Episódios de Ponto de Partida

O acordo é bom pro Flávio

04 de maio de 202611min
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E hoje eu vou te contar por que o que aconteceu no Congresso na semana passada não foi só uma derrota do Lula — foi um acordo assinado. E por que esse acordo desenha um governo Flávio Bolsonaro que ninguém ainda tinha imaginado: não um Jair 2, mas o primeiro presidente 100% Centrão. E eu, como carioca, sei muito bem como é esse tipo de governo.

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Participantes neste episódio2
L

Luísa Silvestrini

Host
P

Pedro Doria

HostJornalista
Assuntos5
  • Congresso NacionalRejeição de candidato ao STF · Escândalo do Banco Master · Pressão para rejeitar Messias · Derrubada de vetos presidenciais · Abafamento da investigação do Master
  • Governo BolsonaroGoverno 100% Centrão · Modelo de governo do Rio de Janeiro · Oligarquia
  • Relações de Vorcaro com o CentrãoControle do orçamento · Manutenção no poder · Enriquecimento de membros
  • Banco MasterCiro Nogueira · Investigações sobre Davi Alcolumbre · Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes · Rui Costa · Jacques Wagner
  • Implicações e Investigação PolíticaEnxergar o jogo político · Ligar os pontos · Pensar por conta própria
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E se, tipo só e se, imagina aqui comigo, e se um possível governo Flávio Bolsonaro não for, como muita gente aposta, um segundo governo Jair Bolsonaro? E se for um desenho diferente? Um governo em que, enfim, o centrão assume as rédeas do país? Quem prestou atenção em tudo o que aconteceu na semana passada deveria seriamente considerar essa possibilidade. Porque, olha, se esse acordo não está amarrado...

ele certamente já está rascunhado na cabeça de bastante gente. Então vamos começar pelo básico? O que aconteceu no Congresso Nacional na semana passada? Primeiro.

Pela primeira vez, desde 1894, o Senado rejeitou um candidato ao Supremo Tribunal Federal, indicado pelo presidente da República. Essa rejeição se deu em dois contextos bastante específicos. Por um lado, o Senado não queria que Jorge Messias fosse indicado, queria Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa. Lula decidiu indicar Messias, mesmo assim, o Senado derrubou. Tudo bem. Por que o Senado quer um dos seus?

Porque o Congresso considera que precisa ter seus nomes entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal. Entenda-se bem. O Centrão considera que precisa ter gente dele no Supremo. E com que objetivo? Sejam criativos. Por que o Centrão gostaria de ter seus homens na mais alta corte de justiça do país? Pegou a ideia?

Pois bem, o outro contexto é o escândalo do Banco Master. Há quem não interessa investigar nada sobre o Master. Quanto menos ruído tiver nessa história, melhor. A Ciro Nogueira não interessa. Presidente do Progressistas, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, proximicíssimo de Neil Vortaro. A Davi Alcolumbre, presidente do Senado, não interessa. Gente dele no Amapá botou uma quantidade de dinheiro abissal no Master. Não quer investigar.

Alexandre de Moraes, José Antônio de Estófoli, ministros do Supremo, de formas diferentes receberam, legalmente, dinheiro oriundo do Master. Muito dinheiro. Melhor não fuçar demais nisso aí.

A quem mais não interessa? Ao PT da Bahia. Ajudou a alavancar o Master. Rui Costa, ministro da Casa Civil de Lula. Jacques Wagner, líder do governo no Senado. Segue o fio da apuração jornalística de vários jornalistas, um confirmando o outro. No Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, fontes de todo tipo falam que todo esse pessoal participou da pressão para rejeitar Messias. Por quê?

porque ele era percebido como alguém que se juntaria ao time do André Mendonça e o Supremo é dividido em grupos que têm confrontos entre si. Essa é a primeira coisa que aconteceu dentro do Congresso Nacional. Agora, a segunda coisa foi a sessão conjunta, Câmara e Senado, para a derrubada de vetos presidenciais. O que estava em jogo ali? Lula vetou a diminuição de tamanho de pena para uma série de crimes que o Congresso desejava. Incluindo hora.

o crime de tentativa de golpe de Estado. Só que, e isso é o regimento do Congresso que diz, se o Congresso se reúne em sessão conjunta das duas casas, tem antes de analisar os pedidos de CPI mista. Tinha o pedido da CPMI do Banco Master. Analisaram? Não.

E quase ninguém reclamou. Flávio Bolsonaro não reclamou. Sérgio Moro não reclamou. Por que não falaram que Davi Alcolumbre estava quebrando a regra? Tinha que ter analisado, não era de... Ué, porque tinha um acordo. Um acordo assinado. A Julia Keck, repórter do MEI em Brasília, conseguiu esse documento. Todo mundo topou abafar em conjunto a investigação do Master em troca de impor essas derrotas ao governo.

Isso aqui, gente, é um grande acordo político na nossa frente. Veja, acordos políticos são super do jogo. Você abre mão de uma coisa que acha importante, o outro também abre e nome tudo, claro, de um objetivo comum. O ponto aqui é o seguinte. Com o objetivo de não investigar o Master, fez-se alguns acordos da semana passada.

Sabe aquele acordo com o Supremo, com tudo que foi difícil de ser feito lá atrás? Pois é, foi feito na nossa frente. E está sendo aplaudido por muitas das pessoas que estavam acusando corrupção lá atrás. Uns, por ingenuidade, não perceberam que está em jogo. Outros, bem...

