Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Hora do lanche

16 de julho de 202653min
0:00 / 53:05

Um hambúrguer, uma pizza, e a alma de duas cidades.

No primeiro ato: Douglas Henrique e o pêndulo político-sanduíchico de Olinda. Por Paula Scarpin.

No segundo ato: medo, vigílias e uma pausa pra comer, na noite alta da Av. Paulista. Por Vitor Hugo Brandalise.

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Palavras-chave: McDonald’s, Olinda, cinema, curta, Douglas Henrique, PC do B, Luciana Santos, Pernambuco, Maestro João Carlos Martins, casarões, Avenida Paulista, pizza

Participantes neste episódio5
D

Douglas Henrique

ConvidadoCineasta
J

João Carlos Martins

ConvidadoMaestro
L

Luciana Santos

ConvidadoMinistra da Ciência e Tecnologia
P

Paula Scarpin

Reporter
V

Vitor Hugo Brandalise

Reporter
Assuntos5
  • McDonald's em OlindaOs Arcos Dourados de Olinda · Batalha de Olinda · Luciana Santos · PC do B · Guerra Fria · Gibi Lanches · Casa Caiada
  • Avenida Paulista AbertaDemolição de casarões · João Carlos Martins · Lei do Tombamento · Casa Mourisca · Vigília na Paulista · Pizza no Bexiga
  • Megalomania PernambucanaDouglas Henrique · Olinda · Primeiro curta-metragem · Voz de Deus
  • Expansão da IA no PentágonoTeoria de pedidos de pizza · Operações militares · Pentágono · Google Maps
  • Índice Big MacParidade de poder de compra · Revista Economist · Renda per capita
Transcrição140 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Rádio Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Numa noite de agosto de 1990, um cara chamado Frank Mix reparou numa coisa estranha. Ele era dono de várias pizzarias na região de Washington, na capital dos Estados Unidos. E ele estranhou que naquela noite, excepcionalmente, os entregadores dele tiveram que cortar um dobrado. Teve um lugar que pediu 21 pizzas de uma vez. E tudo bem, talvez fosse só uma festa da firma.

Mas a firma, no caso, era a CIA. E esse pedido de 21 pizzas ficou marcado na memória do Frank porque no dia seguinte, o Iraque invadiu o Kuwait. Talvez fosse coincidência, talvez não. O Frank achava que não, porque essa não era a primeira vez que ele reparava nesse fenômeno. Nem a segunda. Era a terceira vez que isso acontecia. A primeira enxurrada de pedidos de pizza governamental tinha vindo em 1983. No outro dia, os Estados Unidos invadiram Granada, no Caribe. 6 anos mais tarde, em 89, aconteceu de novo.

E aí, no dia seguinte, os Estados Unidos invadiram o Panamá. Foi assim que nasceu o Pizzômetro do Pentágono. É uma teoria de que, se você só ficar de olho no volume de pedidos das pizzarias da região, Você vai conseguir detectar a próxima operação militar do governo norte-americano ou enxergar alguma crise que ainda não veio a público. E bom, tem alguns problemas com essa ideia. Pra começar, mesmo supondo que a teoria esteja certa, a pizza não indica o endereço da bomba.

Tem também o detalhe de que o próprio Pentágono chegou a negar oficialmente essa teoria. Eles dizem que tem vários restaurantes ali dentro do complexo, inclusive que servem pizza. Mas a teoria só ganhou força nos últimos anos. E agora, com aqueles monitores de atividade do Google Maps, ela ficou mais sofisticada. Tem gente que usa duas métricas de uma vez. Eles monitoram as pizzarias e também a atividade no bar gay mais próximo do Pentágono.

Se a galera tá no bar, é porque provavelmente eles não tão planejando aprontar nada bombástico no dia seguinte. Antes do governo americano bombardear o complexo nuclear iraniano em 2025, por exemplo, o bar tava vazio e os entregadores de pizza tavam à toda. Mas também teve uma noite regada a pizza naquele ano que deixou os monitores ouriçados. E não teve nada no dia seguinte. Talvez fosse só uma larica normal mesmo. As duas histórias de hoje giram em torno de comida.

E não qualquer tipo de comida. De fast food mesmo. Porcaria. No primeiro ato, tem hambúrguer no meio de uma batalha geopolítica global. E no segundo, tem uma pizza que mudou a paisagem de uma cidade. Depois desse intervalo, quem começa é a Paula Escarpinha.

?Voz B

Desde que o Douglas Henrique era pequeno, ele percebeu uma coisa.

?Voz C

Essa megalomania pernambucana de ser sempre o primeiro, o maior, o melhor, a maior avenida em linha reta ou coisa assim. Acho que eu sempre achei isso tudo muito engraçado.

?Voz B

Ele achava engraçado, mas ele gostava de engrossar esse couro.

?Voz C

Eu replicar também, porque é isso, todo mundo que tá ali replica. Identifica essas coisas, alguns por acreditar muito fielmente e outros por achar divertido também, como eu. O Paul McCartney foi em Recife pro primeiro show dele em Pernambuco, e aí ele sempre hasteia a bandeira do Brasil, não, né, do país que ele tá quando ele termina o show. E aí Pernambuco é o único lugar que ele hasteou a bandeira do estado, né. E aí acho isso muito engraçado, já naturalmente divertido já as pessoas estarem tão focadas nisso.

?Voz B

Então o Douglas é cineasta. E mesmo antes de entrar na faculdade de cinema, ele já sabia que ele queria contar uma história que tivesse como pano de fundo essa megalomania pernambucana. Aí agora em 2026, ele lançou o primeiro curta-metragem dele.

?Voz C

Nessa história, ela é megalomania pra todos os lados, assim.

?Voz B

O curta é um documentário. Um documentário de arquivo. Com uma montagem de fotos e de vídeos que o Douglas saiu garimpando por aí. E costurando tudo isso, tem um narrador. Muitos documentários têm narração, né? Existe até uma expressão pra falar de um estilo bem consolidado de narração de documentário, né? Que é a voz de Deus. Como se aquela voz ali fosse meio que a dona da verdade. Imparcial, isentona, não de uma pessoa de carne e osso.

