Episódios de Mil e uma TrETAS

#110 - MADRASTAS | Thais Melchior e Valéria Almeida

04 de maio de 20261h22min
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Neste novo episódio do Mil e Uma Tretas, a gente abre espaço pra uma conversa que ainda carrega muitos estigmas, mas também muita verdade: o papel da madrasta.

Por muito tempo, essa figura foi reduzida a estereótipos, distante, rígida ou até indesejada. Mas, na prática, o que existe são relações construídas no dia a dia, feitas de presença, escolha e vínculo. Porque cuidado não vem só do sangue, vem da constância, da escuta e da decisão de estar.

A gente fala sobre os desafios de ocupar um lugar que nem sempre é claro, sobre os limites invisíveis, as expectativas sociais e a construção de afeto com uma criança que já tem uma história antes da sua chegada. E mais do que isso: sobre como essas relações podem, sim, ser profundas, transformadoras e essenciais.

Pra essa troca, recebemos a madrasta da Maria, atriz e apresentadora Thaís Melchior (@thaismelchior) , e a madrasta do Lucas, jornalista e apresentadora Valéria Almeida (@val.assim), que compartilham suas vivências reais, os desafios, as descobertas e os aprendizados de maternar a partir de um lugar que ainda é pouco compreendido.

Um episódio sobre ampliar o olhar, rever conceitos e, principalmente, reconhecer que família também é aquilo que se constrói.

Assuntos6
  • O papel da madrastaConstrução de vínculos afetivos · Desafios e estigmas sociais · Relações que fogem do modelo tradicional · Ser madrasta na prática · Thaís Melchior · Valéria Almeida
  • Identidade em relacionamentosOcupar um lugar de referência feminina · Superar o peso da responsabilidade · O significado da palavra 'madrasta' · Amor que não vem do sangue · Ser chamada de 'mãe' · A importância de não ser uma substituta · O papel da avó na criação · A relação com o pai da criança
  • O papel da maternidade na sociedadeRivalidade feminina imposta pela sociedade · Ser vista como 'madrasta má' · A invisibilidade do papel da madrasta · Ser alvo de questionamentos e julgamentos · A comparação com a mãe biológica · O amor de madrasta é questionado · A necessidade de se posicionar · A busca por referências e apoio
  • Educação e limites na relação madrasta-enteadoO papel de educadora · Estabelecer limites claros · A importância da comunicação entre as casas · Evitar chantagem emocional · O medo de ser mal interpretada · A necessidade de parceria com o pai · O amor como base para a educação · A dificuldade de dizer 'não'
  • Construção de novas famíliasSer a escolha do enteado · Momentos exclusivos entre madrasta e enteado · A família como uma construção · A importância da terapia familiar · A generosidade da mãe biológica · O papel da madrasta como rede de apoio · A união de mulheres para o bem da criança · A importância de se sentir em casa
  • Paternidade e MaternidadeDesejo de ser mãe · Adoção como alternativa
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Cuidar de uma criança nunca foi apenas sobre cumprir tarefas ou garantir que tudo esteja funcionando dentro de uma rotina organizada. Quando a gente fala de cuidado, a gente também está falando de vínculo, que não nasce pronto, que não vem garantido por um título ou por um laço biológico.

mas que se constrói na repetição dos dias, na escolha contínua de estar presente e na disposição de criar um espaço seguro onde uma criança possa existir sendo quem ela é, com todas as suas complexidades. Durante muito tempo, a gente foi condicionado a acreditar que os vínculos mais importantes da vida já vêm determinados, como se existisse uma hierarquia natural do afeto, onde alguns lugares são fixos e incontestáveis, enquanto outros são vistos como secundários, substituíveis ou até indesejados. ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou

Mas a experiência real mostra que as relações humanas são muito mais complexas e que o afeto não obedece a uma lógica tão rígida assim. Existem relações que não nascem do sangue, mas que se fortalecem na convivência, na troca e na construção de confiança. E que muitas vezes acabam ocupando um lugar essencial na formação emocional de uma criança, mesmo que esse lugar nem sempre seja reconhecido ou validado socialmente da forma como deveria.

Hoje a gente vai olhar para as relações que fogem do modelo tradicional e que justamente por isso revelam novas formas de entender o que é família, o que é cuidado e o que significa de fato estar presente na vida de uma criança de uma maneira significativa e transformadora. E tentar desmistificar uma palavra ou uma função que ainda carrega em pleno 2026 tantos significados negativos que é de ser madrasta.

Eu sou a Júlia e sou a mãe da Cora. E eu sou a Tayla, mãe do Francisco e da Tereza. E esse podcast é Coisa de Mãe.

E por essa conversa que convida a gente a rever conceitos, desafiar certezas e ampliar o olhar sobre vínculos que muitas vezes são invisibilizados, a gente recebe duas mulheres que vivem essas experiências na prática e que ajudam a dar nome, forma e profundidade a esse tema. A atriz, apresentadora e madrasta da Maria, Thaís Malchior, e a jornalista, apresentadora, madrasta do Lucas, Valéria Almeida. Sejam muito bem-vindas! Muito!

obrigada. E a nossa plateia, Mil e Uma, que é assim, recheada de madrastas. Sabe o que é o mais maravilhoso? Spoiler, sem dar spoiler, a gente tem a madrasta e a mãe, que são melhores amigos, tem o Instagram juntas hoje, chegaremos nessa história, já tô te dando um spoiler, porque vai ser plot twist atrás de plot twist nesse episódio de hoje. Em que momento vocês perceberam que deixaram de ser só a parceira do pai, pra realmente ter um vínculo, né, maior com a criança?

Você sabe que eu fiquei incomodada no início da minha relação, porque eu era namorada do papai, só, né? E no início está tudo bem, a gente está se entendendo ainda como família. Quantos anos? A Maria tem 13. Não, quando você conheceu o papai? Ela tinha 6. 6. Uau, bastante tempo. Mas eu queria ser...

mais do que isso para ela, porque eu acho que essa relação, essa construção, assim, é muito forte, de muita responsabilidade, e eu queria ocupar um lugar de referência feminina para ela, né, ela é menina, então tem toda uma preocupação com isso.

E a gente foi construindo isso aos poucos. A Maria sempre me incluiu em tudo. Então, assim, eu acho que foi mais fácil para ela do que para mim. Porque eu carregava um peso de, caraca, agora tem uma criança na minha vida, né? Como que eu vou me comportar? E eu acho que justamente por esse olhar carinhoso dela, por essa vontade de estar mais perto, eu falei, cara, eu quero ser a madrasta dela. Eu quero que ela me chame dessa forma.

Só que é isso, né? Também esse nome no início me assustava, porque eu ainda não tinha informação e eu achava que significava mesmo ser uma pessoa má, porque a gente cresce vendo nos filmes, lendo nos livros, quando na verdade o má vem de má ter. Então, quando eu comecei a minha relação com ela, falava, não, me chama de madrasta. E aí depois eu falei, Maria, vem cá, vamos conversar, deixa eu te explicar. Agora eu tenho essa informação e eu quero que você me chame de madrasta.

Ah, muito legal. É muito especial sempre, né? As relações, como elas se constroem. Eu nunca vivi a minha relação sem ser madrasta. Eu conheci o meu marido com o Lucas na praia. Ele tinha dois anos e meio. Hoje ele vai fazer 20. Uau! Então, ele é o amor da minha vida. Eu falo pra ele, filho, primeiro me apaixonei por você. Depois eu casei com o papai. É outro rolê, porque...

Porque realmente, eu falo, foi uma relação que eu sinto como um reencontro. E a gente namorou só um ano e casou. Então, todo o tempo da nossa história, o Lucas estava ali. Mas ele não tinha um nome para isso. Ele não me chamava, ele não tinha um título, um cargo que a sociedade estava dando. A gente só estava se amando, a gente só estava vivendo como uma família. Dois aninhos ainda.

Exatamente, ele não tinha uma relação de pais separados porque desde muito pequeno os pais eram, eles foram namorados. Então eles viveram suas vidas, cada um na sua casa, então ele sempre teve duas casas. Essa casa de, o casamento, foi a nossa. O título, a preocupação era da sociedade, não a nossa dentro de casa. Dentro de casa, aquela família nasceu daquele jeito, com um filho que tinha uns dias que estava com o pai, outros dias que estava com a mãe e a minha figura ali.

Aí veio a palavra mãe, quando o Lucas me chamou de mãe. Aí o meu espírito saiu do corpo, deu três voltinhas e veio, porque eu falei, eu falei, filho, e eu chamo o Lucas de filho, eu falei, eu amo você como um filho, mas você tem a sua mãe, e aí talvez a gente possa encontrar um outro nome pra mim.

Vamos pensar um jeito que você possa me chamar, que seja só meu? Porque eu pensei, gente, já tem uma sociedade criando uma relação de como se a madraça quisesse roubar o filho daquela mãe. Porque é isso, ou você vai estar numa figura que é a de quem tortura, ou se você ama é porque você quer roubar o filho da outra. Então assim, não existe a possibilidade de você amar sem torturar e sem roubar. Só somando, né? Só somando na vida da criança. É só amor. E eu perdi a minha mãe com 10 anos.

Então eu sempre soube que não existe nenhuma substituta para mãe. Não é uma disputa. Mas eu também sempre soube que existem outras fontes de amor. Então eu fui criada por uma avó, eu fui amada por outras pessoas. E eu sempre entendi. E a minha mãe?

amou um filho que meu pai teve fora do casamento. Então, a minha mãe era um exemplo para mim de que não tem a ver com sangue. E, inclusive, se ela conseguia amar uma criança que também trazia uma relação de dor para ela, de uma traição, cara, não. Essa criança nasceu fruto de um amor. Foram seis anos de um relacionamento. E aí eu cheguei aqui. Qual é o meu lugar? E aí ele ficou perdido, porque ele ficava imitando o meu marido. Ele falava, nega.

Neguinha, Valéria. Aí um dia ele soltou o Val. Quando ele soltou o Val, parecia que ele tinha me batizado. E aí eu virei Val. É Val pra todo canto. E a nossa história sempre foi de eu achar o meu lugar.

