Os narradores
Pais, filhos, e copas.
No primeiro ato: dois narradores se encontram no jogo. Por Lilian Sais.
No segundo ato: quem se prepara pra derrota? Por Maíra Vallejo.
Membros do Clube da Novelo podem ouvir os episódios do Rádio Novelo Apresenta antecipadamente, além de ter acesso a uma newsletter especial e a eventos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo. Assine em https://clube.radionovelo.com.br
Inscreva-se no canal da Rádio Novelo no YouTube: https://www.youtube.com/@RádioNovelo
Siga a Rádio Novelo no Instagram: https://www.instagram.com/radionovelo
Esqueça o cartão de crédito: com a Wise, você paga em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial — a mesma que você vê no Google. Converta e mantenha seu dinheiro na moeda de destino e pague sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você ainda pode sacar em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos. Quem sabe vai de Wise. Baixe o app hoje.
Palavras-chave: Futebol; Copa do Mundo; Luto; Maracanaço, Narrador; Anne Carson, Narração; Esporte; Olimpíada; Copa do Mundo; Derrota
Branca Viana
Flora Thompson Devaux
Lilian Sais
Luiz Carlos Júnior
Maíra Vallejo
Marcelo Barreto
- Futebol e IdentidadeA busca pela vitória a qualquer custo · A dificuldade em aceitar a derrota no futebol · O papel do torcedor e do narrador · A marca das derrotas em Copas do Mundo · A carta para o filho após a derrota
- Futebol e Relações PessoaisO desejo de jogar futebol com o pai · A descoberta da vocação como narradora · O câncer de laringe e a perda da voz · A relação com o pai através do futebol · Maracanazo
- Mudança de resultado esportivoExpectativa de vitória do brasileiro · Narradores como roteiristas · A virada de chave na narração · O ajuste de expectativa · O papel do narrador em momentos de derrota
- A Arte da TanoariaGeraldo José de Almeida e a farsa do 8 a 1 · Guerra dos Mundos e Orson Welles · Anne Carson · Aristóteles e a voz feminina
- Momentos de decisão como pontos de inflexãoFórmula 1: Rubinho e Schumacher em 2002 · Vôlei feminino: Olimpíadas de Atenas 2004 · A virada de expectativa na transmissão · A importância do equilíbrio emocional
Rádio Novelo. Tá começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Eu não sei se você já ouviu a história do 8 a 1. Não a do 7 a 1, Brasil e Alemanha. A do 8 a 1 mesmo. Foi em 1951. Os times do São Paulo e do Bangu estavam fazendo uma excursão pela Europa, jogando amistosos com vários clubes por lá. Os clubes brasileiros estavam se intercalando nas partidas e eles estavam indo bem. Ou seja, a gente estava fazendo bonito enquanto nação.
E aí chegou o dia em que o São Paulo enfrentou o Milan. Ainda não tinha transmissão pela TV, né? Então, os são-paulinos que não tinham conseguido viajar para acompanhar o clube, que devia ser rigorosamente todo mundo, eles sintonizaram na Rádio Pan-Americana. Desde o comecinho do jogo, dava para perceber que o locutor, o Geraldo José de Almeida, estava indignado. Porque, talvez para compensar a trajetória vitoriosa da dupla São Paulo-Bangu, parece que o juiz estava roubando descaradamente para os italianos.
O placar ficou feio para o lado paulista. Tem quem lembra que o saldo final foi 8 a 1, mas também tem outras fontes que falam em 4 a 0. Talvez fosse um 4 a 0 com gosto de 8 a 1. Dizem que os italianos do Bixiga saíram comemorando na rua e que alguns são-paulinos passaram mal, inclusive o irmão do locutor. Outro comentarista chegou a pedir uma intervenção das autoridades para impedir o São Paulo de fazer o Brasil passar tanta vergonha no exterior.
E aí, no dia seguinte, teve uma reviravolta. E não, os gols do Milan não foram anulados. Nem é que o jogo em si foi anulado. O que aconteceu foi que aquele jogo simplesmente não existiu. As pessoas não tinham se dado conta de que a transmissão aconteceu no dia 1º de abril. A rádio confessou a brincadeira no dia seguinte. E pelo que a gente entendeu aqui dos registros, parece que o pessoal ficou mais chateado do que aliviado. Teve quem comparasse a transmissão do jogo fake com a Guerra dos Mundos, do Orson Welles, de quando ele narrou uma invasão alienígena na rádio e assustou bastante gente no processo.
A gente até teve um episódio aqui já sobre isso, ele tá linkado no nosso site. E faz sentido essa comparação, né? Pra um país que respira futebol, talvez o mais próximo do fim do mundo seja mesmo uma derrota dolorida no futebol. No episódio dessa semana, os protagonistas das duas histórias são pessoas como Geraldo José, narradores que transformam a história que eles contam. Tem tragédia grega, tem superstição e sim, tem um pouco de futebol. Quem vai contar a primeira história é a Lilian Sais. A gente volta já já.
Esse podcast é um oferecimento da Wise, o jeito certo de pagar no mundo todo. Quando você viaja para o exterior, ou tá se preparando para uma viagem inesquecível, sempre chega aquele momento: a hora de converter os gastos para moeda local. E sabe qual é o erro mais comum? Viajar pagando com cartão de crédito. Na hora pode não parecer nada, mas o custo da conversão pode assustar quando a fatura chegar. A solução? Viajar com o cartão da Wise.
Com ele você pode pagar em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial. A mesma que você vê no Google. Você pode converter e manter o dinheiro na conta já na moeda que vai usar no destino. Depois é só pagar sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você também pode sacar dinheiro em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos no mundo todo. Faça parte das mais de 15 milhões de pessoas que pagam globalmente do jeito certo. Quem sabe vai de Wise? Baixe o app da Wise hoje. Termos e condições se aplicam.
A história que eu vou contar hoje termina em setembro de 2022, quando o juiz apitou o fim do último amistoso da Seleção Brasileira Masculina de Futebol antes da Copa do Catar.
Marquinhos tá a fim de um quinto gol para dar uma animada. Aí Neymar para Vinícius Júnior, tocou para o meio para receber de novo, tentou a tabela. Olha o gol! Gol! É do Brasil!
