Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Asteriscos

25 de junho de 202655min
0:00 / 55:55

Uma fortuna e um túmulo que não são o que parecem.

No primeiro ato: todo escritor adora mentir. Por Ricardo Terto.

No segundo ato: a lápide e o mistério. Por Vinicius Luiz.

Atualização: Após a publicação do episódio, o cineasta Rodrigo Carneiro entrou em contato com a Rádio Novelo com informações sobre a lápide de Herculine Barbin. Ela foi confeccionada para as gravações do filme Copyleft (2012), que simulou o túmulo de Herculine no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte (MG). A placa foi esquecida pela produção, gerando um mistério que durou anos. A gente conta os detalhes desse desfecho no final do segundo ato.

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Palavras-chave: mentira, infância, adolescência, literatura, Herculine Barbin, Michel Foucault, Cemitério do Bonfim, Belo Horizonte, Intersexualidade, Intersexo

Participantes neste episódio6
B

Branca Viana

Host
G

Gabriel Andrade

ConvidadoComediante stand-up
L

Luiza Redo

ConvidadoAntropóloga, arqueóloga, pesquisadora
R

Ricardo Terto

ConvidadoEscritor
S

Sarug Daji

ConvidadoProfessora de psicologia
V

Vinicius Luiz

ReporterJornalista
Assuntos6
  • O mistério da lápide em BHHerculine Barbin · Cemitério do Bonfim · Michel Foucault · Pessoas intersexo · Vinicius Luiz · Luiza Redo · Gabriel Andrade
  • A vida e o legado de Herculine BarbinO diário de Herculine Barbin · A condição intersexo no século 19 · O papel da medicina e do direito · O suicídio de Herculine Barbin · Sarug Daji
  • A mentira invalida a graçaA história da Telecena · O parto com fórceps · A natureza da mentira · Ricardo Terto
  • A Investigação das Profanações de TúmulosInvestigação no Cemitério do Bonfim · Registros de sepultamento · A hipótese de Evelyn Barbão
  • Rodrigo AshuisFunção original do asterisco · Uso moderno do asterisco
  • Vivência pessoal e registro de crianças intersexoResolução do Conselho Federal de Medicina · Associação Brasileira Intersexo · Debate sobre cirurgias em crianças intersexo
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BVBranca Viana

Rádio Novela. Bem-vindo ao Rádio Novela Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Mais de 2.000 anos atrás surgiu uma invenção que a gente usa até hoje. O nome dela significa "pequena estrela". E ela foi inventada por um estudioso da Biblioteca de Alexandria, basicamente para significar que tinha alguma coisa errada. Num manuscrito de poesia, se tinha uma linha duplicada, uma linha faltando, ou se a sequência do texto não fazia sentido, botavam esse sinal: a pequena estrela ou o asterisco.

Hoje em dia, o asterisco joga nas onze. Ele marca nota de rodapé, ele censura palavrão, ele tem funções matemáticas, linguísticas, até religiosas. Em alemão, o asterisco até facilita o uso de linguagem neutra. Só não me peça pra explicar como se pronuncia. Mas eu acho que a função original do asterisco talvez continue sendo a mais forte. Quando tem uma frase e depois um asterisco, você sabe que tem mais história ali pra ser contada, se você quiser ir atrás.

Essa outra história pode estar numa nota de pé de página ou enterrada na bibliografia. Aquela pequena estrela pode fazer às vezes de um buraco negro inteiro. Uma toca do coelho. Tem asterisco que a gente segue e quase que não volta mais. No episódio de hoje, a gente traz duas histórias que vêm com asterisco junto. Dá pra dizer que na primeira, a pequena estrela significa "talvez não tenha sido bem assim". E na segunda, ela significa Tem muito mais história aqui.

Mas em nenhum dos dois casos é fácil desvendar exatamente o que rolou. Quem conta a primeira história é o Ricardo Terto. Isso daqui a pouquinho.

?Voz B

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?Voz C

Nos anos 90, a gente não tinha bets, mas já tinha a Telecena do Silvio Santos.

BVBranca Viana

Telecena, telecena, eu sou quem há na Telecena.

?Voz C

O domingo só tinha permissão para acabar depois do sorteio da Telecena. E da constatação de que você tinha acertado não mais do que dois números na cartela. Pelo menos foi assim com meu pai ao longo dos muitos anos em que ele jogou religiosamente nesse título de capitalização. Até hoje eu não sei o que significa título de capitalização, mas algo me diz que o tempo de fazer essa descoberta já passou. Fato é que a gente sempre tinha esperança de que esse dia mágico ia chegar.

O dia que a assistente do palco do Silvio Santos ia mostrar pra câmera, bolinha por bolinha, Cada um dos números que meu pai tinha apostado. E aí a gente ia ganhar um baita dinheiro. A gente ia ser rico, finalmente. Esse dia nunca chegou. Mas eu meio que fiz ele chegar. Tinha uns moleques valentões na escola que implicavam comigo praticamente todo dia. Eles faziam bullying comigo porque, ainda que todo mundo ali tivesse crescendo no bairro de Guaianazes, no extremo leste de São Paulo, eu tinha ainda menos dinheiro que eles, que já tinham pouco.

Rolavam sempre umas piadas sobre eu usar sempre as mesmas roupas e não ter dinheiro nem pro fiperama. Até que um dia eu me rebelei. Pra ganhar respeito dos moleques, eu resolvi dizer que meu pai tinha ganhado na Telecena, que aquela grande sorte de domingo tinha nos visitado, que eles podiam falar o que eles quisessem sobre mim, que eu não me importava mais, porque eu já tava de saída daquela escola e que eu ia até mudar de bairro.

Na minha cabeça, era isso que as pessoas faziam quando ganhavam na Telecena. É claro que eles não compraram a história tão fácil. Eles riram: "Ah, tá, aham, beleza." Mas eu caprichei na indiferença, tipo: "Tanto faz se vocês acreditam ou não." Então eles ficaram, no mínimo, intrigados. E eu notei alguma coisa no olhar deles. Uma espécie de excitação. Como se, no fundo, no fundo, Eles quisessem acreditar que uma coisa legal assim pudesse acontecer com alguém que nem a gente.