De um jeito que eu não ofendesse e não parecesse querer roubar o filho de alguém. E ao mesmo tempo deixar claro pra ele que ele não precisava escolher. Você tem mãe, você tem pai, você tem madrasta, você tem padrasta, você tem um monte de gente que te ama.

um monte de gente que a conta parece muito simples quando a gente tá olhando só para criança né quando a gente consegue descolar todas as questões que esse pai possa ter com a mãe que a mãe possa ter com a nova namorada do pai que o pai possa ter com o novo namorado enfim todas as questões adultas elas não interessam aquela criança e se os adultos conseguirem ser adultos dessa relação de fato e lidarem com aquele conflito que quis

seja ele como você trazendo aí a sua mãe, que passa por uma traição, mas quando ela olha para aquela criança, ela enxerga aquela criança, e não o que o parceiro dela fez com ela. Não tem nada a ver com isso. Mas quantas vezes as crianças são usadas como moeda de troca? Principalmente no meio de um negócio. Vamos ser honestos, né, gente? E as pessoas questionam, porque muita gente, quando me vê com o Lucas, ou não ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou

Pensa que eu sou a mãe. Aí vira e fala assim, ah, ele parece tanto com você, ele é lindo. Eu falo, ele é lindo, mas eu bato palma para os responsáveis, eu não tenho nada a ver com isso. Ele é filho de uma outra mulher. E aí vem uma confusão, fala...

mas você não é mãe mas a mãe dele morreu porque aí não consegue acreditar que eu posso amar uma criança que tem mãe sim é difícil para as pessoas é muito confuso esse tema é polêmico estranham mais o amor e uma treta geralmente para esse tema mas eu acho que a principal

Para mim, é como a sociedade enxerga as madrastas, sabe? É um problema muito mais externo do que interno. E tem essa questão da rivalidade feminina. Parece que a sociedade torce para a mãe e a madrasta... Parece não, né? Vamos dar nome. Não parece. É isso.

É isso. Acho que existe uma limitação mesmo. E muitas vezes acontece, tá? Porque ontem mesmo, eu estava falando nos meus stories de um inbox que eu recebi de uma seguidora que ela diz que escolhe se separar porque o namorado ia atender a filha de madrugada. Então existe, é comum. Eu logo que me descobri madrasta e fui madrasta também antes de... É...

ser mãe nem vou falar muito da minha história que a gente tem episódio na primeira temporada né marida que é bem legal se você se interessou por isso você vai gostar de ver também né de voltar lá logo que eu me descobri madrasta e aí a gente fala muito sobre isso nesse episódio eu lembro da thayla chegar para mim falar assim você tá de parabéns porque eu tenho duas amigas que são madrastas como você e é impressionante a competição com a criança ou não saber dividir o tempo desse cara não saber dividir e para mim

Sempre foi muito... É isso, a gente conversando aqui, é óbvio, não à toa as duas estão sentadas aqui nessa cadeira, porque é o natural, mas não é tão natural assim para todas as pessoas. Por isso que é tão importante a gente abrir essa conversa mais e mais e mais. E não é fácil ser madrasta mesmo, não é fácil. É uma construção, porque você se apaixona por uma pessoa que tem filho. E a coisa que eu mais odeio é quando falam assim, ah, mas você sabia que ele tinha filho.

Ah, mas eu sou essa pessoa. Mas você fala isso? Não, eu não falo isso porque ontem eu falei isso nos meus stories. Quando ela me manda uma mensagem, ela fala, peguei meu banquinho. Eu falei, que bom que você fez isso, porque você escolhe estar com um homem que tem filho. Gente, quantas pessoas tem no mundo? Se você não deseja ter um enteado ou uma enteada, aquela criança chegou na vida daquele...

cara antes de você. Pegue seu banquinho e sai. É a frase que ela me escreveu, pede. Que eu peguei meu banquinho e saí de mansinho. E eu respondi pra ela, falei, que bom que você fez isso. Um dia eu falei pro Lucas que ele era fruto de amor. Que ele era fruto de amor. E eu falei, filho, você é fruto de amor e aqui você tem um monte de amor e você é o amor da vida do seu pai. Aí ele falou, mas e você? Eu falei, não, eu sou outro amor. Você é o maior amor da vida do seu pai.

E você é o amor da minha vida. Se o mundo estivesse pegando fogo e a gente pudesse salvar uma pessoa, eu salvaria você. E aí ele falou assim, e o papai? Eu falei, o papai ia ficar feliz porque eu salvei você. E você? Aí eu falei, não importa, filho. Você é o amor da vida do seu pai.

E eu fico feliz, porque se você não fosse o amor da vida do seu pai, eu não ia querer seu pai. Exatamente. Porque eu penso, gente, não é possível. O que eu estava querendo dizer em relação a isso é, sim, eu acho que se você não tem a capacidade de passar por esse processo, que não é fácil, de você conseguir separar.

essa relação do seu parceiro com a criança, eu acho que é uma relação que vai além que você constrói com essa criança. Se você não é capaz disso, eu também acho, então não fique. Mas o que eu quero dizer é, não é fácil mesmo. Então você tem que ter uma disponibilidade de ir construindo, sabe? Qual foi o momento mais difícil para você?

Foi o início, foi uma vez que eu acordei na casa dele e tinha a filha dele. Primeira vez, assim, a primeira vez. E ela estava num processo ainda, que ela estava dormindo na cama, então estava numa transição. Então eu falei, opa, não é brincadeira, não é brincadeira.

E ali eu falei, cara, eu quero isso, eu quero estar com essa família, eu quero fazer parte dessa família, mas eu não sei como agir. Eu não sei, eu vou precisar aprender, vou precisar conversar, e eu não tinha nenhuma amiga. Madrasta. Madrasta. Então eu fui procurar em podcasts, fui procurar no Instagram, a Marica Mardelli, que é do Somos Madrastas. Ela está nesse nosso primeiro episódio.

Ela foi fundamental no meu processo, porque eu vivia coisas e eu ficava muito quieta, porque como eu não tinha referência, eu falei, caraca, será que é só comigo? E aí eu fui pesquisar e eu falei, não, ufa, não, não é só comigo. E é isso mesmo, faz parte do processo.

É, mas a gente, deixa eu te falar, a gente como mãe, a gente aprende todo dia também. Porque mesmo saindo da gente, não vem com manual, a gente não sabe o que fazer, não sabe como faz, não sabe. A gente tá aprendendo também. Mas eu imagino que, eu lembro de escutar nesse episódio, porque pra mim, né, eu nunca fui madrasta, eu lembro de ouvir nesse episódio a dificuldade de saber se posicionar no lugar de, bom, se você educa... Educa responsável. É, você não é a mãe.

Aí você não pode educar, corrigir ou tentar educar, porque não é o seu lugar. Mas se você não faz nada, não tem como. Então, realmente, eu imagino que deva ser uma situação assim. Mas eu sempre me coloquei no lugar de educadora. Porque eu penso, uma criança que passa metade do tempo com o pai, metade do tempo com a mãe, e tem outros adultos, a gente é a soma do que a gente vive. Então, assim, a mãe proíbe uma coisa lá.

tá proibido aqui a mais não mas o que a sua mãe disse e se eu também tô dizendo para você que você não vai fazer alguma coisa aqui você não vai fazer chantagem emocional comigo ah porque a minha mãe deixa tá bom a sua mãe vai deixar eu não sou a sua mãe

Mãe, eu não vou voltar para a sua casa explicando alguma coisa que eu não tive controle da situação. Porque também a criança chantageia. Ela está ali pequenininha tentando. Então você não sabe exatamente. Você não vai ficar ligando para a mãe toda hora para perguntar. Você deixou mesmo ou ele está aqui jogando comigo?

Você não vai fazer isso. Então, você vai estabelecendo limites e você também vai dizendo, porque tem algumas coisas que elas são básicas. Quando você está falando de educar sobre o que é certo, o que é errado, ensinar a ter respeito, isso você não precisa ficar consultando todo mundo. Você não vai mudar uma decisão de uma família que o pai e a mãe estão ali decidindo vai ter acesso à tela ou não vai ter acesso à tela. Cara, o que o pai e a mãe decidiram? São decisões que são só do pai e da mãe.

Não vai, agora sim, tem coisas que você vai dizer, não cara, isso não se faz, isso daí não se fala, você vai pedir desculpas agora. Você vai pedir desculpas agora, porque isso daí é desrespeito. Eu não vou esperar falar com o pai, não vou esperar falar com a mãe, porque eu também sempre estabeleci momentos que eram só nossos. Então assim, eu falava, hoje vamos no restaurante só nós dois, hoje vamos no cinema só nós dois, porque eu queria que ele soubesse que ele era a minha escolha.

Eu não queria, e isso foi muito intencional, eu não queria que ele tivesse sempre a lembrança só da nossa família. Sendo sempre a nossa família, ele poderia achar que eu estava aturando ele, porque, ah, estou com o meu pai, então eu vou junto e ela aceita.

Eu queria que ele soubesse que no momento que eu estava, que eu poderia estar sozinha, eu escolhia estar com ele. Então, assim, ah, meu marido está trabalhando. Filho, vamos hoje no cinema? Vamos escolher um filme só para nós dois? Vamos achar um restaurante bem legal? E a gente tem vários momentos que são só nossos. Então,

Porque eu queria que ele soubesse que ele era a minha escolha. Porque é uma escolha. Quando a gente casa, você vai lá, como você disse, a pessoa vai reclamar, ah, porque o pai, que é o marido, não vai ter tempo pra mim? Então não vai. Mas eu também escolhi momentos assim, vamos, hoje é o dia que ele tá com a gente. E hoje é o dia que a gente comemora o nosso aniversário de casamento. A gente vai fazer um jantar romântico? A gente vai. Então eu tenho fotos que tão lá.

Nós três, o jantar à luz de velas e um monte de brinquedo na mesa. Eu adoro, porque é o nosso casamento. E é o dia que ele está com a gente, então a gente vai fazer esse jantar romântico a três. Mas é uma escolha. É, uma escolha. Tem muita gente que escolhe o pai, mas não escolhe o filho. Eu fui enteada.

Eu fui enteada, minha mãe morreu e eu tinha 10 anos, então eu tive diferentes madrastas. Eu tive a madrasta que dormia comigo meninando, e aí até hoje eu faço coisas que ela fazia comigo, eu era só uma criança, desde o balançar, mexer na orelha para dormir, e tive madrasta que escolhia dar comida para o cachorro e não para mim.

Então, eu tive diferentes madrastas. Eu escolho ser a madrasta que deu amor. Eu escolho ser a madrasta que... Tem, sei lá, 20 anos que a pessoa foi minha madrasta, 30 anos... E é bom pra todo mundo isso, né? Porque amor é amor. Exatamente. Agora uma pergunta. Quando você falou que sentou com ele, vamos escolher de que jeito você vai me chamar aqui? Você fala vários nomes, mas você não fala madrasta.