Brasil 5, Tunísia 1. Quando eu digo que o jogo foi 5 a 1, você pode achar que foi um jogaço do Brasil. Mas o placar final de uma partida diz pouco sobre como ela foi. Muita coisa acontece no gramado ao longo de 2 tempos de 45 minutos, mais acréscimos. Apesar dos 4 gols a mais, o amistoso foi morno. E eu provavelmente nem me lembraria de ter assistido a ele. Não fosse por um detalhe muito significativo. Eu assisti esse jogo na companhia do meu pai, o Roberto.
E essa foi a última vez que a gente se viu. Quando eu tinha uns 7 anos de idade, lembro de um homem perguntar pro meu pai: Você não quer ter mais um filho, um homem que jogue bola com você? A gente tava num daqueles campos de futebol de bairro que só tinha um bar na frente. Eu tava brincando com a minha irmã, correndo entre as mesas de plástico do bar, algumas vermelhas, outras brancas, quando eu ouvi essa pergunta. Lembro do meu pai responder que não, que já tinha tentado duas vezes e não tinha vindo, que agora era se contentar comigo e com a minha irmã, que ele chamou de princesas.
Eu passei muito tempo tentando entender o que significava ser uma das princesas do meu pai. E por que isso queria dizer que eu não podia jogar futebol com ele? Essa história poderia tomar um rumo muito diferente se eu tivesse começado a fazer embaixadinhas e descoberto uma habilidade singular pro domínio da bola. Isso até aconteceu várias vezes, mas só na minha imaginação. A verdade é que eu nunca fui boa com esportes coletivos que envolviam bola.
Apesar de ter bons amigos no colégio, eu sempre passava por aquela temida humilhação infantil de ser a última a ser escolhida para um time nas aulas de educação física. Nessa época, minha casa tinha regras muito claras. Uma delas era que minha mãe ligava o rádio para ouvir música quando ela se levantava às 8 da manhã, e ela só desligava nas horas em que ela queria assistir algum telejornal ou as novelas que passavam na TV. Futebol só tinha chance quando era jogo da seleção, em especial jogo de Copa.
Isso quer dizer que em quase todas as outras situações, os jogos eram assistidos no quartinho dos fundos da casa, numa daquelas TVs bem antigas que a gente tinha que ligar uns minutinhos antes pra esquentar. Era ali, na frente daquela tela que ia ganhando cor aos poucos, que eu tentava conquistar a atenção e o carinho do meu pai. E eu percebi logo que, mesmo sendo meio perna de pau, eu tinha muita facilidade em intuir qual seria o passe mais acertado.
Entender quais eram as regras do jogo, prever qual seria o clima da partida, até de adivinhar o placar. E o meu pai se animava com os meus comentários. Aos 8 anos, eu já tinha desejado ser astronauta, porque vi uma foto e achei a roupa que eles usavam divertida, e ciclista, porque eu era boa em pedalar e adorava sentir o vento batendo no meu rosto. Mas foi perto da Copa de 94 que eu descobri o que eu achava que era uma vocação.
Uma coisa que eu realmente gostaria de ser quando eu crescesse. Eu decidi que eu ia ser narradora de futebol. Só tinha um problema: eu nunca tinha ouvido uma mulher narrar um jogo de futebol. Em grande medida, julgamos as pessoas pelos sons que elas produzem. Não fui eu quem falou isso pela primeira vez. Quem escreveu essa frase foi a Anne Carson, uma estudiosa de grego clássico, uma helenista, num ensaio chamado O Gênero do Som.
Ela diz que, a partir do som que nosso corpo propaga, a gente pode ser considerado uma pessoa louca ou equilibrada, boa ou má, confiável ou depressiva, bom partido, enfim. Ela diz assim: esses julgamentos são feitos rapidamente e podem ser brutais. A Carson dá um exemplo que eu adoro, que é o que tá escrito em um dos inúmeros tratados do Aristóteles. Pra ele, abre aspas: o tom agudo da voz das mulheres é uma prova da sua disposição demoníaca, pois os seres que são corajosos ou justos, como leões, búfalos, galos e machos humanos, têm a voz bastante grave.
Isso foi no século 4 antes de Cristo. Corta pro século 20 depois de Cristo e eu ali, sem nunca ter escutado uma voz que nem a minha como sinônimo dos corajosos e justos no futebol. Mas, mesmo assim, eu resolvi intensificar a minha rotina de telespectadora de futebol pra ver se eu ganhava confiança. A gente só tinha acesso aos canais abertos e a maior parte das vezes a antena parabólica de casa pegava só a programação do Rio de Janeiro.
A gente morava em Ubatuba, que fica em São Paulo, mas faz divisa com o estado do Rio. Meu pai era palmeirense, a minha mãe são-paulina. Desde que eu ouvi aquela conversa de que meu pai ia se contentar com as princesas dele, eu decidi que ia torcer para o São Paulo, que nem a minha mãe. Foi a forma que eu achei de afrontar a autoridade da casa, o grande conhecedor de futebol da casa. E eu confesso que tava meio fácil sustentar essa escolha naquele momento.
O técnico do São Paulo era o Telê Santana e o time tava em grande fase. Então eu ficava lá, são-paulina de raiva, assistindo a jogos como Flamengo e Bangu, Madureira e Volta Redonda, tomando nota dos nomes dos jogadores, dos dribles. Às vezes eu arriscava abaixar o volume da TV e narrar eu mesma um lance. Mas eu só tinha coragem de fazer isso quando meu pai não tava por perto. Foi nesse momento que eu fui me dando conta que o futebol é povoado por muitas vozes, por muitos sons.
Tinha o narrador, os comentaristas e os repórteres, claro, mas tinha os cantos das torcidas, os hinos dos os gritos, os xingamentos, as vaias, os aplausos. Conforme eu fui ficando mais velha e avançando nas séries da escola, eu percebi a beleza que é chamar de narrador a pessoa que conta sobre uma partida de futebol enquanto ela tá acontecendo. Não é assim em todo idioma. Outras línguas encontraram outros termos para designar quem transforma os lances do futebol em voz: locutor, comentarista, relator.
