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REFLEXÕES Nº 210

02 de maio de 202617min
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"Reflexões Nº 210", escrito por múltiplos autores, é mais do que uma antologia literária: é um convite para entrar num espaço íntimo onde a resiliência floresce nas vivências cotidianas — como almas que se abrem com vulnerabilidade e força ao mesmo tempo.

Neste áudio, especialistas analisaram a obra e reuniram as principais impressões e sentidos que atravessam o livro: a multiplicidade de visões que permeia a escrita dos autores, a ousadia de fundir profundidade filosófica e emoção, e o modo como as relações humanas viram ancoragem, transformação e luz — especialmente quando brotam do apoio mútuo, da empatia e da redescoberta pessoal.

Dê o play e acompanhe o resultado dessa análise: um passeio pelo universo interior de cada autor e pelo poder transformador da humanidade quando ela é sincera.

Assuntos1
  • Análise do caderno de reflexõesO Absurdo como ponto de partida · Venda Acalorada de Comportamentos · A Dificuldade de Ouvir Não · Nem tudo que se carrega é seu · A Cachorrinha · Apoio necessário · Quando o Valor Vem de Dentro · O orgulho invisível · Conto ou Encontro · Maio
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Imagina só entrar num teatro completamente escuro. Aí as luzes se acendem de repente e você percebe que tá bem no meio do palco. Nossa. É, e os assentos estão lotados de pessoas te encarando. Mas tem um detalhe tenso aí. Ninguém te entregou um roteiro. A peça já começou, os outros atores estão falando e você não tem a menor ideia de qual é a próxima fala ou onde o diretor se meteu. Pânico total, né?

Exato. É uma sensação de puro caos. E, bom, é exatamente assim que a filosofia descreve a condição humana. Boas-vindas a quem nos escuta mais um mergulho detalhado. Hoje a nossa missão é explorar esse palco caótico através de múltiplas perspectivas. Nós vamos focar no caderno de reflexões número 210, que é publicado lá no site da editora Valete Books todo domingo.

É, o que a gente tem em mãos hoje é um verdadeiro caleidoscópio, sabe? São 14 vozes bem distintas. 14? Isso. 14 autores que usam filosofia, contos, crônicas, poemas. Tudo pra tentar entender o que a gente faz quando descobre que, enfim, não tem roteiro nenhum. E o legal é que o valor desse material não tá em oferecer uma resposta única.

O valor está justamente em mapear essa experiência. É um mosaico sobre estar vivo, sabe? A gente vai desde a busca por sentido, passando por conflitos de geração, dores familiares, até chegar naquelas coisas super simples do dia a dia. É, e essa falta de um roteiro cósmico é bem o ponto de partida da nossa jornada de hoje.

o Luiz Primatti abre isso com o texto O Absurdo como ponto de partida. Ele resgata aquelas ideias do Albert Camus? Sim, o clássico mito de Sísifo. Isso mesmo. Mas, tipo, o que me intriga é como a gente olha para o fato de que o universo não está nem aí para os nossos desejos e não entra numa espiral de pessimismo total, sabe?

Então, o que é fascinante aqui é entender como o Carmos e o Pramati, no texto dele, definem esse absurdo. O absurdo não é só a vida ser difícil. Tá. O absurdo é o choque frontal entre a nossa necessidade gigante de achar um significado e o silêncio absoluto do universo. O Pramati detalha que, historicamente, a gente tenta fugir desse choque de duas formas principais. Que seriam quais?

A primeira é a fuga física, que seria a desistência ao suicídio físico. A segunda é o suicídio filosófico, que é basicamente você abraçar dogmas inflexíveis ou uma crença cega. Ah, entendi.

É como fingir que o diretor da peça mandou um roteiro escondido para a gente não ter que improvisar. Exatamente isso. É aceitar um pacote de sentido pré-fabricado só para anestesiar aquela angústia de não saber por que a gente está aqui. Mas a alternativa que o Pramati defende, baseada no Camus, é a revolta.

A revolta. Uma pedra até o topo da montanha. E a pedra sempre cai de volta, né? Todo santo dia pela eternidade. Mas a sacada genial aí é que o autor diz que a gente precisa imaginar o sísifo feliz. Peraí, feliz. Como alguém fica feliz fazendo um trabalho inútil desses? Pois é, a felicidade dele não vem de completar a tarefa. Porque ele sabe que a pedra vai cair. A felicidade vem do ato de empurrar em si.

