Episódios de Mil e uma TrETAS

#109 - COMO MATERNAR EM PEDAÇOS | Com Lorena Maria e Vera Iaconelli

27 de abril de 20261h30min
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Hoje abrimos espaço para uma pergunta difícil, e pouco falada em voz alta: como maternar quando a gente não está bem? Não no cansaço esperado, quase normalizado… mas naquele lugar em que a vida desorganiza tudo por dentro. Quando algo fora da maternidade atravessa, quebra estruturas e, ainda assim, existe um filho que precisa de presença, cuidado e constância.Porque a maternidade não acontece separada do resto da vida. Ela atravessa términos, crises, inseguranças, mudanças profundas de identidade. E muitas mulheres se veem tentando sustentar tudo ao mesmo tempo: o que sentem, o que vivem e o que precisam oferecer.Para essa conversa, recebemos a mãe do Rás, influenciadora e empresária, Lorena Maria (@badgallore), e a mãe da Mariana e da Gabriela, psicanalista e escritora, Vera Iaconelli (@vera.iaconelli), que compartilham reflexões e vivências sobre como existir, e maternar, mesmo quando tudo parece fora do lugar.

Participantes neste episódio4
J

Júlia

Co-host
T

Tayla

Co-host
L

Lorena Maria

ConvidadoInfluenciadora digital
V

Vera Iaconelli

ConvidadoPsicanalista
Assuntos4
  • Saúde Mental FamiliarBaby Blues · Puerpério difícil · Expectativas sobre maternidade · Rede de apoio · Culpa materna
  • Desafios da MaternidadeMães solo · Divórcio e maternidade · Crianças e pais ausentes
  • Impacto da maternidade na identidadeMudanças de identidade · Expectativas sociais
  • Expectativas e realidades da maternidadeRomantização da maternidade · Desafios emocionais
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Sabe quando algo fora da maternidade desorganiza tudo por dentro? Quando um relacionamento termina, quando a nossa estrutura emocional falha, quando a própria identidade entra em crise, quando o mundo, aquele que existia antes dos nossos filhos, ou em paralelo à vida que a gente tem para além da maternidade, simplesmente não se sustenta mais.

Como lidar com tantas dores? Enquanto no meio disso tudo existe uma criança que precisa de presença, de cuidado e de constância. Infelizmente a vida não se divide em gavetas, a dor não pede licença, o medo não espera o momento certo para aparecer e a maternidade, ao contrário do que muitas imaginam, não anula nada disso. Em muitos casos até potencializa tudo, já que o tempo encurta, a responsabilidade cresce, o medo se multiplica.

E de repente não se trata mais só de você tentando se recompor, mas de você tentando se recompor enquanto alguém depende da sua estabilidade pra se sentir seguro no mundo. E é nesse ponto que muitas mulheres se encontram tentando equilibrar o invisível. No episódio de hoje a gente vai falar sobre como maternar quando a gente tá em pedaços. Eu sou a Júlia e sou a mãe da Cora. E eu sou a Tayla, mãe do Francisco e da Tereza. E esse podcast é Coisa de Mãe.

E para a nossa roda de conversa, a gente conta com a nossa plateia Mil e Uma Amada e a presença da influenciadora digital, a mãe do RAS, Lorena Maria, e da piscanalista e escritora que veio clarear tudo para a gente aqui, entendeu? A mãe da Mariana e da Gabriela Vera e a Conelli, sejam muito bem-vindos.

Ainda vem pegar a nossa mão, entendeu? Né, Lorena? Ela vem pegar a nossa mão, abraçar a gente aqui. Vamos pegar a minha, abraça a Dilma. A gente vai me abraçar. Estávamos ansiosos por esse momento. Acho que esse episódio é, enfim, muito necessário, porque quantas mães não estão aí?

Tentando pegar os caquinhos, assim, né? Juntar os caquinhos. Eu vendo, enfim, te acompanhei, enfim, vendo vários vídeos seus, vendo a sua coragem, né? De falar e de se expor. Eu me coloquei muito no seu lugar, né? E acho que muitas mães com um bebezinho muito pequenininho e de você precisar estar inteira. Eu falava, nossa, ela está passando por tudo isso e é ela que vai.

Ter que dar conta desse bebê com tudo que eu dar conta, né? Na hora eu falei, a gente precisa falar sobre isso, a gente precisa de uma mestra aqui na nossa roda, entendeu? Pra gente poder destrinchar de maneiras menores e maiores, né? Porque um puerpério por si só...

ele já é avassalador, na minha opinião, né? Principalmente o puerpério do primeiro filho. E aí, quando ele vem carregado de algumas situações externas que você não controla e que te atravessam brutalmente, eu imagino que esse puerpério seja multiplicado em um milhão. Então, não sei nem por onde a gente começa essa conversa, velho. Fala pra gente.

Eu acho que, ouvindo vocês aqui no meio dessas mulheres lindas, enfim, eu acho que a primeira questão, existiria essa questão para um homem? Porque se existe uma criança, alguém virou pai também. Mas o fato de que seja uma questão tão premente para as mães e tão distante para os homens já mostra para que lado que a coisa cai, cai para o nosso lado. E esse excesso para o lado da mulher já é em si mesmo.

algo que pode ser traumático. Eu acho que o puerpério é difícil, porque ele é um processo de adaptação brutal a muitas coisas. A gente tem condição de passar por ele, mas ele é muito atrapalhado pelas expectativas que recaem sobre as mulheres.

Porque o perpério pode ser do pai também, né? O pai tem um pós-nascimento do filho e ele também teria que se dar conta desse processo. Os pais que ficam, né? Os pais que ficam, perfeito. Mas justamente porque não ficam fisicamente ou porque não ficam mentalmente, né? Sobra para a mulher. Agora, quando você põe sobre essa estrutura já estressada por essa condição de adaptação.

algum acontecimento extra, é jogar ou empurrar o bêbado na ladeira, né? Já está tudo propício para precisar de mais trabalho, de mais ajuda, de mais apoio, de mais escuta. Sim, é demais, né? Lorena, em que momento você...

Entendeu que você estava precisando juntar os caquinhos ali, tipo, caraca, estou em pedaços. Teve um momento assim, começou antes, foi depois, foi no puerpério, que o puerpério, como a Julia disse, já é uma junção de cacos. Mas teve algum momento que você falou, chega, preciso parar tudo, recalcular, juntar? Quando meu filho nasceu e foi se passando os primeiros dias, que logo eu já vi. Que eu estava quebrada e que eu precisava...

Entender o que aconteceu comigo, né, porque não temos mais a mesma vida depois que a gente tem um filho, é diferente dos homens, né, inclusive, que vivem normalmente, ou puerpério, que poderiam passar junto com a esposa. E ali eu também vi o que eu queria e o que eu não queria pra minha vida. Então,

Eu criei forças ali, voltei para a minha psicanálise, porque eu grávida, fiquei com ranço até da psicanalista. Falei, não quero ver ninguém, quero falar que ninguém, estava louca. Aí eu voltei, eu fui atrás dela para poder, ela me ajudar a entender o que estava acontecendo comigo. Eu tive depressão na gravidez, tive o Baby Blues logo ali no início e ele se prolongou bastante.

E só agora, de fato, eu estou conseguindo sair de casa, ir para um evento especial, fazer alguma coisa, porque eu já não sabia nem mais sair de casa. Eu fiquei assim, quem sou eu? Onde que eu estou? O que eu vou fazer agora? Ainda mais quando você...

se sente e fica sozinha, né? Então você tem que ter mil forças. Você não tem que ter uma força só, você tem que ter mil forças para se entender, para entender o seu filho, para entender o seu momento, para procurar entender como que você vai fazer para se reerguer e se encontrar de novo. E o Baby Blues é muito difícil porque no início a gente fica, meu Deus!

O que é isso? Sabe? Foi um vazio imenso em mim. E quando passou esse período, eu encontrei a força no meu filho. E por causa dele que eu realmente consegui ter forças para...

seguir em frente, independente de tudo que estava acontecendo no momento. E eu não esperava esse amor tão grande, porque não sabia que podia amar alguém assim. E... Eu nunca tinha pensado ainda, tipo, ai, quero realmente ser mãe.

Né? Nunca tinha parado pra pensar, quero ser mãe. Foi assim que nem? Em algum momento, sim, em algum momento, eu teria um filho. Eu gostaria de ter uma família, mas eu não tinha parado pra pensar nisso ainda e não esperava tão nova, que eu acho que eu ainda tô gravidez na adolescência. 26 anos na cara já. E aí, então eu não sabia. Ele foi uma grande surpresa pra mim, porque eu vi ali que eu não podia morrer.

Nasceu meu filho. Ele só tem, assim, praticamente a mim pra lutar de unhas e dentes por ele. Enfrentar qualquer coisa por ele. Então, foi muito difícil, mas toda vez, principalmente agora, que já me chama muito de mamãe, é o tempo todo chamando mamãe. Meses, né? Não tem um ano ainda, né? Tem um ano já. Um ano já? Tem um aninho já.

Ele vê minhas fantasias de carnaval e ele já aponta mamãe. Ele vê uma coisa espalhafatosa, ele fala mamãe. Já, já, já, sabe? Então isso me... Quando eu ouço ele falar, quando eu vejo o sorrisinho dele maravilhoso, que se parece muito com o meu...

Isso me traz uma coisa tão grande que agora que eu sou mãe, eu entendo quando falam que criança é benção. Porque ele foi a benção na minha vida e foi a salvação para a minha vida. Então, eu consegui passar por esse puerpério muito difícil por causa dele, de verdade. Assim, parece clichê porque muitas mães falam, né, uma benção, isso, mas é realmente verdade. A gente só consegue força por causa dos nossos filhos.

E aí

E aí é isso, até agora eu ainda estou tentando separar a minha vida, trabalho, estudo, filho, então eu ainda não sei, não estou sabendo como organizar tudo isso. Eu ainda estou organizando, sabe? O meu tempo de estudar, eu me sinto culpada do seu estudo. Eu venho do futuro para te dizer que essa reorganização, ela nunca tem fim. Porque se o filho vai fazer dois, vai ser outra organização, vai fazer três, a outra vai... É sempre uma nova fase, uma reorganização eterna. Não sei se era isso que você queria ouvir.

eu venho um pouco do futuro. Não, mas tudo bem. Então você procurou a psicanálise? Sim. Eu faço psicanálise há cinco anos, seis anos. Você também tinha sua rede de apoio, mãe, pai, perto de você? Ou não?

Na verdade, eu não tenho pai e a mãe também não é presente. Então, sou eu e minha irmã, minhas primas e minhas amigas. Sabe? Elas estão ali para me apoiar quando eu choro, quando eu sofro, quando eu passo o que eu passo.

Mas é isso, é sozinha junto com elas. Eu quando estava olhando os dados aqui que me vieram, sei lá, 15 páginas de dados super alarmantes, né? Sobre a saúde mental da mulher e tudo que acontece ou pode vir a acontecer. Teve uma coisa que me marcou muito, né? Você começa a falar, eu tive Baby Bruce.