Aqui no Brasil e em boa parte da América Latina, essa pessoa é chamada de narrador, o mesmo termo que a gente usa na literatura para falar sobre aquela pessoa que vai contar uma história. Toda partida traz seus personagens, heróis, vilões, tem momentos épicos, trágicos, cômicos, tragicômicos. Os jogos de futebol que mais me marcaram funcionam como as tragédias gregas, no fim das contas. As narrativas das tragédias gregas quase sempre contam uma história que passa da boa fortuna para má fortuna por causa de um erro ou falha de alguém.
E a pessoa que comete esse erro não faz isso de propósito. Geralmente essa falha vem da nossa própria limitação humana. Agora pensa: quantos jogos de futebol não cabem nessa estrutura narrativa? E quanto do que a gente vive não cabe nisso também? O futebol nunca foi para mim sobre justiça. Talvez ele seja o esporte em que as zebras sejam mais frequentes. Um time ser superior ao outro não garante vitória alguma. O grau de imprevisibilidade de um jogo é enorme.
Tudo pode acontecer ao longo daqueles 90 minutos. A voz que me apresentou ao universo das narrativas foi a voz do meu pai. Ele era um homem de poucas palavras sobre os assuntos mais profundos da vida. Nossas conversas geralmente eram sobre o que a gente tinha comido, como tinha sido a escola, se ia chover ou fazer sol naquele dia, no máximo qual ia ser o jogo de futebol do sábado. Ele nunca quis falar sobre as emoções, os problemas, as nossas pequenas derrotas, os fracassos acumulados.
Não falava comigo sobre o amor, o sexo, a morte. Não me dava conselhos. Ele era quase semianalfabeto, estudou só por 3 ou 4 anos no antigo primário, que hoje é o Ensino Fundamental 1. Mas ele era um orador excelente, dono de uma lábia notável. O meu pai era extremamente inteligente, sempre se destacou nas vendas. Ele trabalhou a vida inteira assim, primeiro em multinacionais, como vendedor que viajava para tirar os pedidos dos supermercados dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Ele vendeu um pouco de tudo: molho de tomate, isopor, sabonete, sardinha em lata. Daí ele fez minha mãe tirar o CRESCE, que é um tipo de registro para poder trabalhar com aluguéis e vendas de casas, e passou a trabalhar como corretor de imóveis, vendendo casas de alto padrão. Depois que eu nasci, essas grandes vendas que ele fazia na juventude ficaram no passado. Mas tinha momentos em que ele se transformava em personagem e narrava os grandes feitos comerciais dele.
E nessas horas, ele era mesmo um contador de histórias incrível. Ele sabia criar expectativa, adicionava pitadas de humor, apresentava reviravoltas inesperadas, sabia retardar o clímax da história ao máximo. Talvez por isso, minhas fabulações dentro da minha cabeça sempre vinham embaladas pela voz do meu pai. Foi ouvindo ele contar essas histórias que eu tomei gosto de vez pelas narrativas. E foi pelo desejo de me tornar uma narradora também que a nossa relação foi se estreitando, através das partidas de futebol que assistíamos juntos.
Um dos raros momentos em que, com os olhos na TV, ele deixava escapar um conselho ou outro sobre a vida. Eu devia ter uns 12 anos quando me desentendi com uma das minhas melhores amigas na escola. Eu passei a semana muito triste. O meu pai não tocou no assunto. Quando fomos ver um jogo juntos, logo no começo ele disse: jogador de futebol tem que jogar de cabeça erguida, olhar para frente, não para bola. A bola, sinceramente, ele tem que saber onde tá.
Eu fiquei intrigada. Eu tava há dias andando pra lá e pra cá de cabeça baixa. Será que aquele comentário sobre o jogo era um conselho pra mim? Eu passei a prestar mais atenção em várias outras frases que ele dizia nos nossos rituais envolvendo futebol. Tipo: o que importa no esporte não são as regras, mas sim o espírito das regras. Não dá pra confiar em goleiro que tenta adivinhar o canto pro qual o batedor do pênalti vai chutar.
Essas, como tantas outras frases que ele costumava dizer enquanto a gente assistia aos jogos, passaram a soar pra mim como conselhos cifrados. Era como se, quando ele falava do jogo, ele estivesse me dando algum ensinamento sobre como eu devia agir. Acontece que chegou um momento em que ele parou de contar história, de dar conselho. Ele perdeu justamente aquilo que sustentava tudo. A própria voz. Em 2013, meu pai descobriu um câncer de laringe e teve que ser submetido a uma cirurgia muito agressiva.
Ele perdeu boa parte das cordas vocais. Ele também teve que fazer traqueostomia e ficar com sondas para se alimentar por meses. Eu fui a enfermeira dele nesse período. Ele teve que se mudar de Ubatuba para São Paulo por causa do tratamento. E mesmo com toda dificuldade para falar, ele conseguiu, aos poucos, ir fazendo amigos na cidade nova. Tem um episódio dessa época que eu nunca me esqueço. Quando os meses se passaram e ele retirou a traqueostomia e as sondas, a gente foi caminhando até a farmácia mais próxima para comprar alguns remédios para ele.
A gente tava parado na faixa de pedestre e meu pai disse alguma coisa para duas moças que estavam na nossa frente, alguma brincadeira sobre um carro que passou. As duas se viraram para trás, olharam para ele fazendo uma careta. Uma delas disse, não dá pra entender o que você fala. E o sinal abriu. Elas seguiram em frente. Eu olhei pro meu pai e ele tava com o rosto todo contraído. Mas quando ele percebeu que eu tava olhando pra ele, ele abriu um sorriso.
Eu nunca vi meu pai chorar. Da primeira vez que meu pai saiu pra passear no bairro depois desse episódio, eu também tava com ele. Ele parou em frente a uma borracharia e puxou papo. Os 3 homens que estavam trabalhando ali olharam pra ele meio assustados, estranhando a voz dele, e perguntaram: Quem é você? Ele respondeu: Podem me chamar de Tio Patinhas. Nós todos caímos na gargalhada. Em poucos meses, toda a vizinhança do bairro gostava das visitas que meu pai fazia aos comércios no meio da tarde.