O sentido da vida não é algo pronto que o universo entrega. É algo que a gente fabrica a cada tijolo, a cada escolha. É a rebeldia de criar significado, mesmo sabendo que não tem uma grande recompensa no final. Caramba. Mas se a gente aceita que não tem roteiro, a nossa tendência no dia a dia não é tentar forçar o nosso roteiro goela abaixo dos outros? Digo, pra criar uma falsa sensação de ordem?

Com certeza. E essa é a grande armadilha da interação humana. O Eduardo Grabovski fala muito bem disso na crônica Venda Acalorada de Comportamentos ou Caos. Numa excelente, aliás. Muito bom. Ele conta uma história que aconteceu no museu em Curitiba. Ele abordou uma pessoa querendo vender produtos e tentou usar aquelas táticas de rapor.

Ah, aquelas de espelhar gestos, tentar criar uma falsa empatia para manipular a pessoa. O famoso camaleão social. Isso, esse mesmo. Só que a pessoa abordada conhecia técnicas de terapia gestalt e simplesmente desarmou o vendedor. Desarmou como? Como alguém usa gestalt para quebrar um vendedor no meio de um museu?

É que a Gestalt foca radicalmente no aqui e agora. E na autenticidade do contato, sabe? Então, em vez de entrar no joguinho de espelhos e papo furado, a pessoa provavelmente chamou a atenção pra realidade da interação. Tipo expor o elefante na sala.

Exato. O vendedor estava ali fingindo intimidade para vender algo no futuro e a Gestalt corta isso. Isso quebra o vendedor, porque a técnica dele dependia de a pessoa não perceber que estava sendo conduzida. E o conceito do Grabovski nisso tudo é muito interessante. Conta mais.

Ele diz que tentar vender comportamentos e visões de mundo o tempo todo é como matar um dragão por dia. Exaustivo. E quando o outro não compra a sua ideia, isso gera um caos, porque a rejeição expõe a fragilidade da nossa própria opinião.

É uma radiografia bem dura de como a gente se relaciona, né? E essa tentativa de impor visão de mundo fica ainda mais pesada quando a gente olha para os atritos entre as gerações. Nossa, sem dúvida. O poema do André Ferreira, A Dificuldade de Ouvir Não, constrói uma crítica fortíssima sobre isso. Mas sendo um pouco o advogado do diabo, tipo, toda geração mais velha não critica mais nova desde a Grécia Antiga?

Com certeza. Mas o interessante é olhar objetivamente pra lente que o autor escolheu usar nesse texto. Ele foca especificamente nas consequências da modernidade, sabe? Ele descreve uma geração que, na visão dele no poema, inverteu completamente os valores. Ele retrata um foco enorme no ter em vez do no ser.

Certo. Ele cita isso abertamente. Sim. A crítica que ele monta no texto aponta para uma juventude que ama o vitimismo, promove ideais que ele rotula como socialistas e, principalmente, que não consegue lidar com frustração de jeito nenhum. É a alergia à palavra não que dá nome ao poema.

O poema não poupa mesmo as palavras para descrever o que seria esse colapso moral, né? Ele até faz um paralelo histórico bem denso no final. Exatamente. O texto nos serra lembrando aquela passagem bíblica de mais de dois mil anos atrás, quando o povo teve que escolher e preferiu libertar um criminoso em vez de Jesus, que foi crucificado entre dois bandidos. Sim.

O autor usa essa imagem lá no final do poema como uma grande metáfora para dizer que a sociedade de hoje estaria repetindo esse padrão, escolhendo o que é destrutivo e rejeitando os valores que ele considera corretos. É a forma dele ilustrar essa inversão de valores. Bom, depois de olhar para esse macro todo, né? Essa sociedade como um palco de embates, o caderno faz um movimento que eu achei genial. Ele vira o espelho para dentro.

É a parte mais profunda do material, eu acho. Sim. Como essas pressões do mundo moldam a nossa dor íntima. A Kenya Pauli entra aí com o texto Nem tudo que se carrega seu. Ok. Vamos desvendar isso. Até que ponto a bagagem que a gente arrasta é nossa de verdade?

A abordagem dela traz a visão da terapia sistêmica. É fascinante, porque a ideia é que um trauma não resolvido por uma geração não some no ar. Ele é transferido para o ambiente da casa. Como assim para o ambiente? Imagina uma criança crescendo numa casa cheia de tensão silenciosa.

A criança não tem maturidade para julgar os pais e pensar, ah, meus pais têm problemas. Ela internaliza o caos. E ela conclui, bom, se um ambiente é ruim, a culpa deve ser minha. E cresce se sentindo errada. Nossa, isso explica demais o comportamento na fase adulta.

Se a pessoa passou a infância inteira tentando não incomodar para não piorar o clima em casa, ela cresce pedindo desculpas por existir, né? Sim. E a Kenny alerta para o perigo da compensação. Essa pessoa sai caçando qualquer atenção para preencher aquele vazio da infância. Qualquer atenção. E isso inclui as ruins, eu imagino.

especialmente as ruins, atenções tóxicas, abusivas, porque para o cérebro dela, aquele padrão disfuncional, só familiar, parece o lar dela. O passo essencial que a autora propõe é separar as coisas, olhar para a própria dor e perguntar, vem cá, esse medo de rejeição é meu, ou eu estou repetindo o padrão da minha mãe? Devolver o que não é seu. Exato, esse é o primeiro passo para curar.

Mas e quando a pessoa simplesmente não consegue lidar com essa bagagem, sabe? Quando a ferida é muito recente e a dor paralisa.

Tem dois poemas no caderno que fazem um contraste absurdo sobre isso. O da Zélia Oliveira e o do Maximilian Santos. É, eles mostram espectros muito diferentes de como a gente lida com a dor. A Zélia, no poema A Dor, oscila bastante. Ela mostra como a dor às vezes é uma faca fiada que corta e em outros momentos é só uma memória silenciosa sufocando a alma.

E o final da Zélia traz uma esperança, né? Ela não espera que a dor suma, mas ela tem esperança de que vire poesia, que vire uma força. Sim, a busca pela cura. Mas em contrapartida tem o poema do Maximilian, A Esperança Morreu, que é muito escuro, muito cru. Ele descreve o eu lírico sendo jogado ao vento, machucado, e ele decide fechar o coração, virar poeira sem direção. Fechar o coração é a resposta.

Então, o que é brilhante ao conectar esses dois textos é entender que fechar o coração não é a solução final, mas é uma derrota temporária super válida. Tá, uma defesa. Sim, o Maximilian traz o retrato cru do abandono amoroso.

Quando você é dilacerado, a reação natural não é fazer poesia no dia seguinte. É retração. O coração fechado é a fase do choque. E o caderno mostra que as duas coisas existem. A esperança da Zélia e a escuridão do Maximilion. Faz parte da experiência de estar vivo. Bom, e se o absurdo tá aí? Se a bagagem nos esmaga? E a dor às vezes paralisa de vez? O que nos salva no fim das contas?

A resposta deles parece estar na empatia e no apoio invisível, principalmente com os mais vulneráveis. Isso me leva direto para o conto da Célia Nunes, A Cachorrinha. Que conto forte. Ele pega a gente desprevenido. É uma história dolorosa sobre a catuxa. Uma cachorrinha que alegrou a família por anos, mas envelheceu. E aí começou a ter peladeiras, coceiras, precisava de muito cuidado.

Deixou de ser conveniente, né? Isso. A fonte de alegria virou um fardo. E aí a família toma aquela decisão horrível de colocar o bicho no carro e abandonar longe de casa. O que me pegou foi o desdobramento. A noite que a dona da cachorrinha passa depois disso. O peso da culpa quando ela deita no travesseiro.

A consciência pesando, né? Demais. Ela começa a pensar. E se chover, e se ninguém quiser ela por causa das feridas, e se ela fica presa na corrente, é um desespero.

O silêncio da casa vira um tribunal para ela e, impulsionada por essa culpa, ela volta lá. E o alívio que o conto descreve quando ela acha a catuxa e os olhos do animal brilham como estrelas, apesar de terem abandonado ela, é de uma redenção muito grande. É uma mensagem moral clara contra o abandono.

E essa ideia de cuidado e arrependimento reflete a força que a Estela Gaspar e a Lucélia Santos trazem nos textos delas. Porque a gente acha que apoio é fazer discursos motivacionais enormes, sabe?

Se a gente conectar isso com um cenário maior, os conselhos barulhentos quase sempre dão errado. A Estela fala sobre isso em apoio necessário. Ela diz que o verdadeiro apoio não é assumir o comando da vida do outro. Esse é um vento que toca a pele sem pedir licença. Nossa, bonita essa imagem. Célia Santos fala da força interior. Ela descreve aqueles dias de inverno interno, sabe? Quando por fora tem sol, mas por dentro você tá congelando e cinza.

Exato. Uma força silenciosa manda você continuar. Mas o principal é quando surge alguém no meio desse inverno e simplesmente permanece. Sem exigir que você sorria, sem fazer barulho. Provando que você pode cair e não perde o seu valor por isso. E cara, quando a gente percebe essa nossa força e supera a dor, a nossa bússola de valores muda completamente, né? A gente começa a enxergar o nosso próprio valor e o dos outros de um jeito novo. Sem dúvida.

A Nayara Santos Lopes toca nisso no texto Quando o Valor Vem de Dentro. Ela fala sobre se recusar a aceitar migalhas afetivas. Não cobrar o que deveria vir naturalmente.

E a gente pode juntar isso com a visão do Wagner Planas no poema Amigo. Ele desafia aquela ideia de que amigo tem que estar presente fisicamente o tempo todo. Ele diz que o amigo é o irmão que a gente escolhe para a vida toda. Até mesmo se for um amigo virtual. Sim, porque a conexão verdadeira não exige presença física constante. É o valor da escolha afetiva consciente, daquele apoio silencioso que a gente acabou de falar.

É aqui que a coisa fica realmente interessante no caderno, porque essa reavaliação de valores é brilhantemente traduzida para o papel de ser pai e mãe na crônica da Arlete Criazzo. O orgulho invisível. Isso. Ela desafia totalmente o padrão da sociedade. Aquele pai ou mãe que exibe o diploma de medicina ou engenharia do filho como se fosse um troféu para todo mundo ver, mas o filho não tem cinco minutos na semana para ligar para saber como eles estão.

É o orgulho invisível que ela defende. É você admirar o seu filho como um ser humano decente. É aquele filho que dá bom dia olhando nos olhos, que ajuda um estranho na rua. Títulos o tempo apaga, o caráter não apaga.

Exatamente isso. E, bom, depois de passar por todas essas lutas existenciais, as pressões familiares, essa redefinição de quem a gente é, o caderno chega na contemplação pura e simples da vida. É, ele desacelera de um jeito muito bonito. A Yuzi Matos faz isso na poesia visual dela Conto ou Encontro. É uma cena super serena. Tem folhas de coqueiro secas, brotos verdes, uma mulher de renda com laço vermelho no cabelo, escrevendo bem devagarinho.

Para não terminar a pintura tão cedo. Exato. O foco não é resolver os problemas do mundo. É a linha tênue entre a ilusão e a realidade enquanto ela lê os próprios pensamentos ali. É apreciar o instante. E para fechar todas essas análises de forma perfeita, a gente tem Maio da Marinalva Almada. É uma celebração do tempo. O mês da colheita, da fartura. Ela descreve um céu colorido de pipas. Mas tem um detalhe ali que é crucial. Ah, eu lembro dessa parte.

Ela diz que as pipas voem alto, mas sem serol. Ou seja, ela deseja que as pessoas tenham sonhos enormes que voem muito alto, mas sem machucar ou ferir os outros que estão voando perto. É a metáfora perfeita para o encerramento de tudo que a gente discutiu hoje.

Então, o que tudo isso significa, né? O caderno de reflexões número 210 nos mostra que a vida pode ser tão absurda quanto empurrar aquela pedra do sísifo montanha acima todos os dias. Mas no meio da bagagem sistêmica que a gente arrasta, das dores que cortam feito faca e da esperança que às vezes parece que morreu, a gente tem saídas. Muitas saídas.

A gente tem o apoio invisível de alguém, o valor do instante simples, do aqui e agora, e o poder de escolher muito bem a quem a gente vai dar o nosso afeto e amizade. Pois é. E eu queria deixar uma última questão pra quem tá nos acompanhando agora, refletir. A gente passa muito tempo, mas muito tempo mesmo, tentando descobrir o sentido enorme das nossas vidas, né? Analisando cicatrizes, medindo o nosso valor em diplomas.

Mas e se o verdadeiro sentido não for algo que você simplesmente descobre sozinho? E se for a sua capacidade de se tornar esse apoio invisível na história de outra pessoa? Caramba! Pensa bem, se amanhã você fosse o vento silencioso na vida de alguém que está enfrentando o inverno interno profundo, quem seria essa pessoa? Essa é de explodir a cabeça pra terminar, hein?

Muito bom. Obrigado a você que nos escuta por acompanhar mais esta jornada de análise profunda com a gente. Continuem sempre curiosos, sempre questionadores. E a gente se vê no próximo encontro.