Você teve esse preconceito à palavra em algum momento? Não, porque ninguém chamou outro. Oi, madrasta. Então, eu estava perguntando como é que ele ia me chamar. De repente, ele me chamou de mãe. Mãe. Ele me chamou de mãe. E aí, quando me chama de mãe, eu falo, cara, não dá para o dia a dia. Total. Mas o madrasta, eu tive que ensinar para ele depois qual era o nome. Ele não sabia o que era.

Então, assim, depois de um tempo, as pessoas perguntavam pra ele, o que a Valéria é sua? E ele não conseguia. Às vezes vinha o Madrinha, vinha não sei o quê, porque esse nome não existiu. E aí eu falava, filho, é Madrasta, que é a mulher do seu pai. O tempo que eu tive que gastar pra ensinar a minha enteada que Madrasta não é a dos filmes da Disney, que é muito legal e que eu morro de orgulho de ser Madrasta dela, porque a referência dela de Madrasta...

É a madrasta amada da Bela Adormecida. Porque todas tem, amor. Todas tem. Eu sei porque meus filhos são fissurados nos contos das princesas. Culpa minha, com certeza. Porque quem comprou o livro, quem não sei o que foi. E aí minha filha é fissurada na Branca de Neve. E aí é fissurada na Saúl. É a Rainha Má. E aí sempre é a madrasta. Aí outro dia meu filho falou. É, não sei o que, madrasta é bruxa, uma coisa assim. Não sei o que a gente tava falando. É tudo bruxo, não sei o que é bruxo. Eu falei, caraca, e agora?

tipo, madrasta é bruxa já tá preso na cabeça dessa criança e eu acho que toda criança passa por essa fase dos contos de fadas todo letramento com a minha enteada, que hoje tem sete eu tive que ter com a cor agora, do tipo mamãe, você é madrasta da Maia, mas você não é má né? Porque eu vejo, você não é má com ela, porque essa é a construção dos imaginários, eu falo como pode que isso já tá no jeito porque a gente vê no filme, a gente tá no livro que isso já tá no livro

e a gente pouco fala, porque é uma sociedade rejeitada. Então você vai dizer... Nós somos invisíveis. E quando somos vistas, assim, você vira um alvo. Então assim, eu falo, quando eu falo, sou madrasta, aí a pessoa fala...

Ah, aí pergunta. Ah, mas você se dá bem com a mãe. Primeiro, você se dá bem com a mãe, né? Essa não é uma pergunta, não importa. Ah, a mãe tá viva? Mas a mãe tá viva? Porque como é que você pode amar? Pergunta isso? A pergunta que eu já respondi. Se a mãe tá viva, se a gente se dá bem.

Aí tem uma que também é muito boa. Mas você tem filho seu? Eu tô falando do meu amor pelo meu enteado. Mas você tem filho seu? Aí teve uma que falou assim pra mim. Ai, mas quando você tiver o seu filho de verdade, você vai saber o que é amor. Ah, sim. Isso eu também já ouvi. Mas eu ouvi uma coisa... Mas que uma pessoa disse que o meu amor não é amor? Não vou saber o que é amor? Meu amor, você sabe o que significa amar um filho que você não fez? Que tem mãe, tem pai, porque ele não é um filho por adoção.

Ele tem uma rede, ele tem. O que eu faço é honrar a história que meu marido teve antes. O que eu faço é honrar a vida que essa criança tem. Ele é metade do pai, ele é metade da mãe. E eu dei a sorte de encontrá-lo na vida. E eu só faço isso. É muito difícil eu conseguir falar do Lucas mantendo o equilíbrio. Porque ele é definitivamente o amor da minha vida. E é uma escolha. E é muito esquisito você ver as pessoas questionando o amor.

porque elas estão mais acostumadas com as histórias do conto de falas. Porque seria normal se eu falasse, ah, eu não gosto. Aí quando eu gosto, eu sou questionada. Você fala, oi, do que a gente está falando? Está tudo muito confuso, tudo muito errado. É muito lindo isso que você traz, de ser fruto do amor, de você lembrá-lo que ele é fruto. Tem um corte do Murilo Benício, que eu não sei se já te atravessou aí em casa.

Muito bom que, já viram esse corte? Que perguntam para ele como é que ele se dá tão bem com a Giovana Antonelli. Super viralizou esse vídeo. Ele fala, viajam juntos, né? São pais separados que hoje convivem super, inclusive, com o padrasto, a madrasta. Eles viajam com a família toda. Ele fala, não foi sempre assim, não foi fácil. Mas passamos por um litígio, ele fala tudo isso no vídeo. Mas um dia a psicóloga sentou com a gente e falou.

Esse pai não se dá bem com essa mãe, pode fazer essa criança questionar que ela é fruto de amor. Exatamente o que você trouxe. Então a gente entendeu que a gente ia ter que dar um jeito de fazer isso funcionar.

E é tão real, né? É isso, assim, você quer que essa criança conteste, questione essa possibilidade, né? Tipo... É. E aí terapia ajuda, né, gente? Porque, assim, eu tinha 26 anos quando eu conheci meu marido. Então, assim, também, qual a maturidade? Quanto você tem de vida? Eu nunca tinha vivido o lugar da responsável. E eu tinha uma vida, eu, sozinha, e de repente eu tenho um marido com um filho.

E eu sempre entendi que eu era responsável por ele. Então, nunca foi uma coisa do, ah, não, vai lá você com a sua mãe, eu estou aqui, só vou viver com o seu pai. Então, eu me coloquei neste lugar, que eu adoro quando pega lá na tradução em inglês, que fala, ah, mãe, step, tá aí, ah, eu adoro ser, a stepmother, eu adoro ser essa mãe reserva.

Tipo, ó, você tem, e se você tem aqui, meu filho, desamparado você nunca estará. Qualquer hora que você levantar a mão vai ter um monte de gente pra estar contigo, pra aplaudir, pra vibrar, pra socorrer se precisar. Mas a terapia também ajuda, porque ajuda você a entender qual é o seu lugar.

Porque também é complexo. Um dia, o Lucas muito pequeno, eu falei, cara, comecei a ser questionada pelas outras pessoas sobre se a mãe do Lucas não ficaria se sentindo invadida por eu ir nas atividades da escola do Lucas. Ah, eu vou também. Eu vou em reunião da escola. Todas. E aí, eu falei, não vou. Poxa, ela pode estar, se sentir ofendida. Aí, inventei de fazer alguma comida e aí ele desce a escada da casa onde a gente morava.

e acha esquisito de me ver desarrumada. Aí ele fala, Val, você não vai? Eu falo, não, meu amor, eu vou fazer aqui uma comida para você, você vai lá com o papai, quando você voltar a gente almoça. Ele, não, eu não quero a comida, a gente pode comer um pastel depois.

Aí eu falei, então você me espera? E aí eu falei, não importa, vamos todos os adultos para terapia se a gente tiver com problema. Ele não vai sofrer, ele não. Eu vou, filho, peraí. Me arrumei e fui e nunca deixei de ir em nenhuma atividade. Ah, é a festa junina. Estou eu lá. Ah, vai ter a festa. Qualquer coisa, qualquer coisa. Vou estar lá levantando a bandeirinha, vou estar lá dizendo, filho, estou aqui, estou aqui.

E isso foi tão significativo, apesar de eu fazer sem esperar reconhecimento, que na formatura do Lucas, do ensino médio, fui para a formatura para assistir, porque eu não perderia este momento. Aí chego lá, ele me chama, e eu achando que era para tirar a foto.

Aí ele vai e fala assim, tá a mãe dele aqui, o pai aqui, eu, todo mundo, pra tirar foto. Aí ele fala, Val, é você que vai entrar comigo. Aí eu olhei pra ele e fiz meia assim de costas pra mim. Ele falou, é sua mãe, filho? Ele falou, tá tudo certo, Val, eu te amo. Deu um beijo na minha testa, apertou um botão, meu bem, eu chorei, chorei, chorei. Aí a mãe dele falou assim, você merece, você faz parte. Aí chorei, chorei, chorei. Eu vou chorar aqui agora. Aí chorei um monte e falei, gente, eu não tava preparada pra isso.

Mas que generosa essa mãe, né? Foi todo mundo. Que generosa essa mãe. Foi um processo que todos nós entendemos ao longo da jornada, a importância de deixar o Lucas bem. Então, assim, não sei o quanto que isso dói numa outra pessoa. Eu não sei o quanto as coisas são recebidas da melhor forma. Eu não posso saber, eu não sei. Mas eu sei que as pessoas processam. Então, ele pediu, falou pra mãe que queria entrar.

entrar comigo e falou para o pai se tudo bem ele entrar comigo porque também poderia ter entrado com o pai e aí eu chorei muito porque eu pensei Nossa ele entendeu ele sentiu todo o amor ao longo de toda a jornada porque assim nenhum momento eu tava esperando por isso eu fui ciente de que ele entraria com a mãe porque meu marido não falou que entraria com ele falei vamos lá para formatura e uma olhada vamos assentar uma assentar uma assentar e aí eu fiz

Fiz uma postagem sobre isso e eu recebi muitas mensagens de muitas mães, que os filhos também têm relações boas com os madráticos. Acho que é o sonho de toda mãe. Eu tive a relação, acho que depois da maturidade, depois de um processo de entendimento, porque eu também entendo quando você tem medo do seu lugar ser disputado.

No meu caso, o Lucas tinha só dois anos e meio. É diferente de quando você fala, tem sete, tem dez. Cara, mas olha, a minha chada, eu conheci ela, ela tinha 11 meses. Tá? É, tipo, hoje ela vai fazer sete agora. E a mãe dela...

assim, sempre foi de uma generosidade comigo, de me dar o espaço. Eu lembro que a primeira coisa eu falei, deixa eu conhecer, né? Vamos jantar, já que ela vai passar tempo com a gente, pra que ela saiba quem eu sou, pra que ela fique segura, com que figura é essa que vai... E desde sempre, assim, ela... Até no episódio que a gente já gravou aqui sobre madrastas, eu até faço um depoimento dizendo que depois que eu me tornei mãe e eu pude entender...

Alguns lugares em que ela estava ocupando essa cadeira e eu chegava, uma figura nova chega na vida da filha dela, eu ressignifiquei e consegui ter um olhar outro, assim, para quantas coisas que ela veio muito generosa para mim, que a minha entrada se fizer, né? Tipo, é muito lindo quando isso acontece. Eu queria, me parece que as duas, desde sempre, tiveram muita certeza de ocupar.

esse lugar né de se apaixonaram rapidamente pelos filhos né dos homens que vocês escolheram eu queria que a plateia levantasse uma plaquinha se sim desde o primeiro momento vocês tiveram certeza ou alguém teve um começo mais complexo com medo todo mundo

Meu nome é Paula, eu sou psicóloga e você trouxe esse assunto e eu estava aqui pensando e matutando que, na verdade, as madrastas são uma extensão na vida dos filhos, né? Elas vêm para complementar a vida deles e eu acho que quando tem esse lugar estabelecido, claro, de presença, de contribuição, o que eu posso contribuir na vida dessa criança, é muito legal.