Todo mundo ria das piadas dele e tinha algum grau de respeito e admiração por ele. Mas as coisas não eram tão simples. Mesmo com as sessões com a fonoaudióloga, nunca mais foi fácil entender realmente tudo o que meu pai falava. Eu fui pegando o jeito e entendi o que ele dizia até por telefone, mas eu notava que era um esforço enorme para ele articular as palavras. Percebia principalmente o quanto ele tava cansado. Até que as saídas do meu pai foram se tornando mais raras.
Os telefonemas que ele fazia para mim também foram se espaçando. No dia 27 de setembro de 2022, eu liguei para o meu pai e perguntei se podia ir para casa dele. Eu não sabia porque nem tava acompanhando muito os jogos na época, Mas era justamente o dia do tal último amistoso da seleção brasileira masculina de futebol antes da Copa do Catar. Quando eu cheguei lá, eu notei que meu pai tava intrigado. Acho que ele tava meio curioso pra saber se eu tinha ido até lá pra ver um jogo de futebol de novo, como a gente costumava fazer.
Mas ele não me perguntou isso diretamente, claro, porque o meu pai nunca dizia nada diretamente sobre a vida e sobre as intenções. Nem as minhas, nem as dele. Como eu não recebi uma pergunta direta, eu também não disse nada. Fiquei olhando para TV tentando adivinhar contra quem o Brasil ia jogar. Ele disse que o jogo era contra a Tunísia, como se ele soubesse exatamente o que eu tava pensando. Nesse dia eu achei ele ainda mais abatido do que quando eu tinha ido visitar ele da última vez, no mês anterior.
Eu tava preocupada preocupada com a sensação de que ele tava me escondendo alguma coisa. Pensei em perguntar diretamente, de um jeito meu, mas me faltava coragem. Não sei se meu medo era ferir a autoridade do meu pai ou descobrir o que parecia impossível de esconder, que tinha alguma coisa acontecendo com ele e não era boa. Eu, que luto há anos contra depressão, pensei que talvez meu pai pudesse estar deprimido também. Era uma suspeita que eu tinha fazia uns anos, um assunto que eu tangenciava com ele, mas do qual ele sempre desviava.
Mas enquanto eu fazia esse cálculo mental, ele se sentou do meu lado e aumentou o volume da TV. Não tinha mais chance de qualquer conversa entre nós. E pela primeira vez na vida, a gente assistiu a um jogo de futebol inteiro em completo silêncio. Sem eu comentar os lances, sem ele me deixar com um pequeno conselho. Eu não me tornei narradora de futebol, mas eu me tornei helenista e escritora. Eu também acabei virando uma narradora de histórias em que de alguma forma eu sou personagem, exatamente como meu pai fazia quando ele falava das aventuras dele no trabalho.
Eu falo sempre sobre o passado, que nem ele, mas ao contrário dele, eu me interesso mais pelas miudezas e pelos pequenos fracassos do que pelos grandes feitos e pelas vitórias. Eu me interesso pelas derrotas porque eu nasci num 16 de julho, data em que 35 anos antes acontecia o Maracanaço. O Brasil perdia a Copa do Mundo de 1950 em casa para o Uruguai, diante de um público que beirava as 200 mil pessoas que saíram do Maracanã em silêncio.
Quando eu peguei o atestado de óbito do meu pai e vi a causa da morte, infarto, eu pensei muito sobre o quanto isso não diz nada sobre a história dessa vida. E mais ainda, como essa causa mortis diz pouco até mesmo sobre a história dessa morte. Eu não imaginava que eu ia acabar narrando na minha própria voz tudo que eu pude narrar sobre ele. Mas foi isso que eu fiz. Eu escrevi 4 livros dedicados ao meu pai, que eu chamo de Tetralogia da Perda.
E essa sequência de livros termina revisitando aquele último jogo que eu e meu pai assistimos juntos: Brasil 5, Tunísia 1. O jogo que nos conectou pela última vez através do futebol. O único jogo que a gente viu no mais completo silêncio. Hoje eu percebo que eu e meu pai jogamos a vida toda um jogo de silêncio e admiração. O placar final não importa. A partida é sempre muito maior que o resultado. Pode perguntar pra qualquer narradora.
Essa foi a Lilian Sais. Essa história foi produzida pela Carolina Moraes. Os ouvintes do Rádio Novelo Apresenta têm 15% de desconto nos dois livros da Lilian publicados pela editora DBA e frete grátis também. Valendo até dezembro de 2026. É só colocar o cupom LILIANSAIS15 na página da editora. Os detalhes estão certinhos na página do episódio no nosso site. A gente volta daqui a pouco.
Olá, ouvintes do Rádio Novela Apresenta! Eu sou a Dandara Fonseca, do The Summer Hunter, e tô passando aqui para convidar vocês para ouvirem e assistir o nosso videocast, o Desenrola. A gente sabe que vocês curtem personagens interessantes e assuntos que rendem um bom debate, como os que aparecem aqui no Rádio Novelo Apresenta. Por isso, vale a pena dar um play no Desenrola. Por lá, segunda sim, segunda não, a gente recebe convidados especiais para conversar sobre os prazeres e os dilemas da vida adulta, sempre por um prisma solar.
Já falamos sobre temas como a delícia de se dar conta da própria significância, o lado bom e o ruim de ficar sozinho, como manter hábitos saudáveis mesmo em meio à exaustão e o que muda quando a gente sabe que a morte tá próxima. Depois que terminar de ouvir o Rádio Novelo Apresenta, passa lá no Desenrola. São mais de 100 episódios esperando por você.
No segundo ato do programa, a gente mergulha mais ainda na arte delicada e e às vezes arriscada da narração. Quem narra a próxima história, aliás, vai ser a Maíra Valejo.
Olha, eu preciso começar falando que tinha gente aqui na Novelo meio com o pé atrás sobre essa pauta. Sei lá, será que a gente faz mesmo? Não é meio arriscado? Eu entendo, eu não sou das mais supersticiosas, mas eu entendo o medo do azar. Só que a pessoa que eu entrevistei para essa pauta é do contra.