E uma coisa que sempre ficou na minha cabeça é, quando a gente já deu esse número aqui um milhão de vezes, que o número, 80% das mulheres tem o Baby Blues. Só que quando você vai pra sua roda de conversa entre os amigos, me confirme até se eu estiver errada aí nas rodas de vocês. Ninguém nunca teve. Ninguém nunca fala essa palavra. Ela, ah, eu tive um perpério difícil, ah, eu chorava muito. As pessoas não dão nome, mesmo sabendo os nomes, como se já fosse um lugar de fracasso. De menos mãe, de um lugar já, tipo, sei lá.

Eu não consigo muito entender, né? Estou aqui tentando elaborar e imaginar por quê. E isso se estende para várias outras situações, né? Eu tinha lido sobre isso, depois veio sobre ansiedade materna. Também um lugar onde não busca ajuda, que é um número super alarmante. Acho que 25% das mulheres, pelo menos, desenvolvem. E também entra nesse lugar de dificuldade de pedir ajuda e...

Isso desenvolve várias outras coisas, né, Vera? Queria que você falasse um pouco pra gente quais os primeiros sintomas, né? A gente já falou muito isso aqui, mas como esse episódio é sobre isso, pra essa mãe nomear, entender que ela tá com Baby Blues, entender que é comum ou onde ela precisa procurar uma ajuda.

Então vamos fazer uma distinção mais clara. O baby blues é um processo adaptativo. Ele traz um humor meio entristecido, ensimesmado. Você está elaborando, pouco que nem na adolescência. Ninguém está saltitante na adolescência. Parece que está, mas não está. Está num processo de elaboração interna. Então é um trabalho de elaboração. Esse é o baby blues que acomete em torno de 80% das mulheres.

Dentro desse 100%, você vai ter as depressões, que aí são os casos que precisam de uma ajuda, as depressões, as ansiedades, os distúrbios psicossomáticos, que podem começar antes do nascimento do bebê, não precisa ser depois que o bebê nasce, né? E aí você vai precisar de ajuda, você vai ter os sinais, os sintomas que vão ser disparadores na busca de ajuda. Mas que não é um processo no qual você ganha o bebê e você está saltitante, isso não é para 80% das mulheres. Claro.

Porque você está, é que nem adolescente, a gente acha que o adolescente está sempre feliz, mas ele está se avendo com milhões de questões, entendeu? A mãe de bebê também, ela pode estar super feliz com o nascimento do bebê, mas ela tem milhões de adaptações para fazer. O que acontece é que hoje as mães estão muito sozinhas.

E isso faz com que o baby blues muitas vezes se transforme em depressões, em quadros psicosomáticos, a mulher não consegue dormir, então sintomas. A pessoa pode ter distúrbios de sonho, distúrbios alimentares, distúrbios de humor, então ela está sempre triste, ou ela fica ansiosa, ela alterna momentos de euforia com momentos de profunda tristeza, ela pode ter pensamentos suicidas, ela pode ter pensamentos homicidas, ela pode ter... Pensamentos com os bebês, né?

Com os bebês, né? Um desejo de voltar atrás, pra antes da existência do bebê. Ou medo de fazer mal pros bebês. Medo de fazer mal pro bebê. Então, assim, o que a gente entende é o seguinte, depois que o bebê nasce, tem um processo de elaboração, e de um dia pro outro, de uma semana pra outra, essa mulher tem que ir melhorando, ela tem que ir se sentindo melhor. Você olhou pro seu bebê, ele foi te dando aquele feedback, você foi sentindo que valeu a pena, né? A coisa foi se organizando dentro de você. Você encontrou seu grupo de amigas, que hoje é tudo, né, gente?

encontrou seu grupo de amigos, sua praia ali, mas podia acontecer que você não fosse recuperando e você fosse se afundando. Isso pra gente é uma medida que essa pessoa precisa de uma ajuda a mais. É um alerta de procurar. É um alerta de que a coisa não está... o Baby Blues tem que involuir. Você passa daquela crise inicial do corpo, social, tem várias coisas, que vai diminuindo cada semana, cada dia você vai se sentindo melhor.

Os quadros que precisam de ajuda, eles vão evoluindo, no mau sentido, no sentido de que a coisa, você volta lá, você vai visitar tua amiga, uma semana depois ela tá igual, ou ela tá até um pouquinho pior, a coisa não vai, não vai. Você fala, amiga, assim, vamos conversar com o especialista, porque o especialista, inclusive, ele pode falar, não, isso aqui é um baby blues, faz parte. Não, isso aqui tá precisando de medicação. Isso aqui não tá legal, mas não tá precisando de medicação. Então, a gente tem que fazer uma avaliação mesmo, em alguns casos.

E muitas mulheres se assustam com o baby blues porque está tudo seguindo conforme o planejado. Bebê lindo, maravilhoso. Então foi o parto saudável, gentil, o bebê está mamando, o casamento está tudo bem e ainda sim, né? Que acho isso é legal também você trazer, né? Porque tem, até a gente chama, traz para esse episódio um contexto de além do blues, além desse blues comum que 80% das mulheres passam.

tem essa dor de quando ainda um fator externo, mas independente do fator externo, o blues é inerente. Isso é super importante você dizer, porque assim, às vezes pode ter caído o mundo, e a mulher não faz uma depressão, ela lida com aquela situação.

E às vezes está tudo certo e ela faz uma depressão. Quer dizer, então depende, porque é como se dissesse, você tem um acontecimento que recai sobre cada pessoa e cada pessoa é uma única pessoa que vai ter um processo elaborativo daquilo. Não tem mérito nem demérito. É como você se viu diante de uma coisa totalmente inédita na sua vida e que acionou alguns botõezinhos. E às vezes não é no primeiro filho, é no segundo.

Às vezes é no terceiro, você não teve isso no primeiro, no segundo. Porque tem circunstâncias internas que ficam... A amostra, como eu brinco assim, como se abrisse a caixa de Pandora, sabe? Pandora abriu a caixa e foi saindo de tudo de lá.

É isso. E um ótimo exemplo disso que pode ser no segundo ou no terceiro, é como às vezes a mesma mãe na mesma fase, dependendo do dia, de como você está, se você está regulada, se você está bem e tal, uma mesma situação pode te desequilibrar completamente ou pode passar por você e você falar...

Mas a labilidade do humor, esse humor, faz parte do blues. No caso da depressão, é mais difícil os momentos eufóricos. É mais da ordem da tristeza mesmo e da ansiedade. Eu tive a depressão na gestação, né? E era a sensação de não quero viver pro... Acho que eu já suportei.

Ah, não. Isso eu tava falando quando você tá seguindo a vida normal. Você não tá num cenário depressivo, nem em blues, nem nada. Na vida normal, dependendo de você tá um dia melhor ou pior, você com você mesma e tal, a mesma situação vai te pegar de jeito diferente. Não num quadro depressivo ou do blues e tal.

Agora, uma curiosidade, que eu sempre gosto de perguntar para os especialistas, as suas duas gestações, você passou pelo blues? E aí eu brinquei na cabeça, no começo do episódio, que eu acho que o primeiro filho...

Eu só tive uma, né? Então também não é que eu tenha muito repertório. Mas eu tinha lido muito sobre o blues, né? A teoria toda eu tinha já elaborado. Mas na prática, o fato de ser a primeira vez e de eu não saber se eu sairia daquele estado, que me pegou tão... Porque às vezes eu desconfiava. Eu falava, eu acho que eu vou ficar assim pra sempre.

E aí eu quero saber, você com todo o seu conhecimento, como foram os seus perpérios e você teve blues? Tive blues na minha primeira porque uma coisa é você conhecer, entender, estudar e outra coisa é viver. Não tem nada a ver. Em quantos anos você teve a primeira?

32 e a segunda com 35. Elas são mulheres adultas hoje. Mas a primeira eu tive o Baby Blues e vivi tudo que eu tinha direito ali. Não fiz uma depressão, mas sofri bastante com esse processo de adaptação. E na segunda, não. Na segunda eu já estava num outro momento, mas não tem a ver com isso tudo. Na segunda, a sua caixinha de Pandora já está...

Já estava assim. Já estava, é isso mesmo, vamos lá, vamos que vamos. Agora, eu concordo com você, você saber que não tem nada de errado com você, que é assim, que é um processo que pode disparar uma depressão e outros sintomas, faz com que você possa falar sobre isso, que você encontre amigas com quem você compartilha, isso é uma coisa que evita muito o adoecimento.

Porque sofrimento não é igual a adoecimento. A gente sofre na vida, mas não precisa adoecer. Então, adoecimento implica em outras questões. Saber que o que você está vivendo não tem nada de errado com você, ajuda bastante a gente a não adoecer. Acho que tem até a ver com uma pergunta que eu ia fazer para a Lorena.

Que é, dá pra reconhecer que você está em pedaços e não se sentir falhando como mãe? Que você, como, né, você já traz essa resposta no seu lugar de, bom, como eu tava com um baby blues, né, que querendo ou não, essa coisa do, aos pedaços, supor assim, você já sabia que não tinha nada errado com você. Mas quando a gente não tem esse conhecimento, a gente se sente muito falhando, né? Como é que foi isso pra você? Sim, se sente muito culpada.

Além de se sentir culpada, se tiver pessoas para julgar você, que é o que acontece na maioria dos casos das mães...

pior, porque você se sente um lixo, cara. Você tá dando o seu máximo, você tá operada, você tá rasgada, você tá com dor, você tá se virando e ainda existem pessoas pra julgar você. Então, isso te deixa mais em pedaços, sabe? E eu tenho problema, você falou sobre pedir ajuda, eu tenho problema em pedir ajuda.

Justamente porque eu tive péssimas experiências pedindo ajuda das pessoas, né? Que nos momentos mais vulneráveis, como o meu puerpério, mais pra frente... Usaram contra você. Usa contra. Coisas... Ai, não consegui fazer isso hoje.

Então você desmoraliza como mãe. Isso acontece muito com os parceiros dentro de casa, com os pais dentro de casa. Se você não fizer desse jeito, você não é mãe suficiente. E não é assim, entendeu? Eu me sinto culpada, por exemplo, até hoje, quando eu estou estudando. Falo, meu Deus, fico assim olhando o relógio. Tem que ver meu filho, tem que estar com meu filho. Caramba, passei seis horas sem meu filho.

Só que eu preciso viver a vida, estudar, fazer minhas coisas, trabalhar até mesmo para poder proporcionar tudo o que eu quero proporcionar para ele. E a gente vive carregando essa culpa, esse sentimento de... Se eu for para algum lugar, se eu for jantar com alguma amiga, a cabeça fica na criança.