O que eu penso, por outro lado, também, é como que esse filho chega nessa relação também. Porque tem filhos que vêm de um luto. E aí passa a chegar a madrasta. E tem os filhos que vêm de um divórcio. Então, qual é a percepção desses filhos dentro desse contexto todo? Num luto, será que está bem elaborado a ideia do luto na vida desse filho?

Para ele então estar preparado a aceitar uma madrasta? Muitas vezes ele não está preparado. E quando é o divórcio? Será que foi claro esse divórcio na vida desse filho? Será que todo mundo falou a verdade? Foi claro? Explicou?

Como que ele recebe isso na vida dele? E eu sinto que essa rejeição, muitas vezes, que pode ter, de repente, do filho, esse medo da madrasta, é por conta dessa situação não elaborada, não contada.

E contando um pouquinho da minha experiência, no caso, eu tenho uma filha de 4 anos, né? Eu tenho uma madrasta há 12 anos, então eu já tinha uma madrasta já adulta, mas mesmo adulta foi difícil para mim aceitar, porque eu vim, no caso, da situação de um luto.

Meu pai se resguardou por um ano, na linguagem dele, ele precisava dar esse tempo para ele. E ele então se envolveu com essa pessoa que a gente já conhecia, a gente já sabia que ela é de uma boa índole. E mesmo assim eu fiquei travada, eu fiquei resistente a aceitar. Mas por quê? Porque o meu luto não estava bem elaborado. E uma coisa muito importante, antes da minha mãe falecer, a gente tinha nossas conversas na mesa da cozinha.

E ela dizia assim, se eu morrer primeiro que seu pai, você promete para mim que ninguém vai entrar nessa casa. Você promete para mim que você não vai deixar outra pessoa entrar aqui, dormir aqui, comer aqui, porque você sabe o tanto que eu trabalhei aqui.

Então, inconscientemente, eu levei isso pra frente. Acho que conscientemente. Não, mas o pior é que eu não lembrava dessas falas dela. Ah, você chegou nelas depois. Não, eu primeiro sentia dor, fui rebelde, evitava. Ela chegava em casa, eu saía, ignorei meu pai, estava perto de casar, não sabia se meu pai ia entrar na igreja comigo. Mas, enfim.

Então, quando eu... Aí eu iniciei a faculdade, né? Aí na faculdade, que eu entendi que tinha uma voz lá dentro. Eu tinha uma lealdade emocional com a minha mãe. Claro. Eu não poderia desapontá-la, não poderia deixar outra pessoa pegar o lugar dela. Então, quando eu entendi que aquele não era meu papel, que aqueles medos não eram meus, então eu entreguei pra ela. Falei, mãe, eu te honro, eu te amo.

Mas agora eu preciso seguir. Meu pai precisa seguir. E hoje, né? Eles já estão há 12 anos juntos. É uma avó maravilhosa, inclusive, está lá para eu estar aqui. Então, é isso. Que importante o seu relato. Muito importante. Obrigada. Obrigada. Eu, no meu lugar de... Ai, gente. Eu, no meu lugar de enteada, que também foi enteada por um luto, né? Porque eu perdi a mãe.

tem uma coisa que é você sentir que está traindo. Parece que você amara uma outra pessoa, você está traindo a sua mãe. Então, eu era só uma criança, e eu pensava, será que minha mãe está me vendo? Será que ela está achando que eu estou colocando essa pessoa no lugar dela? E foi muito importante o papel da minha madrasta de dizer que ela honrava a minha mãe.

Então ela respeitava a minha mãe. E ela fazia a vida da minha mãe ser honrada de um jeito que ela não era uma substituta da minha mãe. Então eu passei a amar aquela mulher e deixar ela meninar a ponto de a minha avó, mãe da minha mãe...

Receber essa mulher dentro da minha casa, a gente dormia juntos, porque a minha avó recebia como se fosse filha dela. E isso também foi para mim uma permissão para amar aquela pessoa. Porque eu penso, poxa, se a minha avó, que era a mãe da minha mãe, aceitou, então tá bom, ela não está traindo a filha, então também não estou traindo a mãe. Isso foi importante, esse papel do adulto. E aí, acho que de uma forma muito consciente, por eu saber que isso era importante, eu fiz questão de falar para o Lucas que ele era fruto de amor.

que a mãe dele é a mãe dele, a sua madrasta, porque ele não precisava disputar. Eu falo, nosso coração é enorme, filho. A gente consegue amar um monte de gente. São amores diferentes. O amor que você tem pela sua mãe é o amor pela sua mãe. O amor pelo seu pai é pelo seu pai. Você não precisa escolher entre eles dois. O amor que você tem por mim não precisa ser uma substituição. Não precisa abandonar nenhum amor pra ter outro. Mas eu fiz isso de forma consciente, porque isso foi importante pra mim.

Porque foi muito difícil, assim, parar de sentir que estava traindo minha mãe, que nunca poderia olhar para mim e falar, filha, está tudo bem. Então, assim, eu nunca teria essa permissão para amar a minha madraça. Eu acho que cada família tem um processo, né? Tem uma história, tem um processo. Isso precisa ser respeitado, acolhido. Por isso que é tão importante conversar. Eu também fiz esse movimento com a mãe da minha enteada.

De falar, olha, eu cheguei agora. Eu quero que você me conheça, né? Eu também vou ser responsável.

pela educação da sua filha, isso não é simples. Então, vamos conversar, vamos se entender, e eu acho que todos os lados precisam ser ouvidos mesmo, e tudo tem que ser considerado. E por isso que eu digo, é uma construção, sabe? E é muito bonito quando todo mundo vai...

se entendendo, cedendo daqui, cedendo dali, dando espaço para o amor e para entender que no final todo mundo ganha quando a gente cede, quando a gente pensa na criança. Então, meu nome é Ivi, eu tenho hoje em dia uma relação maravilhosa com a minha enteada.

E foi sim um amor à primeira vista, mas ela me contou semana passada que quando o meu esposo falou pra ela que ia apresentar a namorada, né? A namorada do papai, ela pensou num plano pra que não desse certo. Falou assim, ah, eu vou fazer de tudo. Com sete anos? Com sete aninhos, é. Eu vou fazer de tudo pra que não dê certo esse relacionamento.

E aí ela não contou isso pra gente, a gente não sabia até então, né? Eu fiquei sabendo disso semana passada. E aí no dia que a gente se conheceu, foi amor à primeira vista. Eu fiquei apaixonada por ela e ela por mim. E ela falou que não conseguiu levar o plano adiante, porque viu que realmente, enfim, a gente estava ali construindo uma relação muito maravilhosa, harmônica.

É lógico que a gente se dá super bem, mas como todas as famílias, a gente tem algumas situações e eu vou até compartilhar com vocês. Eu acho que a minha maior dificuldade hoje como madrasta é educar, é o que você estava falando, porque como existe todo esse preconceito da sociedade com a gente...

E isso já estava na cabeça da minha enteada quando ela tinha sete anos, por causa dos filmes. Então, ela achou, poxa, papai, vai trazer uma mulher má aqui para casa, né? Uma bruxa. E aí, depois, a gente foi desconstruindo isso. E a minha maior dificuldade, por conta de todo esse preconceito que a gente sofre, é com a questão da educação. Então, eu acabo terceirizando. Quando tem alguma situação em casa, eu peço para o meu marido chamar atenção e conversar com ela. Então, eu acho que a gente sofreu.

Vou dar um exemplo. Organização da casa, arrumar a cama, arrumar o armário. Você não se sente confortável de dentro da sua casa. Não. E a gente está há quatro anos juntos e eu nunca chamei a atenção da minha enteada. É sempre sim para ela. E a gente tem a Maria Luíza, que tem um ano e seis meses. Tipo, amor. É. A gente tem a Maria Luíza, que tem um ano e seis meses, e eu estou grávida da Maria Clara. E aí, às vezes, eu me pego.

fazendo todas as vontades da menteada, da Duda, e brigando com a Malu. Malu, não faz bagunça, Malu. E eu nunca fiz isso com a menteada, porque eu tenho muito medo de ser mal interpretada. De chegar, por exemplo, no ouvido da mãe dela, e ela ficar chateada por alguma situação.

Então, eu até hoje, nesses quatro anos, eu deixo o meu esposo responsável por essa parte. Sei que isso tem que melhorar, porque amar é educar. É o limite. Exatamente. E o limite da segurança para eles também. Então, essa é a maior dificuldade, mas eu sei que a gente tem que correr atrás disso.

Eu sou escritora hoje e eu sou, antes, psicóloga infantil. Então, quando meu marido se apaixonou perdidamente por mim, que eu falo pra ele, ele me falou, olha, eu tenho uma filha e ela vai vir morar comigo logo, logo. A gente ficou seis meses pra dar o primeiro beijo, que eu falei, eu preciso entender, porque com uma criança é muito mais difícil, né? Ele ou você, ponderando.

Você ponderando. É, porque eu falei, se não der certo, tá tudo bem, porque a gente é adulto, mas uma criança não merece mais uma pessoa entrando e saindo. E ela vai morar com ele. A mãe dela vai morar em outro estado. Pra mim vai ser muito fácil, pensei eu. Mas mole, mole. Eu com criança, que é uma mão com açúcar. Coitada. Coitada de mim, gente. Como eu era muito inocente. E o nosso relacionamento foi indo, eu falei pra ele, falei, olha...

Eu vou ser a sua prioridade e eu te garanto que ela vai ser a minha. Eu vou pegar e vou abraçar ela com todo o meu amor. Mas eu preciso que a gente esteja junto. Eu não quero assim, você não é a mãe, você não pode. Porque eu não vou economizar amor, mas eu não vou economizar bronca. Tudo bem? Tudo bem. A gente combinou tudo isso antes do primeiro beijo, gente. Perfeito. Gente. Eu amo. Perfeito. Capricorniana? É leonina.