O filme do Douglas não é assim. Mas o narrador também não é o próprio Douglas. E não é só porque ele contratou um ator pra narrar o filme, o Jordano Castro. É que o narrador é um personagem inventado, construído pelo Douglas, também a partir da pesquisa dele.

?Voz C

Na etapa inicial do filme, eu pesquisei muito esse pensamento coletivo. Eu passei quase um ano assim lendo muito fórum. Eu comecei a usar o Web Archive pra poder ler os fóruns do Orkut de Olinda. É uma construção meio geral assim de como essas pessoas estão pensando essa cidade, né? Fazem elas acharem que aquele lugar é mais especial. Então, o narrador, ele não é a voz de Deus, ele é a voz de um holandês.

?Voz B

Mas não é que o Douglas queria fazer um filme de piada interna? Tipo, mirando num público só de pernambucanos?

?Voz C

Porque quem é de Pernambuco se identifica naturalmente. E quem é de fora também. Eu sempre sentia que as pessoas de fora achavam engraçado a forma que a gente se tratava, né?

?Voz B

Quer dizer, como bom pernambucano, o Douglas tinha ambições maiores.

?Voz C

Queria que o filme tivesse também um entendimento para quem não é do Brasil. Acho que a forma mais interessante é a gente começar o filme de fora para dentro.

?Voz D

Guerra Fria. O mundo estava dividido em dois grandes blocos. De um lado, o imperialismo estadunidense. Do outro, o comunismo da União Soviética. Em novembro de 1989, um muro caiu em Berlim. E por algum motivo, isso foi importante.

?Voz C

Então Todo mundo conhece essas histórias que a gente vai apresentar no começo.

?Voz D

Mesmo com a dissolução da União Soviética, a divisão ideológica do mundo continuava. 10 anos depois, bem longe de Moscou, Berlim e Washington, um episódio dessa grande guerra ficou esquecido nos livros de história por muito tempo. Um episódio chamado a Batalha de Olinda.

?Voz E

Salinda vai descer ladeira. Coisa linda vai chegar!

?Voz D

No continente conhecido como América.

?Voz C

E até a gente chegar no Brasil e no lugar mais importante do mundo, que é Pernambuco.

?Voz D

E a parte mais importante de Pernambuco é Olinda.

?Voz B

O curta se chama Os Arcos Dourados de Olinda.

?Voz C

Sobre a história da primeira McDonald's de Olinda, que foi à falência, um mito local. Contando isso em paralelo à história da primeira prefeita de um partido comunista. Isso como é uma Guerra Fria tardia.

?Voz B

E era conhecido como a Batalha de Olinda isso?

?Voz C

Não, a gente queria tentar trazer uma grandiosidade pra história assim. Qual o momento mais importante da Guerra Fria? A Batalha de Olinda, claro. Quando os Estados Unidos é humilhado em solo pernambucano.

?Voz B

Tá, então sobre essa Batalha de Olinda, entre aspas. Exatamente 10 anos depois do McDonald's abrir a primeira loja na União Soviética, Eles começaram uma prospecção pra fincar a bandeira, ou os arcos dourados, em Olinda. Isso então foi no ano 2000, que foi um momento em que a cidade tava especialmente dividida.

?Voz D

Olinda também se divide em blocos. E carnaval.

?Voz B

Na verdade, isso aconteceu depois do carnaval. Foi no segundo semestre, já no período eleitoral.

?Voz D

A direita é ela que está se candidatando à reeleição com o poder da máquina pública a seu favor e representando nos interesses do bloco capitalista, Jacilda Urquiza! E do outro lado, a desafiante, a candidata do PCdoB, a comunista declarada, Luciana Santos!

?Voz B

Talvez você conheça a Luciana hoje como Ministra da Ciência e Tecnologia. Mas, como o Douglas já adiantou, no ano 2000 ela ia ser eleita prefeita de Olinda.

?Voz C

E a gente catalogou mais de 300 fitas do PCdoB, que iam em beta, VHS.

?Voz B

Tem imagens da Luciana em campanha, dela em palanque do lado do Lula, que nessa altura ainda nem tinha sido eleito presidente pela primeira vez.

?Voz E

Votar na Luciana é fazer uma declaração de amor à Olinda.

?Voz B

Tem a Luciana do lado de um pastor evangélico, garantindo que apesar de comunista ela acreditava em Deus.

?Voz C

E eu disse, Luciana, eu vou levar você ao encontro do povo evangélico.

?Voz B

O Douglas recuperou imagens dos debates. E aí tem a rival dela, Jacilda Urquiza, do PMDB, explorando essa história de acreditar ou não em Deus.

?Voz A

Se a senhora é comunista, não tem religião. Então deixe o Partido Comunista e assuma uma religião.

?Voz B

Ele pesquisou também nos acervos dos telejornais. E aí ele pescou a cobertura da concentração dos eleitores dos dois lados enquanto eles estavam esperando a apuração dos votos. Mesmo com uma diferença de 5% em favor da deputada Luciana Santos, os militantes do partido adversário da prefeita Jacilda Urquiza ainda acreditavam na vitória.

?Voz A

Pra que baixar a cabeça? Ainda não tá perdido nada, nada tá perdido.

?Voz B

À medida em que os novos boletins eram divulgados, o clima na cidade começava a mudar. Assim que se confirmou a vitória da deputada Luciana Santos, Olinda parou. As ruas ficaram congestionadas. No ano seguinte, 2001, enquanto a Luciana tomava posse na prefeitura, O McDonald's abria a primeira loja na cidade. Pelos registros que o Douglas encontrou, a lanchonete não chegou a causar o mesmo frisson que rolou em Moscou, de horas de fila. Mas ela fez algo com sucesso.