E aí eu não resisti. Eu aproveitei essa pequena brecha da esperança deles e dobrei a aposta. Eu falei que naquele final de semana eu ia estar no shopping comprando umas coisas, quem sabe até um Super Nintendo. E que eles podiam ir junto se quisessem. Mais do que isso até. Eu disse que, como despedida, eu ia dar um presente pra cada um. O que eles quisessem. Camiseta, televisão, videogame. Claro, só escolher. Eu não sei o que eles pensaram nessa hora.

Se foi mais pro lado do "vamo ver até onde esse moleque vai com essa história" ou mais pro "vai que ele tá falando a verdade". Bom, provavelmente foi a primeira opção, né? Mas o que eu sei é que meu antagonista, o líder do bando dos valentões, ele tomou uma atitude que eu não tava esperando. No sábado de manhã, o dia das supostas compras, ele apareceu na porta da minha casa junto com outros 3 moleques, mais o pai e o tio dele numa van.

"E aí, bora pro shopping?" Não teve jeito. Eu tive que triplicar a aposta. Eu entrei na van e mandei tocar pro shopping Tatuapé. Foram horas tensas. Eu entrava numa loja, olhava as coisas, e aí eu falava que ia comparar com o preço da loja ao lado. Televisão, bola, tênis, roupa, discman. Até que uma hora já não dava mais pra enrolar. Num ato de desespero, eu propus da gente comer um lanche no McDonald's. Tudo por minha conta, é claro.

Praça de alimentação lotada. Eu falei pra eles pegarem uma mesa enquanto eu ia pra fila fazer o pedido. E ali, no meio da multidão, Eu sumi. Eu contei essa história com mais detalhes no livro "Brincadeira Sem Futuro", que eu lancei pela Todavia em 2024. É uma coletânea de crônicas sobre como foi crescer na Zona Leste de São Paulo na década de 90. Sabe aquela coisa que todo mundo tem pelo menos uma grande história pra contar? Bom, eu acho que todo mundo tem centenas de pequenas grandes histórias pra contar.

Muitas das minhas histórias eu transformei em crônicas. Tipo essa da telecena. Ou da vez em que eu fiquei preso num cano embaixo da terra porque resolvi brincar de atravessar ele enquanto estavam asfaltando uma rua no meu bairro. Tem também a do meu primeiro emprego ter sido vendedor de geladinho. E de como eu fui rapidamente demitido depois de consumir todas as unidades antes de conseguir vender. E aí, uns meses atrás, a Bia Guimarães, que trabalha na Rádio Novelo e que eu já conhecia de outras empreitadas, "Ela leu meu livro e veio me cutucar no WhatsApp." "Ela tava encafifada com essa história da mentira da Telecena." "Ela tava meio..." "Pera, mas isso aqui aconteceu desse jeito mesmo?" "Como assim?" "E na segunda-feira você chegou na escola e fez o quê?" Desde que eu comecei a publicar e que as pessoas que eu conheço começaram a me ler, eu escuto muito esse tipo de pergunta.

Talvez todo cronista escute, ou mesmo todo escritor. Todo escritor adora mentir. Isso não significa que a gente seja pessoas horríveis. Nem todos, pelo menos. Mas em maior ou menor grau, todo escritor tá sempre tentando aprender a mentir melhor. Então eu entendo a curiosidade da pergunta. Essa sede de tentar entender a fronteira entre a realidade pura e a pitadinha de ficção. Só que a resposta pro "pera, mas isso aqui aconteceu desse jeito mesmo?" Ela não é assim tão simples.

E vou precisar me alongar um pouco aqui. Era manhã de 26 de abril de 1985, 5 dias depois da morte do Tancredo Neves e Dia do Goleiro. Depois de uma noite de fortes contrações, a minha mãe foi levada para o hospital. A tarefa de trazer ao mundo aquela minúscula porção de gente que um dia se tornaria este narrador não foi fácil. Sendo teimoso e/ou preguiçoso desde antes do berço, Eu compliquei o processo do parto a ponto de precisar de uma interferência invasiva.

Tiveram que usar o fórceps. Sabe aquele instrumento médico que é tipo uma pinça imensa? Tiveram que usar isso pra me arrancar de dentro da minha mãe. No processo, eu acabei ficando com um pequeno afundamento no crânio, o que me rendeu uma certa dificuldade em manter o cabelo curtinho. E tava inaugurada ali a minha relação com o mundo. Ao longo da vida, eu pensei muitas vezes no que essa história de origem significava. Um menino nascido na marra, a fórceps.

Essa acabou virando uma história especial pra mim. Até que um dia, no almoço de Natal, tava todo mundo conversando na mesa e eu falei: "Mãe, conta de novo sobre o dia do parto, de quando tiveram que me tirar com fórceps." E ela falou: "Não, mas quem nasceu de fórceps foi a sua irmã." A minha reação foi, sei lá, achar que minha mãe tava se confundindo. Mas ela não parou por aí. Ela disse que na verdade eu nasci sem enredo nenhum.

Que foi um parto absolutamente tranquilo. Diz ela que meu pai foi fumar um cigarro na frente do hospital por causa da ansiedade e quando ele subiu de volta eu já tava ali no mundo, sossegado. E o meu afundamento craniano? Ninguém sabe. Não existe uma história de família sobre isso. Uma das funções mais nobres da mentira talvez seja preencher lacunas. Dá conta das coisas que a gente não sabe explicar. Mas eu também gosto de pensar que por trás da mentira existe algo muito humano e muito sensível: a nossa capacidade de imaginar.

De imaginar histórias e também imaginar o que os outros estão imaginando. E isso, ah, isso é mais viciante que açúcar e gordura hidrogenada. Um belo dia, quase sem perceber, você contou a sua primeira mentira. E pronto, a sua infância ganhou mais cor. Quando a gente é criança, a gente até fala de coisas de mentirinha. Casinha de mentirinha, monstro de mentirinha, comidinha de mentirinha. Mas a mentirinha é tão interessante que às vezes, mesmo sabendo que aquilo é de mentira, você vai lá e experimenta o bolo de lama que você fez no chão no quintal.

Com a boca suja de terra e ainda sem dominar totalmente a arte da atuação, você é pego no ato. E você diz que não, você não tava comendo porcaria. Nesse lindo momento da sua vida, você deduziu intuitivamente o que estava passando na mente de outra pessoa, provavelmente a sua mãe ou seu pai. E você supôs, com base na sua experiência de 4 ou 5 anos de vida, que eles não iam gostar de saber que você botou na boca aquela sujeirada.