Eu tenho transtorno obsessivo compulsivo, então eu já tenho a minha cota de manias na vida. Eu não quero que o futebol faça parte delas.
Se você acompanha o noticiário de esporte, talvez você esteja reconhecendo a sua voz.
Eu sou Marcelo Barreto, jornalista, apresentador do Redação Esporte TV e do Hello LA. Sou também colunista de domingo do Jornal O Globo.
O Marcelo tá na cobertura de esportes desde o começo dos anos 90. E nesse tempo ele já viu muita coisa. Mas camisa da sorte, ritual em dia de jogo pra garantir a vitória, isso não é com ele.
Eu tenho uma tradição em Copa do Mundo que é quebrar a corrente. Ah, vamos ver o jogo aqui na redação. Aquela quantidade de gente. Ah, você tem que sentar aqui porque você tava aqui no outro jogo. Porque se mudar a ordem, eu falava assim: gente, vamos fazer o seguinte. No segundo jogo muda a ordem? Porque se o Brasil perder o segundo jogo, dá pra recuperar no terceiro. Então vamos quebrar logo no segundo, que aí a gente já se livra disso.
Em 2022, o Marcelo entrou no mestrado. E o assunto que ele escolheu pesquisar vai nessa linha de quebrar a corrente também. E explica por que que o pessoal ficou meio tenso por aqui quando eu propus da gente falar com ele. É que ele foi estudar justamente a derrota. O título da dissertação dele é ótimo, inclusive. Brinca com aquele slogan do Esporte TV, o Somos Todos Campeões. A pesquisa do Marcelo pergunta justamente: e quando não somos?
Eu acho que o brasileiro tem uma expectativa de vitória muito grande quando a gente fala de esporte. O Brasil é um país gigante geograficamente, é um país gigante em riquezas naturais, é um país gigante em população, mas é um nanico na geopolítica mundial. A gente não tem um papel de grande representatividade e a gente quer se sentir representado, né, nesse universo global. E onde é que isso parece mais fácil de acontecer? Às vezes é na arte, às vezes é no esporte.
Então eu acho que quando a gente perde, vem aquela decepção dupla. Poxa, mas até aqui, nesse caminho que parecia o único que me ofereciam, E o Marcelo não tava só interessado na derrota pela derrota.
Cada jogo é uma história, né? E ele tava interessado em como a gente conta uma derrota.
No esporte você perde muito mais do que ganha. E a história do esporte, como a história de um modo geral, né, é contada do ponto de vista dos vencedores. E você precisa criar uma forma de explicar a derrota, de narrar a derrota.
O Marcelo quis olhar pra pessoa que tem que dar sentido praquilo tudo ao vivo.
Eu acho que quem tem mais habilidade entre nós é o narrador. Claro que cada função tem a sua dificuldade, cada um tem o seu talento, mas o narrador conta uma história sobre a qual ele não tem domínio.
Ele foi conversar com alguns narradores do canal que ele trabalha, o Esporte TV, porque ele diz que dá para pensar no narrador esportivo um pouco como um roteirista.
É um cara que tá É criando um roteiro em cima de algo que ele tá vendo e que não depende dele, e dirigindo no sentido de que é ele que escolhe o que tá sendo comunicado, né? E escolhe com as palavras dele.
Esse roteirista não controla o que acontece em campo, ou na pista, ou na piscina, enfim. Mas ele pode afetar o jeito que a gente, o público, interpreta aquilo. E o jeito que a gente absorve o resultado. O Marcelo me explicou que nenhum narrador se prepara para contar uma derrota.
Vem comigo que vai ser legal. E quando você diz isso, você voluntária ou involuntariamente está construindo uma expectativa de vitória. Ninguém entra para perder, né? Principalmente quando se trata de seleção brasileira. Você mesmo é convidado a jogar o seu jogo narrativo, sabe? Você é um daqueles torcedores que foram convidados.
É meio aquela história: se você sai de casa preparado para derrota, Ela já fica um pouco mais perto de você.
Narrador tem que manter a idade mental de 12 anos, né? Ele não pode passar daquela idade, no sentido que ele precisa se empolgar com as coisas. Os adultos vão ficando mais cínicos, mais debochados, né? Mais desiludidos. E o narrador não. O narrador precisa continuar se empolgando como uma criança de 12 anos se empolga com um evento esportivo.
Mas uma criança de 12 anos não lida tão bem com a derrota, né? Essa é a Flora Thompson Devaux, que tava me acompanhando na entrevista.
É o narrador da vitória, você tem razão.
Quantos anos tem o narrador da vitória?
Ou que te prepara para vitória. Aí ele tem que ter casca, ele realmente tem que ter, porque senão ele acaba comunicando mal. Tem estratégias que não são as melhores.
Por exemplo, a estratégia de tentar dar uma maquiada numa situação ruim. Ela é terminantemente vedada.
Não dá para dizer, olha, estamos tomando de 2 a 0, mas estamos jogando muito, né? Isso você não pode, porque aí você rompe o acordo. Você pode convidar o torcedor para jogar o jogo narrativo, você pode criar nele uma expectativa de vitória, você pode fazer uma adaptação durante o jogo, durante, né, o desenrolar dos acontecimentos, tentar explicar que as coisas não estão indo como que você e o torcedor gostariam. E você pode até fazer um registro final crítico: olha, perdemos porque fizemos coisas erradas.
Nem toda derrota acontece com motivos muito compreensíveis assim. Alguém errou, alguém fez alguma coisa que não deveria ter feito, ok. Mas durante o jogo você querer manter o cara engajado dizendo que não, gente, tá tudo bem, olha só, vamos virar, né? Isso o narrador não pode fazer, porque nessa atitude ele perde o torcedor.
Pra resumir, o narrador tem que se equilibrar numa corda bamba entre o otimismo e o realismo. De um lado, ele tá engajando o torcedor. Do outro, ele tá atento pra passar a história certa, que numa situação de derrota envolve uma virada de chave.
Aí, a partir de um determinado momento, que pode durar muito tempo ou pode ser uma fraçãozinha de segundo, ele vai perceber: eu não vou conseguir cumprir o que eu prometi. Como é que eu ajusto o meu discurso pra comunicar isso?