?Voz D

O McDonald's holandês era frequentado principalmente por alunos de escolas particulares, adultos com paladar infantil e por um senhor chamado Wanderson, que ia diariamente ao estabelecimento trocar R$50 comprando uma lisa da casquinha.

?Voz B

Esse nível de detalhe o Douglas só conseguiu encontrar num tipo muito mais particular de acervo.

?Voz C

Eu tive a ideia de fazer uma convocatória e aí a ideia era tentar encontrar as fotos do McDonald's a partir de crianças que tinham feito aniversário naquele McDonald's, uma coisa assim meio material caseiro de família. E aí a gente pediu parceria com páginas de Instagram que são mais locais assim, tipo Olinda Divulgações, coisa assim que tem um público completamente fora do que a gente tem de acesso.

?Voz B

Vieram muitos contatos por essa convocatória, inclusive o de um ex-funcionário do MEC.

?Voz C

Ele conhecia todos os outros, eles tinham um grupo do WhatsApp com todos os ex-funcionários para ficar recontando as histórias e mandando as fotos. E aí tinha desde a pessoa que trocava a plaquinha do McDonald's até os gerentes, o pessoal que vinha de fora para dar treinamento.

?Voz B

Gente, mas faz tipo 26 anos isso, né? Assim, os caras estão ali.

?Voz C

É bem curioso também, até porque cada um tem Tem pessoas que têm perspectiva bem diferente do que era aquele período também, né? Primeiro rapaz que eu entrevistei, que é o Rui, e ele falou que ele tinha lá na coleçãozinha dele vários broches. Eles ganhavam broche pra praticamente tudo, então tinha 200 broches de cada um, coleção gigante de brinquedos. Teve gente que se conheceu namorado ali, se casou, teve filho com os outros funcionários.

E eles têm uma coisa bem McDonald's pra vida, assim. Eles se conheceram lá e até hoje são super amigos. Um é padrinho do filho do outro, ou então é padrinho em casamento. Tem várias correlações, todo mundo se conheceu ali porque era esse todo mundo jovem. O que é, acho que para a gente talvez a universidade, para eles eram com 17, 18 anos tá conhecendo pessoas que eles estavam se vendo todos os dias ali, né.

?Voz D

Os funcionários eram em sua maioria jovens que alcançavam ali o seu primeiro emprego, trabalhavam em diversas funções para as quais não tinham sido contratados. Eram obrigados a estar sempre sorrindo e tinham o direito de escolher um lanche do cardápio que variava de acordo com o número de horas trabalhadas, se alimentando todos os dias de fast food. Não fosse o fato de ganharem sanduíches, não comeriam nunca no próprio lugar em que trabalhavam.

?Voz C

E aí eles meio que formaram esse grupo de amizades naquele, a partir de um, de uma dificuldade, né, que ela tá trabalhando no McDonald's.

?Voz B

Dificuldade não só pela rotina insana de trabalhar numa lanchonete fast food, mas também porque depois daquela empolgação inicial com a novidade, aos poucos a clientela foi desaparecendo.

?Voz D

Os funcionários, que recebiam por hora, eram liberados cada vez mais cedo e raramente chegavam a receber o salário mínimo.

?Voz B

Em 2003, o McDonald's já não era mais o ponto de encontro favorito da garotada olindense. Mas na pesquisa do Douglas, ele levantou um momento especial em que muita gente se reuniu ali. Na verdade, em que muita gente seguiu até lá em romaria.

?Voz C

E aí as pessoas se juntam e vão do sítio histórico de Olinda até o McDonald's, que não é perto também. É uma distância bem grande, assim.

?Voz B

E a motivação dessa romaria tá intimamente ligada à tal Batalha de Olinda.

?Voz D

A Guerra do Iraque foi o primeiro evento a receber a atenção da política externa dos cidadãos olindenses.

?Voz B

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, como parte da chamada guerra ao terror pós-11 de setembro, a prefeita Luciana Santos resolveu estabelecer ponto facultativo nos serviços públicos de Olinda, pra que quem quisesse pudesse se manifestar. E se em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife, etc., os protestos aconteciam nas portas dos consulados americanos, os manifestantes de Olinda se dirigem, é claro, ao McDonald's. Era o maior símbolo de poder dos Estados Unidos na cidade, e para todos os efeitos ele sucumbiu.

?Voz D

O McDonald's não resistiu a Olinda, falindo pouco depois, em novembro de 2003, apenas 2 anos e 5 meses após a sua inauguração. A cidade deu o seu recado nessa história.

?Voz C

Eu acho que Ela é megalomaníaca pra todos os lados, assim. As pessoas que são de esquerda ou de direita, elas têm uma visão sobre essa história e todo esse... Vão a partir do fato, né? O fato é que o McDonald's faliu. E aí cada um pensa da sua perspectiva. O pessoal da esquerda fala, não, porque ela é nossa defesa local da cultura. E o pessoal da direita fala, não, porque em Olinda nada dá certo. É porque a gente tá sempre com esses partidos de esquerda destruindo a gente.

?Voz B

Nessa dicotomia, o locutor olindense ufanista se alinha com a esquerda. E ele até nomeia a arma secreta dessa vitória contra o capitalismo.

?Voz D

O verdadeiro responsável pela falência do McDonald's foi o bravo povo olindense. Um povo de paladar apurado que já tinha sua preferência a poucos metros dali: o Gibi Lanches.

?Voz B

Gibi Lanches era uma hamburgueria local que chegou ali bem antes.

?Voz C

Quando eu entrevistei a Luciana, ela pegou e me contou essa história, que o adversário de Luciana na campanha de 2004, no debate da televisão, ele fala isso: Olinda é só decadência econômica, fechou a McDonald's.

?Voz E

A McDonald's deu certo no mundo inteiro, em Olinda fechou.

?Voz B

O adversário em questão era o candidato do PTB, André Luiz Farias, mais conhecido como Alf.

?Voz C

Ela não responde de volta porque era uma tréplica já, então ela não tinha mais espaço. Mas ela me contou que na saída ela falou pra ele, o povo daqui gosta do gibi holandês.