Que você provavelmente ia levar uma bronca por isso. Pra fugir da punição, pra manter a ordem familiar intacta, você declara algo que não condiz com a realidade. "Eu não tô comendo lama." Assim, na cara dura. Eu saí daquele almoço de Natal sabendo que eu tinha roubado a história do nascimento da minha irmã, que eu tinha me apegado a ela e que eu tinha criado uma série de ficções que explicavam ou davam uma certa dimensão pra minha personalidade.

Só que tinha sido um mal-entendido. Eu não sei se você já passou por isso, mas é meio amargo descobrir que uma coisa não aconteceu exatamente do jeito que você lembrava. Ainda mais se o jeito que você lembrava era muito mais interessante do que a verdade. Mas com o tempo eu cheguei à conclusão de que, na verdade, eu não tinha perdido uma história. Com um pouco de brilho aqui e um acabamento ali, dava pra dizer que eu tinha ganhado uma história.

A história de uma criança que nasceu no tempo de um cigarro. Cá entre nós, eu acho que essa história também não tem muita cara de verdade. Ainda mais que meu pai era fumante a vida toda. Ele devia fumar um cigarro em segundos, especialmente se ele tivesse ansioso. Então a cena não deve ter sido bem assim, mas eu gosto do jeito que ela é contada. "Eu nasci no tempo de um cigarro." É bonito isso. Eu vou colocar na minha bio qualquer dia.

A gente cria ficções o tempo todo. Nem todas a gente chama de mentira, mas eu acho que elas fazem parte da mesma família. Quando você conta uma história que aconteceu com você, Mesmo se você tenta ser fiel aos eventos, em alguma medida você está botando as suas memórias para conversar. E aí você dá uma preenchidinha nas lacunas. Ou então você passa uma demão extra de verniz para deixar as coisas mais interessantes. Mesmo sem perceber, e mesmo quando a coisa já é interessante por si só, que nem Liana Telesena.

Isso é ficção. Quando você simula o que pode acontecer se você fizer uma outra escolha na vida, isso também é um pouco ficção. Quando você tenta imaginar o que está passando na cabeça de outra pessoa, e aí você imagina o que essa pessoa está pensando de você, e num segundo você está brigando com uma versão imaginária do seu vizinho ou do seu chefe, dando respostas afiadíssimas que nunca te ocorreriam na hora H, isso é ficção. E não é que não existe uma realidade objetiva, esse não é meu ponto.

Sim, as coisas existem, caso você tenha dúvida a respeito. Coisas existem, pode ficar sossegado com isso. Mas elas existem mergulhadas em ficção. Talvez não em grandes jornadas, não em grandes arcos, mas em ficções... efêmeras, digamos assim. O que eu quero dizer com tudo isso é que todo mundo anda por aí com a cara pelo menos um pouquinho suja de terra. Faz parte da vida. Eu fico até triste de pensar que hoje, com as redes sociais e com as pessoas registrando tudo o tempo todo, as pequenas ficções cotidianas não têm espaço pra acontecer.

Porque elas precisam de lacuna. De mistério. E isso tá em falta. Aquela história do meu pai ter ganhado na Telecena jamais aconteceria hoje. Primeiro que ia ser fácil de me desmentir em 2 cliques. Segundo que a gente não ia ter que ir em shopping nenhum. A coisa ia ser resolvida numa meia dúzia de links, pics e um abraço. Terceiro que o público da empreitada ia ser muito maior. Quarto que tudo isso ia ser registrado e, dependendo do desdobramento, ia ficar disponível na internet por muito tempo.

É o fim de uma era pra mentira. Pelo menos pra esse tipo de mentira. Eu ainda tô devendo a resposta daquela pergunta da Bia, né? Se a história da Telecena aconteceu mesmo e com que cara eu apareci na escola na segunda-feira depois da fuga na fila do McDonald's. Bom, ela aconteceu. Mesmo. Depois eu lembro de ter faltado uns dois dias na escola. Eu tava com medo de apanhar dos caras. Mas eu não apanhei. Quando finalmente apareci, eles vieram tudo debochado, dizendo que eles sabiam desde o começo que era tudo invenção minha e que eles deram corda só pra me zoar.

Mas eu não sei não. Eu acho que eu vi um vestígio de lama no cantinho da boca deles.

BVBranca Viana

Esse foi o Ricardo Terto. A Bia Guimarães trabalhou com ele na adaptação dessa história. O Ricardo acabou de lançar o primeiro romance dele. O título é A Fortaleza dos Homens Borracha. Saiu pela Editora Fósforo. A gente volta já já.

?Voz B

Sabe aquela sensação de passar um tempão rolando a tela procurando alguma coisa para assistir e no fim acabar voltando para a mesma série de sempre? A gente aqui na Novelo também conhece bem esse loop. Mas tem um jeito melhor de escolher o que assistir. A Rádio Novelo se juntou à MUBI, um serviço global de streaming, pra te ajudar nessa escolha. A MUBI é o lugar pra quem quer descobrir filmes e séries escolhidos a dedo por um time que ama o melhor do cinema.

Você pode rever Twin Peaks, do David Lynch, encontrar Paris, Texas, do Wim Wenders, agora restaurado em 4K, ou descobrir produções mais recentes como Pai e Mãe, Irmã e Irmão, do Jim Jarmusch, e Os Anos Novos, uma série espanhola sobre amor, muda de uma virada de ano para outra. E agora uma oportunidade incrível: de 26 de junho a 6 de julho você aproveita 70% de desconto todos os meses por 6 meses. Acesse mubi.com/novelo e assista ao melhor cinema.

?Voz D

Durante todo o mês de junho, os episódios do Rádio Novela Apresenta chegam a você com o patrocínio da Airalo, Líder mundial em e-Sims. Quem gosta de uma boa história sabe que os melhores capítulos de uma viagem costumam acontecer quando a gente sai da rota turística. Mas, para se perder com segurança e realmente mergulhar na cultura local, seja achando aquele restaurante escondido no México ou entendendo uma placa de sinalização em Tóquio, para tudo isso você precisa estar conectado.

Antigamente, a primeira coisa que a gente fazia ao pousar era caçar um balcão de aeroporto para comprar um chip ou implorar por uma senha de Wi-Fi. Quem nunca se pegou gastando seu portunhol num "por favor, la senha"? Mas você sabe que isso não precisa acontecer, né? Hoje em dia dá pra usar a Airlo, a líder de eSIMs do mundo. É um chip digital. Você baixa o aplicativo, compra um pacote entre os mais de 200 destinos disponíveis, instala o eSIM e já sai do avião com internet.