Então, assim, vai ser assim, se a gente casar, vai ser assim. Eu vou maternar. Eu entendo, ela tem a mãe dela e vai ser sempre respeitado o lugar da mãe dela. Mas ela vai estar comigo, tudo bem? Tudo bem. E tudo muito bem combinado. Minha relação com ela sempre foi ótima, até chegar à adolescência. Enfim, no meio do caminho teve a primeira menstruação, a primeira consulta. Quantos anos ela tinha? Oito para nove. Oito para nove.

E ela menstruou aos 8, a gente estava muito no comecinho. E ele foi olhar no Google como que eu ensino a usar absorvente. Falei, amor, não vai dar, não vai dar, deixa comigo. E aí, enfim, foram muitas coisas engraçadas, mas quando chegou a adolescência, tiveram vários desafios, não comigo diretamente. E aí eu chego no amor.

Eu amo a minha enteada, mas é o meu amor por ele que alcança ela. A sociedade olha muito para o enteado, menos do que deveria, mas olha muito menos para a madrasta. Quando eu me via no dilema, porque comigo ela nunca teve problema, mas ela teve problema com ele e ele é o meu objeto de amor. Eu amo ela, eu a amo.

mas o meu amor por ele alcança ela. Então, quando ela o ataca, eu fiquei e falei, e agora? Qual é o meu lugar? Como que eu faço? Como que eu faço a minha relação ser direta com ela, sendo que nunca foi até aqui? Era uma relação muito gostosa, mas não era direta. E aí, quando eu encontrei os meus dilemas, eu falei...

Tá, e agora, pra onde eu vou? Escritora que sou, fui atrás de livros, e aí eu encontrei a Branca de Neve, a Bruxa Amar, a Bruxa Amar, a Bruxa Amar. Eu falei, eu não vou sentar nessa cadeira. Quando eu olho pra trás, a minha família é muito tradicional. Eu cresci, faço parte de uma igreja onde não tem muitos divórcios. Não existia. Eu não tinha nenhuma referência de madrasta. Fui pros livros, não tinha. Eu falei, eu não sou a bruxa. Eu não vou ser a bruxa.

E aí saí da literatura tradicional, não tem autoajuda, não tem nada, não tinha. Fui para o Instagram, encontrei o Instagram delas, encontrei o Instagram das Novas Madraças, daí a gente começou um movimento, porque eu falei, a sociedade precisa mudar. E daí a gente mudou o conceito para a madraça também precisa ser acolhida. Nós somos mulheres antes de ser esposas e antes de ser esposas somos madraças, ou depois de ser esposa ser madraça, enfim. Mas é um lugar desafiador.

É um lugar que não existe literatura, não existe educação. Para vocês foi muito natural, mas não é para todo mundo. É muito difícil quem entra com essa mentalidade. Foi difícil, foi o que eu falei. Eu precisei também buscar uma rede, um acolhimento. Porque eu estava lidando com situações, eu vou contar uma coisa aqui que eu ouvi horrorosa, e que eu travei totalmente.

A minha mãe, ela sempre falava assim, filho é o maior amor do mundo. Então você nunca se case, nunca se relacione com um homem que tem filho. Porque você vai ser sempre o segundo lugar. Quando eu entro no lugar de madrasta e aí eu preciso corrigir a minha enteada. A minha enteada não tava com a mãe perto. Então tem coisas que precisa de correção, né? É criança. E aí minha mãe ficava, você maltrata a menina.

Porque você é muito ruim. Deus me livre de ter um filho criado por você. E eu falei, eu não sou essa pessoa. As crianças me amam. Quando eu cheguei e levei ela para o clube que eu era diretora, as meninas falavam assim, Júlia, e aí mais um parênteses, o meu primeiro livro chama Júlia, que eu sempre quis ter uma Júlia. E a minha enteada chama Júlia. E ela fala, tia, o seu livro você escreveu para mim, né? Eu falei, filha, não foi.

antes de você existir na minha vida, o livro já estava escrito, mas era um lugar que estava reservado para você. E o meu marido falava, você não vai ter uma Júlia, mas eu te dei uma. Você tem uma Júlia, e eu estou contigo na sua Júlia, mas eu não vou ter. E está tudo bem, ela também vai ser a minha. E aí eu ouvia muito da minha mãe, muito assim, eu ficava muito preocupada com o que a sociedade falava de mim.

E aí, eu sou mãe hoje, minha filha tem quatro meses, e eu sou uma mãe muito... Puérpera. Puérpera. E eu vejo algumas coisas na criação da minha filha que, como eu disse, eu não economizo amor, eu não economizo bronca. Claro que com quatro meses você não dá bronca, mas já tem vários direcionamentos, assim. Esses dias eu peguei o meu pai com a minha filha com o celular na carinha dela, assim. Falei, pai, caramba, cara.

Mas, e aí quando eles me olham como mãe, falam, ai, desculpa, desculpa. Quando era com a minha enteada, assim, ela tá doente, não vai comer salgadinho, não vai chupar bala. Ai, mas que maldade você tá negando comida pra sua enteada. Com a minha filha, cuidado. Com a minha enteada é maldade. Então, o lugar da madrasta é um lugar muito difícil, muito desafiador, porque são dois pesos e duas medidas. Você tá ali.

dentro da educação, você está como educadora, mas você é sempre pré-julgada. E é um pré-julgamento muito cruel, muito cruel mesmo. Então, até falando com as meninas aqui, antes, a gente foi escrever livros, foi tentar mudar essa sociedade, esse olhar da sociedade, também acolher, porque é muito solitário.

Aliás, já passo o microfone aí pras duas, entendeu? Pra Mônica e pra Renata, que foi por essa necessidade de achar mais conteúdo sobre o assunto. Entre mãe e madrasta, eu quero saber em que momento, qual foi o caminho até chegar nesse arroba aí juntas?

Foi um caminho longo. Muito preconceito. Foi muito complicado, porque assim, quando você se torna mãe, você não pensa em dividir seu filho com outra mulher. Você não pensa, eu vou ter um filho, mas um dia eu vou ter um apoio. Não. Você tem um filho e o filho é seu. Ainda mais o primeiro filho é meu e não olha pro meu filho porque ele é meu.

E aí aconteceu com quatro anos. Eu me separei do meu primeiro marido. E um ano depois, cada um seguiu sua vida. E ele veio até mim e falou, estou me relacionando com uma pessoa. E eu, tá. E daí? Parabéns.

Então. Só que ele também sempre teve muito zelo em relação a isso. Sempre deixou claro que a Marina era a prioridade dele. Então, nesse aspecto, nunca me abalou. Só que quando ele falou assim, podemos apresentar a minha namorada para a Marina? Eu também estava me relacionando com uma pessoa, então a gente conversava sobre isso. A hora certa de apresentar o meu namorado e a Rê para a Marina. Deu quatro meses, acho que cinco meses, né?

Olha, acho que agora... Que fofa as duas. É um bom... Juro. Eu imagino ele. Deve ser muito engraçado a cabeça dele, do pai. Agora eu acho que é um bom momento. Sócias. E aí foi bem na pandemia, né? Foi depois, né? Um pouquinho depois. Começou... Elas se conheceram. Por quê? Um pouquinho antes, ele tinha tido alguma coisinha com uma pessoa. E a Marina começou a chegar em casa cheia de presente. Toda vez... Olha que vem da tia. Olha que... E aí

Eu tenho alguém tentando te comprar, peraí, não.

Falei, Guilherme, o negócio é o seguinte. Eu dancei nessa, né? Porque foi esse anterior antes de mim. Aí respingou na ela. E eu também tive madrasta. Má mesmo, madrasta. Então, eu já tinha esse pezinho atrás, assim. Eu também já tinha madrasta. Foi. E assim, a minha referência sempre foi da minha mãe. Sempre ali, tipo, pra pular na frente, pra me defender. Então, quando eu soube, ah, minha filha vai ter uma madrasta. Então, já busquei aquela referência. Então, peraí.

E aí conheci, eu já conheci a Rê, né, de uma outra relação, então ela não era uma pessoa estranha pra mim. Olha, é uma pessoa legal, conheço, mas peraí, vamos ver como vai se dar essa relação. Foi, eu falei, eu não gostaria ainda que você fosse dormir na casa dela e levasse a Marina por enquanto, pode ser? Claro. Aí eles se viam, eles fizeram os horários deles de se verem no final de semana, falei, também não vou proibir, por quê?

A gente, a nossa divisão de horário era tipo, a Marina passava a semana comigo e o final de semana com ele. Sempre assim. Ia na sexta-feira, voltava na segunda. E aí eles se viam só no final de semana, faziam assim com ela. E aí, quando... Teve o primeiro aniversário, né? Foi o primeiro aniversário. Foi na pandemia, foi ser na casa da minha sogra. Quando chegaram, Guilherme, Renata, ficou todo mundo assim. O meu padrasto, ele ficou...

Eu nunca vi um negócio desse. Como assim? Tá o ex-marido. Todo mundo estranha. E é, por que que ela veio? E aqueles cutucões, sabe? Da família, tipo, a minha família, assim, chocada. Mas por quê? O que até hoje, amigas ou conhecidas, mãe de amiguinhos da escola, o que eles esperam é que você esteja preparada pra falar mal da madrasta. Então elas já te abordam assim. Quem é aquela? Nossa, mas você deixa ela fazer isso na sua filha?

Graças a Deus eu tenho ela pra fazer isso com a minha filha. Inclusive, quando a Mô tava parindo, o dia que a Mô tava parindo, segundo o filho dela, meu marido tava em outra cidade, ela veio de urgência pra São Paulo. E aí falaram, a Má, tem que pegar a Má na escola. E aí eu organizei a minha agenda, só que eu precisava, pra cumprir minha agenda, pegar a Má dez minutos antes.

E beleza, eu já tinha autorização na escola, né? Já estava tudo certo, já tinha pego a mal outras vezes. E aí cheguei na escola, dez minutos antes, para dar tempo do meu cronograma. Interfonei. Ah, vimos com a Marina e tal. Quem é? Falei, a madrasta dela. Ah, ok, só um minuto. Entregaram a Marina para vocês? Porque para mim não entregaram. Isso toca o sinal da escola normal.

E cadê a Marina? Só que eu já tinha esquecido dos meus compromissos, porque eu falei, se não entregaram a criança até agora, ela machucou, ela caiu, aconteceu alguma coisa na minha cabeça, ingênua, né? Óbvio. Falei, não é uma... Aí tocou o sinal, a moça que entregava as crianças começou a entregar uma. Eu falei, eu preciso saber da Marina? Cadê a Marina?

E ela me ignorava. Aí chegou uma hora que eu falei, por favor, olha para mim. Cadê a Marina? Nós estamos falando com a mãe dela, na frente das outras mães, e as suas outras mães olhando para mim, como se eu estivesse pegando uma criança que ele rolar. Por isso, você está falando com a mãe da Marina. A mãe da Marina está parindo nesse momento. Você está atormentando uma mulher que está parindo.