Esse ponto de não retorno numa transmissão era bem que interessava o Marcelo. Ele chama isso de ajuste de expectativa. A virada do vamos ganhar pro ih, não, vamos não.
Meu interesse era entender justamente como é que eles faziam essa virada.
Ele disse que começou a prestar mais atenção nos recursos narrativos deles. Em como eles se viravam nos 30 para fazer essa virada.
Eles cruzam mais uma volta e vão para a última volta. Eles vão para a última volta. Rubens Barrichello na frente e Michael Schumacher em segundo. Rubens Barrichello vai caminhando para aquela que pode ser a sua segunda vitória.
Acho que deu para perceber pelos nomes e pelo barulho de fundo que esse é um trecho de uma corrida de Fórmula 1. Quem tá narrando é o Kleber Machado. E mesmo se você for mais novo que nem eu, você deve saber quem é Rubens Barrichello. Hoje em dia ele já se aposentou, mas ele tava no auge nessa época aí. O ano era 2002. Você também deve ter ouvido falar no Schumacher, né? Ele sofreu um acidente uns anos atrás horrível, mas nessa época aí ele também tava no auge.
O Rubinho tava muito na frente, em primeiro, ia dar Brasil, e o Kleber já tinha começado a narrar a vitória.
Para deixar o domingo do dia das mães mais colorido, mais mais bonito, mais festejado, tendo essa, esse toque de vitória esportiva no domingo.
Não era só uma questão de posição. A memória da vitória já tava sendo escrita. O Kleber já tava armando o clima, falando de domingo, de Dia das Mães, animando o torcedor de casa.
Vai ter música de vitória, a Ferrari não vai atrapalhar o nosso domingo.
Essa Essa pergunta tem a ver com uma prática comum da Fórmula 1 naquela época. Tanto Rubinho quanto Schumacher representavam a mesma escuderia, a Ferrari, e existia uma praxe de algumas equipes de favorecer o piloto principal, que no caso da Ferrari era o Schumacher. Mas estava parecendo que dessa vez não ia ter isso não. E aí, bem na última curva—
Hoje não! Hoje não! Hoje sim!
Hoje sim!
É inacreditável!
Olha, é inacreditável!
O Kleber Machado, nesse caso, só teve alguns segundos para fazer a virada. Talvez por isso essa narração tenha ficado tão marcada. Não só por causa do meme, que é engraçado mesmo, Mas porque dá pra ouvir exatamente a hora que a expectativa muda. E isso acontece muito rápido. Mesmo sendo uma corrida de Fórmula 1, com todo mundo andando a muito mais de 100 km/h, a expectativa da vitória foi construída durante toda a corrida. O Rubinho ia ganhar.
Ali era o momento de encerramento. O roteiro já tava sendo fechado. E aí, o narrador teve que dar conta da reviravolta final.
Faltam 3 pontos para uma inédita final olímpica para o vôlei feminino.
Essa aí já é outra competição. Era semifinal entre Brasil e Rússia nas Olimpíadas de Atenas, em 2004. E essa voz, que para mim já surge automaticamente quando eu penso em partida de vôlei, É do Luiz Carlos Júnior. Ele é inclusive um dos narradores que o Marcelo entrevistou na pesquisa.
Estamos no 4º set, 22 a 19. Fernanda no saque. Aquele saque traiçoeiro, mas o passe veio na mão. Sokolova bloqueada. Sokolova bloqueada. Valeu, Skeymari no duplo. Faltam 2, faltam 2.
As jogadoras do Brasil estavam jogando muito bem esse último set. Elas tinham feito vários pontos de bloqueio. E a Sokolova, que é uma das principais jogadoras daquele time, ela não tava conseguindo de jeito nenhum atravessar a barreira das brasileiras.
Faltam 2, falta 1, falta 1, mais um bloqueio, é match point!
Agradecemos essa Chechenina, né?
Tá jogando mal agora no final, jogando mal. É match point Brasil! Brasil muito, muito Muito perto de uma final olímpica.
Dava para sentir o sorriso na voz da comentarista, a Dulce Thompson. Ela era ex-jogadora de vôlei da seleção também. O jogo praticamente já tinha acabado, era só colocar a bola no chão e pronto, final olímpica. Mas aí, não sei, o Brasil começou a ficar meio nervoso. Não saía do match point, mas também não ganhava o jogo.
Match point Brasil. 24-20. Tchenko no saque. Virna, Fernanda, é para Mari. Bola fora.
Calma. É, foi um pouco curto e fora da rede, né? Esse levantamento para Mari.
As meninas começaram a perder muita chance. Aí a seleção russa começou a encostar e a própria conversa na cabine vai mudando também.
Sensacional recuperação russa, inesperada e sensacional. Vamos acalmar Vamos acalmar, vamos acalmar.
Vamos voltar, voltar o equilíbrio emocional.
Perdemos um pouco.
Já não era uma questão técnica de bloqueio e saque, era o equilíbrio emocional mesmo. A derrota ainda nem tinha acontecido, mas eles já estavam procurando uma explicação para ela. Até uma hora que a Rússia chegou mesmo.
Set point para a Rússia. Haja coração! Que jogo de vôlei, que jogo sensacional! Fernanda levanta, bola rápida de meio, Valesquinha não definiu, é set point russa. A Rússia erra, não erra não, houve um desvio no bloqueio. Sokolova fecha o 4º set.
O final desse jogo talvez você já conheça. A gente foi para o 5º set e acabou perdendo por 16 a 14. Eu não encontrei vídeo da narração do tiebreak em português. Mas nem precisava, a virada já tinha acontecido. Dá pra sentir a voz do Luiz Carlos Júnior abandonando aos poucos a narrativa de classificação. Primeiro vem o faltam 2, depois o falta 1, mas o Brasil começa a perder tanta chance que vem o vamos acalmar. E aí, de repente, quem fecha com set point é a Rússia.
Nos comentários do resumo do jogo no YouTube, Tem gente falando que até o 7x1 essa tinha sido a derrota mais atordoante do Brasil. Puxado. Mas a seleção de vôlei feminino se recuperou. Ganhou ouro logo nos jogos seguintes, em 2008 e em 2012 contra os Estados Unidos.
