137 | Escola Paulista (Brutalista)
Uma arquitetura que ajudou a moldar a identidade visual da maior metrópole da América Latina. Em seus prédios de concreto encontramos o desejo de honestidade e convivência. Dê o play para saber mais sobre a Escola Paulista Brutalista.
SIGA >>> https://www.instagram.com/arquiteturaobjetiva/
CAPA: Foto de Fernando Stankuns via Wikimedia Commons | https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Fau_usp.jpg
CRÉDITO DA MÚSICA: Chocolate Cookie Jam - An Jone - https://music.youtube.com/watch?v=brlfYLrU8Ns&si=pCo7qVnlydsdJswm
REFERÊNCIAS:JUNQUEIRA DE CAMARGO, Mônica. Artigas e a Escola Paulista. arq.urb, [S. l.], n. 14, p. 135–155, 2015. Disponível em: https://revistaarqurb.com.br/arqurb/article/view/254. Acesso em: 26 abr. 2026.SANVITTO, Maria Luiza Adams. As questões compositivas e o ideário do brutalismo paulista. Arqtexto. Porto Alegre. N. 2 (2002), p. 98-107, 2002.SANVITTO, Maria Luiza Adams. BRUTALISMO PAULISTA: UMA ESTÉTICA JUSTIFICADA POR UMA ÉTICA?. Seminário Docomomo Brasil: Anais, p. 1-24, 2013.
ZEIN, Ruth Verde. A arquitetura da Escola Paulista Brutalista: 1953-1973. Tese (Doutorado em Arquitetetura) - Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2005.
https://www.riba.org/explore/riba-collections/architectural-styles/brutalism-movement/
- Escola Paulista BrutalistaVila Nova Artigas · Paulo Mendes da Rocha · Joaquim Guedes · MASP
- Características do Brutalismohonestidade construtiva · concreto aparente · grandes vãos
- Influência do contexto histórico
Concreto, luz e vão livre. Edifícios que parecem inacabados e que desafiam a gravidade. Eles foram criados por arquitetos que acreditavam que a arquitetura poderia ser um ato político e social. O Arquitetura Objetiva de hoje vai falar sobre a Escola Paulista Brutalista. Siga o perfil do podcast, deixe uma avaliação de 5 estrelinhas e bom episódio!
Para começar o episódio, vamos relembrar bem rapidamente o que é o brutalismo. O brutalismo é uma expressão arquitetônica que surgiu na Europa após a Segunda Guerra Mundial. A sua arquitetura se diferencia por deixar amostras, materiais e técnicas construtivas utilizadas.
sem o uso de revestimentos para camuflar suas estruturas e instalações. Assim ficam aparentes os pilares, as vigas, as vedações, tubulações e demais componentes construtivos, permitindo a clara leitura do processo construtivo. Essa ideia usualmente é chamada de verdade ou honestidade construtiva. Em termos compositivos, a arquitetura brutalista se caracteriza pela ênfase na massa da construção, com enormes estruturas de efeito pesado e dramático.
Frequentemente, as suas formas são inusitadas e exploram o potencial estrutural do concreto armado através de grandes vãos e balanços. O brutalismo se justifica tanto pela escassez de recursos gerada pela Segunda Guerra, como pela grave crise habitacional ocasionada pelo conflito.
a arquitetura precisava reconstruir moradias de forma eficaz, rápida e econômica. Por isso, a arquitetura brutalista esteve fortemente associada ao socialismo, uma vez que ela pretendia sanar problemas sociais da época, servindo às necessidades da classe trabalhadora.
Mas, não se engane, o nome brutalismo não está diretamente ligado a algo ruim ou rude. O termo brutalismo se origina da expressão francesa beton brut, que obviamente eu estou pronunciando da forma equivocada. Mas, de qualquer forma, essa expressão significa concreto, aparente ou bruto. Esse nome foi utilizado pela primeira vez, em 1953, pelos arquitetos britânicos Allison e Peter Smithson para descrever o seu próprio trabalho através da expressão novo brutalismo.
