T6 #8 Parte III – Jogos de Aposta – Uma Viagem ao Mundo do Quase
Depois de acompanhar o impacto das apostas na vida de Paraná e Léo, chegamos ao último capítulo de "Uma Viagem ao Mundo do Quase".
Nesta terceira parte, discutimos os caminhos possíveis para quem enfrenta um transtorno do jogo. Ao lado da Dra. Rachel Emy Straus Takahashi, psiquiatra especialista em transtornos do impulso do Hospital das Clínicas da USP, conversamos sobre como funciona o tratamento, o papel da motivação, da psicoterapia, dos medicamentos e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Também apresentamos recursos gratuitos disponíveis no SUS, a plataforma de autoexclusão das apostas e outros serviços que podem ajudar jogadores e familiares.
O episódio também aprofunda um tema fundamental: os Determinantes Comerciais da Saúde. Explicamos comopublicidade, algoritmos, influenciadores, patrocínios esportivos e o próprio design das plataformas de apostas são planejados para estimular o consumo e dificultar que as pessoas deixem de jogar. Mais do que uma questão de força de vontade, mostramos por que esse é um problema que exige respostas coletivas, políticas públicas e cuidado em saúde.
Ao longo do episódio, acompanhamos os primeiros passos de recuperação de Paraná e ouvimos as reflexões finais dele e de Léo sobre os anos marcados pelo jogo. A série termina com uma mensagem de esperança: existe tratamento, existe cuidado e sempre há possibilidade de construir novos caminhos.
Se você ou alguém próximo está enfrentando problemas com jogos de aposta, confira os links a seguir para acessar materiais do Ministério da Saúde, a plataforma de autoexclusão, serviços do SUS e outras formas de apoio:
https://www.gov.br/pt-br/servicos/plataforma-centralizada-de-autoexclusao-apostas
https://jogosdeapostas.saude.gov.br
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Os efeitos sonoros deste episódioforam obtidos no site zapsplat.com.
A trilha sonora é da Blue Dot. 🎶🔊
- Ambulatório Jogo Patológico· SaudeEntrevista motivacional · Terapia cognitivo-comportamental · Grupos para dependência química · Medicamentos (naltrexona) · Tratamento de comorbidades (depressão, ansiedade)
- Determinantes comerciais da saúde em jogos de apostaEstratégias comerciais e de marketing · Publicidade intensa · Patrocínios esportivos · Influenciadores e celebridades · Design das plataformas (pontos, níveis, recompensas) · Notificações e ofertas iniciais
- Vício em apostasAbstinência de aposta · Limite de tempo de tela · Sinais de alarme · Plataforma de autoexclusão · Registro de gastos
- Importância de Procurar Ajuda EspecializadaTeleconsultas gratuitas · Aplicativos e ferramentas digitais · SUS oferecendo tratamento para dependência de apostas · Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) · Ambulatório Jogo Patológico
Falar como uma doença, né, que causa muita vergonha, assim, faz muito sentido, né? Acho que tem muito disso, da vergonha nas dependências mesmo, até a pessoa procurar ajuda. E às vezes é difícil, é muito difícil. Tem também, quando a pessoa tá muito envolvida, ela não consegue vislumbrar que existe uma outra opção. Muitas vezes o que acontece é que a família percebe, os amigos, ou acontece alguma bomba e descobre.
E aí essa pessoa busca ajuda.
Então tava escondendo, de alguma forma extravasou, família descobriu, tava com uma dívida muito grande, não conseguiu ajudar com alguma coisa, aí o negócio extravasou, e aí a pessoa vai procurar ajuda. Mas é muito difícil. Geralmente é quando explode, quando a coisa fica muito, muito feia, porque tem muita vergonha, porque entra lá no mecanismo da distorção cognitiva de eu vou dar um jeito.
Olá, eu sou a Morena. Esta é a terceira parte do episódio sobre jogos de aposta em que Eu e o Miniman continuamos contando a história do Paraná e da Léo, sua esposa. Mais uma vez a gente conta com a participação da Doutora Raquel M. Strauss Takahashi, psiquiatra especialista em transtornos do impulso, que foi quem você ouviu aqui no comecinho. Se você ainda não ouviu as partes anteriores, vale a pena voltar lá antes de continuar para acompanhar essa história desde o começo.