?Voz B

A entrevista com a Luciana foi mais uma etapa da pesquisa do Douglas pro documentário. E esse trecho da fala dela foi direto pra boca do narrador. Até porque ela não tava sozinha nessa interpretação dos fatos.

?Voz C

Ela falou uma coisa que as pessoas já replicavam também. É isso, a história é uma coisa e a opinião política pública é outra completamente diferente. O McDonald's não faliu exatamente porque as pessoas amam completamente o Gibi Lanches ou outras hamburguerias locais, né? O ponto principal da falência do McDonald's foi a decisão de onde colocar ele, né?

?Voz B

Não no centro histórico, que é a parte mais turística de Olinda, E sim no bairro de Casa Caiada, mais especificamente na Avenida José Augusto Moreira.

?Voz D

Um lugar bastante inusitado para receber a nova loja do McDonald's.

?Voz C

José Augusto Moreira é bom pra competir com travestis, que tem muito.

?Voz E

E são lugares de refúgio da homossexualidade, da prostituição, da galera que não é muito bem aceita no meio social, né?

?Voz B

O Douglas até desenterrou essa entrevista do Chupeta, da banda Testículos de Mary. Testículos com X, tá?

?Voz E

De texto.

?Voz B

E eles têm uma música chamada Utilidade Pública, em homenagem ao local.

?Voz D

Casa Caiada é um bairro pobre, de muro baixo. E moradores sem poder aquisitivo para usufruir de McLanches felizes. Aparentemente, o saneamento básico e a valorização da cultura local e da educação eram mais importantes para Olinda do que os hambúrgueres gostosos. Com essa vitória, não existia mais evento que fosse grande ou pequeno demais para escapar da influência de Olinda. O mundo dança conforme a música, e a música agora era o frevo.

É assim que nesse momento Olinda deixa de ser a capital não oficial do Brasil e se torna a capital não oficial do mundo. Segundo os cidadãos de Pernambuco, Olinda foi a primeira cidade do mundo a falir um McDonald's.

?Voz B

E não foi, né? Olinda não foi o primeiro lugar em que o McDonald's faliu, né?

?Voz C

Não, não foi. Um spoiler: não foi.

?Voz B

Antes de Olinda, o McDonald's já tinha falido em Barbados, em 1996, e na Bolívia, em 2002. Aliás, a rede faliu nesses dois países inteiros. E aquela única loja em Olinda fechou. Mas os olindenses que apreciassem os sanduíches do Mac não precisavam rodar mais que 10 quilômetros pra conseguir um. Na cidade vizinha, Recife. O McDonald's não foi a primeira lanchonete fast food do mundo. O primeiro registro do gênero é da Yoshinoya, que abriu no século 19 no Japão e que ainda continua servindo, com muita presteza, com boquinhas de arroz com carne.

Mas a popularização da linha de montagem do Mac coincidiu com o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a economia dos Estados Unidos explodiu E foi inaugurado o tal sonho americano, a utopia capitalista. Essa coincidência fez a rede virar quase que sinônimo de Estados Unidos pra muita gente e, portanto, ser igualmente alvo de fascínio e de repulsa, a depender do posicionamento político da pessoa, né?

?Voz C

Eu não sei qual era a diferença de preço de um Gibi Lanches pra um McDonald's, mas com certeza acho que valia muito mais a pena comer o Gibi Lanches.

?Voz B

Ainda existe o Gibi Lanches?

?Voz C

Não, não existe mais, ele faliu, creio que na pandemia, e o McDonald's voltou, abriu nesses 2 McDonald's, um no shopping e um do lado de fora. Tipo, ficou tão grande que aí abriu o segundo.

?Voz B

Em 1986, a revista Economist criou um negócio chamado Big Mac Index, ou Índice Big Mac. Talvez você já tenha ouvido falar. É um índice de paridade de poder de compra. Quer dizer, quanto custa em dólares um Big Mac no seu país?

?Voz D

Um sanduíche composto de 2 hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim.

?Voz B

Desde o lançamento, o índice continua sendo publicado pela revista todo ano. E hoje em dia tem uns sites que fazem até atualização ao vivo. E tem muitos fatores que influenciam nesse valor, né? Preço da carne, decisões internas do próprio McDonald's, enfim. E dá pra tirar muitas conclusões desse índice também. Por exemplo, até o fechamento desse episódio, o preço do Big Mac nos Estados Unidos era de US$6,12. Enquanto no Brasil era de US$4,63.

Só que enquanto a renda per capita nos Estados Unidos gira em torno de US$5.500 por mês, no Brasil a média não chega a US$450 mensais. Daí dá pra imaginar qual é a faixa de renda que tende a ser cliente do Mac em cada país, né? Recentemente eu ouvi falar de outro referencial de estudo inspirado no McDonald's. É uma teoria, na verdade. A Teoria Arcos Dourados de Prevenção de Conflitos. Segundo essa teoria, nunca houve uma guerra entre dois países em que o McDonald's estivesse presente.

É balela, claro. De cara eu pensei na Rússia e na Ucrânia como prova contrária. Mas aí pesquisando, encontrei que os próprios Estados Unidos quebraram essa regra quando eles invadiram o Panamá em 1989. Mas será que a gente pode pensar numa teoria pro pêndulo político de Olinda envolvendo o McDonald's?

?Voz C

E agora a direita é prefeita de Olinda tem um bom tempo já, então...

?Voz B

Depois de reeleita, a Luciana Santos deixou um sucessor, o Renildo Calheiros, também do PCdoB, hoje deputado federal. Mas desde o fim do mandato dele, quem tá na prefeitura é o PSD, o Partido Social Democrático, presidido pelo Gilberto Kassab.

?Voz C

A gente consegue uma nova história aí com mais uma reviravolta da esquerda aí na Prefeitura de Olinda e os jibilantes voltando, não sei.

?Voz B

É, daria uma guerra de forças política e de lanche.