Aí a escola inteira entrou em desespero e depois meu marido foi lá, né? Aquele jeito, mas isso já aconteceu muito. Então, aquele dia, eu era a rede de apoio da pessoa que estava parindo. Não aquele dia, né? É, não. Várias vezes, mas assim, é sempre esse lugar de você precisar explicar, de chegar em festa da escola e mães não se direcionarem à palavra a mim.

Porque eu sou a madrasta. Muitas vezes. Sério? Muitas vezes. Muita gente, assim. Gente, no mesmo ambiente. Eu, a mãe da Maria, Maria, pai da Maria. Falam com todo mundo, menos comigo. Assim. E elas esperam, elas esperam realmente você reclamar, você dar a brecha de falar mal da madrasta. Porque elas estão esperando, assim, vamos falar mal dela. Vamos ver que também quer falar. Assim como as amigas da madrasta também, quando a madrasta chega, já vão querer criticar a maternidade dela.

Então, assim, é num nível também absurdo do tipo, a gente não gosta dela, né? E aí a gente fala, fala é muito bom pra sociedade quando a gente não se gosta. A gente entra numa disputa. É isso que a gente falou lá atrás, quando ela fala parece que as mulheres não... Não parece. Elas disputam. É algo que eu acho que obviamente reflete assustadoramente, né? Na madrastidade. Madrastidade, obrigada.

Mas o quanto isso é um reflexo, muito pra além desse tema específico, da rivalidade entre as mulheres. Que se a gente estivermos unidas, é muita potência, amor. Eu falo que quando duas mulheres se curam, elas curam muitas gerações. Então eu falo que a gente para de sangrar no outro quando a gente se cura primeiro. E quando existe esse lugar, o mundo tem medo. Porque o que a gente faz quando junta duas mulheres?

entende então é esse lugar a gente para de disputar a gente cresce a gente comunica a gente se ajuda a gente ensina para isso é porque assim tudo que uma mãe quer hoje é uma rede de apoio né passei passei com a maria na infância ela conheceu com quatro anos é muito difícil né você ensinar eu falo a você acha que parir é difícil gestar difícil para a gente tenta educar

Ainda mais quando começou, agora ela vai começar a pré-adolescência, começou na fase de virar o olho. Então eu vou precisar muito de vocês. Se quiser uma aula, chega aqui, porque em casa... Já tiveram momentos, eu falar, eu preciso, sentei com ela e com o pai, e com o Leonardo, falei, gente, vamos lá. Eu preciso que tenha a mesma regra nas duas casas.

Porque eu não quero que seja recriação na casa de vocês. A Marina vem aqui em casa, beleza. Já é chato, porque de segunda a sexta-feira é dever de casa, tem o tempo dela ficar lá, já é obrigação. Como ela mesma diz, é mandação. Em casa só é mandação. Então chega o final de semana, o final de semana é livre.

Então, eu preciso que ela tenha, sim, que fazer um serviço aí. Ela tem que lavar uma louça aí também. Ela tem que arrumar uma cama aí também. E que o castigo seja estendido aí também. Pra que a madraça não seja só aquele oba-oba. Senão, eu falo sim pra tudo, ela fala não pra tudo.

né? Exato, a bruxa vira ela e aí também não tem sentido e aí, mas assim, quando ela entrou em pânico, quando ela descobriu que os adultos conversavam literalmente ela não levava o castigo de uma casa pra outra, ai não posso usar o iPad na casa da minha mãe, mas eu tô na casa do meu pai, então ela não falava e aí quando ela descobriu e você barrou, né, tipo, mas você não tá de castigo daqui? A gente sempre presou a comunicação pra que ela entenda que todo mundo fala a mesma língua, se não ou não ou não ou não

E hoje chegar na escola, numa reunião de pais, e ouvir dos professores, mas ela é filha de pais separados, não parece. Porque não tem guerra, a Marina só tem amor de todos os lados, é muito gratificante, porque a gente vê que está fazendo um bom trabalho. Ai, obrigada demais. Eu acho que eu, como não tive essa experiência com enteados, eu fico pensando...

neste lugar né tipo se fosse eu porque assim em casa já sinto isso tipo eu falo não para tudo eu brigo com tudo eu já meu meu filho só me chamam de chato de ter uma mais chata uma mais chata você já viu uma chata porque essa cara é que são criança quase o dia inteiro ainda fico tentando ouvir esses dias não lembro quem falou mais foi a Ivana quem foi tipo tentar equilibrar o não e o sim né no dia aí cara não dá chega no final do dia formou foi 800 não que assim

as crianças. Então, a mãe já é dentro de casa a bruxa, a chata. Já me chamam de chata onde eu fui do outro dia, eu passei vergonha, que eu estava num lugar e eu ia chata. Tudo bom. Então, assim, você imagina quando entra uma madrasta que não chega junto. Você fala, só de pensar eu tenho pânico, porque aí que eu vou ser. É, chega junto que eu digo na educação, que também ajude nos não, se você contar uma história pra gente. Então, só pra concluir essa questão da ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou não ou ou não ou não ou ou não ou ou não ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou ou

de me sentir invisível, isso foi conversado na minha casa. Eu falei para o meu marido, você percebe? Você está percebendo que isso está acontecendo? Não é a primeira vez que você fala, ah, não me viram. Ou acho que foi uma desatenção ali, muita gente na porta da escola, na saída da festa, sei lá. Depois eu comecei a reparar que isso estava acontecendo com frequência.

E aí eu falei, você tá percebendo? E ele falou, não. Depois ele falou, agora tô. Então, o que a gente começou a fazer? Oi, fulano, tudo bem? Acho que você não me viu. Eu sou Thaís, prazer, sou madrasta da Maria, tudo bem? Sou casada com o Alex, nananá. E ele, a mesma coisa. E hoje a gente não passa mais por isso, né? Porque eu acho que também é isso, você entender que você não vai se deixar passar por isso. E a Maria chegou a te fazer perguntas que você não tinha resposta?

Sim, eu acho que nessa fase da adolescência, essas perguntas começam a aparecer, né? E daí também é isso, é uma conversa entre as casas, para que a gente tenha uma comunicação harmônica ali, alinhada, para que a gente saiba lidar com cada fase dela, né? Mas sim, e aí...

Uma coisa que a gente começou a fazer é perguntar o que ela sabe. É, devolver a pergunta, né? Você sabe sobre isso? Ah, eu sei isso, isso e isso. A partir disso a gente vai conduzindo. Isso é muito bom. Ou se é alguma coisa que eu não sei responder, eu falo, Maria, não sei te responder isso agora. Vou pesquisar, vou pensar, vou conversar com seu pai, com sua mãe, e volto, tá? Ah, tá bom. Então ela já entende. Vocês tiveram desejo de ser mãe?

Eu tive um desejo de ser mãe, aí entra uma outra questão. Porque é uma drastidade que me despertou o desejo de maternar, no meu caso. Desde que eu tinha 17 anos, eu dizia que meu filho não chegaria, eu não gestaria. Mas não é que eu tinha, eu sempre amei mulheres grávidas, mas eu não sentia que eu gestaria.

E isso não virou uma questão para mim. Só quando eu fui casar, já tinha o Lucas ali, eu falei para o meu marido, eu falei, tudo bem para você, para a gente adotar uma criança? Aí ele virou e falou assim, eu queria ter dois filhos. Eu falei, ótimo, você foi pai e acompanhou uma gestação e agora a gente adota. Aí em algum momento dessa conversa, sei lá o que aconteceu, que eu falei, tá, vou tentar engravidar e a gente entra na fila da adoção.

E aí eu descobri uma endometriose gravíssima. Eu não tenho dor. Eu não tenho nenhuma dor. Eu tinha um sintoma de endometriose, que é uma diarreia no período menstrual. E fui negligenciada por todos os especialistas por onde passei, porque eles achavam que era psicológico, estava associada a TPM, e aí o intestino... Não, assim, gente, eu podia não mudar o humor de nada. Podia estar comendo franguinho com batata. Aí, o fim, era uma endometriose gravíssima.

Eu nunca quebrei um dedinho e passei por nove procedimentos no meu útero, entre cirurgias para tratar a endometriose, para consertar problemas causados por outras cirurgias. E aí, a gestação virou uma obsessão. Porque o que eu nem desejava antes, passou a ser como algo que eu quis muito. Como se fosse o sonho da minha vida, sem nunca ter sido.

E eu estava o tempo inteiro muito feliz de viver a minha vida com a minha maternidade, sendo madrasta, porque eu vivia tudo aquilo. O Lucas viveu uma guarda compartilhada, que ele passava dois dias da semana com um, dois dias da semana com o outro, e os finais de semana eram alternados. Então, eu estava ali, eu buscava na escola, fazia lição de casa, a gente dividia todas as atividades, porque a gente também queria estar nessa função do dia a dia e participar disso.

Só que aí a maternidade virou uma questão para mim. E foram muitos anos. Eu nunca tinha feito terapia, eu já tinha perdido muita gente da minha família, começar pela mãe, mas eu nunca tinha feito terapia. E aí nesse momento...

quando eu comecei a questionar a vida e eu escutei, e as pessoas sempre têm muitas barbaridades para falar. Então, uma das pessoas que tiveram coragem de me falar uma barbaridade disse, nossa, mas você ama tanto criança e não consegue engravidar, nossa, você deve ter feito muita coisa errada na outra vida.

Ai, nossa. Ai, nossa. Então, assim, tudo que eu não precisava era ouvir isso de uma pessoa que se sentia muito próxima. Meu Deus do céu. E aí fui eu para uma terapia, porque uma amiga percebeu e falou assim, cara, eu queria me separar do meu marido. E a gente tem uma relação linda. Porque eu pensava, cara, vai aumentar a sua família com alguém que possa tirar um filho, porque não sou eu. E ele falava, amiga, eu não desejo mais nada. Nossa família é perfeita. Só que virou uma questão para mim.

E aí foram muitos anos de terapia até eu conseguir entender que a minha vida já estava perfeita e que eu podia só aceitar, porque foram muitos tratamentos e eu tive uma gestação. E quando eu tive essa gestação, eu falei, cara, a medicina já estava dizendo que não, que eu não conseguiria, eu fiquei grávida. E aí um determinado dia, com 10 semanas, eu cismei que eu queria escutar o coração do bebê de novo. Perturbei, perturbei, perturbei.