E um aviso importante: este episódio aborda temas sensíveis, incluindo sofrimento intenso e tentativas de suicídio. Se este assunto tocar em algo difícil para você, procure apoio.
No caso do Paraná, a bomba já tinha explodido. Ele estava no fundo do poço financeiro, devendo para as giotas, e havia quase morrido no meio dos carros.
Porque ele só não morreu porque eu fiquei atrás dele, né? Porque senão ele já tava morto há muito tempo atrás, por causa de dívida, porque vivia pegando dinheiro com gente que não era boa, né?
Para quem olha de fora, é difícil entender como as coisas chegam a este ponto. A Doutora Raquel deu uma dica.
Essa baixa sensibilidade às perdas entra na tolerância. Então, a tolerância de você ficar mais tempo jogando para precisar, e para ficar mais, cada vez mais tempo jogando e gastando mais, você vai gastando. E aí a noção do que que é R$100, R$1.000 vai ficando muito distorcida e demora bastante para voltar a noção do que era R$10.000, que, ou sei lá, R$100, que é uma quantidade muito grande já, vai, R$100 hoje em dia nem tanto, mas R$1.000, isso acaba, R$1.000 acaba sendo uma, um, como se fosse uma fichinha, um trocado.
A pessoa perde um pouco esse parâmetro, né, do que, do valor, do que que aquilo, que aquilo representa de horas de trabalho, por exemplo.
Mas o Paraná estava um pouco mais consciente dos problemas, que além da gente perder na maquininha, então a gente ainda perder também no empréstimo.
Por exemplo, você pegava R$500 para dar R$600, R$1.000 para dar R$1.200.
E se não tivesse o dinheiro para pagar?
Sempre complicou, complicaria sempre. O que que acontece? Você pegava R$1.000, R$1.200, R$1.000 pagava R$1.200. Só quando a gente não tinha, aí corria juros. Por exemplo, se você passasse mais um mês, ia, digamos, para R$1.400, R$1.450. Aí a gente fazia um esforço aí, vendia alguma coisa assim. E contornava a situação.
Vendi o quê, por exemplo?
Ah, o que tinha, talvez de algum objeto de valor, que talvez não, nada de pegar essas coisas de dentro de casa igual o pessoal que usa drogas.
O que que você já vendeu para na—
aí eu tinha uma lojinha no Móveis Usados. O que que acontece, eu vendia uma geladeira, entrava esse, os R$300, R$400. Daí eu compartilhava com a mulher talvez em uma parte, a outra parte eu jogava tudo na maquininha. E você imagina, você tem um salário, por exemplo, digamos aí hoje de R$6.500 mais ou menos, e quando chegar no final do mês você não tem um dinheiro para comprar uma camisa, mal você comprou o alimento para casa, o resto você estourou tudo na Já cheguei numa conclusão que não era mais pra dar continuidade, era pra ter parado já isso.
Vendo que já era para ter parado, mas não parava, Paraná decidiu que precisava de ajuda.
Queria saber quando foi a primeira vez que você procurou algum tipo de tratamento pra isso?
Eu procurar mesmo, se eu falar honestamente, livre e espontânea vontade, eu vim aqui.
Até então nunca tinha procurado tratamento.
Já que estamos falando nisso, então o tratamento envolve a parte motivacional, né?
Então desde a entrevista motivacional com os profissionais de saúde até depois a parte de terapia. Então o que é bem estabelecido é terapia cognitivo-comportamental para transtorno do jogo. Mas se a gente for ver o que tá mais disponível, talvez nos CAPS, é terapia cognitiva ou grupos para dependência química. O paciente com transtorno do jogo, ele pode, pode se beneficiar desses grupos também, porque tem muitas, muitas coisas que, que conversam na dependência do jogo.
