Bilhetes de amor
Recados íntimos que sobreviveram à fogueira do tempo.
No prólogo, Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux compartilham com a Branca Vianna uma história de amor que elas compraram na feira de pulgas.
No primeiro ato: bilhetes de amor no jornal. Por Maíra Vallejo.
No segundo ato: quem conta as histórias de violência? Por Carolina Marcondes.
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Palavras-chave: Bilhetes de amor, Jornal, Século XIX, Namoro, Códigos, feminicídio e diários
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Bia Guimarães
Carolina Moraes
Flora Thomson-DeVeaux
Paula Scarpin
Alessandra Alfard
Branca Vianna
Carolina Marcondes
Maíra Vallejo
- Diários de Isilda Sueli Dias SilvérioRelacionamento com Valdir Aparecido Silvério · Ciúmes e violência doméstica · Dupla jornada e busca por individualidade · Feminicídio · Isilda Sueli Dias Silvério · Valdir Aparecido Silvério
- Bilhetes de amor no jornalJornal do Comércio do Rio de Janeiro · Século XIX · Linguagens secretas de amor · Dicionário das Flores · Linguagem dos leques e bengalas · Códigos amorosos e desencontros
- Cartões de amor e Praça XVCartões psicodélicos e dramáticos · Perereca · Praça XV · Cartões de amor do século XIX
Bia Guimarães:Oi, eu sou a Bia Guimarães. E não sei se você sabe, mas agora o assinante do Clube da Novelo tem um clube de escuta para chamar de seu. Nessa live especial, a gente conta os bastidores das histórias do Rádio Novelo Apresenta mais votadas pelos membros. E nesse mês, a live vai ser sobre o episódio "Corta", que a gente publicou no Apresenta um ano atrás. Nessa história, eu acompanho a saga do Vinícius Calderoni. Em dezembro de 2023, ele estava angustiado porque sabia que ia precisar de um transplante de rim. Mas não sabia de onde havia esse rim. Até que na viagem de Ano Novo, ele acabou compartilhando essa angústia com dois amigos, que meio que do nada toparam ser doadores dele. Aí começou uma saga desses três amigos tentando entender a vida, a morte, os rins e, acima de tudo, como transformar essa história numa peça de teatro. Eu e o Vinícius vamos falar dos bastidores desse episódio só para os assinantes do clube na próxima quarta, dia 17 de junho, e vai ser às 20 horas pelo Zoom. Para participar, é só assinar o clube em clube.radionovelo.com.br. A gente te espera lá!
Voz B:Like learning about your new favorite rom-com, Voicemails for Isabel. Only on Netflix, June 19th.
Flora Thomson-DeVeaux:Essa é a Flora Thompson de Vaux. E o que ela queria me mostrar era alguma coisa que ela e a Paula Scarpin tinham comprado na Praça XV, que é uma feira de antiguidades do Rio que elas frequentam há anos.
Paula Scarpin:Às vezes a gente gosta de ter uma missão, tipo: "Ah, a gente tá precisando muito de chaveiro." Muito. Então a gente tem essas missões, mas a gente gosta muito de ser surpreendida. E nesse dia a gente mal chegou na Praça XV.
Paula Scarpin:Era a parte de trás, na verdade, era o lado B da feira da Praça XV, que tem uma praça que é tudo oficial, com as barraquinhas, e tem uma parte que é coisa jogada no chão, assim, freestyle. E a gente chegou por trás.
Paula Scarpin:Essa é o que tem as melhores coisas, na verdade, as coisas mais surpreendentes.
Paula Scarpin:Eu não discrimino, eu não discrimino.
Paula Scarpin:Sim, mas é aleatoriedade, inclusive.
Paula Scarpin:Aleatoriedade, é, isso é forte. E a gente bateu o olho, eu não lembro mais qual deles foi, mas vamos começar com esse. Aí eu gostaria de pedir que você descrevesse, Branca. Você consegue ler?
Flora Thomson-DeVeaux:"Veja como eu padeço. Você não se lembra de mim." Era um cartão, tipo um cartão de aniversário, com essa mensagem escrita em letras psicodélicas e o desenho de uma carinha triste com uma lágrima, com uma pegada meio Ziraldo.