Porque a gente, como somos muito julgadas, a gente já fica na defensiva, já recua de muita coisa com esse receio do julgamento. Aquele começo que a Vera trouxe, né? Ninguém faz muito essa pergunta para os pais, né? Muito? Ninguém faz. Ninguém faz, não existe. Corrigindo, pai. Pelo contrário, o pai pode não fazer nada que vai ter alguém para falar que você é um pai maravilhoso.

Eu tive um puerperio muito difícil e para além do blues e das dificuldades e adaptações em si, eu tinha alguns ajustes na vida para fazer e eu não estava olhando para esses ajustes e estava muito angustiada, enfim, estava difícil para mim e eu não assumia para mim mesma.

e nem um monte de gente na plateia está concordando comigo deve ter passado por alguma coisa parecida. Eu só fui conseguir nomear o que eu estava vivendo, assim, tipo, ano passado, minha filha depois dos três anos. E era um...

tem um ano e meio que eu passei ignorando até para mim mesma tava sem terapia também também não porque você logo voltou né o tipo minha filha nasceu eu não vou retomei um erro muito grande e quando eu vi eu tinha me deixado toda para trás eu tava jogando tudo embaixo do tapete sem olhar para aquilo

E daí voltei para análise e recuperei todo esse tempo e comecei a nomear tudo aquilo que tinha acontecido. Eu estava contando para a Tayla hoje que esses dias eu tive uma discussão, tive uma questão que me pegou profundamente para além da minha maternidade, como mulher.

E tive que fazer o que tinha que ser feito com a minha filha. Ler três historinhas, agarrar, fazer dormir, escovar o dente, dar o banho e fazer dormir. E seguir com a rotina, porque a gente, quando se despedaça, a gente tem que seguir fazendo o que tem que ser feito. Porque a criança come igual, a criança toma banho igual, a criança tá tudo igual.

E aí eu reencontrei esse lugar que foi até da onde eu quis trazer esse episódio pra gente, que era um lugar de muita angústia, um coração acelerado, quase uma falta de ar, quase um, arrisco dizer, uma crise de ansiedade forte. Arrisco dizer é ótimo, né? Porque eu acho que é isso. Porque eu não sou especialista, mas eu acho que era isso.

mas meu coração fazer assim e eu com medo do abraço da minha filha dela sentir o nível do disparo do meu coração é uma vontade de chorar muito grande mas tipo ali e tal e lendo aquelas historinhas que eu nem sei o que eu lia porque as letras até bagunçavam e aí quando deitei com ela depois de banho de história deitamos na cama eu voltei falei eu vivi muito tempo assim

E me emociona, porque eu vivi muito tempo assim e normalizei. De eu fingir que estava tudo bem eu ter que lidar com tudo aquilo, isso é tudo aquilo. Esse era o novo normal, né? O que em caminhar tropeçando pelos meus pedaços. Ai, Deus, vou pela casa e tal.

E aí agora que eu tô há muito tempo leve, há muito tempo eu tô bem, há muito tempo lá tem o meu melhor, depois que eu soube nomear e ir colando caquinho por caquinho, isso foram um ano, dois, que eu demorei pra fazer isso, hoje eu sei que eu tenho muita coisa boa pra dar pra ela.

Mas eu olho para fotos minhas durante períodos longos e eu queria até me abraçar, assim, eu falo, nossa, eu estava fazendo o que tinha que ser feito, mas só eu sei o preço que eu estava pagando, né? E aí é por isso que me pega, os seus depoimentos me pegaram, né? E me traz para esse lugar de que a gente está falando do blues, mas nem sempre é o blues. A gente vive num país, a gente deu em outro episódio esses dias que são...

Sete em cada dez pais, não era isso? Acho que é. Abandonam as mulheres. São 11 milhões de mães atípicos. São 11 milhões de mulheres solo no Brasil, mães solo no Brasil. Então você fala...

Isso pode, devem ter muitas mulheres que vivem assim o tempo todo, sem o direito e sem o tempo, né? Porque vamos combinar que você tem que ter um tempo e tem que ter privilégio para ter uma análise. Não sei, você vê muito isso em consultório?

É, sim, exatamente. O que a gente vê são as mulheres sobrecarregadas e se sentindo culpadas, porque como elas estão sobrecarregadas, exatamente como você falou, na hora da historinha, na hora que seria a hora divertida, elas já estão caco, sem paciência, com vontade de dormir, descansar, né? E muitas vezes o pai que chega depois...

que não teve com a criança o dia inteiro, que não teve preocupada com a criança o dia inteiro, porque a gente ainda trabalha fora o dia inteiro, mas você está com a criança na cabeça, levou o lanchinho na escola, levou o casaquinho, levou o presentinho do amigo, será que chegou direitinho na escola, enfim, almoçou direito, enfim, está com ele na cabeça. Os pais não costumam ter a carga mental. Então, quando eles estão com a criança, a interação é muito mais leve. A criança só pega o caco da gente, mais ou menos, das mães.

E aí a mãe se sente culpada porque a criança só pega o caco. E a criança fala, mas a mamãe está sempre irritada. Aí vai virando uma coisa que você vai se sentindo uma mãe má. Ao invés de reconhecer que você vive circunstâncias muito adversas. As circunstâncias da maternidade são muito adversas em comparação com as circunstâncias da paternidade. E o pai, muito frequentemente, pousa de um pai bacana que chega cheio de amor para dar quando ele aparece.

Quando ele aparece, ou quando ele não está traindo a mãe, ou quando ele não está... Ele ainda pode ser idealizado, né? O pai que nunca apareceu, o pai que foi embora, ainda pode... Ah, se eu vivesse com o meu pai, seria melhor. Porque fica um pai idealizado. Enquanto que a mãe é a mãe real, aquela mesmo, que acumula funções, que... Com certeza. Né? A gente já ouviu histórias duríssimas aqui também. Você falou da caixinha de Pandora, né? Enfim, a maternidade, você acha que ela amplifica as dores que já existiam, ou ela mais cria novas dores?

Eu acho que ela revela a estrutura. É como se você tivesse uma estrutura, uma mesa que serve para um tempo. Aí você bota um elefante em cima da mesa. Então aquela mesa podia não ruir nunca, mas com elefante ela fica mais difícil. Você testa a estrutura, você descobre do que você é capaz. Você pode até descobrir competências que você subestimava.

Você sempre foi a criancinha da mamãe, de repente você vira um mulherão, né? Você pode se descobrir muito mais frágil do que você imaginava. Então, é como se o teu psiquismo que está lá vivendo a vida normal fosse colocado à prova, né? Algo se revela ali do que é teu.

Eu também acho isso. Eu me identifiquei muito com o que você falou da crise de ansiedade. E eu tive uma crise de ansiedade na frente da minha filha de 4 anos. E eu acho que foi o sentimento mais destruidor. Foi passar por isso na frente dela. Ela me vê tão vulnerável.

tão tão mal e eu entendi só depois dessa crise que eu precisava realmente me tratar além de só terapia porque eu não queria que ela presenciasse aquilo e por muito tempo eu deixei de me olhar e me cuidar para evitar que isso acontecesse na frente dela né

Então eu acho que além de você viver essa ansiedade, de você passar por tudo isso como mulher, é muito difícil sua filha te ver nessa situação. Então é uma situação que realmente abala por tudo, como mulher, como mãe, inteiramente. Eu sou Ivana, eu sou mãe solo e até me emociona um pouco falar porque ouvindo vocês...

Eu estou aqui ouvindo e pensando, será que eu tive isso? Porque na minha cabeça, quando eu engravidei, eu não podia ter nada, porque era só eu e o apoio dos meus pais. Então eu pensava assim, bom, agora eu tenho uma nenê, eu não posso ter nada. Então, assim, graças a Deus, eu...

nunca perdi noites de sono ou crises de ansiedade, mas o dia inteiro, talvez ou até hoje, eu me passe assim, será que está tudo bem mesmo? Porque é sempre você fazendo as coisas, sempre você se vendo ali cobrada, e de repente você fala, caramba, será que eu preciso de ajuda? Será que não? Mas me sinto...

bem assim fisicamente é conseguindo dar conta do dia a dia mas ao mesmo tempo internamente talvez ela quietinho tenha nessa essa cobrança eu acho que pedir ajuda é sempre bom

né velho ajuda não vem de 7 pedi ajuda para entender eu acho assim a gente tem um especialista aqui para falar mas vontade de dar um abraço é eu acho que ajuda será que eu preciso porque assim se eu falo eu consigo dar conta de tudo fisicamente eu tô aqui eu tô dando conta de tudo mas talvez quem dá conta de você é quem cuida né que nem a nova era falou aqui mas quem me abraçar

Eu acho que às vezes é só isso, né? Às vezes é ter um colo, tal, como chega uma ajuda, uma psicóloga, sei lá, eu acho que terapia é tão bom se tiver acesso, eu sei que é um lugar de privilégio, mas Vera, ajuda. Mas essa ideia de dar conta de tudo é um mantra para as mulheres, né? No lugar de cuidadoras. E muitas vezes a paciente chega e fala assim, então, eu preciso dar conta de tudo que eu trabalho, eu cuido do meu filho, cuido da minha casa, cuido dos meus sogros, enfim.

porque a minha mãe e a minha avó tiveram seis, oito filhos e deram conta de tudo. Não deram conta de tudo. Não deram, né? Perderam a vida sexual, amorosa, pessoal, as amigas, a saúde, a beleza. Perderam um monte de coisa que elas acharam que estavam na conta. O que acontece é que nós somos uma geração, eu sou mais antiga, mas é uma geração de mulheres que...

querem ter uma vida, querem ter uma vida amorosa, sexual, as amigas, o trabalho e o filho também. Não querem botar na conta do filho, olha, eu abri mão de tudo isso por sua causa e agora você tem que ficar com a mamãe. Não, a gente quer ter tudo. Agora, a gente fica se espelhando numa geração imaginária que nunca existiu e que deu conta.

Como é que alguém dá conta de tudo? Primeiro a gente tem que começar a abrir mão desse lugar. Aí a gente começa a falar, não, vamos lá, gente. Uma criança que chega, ela é neta de alguém, sobrinha de alguém, irmão de alguém, filho de pelo menos duas pessoas, né? Pelo menos, né?

E ele não é seu, ele é responsabilidade do Estado também. Você tem que ter creche, você tem que ter escola, você tem que ter transporte, você tem que ter moradia. Tudo isso faz parte das obrigações do Estado. Então, uma criança é responsabilidade de toda a geração anterior. E a gente acha que a gente tem que dar conta de tudo. É trágico, porque é uma fantasia onipotente.

É uma fantasia que nos derruba. Toda onipotência leva à impotência, porque não dá para sustentar, né? Claro. Que vem do mesmo lugar que o pai não é questionado de onde está o seu filho, não sabe dar conta de nada. Lorena, como foi equilibrar a exposição que foi necessária para você enquanto você tentava proteger o seu momento vulnerável ali no portférico?