Sem taxas surpresas. Despesa de roaming. Não precisa nem pausar o podcast que você tava ouvindo. A Airlo tem pacotes locais, regionais e globais, e a instalação é super simples e leva poucos minutos. Então, na sua próxima viagem, já sabe: tenha internet ilimitada neste verão com airlo.com. A-I-R-L-O.com.

BVBranca Viana

Na segunda parte do episódio, a frase com asterisco não tá num livro nem numa matéria de jornal. Ela tá numa lápide. Quem leva a gente por esse caminho investigativo é o Vinícius Luiz.

VLVinicius Luiz

Olá, gente, tudo bom? Como é que tá?

?Voz F

Tudo bom?

GAGabriel Andrade

Vamos a pé mesmo?

VLVinicius Luiz

Vamos a pé mesmo? É muito longe?

GAGabriel Andrade

É um pouquinho, mais ou menos.

VLVinicius Luiz

Olha, eu tava conversando aqui com a Luiza... Nem era tão longe assim, mas gastava uma caminhada. A gente tava entrando no Cemitério do Bom Fim, o mais antigo de Belo Horizonte. E no planejamento inicial da cidade era pra ele ficar afastado da área central, pra deixar bem demarcado onde era a cidade dos mortos e onde era a cidade dos vivos. Mas acontece que Belo Horizonte cresceu, E essa divisão deixou de ser tão evidente. Quer dizer, o cemitério tá ali, dividindo espaço com vários bairros, mas não tem ninguém morando lá dentro.

Ninguém vivo, no caso. Nessa visita ao Bonfim, eu tava acompanhado da Luísa, que você já vai conhecer, e do Gabriel Andrade.

GAGabriel Andrade

"Desde criança eu sempre tive essa coisa com cemitério, talvez por ser de cidade do interior, cemitério ele é um ponto turístico das cidades, né?" Gabriel é comediante stand-up e faz vídeos pras redes sociais. Qual era, né? Eu já tenho costume de gravar conteúdos aqui no cemitério, né, por causa da minha esposa, principalmente, que ela é umbandista, sempre tá vindo por aqui. E aí eu ficava aqui sem fazer nada e comecei a fazer piada com os túmulos aqui e tal, obviamente sempre respeitando o espaço que eu tô, né?

Mas falando de um espaço desse que é lindo, que Belo Horizonte tem uma sorte gigante de ter, mas as pessoas só exploram para chorar, né?

VLVinicius Luiz

E quando você vem aqui assim, que que mais te chama atenção assim nos nos túmulos? O que que você costuma procurar?

GAGabriel Andrade

Cara, acho que principalmente os mausoléus, né? Assim, são estruturas muito bonitas, né? Estruturas muito grandes. Desde criança.

VLVinicius Luiz

Só que a gente não tava ali só para falar do gosto do Gabriel por mausoléus bonitos. Mas me conta assim, quando você ficou sabendo, quem te falou? Falou o quê para você?

GAGabriel Andrade

Sim, foi um amigo meu, chama Laer. Ele é baixista de uma banda. Eu sou músico também, então conheço bastante banda de Belo Horizonte. E aí ele veio pra cá pra gravar um conteúdo sobre um outro túmulo que tem aqui, que é um túmulo famoso também por ter saído já num disco de death metal bastante conhecido de uma das bandas do gênero de Belo Horizonte.

VLVinicius Luiz

É o túmulo que ilustra o primeiro disco da banda Sarcófago.

GAGabriel Andrade

E aí ele quase que literalmente tropeçou nesse túmulo, que é razoavelmente perto.

VLVinicius Luiz

Esse tropeço do amigo do Gabriel foi o que motivou a nossa visita. É que o amigo ficou intrigado com aquele túmulo e passou a dica pra ele. E o resultado disso tá num post do Gabriel no Instagram do dia 5 de abril agora de 2026.

GAGabriel Andrade

Tô aqui no Cemitério do Bonfim, Belo Horizonte, cemitério muito famoso, na quadra dos famosos, ó. Aqui tá o Legado Maciel, pro lado de cá fica a família de Juscelino Kubitschek. Tá bem difícil de ler, mas eu vou tentar ler junto aqui com vocês, ó. Herculine Barbini, hermafrodita do final do século 19, que diante da exigência médica de eleger entre seus sexos se churrascou, né? A palavra que tá escrita aqui que o Instagram não gosta que fale.

VLVinicius Luiz

O que a placa diz é que Herculine Barbin, não Barbine, se matou.

GAGabriel Andrade

Só que tem uma coisa interessante que não tá dita aqui, que é o seguinte: quando você pesquisa o nome dela, você encontra um livro e também um Wikipédia, e aqui fala que ela morreu em Paris. E em lugar nenhum eu encontrei como que esses restos mortais vieram parar aqui em Belo Horizonte.

VLVinicius Luiz

Esse post do Gabriel acabou viralizando. Vários amigos me mandaram, algumas pessoas marcaram a Rádio Novelo no post também. E um ouvinte, o Leandro Moreira, mandou a sugestão por email falando que a história tinha tudo a ver com a gente. E tinha mesmo. Por isso que eu tinha juntado essa turma no Bonfim. Porque entre as mais de 17 mil sepulturas do cemitério, uma é dedicada a essa figura que viveu na França um século e meio atrás: Herculine Barbin.

Ela morreu em 1868, quando nem Belo Horizonte nem o Cemitério do Bonfim existiam. E ela ficou famosa por ter deixado um diário. O manuscrito sobreviveu porque um médico encontrou e publicou em um livro de saúde pública. Décadas depois, ele foi analisado e publicado pelo Michel Foucault com o título "Herculine Barbin, O Diário de uma Hermafrodita". E aliás, esse termo "hermafrodita" não é mais utilizado para a condição em que a pessoa nasce com características e órgãos dos dois sexos.

O termo utilizado hoje em dia é "pessoa intersexo". Antes de conferir o túmulo, eu li tudo que eu encontrei sobre Herculine. E já já você vai entender porque que eu chamo ela de ela por aqui. Mas eu tinha muitas perguntas. Como é que a lápide de uma pessoa que viveu e morreu na França foi parar aqui em BH? E se tem alguém enterrado ou enterrada debaixo dessa lápide, quem foi essa pessoa? Naquele vídeo do Gabriel que viralizou, um comentário me chamou atenção, o de uma pesquisadora contando que ela tava atrás dessas respostas há mais de 10 anos.