Paula Scarpin:Exato. Como que você se sentiria recebendo um cartão desse?
Carolina Moraes:Eu ia ficar com raiva.
Flora Thomson-DeVeaux:"Vai tomar banho, como assim? Eu, hein?" Provavelmente eu já terminei com essa pessoa e a pessoa tá querendo fazer chantagem, me encher a paciência. Dentro estava escrito assim: "E eu não te esqueço." Ou seja, você não se lembra de mim e eu não te esqueço. Francamente.
Paula Scarpin:E aí dentro ainda tem um diploma de amor eterno.
Paula Scarpin:Que veio com o cartão, inclusive, provavelmente, porque é só isso.
Paula Scarpin:Não sei.
Voz G:Tem a assinatura da pessoa? "Sou a sua perereca".
Flora Thomson-DeVeaux:Perereca entre aspas.
Paula Scarpin:Perereca entre aspas.
Paula Scarpin:Você teria resistido a esse cartão na porta de serviço?
Voz G:Completamente, eu acho que eu teria denunciado esse cara.
Paula Scarpin:A gente ficou obcecada.
Paula Scarpin:Não, aí a gente tava numa pilha de coisas e aí em seguida eu bati o olho nesse: "Não aguento mais viver sem você".
Flora Thomson-DeVeaux:Era mais um cartão com design gráfico intenso.
Paula Scarpin:Não, e esse "não aguento mais viver sem você" tá em umas cores meio de letras garrafais numa coloração meio infernal assim.
Paula Scarpin:Mas tem uma coisa meio tie-dye também, né? Tipo, é um— Olha, eu não sei, me parece bem psicodélico assim. Eu adorei as cores.
Paula Scarpin:Aí dentro, dentro o drama só aumenta.
Voz G:Uau!
Bia Guimarães:Help!
Flora Thomson-DeVeaux:Tem escrito HELP em letras garrafais. As cores infernais tie-dye e essa mensagem pedindo socorro eram do cartão mesmo. Veio assim de fábrica. Mas tinha um recadinho dentro.
Paula Scarpin:Eu vou ler aqui para você, que eu acho que vai ser difícil de ler pelo vídeo.
Flora Thomson-DeVeaux:É a letra escrita à mão, né?
Bia Guimarães:A pessoa escreveu à mão.
Paula Scarpin:Sim, dentro da letra L imensa de HELP.
Paula Scarpin:Que é assim: "Ia lhe mandar uma carta linda. Na hora, faltou coragem." "Beijos, amo você, perereca." Ih, é a mesma pessoa! É a mesma pessoa.
Bia Guimarães:Gente do céu.
Flora Thomson-DeVeaux:O terceiro cartão que elas queriam me mostrar parecia mais normal. Tinha um coração grande com a mensagem escrita: "De mim para você." E aí dentro...
Paula Scarpin:Eita! Isso é do cartão, isso não é... A gente levou um susto, mas isso é do cartão.
Flora Thomson-DeVeaux:Eu também levei um susto, porque dentro tinha uma mensagem repetida cobrindo cada centímetro do cartão. I love you, I love you. "Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, te quero." É, é só isso. "Eu te amo, I love you, te quero, te amo, te amo." Só várias vezes repetidas uma coisa meio The Shining. Deu para perceber que eu tava achando esses recadinhos mais creepy que românticos, né? Mas esse tanto de "eu te amo" salpicados de "eu te amo" em outras línguas, isso também já tinha sido impresso no cartão, não foi obra da remetente. Aí atrás, aí sim, tinha um recadinho da Perereca escrito à mão e com data: 8 de novembro de 1972.
Paula Scarpin:Querido minha vida, achei este cartão muito sugestivo. Talvez, talvez o faça lembrar alguém que não se cansa de lhe dizer a todo momento que o ama. Isso é para você não perder o hábito. Que eu amo não é novidade, mas sempre é bom lembrar.
Flora Thomson-DeVeaux:Gente, em 2026 não é novidade, não.