Cara, não sei como eu equilibrei isso. Acho que eu não equilibrei muito, não. Quem disse que eu equilibrei? Fui rolando assim, levantando, caindo, levantando. E dei o meu jeito. Mas assim, foi libertador. Foi realmente, como você falou, foi necessário. Agora eu me sinto melhor, me sinto mais segura. E...

Não equilibrei muito bem não, ainda estou caminhando, carregando, consertando tudo que eu tenho que consertar comigo, na minha vida, na minha casa. E é isso, tentando dar o máximo para o meu filho, porque nessa coisa da gente querer dar conta de tudo...

Se a gente não consegue dar conta de alguma coisa, aí a gente se sente impotente. Fracassado. Bem aquilo de... Culpado. Não conseguia. Será que eu sou a melhor mãe mesmo? Será que eu tô fazendo o suficiente? A gente se culpa até mesmo, por exemplo, eu me culpo até mesmo por ter babá.

E eu acho um absurdo eu fazer isso. Fica eu e eu aqui, ó. Para de ser louca. Porque eu acho um absurdo. Por quê? Porque me culparam muito por eu ter babá. Então, eu me sinto culpada e tento me libertar disso. Me libertar porque...

Ou, foi como a senhora disse, a gente largar tudo pelo filho, não tem como, entendeu? A gente faz o máximo que a gente puder e a gente faz tudo, mas a gente tem a nossa vida, nosso trabalho, nossos estudos, nossos sonhos, jamais podem ser deixados para trás, então fica eu e eu aqui, ó. Eu e eu e eu brigando. E tem muita mulher que deseja que nasceu, que o sonho dela é maternar e às vezes é uma escolha.

dela até largar, tem muitas mulheres, já sentaram inúmeras mulheres aqui, que abriram mão do trabalho, pediram demissão e tal, porque o grande sonho da vida delas era o maternar, né? Então, os sonhos é cada um com os seus, né? De buscar os sonhos que tem. Então, tem várias que escolhem...

Tá lá, mas com certeza elas não estão... A culpa também está pairando sobre todas elas, né? Cada uma de um jeito. Outra coisa que a gente ouve muito aqui, né? Do tipo, principalmente nas mães solo, né? Ou mães recém-separadas. É muito assim, tipo, ah...

o pai não visita porque ele trabalha muito e precisa estar descansado, ou então ele pega por duas horas e não pernoita, não dorme com a criança. É, porque a gente ouviu, a gente não acreditou. E aí a gente fica assim, ouvindo, como para eles é muito fácil passar pelos processos, eles pegam a mochilinha deles e vão.

resolver individualmente não eu preciso me organizar minha vida não está organizado não preciso estruturar aqui e a gente precisa precisa né mas a gente faz tudo pelo caminho a gente troca o pneu do carro andando né só vai não tem como nem parar assim a gente tem que continuar a galera trouxe esse comparativo né de de

adoecer ou não adoecer no processo que você pode estar sofrendo muito não foi sem estar sem adoecer ou você sentiu que adoeceu no seu processo em algum momento o cara foi duro foi muito

Assim, eu acho que eu recalquei um pouco, sabe? Recalcar é colocar o sentimento para baixo do tapete, recalcar ele lá para algum lugar que eu não sei onde é.

Então, eu ainda acho que virão alguns sintomas. Essa conta ainda vai chegar. Como eu recalquei, porque só tenho eu e preciso estar de pé, eu acho que ela pode chegar em algum momento, mas como eu faço análise direitinha, eu espero que eu consiga lidar melhor com meus sintomas. Mas meu amigo Matheus está aqui, ele acompanhou todo o processo do meu puerpério e realmente eu...

Não enlouqueci pela graça de Deus, mas foi enlouquecedor, foi enlouquecedor, muito doloroso, muito dolorido. E é aquilo sobre o elefante em cima da mesa.

Eu aguentei o elefante, pelo menos até então eu sustentei o elefante. Não sei o que isso vai me trazer depois, né? Mas por isso que é importante a gente continuar nosso acompanhamento psicológico. Para quem tem esse privilégio, porque até alguns anos atrás eu fazia ideia que eu poderia, que em algum momento eu ia cuidar do meu psicológico e agora eu posso fazer isso. Também tem, pelo menos no Rio de Janeiro, tem algumas...

Como que fala? Alguns projetos que as pessoas conseguem fazer, psicólogos, mais barato ou às vezes de graça. Não dá para fazer com todo mundo, mas tem alguns projetos. Eu acho muito importante, principalmente no puerpério, tendo você ou não passado por coisas ruins. Eu acho que é muito importante porque é isso, a gente acha que está... Não, vamos embora, vamos embora, vamos embora, está tudo bem.

Mas será mesmo? Não está tão bem assim e esses sintomas virão em algum momento. Eu queria fazer um comentário de uma coisa que você falou, porque as mulheres sempre falam assim, assim, aí eu precisei de uma babá. Não é você que precisou de uma babá.

a família dessa criança precisou de uma babaca. Quer dizer, o pai da criança, o avô da criança, porque todos são responsáveis um tanto pela criança. Se você precisou de uma... Eu também precisei, precisei, quando elas eram pequenas, se fossem pequenas, precisaria ainda hoje, mas todo mundo que era responsável por aquela criança...

precisou de uma funcionária para dar conta daquela criança. Você que pagou, você que contratou. Mas, na verdade, onde estavam os outros? A babá, ela substitui todos os outros, né? Porque as mulheres... Uma janela de espaço que ninguém pode cobrir, né? Eu tenho uma babá.

que já teve. Não, mas assim, eu tenho uma babá. O pai do teu filho tem uma babá. Os avós têm uma babá que você contratou, mas na verdade ela vem render todo esse povo que poderia comparecer caso você faltasse. Então é muito curioso isso. É, eu acho que isso me pegou muito também porque eu escutei uma vez de uma pessoa que queria ver eu, que era pra você fazer sozinha, ver se você consegue. Ninguém consegue.

Eu, por que a pessoa quer me ver na merda, cara? Que loucura é essa? Eu gerei, saiu dos meus ossos, do meu sangue, do meu cérebro.

Eu não posso ter uma ajuda? Não, você deve. Mas essa é uma fantasia muito louca, de achar que a mulher tem que dar conta de tudo, de novo dar conta de tudo. Tem que, assim, isso, desculpa, é puro suco de a gente vai trabalhar de graça pra cuidar da próxima geração e ninguém tem nada a ver com isso. Você tem que trabalhar, sustentar, sustentar o cara e ninguém mais tem que comparecer. Porque é um trabalho enorme que a gente faz, né? Não remunerado. Bom, eu, essa questão de estar em pedaços. Eu estou com dois bebês, falei pras meninas, um de dois meses e um de dois anos.

E aí, como que você não fica em pedaços? Porque a culpa, ela vem assim, é... Meu Deus, quando eu descobri que eu estava grávida, um ano e cinco meses, tinha o meu mais velho. Eu olhei pra ele, eu chorava, desconsoladamente, assim. E meu marido falou, por que você está chorando desse jeito?

Eu falei, ele é um bebê, ele ainda precisa de mim, o que eu vou fazer? Como que eu vou dar atenção pra ele se eu vou estar com outro que depende de mim? E aí, na época, ele falou, calma, eu vou ficar com ele e você vai ficar com o bebê, porque o bebê vai precisar muito mais de você. E aí eu falei, não.

O bebê, ele não entende. Ele não entende, ele sente, né? Mas não entende. E ele, com certeza, precisa muito mais de mim do que o bebê. E hoje, vivendo isso, como eu, ouvindo também vocês falarem, como a gente fica destruída e se cobra por algo que é natural, vai ser natural. Não tem, não tem o controle de nada. Então, assim, até, doutora, eu queria uma ajuda.

De como me tranquilizar pra... Vai estar tudo bem. O pequeno, ele tá sentindo, mas o grande, ele tá entendendo muito mais. E é uma culpa sem fim. A gente tem um episódio inteiro pra você sobre o tema. Que é a chegada do segundo filho. Você vai gostar. Você não viu ainda, assista. Eu não vi ainda, mas eu vou assistir. E é isso, gente. A gente precisa estar inteira. Com certeza.

E não precisa, né? Se não é só o... Como ela diz, o que sobra da mãe sempre pro filho é o... Caco. O caco. Coitado, bichinho. Então, esse vai virar nosso... Só sobra o caco. Quando olhar pra você, você já sabe. Vou usar o bordão, o bordão. A gente tem que puxar um pouco a orelha da gente mesma.

Porque como na sociedade o papel de mãe é o único papel que a gente ainda tem algum valor, todos os outros papéis a gente é preterida, desrespeitada. Você quiser rodar para ela, Vera, para falar? A sua cadeira gira. Opa, perdão, perdão. Isso. Se eu rodar para você, fica de paz. Daí a câmera de lá te pega.

Como a gente... O único lugar de prestígio que a gente ainda tem é a maternidade. Os outros todos, o teu chefe, teus colegas, todos vão te tratar. Você vai entrar no metrô, você sempre vai ser tratada como cidadão de segunda classe porque você é mulher. Mas como mãe, não. É um lugar de prestígio. E a gente tem que abrir um pouco mão desse prestígio. Você não é tudo para o seu bebê.

Ele tem pai, ele tem avó, ele tem irmãzinha, ele tem... Você não pode querer ser tudo para o seu filho, porque se você for tudo para ele, você está botando uma bola de ferro amarrada no seu pé. Se você for tudo para ele, você não tem nada para você, não sobra nada para você pessoal. Então, quando as mulheres se divorciam, por exemplo, fazem guarda compartilhada...

Muitas vezes elas não exercem o direito da guarda compartilhada, porque como ele vai dormir na casa do pai, que comida que o pai vai dar, sem mim ele não dorme, eu que tenho que botar para dormir. Gente, fala não, vai aprender a dormir sim com você, vai aprender a dormir com a avó, com a avô, com o pai, vai aprender a dormir sim. Se você ficar no lugar de ser tudo para o outro, na filha não vai sobrar nada. Aí você trouxe a guarda compartilhada, chama a Ellen.

Microfone. Que a Ellen, no depoimento que ela mandou pra gente, ela traz um cenário muito comum, né? Do quanto tempo eu fiquei silenciada, negligenciada, numa relação atravessada por ciclos de dor.

em nome da minha filha até eu entender que em nome dela eu precisava sair dali eu acho que isso é se vai começar com suspiro eu venho um pouco do futuro tenho uma filha de 12 anos né Letícia

E eu venho de uma estrutura familiar muito boa, muito estruturada, com o pai. Meu pai trabalhava em casa, ele faleceu. Eu tinha 14 anos, mas tomávamos café da manhã junto, almoço junto. Enfim, mãe que olhava lição de casa todos os dias, eu e meus dois irmãos, enfim. E era aquela família margarina que foi aquilo. E, de repente, meu pai faleceu muito rápido e perdi.