É porque os interesses convergiram. Se a gente parte do princípio de que, agora que esse encontro de interesses ocorreu, que todos esses resultados interessam ao mesmo tempo ao Centrão, é o candidato Flávio Bolsonaro, que tipo de governo pode nascer desse encontro? Prepara a sua imaginação. Vamos imaginar que Flávio não seja Jair II, que Flávio seja o primeiro presidente 100% Centrão.

Você consegue imaginar que tipo de governo seria esse? Porque eu consigo. Sabe por que eu consigo? Eu consigo porque eu sou carioca. E posso te dar uma pista? O Flávio também sabe muito bem como é esse tipo de governo. Eu sou Pedro Doria, editor do Meio. Se você chegou até aqui e está com aquela sensação de que tem coisa grande acontecendo na nossa frente e que quase ninguém está nomeando direito o bicho, é exatamente isso para isso.

que existe um meio. A gente não está aqui para te dizer de que lado torcer. A gente está aqui para você conseguir enxergar o jogo. Ler o que foi assinado. Ligar os pontos entre o Master, o Supremo, Congresso e 2026. Discordar de Lula sem virar bolsonarista. Discordar do Flávio sem virar lulista. Pensar por conta própria, com base. Se isso é o que você quer, seu lugar é um meio. Assina. Esse acordo da semana passada...

Ele tem nome, tem dono, tem objetivo e tem um modelo de governo que já está em operação no Rio de Janeiro há mais de uma década. Eu vou te mostrar. Esse aqui, esse é o ponto de partida. Vocês entendem como é que o Estado do Rio é governado faz, tipo, algum tempo? É pelo grupo político do Flávio Bolsonaro, tá? Mesma turma, a turma dele.

Existe um conjunto de deputados estaduais que têm total controle da máquina pública. Você sabe o nome do atual governador do Rio? Sabe o nome de quem governava o Rio dois meses atrás e quatro ou cinco anos atrás? Muito provavelmente você não sabe. Figuras apagadas e relevantes. Você sabe que Tarcísio de Freitas governa São Paulo, que Romeu Zema governava Minas Gerais até umas semanas atrás. O que é diferente no Rio?

Para começar, não há governo. É um Estado rico, o segundo maior PIB do país, e, no entanto, quebrado, um desastre econômico. Tem alguns dos piores resultados de segurança pública do país, um dos piores resultados de educação. É um desastre completo. Governador de Estado assim não faz questão nenhuma de aparecer. Não tem o que mostrar. Mas então, por que está lá? O resultado é ruim por pura incompetência? Não.

O resultado é ruim por duas razões. Um bom pedaço da Assembleia Legislativa, que acaba sendo quem de fato manda, está lá para fazer dinheiro e ocupar território. Sim, muitos dos deputados são ligados às milícias. Imagina, só imagina...

que a principal força política do Congresso Nacional fosse o centrão. Eu sei que é difícil imaginar, mas faça um esforço. Agora imaginem que esse Congresso dominado pelo centrão tivesse controle total do orçamento, imagina. E imagine também que no Palácio do Planalto houvesse um presidente que estivesse dentro desse esquema.

Então, todas as decisões tomadas pelo governo federal pretendessem, principalmente, atender a máquina do centrão. Uma máquina que serve a dois objetivos. O primeiro, manter quem está no poder, no poder. O segundo, enriquecer todo mundo ali. O Rio de Janeiro funciona assim.

Aí, só para a gente seguir no processo de imaginação, imagine também que nesse desenho o presidente e o Congresso concordam sobre quem deve ir para o principal tribunal do país. E que essas pessoas escolham ministros do Supremo com um único objetivo, protegê-los. Que esse governo controle a Polícia Federal para que nunca os seus sejam investigados. Bem-vindo ao Rio de Janeiro. Por fim, imagine que essas pessoas, porque é assim que acontece no Rio,

Porque algumas dessas pessoas, alguns têm empresários, alguns têm operadores de bancos pequenos, cujo trabalho seja produzir dinheiro por fora das regras, lavar dinheiro de corrupção, ajudar a fazer o desvio. Daniel Vorcaro foi um banqueiro desse tipo aí.

A operação para bloquear Jorge Messias foi uma do Congresso informando ao Planalto que quer botar a gente dele lá no Supremo. O Centrão já tem essa máquina toda. O que o Centrão nunca teve foi um Wilson Witz, um Claudio Castro no Palácio do Planalto. É o tipo de governador que o Rio tem faz algum tempo. Esses governadores que fazem parte do esquema.

que estão lá principalmente para fazer o esquema fluir. Enquanto isso, o Flávio Bolsonaro foi um deputado estadual da Alerj. Ele conhece o esquema. Ele é o cara da rachadinha, o cara da loja da Copenhagen, em que todo o lucro se concentra no dia do pagamento da Alerj e entra no caixa em dinheiro vivo. O camarada que compra imóveis em claro.

Dinheiro vivo. Não dois imóveis, mas pencas de imóveis. Você, quando compra apartamento, também não compra em dinheiro? Pois é. E, sabe, o diabo vai ser isso. O acordo que foi desenhado na semana passada, se extrapolado, é esse. O grande acordo nacional com o Supremo, contudo. Vamos fazer campanha de sistema, dizer que são contra a corrupção, enquanto vamos botar o centrão cuidando do galinheiro. Ou melhor...

do Tesouro Nacional. Isso é uma ditadura? Não. O nome técnico que damos para um regime em que um grupo fechado a tudo domina, a tudo organiza e controla todos os recursos é outro. Nós chamamos isso de oligarquia.

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