Paula Scarpin:A gente já tá sabendo que Pereireca. Já lhe mandei um cartão, não repare, pois os meus cartões são escritos onde estou no momento. Amor, não estou pedindo para vir por egoísmo, fique quanto puder. Está fazendo tratamento? Como a saudade maltrata, né? Ainda me ama? Amo você, adoro você. Beijos pesados de tantas saudades. Sua com amor, Pereireca.
Flora Thomson-DeVeaux:Tadinha dela.
Paula Scarpin:Aí a gente estava lá na Praça XV e a gente ficou obcecada e tinha mais cartas da Perereca. E uma hora a Paulinha me mandou parar.
Flora Thomson-DeVeaux:Tinha mais?
Paula Scarpin:Mais?
Flora Thomson-DeVeaux:Tinha muitas, muitas. Tipo uma caixa inteira assim?
Paula Scarpin:Ai, eu amo isso aqui. Esse é um desenho.
Flora Thomson-DeVeaux:É um fantasminha escrito "eu".
Bia Guimarães:Eu?
Flora Thomson-DeVeaux:É um fantasminha de mãos pra cima assim, um sorrisinho, é bonitinho o fantasminha. Tá escrito "eu", um ponto de exclamação e um coraçãozinho.
Paula Scarpin:Esse bicho sou eu, a gamada.
Flora Thomson-DeVeaux:Oh meu Deus, agora eu tô com dó. Eu fui malvada com a perereca, agora eu tô com dó dela. Ela tá mal, ela tá bem mal.
Paula Scarpin:Esteve mal em 72.
Flora Thomson-DeVeaux:Pelo jeito ele não tá deixando de voltar porque ele tá fazendo um tratamento.
Voz G:Ele não quer voltar, né?
Flora Thomson-DeVeaux:Pelo pouco que a gente tá vendo, ele não quer voltar. Ela tá pedindo para ele voltar, pedindo para ele voltar, pedindo para ele voltar, e ele não quer voltar.
Voz G:E ela tá insistindo, né?
Paula Scarpin:E pelo jeito ele guardou as cartas todas, né?
Paula Scarpin:É, porque elas foram parar na Praça XV. Acho que a gente comprou isso em 2024, talvez assim, então...
Flora Thomson-DeVeaux:É, essas cartas vieram da casa dele.
Paula Scarpin:E a gente trouxe isso aqui, esses cartões, enfim, a gente comprou já deve ter uns 2 anos, né? Eles moram numa prateleirinha aqui atrás do computador da Paulinha. E a gente não sabe o que fazer com essa, porque o que você faz com cartas de amor alheias?
Paula Scarpin:Eu acho que o que a gente ficou meio fascinada é com o desespero e o apelo e uma beleza nesse jeito de escrever. Tem um, não sei.
Paula Scarpin:Um transbordamento.
Bia Guimarães:É.
Paula Scarpin:Acho que todo mundo já teve uma situação de estar tão apaixonada que só escrevia uma coisa repetida assim.
Flora Thomson-DeVeaux:Quem nunca viveu isso, na verdade, aguarde, amigo.
Paula Scarpin:Vem por aí.
Flora Thomson-DeVeaux:Vem por aí.
Alessandra Alfard:Aguarde sua vez, querido, querida.
Flora Thomson-DeVeaux:Você vai ter pelo menos uma dessas na vida. E aliás, espero que você tenha mais de uma. Mas pelo menos uma você vai ter de fazer uma loucurinha dessas. E espero que a sua não vá parar na Praça XV.
Voz G:Espero que alguém queime a sua.
Flora Thomson-DeVeaux:No episódio dessa semana, a gente tem mais duas histórias de bilhetes de amor que por um motivo ou outro escaparam da fogueira. E foram lidos muito tempo depois. Quando a gente voltar do intervalo, quem conta a primeira história é a Maíra Valejo.