E de repente quando eu me vi casada, e num ciclo, num casamento extremamente abusivo, muito difícil, eu fui mãe solo casada, eu escutei você falando, e é muito mais doloroso, porque você conta e não conta, né? E eu pensei, eu tenho que estar aqui a qualquer custo, né? Eu preciso estar aqui por causa dela. E eu verbalizava isso, inclusive em sessões de terapia. Eu não preciso ser feliz, minha filha precisa de família.

ela começou a me mostrar que ela percebia o que acontecia ali, por mais que eu tentava blindar. E ela falava, quem é casada não é feliz. Mamãe, se eu nascer de novo, eu posso nascer menino? Porque a vida do homem é muito mais fácil. E aí eu comecei a fazer a terapia para o inverso. Eu preciso sair daqui por ela. E foram anos, não foi fácil. Eu me separei há um pouco menos de um ano.

e assim ela tava com 13 anos ela tinha 12 de trazer para ela porque foi blindada então para ela foi tão pouco de surpresa porque eu fazia tanta questão de mostrar uma perfeição que quando eu percebi já não existia mais eu não existia não tinha mais vontade não tinha amigos não tinha prazer eu não tinha nada assim e aí nesse momento eu cheguei para ela

e falei, a mamãe está indo embora, procurar um lugar para a gente, peguei nas duas mãos dela, falei assim, seja forte daí, que eu vou ser forte de lá. Isso foi uma quinta-feira, falei, sábado eu volto para pegar as suas coisas. Eu falei, e a gente vai ser muito feliz, e eu vou te mostrar que é possível.

E assim, recomeçar do zero e ter que fazer uma questão lúdica de mostrar ali que a gente não tem mais um filtro de água, mas que vai ser muito legal comprar uma garrafa e a gente vai conseguir, né? Que a gente não tem mais o seu quarto e o meu quarto, mas que a gente vai ser feliz e vai reconstruir isso, vai ressignificar, né? E ver a força dela em um adolescente que já vem conflitando com um milhão de sentimentos dela ali, né?

mas de falar para ela dá para sair dá para ser feliz e pegar a mão dela e fala assim homem nenhum no mundo pode gritar com a gente nem se esse homem for seu pai nem se esse homem for seu irmão nem se esse homem for seu filho eu falei né E a gente vai fazer uma história diferente daqui para frente eu falei eu te prometo que você não vai ver nunca mais uma mãe chorar que não seja alegria falei assim né E estamos aí assim a gente vai fazer um ano mas tanta coisa mudou para melhor tanta coisa size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size size

Doutora, baseado nisso que ela falou, tem uma pergunta que se ajuda a gente.

Pai ausente, traumas. Pai presente, traumas. O que a gente faz? É, então... Pergunta ao ponto. Não é garantia que o pai ausente é um trauma. Aliás, nada disso é garantia de trauma. Um pai ausente pode ser muito bom, obrigado.

Agora, um pai cuja presença significa violência, significa se sentir agredida, diminuída, desprezada, controlada, enfim, isso é extremamente, marca o sujeito.

Marca mostra que aquilo é o que a mãe deseja, o que o pai deseja, então é aquilo que ele também deve desejar. Aquilo é um modelo de homem, aquilo é um modelo de mulher. São marcas muito difíceis, por isso que eu só posso aplaudir a sua fala, que ainda mais hoje, no Brasil, onde as mulheres estão ficando, por várias razões, em casamentos abusivos e saem mortas, né? Saem mortas ou destruídas, né? De outras formas. Agora, a ausência do pai não é necessariamente traumática, nem a ausência da mãe.

Porque, assim, a falta fica, né? A falta fica, mas a gente é feito de histórias. Então, algumas faltas fazem... Por exemplo, antigamente dizia assim, criança, filha de pais separados é trauma.

Não é verdade isso. O que era traumático é que aquela criança provavelmente não ia poder brincar com nenhuma das outras crianças porque as outras famílias achavam que a mãe separada, desquitada, divorciada era um lixo. Mas até hoje, tá, Vera? Porque eu acabei de me separar e quando as pessoas começaram a descobrir, a primeira coisa que elas falavam era olhar para mim e falar, mas e agora, né?

mas elas estão falando isso para elas mesmas, para justificar os casamentos ruins delas, que elas nos separam em nome dos filhos, o que é uma pataquada. Ela está chamando muito pai? Eu tenho vontade de pegar a cara da pessoa esfregando...

quando chama a gente liga chama a gente liga ele tá vivo eu já ouvi quando me divorciou ouvir aí como é que está sendo querendo criar as meninas sozinhas sozinha com o pai não morreu eu sou viúva sou divorciada né então tem uma tem um delírio assim então é depende o que é a narrativa daquela história né quer dizer tirar de dentro de casa um pai abusivo é uma marca para uma menina e para o menino super

importante como você conta aquela história qualquer história humana pode ser digna né a criança adotada no segredo que a criança adotada ela se uma criança não é um segredo que tem vergonha a vergonha pode ser uma questão mas adoção não necessariamente né é dois pais duas mães barriga solidária a gente ouviu que tem muito isso não podemos contar para ninguém

O que cria o trauma é o segredo, é transformar a história da pessoa em uma coisa indigna. Então não é verdade que a ausência do pai é trauma, nem que a presença do pai é trauma. Se o pai for abusivo, se a mãe for abusiva, pode ser traumático. Mas não, as histórias têm que ser narradas, elas têm que ser narradas. Essa história que você narra é uma história absolutamente digna.

isso vai marcar sua filha vai marcar você vai marcar outras mas estão aqui nós estão assistindo vão ficar marcadas por essa narrativa mas você poderia contar da outra forma eu fracassei no casamento não foi uma boa mulher e aí eu saí fugida de casa você podia botar tudo na sua conta seria o mesmo acontecimento narrado de uma outra forma que te colocaria no lugar de algoz e não de vítima muda tudo

Bem, não sei, né, se você acompanha a gente já deve ter me ouvido falar bastante aqui, e eu acho que eu tenho um pouco dos dois traumas. Mas, quando meu pai saiu de casa, já falei, mas acho que vale a pena dizer, não sei quanto... Eu senti um alívio muito grande, assim, né, porque era violência, era muito pesado. Então, eu me lembro do dia, eu me lembro do alívio, assim, né, do dia mesmo que ele saia, voltava, saia e voltava. E teve muito sofrimento nesse processo.

Quando ele, de fato, sai, foi um alívio, um alívio. Graças a Deus, o homem conseguiu se libertar daquilo, assim. Foi, tipo, muito libertador. Pra mim, eu tinha mais ou menos... A primeira vez que ele saiu foi morar eu tinha sete, mas quando ele foi um pouquinho mais velho, eu acho que... E eu lembro do alívio, assim, sabe? Então...

É curioso porque minha mãe foi meus dois braços, meu porto seguro para eu tomar essa decisão e para eu conseguir me sustentar nessa decisão. Mas mesmo assim vem uma cobrancinha. Por exemplo, quando minha filha vai para o pai, ela fala Nossa, mas será que a piscina não está fazendo tal coisa e não está olhando? Está com rede, é claro. Exato. Não, com 13 anos, nada, enfim.

E aí eu falo, mãe, essa é a história dela com o pai dela. Eu tive a minha com o meu pai, você teve a sua, sabe? É a história dela. Ela vai ter que aprender a lidar com esse pai. Ela vai ter que aprender a se posicionar com esse pai. Assim, ela vai ter que aprender a se comportar. Então, assim...

tá tudo bem, ela tá com o pai. Mas é tão louco, porque dentro da minha própria casa, com a minha mãe, a gente é cobrada, né? De falar assim, poxa, e de novo, minha mãe jamais me pediu pra eu voltar, pelo contrário, ela me deu todo o apoio, todo o suporte, a casa dela, ajuda financeira, enfim, pra que eu conseguisse sustentar essa decisão, mas ao mesmo tempo tá ali, né? E você tá falando, poxa, então você tem que estar muito bem, pra você realmente manter.

Essa sua posição até o final de falar assim, é para o bem dela, sabe? E para o seu. Exato, e para o meu. E assim, trauma vai ter. Eles vão falar da gente na terapia de qualquer jeito. Exato, é isso. Não importa o que a gente faça. E é muito importante o seu relato porque muitas mulheres hoje, hoje não sempre, elas pensam.

O contrário, assim, elas querem lutar, elas acham que estão lutando pela família. Eu preciso lutar pela minha família. Meu amor, sozinha? Tomando coisa nas costas, peso, tudo sozinha? Eu tinha uma amiga que, no meio desse meu puerpere e tudo mais, como assim você não vai lutar pela sua família?

Que isso? Não, meu amor. Não quero ser guerreira pra fazer isso, não. Quero ser princesa. Vou ser comigo mesmo, não vou lutar por família nenhuma, entendeu? Porque assim, a gente quer lutar por uma coisa, às vezes, que... Quem colocou como família? Foi quem que disse que isso é uma família? Se não for um lugar que não te cabe, que não é pra você estar? Você não tem que lutar por isso, ah, mas é pelo meu filho.

Não é pelo seu filho. Pelo seu filho você tem que fazer, tomar a melhor decisão. Dar um exemplo bom, tomar uma decisão boa e não sofrer pelo seu filho num lugar onde você não tem que estar. Porque o seu filho não quer te ver sofrer, não quer te ver chorar, não quer te ver passar por problemas e dificuldades dentro do relacionamento. Seu filho quer ver você forte, feliz, trabalhando, realizando seus sonhos. Assim, como quer ver o pai forte, feliz, trabalhando e realizando seus sonhos?

realizar os seus sonhos. É bem melhor, bem mais leve do que insistir em algo e acabar mesmo sendo morta. Acabar sendo agredida, sendo morta e deixando seu filho, né? Vera, o que a psicanálise explica sobre essa ambivalência de amar e estar esgotada o tempo todo?

Para a psicanálise, todo amor tem uma marca de ambivalência. Quer dizer, a gente ama e odeia quem a gente ama. E não tem nada de errado nisso, porque, claro, você não pode atuar o teu ódio. Você não vai bater, xingar, você vai controlar. Mas ele faz parte, ele é intrínseco. Por quê? Porque quando a gente ama, aquele que a gente ama, ele pode nos faltar. Isso nos causa muita angústia. Então...

Eu lembro quando uma vez que eu mirei com a minha filha que ela ia dormir em casa e ela não dormiu. E eu abri a porta do quarto e foi um desencontro da gente, acabou a bateria do celular. Se preparem para a adolescência, tá? Quando eu abri, meu cabelo ficou branco naquela hora, assim. Eu abri e pensei, por que eu fui ter filho? Porque me deu uma angústia tão grande.

Que a pessoa pudesse me faltar. Então, o amor, ele tem ambivalência. Agora, eu acho que você está falando de outra coisa. A gente ama, tem ambivalência, mas o que a gente está vivendo hoje é uma angústia do excesso de exigência no papel de mãe. As mulheres dizem assim, eu gosto de ser mãe, mas eu não gosto da maternidade. Eu gosto do meu filho, mas eu não gosto do jeito que está desenhada a maternidade hoje. No que ela se transformou?