Daí, quando eu marquei de ir no cemitério com Gabriel, eu chamei ela para vir com a gente.

LRLuiza Redo

Meu nome é Luiza Redo, eu sou antropóloga, arqueóloga, pesquisadora, sou doutora em antropologia, sou daqui de Belo Horizonte mesmo.

VLVinicius Luiz

A Luiza pesquisou a arqueologia dos cemitérios no mestrado e no doutorado, que ela fez na UFMG, com foco especial no Bonfim.

LRLuiza Redo

Acabei encontrando esse túmulo depois de várias visitas. Eu pesquisava esse cemitério já desde 2012. Encontrei esse túmulo somente em 2014.

VLVinicius Luiz

E você encontrou ele como? Por acaso?

LRLuiza Redo

Por acaso, andando por essa quadra aqui, igual a gente está fazendo aqui agora, andando. Aí eu falei: "Nossa, mas muito diferente, né, se olhar aqui assim." Explica assim, por que ele é diferente dos outros? Ele é muito diferente porque essa é uma quadra de mausoléus, é uma quadra da elite mineira. Então assim, a maioria dos túmulos aqui não tem como você nem colocar preço neles, são de mármore italiano, são feitos por artistas renomados, pelo menos no início do século, dessa cultura mais artesanal de feitura de túmulos, de adornos funerários.

E esse túmulo ele tem 23 centímetros, tem 3 tijolos em cada lateral dele, né, e cada fim dele.. Ele é um túmulo que se destaca pela oposição completamente. É um túmulo que não tem nenhum adorno funerário além dessa lápide.

VLVinicius Luiz

A Luísa já tinha se deparado com os textos do Foucault sobre Herculine durante as pesquisas dela. Então a surpresa foi ainda maior.

LRLuiza Redo

Então me chocou muito, tá, esse nome deslocado aqui nesse cemitério. Foi uma coisa de total surpresa. E uma necessidade urgente de pesquisar. O que que era isso? Onde que isso vai dar?

VLVinicius Luiz

Você chegou a suspeitar se o corpo que tá aqui dentro era dela mesma?

LRLuiza Redo

Não, nunca achei que era uma coisa assim biográfica dela. Até porque os restos dela estão na França. Os restos mortais dela estão na França, documentados.

VLVinicius Luiz

Sim, e aí você procurou saber assim com o pessoal do cemitério? Como é que foi?

LRLuiza Redo

Sim, eu fiz algumas entrevistas com vários coveiros, inclusive coveiros que trabalham aqui há mais de 60, 70 anos, e nunca relataram uma visita nesse túmulo.

VLVinicius Luiz

Em 2015, saiu uma matéria no jornal O Tempo, daqui de BH, sobre o mistério envolvendo o túmulo. O título era: "Suposto hermafrodita enterrado no Bonfim intriga estudiosa". Ele falava sobre o começo dessa busca da Luísa. E você chegou a ter alguma pista sobre quem poderia ter colocado essa placa aqui?

LRLuiza Redo

Amiel acredita que pode ser alguém do movimento mesmo.

VLVinicius Luiz

Amiel é o Amiel Vieira, sociólogo e ativista intersexo. E ele acredita que pessoas do movimento intersexo teriam colocado a placa ali, só não se sabe quando.

LRLuiza Redo

É, mas eu acho que seria algum familiar que por outros familiares talvez foi obrigado a manter essa pessoa longe do túmulo, do mausoléu de uma família tradicional mineira igual a gente vê aqui, porque é uma pessoa da elite, da elite cultural, da elite econômica, uma pessoa que tinha conhecimento ou de Foucault ou da própria figura de Herculine Barbin.

VLVinicius Luiz

Ou seja, que podia ser alguma pessoa intersexo que foi excluída da família mesmo depois da morte e que algum parente resolveu homenagear de um jeito torto com a placa que faz alusão a Herculine Barbin. Não, mas aqui você tem registros de outras pessoas intersexo enterradas aqui?

LRLuiza Redo

Não, não tem. Já perguntei para os coveiros e para a administração também. Mas é uma coisa que a família tem esse controle após a morte e a família muitas vezes altera e tenta encaixar essas pessoas em uma dessas categorias excludentes de gênero feminino ou masculino.

VLVinicius Luiz

E você fala que BH no início do século 20 foi noticiado como uma cidade que era possível fazer cirurgias para definição de um sexo. Como é que foi isso?

LRLuiza Redo

Tem um médico na faculdade de medicina, eles têm na biblioteca vários registros disso, um médico, o Dr. David Rabel, ele fazia várias cirurgias de redesignação de sexo e Belo Horizonte ficou conhecida até sarcasticamente, cronicamente nos jornais como uma cidade que uma "franzina moça virava um guapo rapaz", entre aspas. Esse médico ficou super famoso pelo Brasil.

VLVinicius Luiz

O fato de Belo Horizonte ter se tornado uma cidade em que era possível fazer cirurgia de mudança de sexo ainda no início do século 20 pode dar pistas de por que aquela placa foi parar ali, mas não dá resposta definitiva.

GAGabriel Andrade

É muito triste, né? Imaginar que familiares se reuniram diante da morte de uma pessoa e falou: "Não, a gente quer fingir que essa pessoa nunca existiu na nossa família." Por uma condição biológica que é inevitável. E mesmo se não fosse só biológica, se fosse uma questão de gênero, qualquer coisa.

VLVinicius Luiz

Eu tenho uma hipótese. Ai, eu quero ouvir sua hipótese. Minha hipótese tinha a ver com o filme O Céu Sobre os Ombros, que foi a primeira sinapse que eu fiz quando eu vi o vídeo do Gabriel no Instagram. O filme foi rodado aqui em Belo Horizonte. Ele coloca pessoas reais pra interpretar situações das próprias vidas, ali no limite entre o documentário e a ficção. Tem a história de um Hare Krishna que é atendente de telemarketing e chefe de torcida de futebol.