No entanto, a unidade de habitação de Marseille, projetada por Le Corbusier já no final dos anos 40, costuma ser considerada o marco inicial do brutalismo, dada sua robusta estrutura em concreto armado aparente. Certo, e o que foi então a Escola Paulista? Bom, quando se fala em brutalismo no Brasil, as obras criadas em São Paulo se destacam, girando em torno do que ficou conhecido como Escola Paulista Brutalista.
A Escola Paulista reúne um conjunto de obras projetadas entre os anos 50 e 70 por profissionais baseados em São Paulo, com clara filiação ao brutalismo. Não quer dizer que todos os profissionais nasceram em São Paulo, mas sim que eles estavam atuando em São Paulo e fazendo essas obras dentro desse período. Escola que tem o sentido de doutrina ou sistema filosófico ou artístico de um grupo de autores.
Na verdade, o termo escola paulista não é um consenso entre todos os historiadores. Nem todos os estudiosos desse assunto acham que é adequado agrupar essas obras e esses arquitetos dentro de uma escola. Seja como for, o fato é que essa nomenclatura se popularizou e é amplamente utilizada como recurso didático que nos ajuda a compreender melhor esse tema.
O florescimento do brutalismo em São Paulo não é fortuito. Há diversos condicionantes que tornaram São Paulo o lugar mais favorável para desenvolver obras brutalistas. Uma das mais importantes é a transformação da região no polo industrial do país, resultando no rápido desenvolvimento econômico e urbano da cidade durante os anos 50.
Outro importante fator foi a tradição do ensino de arquitetura em São Paulo, que mantinha fortes vínculos com o curso de engenharia. As principais escolas de arquitetura de São Paulo nasceram dentro das escolas de engenharia e durante muitos anos arquitetos eram formados com o título de arquiteto-engenheiro.
Essa forte base de conhecimentos estruturais seria uma importante aliada, então, para o desenvolvimento criativo de obras que enfatizam a estrutura e o sistema construtivo da arquitetura. Por um outro lado, a emancipação dos principais cursos de arquitetura de São Paulo com relação às escolas de engenharia no final dos anos 40 também vai contribuir para a formação da Escola Paulista. A Escola de Arquitetura da Universidade Mackenzie foi criada em 1947.
e a da USP, em 1948. E isso aumentou a quantidade de arquitetos formados na cidade e certamente contribuiu para uma maior liberdade criativa dos profissionais. Certo, e quais são as características da Escola Paulista? Bom, apesar de ela ter sido influenciada pelo brutalismo originado na Europa, ela se diferencia por um conjunto de características bem próprias.
De acordo com a professora Mônica Junqueira, algumas características construtivas recorrentes na Escola Paulista são as seguintes. A composição em monobloco, a cobertura em grelha, a iluminação zenital, o uso de poucos materiais e sempre aparentes, e o emprego de estruturas de concreto armado que combinam sofisticadamente cálculo e desempenho, resultando em expressivas formas para pilares, vigas e paredes.
Outros aspectos recorrentes da arquitetura da Escola Paulista são o pé direito duplo, os pátios, os grandes vãos e os vazios. Essas características foram utilizadas para criar um dos aspectos mais relevantes da Escola Paulista, que é a espacialidade de grande impacto visual.
Já especificamente em projetos residenciais, uma característica bastante presente foi a recusa à compartimentação excessiva dos espaços. Nas casas feitas pela Escola Paulista, se privilegiava a unificação dos espaços, principalmente nas áreas de estar, jantar e lazer. Agora, cabe aqui uma comparação com a também famosa Escola Carioca. Imagine o seguinte.
Enquanto no Rio de Janeiro a escola carioca, que foi liderada por Niemeyer e pelo Lúcio Costa, ela buscava curvas, leveza e o diálogo com a natureza exuberante, em São Paulo o foco era outro. A escola paulista buscava o peso, a rigidez e a solução técnica. É uma arquitetura de, entre aspas, músculos expostos.