E quando eu cheguei no hospital, fui escutar o coração do bebê. Cadê o coração do bebê?

Aí eu achei que a máquina não estivesse funcionando e aí eu surtei muito. Agora eu consigo falar isso porque são 15 anos de terapia. Mas assim, eu surtei num hospital maternidade com um monte de mulher barrigudíssima e eu surtada, mas surtada num nível que eu pensava assim, pra quê? Pra quê me dar um filho e você pra me tirar? Eu já estava convencida de que não ficaria grávida.

E aí vieram as pessoas dizendo, ah, por isso que ama o enteado. Ah, é uma obsessão. Então, assim, são muitas camadas para você ser uma mulher. Ah, ser humaninho, né? Para você só amar. Então, assim, você só está querendo se entender como uma pessoa. E você só está querendo cultivar o amor que você tem e entender que aqueles amores...

já são a sua história, a sua vida. E aí as pessoas, elas vêm. Então, aí às vezes eu falo, ah, antes eu falava, tentava arrumar desculpas, mas como foram muitas...

Para cada desculpa também tem alguma opinião absurda. Aí eu desisti, aí eu falo, não, eu já quis. Mas eu só aceitei o que não foi. Porque, assim, várias mulheres com endometriose gestam e têm seus filhos. Várias mulheres têm um aborto, têm outro, têm outro, e depois têm seus filhos. Então, a minha história é só a minha história, né? Não é um destino para outras mulheres com diagnóstico como o meu. Mas só foi a minha escolha falar, cara...

eu vou viver o amor da história, a família que eu tenho e não vou tentar mais, porque eu não conseguia ver o que tinha de positivo em tudo que eu já estava vivendo, ficava só pautado na frustração do que eu não tive. Então eu não conseguia só agradecer ao universo pela família linda e cheia de amor que eu tenho. Estava sempre com uma falta e aí eu optei por...

Parar de tentar e só agradecer pelo que eu tenho. E aí são escolhas, porque... E o tempo inteiro eu falo que é escolha, porque eu penso, com as perdas que eu tive, eu poderia sentar e ficar só na dor. E aí eu olho para as outras formas que a vida encontrou de me dar amor.

Eu penso, cara, não, não nasceu, não pari. Aí depois as pessoas falaram, mas você não queria adotar? Queria, mas o meu coração estava tão machucado que eu não achava justo adotar uma criança para ela ser um tapa-buraco. Quando eu quis adotar, quando eu dizia de adotar, quando eu sentia que meu filho chegaria de outra forma, era com o coração pleno, não para criar. Porque as pessoas falam, ah, você vai adotar, aí você vai esquecer, aí você é engravida. Não é um remédio, gente, é uma pessoa.

Então são escolhas. Eu escolho amar e eu vivo essa maternidade, eu dou bronca. E eu dou bronca. Se você perguntar para o Lucas, quem é a pessoa mais chata da sua vida? Ele vai dizer, a Val. Ele fala, ah, isso é muito certinho. Então assim, porque eu dou o testão. Eu falo, ó filho, você vai tomar uma decisão. Isso tem sempre uma consequência. Então todas elas, quando a gente diz, agora já deu, como para mim. E foi muito curioso porque eu fui fazer uma matéria.

E era sobre gestação e era sobre tratamento. Olha só, eu no meu processo. E aí entrevistei uma psicóloga que acompanhava mulheres em tratamento. E ela disse assim, sem saber que eu estava nessa fase. Ela disse para mim assim, nunca vai ter um especialista para dizer que agora já deu. Porque a medicina, a ciência também avança à medida que a gente se propõe a continuar tentando.

Então, você vai tentar, vai fazer uma coisa, vai fazer uma cirurgia. Quem dá o limite é o paciente, né? A mulher é quem tem que entender. Agora já deu pra mim. E foi tudo que eu precisava ouvir. Porque eu disse, agora já deu pra mim. Eu vou ser feliz com o que a vida me deu. E tá tudo bem. Eu tenho uma família lindona. Eu tenho essa história. E é com isso daqui que eu vou seguir. Então, sim, eu quis. E não, eu não tive. Porque era pra ser desse jeito que é. E tá tudo certo.

Tá tudo certo. Isso não quer dizer que esteja tudo bem sempre. Isso não quer dizer que eu fale e sempre esteja inteira. Já teve vários momentos assim, que já existiram momentos que eu falei, cara, mas por que mesmo? Por que não? E aí, depois eu falo, é porque não era pra ser. E tá tudo certo. Tá tudo certo.

Você sente que precisou inventar uma forma própria de ser madrasta, já que não existe modelos claros desse papel? Sim. Justamente porque eu não queria ser essa madrasta que todo mundo fala e que eu vi nos filmes e li nos livros. Então, eu falei, bom, vou me virando, de acordo com as situações que iam aparecendo. A Maria...

me deu muito tudo que eu precisava quando eu sentia que eu não ia dar conta. Por exemplo, ela sempre me incluiu muito, então tem uma cena clássica que eu sempre lembro, na calçada da rua, a gente andando na rua, às vezes ela estava de mão dada com o pai, e aí três pessoas de mãos dadas numa calçada, você ocupa a calçada inteira, né? Então eu falava, ah, estamos tendo um momento, pai e filha, estou aqui atrás, estou aqui.

E ela virava sempre. Tatá, vem! Então, para eu dar a mão para eles e para a gente estar junto como família. Então, eu acho que foi muito intuitivo, assim, não fácil, porém, intuitivo. E eu sabia, a única certeza que eu tinha, é que tudo que eu tinha lido e tudo que eu sabia sobre madrastidade... Estava errado. Estava errado.

O que você acha que foram as coisas mais importantes para mudar? Quais foram as que mais gritaram para você? Eu acho que essa questão da madrasta ser vista como má é uma questão que grita muito. E eu falava em relação a Thaís ser humano. Não, não sou má, não sou essa pessoa. Como que eu vou...

me posicionar aqui? Como que eu posso chegar? Até onde? Porque educar realmente é muito difícil. Isso pra mim foi um dos maiores desafios no começo, eu entender, tipo, o limite, como é que eu boto esse limite, né? E também com o pai dela, conquistar esse espaço, de que maneira que eu vou conquistar esse espaço, uma vez que eu sou adulta responsável.

né e tudo que foi dito em algum momento me identifico né e também o medo de qualquer coisa ser principalmente no começo né hoje uma relação já estabelecida se meio que isso né já já tá mas tipo qualquer coisa que possa ser mais interpretada né de uma correção de um limite eu entendo a sua dor

Eu também entendo e eu passei por isso, porque eu lembro que no início eu me calava muito, eu vi alguma coisa e eu me calava justamente porque eu não queria que a minha relação com ela fosse afetada, porque ela estava me dando muito, então eu não queria quebrar isso, eu não queria que ela se decepcionasse comigo, que eu fosse contra ela ou que eu dissesse não para ela, né? Essa dificuldade que a gente tem de dizer não, que é tão importante a gente dizer não, né?

mas eu comecei a ficar em pânico, eu comecei a falar, cara, peraí, mas a guarda lá na minha família, ela fica uma semana na casa da mãe, uma semana com a gente, então a gente convive muito. Eu falei, eu faço parte da educação dela, eu faço parte da vida dela e ela faz parte da minha, então peraí, eu vou precisar ter voz, eu vou precisar encontrar o meu espaço, e isso começa conversando com...

marido, né? Eu falei, olha, tô sentindo isso, isso e isso, são questões minhas aqui, mas que eu tô dividindo com você pra gente ver como que a gente pode equilibrar e aí eu acho que eles também viviam numa bolha deles, porque quando eu cheguei eram só os dois e isso foi se abrindo, assim, com diálogo com conversa, com a gente olhar pra uma situação e falar ó, aqui ó, nesse momento aqui, ó, eu senti falta de falar isso aqui pra ela e aí ele falou, fale ou não ou não ou não ou não ou não

Pode falar. Pode participar. Então, acho que é isso. Aos poucos, sabe? Mas, realmente, o maior desafio é a educação. Educação? O maior desafio também? Compartilha?

E eu acho que o maior desafio é o educar sendo julgada como madrasta. Porque o valor da educação, ele é o mesmo. A questão é que se você vai falar a mesma coisa que a mãe falaria, as pessoas estão questionando se você tem o direito de falar. Então, aí você está numa situação que você diz, como que você vai corrigir alguma coisa?

Se você está com todo mundo te olhando e dizendo, de braços cruzados para dizer, está vendo? É má.

Porque você está o tempo inteiro sendo julgado. Então, você está o tempo inteiro com as pessoas olhando e criticando, mesmo que é certo. E esse é um exercício difícil. Dentro de casa, estava tudo certo. A gente estabeleceu alguns acordos em casa, como ninguém tira autoridade de ninguém. Então, mesmo que meu marido, de repente, chamasse atenção, eu achasse, ah, isso não precisava.

nunca sob hipótese alguma diria isso na frente do Lucas assim eu não passaria a mão na cabeça falando a que bobagem

Aí eu falava para o meu marido, eu falava, acho que tudo bem, né? A gente também já fez isso daí, isso é só uma coisa de fase da vida. Para que ele pudesse dizer, a gente também estabeleceu que a gente pede desculpas. E um dia eu falei isso para o Lucas, eu falei, ó filho, eu só sou uma pessoa. Eu também erro. E o nosso amor, ele não é estabelecido por um vínculo de sangue, o amor é cultivado.

Então a gente não vai guardar coisas que a gente não gostou. Se eu fizer alguma coisa, eu falar alguma coisa para você que você não gosta, você vai dizer para mim, para que você me dê a chance de avaliar se eu estou errada e que eu possa corrigir, porque senão a gente vai errando, errando, errando. Se você fizer alguma coisa que eu não gostasse, eu achar que você me desrespeitou, eu também vou sinalizar.

E a gente já teve essas situações, assim, de eu falar, cara, você falou um negócio para mim que eu definitivamente acho que eu não mereço. Ninguém merece, mas presta atenção, você acha? E aí ele pedir desculpas. E assim como eu virar e falar, cara, naquele dia eu falei um negócio para você que eu acho que eu só falei porque eu não tive coragem de ser grosseira com quem realmente merecia a minha grosseria.