?Voz C

Não, agora a gente tá preparado. Se o McDonald's daí disse que vai falir, a gente vai fazer um outro documentário, mas agora jornalístico, vai lá e cobrir diretamente eles sendo fechados, funcionários indo embora.

?Voz B

Depois de tanto tempo em cima desse material, o Douglas tá com muita dificuldade de dar esse trabalho por encerrado. A gente conversou no estúdio da Rádio Novelo, aqui no Rio de Janeiro. Ele tava aqui pra lançar o filme no festival É Tudo Verdade. E ele me contou de uma moça que levantou a mão na hora do debate depois da sessão.

?Voz C

Uma menina que ela falou que ela morava em Casa Caiada e ela aprendeu a andar de bicicleta no estacionamento do McDonald's de Olinda. E aí eu perguntei pra ela, você tem alguma foto? Ela falou, eu tenho. Aí eu falei, me manda que eu posso botar no filme agora. Eu sou super aberto a isso. O corte é infinito do filme.

?Voz B

Obra em construção permanente.

?Voz C

O meu plano era fazer a cena final do filme ser uma cena uma cena musical. E aí eu tenho uma banda de amigos assim que eu já filmei videoclipes com eles e tal. E aí eu convidei eles pra gente tocar uma versão do Rock do Ronald, que é uma música que era muito famosa justamente nessa época que o McDonald's existia. E todas as crianças dos anos 2000 provavelmente devem conhecer.

?Voz E

Mão na mão, pé com pé, vou te mostrar como é que é.

?Voz C

E aí era fazer uma interpretação dessa música, versão brega. E aí a gente queria fazer no McDonald's porque ele ficou abandonado por muitos anos. E aí eu queria botar eles na frente do McDonald's lá, do prédio, que eles nunca mudaram, e tocar. E aí quando a gente foi, tava próximo assim de rodar, eles demoliram do nada assim. Um dia eu passei e tava tudo demolido. Eu fiquei, meu Deus do céu, o que a gente vai fazer? Eles tinham tapumado todo lugar e já tava com segurança, com máquina, com tudo assim.

E a gente, nossa, e agora? Tipo, a gente gravava de madrugada, né? A gente chegou lá 1 da manhã. Aí ficou, nossa, então vamos gravar aqui na praça. Então acabou que a gente gravou numa pracinha que tem na frente.

?Voz E

É o rock do Ronald, dançem com o Ronald, o rock do Ronald, do Ronald McDonald.

?Voz C

A gente tinha uma equipe muito grande, né? A gente tava com mais de 30 pessoas filmando, tinha segurança, porque é muito perigoso lá. E aí, quando a gente começou a gravar, 2 da manhã, E rodou até amanhecer, até 7, eu acho. Foi um set meio longo, queria gravar amanhecendo. E aí, passou várias pessoas, tipo, como todo mundo sabia que era ali o McDonald's, então as pessoas passando e vendo um boneco gigante, uma banda, um Ronald McDonald's, as pessoas tipo, vai voltar o McDonald's, né?

É uma propaganda. E aí, um monte de gente filmou e botou, e aí apareceram em páginas de Instagram e no Twitter também, gente falando, acabei de passar na frente do antigo McDonald's e estão gravando um comercial. Vão reabrir o McDonald's de Olinda.

?Voz A

Essa história foi produzida pela Paula Scarpini. E essa foi a banda Quartinho interpretando a música Rock do Ronald. Que a gente descobriu agora nessa apuração que é uma falha geológica etária na nossa redação. Metade conhecia intimamente esse clássico e a outra metade não fazia ideia. Conta pra gente depois em qual geração você se enquadra. A segunda história de hoje vem do nosso baú. Ela foi veiculada pela primeira vez pouco mais de 3 anos atrás, em abril de 2023.

Mas ela é um pouco prima da Batalha de Olinda. Nessa história, a alma de uma cidade depende, pelo menos um pouquinho, de uma fatia de pizza. A gente volta daqui a pouco.

?Voz E

Lá pelo ano de 2008, eu era repórter de cidades do Estadão. E um colega contou uma história que não saiu mais da minha cabeça. Era sobre a Avenida Paulista, esse símbolo de São Paulo. Ele me contou que da noite pro dia, todos os casarões da Paulista tinham sido demolidos. E a mando dos seus próprios donos, pra evitar que eles fossem tombados. Tombados, sabe? Preservados porque eles têm um projeto bonito, representam um período histórico, têm alguma importância pra cidade, enfim.

Eu nem sou de São Paulo, eu sou catarinense. Mas eu era um recém-chegado e naquela época eu me interessava por tudo o que me ajudasse a me sentir menos perdido por lá. Então essas coisas de história, de patrimônio, do como era antes, eu tava sempre atrás dessas coisas. Bom, aquele meu colega contava essa história da Paulista em detalhes. Ele dizia que de madrugada, numa única noite nos anos 70 ou 80, um batalhão de caminhões de demolição passou zunindo pela avenida e derrubou um a um aqueles casarões antigos, dos tempos do café.

Os últimos que ainda estavam por ali. Pra quem nunca esteve na Paulista, eu vou explicar rapidinho como é que ela é hoje. Um corredorzão pra carros, com prédios altos dos dois lados, umas poucas áreas verdes e pouquíssimas casas. A ideia de que existe quase um momento exato em que isso aconteceu, a virada de uma avenida com casas pra uma avenida sem casas, e tudo isso praticamente numa noite só, me impressionou muito. Mas eu acabei não indo atrás de mais detalhes e eu me contentei com a versão do meu colega.

Até que pouco tempo atrás eu descobri um pedaço novo dessa história. E quem me contou foi uma pessoa que tava lá na hora em que tudo aconteceu.

JCJoão Carlos Martins

Quando eu cheguei na Fábrica do Humor, eu comecei a chorar de emoção vendo.

?Voz E

Esse é o João Carlos Martins. Hoje ele é mais conhecido como Maestro João Carlos Martins. Às vezes ele mesmo se chama assim.