Se você investiga as primeiras competições que têm registro na história da humanidade, que são os Jogos Olímpicos, da antiguidade, na Grécia, tinha ali um ideal de vitória que era mais assim você mostrar o seu valor.
Era uma ideia diferente, não era só para exaltar os vencedores ou massacrar os rivais.
Tem um negócio da coroa de louros e tal, mas os caras quando voltavam para casa ganhavam dinheiro, davam terreno, davam boi. Então ganhar era legal, financeiramente dava uma, dava também uma boa estrutura para o cara, mas tinha uma visão diferente. Não era da vitória a qualquer custo.
O atleta até competia, mas a busca pela vitória não era baseada na derrota do adversário. Tinha muito mais a ver com a superação dos seus próprios limites. Só que aí, lá pro fim do século 19, a coisa começou a mudar. O esporte cresceu, os jornais cresceram. Tinha cada vez mais jeitos de mais gente acompanhar e torcer. De se sentir parte de uma vitória ou de uma derrota.
E aí o esporte meramente participativo, a frase bonita que o Barão de Coubertin roubou de um pastor inglês, né, o importante não é vencer, o importante é competir, isso aí foi ficando para trás porque o esporte se transforma num negócio multimilionário, né, e ganhar ou perder passa a ter consequências muito maiores do que a própria honra.
Na dissertação dele, o Marcelo fala que a gente consegue entender melhor uma derrota olímpica do que uma derrota no futebol.
Olha, mas o Brasil ainda tá se desenvolvendo nesse esporte aqui, a gente não tem a estrutura, o país que ganhou tem muito mais tradição. Ok, dá para aceitar essas explicações, mas no futebol, por mais que o momento não seja favorável, a gente vê o Brasil como favorito. Os narradores sentem isso, eles mesmos têm dificuldade de se desconectar do papel de torcedor quando é futebol. Então, uma derrota no futebol, ela sempre vem carregada de alguma indignação, de alguma revolta, de— E tem que tomar cuidado para não procurar o culpado, para não perguntar por que o Brasil perdeu e apontar para alguém como resposta.
Eu lembro do meu primeiro culpado. Foi na Copa de 2010, na África do Sul. O Brasil estava nas quartas de final com a Holanda. Eu tinha 7 anos, não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Mas, na minha cabeça, a expulsão do Felipe Melo tinha acabado com o Hexa do Brasil. Agora, mais velha, eu também nem sei se era um sentimento genuíno meu ou se ele ficou em mim porque o meu irmão tava gritando sobre a expulsão na sala. Mas toda Copa parece que alguém fica marcado.
O Zico perdeu um pênalti em 86. Por mais que o jogo depois tenha ido para a disputa de pênaltis e o Zico tenha feito o pênalti dele, você isola aquele momento e diz, foi ali que tudo deu errado. O Ronaldo joga a final de 98, o jogo foi 3 a 0, Ronaldo não é culpado dos 3 gols, mas você tem um evento: ah, o Ronaldo não deveria ter jogado. O Roberto Carlos ajeitou o meião ou não ajeitou na Copa de 2006, né? Você aponta para um episódio e diz: foi ali que tudo deu errado.
Já tem um tempo que as coisas têm dado errado para gente em Copas do Mundo. Mesmo assim, de 4 em 4 anos, a gente tá aí. Eu nasci em 2002, quer dizer, eu sou da turma do pós-Penta. Da turma que nunca viu o Brasil ganhar uma Copa. Eu tinha 11 anos quando a Copa foi aqui no Brasil. E foi basicamente a minha primeira, porque eu não lembro da Copa de 2006, eu não entendi direito a de 2010, mas na de 2014 eu tava preparada. Eu tinha comprado camisa, tinta verde e amarela pra passar na cara, corneta de tudo quanto é tamanho e cor.
E na minha cabeça, o Hexa era nosso. Foi traumático. Foi traumático pra todo mundo.
A gente tinha uma salinha onde a equipe se reunia pra ver o jogo. Quando a Alemanha fez 2 a 0, eu saí pra dar uma voltinha. Falei, bom, acabou o jogo, não tem mais, eu não quero ficar vendo isso, eu vou espairecer.
O Marcelo tava acompanhando o jogo do estúdio que a Globo montou na Ilha Fiscal, aqui no Rio.
E aí ele é fiscal, ela é uma rua, imagina assim, um quarteirão. E aí eu fui até a ponta. Quando eu cheguei na ponta, tinha uma guarita e eu ouvi o Galvão Bueno gritando gol. E quando eu voltei, o Galvão Bueno tava gritando gol de novo na televisão da nossa sala. E era aquele gol da Alemanha que também ficou famoso, né?
E lá vem eles de novo, olha só que absurdo, a chance de mais um gol! Gol da Alemanha!
Quando eu entrei na sala, tava 5 a 0. E aí a minha preocupação foi ligar pra casa de um amigo meu, onde meu filho tava vendo o jogo. E aí eu perguntei, como é que tá aí? Não, os dois já estão numa salinha aqui do lado brincando, já largaram o jogo.
O Pedro, filho do Marcelo, tinha só 7 anos. E diferente de mim, que tava aos prantos no quinto gol, Ele não ligou muito. Na Copa seguinte, em 2018, o Pedro é que tava com 11 anos. A gente nem se conhece, mas pelo que eu ouvi do Marcelo, aquela que foi a primeira Copa de verdade dele. Ele tava engajado, com fé no título. Só que aí o Brasil também perdeu. Foi um jogo mais justo, pra Bélgica, por 2 a 1. Uma derrota bem mais tranquila.
Mas nenhuma derrota desce fácil, né? A reação dele foi bem parecida com a minha lá em 2014. Ele chorou e disse que não queria mais saber de nada, nem da Copa, nem da viagem em família que ia rolar naquele ano. E o Marcelo, que tava bem longe, na Rússia, trabalhando na cobertura da Copa, teve que dar um jeito. Ele resolveu escrever uma carta, uma carta que dá pra dizer que é quase a semente da pesquisa que ele ia começar anos depois.