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Voz I:No Brasil, o sol brilha para todos, mas a energia solar ainda é um privilégio de poucos. Somos o quarto maior mercado do mundo, mas 70% das instalações residenciais estão nas mãos dos mais ricos. É como se a gente vivesse num Robin Hood às avessas. O subsídio vai pra quem já tem dinheiro pra instalar os painéis. Enquanto as tarifas sobem pra todo mundo. Pra metade das famílias brasileiras, a conta de luz e de gás leva uns 50% da renda. Em lares com até um salário mínimo, deixar a geladeira ligada pra conservar os alimentos representa quase 40% do consumo de energia. E geladeira não é luxo. É necessidade. Mas essa realidade pode mudar. E já tá mudando. O Instituto Polis e o coletivo Nosso Sol provaram que o sol pode, sim, ser comunitário. No Conjunto Paulo Freire, na Zona Leste de São Paulo, 38 painéis solares já economizaram R$61 mil para as famílias e reduziram mais de 70% a conta de luz das áreas comuns. Dinheiro que virou comida, saúde e dignidade. Agora, a missão é levar essa luz para os Conjuntos Florestan Fernandes e José Maria Amaral, em Cidade Tiradentes, também em São Paulo. São quase 400 famílias que vão ter sua própria usina, instalada por lideranças da comunidade. E você pode nos ajudar a fazer esse sol brilhar. Acesse agora: benfeitoria.com/projeto/coletivo-nossosol. Doe, compartilhe, espalhe essa ideia. Democratizar a energia é uma questão de justiça social. A iniciativa tem o apoio do Instituto Clima e Sociedade.
Voz G:Na escola que eu estudei no ensino médio, tinha uma página no Facebook que basicamente todo mundo seguia. Ela funcionava assim: todo sábado à noite, durante umas 3 horas, você podia enviar um recado para qualquer pessoa da escola. E esse recado era postado ali, naquele intervalo, pra todo mundo ver. Os envios eram anônimos, então não tinha chance de saberem que era você, a não ser que você resolvesse se identificar ali. Também tinham umas regras: não publicavam mensagem com conteúdo homofóbico, racista, o mínimo, né? A outra era que a mensagem só era publicada se o alvo do recado não tivesse completamente identificado. Ou seja, não valia botar nome nem sobrenome, só as iniciais da pessoa e a turma. Nem era garantido que a mensagem ia chegar na pessoa certa, até porque podia ter outra pessoa na mesma turma com aquelas iniciais, ou podia passar batido entre as mil outras informações no feed. Mas mesmo se a mensagem não chegasse na pessoa certa, alguém, em algum momento do sábado à noite, com certeza ia ler aqueles recados. E essa pessoa não era o administrador da página. Era eu mesma. Eu lia, quase todo sábado, todos os recados. Pra ver se eu achava o meu nome, se eu reconhecia algum conhecido, ou só pra ver o que que é que tavam falando mesmo. As mensagens eram meio aquilo que você provavelmente já imaginou. "LY do coletivo de dança, é solteiro?" "X da turma tal, me nota, eu sempre esbarro com você no corredor." O triste é que mesmo olhando sempre, eu só lembro de ter recebido um. Era alguém perguntando se eu ia na calorada que ia rolar no sábado seguinte. Mas eu mesma mandava vários. E eu não tava precisando falar com ninguém de forma anônima. Era mais pra dar um up na autoestima da galera, perguntar se algum amigo tava solteiro, dizer que uma amiga tava linda. E eu nunca me entregava depois. Ficava assistindo a repercussão no grupo de WhatsApp da turma. Bem quietinha. Eu confesso que até pouco tempo eu achava meio estranho essa minha fissura nos recados anônimos, de ficar mandando, vendo dos outros. Mas há pouco tempo eu descobri que tô longe de estar sozinha nessa história.
Alessandra Alfard:Então eu posso ler para você a título de exemplo uma pessoa que se remete a uma pessoa chamada R. Aí ele diz assim: desde que te vi pela primeira vez no H.C.O. Ponto. Nunca mais esqueci-te. Depois de andar errante e triste por todas as ruas e por muito tempo sofrendo o martírio de tua ausência, eis que afinal tive a felicidade de saber que ias residir na rua de S.C. Hoje me considero mais feliz porque já posso ver quase todas as noites a você. Não podendo ver-te de dia, Porque nunca chegas à janela. Adeus, C.
Voz G:Essa é tipo uma versão do século 19 daqueles recados que apareciam na página da minha escola. Talvez só um pouquinho mais romântica e angustiada. Quem encontrou e leu esse bilhete pra gente foi a Alessandra Alfard, professora titular de antropologia da Universidade Federal de São Paulo, a UNIFESP.