Tem um imigrante angolano que vive às custas da mulher e sonha em ser escritor. E tem também a de uma mulher trans que se divide entre a pesquisa acadêmica e a prostituição. O nome de guerra dela era Evelyn Barbão. Que eu sempre achei que Barbão fosse assim, o corpo dela de Barbie, eu não ligava uma coisa na outra. E aí eu fui olhar o látice dela, ela tá pesquisando, ela já pesquisou desde a graduação o diário. E eu fiquei assim, será?

GAGabriel Andrade

É uma teoria, né, como tantas outras, mas uma teoria muito forte.

VLVinicius Luiz

Aí eu vou ligar para ela, vou perguntar se tem alguma coisa a ver com isso. Na verdade, eu mandei um e-mail. A Evelyn Barban do filme é a professora Sarug Daji, que dá aula de psicologia na Universidade Federal do Tocantins. Eu só disse que queria falar com ela sobre Herculine Barban e ela topou.

?Voz F

Então, a pegada do estudo da Herculine Barban foi muito pautada pelos estudos dos clássicos, tentando elevar o texto dela ao estatuto de um texto da autobiografia como um texto literário.

VLVinicius Luiz

E antes de entrar no assunto do túmulo, eu aproveitei que estava conversando com uma especialista para entender melhor quem foi Herculine Barbin.

?Voz F

Se a gente fosse definir, Herculine Barbin foi um indivíduo que viveu ali no século 19 e foi justamente numa época em que três grandes saberes, poderes, estavam interessados pelo verdadeiro sexo das pessoas, que era a Igreja, a Medicina e o Direito. E aí tava tendo meio que um caça às bruxas a esses indivíduos que ficavam ali no limbo de uma não identidade.

VLVinicius Luiz

O verdadeiro sexo, que depois o Foucault foi descrever no livro dele, é uma ideia binária, ou seja, dentro dessa ideia só tinha dois tipos de corpo, macho e fêmea, e dois gêneros, masculino e feminino, sem espaço para nada no meio disso. A Herculine nasceu em 1838 no interior da França, e apesar de ter mãe, Herculine passou quase toda a vida como interna em colégio de freiras.

?Voz F

Então ela foi educada a vida inteira para ser uma menina.

VLVinicius Luiz

Quando ela entrou na puberdade, ela não começou a menstruar e os peitos dela não cresceram. Mas até aí, cada corpo é um corpo, né?

?Voz F

E aí ela estudou magistério para ser professora, e aí ela consegue um trabalho no colégio, no internato para meninas, e aí ela apaixona pela filha da dona da da escola, a Sarah.

?Voz C

Após as orações, quando as alunas já estavam dormindo, eu e Sarah costumávamos conversar durante horas.

VLVinicius Luiz

Esse é um trechinho do diário dela, na tradução de Irlê Franco, lido pela Caia Maria Coelho.

?Voz C

Eu ia para sua cama e minha felicidade era dar a ela os pequenos cuidados que uma mãe dá ao seu filho. Pouco a pouco adquiri o hábito de despí-la. Tirasse ela um alfinete sem mim, I am morria de ciúme.

VLVinicius Luiz

A Sarah e a Herculine viraram amantes, o que obviamente deu o que falar. Nessa altura do campeonato, a Herculine ainda se entendia como mulher, mas aos 20 e poucos anos ela começou a sentir muitas dores, dores físicas mesmo. E quando ela foi examinada por um médico, ele levou um susto e falou que ela não podia estar num colégio de meninas. Num primeiro momento, Ela não fez nada, mas depois ela ficou com a consciência pesada e procurou um padre.

?Voz F

Ela era uma mulher muito religiosa, tinha sido criada por freiras, então ela vai se confessar para o padre e vai se dizer: "Olha, eu sou um homem, eu não sou mulher." E aí o padre, a Igreja, o saber da Igreja e o contexto da época, para fazer uma caça às bruxas, aos indivíduos hermafroditas, e solicita que ela seja examinada por um médico.

?Voz C

Em seguida, dirigiu algumas palavras de encorajamento à minha pobre mãe, cuja perplexidade chegará ao auge. "A senhora perdeu sua filha, é verdade", disse ele, "mas ganhou um filho que não esperava".

?Voz F

E a genitália dela era predominantemente masculina, era mais masculina do que feminina. E nisso vai cair na mão do judiciário, vai cair na mão do juiz que vai decidir a vida dela.

VLVinicius Luiz

O juiz decide que a partir dali, de 1860, ela ia deixar de ser Herculine. Agora ela ia ser Abel. Até nos próprios diários ela passa a se tratar no masculino.

?Voz F

Só que com isso veio a prerrogativa de que ela não poderia mais exercer a profissão.

VLVinicius Luiz

A profissão de professora.

?Voz F

E ela era muito franzina, ela tinha um corpo muito frágil, era um ser doente, era anêmica, era... Então, nenhuma profissão masculina ela conseguia exercer, porque as pessoas tinham medo.

?Voz C

Acho que já disse tudo a respeito dessa fase da minha existência. Em que pertencia ao sexo feminino. Estes foram os dias felizes de uma vida consagrada ao abandono e ao frio isolamento.

VLVinicius Luiz

É por isso que eu preferi usar o pronome feminino para tratar Herculine aqui. Se ela se sentia feliz assim, é assim que vamos falar sobre ela. Eu entendo assim, e ainda bem que muita gente hoje em dia entende assim também. Mas o tempo dela foi outro.

?Voz F

Oh meu Deus!

?Voz C

Que destino meu! Mas o desejo é assim e eu me calo.

VLVinicius Luiz

Em 1868, Herculine foi encontrada em casa ao lado de um fogareiro a carvão. Tudo indica que ela tenha se matado.

?Voz F

Então ela sentiu muito o estigma da época e o tipo de suicídio que ela cometeu, e aí eu trago isso no meu trabalho, pegando Durkheim, aquele texto sociológico maravilhoso sobre suicídio, a gente pega um tipo de suicídio que Durkheim fala que é o suicídio sugerido pela coletividade. Então, o coletivo sugeriu ou indicou a ela A morte. O grupo, a sociedade, não tinha espaço para ela ali. Então, o caminho era o suicídio, era inevitável.

VLVinicius Luiz

Antes de morrer, a Hecurine tinha procurado trabalho em vários ramos: numa empresa ferroviária, em escritórios, como camareira.

?Voz F

Então, ela não se adaptou às profissões masculinas e o que restou a ela foi virar uma mendiga. Foi um mendigo de rua. E o passeio preferido dela, onde ela gastava a maior parte do tempo, era passeando naquele cemitério muito famoso em Paris que se chama Père-Lachaise. É um cemitério que é um museu ao céu aberto, tem muita obra sacra nos túmulos. E aí ela fica ali passeando no cemitério, E nisso ela vai escrever na vida dela.

VLVinicius Luiz

É muito curioso você falar isso sobre ela visitar o cemitério, porque essa pauta nasceu pelo seguinte: aqui no Cemitério do Bonfim tem um túmulo que tem uma placa dedicada a Herculine da Paz.

?Voz F

Oh, olha só, interessante! Não sabia, e olha que eu já passei muito no Cemitério do Bonfim. E o Cemitério do Bonfim, ele é muito— é difícil até a gente falar de semelhança, mas ele lembra o Père Lachaise, pelas esculturas em bronze, pelaquela pompa, toda aquela majestade que tem nos mausoléus.

VLVinicius Luiz

Eu não cheguei a falar explicitamente para Sarug que eu suspeitava que ela tinha alguma coisa a ver com a lápide de Herculine Barbin, Porque a surpresa dela pareceu genuína. E porque eu achei que podia parecer meio doido da minha parte. Mas eu achei bom conversar com ela pra entender melhor quem foi essa pessoa que não se adaptou ao mundo. Na verdade, quem foi essa pessoa que viveu num mundo que não tinha a menor intenção de se adaptar a ela.

Bom, se a Sarug nem sabia do epitáfio lá do Bonfim, Ainda tinham algumas pessoas que talvez pudessem saber. Primeiro eu fui bater no IEFA, Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. Em 2010, eles fizeram um inventário sobre os túmulos mais emblemáticos do Bonfim. O túmulo de Herculine Barban não tá entre os jazigos que eles destacaram na pesquisa deles. E eu quis saber o porquê. Eles falaram que o túmulo não tinha feito parte do primeiro levantamento deles.

Depois, eles até incluíram, mas não tinham nenhuma documentação sobre a origem ou a motivação da homenagem. A parte mais interessante da resposta deles para mim era que a quadra 18, que é onde fica o túmulo, costuma reunir monumentos e tributos dedicados a personalidades e corporações, sem necessariamente abrigar restos mortais. Que até onde a gente sabe, é exatamente a função da placa dedicado a Herculine Barbin. Em outras palavras, aquela é uma quadra nobre, então tinha que ter algum registro de quem, mesmo que fosse lá atrás, tinha sido dono daquele jazigo e quem tinha sido enterrado ali.

Fui atrás da prefeitura de BH para saber se eles tinham essa informação. A Luísa já tinha feito isso lá atrás sem receber nenhuma resposta, mas dessa vez ela veio. Depois de algumas idas e voltas, eles me confirmaram que o túmulo tinha sido adquirido em 1927 e que tinha duas crianças sepultadas lá que tinham morrido nos anos 40 e 50. Duas crianças. Eles falaram que não podiam me dizer os nomes delas, mas que não tinham relação com pessoas intersexo.

Se bem que não ficou claro para mim como eles iam saber disso. Eles também disseram que ninguém da administração do cemitério Ninguém sabia quem tinha colocado a placa de Herculine lá, nem quando. Eu já tava desistindo de procurar, até que alguém me soprou que no arquivo público da cidade de Belo Horizonte tem os registros de sepultamentos antigos do Bonfim. Então, aí eu tô fazendo essa pauta sobre Herculine Barbin. Ela é uma pessoa intersexo que morou na França no século 19.

LRLuiza Redo

Você vai pegar o livro e aí dá pra ver. Então às vezes você pode encontrar pelo ano que eles passaram das pessoas, aí a gente vai no ano do livro e a gente encontra.

VLVinicius Luiz

Na verdade, são vários livros muito antigos com as descrições de cada sepultamento. Tem a data, o endereço da morte, a causa da morte, a quadra e o túmulo. Por sorte, a maior parte dele está digitalizada, então não tive que passar página por página. Tudo que eu precisava era localizar crianças que foram enterradas na quadra 18 nos anos de 1944 e 1951. Se eu encontrasse dois sepultamentos de crianças na mesma cova, estavam ali as pessoas do túmulo de Herculine Barban. Apareceu outro, ó. Ah, é?

?Voz D

Outro 18?

LRLuiza Redo

É.

VLVinicius Luiz

Minha amiga Michele trabalha no arquivo e tava tentando me ajudar a achar. Aqui, ó, essa daqui, ó, 18, é túmulo 34. Eu não anotei, eu vou ter que voltar lá no meio de novo.

?Voz D

Você não anotou endereço, aposto.

VLVinicius Luiz

Para isso, eu tinha que percorrer linha por linha de todos os sepultamentos de cada ano. Em 1944, 5 crianças foram enterradas na quadra 18. Eu não anotei.

LRLuiza Redo

Sabia!

VLVinicius Luiz

"O número da sepultura é... Cadê? A menina da rua Elzida, chama Helena Antônia Ranieri, tinha 1 ano." Oh, sobrenome chique! "Morreu de intoxicação alimentar." Em 1951, apenas uma criança foi enterrada lá, no túmulo 42, que não era o mesmo de nenhuma das crianças sepultadas em 1944. Então eu fui de novo atrás da prefeitura, que dessa vez trouxe a resposta completa. Em 1944, a família de uma criança que faleceu em 1940 levou os ossinhos dela para a cova 42, onde anos mais tarde foi enterrada a outra criança.

As duas morreram de doenças comuns para a época: desenteria e dispepsia, mais conhecida como "má digestão". Nenhuma delas foi identificada como pessoa intersexo e o jazigo nunca mais foi utilizado pela família. Eu fiquei bem satisfeito em descobrir quem tava enterrado lá no túmulo que hoje é atribuído ao Herculine. Mas no fim não adiantou tanta coisa assim. O mistério maior ainda tava lá, intacto. Mas eu lembrei de uma coisa que a Luísa tinha me falado quando a gente tava visitando o Bonfim. A Luísa que, lembrando, passou 10 anos pesquisando isso.

LRLuiza Redo

Eu fiquei muito encasquetada muito tempo, fiquei assim: "Nossa, mas é possível que não vamos ter resposta de quem que tá ali?" E aí, na minha pesquisa, isso mudou mais para as tensões que isso traz desde meados do século 19 até hoje. É uma questão de designação de gênero no nascimento que ainda existe na maternidade. Pessoas intersex, elas são 1% 1% da população, não é uma coisa tão ignorável assim.