Ok, e quem são afinal os arquitetos e as obras da Escola Paulista? Há muitos casos. Aqui eu vou destacar alguns dos principais. O Vila Nova Artigas é considerado o mestre e o grande articulador da Escola Paulista. Artigas acreditava que o arquiteto era um educador e que a arquitetura deveria ter um fim social. A sua obra máxima é considerada a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Se você entrar na FAO, que é a Faculdade de Arquitetura da USP,
Vai notar que não tem portas na entrada principal. É um espaço contínuo, com rampas largas e um teto de concreto que permite a entrada de luz zenital. A ideia era que todos os estudantes e professores conseguissem se ver ao mesmo tempo. A ausência de portas era uma clara alusão à democracia. Um espaço onde todo mundo pode entrar. É uma arquitetura que incentiva o encontro e o diálogo.
Outra figura de destaque é Paulo Mendes da Rocha, que conseguiu fazer obras ao mesmo tempo brutalistas e elegantes. O Museu Brasileiro da Escultura, o MUBI, é um exemplo muito bom. Ele se configura em um enorme portal de concreto que sombreia uma praça. E o museu está praticamente todo semi-enterrado, abaixo do piso. É uma obra importante de São Paulo e que vale muito a pena ser conhecida.
Outro nome fundamental é Joaquim Guedes. A sua obra está focada na funcionalidade e na integração com o urbanismo, trazendo uma visão muito racionalista para residências e edifícios públicos. E, claro, não podemos esquecer de uma obra que, embora seja de uma arquiteta que transitava por várias vertentes da arquitetura, é um ícone incontestável do brutalismo paulista. O MASP, da Lina Bobardi.
Com um enorme vão livre de 70 metros, sustentado por quatro pilares vermelhos, esse edifício é uma tradução importante da escola paulista. É a técnica servindo ao espaço público. Esses e outros arquitetos eram movidos por uma ideologia social e política.
Muitos deles, como o próprio Artigas, eram ligados ao Partido Comunista e viam na arquitetura uma ferramenta de transformação social. Para eles, o vão livre não era apenas uma demonstração de engenharia, era uma praça coberta para o povo. O uso do concreto aparente era uma forma de valorizar o trabalho do operário, deixando visível o esforço humano na construção.
Era uma arquitetura que negava, de certa forma, o, entre aspas, luxo burguês dos ornamentos e focava na dignidade do que era essencial. Eles queriam cidades mais democráticas, onde o espaço privado e o espaço público se misturassem através de rampas e grandes aberturas.
A Escola Paulista Brutalista deixou um legado complexo. Alguns acham esses prédios frios ou agressivos. Outros enxergam neles uma beleza ética e uma coragem técnica inigualável. O fato é que eles ajudaram a moldar a identidade visual da maior metrópole da América Latina. Da próxima vez que você passar por um prédio de concreto cinza, observe as marcas da madeira na parede.
Sinta o tamanho do espaço sob o teto. E lembre-se, ali existe um desejo de honestidade e de convivência. O que você achou da Escola Paulista? É a sua nova arquitetura favorita? Ou você prefere as curvas do Niemeyer? Deixe seu comentário nas nossas redes sociais ou aqui no Spotify. E lembre-se, você pode saber ainda mais sobre o tema ouvindo os episódios da Arquitetura Objetiva que já foram ao ar sobre o brutalismo, Vila Nova Artigas e Paulo Mendes da Rocha.
Meu nome é Temes da Silva e este foi o episódio do Arquitetura Objetiva sobre a Escola Paulista Brutalista. Se você gostou, deixe uma avaliação de cinco estrelinhas, siga o perfil e clique no sininho para receber as atualizações. Aproveite e compartilhe este e outros episódios com outras pessoas que também possam se interessar. Para me enviar sugestões, dúvidas ou só para me mandar um alô, envia uma mensagem pelo instagram.arquiteturaobjetiva ou pelo e-mail arqueobjetivapodcast.gmail.com.
Lá no Instagram e no Pinterest, eu também sempre posto conteúdos complementares. Então, siga os perfis do podcast para acompanhar as novidades. Muito obrigada pela escuta e até o próximo episódio.