Alessandra Alfard:Basicamente, eu pesquiso o Rio de Janeiro do século 19 já há muitos anos. Desde o meu mestrado. Então eu sou uma paulistana especialista em Rio de Janeiro do século 19.
Voz G:Essa mensagem que ela leu também foi publicada numa página. Não de Facebook, óbvio. Alessandra encontrou esse bilhete na página de anúncios do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Ele é do dia 27 de abril de 1877. Além dele, ela achou outras dezenas de recados desse tipo, todos no Jornal do Comércio.
Alessandra Alfard:Então, assim, por meio de iniciais, ninguém falava o nome, é claro, mas com iniciais combinadas a priori, as pessoas escreviam muitas coisas. E isso foi de fato para mim uma porta de entrada a esse universo do cortejo, do namoro e do amor sentimental no século 19.
Voz G:Alessandra andava pesquisando o mercado editorial e o livro popular no século 19. Um dia, ela reparou num cronista tirando sarro dos bilhetinhos do Jornal do Comércio. Ela foi atrás e ficou tão intrigada que resolveu fazer uma etnografia desses recados secretos.
Alessandra Alfard:Esses bilhetes, eles eram publicados numa seção específica, que era a seção de anúncios. Então era fácil, você corria um pouco as páginas do jornal e ia pra seção de anúncios e via lá desde anúncio de ama de leite, de cosméticos, até esses essas pequenas notas que falavam sobre a vida afetiva das pessoas.
Voz G:Ali na quarta página do Jornal do Comércio, no dia 15 de julho de 1879, P.B. escreveu um recado para S. Ele dizia assim: Fiz-lhe alguns sinais e pareceu-me serem correspondidos, pois me induzida a distância que nos separava. Estava vestida de preto, sobressaindo-lhe os ombros uma certa alvura. Que lhe dava todo o brilho. Indique-me o meio de conduzir as cartas à sua presença. Aceite uma terna saudade do aspirante ao seu amor. Sinto muitas saudades de ontem para hoje. Em 20 de fevereiro de 1870, entre um anúncio de fantasias de carnaval e a propaganda de uma casa de empréstimo, tinha alguém que se identificava como L. mandando um recado para J. para eles se encontrarem naquele dia, às 5 horas, na janela. Sem mais detalhes. Tinham também umas mensagens chateadas quando o encontro não rolava. Tipo essa aqui, de 21 de agosto de 1877, que Z. escreveu para S.: "Não pude ontem ir ver-te. Estou por isso tristíssimo e com muitas saudades." Então, veja que interessante.
Alessandra Alfard:Era pelas páginas de um jornal, onde toda a população letrada poderia ter acesso ou poderia ler, que você comunicava ao outro os seus sentimentos mais íntimos e tentava marcar com o outro um encontro em algum lugar da cidade, em algum horário. Agora, o que é irônico é que o Jornal do Comércio é o jornal mais careta do período, é o jornal que dava as notícias do comércio, da chegada das fragatas, dos preços, das notícias do governo, né? Então, e ali nas últimas páginas, toda uma conversa relacionada ao universo do amor.
Voz G:Era meio que um mural público da cidade, pelo menos para parte dela que podia comprar e ler aquele jornal. E na década de 1870, o analfabetismo estava na casa dos 80%, mas ainda era muita gente que podia ler aqueles recados, que eram ao mesmo tempo íntimos e escancarados.
Alessandra Alfard:Se a gente pensa tudo que nós queremos um relacionamento afetivo é algum tipo de privacidade na troca dos diálogos. Mas esses bilhetes publicados num dos jornais mais importantes da cidade nos mostra como funcionava a ordem patriarcal familiar no Brasil.
Voz G:O poder de escolha dos filhos da elite, principalmente de uma mulher, era quase zero. Na maioria das vezes, quem decidia era o pai. Então não era pros filhos saírem namorando e flertando por aí. Mas a gente sabe que não é assim que a banda toca.
Alessandra Alfard:Se há proibição, vai haver as maneiras de burlar a proibição. E o que gerou tudo isso? Gerou uma sociedade marcada por códigos secretos de amor. Então o Rio de Janeiro, o cotidiano do Rio de Janeiro era um vai e vem de inúmeras linguagens secretas.