VLVinicius Luiz

Na verdade, uma pesquisa da Organização das Nações Unidas indica que entre 0,05% e 1,7% da população mundial seja intersexo.

GAGabriel Andrade

A impressão que passa, é claro que a coisa melhorou muito, evoluiu muito, mas a impressão que passa é que a gente está mais, a discussão está mais próxima de quando Herculino morreu muito do que deveria estar hoje, né?

VLVinicius Luiz

Em maio desse ano, o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução sobre pessoas intersexo ou com diferenças do desenvolvimento sexual. Ela apresenta orientações para médicos sobre como proceder nesses casos. O documento foi bastante criticado pela Associação Brasileira Intersexo, porque ele dá abertura para a realização de cirurgias irreversíveis em crianças, mesmo sem urgência médica. De acordo com a associação, essas cirurgias podem causar dores crônicas e traumas psicológicos permanentes.

No caso de Herculine, o trauma provocado pela obrigação de escolher entre um dos sexos fez com que ela tirasse a própria vida. Ela foi enterrada no cemitério de Montparnasse, em Paris. Como ela foi colocada numa vala comum, junto de outros corpos, Não teve direito a um mausoléu, uma homenagem escrita na lápide. Essa homenagem só veio a milhares de quilômetros e incontáveis anos depois, em Belo Horizonte, colocada por uma alma anônima. Agora tem uma rosa ali que—

GAGabriel Andrade

Essa foi eu que coloquei.

VLVinicius Luiz

Ah, foi você que colocou.

GAGabriel Andrade

É uma rosa falsa que eu roubei de algum lugar. E o cacto eu tirei do túmulo do Olegário Maciel também. Acho que o presidente não não precisa, né? Aí eu tirei de lá e coloquei ali, mas assim, ele tá exatamente do jeito de quando eu vim.

VLVinicius Luiz

Eu já tava achando que era outro mistério assim, será que é?

BVBranca Viana

Essa história foi produzida pelo Vinícius Luiz. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta tem episódio novo que os membros do Clube da Novela conseguem ouvir já no dia anterior sem propaganda. Tá aqui um pouco do que vem por aí.

?Voz D

Eu tô aqui na frente já da sede do INSS, da Previdência Social, o setor de autarquias de Brasília.

BVBranca Viana

As principais notícias do dia envolvendo as palavras INSS e Previdência são ressarcimento de pessoas que foram alvo da fraude do INSS.

?Voz D

Também temos a manchete da CNN: amiga de Lulinha é alvo de investigação da PF. Todas notícias muito importantes, nenhuma delas tão importante quanto a que eu tô buscando aqui, né, que é o que aconteceu, né, há quantas anda o nosso, entre aspas, Picasso do INSS.

BVBranca Viana

Quem assina o Clube da Novelo no plano anual ganha uma bolsa chiquérrima para mostrar para todo mundo por aí que você ouve a gente. Mas tanto no plano anual quanto no plano mensal você tem direito a episódios bônus deliciosos, a encontros virtuais com repórteres atriz da novela e muito mais. As informações estão lá no nosso site. A gente volta já já.

?Voz F

Oi, aqui é a Sueli Carneiro e aqui é a Neca Setúbal.

VLVinicius Luiz

Estamos aqui para te convidar a ouvir o último episódio desta temporada do Escute as Mais Velhas, um podcast da Fundação Tite Setúbal produzido pelo Estúdio Pra fechar a temporada, a gente chamou pra conversa duas representantes de uma geração mais jovem que tá aprimorando a luta pelos direitos humanos no mundo como o que a gente tem hoje. Na segunda parte dessa conversa com a Laura Molinari e com a Juliana Gonçalves, a gente quis saber sobre os desafios que essa geração enfrenta para pôr em prática a transformação das condições das mulheres no Brasil.

BVBranca Viana

E entre 2018 e 2024, os grupos antiaborto investiram R$7,5 milhões em propaganda antiaborto nas redes sociais. A gente precisa ter condições de enfrentar essas batalhas. A comunicação nas redes sociais, né, a viralização de um conteúdo, de uma mensagem, ela não é ao acaso. O universo, não é só porque tá bem feito.

LRLuiza Redo

A gente quis saber também sobre os conceitos e valores que servem de combustível para sua atuação no ativismo político.

VLVinicius Luiz

Eu brinco que as pessoas questionam Deus, mas não questionam o capitalismo, né?

LRLuiza Redo

Então o capitalismo é algo muito forte, entranhado nas nossas vivências. Então o Bem Viver vai falar sobre outra forma de estar organizado e vai colocar em pauta então a nossa economia, a nossa política E, claro, a valorização dos saberes ancestrais. Nós conversamos com as duas sobre as diferenças e similaridades das agendas que elas atuam, além de pedir para elas o caminho das pedras para jovens que queiram se engajar no movimento de mulheres.

VLVinicius Luiz

Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Titi Setúbal produzido pelo Estúdio Novo O último episódio da segunda temporada já está disponível em todas as plataformas.

?Voz F

Até lá!

BVBranca Viana

No post desse episódio no nosso site tem links para os livros do Ricardo Terto para você ler mais pequenas grandes histórias da vida dele. Também tem fotos do túmulo com homenagem a Herculine Barbin e leituras para saber mais da vida dela. No nosso canal no YouTube, a gente publica todos os episódios do Rádio Novela Apresenta, além de várias playlists de histórias avulsas. Na aba comunidade, a gente também coloca fotos relacionadas às histórias.

Segue a gente por lá também. E onde quer que você escute a gente, sempre que você puder, dá uma curtida, 5 estrelas, deixar um comentário, deixar um comentário, compartilhar o link com algum amigo, a gente agradece. Tudo isso ajuda a espalhar a palavra do Apresenta. Para quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para quem é de email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pauta para o email apresenta@radionovelo.com.br.

Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar o seu podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Scarpin e da Flora Thompson de Vaux. A direção executiva é da Marcela Cazaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jaeger.

Nossos repórteres e roteiristas são Vinícius Luís, A Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalisi e a Carolina Moraes. A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitsky. Esse episódio teve desenho de som e mixagem da Bia Guimarães e da Mariana Leão. Nesse episódio a gente usou música original de Kiko Dinucci, e também da Blue Dot.

O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem!

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