JCJoão Carlos Martins

Foi este velho maestro que criou—

?Voz E

Na época, ele ainda não era maestro, mas já era pianista. E era o secretário de cultura do estado de São Paulo. Ele lembra daquele tempo de um jeito meio... bom. Olha só como ele lembra.

JCJoão Carlos Martins

Eu não acho que jamais, hoje eu digo isso com toda tranquilidade, um pianista deva ser secretário da cultura.

?Voz E

Ele ficou só 10 meses como secretário e nunca mais quis saber de serviço público. E o que aconteceu naquela noite na Paulista acabou influenciando essa decisão dele. Foi um pouco diferente do que o meu colega tinha contado. Na verdade, foi assim: saiu uma nota no jornal avisando que aqueles casarões iam ser tombados, preservados. Na Paulista toda, naquele ano de 1982, eram 31 casas de pé. Eram umas mansões que tinham sido construídas por aqueles senhores que lucraram tanto com a produção do café no século 19 e começo do 20.

E essa coisa de preservar essas construções antigas e suntuosas, a memória daquele tempo, parecia uma coisa boa, né? Só que pros proprietários soou como um alerta. É que eles não estavam interessados em preservar aquelas casas. Na verdade, vários deles preferiam vender. Vender por uma fortuna o terreno com casarão e tudo, pra alguma construtora botar abaixo e fazer um prédio naquela área supervalorizada da cidade. Então, quando eles leram no jornal sobre o plano de preservar, ou de congelar as casas, como se dizia, os proprietários ficaram meio apavorados.

Ouriçados. O João Carlos Martins também não gostou do que ele leu. É que o plano da Secretaria de Cultura não devia ter vazado. A equipe dele ainda tava fazendo um estudo para decidir exatamente o que devia ser tombado e o que não tinha valor urbanístico. O resultado ia sair dali a 10 dias. Daí, com o vazamento, o secretário reuniu o time dele para esclarecer.

JCJoão Carlos Martins

No meu encontro com Aziz Abusábia, ele falou: João, o nosso interesse na Paulista, tudo que existia de bom na Paulista, já nesses 50 anos já foram destruídos, já viraram prédios, mas devem ter cerca de 3 ou 4 ou 5 casas que seriam do nosso interesse.

?Voz E

O Aziz Absaber foi um geógrafo paulista e ficou conhecido por nomear os regimes morfoclimáticos brasileiros. Tipo a Caatinga, sabe? Foi ele quem primeiro deu esse nome pro clima semiárido de parte do Nordeste. Mas o que importa pra gente aqui hoje é que nessa época o Aziz era conselheiro do órgão de patrimônio histórico paulista, E tava envolvido nessa história.

JCJoão Carlos Martins

Eles falaram, com essas 3 casas nós vamos conseguir pelo menos manter alguns símbolos da Avenida Paulista pra lembrar a época do café.

?Voz E

3, 4, 5 casas, só isso e já tava bom. Mas quais casas? Quais das 31 casas iam ser preservadas e quais iam ficar fora da lista? Tinha gente que não tava querendo pagar pra ver. Aí, num domingo à noite, a coisa começou a esquentar.

JCJoão Carlos Martins

Eu morava na Igreja Aguiar. Uma noite, às 23 horas da noite, me telefonam em casa e me falam que estavam tratores na Avenida Paulista. Eu me lembro que eu saí correndo de lá.

?Voz E

Saiu correndo, entrou no carro oficial e, como todo secretário de cultura, ele ligou a sirene.

JCJoão Carlos Martins

E o carro do secretário tem uma sirene que pode ser acionada. A nossa sirene era ligada direto.

?Voz E

Antes de entrar no carro, ele fez a segunda coisa que todo mundo sabe que tá no rol de tarefas de um secretário de cultura.

JCJoão Carlos Martins

Telefonei pro Romeu Tuma, o diretor do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, o DOPS, pedindo pra que ele mandasse a polícia pra Avenida Paulista. E eu cheguei na Avenida Paulista. Quando eu cheguei na Avenida Paulista, os tratores já tavam arrebentando dois casarões.

?Voz E

E um terceiro tava sendo desmontado com cuidado, peça por peça, pra revender.

JCJoão Carlos Martins

Eu comecei a chorar de emoção vendo.

?Voz E

Verdade seja dita, das 3 casas que estavam ali sendo derrubadas, uma não tinha nenhum valor arquitetônico. Mas as outras duas tinham indicação pra serem preservadas. No dia seguinte, de manhã cedo, o secretário reuniu a imprensa e prometeu que aquilo não ia se repetir. A cidade podia já ter perdido 3 casas, Mas não ia perder mais nenhuma. Ele anunciou duas medidas. Primeiro, que os 55 arquitetos do serviço público iam sair do gabinete, largar régua e compasso, e iam fazer plantão na Paulista.

Se vissem algum movimento suspeito de trator, iam chamar a polícia. Ou o DOPS. A outra medida era que de noite ele mesmo, o secretário, ia ficar de vigília, circulando pela avenida, com a sirene ligada. E aqui começa a parte da história que não aparecia em nenhuma das versões que eu tinha ouvido lá atrás. Um detalhe que me deixou fissurado nesse caso. Eu sou um cara meio ansioso, meio controlador, então eu tenho um pouco de pavor de cometer erros.

Não uns errinhos que eu sei que todo mundo comete, é do jogo e tal. O meu pânico é fazer alguma coisa que emperre tudo. Tipo algum erro no tempo em que eu era repórter de jornal que fosse tão grotesco que travasse as rotativas ou que a gente fosse obrigado a recolher a edição das bancas. Isso nunca aconteceu, tá? Mas a sensação de poder provocar, de alguma forma, um desastre completo, de cometer um erro tão feio que fosse mudar tudo, eu trago até hoje comigo.