Porque aí você volta pra casa e você é só uma pessoa. E de repente uma coisa muito pequena, você dá uma patada que a pessoa não precisava ouvir. Eu vou e peço desculpas. Mas aí, se eu também falei alguma coisa, se eu corrigi de um jeito que meu marido acha que não seria o adequado...

ele só vem para mim e fala no bastidor. Ele não te... Não me desqualifica. Desqualifica. E isso nunca aconteceu. Então, assim, de nenhum jeito. Então, o que aconteceu na casa da mãe do Lucas vai seguir aqui, o castigo vai ser o mesmo. A gente também, quando fica de castigo aqui, sinaliza lá e fala, ó, o Lucas não pode fazer tal coisa porque ele fez isso, isso e isso, para que entenda que vai ser igual. Mas...

O olhar de fora, você conseguir se manter firme na educação de uma pessoa, na criação de um ser humano.

Mesmo com as pessoas apontando, isso é bastante difícil, assim, requer uma maturidade, uma postura de manter o foco, de dizer, olha, assim, mais do que a opinião de quem está ali de fora, me interessa que esse ser humano seja um ser humano incrível. E o Lucas é um menino que vai fazer 20 anos e é um cara incrível e que eu sou muito apaixonada. Apaixonada porque ele virou, ele é uma pessoa amorosa, que tem valores, que respeita o outro, que eu falo que tem a...

uma visão de mundo que eu penso é porque ele foi formado por todas essas pessoas, com todos os valores, também escutando limites. Você trouxe um pouco aqui da sua história com o desejo de ser mãe via adoção, depois a tentativa, e acho que você acabou não respondendo. De que forma a experiência como madrasta influenciou na sua visão sobre a maternidade?

Eu ainda não tenho uma opinião formada sobre. A única coisa que eu sei é que eu quero congelar. Então, eu estou com 35, é um próximo passo. Eu já estou fazendo exames, conversando com o meu médico e tal. Mas eu acho que é isso, a madrasta materna. E muito desse amor que dizem, que eu também acho que as madrastas ouvem uma coisa que é injusta.

que é você não é mãe então você não sabe o que é o amor de verdade eu amo muito eu amo muito de várias formas e sou muito amada também então eu acredito que seja um amor fora do comum e mas eu vivo isso também com a Maria né eu não tenho certeza que eu não quero ser mãe mas também não tenho certeza se eu quero eu tenho certeza que eu quero congelar

Oi, gente. Meu nome é Isabela. Eu tenho 29 anos e eu sou madraça de três meninas. Inclusive, lá da sua terra, a Thayla, presidente prudente. Que massa. Eu tinha 27 anos quando eu conheci meu namorado. E eu brinco que já chegou com o kit todo. Porque uma vai fazer nove e o kit completa. A mais velha tem oito e são gêmeas de sete. Uau. Então, são praticamente trigêmeas, né?

E eu sempre falei, eu sempre fui uma pessoa muito maternal, eu sou canceriana, eu sou muito família, eu sempre falava que eu queria ser mãe, não necessariamente eu tivesse um marido, mas eu queria ter um filho. E as meninas, elas me trouxeram...

a maternidade na minha vida de uma forma que eu não esperava, porque inclusive a Mari do Somos Madrastas, ela já tem uma frase que ela fala que é perfeita, é, ninguém sonha em ser madrasta. Você não tá adolescente na sua casa, você quer ser mãe, por exemplo, você pensa assim, ai, nossa, hoje eu quero, meu sonho é ser madrasta. Não, tem gente que tem somente ser mãe, tem gente que não tem.

E sobre essa questão do educar, que a gente começou até antes, né, Ivi? Eu tenho a mais velha, ela é mais mandona, né? Então, as mais novas, não, eu mando, eu sou a mais velha, enfim. E aí eu me vi muito dando a bronca, muito dando a bronca. E eu sempre julgava a minha mãe, minha mãe capricorniana, muito aqui, né? Muito corretíssima. E eu me parei um dia brigando, porque alguém tinha deixado a toalha molhada no chão. Aí eu falei, gente...

virei minha mãe, sabe? Eu achei que eu ia ter esse insight só quando eu tivesse o meu filho. Mas não, assim, enfim, e aí eu conversando muito com elas, eu gosto muito da conversa, do diálogo, mas o medo de dar a bronca passou totalmente com o dia quando a Alicia mais velha levou pra mim e falou assim, tia,

eu amo que você conversa comigo. Você não grita, você não... Ai, vou chorar. Você não... Não me desrespeita, ela não usou essa palavra, porque ela não sabe ainda usar essa palavra. Mas ela falou assim, eu amo que você olhe no meu olho e conversa. Porque assim, eu entendo e assim eu sei como fazer.

A mensagem é passada, com amor, né? Muito lindo, obrigada. Meu nome é Letícia, tenho 34 anos, eu sou madrasta de três meninos e sou mãe de um menino de quatro anos. Eu conheci os meus enteados, eles tinham seis e oito anos, hoje eles já são adolescentes, já têm 14, 16 anos.

E eu era uma jovem que vivia muito bem solteira, vivia freneticamente, viajava, saía. E, de uma hora para outra, eu me envolvi com um homem que tinha três filhos, estava recém-separado. Ouvi muito do tipo, você tem certeza que vai entrar nessa? Olha o tamanho desse problema.

esse cara não tá curado, essas crianças vão te odiar. E eu olhava pra isso e falei, gente, talvez isso aconteça, mas será que vale a pena eu deixar pra trás uma relação e uma família que pode ser muito boa pra mim? E eles chegaram num momento da minha vida que é muito conturbado, muito difícil pessoalmente falando pra mim, eu tava passando por várias coisas, e eu entendi que aquele amor e aquele cuidado que eu tava sentindo por eles ali naquele momento tava me preparando pra algo muito maior.

que não foi planejado e que anos depois veio, que é o meu filho, o Heitor. E hoje eu sinto que eu tenho um amor muito grande pelos... Ai, vou chorar. Eu tenho um amor muito grande pelos três porque eu sinto que eles sentem segurança comigo. Então, eles me procuram, eles me contam, eles me falam, eles me pedem, eles me procuram de diversas formas para cuidar deles, para proteger.

uma coisa que as meninas falaram de não ser vista como madrasta, eu já tive que falar que eu era mãe deles pra conseguir tirar eles de uma situação muito difícil, assim, de preocupação, tava acontecendo uma enchente na cidade, eu tive que buscá-lo tava caindo árvores e eles não me deixavam entrar no lugar pra buscar eles pra ir pra casa

E eu tive que falar que eu era mãe pra buscar. Por mais que eu levasse eles todos os dias pro futebol, levava pra escola, eu sempre priorizei muito desses momentos com eles, onde eu conseguia fazer coisas, né? Igual vocês falaram de levar num treino, apoiar, levar num futebol e tudo mais.

Isso me doeu muito não conseguir tirar eles dessa situação, porque eu era madrasta. Então hoje a gente está num momento de pré-adolescência, com a adolescência, 14 anos, 16 anos. E eles me falaram uma coisa esses dias que eu acho que fez valer a pena todas as dificuldades desses últimos anos. Que é, a gente quer ficar cada vez mais aqui, porque aqui é nossa casa, a gente se sente bem aqui, a gente quer ficar próximo do nosso irmão e a gente quer ficar com vocês.

Então, para uma menina que há quase oito anos atrás vivia sozinha muito bem e do nada se decaiu com essa situação e começou a viver muito bem, eu falo para várias pessoas que eu posso ter vários defeitos e fazer muitas coisas ruins ou não tão boas na vida, mas eu sou uma mãe muito boa e uma madrasta muito boa, sabe?

porque eles deixam isso claro para mim todos os dias. Então, por isso que eu queria estar aqui para ouvir, para falar com vocês, porque a gente não é visto e a gente não tem referências. Principalmente quando a gente é mais nova, eu não tinha referência de vida e nem em quem me espelhar, porque eu tive experiências ruins com madrastas. Eu também passei pela mesma situação. Então, entrar nesse percurso e descobrir junto com eles como fazer isso da melhor forma para que eles fossem...

os adolescentes e as pessoas que eles são hoje que tem um sentimento muito bom por mim que deixam claro isso para mim faz valer a pena tudo isso assim sabe que poderoso né você se reconhecer com uma mãe foda e uma mãe é o foda para tudo

Porque tem mulheres que passam a vida inteira e a gente tem sempre que entregar tudo e nunca tá suficiente. E a gente mesmo, a gente assim, quantas mulheres muito potentes já sentaram aqui e não se sentem. Parece que a gente tá sempre ali devendo alguma coisa, ocupada por alguma coisa. Então eu amo quando uma mãe ou uma madrasta se reconhecem nesse lugar. Eu sou foda mesmo. Uma mãe...

Ai, nós estamos juntas. Eu vou trazer uma frase que eu gostaria de ter ouvido quando eu virei madrasta. Eu falo que a gente sente muito medo de virar madrasta, porque aquilo que ela falou, a gente não sonha em ser madrasta. Só que na minha caminhada eu percebi que ser madrasta não é o que a gente quer. Mas é exatamente o que a gente precisa pra gente curar a nossa própria história. Porque quando a gente olha aquele enteado, aquela enteada, a má é muito parecida comigo. E olhar pra ela...

E lidar com todas as coisas me faz olhar para a minha história com a minha mãe. E para tantas coisas que eu precisava curar. Então, para quem está entrando nesse mundo de ser madrasta, é um pouco assustador. É, mas é exatamente o que você precisa para curar tantas coisas aí dentro. Confiar e legitimizar, é isso? Legitimizar e confiar nesse ser que chega na sua vida junto do apaixonamento que você está sentindo, né? Pelo pai ou pela mãe, enfim.

E é uma relação possível de acontecer lindamente e com muito amor. Com muito amor. Com certeza. Ao longo dessa conversa foi claro que o cuidado não é algo que se impõe, nem algo que se garante por um título, mas algo que se constrói na prática, no dia a dia, na repetição silenciosa de gestos que muitas vezes não são vistos, mas que sustentam vínculos profundos e transformadores.

Falar sobre essas relações é também abrir espaço para reconhecer histórias que foram silenciadas, experiências que foram deslegitimadas e vínculos que, mesmo sendo reais, nem sempre foram validados da forma como deveriam. E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa conversa.

permitir que essas narrativas existam sem a necessidade de justificar o próprio valor. E talvez a grande provocação que fica seja justamente essa, até que ponto a gente está disposto a rever o que aprendeu para conseguir enxergar o que realmente acontece dentro das relações. Porque no fim, mais importante do que o nome que a gente dá para um vínculo é a qualidade da presença que se constrói dentro dele.

Muito obrigada, Thais, Val, por compartilharem suas histórias e experiências de uma maneira tão rica e amorosa. Muito obrigada também a nossa plateia maravilhosa. E para vocês que sempre nos acompanham. E nos encontramos aqui semana que vem. Um beijo e até lá. Beijo!