Moscou, 6 de julho de 2018. Pedro, filhinho, esta era a carta que eu não queria te escrever.
Não dava para mudar o resultado, claro, nem mentir para o torcedor, mas ele podia tentar dar outra moldura para aquilo, tentar narrar aquele final de um jeito que desse sentido para derrota.
O Brasil não jogou tão bem, mas não é hora de eleger culpados. Isso nunca ajudou. Seleção é continuidade. Mesmo quem não foi bem aqui na Rússia vai ter de ajudar no trabalho para a próxima Copa. E não vamos parar de torcer, filho. Sempre temos uma razão para renovar as esperanças. Hoje estou muito mais triste por você do que por mim, mas como seu pai, tenho de ser o maduro aqui. Preciso terminar como fiz em outras cartas. Vamos torcer!
O futebol é maravilhoso, filho. Parece mentira agora, mas pode acreditar em mim.
Você ia gravar aqui? Acho que tá indo. Bom, a gente não sabia direito quando essa história ia ao ar, como é que o Brasil ia estar quando ela fosse ao ar. E no final eu acabei tendo que ligar de volta para o Marcelo. Mais uma vez não deu, né? Na segunda-feira, menos de 24 horas depois da derrota para Noruega. Eu já tava assim imaginando a gente marcando esse encontro para falar de vitória, entendeu? Mas eu queria saber como é que você assistiu a narração de ontem.
Olha, eu tava ontem acreditando na vitória do Brasil. A Noruega não me pareceu um time tão forte. A gente se queixa tanto de que o Brasil nesse momento não tem jogadores fora de série. A Noruega tinha o Haaland como fora de série, mas não tinha um time todo nesse nível. Então, pra mim, foi uma vitória— foi uma derrota decepcionante. Aí, ó, tava até condicionado a falar vitória.
A gente tinha tido reunião de pauta na segunda de manhã. E acho que por causa dessa pauta, todo mundo tinha ficado bem ligado na narração do jogo, né? E aí que Geral tinha ficado com a impressão de que parecia que os narradores tinham jogado a toalha um pouco mais cedo dessa vez, como eles pareciam estar desmoronando um pouco junto com os jogadores. Marcelo achou que essa virada na narração veio depois do primeiro gol da Noruega, e um pouco antes também.
Eu acompanhei o jogo pelo SporTV. O trio era Luiz Carlos Júnior, Eric Faria e Ricardinho. E A gente foi notando algumas coisas durante a transmissão. No primeiro comentário do Eric, ele tava muito irritado com o Brasil. Ali ainda era o modo torcedor. Acho que a gente vai preparando o jogo, né, de uma forma muito, muito envolvente. Então tem aquele clima e a gente torce também, né, não tem jeito. E acho que o pessimismo que vai se construindo ao longo do jogo também, ele vem pela repetição do cenário, né.
Desde que o Brasil foi campeão mundial, ele vence todos os jogos eliminatórios contra países de outros continentes e perde o primeiro contra uma seleção europeia. A sensação de quem tá narrando, de quem tá transmitindo e que tinha feito aquele compromisso com a vitória, é: não vou conseguir cumprir. No fim do jogo, o que mais me chamou atenção na fala do Luiz Carlos foi quando ele, narrando um entrevero do Neymar e de outros jogadores com os noruegueses, ele disse: tem que saber perder.
Porque ali a narração já tava toda caminhando para uma aceitação da derrota. Mesmo quando o Brasil faz o gol de pênalti, a gente já sabia que faltava muito pouco tempo, que talvez o juiz nem desse mais jogo. Então o discurso de aceitação já tava sendo feito, e essa intervenção do Luiz Carlos eu achei muito precisa. Tem que saber perder.
Como é que tá o seu filho, o Pedro? Como é que ele sentiu a derrota nesta Copa?
Ele viu o jogo assistiu todos os jogos em casa de amigos. Ele disse que não voltaria a ver jogo aqui em casa porque os jogos em que o Brasil foi eliminado nas últimas duas Copas ele tava na sala de casa. E aí falou que queria mudar o cenário. Não adiantou. Mas eu fiquei surpreso porque assim que acabou o jogo ele mandou uma mensagem dizendo, dessa vez doeu menos do que nas outras. É curioso como a Copa vai marcando também o andamento das nossas vidas, né?
Hoje ele é um jovem adulto. Talvez a dor de uma derrota em Copa do Mundo seja mais assimilável hoje. Não é que ela não exista, mas para quem já tá na faculdade, né, é mais um jogo de futebol que se perdeu. Não é bom, ninguém curte, mas já entendeu que faz parte da vida.
É, agora só daqui a 4 anos mesmo.
É isso, até lá a gente ficar teorizando sobre derrota.
É verdade.
Essa história foi produzida pela Maíra Valejo. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo no ar. E para quem é membro do Clube da Novelo, além dos episódios do mês, tem vários episódios bônus exclusivos. Você também consegue ouvir o Rádio Novelo Apresenta um dia antes e sem anúncio. Para se juntar ao clube, tem todas as informações no nosso site. A gente já volta. No post desse episódio no nosso site dá para ler a dissertação do Marcelo Barreto e ver fotos da Línia Sáez com o pai dela e pegar direitinho o o código de desconto da Editora DBA para comprar os livros da Lilian.
Se você ainda não seguiu a novela no YouTube, você tá perdendo várias novidades. Além de todos os episódios do Rádio Novelo Apresenta, a gente publica lá várias playlists de histórias avulsas. Tem playlists de histórias de até 30 minutos sobre futebol, e para quem já tá de saco cheio de futebol, tem histórias sobre música, política, carnaval, De tudo um pouco. Vale a pena ouvir de novo e vale mandar para aquele amigo que ainda não conhece o podcast.
Tem ainda a aba Comunidade, onde a gente coloca fotos relacionadas às histórias. Para quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Bluesky e no TikTok. Para quem é de email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pauta para o email apresenta@radio @radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios.
É só escrever pra gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devaux. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes.
A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Gabriela Caldas. Esse episódio teve desenho de som da Raquel Vieira e da Mariana Leão. Que também assina a mixagem com a Big Maranhos. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem!