Episódios de Rádio Novelo Apresenta

A lenda do tesouro achado

02 de julho de 20261h17min
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Em 7 de março de 2004, o cineasta Jorge Furtado fez o que ele fazia quase todas as manhãs: pegou pra ler a edição da Folha de S.Paulo daquele dia. A maior foto da capa mostrava um quadro pendurado numa parede com a imagem de uma mulher sentada de braços cruzados. O Jorge reconheceu a obra logo de cara: era a “Mulher em Branco”, do Picasso.

A matéria dizia que aquele “desenho de Pablo Picasso” tinha sido encontrado quase por acaso numa sala do INSS, em Brasília. O que era bem estranho… considerando que a “Mulher em Branco” pertence ao Metropolitan Museum de Nova York.

Assim começou a saga do Jorge Furtado com aquele que ficou conhecido como “o Picasso do INSS”. Anos depois, a história inspirou a produção do documentário “O Mercado de Notícias”. E agora, em 2026, ela inspirou a repórter Bia Guimarães a embarcar numa espécie de caça ao tesouro: afinal, de onde veio e que fim teve o “Picasso do INSS”?

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Palavras-chave: artes plásticas, cinema, jornalismo, fake news

Participantes neste episódio10
B

Branca Viana

Host
V

Vinicius Luiz

HostJornalista
A

Ana Frade

ConvidadoMuseóloga
B

Bertrand Pereira Martins

ConvidadoMuseólogo
B

Bia Guimarães

Reporter
F

Francisco Azevedo

ConvidadoVioloncelista
J

Jorge Furtado

ConvidadoCineasta
M

Marta Salomão

ConvidadoJornalista
R

Rildo Coelho

ConvidadoDesigner gráfico
T

Tatsu Iwata

ConvidadoVice-presidente acadêmico
Assuntos8
  • Fundo Arleen e Daniel VorcaroMulher em Branco · Pablo Picasso · Metropolitan Museum of Art · INSS · Brasília · Reprodução autografada · Tomás Santa Rosa
  • AvaliaGOV INSSAna Frade · Space Cultural do INSS · Femme assise les bras croisés
  • Homenagem à Santa Vó RosaTomás Santa Rosa · IPAZE · Museu Santa Rosa · José Lins do Rego
  • Combate à Desinformação e Fake NewsEscola Base · José Serra · Valmir Salaro
  • O programa Fake or FortuneFiona Bruce · Philip Mould · Monet · Gauguin · Rodin
  • Cinema da Fundação· CulturaAlice Rohrwacher · Josh O'Connor · Civilização etrusca · Toscana
  • Jornalismo e CinemaJorge Furtado · Renata Lopretti · Luiz Nassif
  • Caso EMSS Fraudes InvestigaçãoOperação Caça ao Tesouro · Aposentados e pensionistas
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VLVinicius Luiz

Oi, eu sou Vinícius Luiz, da Rádio Novelo, e tô aqui pra te convidar pra ouvir o episódio bônus que a gente acaba de publicar pra quem é assinante do Clube da Novelo. Eu converso com a Kaia Maria Coelho, que deu voz aos diários de Herculine Barban no episódio Asteriscos. Ela conta como se entendeu como pessoa intersexo e os desafios que a população intersexo enfrenta até hoje no Brasil. O bônus já está disponível para quem é assinante no feed do Rádio Novelo Apresenta no Spotify e na página do Clube da Novelo.

E se você ainda não é membro, dá tempo de assinar e ouvir também. Os assinantes do Clube da Novelo ainda têm acesso a um newsletter especial, aos episódios do Rádio Novelo Apresenta antecipados, cupons de desconto em marcas parceiras e a eventos exclusivos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo.

BVBranca Viana

Rádio Novelo apresenta. Eu sou a Branca Viana. Toda segunda-feira de manhã a gente tem reunião de pauta do Rádio Novela Apresenta. Cada um fala das histórias que está produzindo, do que está dando certo, o que está dando errado, se pintou alguma ideia nova. E de uns tempos pra cá a gente começou a reservar uns minutinhos no final para as pessoas contarem o que elas andam assistindo, ouvindo ou lendo de bom. E tem recomendação que chega, se espalha e demora pra gente parar de falar dela.

BGBia Guimarães

O filme Lá Quimera apareceu algumas vezes, né?

BVBranca Viana

É, quase toda semana alguém diz: "E o Lá Quimera?" Isso! Essa é a Bia Guimarães, que depois de algumas reuniões tomou vergonha na cara e foi assistir o filme que tava todo mundo recomendando, inclusive eu. Gostou?

BGBia Guimarães

Gostei bastante, gostei bastante. Só pros ouvintes que não assistiram, é um filme de 2023 dirigido pela Alice Rorwacher, algo assim.

BVBranca Viana

Também não sei falar, também não sei falar.

BGBia Guimarães

Que é uma diretora italiana e que o Josh O'Connor faz um cara inglês que tá na Itália e que leva a vida como ladrão de tumbas etruscas. Eles têm uma gangue, né, que são os Tombaroli.

BVBranca Viana

A civilização etrusca começou na região onde hoje é a Toscana e depois se espalhou para outras partes da Península Itálica. Os etruscos tiveram séculos de sucesso na antiguidade até serem dominados pelos romanos no século III a.C. Já o filme La Chimera se passa na Itália, na década de 80, onde uma parte valiosa do que restou dos etruscos está enterrada nos túmulos deles. Tem estátuas, cerâmicas e outros objetos que enchem os olhos dos protagonistas.

BGBia Guimarães

E o que é curioso desse filme é que o protagonista, esse personagem do Joe O'Connor, ele tem um dom, né, de saber onde é que tá o tesouro, né? Ele sente assim, ele meio que sai de si assim, a câmera dá até uma volta de ponta cabeça. Tem que cavar ali porque é possível que tenha algum resquício etrusco ali que vai ser de grande valor no mercado da arte.

BVBranca Viana

E só ele sente, os outros não sentem, os outros roubam túmulo meio no chute assim. A gente acha que aqui tem uma tumba etrusca que vai ter tesouros pra gente revender no mercado negro, Só ele que tem esse dom, só ele que sente isso. Tem pauta aqui no Apresenta que faz a nossa equipe se sentir assim, numa espécie de caça ao tesouro, só que sem o superpoder do personagem do Lacrimera. A gente resolve cavar, cavar, cavar, sem saber muito bem onde o buraco vai dar. A história que a Bia vai contar pra gente hoje é uma dessas.

BGBia Guimarães

É, de certa forma, uma história de caça ao tesouro. Um tesouro, meio entre aspas.

BVBranca Viana

Essa que é a graça do, de caça ao tesouro, que você não sabe nem onde ele tá e nem se ele é realmente um tesouro, se não é, se a pessoa que te disse onde está o tesouro disse a verdade.

BGBia Guimarães

Se você vai chegar nele ou não, né?

BVBranca Viana

Muitas vezes não dá em lugar nenhum, né?

?Voz D

Exato.

BVBranca Viana

Essa saga começa logo depois do intervalo.

BGBia Guimarães

Uns anos atrás eu fiz um curso de roteiro do Jorge Furtado, o cineasta por trás de Cenamento Básico, O Homem que Copiava, Ilha das Flores. E eu nunca esqueço dele falando que começar um filme com uma cena do protagonista acordando é um baita clichê.

?Voz E

É acordar, escovar os dentes, ir no banheiro, se vestir, um negócio todo, personagem faz isso.

BGBia Guimarães

Então eu vou pular a cena do Jorge acordando, escovando os dentes e trocando de roupa na manhã em que essa história começa e vou direto pra parte em que ele pegou pra ler o jornal daquele dia. Mais especificamente, a Folha de São Paulo de 7 de março de 2004, um domingo.

?Voz E

Tava lendo o jornal e eu vi uma foto, um quadro.

BGBia Guimarães

Na verdade, ele nem precisou abrir o jornal. A foto tava logo na capa.

?Voz E

Mulher em branco, gente.

BGBia Guimarães

Na foto tinha uma parede com um quadro pendurado nela. Era a imagem de uma mulher sentada meio de lado, olhando pro horizonte, com um vestido claro, os braços cruzados e o cabelo ondulado preso pra trás. Mais pro fundo da foto dava pra ver um pouco do ambiente onde esse quadro tava pendurado. Tem duas mesas cheias de papéis, grampeador, porta lápis, calendário. E tem uma pessoa sentada, de costas, trabalhando no computador. Perto dessa pessoa, em outra parede da sala, tem outro quadro pendurado.

Esse com o retrato do Lula, que tinha assumido o primeiro mandato dele como presidente no ano anterior, 2003. E a chamada, ali na capa da Folha, dizia assim: "Repartição". Desenho de Pablo Picasso, localizado no acervo do INSS, decora, desde o fim do ano passado, uma das salas da direção do instituto em Brasília. Na página A20 tava a matéria completa.

?Voz E

INSS encontra por acaso obra de Picasso. Uma mulher desenhada por Pablo Picasso passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal. O desenho é uma das preciosidades do patrimônio do INSS, Instituto Nacional do Seguro Social, localizadas recentemente e quase por acaso. O historiador Francisco Azevedo tentava recompor o acervo do INSS. Procurava Homens de uma Jangada, uma tela de Cândido Portinari, da qual só foi encontrada uma reprodução.

Na busca do Portinari, o historiador encontrou o desenho de Picasso numa das salas da administração do INSS em Brasília.

BGBia Guimarães

O Jorge sempre gostou muito de Picasso.

?Voz E

Eu gostava de desenhar, fiz artes plásticas, né? E eu gostava de desenhar e era muito influenciado, assim. Eu tenho um livro de slides do Picasso, assim, e eu projetava na parede, né, as várias obras dele, ficava estudando. Li muito a biografia dele, ele foi um artista excepcional, assim.

BGBia Guimarães

Artista, sim. Pessoa, nem tanto.

?Voz E

A impressão que se tem, pelo menos hoje, é que era um péssimo caráter, né.

BGBia Guimarães

Relatos de mulheres que passaram pela vida do Picasso, somados com coisas que ele mesmo dizia sobre mulheres no geral, indicam que o Picasso era um cara complicado, pra não dizer coisa pior.

?Voz E

Era uma figura estranhíssima, assim, mas como artista ele era genial, assim, ele revolucionou.

BGBia Guimarães

Naquela manhã de domingo, pouco mais de 22 anos atrás, depois de não ter acordado, nem escovado os dentes, nem trocado de roupa, o Jorge, sendo um admirador do Picasso, ele bateu o olho no jornal e reconheceu aquela obra logo de cara.

?Voz E

Mulher em branco, gente.

BGBia Guimarães

Era a Mulher em Branco.

?Voz E

É maravilhosa, é maravilhosa. Ela é muito famosa porque é o seguinte: ela não tem nada a ver com o que o Picasso estava fazendo na época. Essa pintura é de 1923.

BGBia Guimarães

Em 1923, o Picasso tinha 42 anos. O que se conta é que naquele verão, ele e a mulher dele na época, a Olga, eles tinham passado um tempo na Riviera Francesa e tinham convivido com um casal americano que morava lá. O Gerald e a Sarah Murphy.

?Voz E

Ricos, ricos, muito ricos, né?

BGBia Guimarães

E aí, voltando pra casa, em Paris, o Picasso teria feito esse retrato da Sarah. A essa altura, ele já tinha passado pelo Cubismo, a fase mais famosa dele, e tava começando a entrar no Surrealismo. Só que a Mulher em Branco tem uma pegada neoclássica.

?Voz E

É um quadro clássico.

BGBia Guimarães

No meu linguajar de total leiga em artes plásticas, eu chamaria esse estilo de tradicional. É um lado do Picasso que a gente não está muito acostumado a ver. Acho que eu só ia reconhecer a autoria por causa da assinatura dele no canto inferior direito do quadro. Mas nem por isso essa é uma obra desconhecida do Picasso.

?Voz E

Então não é um quadro obscuro do Picasso, é um quadro famoso do Picasso.

BGBia Guimarães

Então o Jorge viu aquela notícia no jornal e achou incrível, em todos os sentidos da palavra.

?Voz E

Isso tá em Brasília, eu não sabia.

BGBia Guimarães

Bom, o Picasso pintou A Mulher em Branco na França. Aí o quadro foi comprado por um negociante de arte, depois por outro e por outro. E ainda na década de 20, ele viajou da Europa para as mãos de uma colecionadora em Nova York. E desde 1951, ou seja, quando a matéria foi publicada, isso já fazia mais de 50 anos, desde 1951 esse quadro pertence ao Metropolitan Museum of Art de Nova York. Mais conhecido como "Matt", e não ao Instituto Nacional do Seguro Social do Brasil, mais conhecido como "INSS".

Teria o Matt sido vítima de um sequestro digno de filme de ação armado pelo INSS? Ou teria o INSS caído no golpe de um imitador e a gente estaria vendo ali um Picasso falso? Eu assistiria tranquilamente qualquer um desses filmes. Mas a primeira coisa que o Jorge pensou, na verdade, foi que aquela lá, achada em Brasília, pudesse ser não uma Mulher em Branco, ela mesma, mas um estudo, tipo um esboço que o Picasso fez antes de pintar a obra definitiva.

Até porque a matéria falava que tinham encontrado um desenho do Picasso. E a Mulher em Branco, real oficial, não é um desenho.

?Voz E

É óleo, têmpera e crayon sobre tela.

BGBia Guimarães

Além dessa diferença de técnica entre a Mulher em Branco do Met e a do INSS, que estava sendo chamada de desenho, aquela encontrada em Brasília parecia bem mais acinzentada, quase uma versão preto e branco da pintura do Picasso, que é bem delicada nas cores, mas tem sim um pouco de marrom, um beijinho, um rosado na pele da mulher. E a do INSS parecia um tanto menor também. Isso é, deve ser um estudo que ele fez, O Picasso realmente fazia estudos para algumas obras dele.

Antes de pintar a Guernica, por exemplo, ele testou várias ideias. Inclusive algumas delas estão expostas junto com o quadro final lá no Museu Rainha Sofia, na Espanha. E um estudo de um artista do pote do Picasso pode ser muito valioso. Acontece que os esboços que ele fazia, tipo esses de Guernica, eles não são iguaizinhos às obras definitivas.

?Voz E

E esse não, esse é uma coisa idêntica, cada fio de cabelo, Cada sombra, cada dedo, tudo igual.

BGBia Guimarães

Era estranho imaginar o Picasso desenhando os drapeados do vestido da Sarah Murphy nos mínimos detalhes para depois ir lá e fazer exatamente do mesmo jeito na tela com tinta a óleo, têmpera e giz. E outra, o Picasso não tinha o costume de assinar os estudos dele e aquela peça estava assinada. Então, a não ser que a gente estivesse de frente com uma história improvável, que desafiasse tudo que se sabe sobre o Picasso, aquela mulher em branco só podia ser uma reprodução.

E nem tô falando necessariamente de uma reprodução com malandragem envolvida, um Picasso falso, que aí provavelmente teriam feito um esforço para criar uma cópia com cara de pintura mesmo. Mas sei lá, talvez algum admirador bem perfeccionista do Picasso só tivesse copiado a pintura a lápis e até assinatura do Picasso num cantinho, como um exercício artístico. Ou talvez aquilo nem fosse feito à mão. Podia ser simplesmente uma impressão gráfica da Mulher em Branco.

Tipo um pôster desses que a gente compra em algum lugar, até na loja do museu, e coloca numa moldura bonita. Fosse uma coisa ou outra, fato é que essa reprodução, por algum motivo, tava sendo confundida com um trabalho autêntico do Picasso. Confundida pelo INSS, pela Folha de São Paulo e pelos tantos outros jornais que noticiaram a descoberta daquele tesouro. Pelo menos era isso que o Jorge defendia. E para além do mal-entendido artístico, digamos assim, tinha outra coisa incomodando ele.

É que para o Jorge aquela matéria da Folha parecia uma alfinetada no governo Lula.

?Voz E

E era uma coisa muito preconceituosa, "Quero o começo do governo Lula." "Ah, uma luz fluorescente está estragando a pintura." Esse pessoal chegou no poder e não sabe. Olha só o que eles estão fazendo, não estão sabendo cuidar do patrimônio artístico. E eu escrevi, a única vez na minha vida que eu escrevi para um jornal, escrevi para o Budsman. "Olha, esse quadro que está ali me parece ser uma reprodução." E ele respondeu daquele jeito: "Ah, é?

BGBia Guimarães

Vamos ver e tal." O ombudsman da Folha naquela época era o Marcelo Beraba, que morreu em 2025. Mas o Jorge deixou essa troca de emails registrada num blog chamado Não. Eu vou deixar ele linkado no post desse episódio. O Beraba dizia no email que ele tinha ido confirmar a história com a sucursal de Brasília da Folha, que é da onde tinha vindo a matéria. E que o pessoal de Brasília tinha dito que, segundo o Ministério da Previdência, O que indicava a autenticidade daquela peça como sendo um desenho do próprio Picasso era a presença de não uma, mas duas assinaturas do artista, o que inclusive está citado naquela matéria.

"Sob a moldura havia restos de insetos e uma segunda assinatura do artista espanhol, que indicaria a autenticidade da obra." Segundo o historiador que teria feito aquela descoberta quase por acaso no INSS, Tinha uma assinatura visível do Picasso, no canto inferior direito da imagem, e outra assinatura, que não dava pra ver nas fotos do jornal, escondida por trás da moldura. Por via das dúvidas, o Ministério da Previdência dizia que ia chamar um perito pra avaliar.

O Jorge respondeu o email do ombudsman da Folha dizendo que ele não entendia porque o Picasso ia assinar duas vezes um trabalho dele. Que pra ele isso parecia não um indício de autenticidade, mas o contrário. Um sinal de que aquilo era mesmo uma reprodução.

?Voz E

Essa informação de que tem uma segunda assinatura, eu acho que indica que pode ter sido um autógrafo. Picasso fazia isso, ele autografava, ele não queria nem saber. Os cheques dele não eram descontados, as pessoas emolduravam.

BGBia Guimarães

Eu não encontrei muita informação na internet sobre esse costume do Picasso de dar autógrafos por aí. A história dos cheques, essa sim, aparece em alguns lugares. Inclusive, dá pra achar cheques assinados pelo Picasso em anúncios de leilão, valendo alguns milhares de dólares. Mas o Picasso teve uma vida longa e movimentada na França. Se parar pra pensar, nem faz tanto tempo assim que ele morreu. Foi em 1973, aos 91 anos. Vai saber se o dono original daquela reprodução conviveu com o Picasso ou só encontrou com ele um dia, aí pediu um autógrafo e o Picasso deu.

Agora, por que que tinham emoldurado o quadro de um jeito que tinha deixado esse suposto autógrafo totalmente escondido, sendo que ele devia ser bem mais valioso que a reprodução em si? Aí vai saber. De todo modo, mesmo se esse autógrafo existisse e fosse verdadeiro, aquele objeto continuava sendo uma reprodução. Tava bem longe de ser um trabalho autêntico do Picasso, que era o que vinha circulando nos jornais.

?Voz E

Mas enfim, tá. Desencanei.

BGBia Guimarães

A conversa do Jorge com Marcelo Beraba meio que acabou ali e ele deu uma esquecida nessa história.

?Voz E

2 anos depois, eu tô na praia, na beira da praia em Santa Catarina, compro o jornal e vi.

BGBia Guimarães

Era 29 de dezembro de 2005. Ele pegou aquela edição da Folha e lá tava ela. De novo. Na capa. A mulher em branco. Ou o Picasso do INSS. Salvo do fogo. Desenho atribuído ao espanhol Pablo Picasso sobreviveu ao fogo que consumiu 6 andares da sede do INSS em Brasília anteontem. O jornal Estado de São Paulo também respirou aliviado: um Picasso teria escapado do fogo. Gravura atribuída ao gênio espanhol estava no prédio do INSS onde houve o incêndio.

?Voz E

Mulher em branco foi salvo do incêndio. Já não, não é possível, gente. Os cara entraram no fogo pra salvar um pôster.

BGBia Guimarães

Na verdade, ao que tudo indica, a peça estava num andar que não chegou a ser atingido pelo fogo. Mas o Jorge ficou imaginando alguém olhando pro prédio parcialmente destruído e pensando: "Ufa, pelo menos o Picasso tá a salvo". Ele disse que se ele fosse fazer um filme inspirado nessa história, talvez o personagem principal fosse o bombeiro.

?Voz E

Também daria uma história ótima, né? "Entra lá, tem um Picasso".

BGBia Guimarães

Mas dava pra ver que as palavras tinham mudado um pouco. Agora os jornais não estavam mais cravando a autoria, estavam falando de uma obra atribuída ao Picasso. A matéria da Folha falava que o governo ainda não tinha certeza se aquilo era um Picasso verdadeiro ou não, e que o desenho era quase idêntico à pintura do Picasso que fica em Nova York. Quer dizer, então eles não descartavam a ideia por completo. Talvez pra não decepcionar o leitor, pra manter no ar um clima irresistível de "A lenda do tesouro perdido e agora achado" do Picasso.

No começo de 2006, saiu no Correio Brasiliense uma das matérias mais completas que eu li sobre esse caso, da jornalista Naíma Maciel, que inclusive foi fazer essa pauta depois de receber um e-mail do Jorge. A Naíma foi falar com historiadores da arte, com um especialista em Paris que tava acostumado a trabalhar com casos incertos de autenticidade envolvendo Picasso, E até com uma das filhas do Picasso, a Maya Widmaier Picasso, que recebe toda hora alguma obra ou assinatura para atestar se é do pai dela mesmo ou não.

Um especialista diz para a matéria que nunca tinha visto Picasso fazer um estudo que fosse tão idêntico à obra definitiva, mas que assim, à distância, ele não tinha como atestar. A filha do Picasso, também sem poder dar uma declaração final, disse que se surpreenderia muito se o desenho fosse verdadeiro.

?Voz E

Mas sem ver eu não posso dizer.

BGBia Guimarães

No mundo da arte, você realmente tem que ver pessoalmente para crer.

VLVinicius Luiz

É do jogo.

BGBia Guimarães

Mas ficava uma impressão de que o mistério ainda estava no ar. E o Jorge ficou possesso com isso.

?Voz E

A dúvida continua. Continua o mistério. Ainda segue a dúvida.

?Voz F

Gente!

?Voz E

Então é uma coisa meio engraçada, mas ao mesmo tempo Eu tava preocupado com uma coisa que de fato aconteceu, que era um momento que diziam: "Ah, não precisa mais jornalista, agora todo mundo é jornalista, tem Twitter, tem não sei o quê, não precisa mais diploma de jornalista." E eu pensei exatamente o oposto, eu disse: "Agora que a gente precisa realmente de jornalista, gente que vá lá, que meça o quadro, uma régua, que olhe o objeto, que pergunte de onde veio, que..." né?

BGBia Guimarães

Essa história grudou na cabeça dele e acabou dando a ideia pra ele fazer o documentário "O Mercado de Notícias". Que saiu em 2014. Eu tava pra me formar em jornalismo nessa época e eu lembro de ter assistido esse filme numa aula da faculdade.

BVBranca Viana

Profissão?

VLVinicius Luiz

Jornalista.

?Voz E

Jornalista. Jornalista.

FAFrancisco Azevedo

Jornalista?

BGBia Guimarães

Biscateiro.

?Voz F

Sei lá.

BGBia Guimarães

Jorge entrevista ali alguns dos jornalistas mais prestigiados do país naquele momento. Tem Renata Lopretti, Luiz Nassif, Geneton Moraes Neto, Cristiana Lobo. É um filme que discute o papel do jornalismo e o desafio de separar o que é fato e o que é ficção Num cenário em que as fake news tavam ficando cada vez mais preocupantes. Na verdade, o termo fake news nem aparece nas conversas, porque ele ainda não era muito usado por aqui.

Mas as notícias falsas ou mal checadas existem provavelmente desde que existe o jornalismo. Um dos casos que aparecem no documentário é o da Escola Base, que é um dos mais emblemáticos do jornalismo brasileiro. Em março de 1994, uma escola infantil em São Paulo foi acusada de abusar sexualmente dos alunos. Um jornalista da TV Globo, o Valmir Salaro, foi o primeiro a fazer matéria sobre o caso, e aí vários jornais repercutiram.

No fim, nada daquilo era verdade, as denúncias eram falsas, mas os boatos já tinham causado um estrago imenso na vida dos donos e dos funcionários da escola. Também aparece no filme uma história de 2010, de quando José Serra, que era candidato à presidência, ele se submeteu a exames na cabeça depois de ter sido atingido por um objeto misterioso quando tava fazendo uma uma caminhada de campanha no Rio de Janeiro. Muitos jornalistas ajudaram a alimentar a hipótese de que aquilo podia ter sido um ataque de militantes da oposição.

Mas bastava olhar com um pouquinho de cuidado para os vídeos da caminhada para entender que o tal objeto que atingiu a cabeça do Serra era, na verdade, uma bolinha de papel levíssima, que aliás parece ter sido jogada por uma pessoa da própria equipe dele. E bom, entre essas e outras barrigadas do jornalismo, o documentário também fala do nosso tesouro: o Picasso do INSS.

?Voz E

A notícia primeira que eu vi foi essa aqui.

BGBia Guimarães

O Jorge mostra para os jornalistas aquela matéria da Folha de 2004. Alguns lembravam da história, outros não. Aqui é o José Roberto de Toledo.

?Voz E

Não há possibilidade de ser um esboço feito pelo Picasso antes Não.

BGBia Guimarães

Para responder essa pergunta, o Jorge saca uma transparência que ele tinha feito da Mulher em Branco original do Picasso e bota em cima de uma foto da Mulher em Branco do INSS. Iguazinhas. Aqui o Mino carta: Esse quadro não vale nada.

?Voz E

Olha, custa $10.

BGBia Guimarães

Tem uma cena em que o Jorge aparece visitando o quadro em Nova York, no Museu Guggenheim, porque naquele momento ele estava emprestado do Met para o Guggenheim. E aí depois aparece ele em Brasília.

?Voz E

"O pessoal do Guggenheim não sabe, o pessoal do Metropolitan ignora, mas o verdadeiro Picasso, A Mulher em Branco, está aqui na sede do INSS em Brasília.

BGBia Guimarães

Vou mostrar pra vocês." Ele entra no prédio e admira de pertinho essa versão mais desbotada e menorzinha do retrato da Sarah Murphy. Eu ouvi falar da história do Picasso do INSS pela primeira vez por causa desse filme. E nos últimos tempos eu passei a lembrar dela toda vez que eu cruzava com alguma notícia sobre a fraude no INSS, que não tem nada a ver com obra de arte e sim com a revelação de um esquema que tava surrupiando dinheiro de milhares de aposentados e pensionistas há mais de 10 anos.

Eu sinto muito por quem foi vítima desse crime, mas a minha cabeça sempre ia parar naquela mulher em branco pendurada em Brasília. Até porque o nome da operação que a Polícia Federal deflagrou no ano passado para desmontar a fraude no INSS é "caça ao tesouro". Não tinha como. Eu ouvia "fraude no INSS", "caça ao tesouro" e logo lembrava da confusão do Picasso. Eu fiquei me perguntando que fim tinha dado essa história. Onde tinha ido parar o Picasso do INSS?

Depois de sobreviver a um incêndio, ele ainda estava lá? Embaixo das luzes fluorescentes, no meio da papelada de uma repartição pública? Em 2014, depois que o Jorge Furtado lançou o Mercado de Notícias, a Folha fez uma errata corrigindo aquela matéria que tinha sido publicada 10 anos antes. O mesmo historiador que aparecia na matéria de 2004, que tava trabalhando no acervo do INSS naquela época e teria descoberto o quadro, ele agora dizia que o achado era só uma reprodução autografada.

O texto termina dizendo que a Folha tinha ouvido 4 especialistas em arte e que todos diziam que a possibilidade da peça ser original era mínima. E que, segundo o INSS, a obra ainda não tinha sido avaliada. A hipótese de ser uma reprodução autografada parecia fazer sentido para mim. Uma leiga, sim, mas uma leiga esforçada. Só que eu não encontrei em nenhum lugar uma imagem, uma comprovação ou mesmo uma explicação detalhada para aquele autógrafo que estaria escondido embaixo da moldura.

E as informações sobre a origem dessa peça, que agora tinha eternamente virado o Picasso do INSS, esses detalhes também pareciam um pouco desencontrados pra mim. A maioria das reportagens dizia que ela tinha vindo do acervo pessoal do artista Tomás Santa Rosa, que teria sido adquirido pelo INSS depois da morte dele, na década de 1950. Mas pelo menos uma matéria, também da Folha, que inclusive aparece no documentário, Dizia que aquela mulher em branco teria sido recebida como pagamento de uma dívida previdenciária. O cara comprou um pôster, entregou pro INSS e pagou a dívida.

?Voz E

Quer dizer, essa é a matéria? Isso não é matéria.

MSMarta Salomão

Que dívida? Quem pagou?

?Voz E

Quem entregou esse pedaço de papel como se fosse um quadro do Picasso?

BGBia Guimarães

É uma bela matéria.

?Voz E

Depois que você fizer seu filme, eu vou dar cabo de descobrir quanto pagaram do meu dinheiro por um pôster.

BGBia Guimarães

"Who said this last phrase was o jornalista Maurício Dias, que trabalhou na revista Carta Capital, na Veja, na Isto É.

?Voz E

Ele morreu em 2024." O Maurício disse assim: "Quando terminar o teu filme, eu vou fazer." Mas ele não fez. Alguém tem que ir lá e saber quem deu isso e quanto foi avaliado. Foi nos anos 50 ou 60, talvez. E talvez, numa das matérias, diz que teria uma segunda assinatura do Picasso. Então talvez tenha uma assinatura do Picasso ali dentro. Isso é uma coisa que eu não consegui fazer. Eu queria abrir, "tira essa moldura, vamos olhar o papel", né?

BGBia Guimarães

Talvez essa história fosse sim um enigma a ser resolvido. Não um grande enigma de Picasso verdadeiro ou falso, ou de tesouro encontrado do gênio espanhol. Mas tinha uma pontinha de mistério ali. Eu tava determinada a perseguir as respostas que estavam faltando ou que estavam confusas nisso tudo. E tinha outra coisa: a essa altura eu já tava mais apegada no Picasso do INSS do que na obra original. Depois da confusão toda, eu achava que esse tesouro, fosse o que fosse, merecia que a história dele fosse contada.

?Voz E

Tu só não publica uma notícia assim: "Continua o mistério".

BGBia Guimarães

O mistério continua, gente.

?Voz E

Fim do mistério!

BVBranca Viana

A gente volta já já. Eu quero recomendar aqui um podcast do Estúdio Novelo, e eu sei que parece cabotino eu recomendando um podcast produzido por nós, mas é porque não é meu, é da Sueli Carneiro Sueli Carneiro e da Neca Setúbal, um podcast da Fundação Tidi Setúbal. E eu tenho muito orgulho da Novelo ter participado da produção dessas duas temporadas que já estão no ar. O podcast se chama Escute as Mais Velhas e é isso mesmo: a Sueli Carneiro e a Neca Setúbal escutando mulheres ou da idade delas ou mais velhas que elas que participaram da história das mulheres no Brasil nas últimas décadas.

O mais legal e divertido desse podcast, para mim pelo menos, é a absoluta falta de papas na língua dessas entrevistadas. E a gente pode dizer que é porque elas todas têm, sei lá, 80, 85 anos, e depois de uma certa idade a gente liga o foda-se e blá blá blá, todo esse clichê sobre a velhice feminina. Mas eu tenho a impressão de que essas mulheres nunca tiveram papas na língua, não vieram ao mundo pensando em agradar ninguém. Vieram aqui para fazer seus caminhos e abrir espaço para os nossos, para o meu, para o seu, para todo mundo.

Vale muito ouvir as duas temporadas. Além da gente aprender sobre história do Brasil no século 20, a gente dá muita risada com elas. Nessa segunda temporada, A novela são 11 episódios e a temporada ainda fecha com uma espécie de "Escute as Mais Jovens". Corre lá! Tá em todos os aplicativos de áudio e no canal de YouTube da novela.

?Voz E

Tem um programa inglês da BBC que chama Fake or Fortune.

BGBia Guimarães

The art world, where paintings change hands for fortunes. Fake or Fortune é uma série documental da BBC em que uma especialista em arte, a Fiona Bruce, se junta com um marchand, um negociante de arte, o Philip Mould, pra caçar obras perdidas de grandes artistas. O que é basicamente um trabalho de detetive. Eles são procurados por pessoas que compraram ou herdaram obras que supostamente foram feitas por artistas muito renomados.

Monet, Gauguin, Rodin. Mas não é certeza. Então a Fiona e o Philip entram em ação para investigar o caso e chegar num veredito. Eles entrevistam os donos da peça para saber de onde é que ela veio, quando veio, das mãos de quem, em que condições. Eles levam a obra para ser examinada por outros especialistas, às vezes com equipamentos. Eles consultam os registros de todos os trabalhos conhecidos daquele artista que pode ou não ser o autor da obra, para ver se esse possível tesouro aparece nos registros ou se pelo menos ele é coerente com o resto da produção do artista.

?Voz E

No final do programa eles dizem se é verdadeiro ou não.

BGBia Guimarães

É tipo um chá revelação. A Fiona e o Philip se encontram de novo com o dono da peça para contar o que eles descobriram na investigação. E aí a saga pode acabar em alegria, com a pessoa recebendo o atestado de que ela possui uma peça autêntica, autêntica e consequentemente caríssima, um tesouro perdido e achado que agora pode ser incluído no catálogo daquele artista. Ou então a saga pode acabar numa decepção amarga: a obra na verdade era de outro artista ou era simplesmente falsa mesmo, uma imitação.

No caso do nosso Picasso do INSS, a decepção da autenticidade já está revelada há um bom tempo. Mas eu me inspirei na Fiona e no Philip pra sair em busca dos detalhes que estavam faltando nessa história. Eu queria comprovar o que tava no centro de toda essa confusão. Era uma impressão gráfica mesmo? Tipo um pôster? Ou podia ser uma reprodução, sim, só que feita a lápis? Isso realmente tinha vindo do acervo pessoal do Tomás Santa Rosa?

Ou tinha alguma chance dessa peça ter sido entregue por um devedor da Previdência? Aquela história da segunda assinatura, o suposto autógrafo do Picasso que estaria escondido pela moldura. Isso existia mesmo? O Picasso tinha realmente botado as mãos naquele objeto? E como jornalista, eu também tava curiosa para saber como que a confusão tinha começado. Como exatamente tinha surgido e se espalhado a notícia de que um Picasso verdadeiro tinha sido achado no INSS?

Eu sabia que o ponto mais crucial e incontornável dessa investigação era ver o tesouro. Ficar cara a cara com ele, de perto e sem moldura. Então a primeira coisa que eu fiz foi entrar em contato com o INSS para saber se o Picasso do INSS ainda estava lá e se eu podia agendar uma visita. Enquanto a resposta não vinha, eu fui atrás do primeiro nome que aparecia naquela matéria da Folha de 2004.

MSMarta Salomão

Eu nem lembrava que era 2004 o ano, mas enfim, são 22 anos, né? É muito tempo.

BGBia Guimarães

Eu fui falar com a jornalista que assinou o texto, a Marta Salomão.

MSMarta Salomão

Já me aposentei do jornalismo e fiz uma transição para academia, então isso já tem um bom tempo.

BGBia Guimarães

A Marta me contou que naquela época ela cobria especialmente políticas públicas na Folha. Essa não é uma área lá muito conhecida por suas histórias sedutoras. Mas um dia chegou para ela uma notícia irresistível.

MSMarta Salomão

É, eu tava fechando assim 500 matérias punk na mesma época. Então uma pessoa chegou e falou: "Olha, tem um laudo de uma obra que está num prédio do INSS ali no começo da Asa Sul, pelo que eu me lembro, e que é uma gravura, enfim, não me lembro de detalhes, do Picasso." E aí tinha um laudo do próprio Ministério, né? Eu não lembro se foi contratado pelo Ministério, mas enfim, tinha lá. Era uma historinha divertida e tal, e eu cometi um erro que vários jornalistas já cometeram, que é confiar na sua fonte.

E eu confiei no laudo, né? Acabou sendo uma informação que hoje eu não escreveria, né? Hoje eu não escreveria essa matéria, né? Eu acho que eu fui levada ali assim, nossa, é tão engraçado o negócio, vamos aqui fazer. Eu confiei no laudo.

BGBia Guimarães

Você não chegou a ir lá no prédio, né, ver o O fotógrafo foi lá. O fotógrafo, entendi.

MSMarta Salomão

O que eu lembro é que teve incêndio depois nesse prédio e que essa obra teria sido recolhida num cofre no Banco Central, mas não sei te dizer o que foi feito dela porque na verdade era uma reprodução, né? E eu não sei por conta de quê um laudo atestou que aquilo ali era uma obra de arte. Mas eu acho assim que de deslizes da imprensa, eu acho que tem outros que fizeram, né, no caso da Escola Base, destruindo reputações. E essas coisas de se confiar numa fonte já mudou o rumo da história do Brasil. Então eu só não lamento mais porque eu acho que é um caso menor.

BGBia Guimarães

Eu perguntei para Marta se ela tinha assistido documentário do Jorge Furtado e ela disse que não. Ele se incomodou porque ele achou que transparecia um certo preconceito contra o governo que estava em vigência naquele momento, que seria o governo do Lula, do tipo: "As pessoas não sabem o que é uma obra de arte, uma obra de arte em meio à burocracia, né?" Aí eu acho que eu, pegando Humberto Eco, diria que é superinterpretação do Jorge Furtado.

MSMarta Salomão

Não havia nas cursals de Brasília nenhuma intenção de: "Ah, vamos lá arrumar uma coisa pra intrigar o governo Lula." ou dizer que o governo Lula era ignorante. Não tinha absolutamente nenhum viés, era uma história engraçadinha, né, no máximo. Não havia assim, ah, porque são felisteus no poder. Não, não, Jorge Furtado, não.

BGBia Guimarães

Ela me disse que acabou se livrando de muita coisa ao longo dos anos e que não tinha mais os documentos e os contatos que ela usou para fazer a matéria. Que ela só lembrava mesmo que o laudo, esse documento, tinha vindo do próprio Ministério da Previdência e que ela tinha conversado com o historiador que atestava esse laudo e que é citado na reportagem dela e em várias outras sobre o assunto. Ela também estava curiosa para saber onde é que o tesouro tinha ido parar.

MSMarta Salomão

Eu imagino que isso esteja no lixo.

BGBia Guimarães

Te dou notícias se eu descobrir alguma coisa.

?Voz D

Então tá.

BGBia Guimarães

O nome do historiador que aparecia nos jornais como a pessoa que tinha encontrado por acaso um Picasso no INSS era Francisco Azevedo, ou Francisco ou Rudy Azevedo. Não foi difícil achar ele nas redes sociais. Eu mandei uma mensagem no Instagram e aí a gente marcou de conversar pelo telefone.

FAFrancisco Azevedo

Eu tava comentando com a minha esposa, a cada 5 anos alguém me liga perguntando essa história de novo, entendeu? Eu já não trabalho mais, eu não trabalho nem nessa área mais, desde 2006.

BGBia Guimarães

O Francisco é violoncelista e hoje em dia ele faz parte da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília.

FAFrancisco Azevedo

Então é o seguinte, eu trabalhava no Museu da Previdência Social, Previdência e Assistência Social. Eu trabalhei lá de 98 até 2006. Em determinado momento, quando Lula assumiu o primeiro governo dele em 2003, o Ricardo Berzoini, que foi nomeado ministro, ele começou a querer retirar o museu do lugar onde estava, que era no anexo do prédio principal do INSS, que fica aqui em Brasília, aquele prédio famoso que pegou fogo anos depois.

Quando ele levantou a hipótese de fechar o museu, eu recebi de um jornalista que trabalhava lá uma lista de patrimônio da década de 60, época que foi transferido o INPS, na época, para Brasília.

BGBia Guimarães

O INPS era o Instituto Nacional de Previdência Social, que existiu até a criação do INSS nos anos 90.

FAFrancisco Azevedo

E nessa lista de patrimônio estavam vários quadros listados, quadros, quadros, obras de arte, né? E aí eu comecei a fazer um levantamento para ver onde estariam esses quadros. Então eu tive que visitar basicamente todas as salas de um prédio de, sei lá, 15 andares para procurar essas obras. O trabalho foi providencial porque a gente salvou muitos quadros significativos para a história da arte no Brasil daquele incêndio que teve lá no prédio do INSS. Que foi poucas semanas depois que a gente conseguiu retirar os quadros de lá.

BGBia Guimarães

Foi no meio dessa busca que ele encontrou o Picasso do INSS. Quer dizer, segundo Francisco, essa confusão com Picasso não veio dele, nem de dentro do INSS. Ele diz que veio dos jornalistas.

FAFrancisco Azevedo

E aí vai uma crítica não a vocês, mas a categoria em geral, Eu sempre conto a mesma história e sempre contam outra história quando publicam. Inclusive teve uma matéria, uma matéria na revista Época, não sei se chegou a ter acesso a essa matéria, que eu contei como tudo aconteceu e eles inventaram uma história bonitinha porque eles queriam dizer que aquele quadro era um Picasso, entendeu? Sempre que eu relato essa história, já relatei para tantos veículos que eu nem Nem lembro quantos, mas na hora que sai a reportagem, uma publicação que seja, sempre volta a dizer: "Não, isso aqui era o Picasso do INSS." A época, a revista Época botou "caça ao tesouro".

BGBia Guimarães

A revista Época parou de circular em 2021 e eu tentei achar algum registro dessa matéria na internet, mas não achei.

FAFrancisco Azevedo

É muito contra gosto meu, mas sempre foi pra esse lado. Eu não tenho controle do que as pessoas escrevem.

BGBia Guimarães

Sim, mas o que você me diz então é que mesmo naquela ocasião, nunca da sua parte, nunca foi dito que era um original do Picasso?

FAFrancisco Azevedo

Não, de jeito nenhum mesmo, porque para dizer que é uma coisa original, seja ela um quadro, um instrumento musical ou qualquer obra de arte, você precisa ter um dealer, como diz na Europa, nos Estados Unidos, né, que conheça aquela obra e possa atestar. E o INSS Logicamente nunca teve interesse em nada parecido, mesmo porque com as informações que eu levantei e passei para eles, ficou claro que não era uma coisa original do Picasso.

Como eu levantei a questão de que era uma cópia feita à mão de um quadro que está no Museu de Arte de Nova York, eu falei: "Eu não conheço artista que faz cópia do próprio trabalho." Não é um esboço, ele é uma cópia perfeita, né?

BGBia Guimarães

A hipótese do Francisco que ele diz que sempre defendeu é que a Mulher em Branco do INSS é uma reprodução feita lápis por alguém que admirava o trabalho de Picasso e esse "alguém" para ele é o próprio Tomás Santa Rosa, o artista que aparece nas reportagens daquela época como sendo dono do acervo de onde este objeto teria vindo. Então assim... A gramatura do papel à lápis não era tipo um pôster? Uma reprodução do quadro de Picasso?

FAFrancisco Azevedo

Não! Foi levantada essa hipótese mas não— Ele era feito à lápis mesmo.

BGBia Guimarães

O Francisco me falou que a evidência disso era que na época, passando o dedo no papel, saía um pozinho de grafite.

FAFrancisco Azevedo

Procura saber da história do Tomás Santa Rosa, é porque toda a história gira em torno do Santa Rosa e não do Picasso.

BGBia Guimarães

O que eu sabia sobre o Tomás Santa Rosa até esse momento era o pouco que aparecia sobre ele nas reportagens. Que ele tinha sido um artista paraibano. Na verdade, alguns jornais falam que ele era pernambucano, alagoano, mas não, ele era paraibano mesmo. Contavam que ele tinha morrido em 1956 e que uma parte do acervo pessoal dele, com obras autorais e também outros objetos, que várias dessas coisas tinham ido parar nas mãos do IPASE, o Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, que ficava no Rio de Janeiro e que foi extinto nos anos 70.

E aí mais tarde esse acervo teria sido absorvido pelo INSS. Segundo Francisco e as informações que ele encontrou durante aquele levantamento, O Santa Rosa teria sido funcionário do Ipaze e o próprio Ipaze teria bancado um curso de pintura para ele na França.

FAFrancisco Azevedo

Onde ele teve contato com o Picasso e com outros artistas da época, que era uma coisa meio que natural, né? Não era uma coisa "oh, Picasso", né? Não, Picasso tava vivo, morava em Paris, recebia muita gente e o Santa Rosa foi um deles. E aí nós levamos essa pintura para um especialista aqui em Brasília mesmo, especialista em quadros e tudo mais, e a gente tirou o quadro da moldura. Aí que a história fica realmente um pouco interessante, porque assim, foi feito o quadro a lápis e tem a assinatura do Picasso, do Picasso copiada igual tá no quadro, no quadro a óleo.

Abaixo dessa parte, na parte que não dava para ver com a moldura, tem a assinatura do Picasso original, mas ela tava cortada, como se tivesse sido cortada com estilete para colocar o quadro na moldura. Então assim, o cara falou: essa assinatura do Picasso, essa aqui é uma cópia. Eu mandei essa assinatura, uma foto dela, para o especialista em Paris, e ele falou que era, parecia realmente ser a do Picasso. Então assim, a única contribuição real do Picasso para esse quadro era essa assinatura que ele parece ter feito de uma cópia que o Santa Rosa fez do quadro dele. Entendeu?

BGBia Guimarães

Eu perguntei para o Francisco se ele tinha encontrado alguma comprovação de que o Santa Rosa teve com o Picasso em algum momento da vida e ele disse que nada muito oficial. Esse suposto encontro dos dois só estava mencionado num papel datilografado que estava nos arquivos da Previdência, referência e que devia ser da época que o acervo do Santa Rosa chegou. Não era bem uma comprovação, mas para o Francisco essa é a explicação mais provável.

FAFrancisco Azevedo

Isso aí é complicado porque as próprias informações sobre a vida do Santa Rosa são muito limitadas, né? Não tem como dizer isso, né? Mas como a própria assinatura estava cortada pelo meio, não dá também para ter 100% de certeza de nada, né? O especialista na França foi até muito gentil falando isso comigo. Ele falou: "Eu não posso atestar isso publicamente porque isso gera uma repercussão, né? Tudo que tem o nome do Picasso gera uma repercussão midiática, né?" Então, só por isso também. E também por causa da questão monetária, né? Eles não fazem nada de graça.

BGBia Guimarães

Eu perguntei se ele ainda tinha a foto dessa assinatura e ele até foi procurar nos arquivos antigos dele mas disse que não achou nenhuma imagem em que a assinatura estivesse aparecendo. O Francisco me falou que também não sabia onde é que o, entre aspas, Picasso do INSS tinha ido parar. Assim como a Marta Salomão, a jornalista da Folha, ele lembrava que depois do incêndio e depois do "auê da mídia", nas palavras dele, ele tinha sido levado para um cofre no Banco Central.

Aí, uns anos depois, ele ouviu dizer que aquela mulher em branco tinha voltado para o prédio do INSS. Talvez ela continuasse decorando a parede de alguma sala por lá. A conversa com o Francisco me deixou um pouco mais confusa do que eu já tava. A Marta tinha me falado que na época quem tava dando aquele Picasso como verdadeiro era o próprio INSS, por meio daquele documento e das palavras do historiador que trabalhava no acervo de lá, o Francisco.

FAFrancisco Azevedo

Francisco.

BGBia Guimarães

E agora o Francisco tava me falando que ele nunca tinha dito que aquele era um autêntico Picasso, que a Folha na época e todos os outros jornais e revistas é que estavam distorcendo os fatos. Só que pesquisando registros da imprensa anteriores a 2004 envolvendo Picasso e INSS aparece uma coisa curiosa: uma matéria da revista Isto É de dezembro de 1999. O Mistério de Santa Rosa. Procuradores do INSS investigam extravio de quadros valiosos do pintor paraibano e tentam resgatar peças históricas.

A reportagem conta sobre dois procuradores do INSS que tinham embarcado numa missão à la Sherlock Holmes. Desde 1992, eles estavam tentando localizar algumas obras que tinham vindo do acervo do Tomás Santa Rosa e que andavam escondidas. Eles estavam preocupados que peças valiosas pudessem tá pegando poeira, largadas em algum canto sem receber os cuidados adequados. E aí o segundo parágrafo da reportagem diz assim, começa com a aspa de um entrevistado: não sabia que tudo isso estava na minha sala, espanta-se o procurador-geral do INSS, Marcos Maia, que tinha pendurados na parede dois quadros de Santa Rosa e uma gravura de Picasso, todos do acervo pessoal de Santa Rosa.

A matéria tá sem foto, pelo menos na versão online que eu achei disponível, mas é muito provável que essa tal gravura do Picasso que eles falam fosse, na verdade, a reprodução da Mulher em Branco. Ou seja, já tinha gente falando do Picasso do INSS pelo menos desde 99, anos antes do Francisco ter esbarrado do Eduardo nessa história e da Marta ter publicado aquela matéria em 2004. 99, aliás, ainda era governo FHC. E pelo menos nessa ocasião, a suspeita de que aquele era um Picasso autêntico tava vindo de dentro do INSS, dos próprios servidores.

Na verdade, a autenticidade nem parecia ser uma suspeita e sim uma certeza, que a reportagem também não questiona. A confusão era mais confusa e mais antiga do que parecia. Eu tentei achar o contato dos dois servidores Sherlock Holmes que aparecem nessa matéria e até disparei email para alguns endereços possíveis, mas não deu em nada. Eu fico pensando se foram eles que sem querer criaram essa lenda do tesouro perdido e achado do Picasso.

E aí, de alguma forma, essa aura de mistério ficou gravada ali no prédio do INSS até o quadro ser redescoberto alguns anos depois. Ou talvez até hoje? Testando, testando gravação de áudio. Hoje é dia 20 de maio de 2026. Em maio desse ano, quando já fazia alguns meses que eu tinha mergulhado nessa apuração, eu finalmente recebi uma resposta do INSS para aquele meu pedido. Sim, o tesouro continuava lá, E sim, eu podia visitar. Eu tô aqui na frente já da sede do INSS, o setor de autarquias de Brasília.

Minha primeira vez em Brasília. As principais notícias do dia envolvendo as palavras INSS e previdência são: ressarcimento de pessoas que foram alvo da fraude do INSS, o plano do INSS de zerar filas. Também temos a manchete da CNN: amiga de Lulinha é alvo de investigação da PF. Todas notícias muito importantes, nenhuma delas tão importante quanto a que eu tô buscando aqui, né, que é o que aconteceu, né, a quantas anda o nosso, entre aspas, Picasso do INSS.

Eu tava com medo de fazer essa viagem toda, ir lá olhar para aquela reprodução e não saber identificar se ela tinha sido feita a lápis ou se era uma impressão gráfica, tipo um pôster. Então eu fui atrás de alguém que manjasse do assunto e que pudesse ir comigo na visita. Um contato de Brasília aqui, outro ali, e eu achei a Ana. Acho que a Ana chegou, deixa eu ir lá ver. Bom, deixa eu fazer um registro em áudio de você se apresentando, falando seu nome e o que você faz.

?Voz D

Oi, eu sou Ana Frade, eu sou museóloga e tenho uma especialização também em peritagem de obras de arte. De arte. Trabalho nessa área.

BGBia Guimarães

A Ana tava com uma maleta na mão, dessas de guardar ferramenta.

?Voz D

Em geral, todo museólogo tem uma maleta e a gente leva assim equipamentos, materiais que são úteis, né, para o nosso trabalho. Basicamente tem lupa, uma lanterna, um paninho, Tenho uma trincha também, que é para fazer alguma limpeza, alguma coisa. A lupa e a lanterna são as mais importantes.

BGBia Guimarães

Tá, talvez a gente use esses hoje.

?Voz D

Isso, muito provavelmente.

BGBia Guimarães

A gente entrou no prédio do INSS e foi recebida por uma pessoa da equipe de comunicação. Ela é que ia guiar a gente até o tesouro. Como eu não tinha notícias do que tinha acontecido com o Picasso do INSS depois daquela história toda, Internamente, eu meio que tava esperando encontrar aquele mesmo cenário retratado pela Folha 22 anos atrás. A reprodução da mulher em branco pendurada na mesma parede, na mesma sala, com a mesa cheia de papéis, grampeador, uma pessoa trabalhando no computador e o retrato do Lula.

Mas não. Hoje em dia, no térreo do prédio, perto da recepção, tem uma porta de vidro que dá para um salão. Uma placa diz: Space Cultural do INSS, fundado em 2010. É tipo um museuzinho. Logo na entrada, a gente deu de cara com ela, dividindo a parede com outros quadros, mas com certo ar de destaque. Ou talvez sejam meus olhos. A Mulher em Branco do INSS. A Ana foi logo sacando as ferramentas da maleta e eu fui ler o que dizia a plaquinha embaixo da moldura.

Descrição: Femme assise les bras croisés. Esse nome, que significa "mulher sentada de braços cruzados", geralmente é usado para se referir a outros dois quadros do Picasso. Um que ele pintou em 1902 e outro mais surrealista que ele fez em 1937. Mas eu vi mesmo que alguns lugares chamam A Mulher em Branco de A Mulher de Braços Cruzados. Técnica: desenho a lápis.

FAFrancisco Azevedo

Hmm...

BGBia Guimarães

Autor: Pablo Picasso. E é curioso que na placa esteja escrito "autor Pablo Picasso", né, e não uma reprodução de um quadro do Picasso. Mas o mais curioso pra mim foi ver o que estava escrito mais embaixo: "Ainda não há avaliação especializada que ateste a autenticidade do quadro como sendo de autoria do artista espanhol Pablo Picasso." Ninguém resiste ao enigma.

?Voz E

A dúvida continua. Continua o mistério. Ainda segue a dúvida. É dúvida, gente.

BGBia Guimarães

O original é feito a óleo, né? Esse aqui dá para ter uma noção de como que é?

?Voz D

Isso é uma cópia em papel, uma impressão.

BGBia Guimarães

Ah, uma impressão.

?Voz D

Deixa eu botar o microscópio.

BGBia Guimarães

Tava escrito na plaquinha que aquilo era um desenho a lápis, como Francisco, historiador que trabalhou no acervo do INSS, também tinha dito.

?Voz D

Desse jeito.

BGBia Guimarães

Na minha visão de leiga também parecia isso, um desenho a lápis num papel grossinho. Mas a Ana sacou um mini-microscópio e apoiou no quadro. Não é tão fácil achar o foco assim por cima do vidro da moldura, mas dava para ver um padrão quadriculado.

?Voz D

Os grânulos da gráfica, né? Sim.

BGBia Guimarães

Ela também achou estranho que a imagem da mulher e a assinatura escrita Picasso os traços pareciam diferentes na vista. A assinatura parecia feita com pincel, só que no microscópio a textura das duas coisas era igual. Como se tivesse sido, por exemplo, se for uma impressão, se foi impresso junto. Eu tava me achando o máximo ali, a própria coapresentadora do Fake or Fortune, mas tinha um problema com outra parte do mistério. Levantaram a possibilidade de existir uma assinatura, um autógrafo de Picasso que estaria escondido pela moldura.

Desde o meu primeiro contato com o pessoal do INSS, eu falei do suposto autógrafo e de como a gente só ia conseguir resolver o enigma completo com o quadro aberto. Aí a visita foi marcada, beleza. Mas 2 dias antes da gente ir para lá, eles me disseram que não ia ser possível abrir a moldura, que a gente ia ter que ver o quadro vestido mesmo. Decepção amarga. Bitter disappointment. A gente pediu para pelo menos tirar o quadro da parede para ver se tinha alguma marcação relevante na parte de trás da moldura.

Isso deixaram. Na parte de trás, a gente encontrou uma plaquinha de patrimônio do INSS e uma etiqueta bem antiga escrito Everaldo Molduras, com o endereço do Rio de Janeiro. Também tinha outra uma etiqueta com o nome de uma mulher, um número e uma assinatura. Eu tirei foto para pesquisar depois. E o que a gente conseguiu tirar do que a gente viu? Você pode, você consegue resumir para mim?

?Voz D

Da observação feita, né, a gente colocou uma lente de aumento, né, um microscópio, e deu para ver, né, que o um entintamento, né, ele aparece um reticulado. Então, que isso demonstra que é uma impressão gráfica, né. Apesar de ter também, aparece um canto, aparece uma certa textura, né, mas isso acontece, né, de ter impressões com essas texturas.

BGBia Guimarães

Eu contei para Ana que o Francisco tinha dito que quando ele examinou esse objeto anos atrás, que ele fez e passou a mão no papel, tinha saído um pozinho de grafite e que por isso ele dizia que aquilo era um desenho. Mas a Ana reforçou que pela análise dela, com as condições que ela teve ali para avaliar, aquilo era uma impressão gráfica.

?Voz D

E não deu para a gente ver nada além do que está à mostra, né? Então, para comprovar, né, essa suspeita, né? É, acredito que tem essa assinatura dele aí, realmente tem que ter a remoção da moldura.

BGBia Guimarães

Voltando para casa, eu fui pesquisar sobre aquela etiqueta que aparecia na parte de trás do quadro: Everaldo Molduras. Eu fui ver se essa molduraria ainda existia e sim, ela segue firme e forte no Rio de Janeiro. O Everaldo já faleceu, mas eu conversei com a filha dele no telefone, a Isabela, que é quem toca o negócio hoje. Ela me disse que essa etiqueta é dos anos 70, do tempo que o pai dela ainda nem tinha uma loja propriamente dita.

Ela disse que eu não era a primeira pessoa a ligar para perguntar dessa história, mas que ela não sabia nada além disso. Se aquela reprodução da mulher em branco tinha vindo mesmo do acervo do Tomás Santa Rosa, que morreu em 1956, isso significava que a moldura tinha sido trocada, talvez pelo próprio Ipazzi, numa manutenção. A essa altura, o nome do Santa Rosa já tinha aparecido na minha pesquisa uma porção de vezes, sempre como a origem mais provável do Picasso do INSS. Eu finalmente parei para ler sobre a vida e a obra dele.

?Voz F

Chamavam ele carinhosamente de Santa, né?

BGBia Guimarães

E aí eu encontrei a dissertação de mestrado do Rildo Coelho.

?Voz F

De formação, eu sou designer gráfico e designer de interiores. Hoje eu sou coordenador de design editorial da editora da Universidade Federal da Paraíba.

BGBia Guimarães

O Rildo me contou que ele também demorou um pouco para descobrir o Santa Rosa, apesar de eles serem conterrâneos, os dois pessoenses. Um dia, o Rildo estava numa feira do livro em Olinda e o evento estava comemorando um aniversário de lançamento do romance Menino do Engenho, do José Lins do Rego.

?Voz F

Paraibano também. E me chamou muito a atenção a ilustração de capa. E aí eu fui olhar lá nos créditos e li, né? Tomás Santa Rosa.

BGBia Guimarães

Ele nunca tinha ouvido falar desse nome, mas ele gravou na memória. Depois ele foi pesquisar e viu que o Santa Rosa tinha atuado em tudo quanto é área das artes, mas que ele tinha sido especialmente um grande designer gráfico, antes mesmo da profissão ser conhecida assim. O Santa Rosa foi uma figura-chave num período de mudança do mercado editorial, quando a cara dos livros tava mudando completamente.

?Voz F

Era um livro, Bia, que tava perdendo aquela capa de couro, tava ganhando agora uma estrutura de brochura, né, que era apenas um papel que guardava as páginas mais finas. E aí as editoras precisavam de algo na capa que chamasse muita atenção, porque antes a gente tinha letras douradas, nós tínhamos o couro, e agora ia ser só papel. Então assim, Santa Rosa coloca arte na capa, busca ilustrar.

BGBia Guimarães

Ao longo das décadas de 1930 e 1940, já morando no Rio de Janeiro, O Santa Rosa foi o responsável por pensar e ilustrar capas do Graciliano Ramos, do Carlos Drummond de Andrade, do Jorge Amado. Foi fazendo capas que ele entrou no mundo da arte. Mas ele fazia muitas outras coisas ao mesmo tempo.

?Voz F

Então ele é pintor, ele é cenógrafo, ele é decorador, ele é figurinista, ele é ilustrador, ele é gráfico, ele é gravador e ele é professor e crítico de arte.

BGBia Guimarães

Lá no acervo do INSS, eu e a Ana vimos algumas pinturas do Santa Rosa. Algumas delas lembram o estilo do Portinari, com quem ele trabalhou e conviveu bastante. Uma das criações mais prestigiadas do Santa Rosa foi o cenário para a peça "Vestido de Noiva", do Nelson Rodrigues. É uma construção bem bonita, com uns arcos e escadarias. Em 1956, ele viajou para a Índia para representar o Brasil numa conferência de teatro. A saúde dele já não dava boa.

E aí nessa viagem ele passou mal, foi levado para o hospital e um pouco depois ele morreu. Ele era super jovem, tinha 47 anos. O corpo dele foi trazido para o Brasil e foi velado no Teatro Municipal do Rio. A morte dele foi lamentada em tudo quanto é jornal do Brasil. Vários amigos dele escreveram homenagens.

?Voz F

Santa Rosa era um homem profundamente humano. E é isso que os grandes falam dele. João Ramon fala isso, José Lins do Rego fala isso, Raquel de Queiroz fala isso.

BGBia Guimarães

Hoje a gente não escuta tanto falar no nome do Santa Rosa, né? Talvez por ele ter morrido muito cedo ou por ter navegado por muitas águas e não ter se prendido numa arte só.

?Voz F

Ou foi apagado por alguma questão política, por alguma questão racial. Eu não tenho dados suficientes.

BGBia Guimarães

O Rildo estudou a vida e o trabalho do Santa Rosa a partir de documentos de livros e também de cartas que ele trocou com José Simeão Leal, que também era paraibano e também foi uma figura importante da cena literária brasileira. Eu conversei com uma pessoa que trabalhou no acervo do INSS e ele comentou comigo que Santa Rosa teria sido funcionário da Previdência, teria sido funcionário do IPASE. Não sei se você encontrou alguma informação desse tipo.

?Voz F

IPASE não. Do IPASE não.

BGBia Guimarães

Tá. Eu perguntei se ele já tinha ouvido falar da história do Picasso do INSS e ele disse que sim. Eu perguntei se ele sabia alguma coisa de um possível encontro entre Santa Rosa e Picasso que pudesse ter sido a origem do suposto autógrafo escondido pela moldura e ele disse que não. O que ele sabe é que o Santa Rosa realmente passou uma temporada na Europa e curtiu muito a bohemia parisiense.

?Voz F

Ele cita Picasso como expoente, isso eu tenho. Mas nada muito próximo do que tudo que eu pesquisei até agora.

BGBia Guimarães

Em nenhum momento ele cita que teria encontrado, por exemplo, Picasso?

?Voz F

Não, não.

BGBia Guimarães

Uma coisa que o Hildo me falou nessa conversa foi que ele tinha conhecido um familiar do Santa Rosa, um sobrinho-neto dele. Eu pedi contato e ele me passou. Em que ano que você nasceu? Só para eu fazer esse—

?Voz F

72, muito depois dele falecer.

BGBia Guimarães

O Tatsu Iwata é vice-presidente acadêmico da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo. Quando ele nasceu, o Santa Rosa, o tio-avô dele, já tinha morrido há bastante tempo, mas o Tatsu convivia com as memórias dele dentro de casa.

?Voz F

A minha avó morava com a gente, então minha avó, irmã dele, morava com a gente, e a minha bisavó também. Meu pai conviveu muito, né, meu pai era jovem quando ele faleceu, mas conviveu Desde criança. Eu acabei guardando, ficam comigo a maior parte dos documentos que, de alguma forma, a família foi preservando.

BGBia Guimarães

Ele me disse que já ouviu falar do Picasso do INSS e da possível relação do tio-avô dele com essa história, mas que ele não sabe dizer se essa reprodução veio mesmo do Santa Rosa. Eu também perguntei se nesses documentos que ele herdou, ou nas histórias de família, já tinha aparecido algum vestígio do suposto encontro do Santa Rosa com o Picasso.

FAFrancisco Azevedo

Desse encontro, não. Existe o registro da viagem dele, mas o registro do encontro efetivamente eu não tenho.

