevistar algum artista, estás à vontade. Muito obrigado. E isso é que é muito importante, é um país pequeno, com muito mar, mas não metemos muita água. Criamos coisas novas.

?Voz B

Exatamente, não metemos muita água e temos muito talento. Exatamente, é isso aí. Olha, muito obrigado, foi um gosto mesmo conversar contigo sobre música. Nós não temos muitas oportunidades de encontrarmos do outro lado alguém que tenha esta vontade também em falar sobre música, portanto muito obrigado e o convite está feito. Volta repeti-lo, mete num comboio, vem cá cima no fim de semana em julho, 24 e 25, e eu convido, estás cá ao fim de semana, assistes ao festival e vens daqui, vais sair daqui com um sorriso ainda maior que o que tens agora.

?Voz A

Ok, muito obrigado, ok?

?Voz B

Ok, velho, obrigado.

?Voz A

Um forte abraço.

?Voz B

Igualmente, um grande abraço, obrigado.

?Voz A

Fica bem, fica bem.

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