Tratamento medicamentoso não é lá aquelas maravilhas, mas pode ajudar, né? Então é a naltrexona, que agora tá disponível nos CAPS. Vanotrexona, que a gente usa para— é mais prescrito para transtorno por uso de álcool, mas também ajuda no jogo, tratar as comorbidades, depressão, ansiedade. Isso também é muito importante. Os principais quadros, né, comórbidos: transtorno de ansiedade e transtorno de humor, mais na depressão mesmo, né?
Então, enquanto a gente não estabiliza o transtorno de ansiedade, transtorno de humor, ou algum outro transtorno que esteja por trás, é muito difícil de tratar o transtorno do jogo, assim como também é difícil tratar tratar um transtorno do humor se o jogo tá muito ativado. Tem que tratar os dois, né? Mas é muito importante tratar esse transtorno de base. Então não tratar só o transtorno do jogo.
E só para puxar o gancho, existe algum tipo, algum tipo de redução de danos para um jogador anônimo? Porque no AD Tem algumas alternativas. E para algum jogador?
Para jogador é muito assim, seria uma abstinência mesmo de jogo de aposta, né? De aposta, uma abstinência de aposta mesmo.
A abstinência dos jogos de aposta pode ser uma meta importante, mas nem sempre é possível.
E o fato da pessoa não desejar ou não conseguir parar naquele momento não pode ser uma barreira para o tratamento.
Mas então, o que pode ser feito quando parar de jogar não é uma meta desejada ou possível?
Para os jogos, né, de eletrônicos, é ter um limite de tempo de tela, um limite de tempo que você pode gastar jogando, né? Então é colocar esse limite e seguir esse limite. Outra coisa que daria para fazer é ficar muito atento aos sinais de alarme. Então fez alguma dívida, alguma coisa, e sempre dividindo com as pessoas. Para você ir também, não perder um pouco a realidade em volta de você. Então, os seus colegas, amigos, eles vão te balizando um pouco.
Porque a aposta é uma coisa muito... Às vezes você fica muito sozinho apostando. E tem uma coisa interessante, até depois, né? Claro, aí depois que perdeu o controle, aí não é mais redução de danos, que eu esqueci de falar do tratamento, é que agora o site do gov.com, o gov, né? O site do gov tem uma plataforma de autoexclusão. Então, isso também é importante para a parte do tratamento, quando a gente fala de cessar virtualmente.
Então, autoexclusão, você se autoexclui, você vai lá, escolhe: ah, quero me autoexcluir por 6 meses, 1 ano, para sempre, definitivamente, do site de aposta. Então, isso é uma regulamentação que tá funcionando, é muito legal, isso tá, isso funciona super bem.
Você pode pesquisar por plataforma centralizada de autoexclusão de apostas, a gente deixou o link na descrição.
Aproveitando, o SUS também oferece teleconsultas gratuitas para pessoas com problemas com jogos de apostas. O serviço é acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital e também é aberto para familiares e rede de apoio.
Também tem link na descrição para fazer o teste sobre jogos de apostas.
E essa ideia de cuidado individualizado, considerando a realidade de cada pessoa, está também presente no Guia de Cuidados para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas do Ministério da Saúde.
O guia organiza o cuidado a partir de alguns pilares fundamentais. Anne, dá uma ajuda aqui, por favor.
Oi, pessoal, quanto tempo! Esses pilares são: redução de danos, uma abordagem que reconhece a complexidade do problema e busca diminuir os riscos sem exigir necessariamente que a pessoa pare de jogar imediatamente. Projeto terapêutico singular, Um cuidado construído junto com a pessoa, considerando sua história, suas necessidades e seus objetivos. Integração dos diferentes pontos da rede de atenção psicossocial, incluindo a atenção primária à saúde, os centros de atenção psicossocial e os serviços de urgência e emergência.
Olha, Anne, é bastante coisa!
É, mas é porque o problema também é complexo. E ainda tem os determinantes comerciais de saúde.
A gente volta nesse ponto daqui a pouco. Continua nos pilares do tratamento, Anne.
Territorialidade e intersetorialidade, um cuidado que considera o território onde a pessoa vive, incluindo seus ambientes físicos, sociais e digitais, e articula diferentes políticas públicas, além da saúde, como assistência social, educação e justiça. Perspectiva interseccional, reconhecendo que fatores como raça, gênero, classe social e outras dimensões podem aumentar vulnerabilidades.
É importante entender que os problemas relacionados aos jogos de apostas são multifatoriais. Eles envolvem aspectos biológicos, psicológicos, sociais e comerciais. E não são problemas que se resolvem apenas com a proibição ou exigindo que a pessoa pare de jogar.
O Paraná tá no caminho.
É uma coisa que a gente tá correndo atrás para ver se recupera o atrasado na parte boa. Então, e outro, inclusive eu mesmo tô se dispondo a abrir de mão esse que, como eu falo para ela, eu falo, eu não vou parar de uma vez, eu não vou assim parar. Eu parei, por exemplo, de beber bebida quente. De vez em quando que eu tomo um golinho, que já tá me prejudicando esses golinhos. E outra, eu não vou parar. Mas, por exemplo, cerveja eu bebo, bebo até bem.
E o jogo vai parar de uma vez ou não?
O jogo eu tenho que dar uma parada nele, porque o jogo agora caiu, mudou muito para as máquinas, das máquinas para para celulares. Então o pessoal não estão ganhando mais o que eles ganhavam antes, né? Então por isso que eles não estão dando premiação. E a gente tem que se ver isso daí, que é dar murro em ponta de faca.
Sempre foi, não foi? Sempre foi dar murro em ponta de faca.
Mesmo se a pessoa não quiser parar, o tratamento pode ajudar a avaliar melhor a situação.
A pessoa, ela às vezes, né, fica muito no presente, focada ali apenas no jogo. A Raquel quer dizer: é necessário olhar em volta e ter um panorama mais geral da vida.
Então a pessoa também tem lá uma noção, olhar, né, sempre olhar o extrato do banco, ter uma noção de quanto ela tá gastando e colocar um limite, né? Tá, vai ser R$100 por mês, mas ter uma noção, porque como é uma coisa muito imediata, aí a pessoa vai ver: não, agora estou realmente passando do meu limite. As pessoas geralmente demoram para perceber isso. Então isso é uma forma um pouco mais responsável, ter ciência do que você tá fazendo, o quanto de tempo você tá gastando.
Então você manter um registro, isso acho que pode ser uma coisa que vai proteger e vai te dar um sinal de alerta se começar a ficar mais grave.
É justamente essa vulnerabilidade, essa dificuldade de perceber o impacto dos jogos, que as plataformas de apostas online exploram nesse contexto de que chamamos de determinantes comerciais da saúde.
Mas afinal, o que são esses tais determinantes comerciais de saúde? Manda, Anne!
Os determinantes comerciais da saúde dizem respeito às estratégias comerciais de marketing e de design utilizadas por algumas indústrias para aumentar o consumo de produtos que podem trazer prejuízos à saúde. E isso não acontece apenas com jogos. A indústria de alimentos é outro exemplo importante, mas vamos ficar só no nosso tema. São estratégias que buscam normalizar comportamentos de risco e criar hábitos recorrentes por meio de mecanismos psicológicos e tecnológicos.
No caso dos jogos de aposta, isso aparece no uso da publicidade intensa, patrocínios de times de futebol, influenciadores e celebridades. Também aparecem mensagens que associam apostas a sucesso, masculinidade, diversão e status social.
Como eu contei antes, eu quase caí nessa. Tava rolando o feed, um influencer, ele tava lá fazendo uma publicidade ganhando milhões lá. E eu fiquei tentado assim a clicar lá, baixar o joguinho e apostar.
Além disso, o próprio design das plataformas é desenvolvido para aumentar permanência, interação e retorno à plataforma. Sistemas de pontos, níveis, recompensas e estímulos constantes fazem a pessoa permanecer mais tempo conectada. As notificações lembram o tempo todo que a plataforma está ali. Ofertas iniciais atraentes incentivam o primeiro contato e ajudam a criar o hábito. E basta um clique. A aposta está disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Não é apenas uma questão de força de vontade. Existem estratégias comerciais planejadas para influenciar comportamentos, e isso exige respostas coletivas. Políticas públicas e também cuidado individual.
Os jogos de apostas são um problema que precisa ser enfrentado coletivamente, mas o cuidado precisa olhar para cada pessoa, sua história e suas particularidades.
E neste caminho, o Paraná não está abstinente, mas sua melhora é visível.
Tanto que agora melhorou mais a situação No caso que ele deixou eu tomar conta do dinheiro, então o dinheiro dele vai para minha conta, ele recebe, eu ponho na minha. Aí eu não faço, eu tô falando, única coisa que eu falo para ele, eu não faço, não pago, pego 10 centavos se nós não sentarmos de manhã cedo no dia que ele vai receber. Eu não compro nada, nem mercado, nem açougue, nem padaria, nem nada. Sendo que ele não fique sabendo, que eu sente aqui e falo: olha, precisa fazer isso, precisa fazer aquilo, precisa fazer aquilo outro.
Você está de acordo? Está de acordo. Eu faço isso para que ele nunca fale para mim que eu tirei dinheiro dele, eu peguei dinheiro escondido, ou eu— nunca fala. Ele não tem esse direito de falar isso para mim.
E o Paraná começa a ver a sua situação por outra perspectiva.
Eu ainda tô com uma boa idade, uma idade de 66 anos é uma idade suficiente para pensar no que quer da vida bastante ainda. E outra, essa questão que eu tô colocando aí de é tarde para parar, eu tô citando o seguinte, que é tarde talvez para recuperar o que eu ganhei, mas só que não, talvez ainda é tempo, dá, é cedo É tempo ainda de melhorar a vida, entendeu? Graças a Deus, ó, depois que eu dei um ponto de partida, é parar de beber, no caso a pinga.
Aí eu fui viajar já para o Paraná, fui 2, 3 viagens para lá. Tem pessoas que não ficava, colava junto comigo. Hoje não, já me chama eu para passar aí, ó, vamos viajar, vamos lá, e vamos lá. Eu já tenho uma viagem programada, por exemplo, para É, talvez agora em junho, aí do meado de junho, para ir na Bahia. Então tudo tá dando uma melhorada.
Para a gente terminar, que já estamos adiantados na hora aí, eu queria que vocês dois deixassem um comentário final e um conselho para quem tá enfrentando problema com jogo.
É o conselho que eu dou, é o que eu, que me deram, me deram também e eu não acolhi, é de não mexer, não jogar, não, se tiver bebida no meio, não beber, porque os dois, os dois combina e outra combina para o lado errado.
Léo, e você, Léo, que comentário final, que conselho que você dá depois de todos esses anos de sofrimento, que não foi brincadeira?
Muitas pessoas falam assim Ah, mas por que você aguentou até agora? Porque eu vejo assim, isso é uma doença. Eu falo, olha a sua vida, como que você é. Você tem que agradecer muito a Deus pela família que você tem, pela oportunidade, mas não por isso que eu fiquei. Não por um prato de comida, nem pela uma casa, nem por nada, porque é um próximo. Deus fala, o próximo é qual?
Antes do seu comentário final, a Doutora Raquel nos contou como funciona o Ambulatório de Jogos do Hospital das Clínicas.
O ambulatório é o AMIT/ANJO, né? AMIT, Ambulatório Integrado de Transtornos dos Impulsos, e ANJO, Ambulatório do Transtorno do Jogo. Esse ambulatório foi criado pelo professor Hermano Tavares. Já vai, acho que faz uns 20 anos ou mais, acho que uns 20 anos. Ele funciona de quintas-feiras no IPQ. O IPQ, que é o Instituto de Psiquiatria lá do Hospital das Clínicas, ele atende pacientes com transtorno do jogo e outros transtornos do impulso.
Então, dependência tecnológica, compras compulsivas. Então, tem o transtorno do jogo e aquelas outras dependências comportamentais. Dá pra pesquisar na internet, www.proamite.com.br. .com.br. E aí nesse site tem o número do telefone. E aí você, o interessado, deve mandar uma mensagem falando, ah, eu gostaria de agendar uma triagem, eu tenho, quero abordar XYZ. E aí depois eles recebem uma resposta da triagem. E aí o ambulatório, ele tem atendimento psiquiátrico e de grupos.
E ela também deixou sua mensagem?
Eu acho que a mensagem que eu gostaria de deixar é mais de esperança. Né, que isso tem um tratamento. Existe, com o tratamento você vai conseguir ver outras saídas. No momento assim, buscar o próprio CAPS-AD ou o posto, a UBS também pode ajudar tratando o jogo ou começando a tratar alguma comorbidade. E vendo comorbidade, pode ser até tratar a pressão alta, mas você começar a cuidar um pouco mais da sua saúde, dar um primeiro passo pra cuidar da sua saúde, isso vai ajudar.
E uma outra opção que eu vejo é o JA tem grupos online. Então você entra no site do JA e lá tem grupos online que você vai poder compartilhar isso com outras pessoas. Você pode ficar quieto no começo, ver como que funciona. Mas a mensagem mais importante de esperança, porque tem um tratamento, existem estudos pra isso. A gente tá tentando, né, qualificar o maior número de pessoas possível para isso.
Talvez o meu maior segredo seja esse: eu não surgi do nada. Eu nasci de algo muito humano, da vontade de tentar de novo, porque existe uma parte de cada um que sabe que chegar perto importa. Que errar faz parte do caminho, que às vezes uma tentativa a mais é o que separa o fracasso da conquista. E essa parte é linda, ela faz você aprender, persistir, construir coisas que pareciam impossíveis, mas aí encontraram uma brecha, um lugar onde chegar perto não significa estar chegando.
Um lugar onde o quase acerto é uma ilusão. Faz parecer que existe um caminho escondido, uma lógica, um padrão, mesmo quando não existe. E quanto mais perto parece que a pessoa chega, mais difícil fica aceitar que talvez não exista nada esperando do outro lado. Porque ficar no quase dói. Dói mais do que perder. Eu sou a força que faz você tentar novamente, mas também eu sou a voz que te prende tentando encontrar uma porta que nunca existiu.
E chegamos ao fim de mais um CapsCast do Gato Preto.
Lembrando que nem toda porta precisa ser aberta sozinho.
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Um grande abraço e até o próximo episódio.
Até o próximo!
Segmento 10, take 2.
Nossa, gigante!
É novamente tudo que a gente—
meu Deus do céu, relaxa!
Mas olha, se você analisar bem, se você, que nem no meu caso, eu jogo na maquininha, se eu percebo que eu tô perdendo em todas as maquininhas Eu não vou ficar investindo, eu vou embora. Por exemplo, ganhei na maquininha, eu ganhei, eu tenho que ir embora, eu não vou gastar esse dinheiro que eu ganhei, né?
Não, sobrando no seu ouvido, né?
Não, mas não, mas eu digo, quase ganhando muito. Não, não, mas se você for analisar assim, se você começa a perder, pô, você tem que se tocar que hoje não é o seu dia, você não vai mais gastar dinheiro.
Mas é a mesma coisa da droga.
Eu só vou fumar um pouquinho.
É só, queria eu ter o controle de fumar duas pedrinhas.
No joguinho eu digo assim, que de repente, que nem você ganhou na maquininha, você ganhou, larga a mão de ser burra, vai embora, não vai gastar isso. Você tem que sair. Não, mas agora eu tô sentindo que vai ser agora, vai ser agora. É, já pensei, já tive essas, ninguém quer expor, ninguém vai precisar. Eu vou receber, vou jogar mais para pegar o que eu quero.
É o mesmo movimento da droga, só duas, daí é só duas, vira mais duas, daí quando você vai ver não tem móvel nenhum na sua casa.
Não, eu não cheguei a esse ponto ainda. Vamos lá, vamos lá. Faz tempo que eu não jogo na maquininha, espero não voltar.
Ufa, valeu pessoal, gostei, hein? Me senti famosa!
Aí sim, hein?
A Débora já é minha fã, hein, Débora? Obrigada!
Ministério da Saúde
Plataforma centralizada de autoexclusão de apostasProamiti
Ambulatório Integrado de Transtornos dos Impulsos (AMIT) / Ambulatório do Transtorno do Jogo (ANJO)