BGBia Guimarães

Seria possível que o Santa Rosa tivesse encontrado Picasso e não tivesse deixado nenhum rastro disso? Não tivesse falado para a própria família? Tudo bem, esbarrar com Picasso naquela época podia não ser um evento tão ilustre quanto a gente imagina hoje. Só que a gente está falando de um suposto encontro, que supostamente gerou um autógrafo, um autógrafo dado numa reprodução de um quadro do Picasso. Talvez nem fosse tão fácil encontrar uma boa impressão da Mulher em Branco naquela época e aquele fosse um objeto especial.

Seguindo a linha dessa hipótese, a gente imagina o Santa Rosa chegando com essa impressão que ele tinha comprado ou ganhado de alguém para pedir um autógrafo para o Picasso. Não é impossível que isso tenha acontecido sem deixar rastros. E eu fico pensando também se o Santa Rosa não pode ter ganhado aquela reprodução já autografada se essa assinatura existe mesmo, mas é um pouco frustrante ter que deixar esse mistério pelo caminho.

Outra coisa que eu perguntei para o Tatsu é se o Santa Rosa tinha ou não tinha sido funcionário do IPASE. Ele disse que, pelo que ele sabia, não. E ele também não tinha certeza se o acervo pessoal do Santa Rosa tinha ido parar no IPASE por meio de uma doação da família dele ou de uma aquisição, uma compra por parte do Ipaze. Fuçando em jornais da época em que o Santa Rosa morreu, de um ano depois da morte dele, na verdade, 1957, eu achei notícias sobre a inauguração do Museu Santa Rosa no Rio de Janeiro.

A matéria do Diário de Notícias fala que o antigo ateliê do Santa Rosa ficava em duas salas alugadas do Ipaze na Rua Santa Luzia, no centro do Rio, e que o Santa Rosa já tinha colaborado como ilustrador para revista do Ipaze. Então, como homenagem, a direção do instituto tinha resolvido transformar esse espaço, o atelier dele, num museu. Algumas matérias falam que a família do Santa Rosa teria cedido ao IPASE 3.000 volumes, como quadros e desenhos dele.

Outras falam numa aquisição por parte do instituto. De um jeito ou de outro, parece possível que o Picasso do INSS tenha vindo nesse combo. O Museu Santa Rosa foi fechado em 1977, no mesmo ano em que o IPASE acabou. As atividades do instituto acabaram sendo absorvidas por outros órgãos de Previdência Social, como o INPS e o IAPAS, que depois se fundiram no INSS, já na década de 90. Lembra que lá na época do bafafá do Picasso do INSS tinha uma das matérias da Folha que levantava a possibilidade que o quadro tivesse vindo, na verdade, de um devedor da Previdência?

Que alguém tivesse dado aquele objeto em troca de abater uma dívida, uma possibilidade que inclusive pirou a cabeça dos jornalistas no documentário do Jorge Furtado. Eu acho que essa versão da história também daria um ótimo filme.

?Voz E

Isso seria um bom lance, o cara pegar um pôster e transformar aquilo numa coisa valiosíssima para poder enganar alguém e pagar uma dívida, né? E alguém que descobre, alguém que tenta investigar, isso seria uma boa história, realmente.

BGBia Guimarães

"O que é isso?" Mas como a gente sabe bem, nem sempre a história mais intrigante, o enigma mais suculento, é o que aconteceu de verdade. "Eu acho que a história, o que aconteceu foi isso, tava num bolo de um acervo que foi tudo junto e anos depois alguém encontrou aquilo lá no meio, né?" Depois da visita no INSS, eu insisti pro pessoal da assessoria de imprensa me passar qualquer informação sobre a possível assinatura do Picasso embaixo a moldura e qualquer explicação oficial para a origem dessa reprodução.

No fim, eles conseguiram encaminhar as minhas perguntas para um servidor do INSS que é museólogo e que poderia responder pelo acervo: o Bertrand Pereira Martins. Eu me surpreendi quando ele disse que já procurou em tudo quanto é canto e que nunca encontrou no INSS nenhum registro da origem daquela reprodução. Que sim, hoje está claro que ela não passa de um poster, mas que oficialmente não existe a menor pista de onde é que isso veio.

E que ele não acha que veio do acervo do Santa Rosa. Ele acha que o quadro pode ter tido outra origem desconhecida. Sobre o possível autógrafo do Picasso num cantinho escondido do papel, o Betrami disse que quem tinha o costume de distribuir assinaturas por aí era o Salvador Dalí e não o Picasso. Eu reforcei a pergunta para ter certeza que perguntei para ele, ali na posição de um representante do INSS, se ele tava me dizendo que esse autógrafo do Picasso não existe.

E ele mandou um áudio dizendo que é isso mesmo, que essa história de que Picasso assinou não procede. Eu contei isso para o Francisco, o historiador que na época teria achado essa assinatura, e ele me disse que a assinatura tá lá assim e que o Bertrand deveria ter desmontado a moldura para ver. Garanto que ele não fez isso.

?Voz E

A dúvida continua. Continua o mistério.

BGBia Guimarães

Eu sei, pra quem embarcou nessa missão querendo acabar de vez com o enigma, eu tô deixando um monte de buraco pra trás.

?Voz E

Ainda segue a dúvida.

BGBia Guimarães

Quanto mistério cabe numa reprodução da imagem de uma mulher sentada com os braços cruzados? Inclusive, eu vi que no site do Metropolitan, o museu lá de Nova York onde tá o original, O Canal do Picasso, fala que apesar desse quadro ser reconhecido como um retrato da Sarah Murphy, algumas pistas indicam que talvez a mulher do Picasso na época, a Olga, que talvez ela tenha acreditado que aquela na pintura era ela.

?Voz D

Será?

BGBia Guimarães

Não, eu me recuso a morder essa isca. Chega de mistério. No Fake or Fortune, é engraçado ver como as pessoas, e a gente também, o espectador, É como a gente reage ao veredito final, ao chá revelação que vai dizer se aquela obra era ou não era daquele artista renomado. É curioso porque mesmo se a saga terminar com um não, com uma decepção amarga do ponto de vista da autenticidade, o quadro em si não mudou. Ele está lá, com a mesma imagem de antes.

Mas o fato da gente saber que ele é um original de um artista renomado, que ele teve uma origem considerada mais digna, Faz mudar totalmente a nossa relação com esse objeto. Faz a gente confirmar o nosso apreço por ele. Ou o contrário, faz a gente ficar arrasada e sentir que aquela tralha não vale nada.

MSMarta Salomão

Oh my God.

BGBia Guimarães

Sorry, Alice.

MSMarta Salomão

Ugh.

BGBia Guimarães

Mas sem querer passar pano pra notícia falsa ou pra dificuldade de alguns dos nossos órgãos públicos de cuidar do acervo artístico deles. E também sem querer contrariar o pessoal da arte. Não, eu sei que separar o verdadeiro do falso é importante nesse ramo, assim como é no jornalismo. Mas o sentimento é uma coisa que a gente não controla. E eu chego ao final dessa saga confirmando o meu apreço pela mulher em branco do INSS. A do Metropolitan, eu não tenho nada a ver com ela.

Eu já fico pensando que se essa reprodução for a leilão, pra mim ela já vale demais porque ela é a mulher em branco.

?Voz E

Eu compro, eu vou entrar.

BGBia Guimarães

Não, eu vou passar na frente. Mentira, a prioridade é sua, com certeza.

BVBranca Viana

Essa foi a Bia Guimarães. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Você já sabe que toda quinta tem episódio novo no ar. Quem é membro do Clube da Novela consegue ouvir um dia antes e sem anúncio. Tá aqui um spoilerzinho do que vem por aí na semana que vem.

?Voz E

Guerra Fria, qual o momento mais importante da Guerra Fria? Batalha de Olinda, claro, quando os Estados Unidos é humilhado em solo pernambucano.

BVBranca Viana

A gente quer que o Clube da Novelo fique cada vez mais legal. Além da bolsa que vem com assinatura anual, a gente está planejando mais tesouros para você. A gente também começou um Clube da Escuta, uns encontros virtuais para trazer bastidores dos episódios do Apresenta que vocês mais gostam. Além disso, já tem 3 episódios bônus no feed, exclusivos para os membros. Se quiser fazer parte do clube, no nosso site se acha todas as informações.

A gente já volta. No post desse episódio no nosso site tem links para as reportagens que a Bia coletou, para o blog onde o Jorge Furtado canto A Saga Dele com o Picasso do INSS e pro filme O Mercado de Notícias. Também tem fotos da visita da Bia lá no prédio do INSS em Brasília. Se você nunca parou para dar uma olhada no nosso canal no YouTube, fica a dica. Além de todos os episódios do Rádio Novela Apresenta, a gente publica lá várias playlists de histórias avulsas.

Vale a pena ouvir de novo, e vale mandar para aquele amigo que ainda não conhece o podcast. Tem ainda a aba comunidade, onde a gente coloca fotos relacionadas às histórias. Para quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para quem é de email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pautas para o email contato@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios.

É só escrever para a gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta uma produção original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Scarpin e da Flora Thompson de Vaux. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jaeger. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalisi e a Carolina Moraes.

A Maíra Valejo é nossa trainee criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farrar. Esse episódio teve desenho de som da Bia Guimarães, que também assina a mixagem com a Mariana Leão. Nesse episódio a gente usou música original de Kiko Dinucci e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de são Pedro Lopes e a Ellen Pimentel, a nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem!

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