Porque antigamente uma mulher não falava, eu tenho um filho e não sei o que eu faço com isso. Ela tinha um filho e era isso que era a vida dela. Hoje a gente tem uma vida para além da maternidade. Então a gente fica super dividida, sobrecarregada, nós somos chefes de família. 50% dos lares brasileiros é chefiado por mulheres. Não venham dizer que o homem é provedor e a mulher depois cuida em casa, que isso não existe mais. Eu não sei nem quando é que isso existiu.

para uma pequena elite se existia, as mulheres sempre trabalhavam fora e dentro de casa, a vida inteira, e ainda cuidavam dos filhos. Então, a gente está sobrecarregada, isso não é ambivalência. Ambivalência é estrutural, faz parte das relações amorosas. O que tem aí é uma sobrecarga. Deixa eu te fazer uma pergunta que foge até um pouco aqui do nosso escovo, mas como eu sou mãe de menino, temos uma mãe de menino, e provavelmente temos outras mães de menino.

Por onde começa com os meninos, assim, pra criar homens melhores dentro dessa estrutura? Porque a gente tá falando de uma estrutura, né? Tudo estrutural. Sociedade estrutural, machismo, em todas as áreas e esferas possíveis dessa civilização. E numa grande maioria, completando a sua pergunta, toda mulher que senta aqui...

em pedaços de alguma maneira algum homem para ela lhe da sua e despedaçou a história dela como as mulheres que sentem sentam aqui com uma visão leve ou com um olhar mas é não seríamos a palavra mais bonito de trazer a parte pleno da maternidade

Você tem cinco minutos de conversa, você vai enxergar que ali tem um pai atuando, fazendo o que ele tem que fazer e que poucos fazem. Então, voltando para a pergunta da Thayla, que é perfeita. Básico assim. Olha, a gente sempre vai transmitir algumas coisas que a gente fala, a gente faz um letramento com a criança, mas a gente vai transmitir muitas coisas inconscientes. Sim.

Então, o teu filho vai ver... Ah, então fala, é super feminista, super não machista, não misógino, o que você quiser, mas ele vai ver, por exemplo, quem que faz a comida, quem que guarda... Quem serve. Quem lava a louça, quem que serve. Então, inclusive, é assim que a gente transmite o racismo, porque quem serve geralmente são pessoas negras, maltratadas, enfim.

A gente vai transmitindo um monte de coisa, né? A gente vai transmitindo essas diferenças de tratamento, quem cuida, quem não cuida. O teu filho pode brincar de boneca? Porque brincar de boneca é cuidar do filho. A tua filha aprendeu a cuidar da boneca. O teu filho aprendeu a cuidar do filhinho que ele vai ter. Você tem medo que ele vire gay, o que é uma pataquada também. Então, tem uma sé... Ele ganhou um ferrinho de passar em uma tábua? Você tem vergonha de dar uma cruzinha para os meninos? Porque são...

machismo das mulheres eu dei uma vassoura para o meu vassourinha pequenininha ele pode passar a gente vai ele pega grande gostou é não tá bom pra mim que nem vai morar um dia e cuidar da casa dele ele não vai

pegar os filhos dele de noite quando estiver chorando, ele não vai dar o peito, mas ele vai dar a mamadeira, quer dizer, porque ele não pode brincar disso, ele precisa brincar disso. E a tua filha, ela brinca de bola, ela brinca de carrinho, ou são assuntos separados? Então, você vai fazendo essa distinção e a criança, ela vai se identificando com essas coisas, né? E vai achando que tem alguma coisa errada, de brincar de outras coisas. E essas brincadeiras vão se tornar aquilo que você...

pode fazer na sua vida ou é proibido para você porque aquilo é criptonita né que toni está aquela coisa que não é destruir o superman trocar uma fralda é criptonita para o homem né ou vai ser motivo de orgulho que tá cuidando do filho dele né enfim eu acho que a gente transmite coisas bem no detalhe né tem sim essa fala né então é a mãe você teve sorte de ter uma mãe que te apoiou

Mas tem muitas mães que falam assim, não, volta pra ele, volta pra ele. Assistam o filme A Melhor Mãe do Mundo, da Ana Moilaerte, é imperdível, tá no streaming. É maravilhoso, porque a família, pelo bem da família, fica com ele, fica com ele, mas o cara é abusador, é violento, é um horror. Então, tem várias coisas que a gente vai transmitindo pra criança. A menina do filme fala, mãe, a menina tá de olho no comportamento da mãe, aquilo tá sendo transmitido pra ela, que é um certo lugar dela na sociedade, né?

Então, acho que tem muito detalhe para a gente ver como a gente se vendo no dia a dia, como é que a gente trata a menina e o menino que a gente está criando. E o que eles estão vendo a gente fazer com a nossa vida. Enquanto a gente submete a homens violentos, normaliza coisas. Maltratamento. Sim, exatamente.

Por isso que eles acabam repetindo o ciclo, né? Às vezes chegam com uma história super triste, porque minha mãe sofreu muito pelo meu pai, por causa do meu pai, eu nunca vou fazer isso com mulher nenhuma. Faz. Faz, faz.

Porque entende que o amor é isso. Isso que eu vi que os meus pais faziam era o amor. Eu entendo que é isso. Eu repito, porque inconscientemente esse é o nome do amor. Para quebrar isso tem um trabalho, né? O que vocês precisaram destruir sobre maternidade depois que viveram na prática? O que vocês romantizou, o que você idealizou? Não romantizei nada. Estava grávida, já estava louca, desesperada. Falar que isso aqui mexendo. O negócio ficava assim.

E eu, meu Deus do céu, eu me senti uma extraterrestre. Porque tinha uma vida dentro da minha barriga, mexendo em todos os lugares, todos os meus órgãos, eu estava viva ali, quase que morta, mas viva. Eu fiquei com anemia, fiquei com tudo, fiquei só assim, deitada. E aí, eu não romantizei nada, me surpreendeu muito positivamente.

Sabe? Foi mais ou menos o contrário, assim. Eu achava que seria desesperador que eu ia acabar com a minha vida, que, meu Deus, eu falei, pronto, acabou minha vida. Acabou e não acabou.

Estou muito mais forte agora. Você teve depressão na gravidez? Tive. Eu também tive. Aí, uma pergunta. Esses dias eu estava com uma minha que está grávida. E ela falando para a mãe dela. Ai, eu quero comer. Você lembra quando você fazia, quando eu era criança? Aquele negócio, não sei o que, era uma comida, um molho de não sei o que. Ela faz para mim, não sei o que. Ela...

Aí a mãe dela falou, tá grávida do terceiro. Aí a mãe falou, nossa, toda vez que ela tá grávida, ela entra nessa de pedir as coisas de quando era criança. Eu falei, nossa, lembrei de quando eu tive minha depressão, eu ouvi muito o quanto é um mergulho na nossa infância. O momento do gestar.

E aí eu falei, será que tem a ver uma coisa com a outra? Agora caiu uma ficha aqui, realmente. Você, é um fato esse mergulho na infância? Tipo, é a gente, porque eu lembrei de muitos traumas da minha infância que eu não lembrava, abusos que eu sofri que eu não lembrava, veio tudo na minha primeira gestação. Isso é um fato?

Então, uma gestação, tem mulheres que vivem a gestação inconsciente e nem sabem que estão grávidas, vão no banheiro com dor de barriga e nasce o bebê. Então, a gestação, ela não garante isso, mas ela é um convite para uma regressão. Para uma regressão, para a tua experiência como criança, né? Que é uma forma de você se identificar com o bebê. Então, tem um convite, tem um apelo emocional.

consciente que a gente volta e fica assim é um bonde que passa o carnaval e você opa eu vou talvez eu não vá né mas assim é a gente regride numa identificação com o bebê uma identificação é como se você pudesse ser a mãe de si mesma

né? Nossa senhora. E pensando na tua pergunta, eu não tinha clareza, eu demorei pra desejar ter filho, enfim, mas eu não tinha clareza, mas eu, na verdade, a minha fantasia era só que a minha filha nunca ia sofrer. Ou tipo, que eu ia permitir que ela nunca sofresse.

E você ia proteger ela de todo e qualquer sofrimento. Impossível. O parto já foi um descolamento de placenta que quase nós duas morremos. Assim, já acabou totalmente com a minha pretensão onipotente, né? E eu fiquei bem triste depois. Não foi exatamente uma depressão, mas eu fiquei com um baby blues muito complexo porque justamente eu tinha me prometido garantir que a minha filha não sofreria. Fora que...

A gente fica o tempo inteiro tentando fazer a criança não se matar, né? Porque a criança se joga da escada, a criança se joga daqui. A gente pega num pé, a gente pega numa blusa, a gente pega na fralda e a criança tá se jogando de tudo que é lugar. E quer se jogar. Cara, abriu a porta da sala e ele vai se jogar direto na piscina.

se a gente piscar assim ó não pode ficar não pode ficar porque se a gente piscar esses dias ele a gente estava passeando no condomínio e deu de testa no chão que eu não vi como é que ele deu de testa no chão aí ficou um raladinho nossa parte nosso coração ela tinha uma tatuagem na terra tem um raladinho vira vira

a dor de quando eles começam a nomear né os buracos ali a amiguinha que não deu atenção que não quer brincar com ela e mais pra fé aí a essência o spoiler na vez do tipo ninguém quis brincar comigo estou triste ou estou sentindo falo acho que eu vou lá é aqui brincar com meu filho

É horrível. Eu já vou fazer um gancho de tudo que a gente já conversou aqui, mas o meu fim de relacionamento foi parecido com o dela também. Foi quando eu tomei a decisão de que não era aquele tipo de família que eu queria que meu filho tivesse de exemplo. Ele era muito pequenininho, tinha dois anos e meio. Eu não vim de um casamento abusivo, não foi nada físico, mas psicologicamente falando, foi a etapa mais difícil da minha vida. E...

Eu olhei para ele e falei, agora eu vou pegar o caquinho, mas a rotina precisa continuar. Então, eu preciso continuar esse processo e vamos assim mesmo. E é desse jeito que a gente vai. Hoje em dia, já faz quatro anos o fim desse relacionamento. O pai dele já se casou novamente, já teve outro filho.

Eu já estou em um outro relacionamento completamente diferente daquilo, mas esse processo todo me fez enxergar o que tipo de relacionamento que eu queria para a minha vida de uma forma tão mais saudável, assim, que hoje em dia eu consigo falar não.

isso eu quero, isso eu não aceito. E antigamente eu não conseguia em prol da família. Essa é a família que você precisa ter, você precisa cultivar a sua família. E hoje eu olho para o meu filho e falo, ó, somos uma família de dois. Mas é isso daqui e vamos juntos, assim, sabe? O Tomás, né, ele já teve que aprender a fazer as atividades de casa. Então, eu não dei uma vassoura pequena, foi uma vassoura grande mesmo.