Às vezes eu ainda sinto, é tipo um engasgo, quase uma falta de ar, que dura um segundo. Uma culpa futura, uma pré-culpa daquilo que eu ainda não fiz, mas que pode ser que eu faça. Bom, quando eu soube dessa parte nova da história, eu lembrei dessa sensação de culpa. Desse medo de fazer alguma coisa que estrague tudo e que leve todo mundo a me odiar. E eu me identifiquei com João Carlos Martins, o pianista que tinha virado secretário e que agora tava fazendo uma vigília no meio da noite na Paulista, de olho em algum trator que tivesse à espreita.

JCJoão Carlos Martins

Às 11 horas da noite eu ia pra Avenida Paulista correndo, indo de um lado pro outro, mas você com 40 anos de idade Eu ainda jogava futebol nessa época.

?Voz E

Então ele tinha todo o pique para atravessar a Paulista de ponta a ponta de novo e de novo, e com o olho vivo. A primeira noite de vigília foi um sucesso. Nada aconteceu.

JCJoão Carlos Martins

Viu que tava tudo calmo?

?Voz E

Na manhã do dia seguinte, ele se aprumou e disse para a imprensa que o sonho dele continuava de pé. Faltavam só 3 dias para sair o resultado do estudo. Muito em breve, a cidade ia saber quais casas de sua avenida mais famosa iam ser preservadas. As casas e os terrenos enormes delas. Na coletiva de imprensa, o João Carlos Martins falou das pressões que ele tava sofrendo por querer preservar imóveis numa via como a Paulista. E desabafou que podiam até chamar ele de louco, mas que ele não ia abandonar aquela ideia.

Naquela mesma noite, ele ia voltar pra Paulista pra uma nova vigília. Saiu nos jornais da época que as casas que a equipe do secretário queria preservar eram as que apresentavam influências da arquitetura clássica, neoclássica, francesa, inglesa e árabe. O tal estilo eclético. Quando eu vi as fotos dessas casas, eu fiquei com a impressão de que a avenida parecia uma daquelas feiras mundiais de 100 anos atrás, sabe? Em que cada país constrói um estande, um pavilhão nacional pra divulgar os seus feitos.

Tinha pra tudo que era gosto. Daí corta pra noite daquele dia. Quase madrugada. Por volta das 23 horas, o secretário voltou pra rua, começando mais uma vigília. E nessa noite, ele parou na frente de uma das casas que ele sabia que valia a pena preservar.

JCJoão Carlos Martins

É uma casa que a colônia sírio-libanesa construiu.

?Voz E

Era um casarão de 3 andares que tinha a cara de um palacete árabe. Seguia o estilo neo-islâmico. Uma casa chamativa, toda rodeada de arcadas em forma de ferradura, E no alto do telhado, um mirante. Tipo um minarete, aquelas torres estreitas que tem no alto das mesquitas, sabe? Se você for olhar uma foto, essa casa lembra um pouco a sede da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Aquela que parece um castelinho vermelho e que dá pra ver da Avenida Brasil.

Os jornais diziam que o teto da casa, na parte de dentro, era pintado a ouro, que os pilares e escadarias eram de mármore e que ela tinha vitrais coloridos e umas divisórias de cristal. Por causa desse jeitão, ela ficou conhecida como a Casa Mourisca. Pra muita gente, ela era a mais bonita de todas as 31 casas da Paulista. Ela ficava no número 867, perto do prédio da TV Gazeta. Antes da meia-noite, o secretário estacionou na frente dessa casa e ficou esperando.

Por sorte, de novo, eu vi que tava tudo calmo, nada acontecia. Eu falei, meu Deus do céu, tava tava tudo certo.

JCJoão Carlos Martins

Hoje não tem nada de destruição, tudo sob controle. Não vi nenhum movimento. Eu vi que tinha polícias nas esquinas.

?Voz E

Dessa vez, o Romeu Tuma enviou até uma viatura para frente da casa.

JCJoão Carlos Martins

Não muitos, mas tinham vários policiais.

?Voz E

Tinha uns holofotes ligados em cima do casarão, ele tava todo iluminado. O secretário tava fora do carro circulando ali pela frente da casa. O tempo ia passando, já era noite alta.

JCJoão Carlos Martins

Amanhã eu tenho que trabalhar às 8 horas, a granja é longe, o trânsito é demorado.

?Voz E

Ele tinha combinado com os PMs para render ele quando ele desse um sinal. O secretário olhou para um lado, para o outro. Nenhum trator por ali. Ele ainda não tinha jantado. Então, por que não?

JCJoão Carlos Martins

Eu fui comer pizza lá no Bexiga. Comi uma pizza para celebrar.

?Voz E

Umas fatias de pizza no fim de um dia difícil. Quando já tá tudo certo, tudo apaziguado. Só que foi só o Maestro sair com o carro dele em direção à pizzaria no Bixiga que a viatura da polícia partiu também. De repente, os holofotes se apagaram e o casarão ficou totalmente às escuras, desguarnecido. Minutos depois, as máquinas despontaram na Paulista. Eram eles, os tratores. Duas retroescavadeiras, na verdade. Lá na pizzaria, o secretário abocanhava um pedaço de pizza.

Ele não lembra o que era a pizza que ele comeu naquela noite, mas hoje o sabor preferido dele é a margherita. As retroescavadeiras agora estavam paradas na frente do casarão, com o motor ligado. Eu não consigo não me colocar naquela cena e ficar imaginando o secretário satisfeito indo celebrar o final feliz da vigília tranquilo, porque combinou com os PMs que eles iam ficar por ali. Mas logo na esquina, esperando, quase dando um tchauzinho com o braço mecânico, as retroescavadeiras.

No começo da madrugada, elas deram o primeiro golpe nas arcadas, que logo viraram buracos. A ordem, aliás, era demolir o máximo possível, como disse um funcionário da empresa. Acompanhando tudo ali na frente, dentro de um corcel, tavam dois integrantes da família da Josefina Latife, a dona do casarão. Eles ficaram alguns minutos, só pra supervisionar. Em pouco tempo, a casa tava toda esburacada. O dono da empresa demolidora tava por ali e disse que ia receber o triplo pra fazer a demolição de madrugada.