Ele foi me ajudando na rotina ali, a gente foi se encontrando e hoje em dia a nossa ligação é gigantesca. Mas eu coloquei toda a rede de apoio em prol, assim, olha, você é avó, você não queria ter neto, agora você cuida também.

E assim vai, obviamente que é quase 100% comigo, mas a avó está ali presente, né? Minha mãe muito presente, graças a Deus, realmente também foi ela que me deu esse suporte. Ele tem uma relação a cada 15 dias, como eu falei, o pai é um pai, como é que se diz?

É o pai possível, o pai que a justiça manda. Então é a cada 15 dias e ali o contato é só esse, não tem ligação, não tem... Mas também não houve a procura. Meu filho não ficava, mãe...

Cadê meu pai? Estou com saudade. Nunca teve esse questionamento, graças a Deus. Eu acho que eu lidei muito bem, mas a gente teve que também criar essa coisa lúdica, fazer a história ser bonita, apesar de estar totalmente despedaçada ali.

Mas hoje eu vejo que, graças a Deus, eu tive essa coragem e, graças a Deus, o meu filho entendeu o processo da vida dele. Hoje ele faz terapia, ele tem sete anos, mas faz terapia para lidar com isso. Eu faço terapia desde os meus onze, quando meu pai faleceu também. Então, a gente teve muito uma rede de apoio nossa que a gente criou ali e que está funcionando muito bem, graças a Deus. Ela trouxe um negócio que eu acho muito... Eu queria ouvir a opinião.

da Vera e da Lorena, que é quando essa mãe se separa, tem essa coragem, escolhe sair daquele lugar que não está bom para ninguém, nem para ela, nem para o filho, vai contra tudo e todos que estão defendendo a família. Eu acho que ela...

recomeça de um lugar muito mais forte, porque dentro dela também aquela família pulsava de algo. E aí estou falando por mim também, porque eu também passei por isso. E aí eu acho que realmente a gente consegue estabelecer, até enxergar os nossos limites.

e fica mais fácil de aplicar na vida porque você por mais que na teoria você dê valor e lute pela sua individualidade seus direitos de ser de existir e tal às vezes se negligencia e negligencia a vida e normaliza coisa que não é para normalizar em nome da família que em algum lugar dentro de você no fundo

faz filho com alguém pensando em ir lá na frente e ir cada um para um canto. Então eu vejo que essas mulheres, eu tenho muitas amigas que se separam e que escolhem, mesmo morrendo de medo, quando eu te falei parabéns pela coragem, eu sei que precisa ter muita coragem para fazer um movimento desse, mas porque eu acho que depois que você faz essa passagem,

Sei você, Lorena, hoje, né? Assim, eu acho que vem uma força de que você está ali, você e o seu filho, entendeu? Tipo assim, você já saiu do cenário padrão. Nossa! Agora, amor, para alguém entrar aqui... Não preciso mais acordar e ter que estar linda e bonita e ter o corpo perfeito mesmo no puerpério. Não preciso de mais nada disso. Acordo na paz, senhor. Graças a Deus. Feia pra caramba, descabelada.

nem aí entendeu agora me sinto mais mais leve realmente assim uma uma mudança muito brusca na minha cabeça meu espírito foi algo que

Ia acontecer, era inevitável. Pegando um pouco de vários momentos que a gente teve aqui, você que falou da sua crise de ansiedade em frente à sua filha, da importância que você entendeu naquele momento de procurar ajuda. E aí me veio uma pergunta que eu já ouvi algumas coisas do gênero, do tipo, você ter uma, não sei necessariamente se uma crise de ansiedade é o exemplo, mas assim, você se mostrar vulnerável.

para o seu filho também é positivo, também pode ser positivo, para ele entender que somos seres humanos e somos seres vulneráveis. A mamãe também chora. Tem como ensinar estabilidade estando instável? Tipo, é possível?

Isso de você se mostrar vulnerável também é realmente algo importante? Estabilidade não é coisa desse mundo, né? Quer dizer, não tem nada que existe, né? Essa coisa de, desculpa, mas assim, para psicanálise, equilíbrio, estabilidade, não existe. A gente é super inestável.

Na verdade, a gente está sempre em caquinhos tentando juntar. Esses momentos que vocês trazem, é o momento que aparecem os caquinhos. Mas, na verdade, a gente é um monte de caquinhos mal colados. Eu acho que a criança vê como você se vira diante de uma situação de estresse a mais, de mais sofrimento. Isso marca a criança, sim.

Você pode ficar mais regredida que a criança, você pode ter um surto, você pode ter uma crise de ansiedade, você pode somatizar. A gente não passa por essa vida sem algum sintoma. E a criança vai te sacando. E a gente não consegue... Eu acho que isso tem uma coisa complicada aqui. A gente não consegue não ser quem a gente é só porque a gente tem um filho.

Não tem pai e mãe estándar. A criança logo saca os seus limites e as suas competências e ela se vira com isso porque ela também vai ter os limites dela e as competências. Então, não cabe a nós muito fingir que a gente é outra coisa.

Claro que você não vai dividir a tua vida. É que a gente tenta, né? É, mas assim, eu acho que não precisa fingir. Eu acho que você pode saber o que cabe a você compartilhar com o seu filho e o que não cabe. E cada idade, uma criança muito pequena, pela fantasia onipotente de que ela tem que cuidar dos pais e ela não tem competência para isso, ela pode ficar muito angustiada de ver você sofrendo, chorando. E você pode falar, bom, eu não vou passar isso na frente dele. Mas não quer dizer que ele vai ficar fingindo que está tudo bem.

Eu não estou bem, eu estou triste, mas você não precisa cuidar disso. E você, a gente não fica triste, você também vai ficar triste. Você não ficou triste outro dia, que você brigou com a sua amiguinha? Então, eu estou triste também, não é responsabilidade sua. Tenho a minha vida, vai brincar. Então, a gente tem que tomar um pouco de cuidado também para não virar um boneco de Olinda. Nós somos pessoas reais e a gente vai poupando a criança da nossa vida de adulto, das brigas dos adultos, dos sofrimentos. Mas não é negar, é dizer, olha, isso aqui não te compete.

Você tem que cuidar disso. Queria dar alguns dados aqui, porque eu acho que, pelo menos a gente já falou isso algumas vezes, até o intuito de criar esse programa foi de informar, porque a gente realmente acha que a informação salva. E eu acho que um dos processos mais difíceis na minha depressão foi o fato de não ter informação e de me achar a única mulher no mundo, no planeta Terra, passando por aquilo. E isso me deixava...

me sentindo o pior ser humano do que eu já estava me fazendo sentir. Então, não são dados muito legais, mas são reais. Então, acho que é importante a gente falar que a maternidade é considerada uma das três principais situações de risco para uma possível crise na vida da mulher, junto com a adolescência, que você trouxe aqui, e com o climatério. É um período que ocorre várias mudanças físicas, hormonais, sociais, emocionais, que contribuem para o surgimento de sintomas significativos de estresse, depressão, ansiedade.

E no panorama mundial, dados apontam que o sofrimento mental materno pode ser tão intenso a ponto de causar suicídio, sendo uma das principais causas de morte de mulheres no primeiro ano da vida após o parto. Achei isso muito forte, sendo a principal causa de morte.

Estudos mundiais estimam que 3,7 mulheres cometem suicídio no pós-parto a cada 100 mil nascidos vivos. Só para complementar, entre a gestação e o primeiro ano da vida do bebê, a mãe fica 10 vezes mais suscetível a desenvolvimento de algum tipo de transtorno mental, saúde mental materna.

Entre outras alterações. E, então, a gente sempre ressalta aqui a importância para quem tem o privilégio de conseguir um pré-natal psicológico.

o quanto isso salva vidas, né, a gente ter esse acompanhamento. Já a gente acompanhando desde a gestação e que muitas vezes, né, alertando para a rede de apoio, quem está ao redor dessas mulheres, que muitas vezes as mulheres que estão passando por isso, elas não conseguem pedir ajuda, elas não conseguem nem perceber o que está acontecendo. Então, para a gente sempre estar em alerta. Você falou um pouco disso, mas como foi para você viver os momentos pessoais tão difíceis enquanto todo mundo observava e julgava a sua maternidade?

Algum momento você decidiu, não vou falar, vou bloquear, tirar pessoas da sua vida? Sim, com certeza. Como é que foi pra você isso? Eu fui bloqueando todo mundo. Tirar pessoas da sua rede social? Foi aí, vai. Não se expôs. Como é que foi assim? Então, eu ainda tentava... Cara, foi uma merda, porque eu ainda tentava...

correr atrás das pessoas, não era uma pessoa, era atrás das pessoas. Eu ficava indo atrás pra ver se eu estava, sei lá, agradando, se eu estava sendo boa o suficiente e eu fui me vendo assim.

a cabeça uma confusão terrível e como nesse momento quando você não tem um apoio você realmente fica perdido você não sabe o que fazer você fica preocupado com que o outro achando de você é se a pessoa está gostando se a pessoa está contigo se sabe então

Desculpa, qual foi a pergunta? Como você fez para lidar com isso? Teve, né? Porque para além de tudo que você estava passando, tinha uma grande exposição, né? Então, mas isso foi mais antes.

disso, entendeu? Inclusive tem coisas que eu perdi na memória. De tão pesadas que foram, eu não consigo lembrar. Aí é o amigo que conta, é minha irmã que conta. E eu falo, caraca! Sabe? Porque aí a gente também chega a achar que, será que eu tô louca? Será que... Sabe? São muitas coisas. E quando veio esse momento, que foi um momento...

um ato necessário e que eu já estava escrito tinha que acontecer e eu também eu tinha que fazer isso, eu me sentia aterrorizada, então eu tive que tomar essa decisão. A partir dali, apesar de no início eu sentir muita vergonha, porque eu fiquei com muita vergonha, não queria nem sair da rua.

Fiquei com vergonha, porque tinha muita gente rindo e eu entendi que foi engraçado porque eu tenho... Não, pera, como? Do que que foi engraçado? O que que as pessoas achavam engraçado? Você falou da exposição, certo? Sim, mas porque achavam engraçado? Não, não da situação, fizeram um monte de meme, fizeram um monte de coisa, rindo da situação, dos memes, do meu jeito de falar, não da situação em si.

portanto que eu vi até uns comentários, por exemplo, é... caramba, muito dolorido, mas no final acabei rindo, soltei uma gargalhada. Então isso aí eu fiquei com um pouco de vergonha, porque eu não esperava que ia ser engraçado.

E assim, no início eu não esperava que ia ser engraçado, depois, ah, tudo bem, tá engraçado mesmo, tem áudio que viralizou, ficou engraçado e tal. Mas no início eu senti vergonha e me isolei, porque eu nunca expus nada da minha vida. E eu já passei por coisas desde a minha infância, que inclusive vieram à tona por causa desse problema, que foi abuso.

na infância, já passei, já sofri violência doméstica, nunca fui expor ninguém, eu nunca fui expor a minha ferida, porque eu sinto vergonha, tem coisas que a gente se envergonha de falar, de ter aceitado, de ter passado, de ter continuado, de ter, sei lá, sabe? E passou um pouquinho de tempo e eu senti um alívio muito grande.

Falei, tá, o povo tá rindo, tá achando engraçado, entenderam a história, me acolheram muito, foi a primeira vez, desde que eu entendo por gente, que na minha vida eu vi milhares de mulheres do meu lado. Isso me fez chorar tanto, eu falei, meu Deus, eu não esperava por isso.

Esperava que eu fosse descredibilizada como fui também, mas minoria. Esperava que eu fosse descredibilizada como as mulheres são descredibilizadas, até serem mortas, né? Eu também fui muito descredibilizada na minha infância, desacreditada na minha infância. Então já esperei o pior.

E nesse início eu fiquei com uma vergonha e depois eu fui, tá tudo bem, foi necessário, é isso. Tem gente que gosta de você, que gosta do seu jeito, que acredita em você, é isso que importa. E aí veio o alívio, veio a libertação, entendeu? Foi isso. Massa. Mais alguma coisa que a gente acha que é importante passar?

Essas três fases que você cita, né, adolescência, o puerpério, o parto puerpério e a menopausa, não são fases adoecidas das mulheres, são fases que a gente é muito exigida psiquicamente, né, é isso. O problema é que elas recaem sobre pessoas que estão vivendo coisas diferentes, têm histórias diferentes, numa sociedade que lida muito mal, tanto com a adolescência, quanto com o puerpério, quanto com a menopausa. E é isso que traz a gente nessa cena aqui.

de ficar em cacos, né? Para além dos acontecimentos. Então, a gente tem que ficar atento, porque não é patologizar esses processos, mas saber que a gente está lidando mal com eles. E eu acho que aqui foram faladas muitas questões de como a gente pode lidar melhor com eles. E uma coisa que voltou muito aqui é o apoio entre mulheres. Então, se você não tem acesso a um atendimento...

Faz um grupo de gestantes, um grupo de mães de bebês, você entra para conversar, nem que seja pelo Zoom, pela internet, mulheres até que não estão no seu país, mas encontra um lugar onde você possa falar da tua maternidade e o outro respeite, seja porque você quer ficar em casa o tempo todo com seu filho, seja porque você quer voltar para o trabalho, seja porque você, não importa, você possa falar tudo sem ser julgada.

Você sabe que isso nasceu de um FaceTime nosso, as duas no perpério. E eu estava em Cacos. E depois do FaceTime, voltei menos despedaçada. E daí eu falei para ela, depois de ler, que era um número absurdo de mães sem nenhuma rede de apoio, que é não ter ninguém para ligar. Já falei isso aqui algumas vezes. E aí eu falei para ela, a gente precisa chegar nessas mães. A gente precisa de um espaço que essa...

mulher que não tem pra quem ligar que ela tá sozinha mesmo e o número absurdo que ela acha a gente de mais boa brincava aí a gente nas duas né por pério pijamão fralda fralda pela casa na real é a gente faz nos um era pós pandemia pra gente encontra todo mundo no zoom a gente faz um puerto das anônimas alguma coisa assim é impressionante como de fato

cura falar né trocar e quando tá ali com um grupo com a mesma com outro filho na mesma né faixa etária do seu né faz muita diferença é realmente entender aonde essa rede de apoio e não de agora né sei quantas vezes está ali tentando realmente de fato ter um acolhimento e recebendo

Sem crítica, controle. Ai, mas juro aqui na comparação. Então, assim, sai atenta aqui, não deu certo. Tenta um ou desiste não, porque não é tão fácil. Então, se quiser amamentar, se não quiser amamentar, se quiser voltar pro trabalho, tem muitas formas de maternidade. Muitas. É muito plural, né? É.

É, inclusive foi outra coisa que me surpreendeu bastante, eu tive que aumentar a dose, mudar o remédio e aumentar a dose depois que eu tive o filho. E aí não poderia dar e eu também tinha pavor. Só que depois que nasce, muda tudo, gente, realmente muda.

E aí eu tive que aumentar a dose. Minha intenção antes... Você foi medicada na gestação? Fui medicada na gestação e assim que eu tive o filho, esperei alguns dias e tive que aumentar a dose da medicação. Logo, não pode passar para o leite materno. E aí...

Toma-se um remédio para secar o leite, até porque vem a apogesia, vem todo o sofrimento. E parece que tem gente que gosta de ver que você está passando por aquilo. E só se você passar por isso que você é mãe. E não é isso. E uma coisa que me surpreendeu muito foi nessa questão que eu não cheguei a compartilhar com o meu público. Pelo medo do julgamento. E uma pessoa expôs.

essa situação, querendo me descredibilizar, que mãe é essa que não tem, nananana. E eu tomei um susto com tanto de mulher parecendo um bando de leoa me defendendo e falando sobre isso que eu fiquei até arrepiada. Nossa, que bom. Cara, eu falei, Deus?

muito obrigado que eu tô com privilégio aí em alguma coisa que eu jurava que ele falou o contrário se jogaram por falar o que é o da cartilha não e isso que eu falei meu deus que aconteceu que o mundo realmente as mulheres realmente estão dando passos à frente de mãos dadas

Porque se eu não conseguir, isso não me diminui como mãe. Se eu não quis, ou alguma outra mãe não quis, não conseguiu, não teve o suficiente, isso não diminui ninguém como mãe. Entendeu? Então, é uma surpresa muito grande essa união das mulheres e das mães. Não mexe com as mães, não.

Porque as mães ficam loucas. É uma comunidade. Acho que para terminar a gente podia... Não sei, o que você diria para uma mãe que está em pedaços nesse momento, se enxergando em pedaços? Ou talvez desconfiando? Abrindo a caixa de Pandora. Abrindo a...

Não fica sozinha de jeito nenhum. Encontra alguém com quem você possa compartilhar, uma pessoa de confiança que não te julgue, que você possa compartilhar a sua experiência, seja qual for, mesmo que seja o pensamento mais disruptivo, principalmente se for um pensamento disruptivo, encontra alguém com quem você possa falar, que talvez essa pessoa te indique algum profissional, mas a princípio...

Que seja o seu padre, pastor, amiga, parente, profissional, colega de trabalho, médium, obstetra, pediatra. As mulheres passam por muitos médicos quando elas estão no ciclo perperal. E se você receber um bebê adotado, que você não pariu, você também vai passar por um processo de adaptação gigantesco, de se tornar mãe e pai. Procura ajuda.

E às vezes você vai conversar sobre qualquer bobagem. E aí você começa... Eu lembro que a minha primeira percepção foi um pediatra falando, como você está? Quando ele pergunta para mim, a primeira pessoa que me pergunta, eu chorei por 10 minutos. Sim. Então, às vezes, você não está nem dando conta, mas o fato de você abrir a agenda, está amamentando, não chama a sua amiga para sentar na sua frente nessa hora, porque às vezes...

Você só vai processar falando ou ela vai te perguntar alguma coisa, porque a gente nem tem, né, esse... Eu sou de uma geração entre Júlia e entre Vera. E coisas que vocês reportaram aconteceu comigo. Eu me chamo Tarsila e eu criei um blog há muitos anos. Eu me separei quando meu filho tinha oito meses. Ele tem dez anos agora.

E eu sempre fui uma fã de blogs de maternidade e tudo mais. E eu me sentia muito sozinha na época, porque ninguém falava sobre maternidade e divórcio. Imagina, 10 anos atrás? 10 anos atrás, gente, a gente não falava de climatério, a gente não falava de divórcio, a gente não falava... O climatério não fala muito, né? É, mas a gente aumentou, né? Essa pauta entrou em... A gente tem falado mais.

E aí foi dessa necessidade de... Na verdade, eu fui pra terapia, me fortaleci na terapia, cresci na terapia, me refiz. E me incomodava demais isso que vocês falaram. E aconteceu comigo do tipo... Ai, meu Deus, e o Antônio agora? Que coisa... Que chato. Filho de pai separado. Pra vocês verem como... Isso, assim, a Júlia é mais nova do que eu. A gente segue ainda...

com esse tipo de comportamento, tanto de mulheres como de homens. E aí eu abri o meu blog, do blog veio um Insta, onde eu falo para mulheres separadas, porque eu acho que a gente, além de se ajudar, a gente tem um papel, eu sou pedagoga, professora, educadora, e eu acho que a gente precisa educar a sociedade em relação a esse tema.

Porque às vezes não acontece com a gente, mas acontece com o primo, acontece com o irmão. E a gente precisa preservar as crianças. Eu falo que eu vivi vários divórcios na minha vida. Porque eu vivi dos meus alunos. E situações muito trágicas, assim, que os pais não podiam conversar.

E a gente, como escola, recebia orientação e presenciamos cenas ali muito tristes. E quando aconteceu comigo, eu decidi que o estrago não ia ser no Antônio, ia ser em mim. Eu gosto das metáforas da Vera e eu falei, bom, o Antônio, essa bomba vai parar em mim, porque o Antônio vai ter pai, vai ter mãe, vai ter pai e mãe.

que conversam. E desde então eu venho trabalhando também no Insta essa coparentalidade saudável, que é você separar as gavetas. O ex-marido pode não ter sido legal, mas agora a gente é um time, é pai e mãe, e a gente vai ter que dar conta disso.

Então eu queria só fazer essa contribuição pra vocês, tá bom? Obrigada. Existe uma expectativa cruel de que a maternidade funcione como um tipo de blindagem emocional. Como se ao se tornar mãe, uma mulher automaticamente desenvolvesse a capacidade sobre-humana de suportar tudo e qualquer coisa. Como se o amor fosse suficiente pra organizar o caos e como se fosse possível separar o que se vive do que se sente.

A gente sai desse episódio entendendo que talvez a gente passe tempo demais tentando juntar os pedaços, quando na verdade a vida nunca mais vai voltar a ser inteira do jeito que era antes. E talvez esse seja um dos grandes ensinamentos da maternidade, entender que não é sobre reconstruir uma versão perfeita de si mesma, mas sobre aprender a existir mesmo sem todas as respostas.

A gente quer agradecer demais a presença da Lorena e da Vera. Muito obrigada por estarem aqui com a gente nesse episódio. Muito incrível. E agradecer também a nossa plateia, a Mil e Uma, que está sempre aqui com a gente compartilhando histórias e experiências. Muito obrigada. E é claro que a gente quer agradecer vocês que nos acompanham aí, do outro lado da tela. O nosso muito obrigada. Temos um encontro marcado na semana que vem. Até lá. Beijo. Até semana que vem.