Só quem não tava mais ali eram os policiais e o secretário, que àquela altura já devia estar a caminho da Granja Viana com a barriga cheia de pizza. Eu não consigo tirar essa ideia da cabeça de que um descuido, uma falha de vigilância, uma pizza derrubou um casarão. E um casarão que seria o mais bonito da Paulista ainda por cima. Eu já acordei no meio da noite e não dormi mais, por muito menos. Bom, mas graças a Deus essa história não é sobre mim.

Então eu perguntei pro secretário, pro maestro, Como ele se sentia com isso. Na época, ele tinha ficado revoltado.

JCJoão Carlos Martins

A revolta causou de ver que nem sempre os ideais alcançam os seus objetivos.

?Voz E

Pros jornalistas, no dia seguinte, ele disse que estava muito decepcionado e descontente com a atuação da polícia. Aliás, essa é uma pergunta que fica: Por que que os policiais saíram da frente da casa justo na hora em que não tinha mais ninguém ali? Quando eu perguntei, o João Carlos Martins concordou e disse que sim, o apoio policial poderia ter sido mais efetivo. Mas ele não deu nenhuma amostra daquela revolta toda, nem de decepção.

Parece que ele não remói essa história. Eu tava tateando com ele, então eu tentei de novo. Ou eu contando agora retorna um pouco dessa sensação, O senhor qualificou aquela demolição como vandalismo.

JCJoão Carlos Martins

Neste evento foi uma semana de derrotas e vitórias. Perdi algumas batalhas e ganhei algumas guerras. Então eu diria que eu tive momentos de raiva e momentos de euforia. E isso faz parte do ser humano.

?Voz E

É, ele não fica remoendo mesmo.

JCJoão Carlos Martins

Uma sensação de missão cumprida. E foi no dia seguinte, eu vejo que a missão não tinha sido cumprida.

?Voz E

Ok, uma missão não cumprida. Não é um grande trauma pra ele. Ele diz que fez o que pôde, não sente que tá carregando a culpa de nada. Ele não quis mais saber de serviço público depois dessa experiência na Secretaria de Cultura, tá certo. Mas não é que ele perdeu o sono por causa daquela noite na Paulista. Na verdade, eu só achava que eu me identificava com ele nessa história toda. Eu tava projetando. Porque se fosse comigo, eu não ia saber lidar com isso.

Acho que eu não ia mais conseguir pisar na avenida, ia querer mudar de cidade, de país, apagar memórias, sei lá. Pizza então? Nunca mais. Bom, agora pelo menos eu tinha ouvido de alguém que acompanhou de perto aqueles dias. O que realmente aconteceu com os casarões na Paulista. Não é que eles foram derrubados todos numa só madrugada. Mas aquela lenda tem um fundo de verdade, sim. Lembra do estudo sobre os casarões pra definir quais iam ser preservados?

Esse estudo nunca terminou. No dia em que ia sair o resultado, 3 dias depois da noite da pizza e de todo o barulho na imprensa, o secretário anunciou que, na verdade, O que ele ia fazer era uma reforma em toda a Lei do Tombamento, uma mudança mais ampla e que fosse, abre aspas, justa tanto para a comunidade quanto para os proprietários dos imóveis, fecha aspas, como ele disse para a Folha de São Paulo. E essa reforma até saiu.

Anos depois, a lei passou a permitir que os proprietários vendessem parte do terreno para ser construído algum empreendimento moderno. Foi o que aconteceu com a Casa das Rosas, um daqueles 31 casarões e que hoje é um centro cultural dedicado à poesia e que tem um prédio de 20 andares nos fundos construído usando essa lei. Mas a maior parte daquelas casas não se beneficiou da nova legislação. O plano de tombar os casarões da Paulista foi abandonado, a cobertura na imprensa minguou e um a um eles foram sendo demolidos.

Não foi tudo numa noite, mas foi tudo caindo aos poucos. Hoje só sobraram 4 daquelas casas. Já o João Carlos Martins, 6 meses depois da corrida pela preservação e das vigílias, 6 meses depois da pizza e daquela agitação toda, ele decidiu voltar pra música. Essa era a mesma praia dele e é onde ele entende que vai deixar um legado.

JCJoão Carlos Martins

E esse legado é na música.

?Voz E

E nessa história de descuidos e afobações, de culpa e de erros, e de diferentes formas de reagir aos erros, Ele falou de um que ele considera enorme.

JCJoão Carlos Martins

Voltaram a me convidar para algum tipo de cargo, eu falei, olha, nem como secretário, nem como diretor, nem como nada, porque misturar arte com política é um erro enorme.

?Voz A

Essa história foi produzida pelo Vitor Hugo Brandalize. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo no ar. E pra quem é membro do Clube da Novelo, além dos episódios do mês, tem vários episódios bônus exclusivos. Você também consegue ouvir o Rádio Novela Apresenta um dia antes e sem anúncio. Pra se juntar ao clube, tem todas as informações no nosso site. A gente já volta. No post desse episódio no nosso site dá para ver várias imagens do documentário Os Arcos Dourados de Olinda e também tem links para as matérias da época da derrubada dos casarões da Paulista.

Se você nunca parou para dar uma olhada no nosso canal no YouTube, Fica a dica! Além de todos os episódios do Rádio Novelo Apresenta, a gente publica lá várias playlists de histórias avulsas. Vale a pena ouvir de novo e vale mandar para aquele amigo que ainda não conhece o podcast. Tem ainda a aba Comunidade, onde a gente coloca fotos relacionadas às histórias. Para quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok.

Pra quem é de email, dá pra mandar críticas, elogios e sugestões de pauta pro email apresenta@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou um cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo pra criar o seu próprio podcast ou pra anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever pra gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devaux.

A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jäger. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes. A Maíra Valejo é a nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farrá. Esse episódio teve desenho de som da Bia Guimarães, que também assina a mixagem com a Mariana Leão.

O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nesse episódio a gente usou música original de Arthur Kunz e também da Blue Dot. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.

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