Voz G:Uma dessas linguagens secretas, desses códigos, tinha até um manual, que Alessandro estudou durante anos. Ele se chamava "O Dicionário das Flores".
Alessandra Alfard:Era um pequeno dicionário amoroso onde cada flor tinha um significado amoroso. Então, por exemplo, macácia seria "sonhei contigo", "um amor perfeito", "existo só para você".
Voz G:Ao longo dos séculos, várias culturas usaram flores para se comunicar. Esse dicionário específico veio da Europa, assim como muitos livros da época, por volta de 1830. O original era em francês, mas ele fez tanto sucesso por aqui que acabou ganhando uma versão brasileira. Era um best-seller total. Ele tinha tanto edições mais luxuosas, até umas mais simples, de brochura e papel barato. E a versão daqui incluía também frutos, raízes e ervas comuns aqui no Brasil. De clima mais tropical. Isso era pra garantir vocabulário em qualquer estação do ano. Então, se receber um buquê hoje em dia já é considerado um gesto de carinho, delicadeza, no século 19, dependendo da flor ou até de como ela tava posicionada, a pessoa que te deu ele tava querendo passar uma mensagem. Uma camélia significava "aceito com alegria". Já a margarida vermelha era "estou comprometida". As frutas também entravam na jogada. Se você recebesse umas jabuticabas, era uma mensagem positiva, do tipo "vém me ver". Mas ganhar um abacate era péssimo, significava traição. Tinha flor até pra dar fora em alguém. A viuvinha, uma florzinha lilás que a gente vê muito em decoração, por cima de arcos, ou ornamentando jardins, nesse dicionário das flores era "quero ficar solteira".
Alessandra Alfard:Se a linguagem das flores era uma das mais populares, havia também a linguagem dos leques, havia a linguagem das bengalas, havia a linguagem das pedras, das cores. Então tudo poderia ser uma mensagem secreta enviada de uma pessoa para outra.
Voz G:E quando a Alessandra diz tudo, ela não tá exagerando. Andar nas ruas do Rio podia virar uma caça aos sinais, uma pegada meio teoria da conspiração. Tinha que ficar atento. Qualquer gesto podia ser uma mensagem.
Alessandra Alfard:É quase como um universo paralelo de comunicação.
Voz G:Quando a mulher chegava com o leque fechado na boca, tava dizendo pro cara ter mais cuidado, que tava rolando uma vigia ali. Agora, se um rapaz limpasse o rosto com um lenço branco, não era necessariamente porque ele tava suando de calor no meio do Rio de Janeiro. Dependendo de como era esse gesto, Ele poderia querer dizer, segundo esse dicionário de códigos: "Cuidei-te, um anjo, e adorei-te". Mas se já tivesse rolado um contato e ele deixasse cair o lenço no chão, ele devia estar cobrando a promessa feita pela moça. E acenar com um lenço branco vinha com uma angústia junto. Queria dizer: "Quero falar-te o que sinto e não posso". Mas no meio de tantos códigos, tantas possibilidades, os bilhetes acabavam, no fim, sendo o jeito mais direto de falar.
Alessandra Alfard:Então eles são isso, eles são um registro deixado no tempo para nós, historiadores, leitores da atualidade, poder ter acesso aos sentimentos, às emoções, às frustrações, às alegrias. Esses bilhetes, eles transparecem essa história, é um capítulo da nossa história da vida privada no século 19.
Voz G:Por causa dessas restrições todas na sociabilidade, namoro nessa época era meio que nem aquela música do Seu Jorge: "Tô namorando aquela mina, mas não sei se ela me namora." Você podia desconfiar que alguém tava afim, mas não dava para perguntar tão diretamente. Eu fiquei na dúvida de como exatamente acontecia essa escrita. As pessoas iam na sede do jornal para deixar Como é que era?
Alessandra Alfard:Então, sabe que isso eu também fiquei intrigada e eu não posso te dar essa resposta porque eu não sei, isso eu teria que estar lá, como é que é na redação do Jornal do Comércio, mas eu fiquei imaginando porque quando a pessoa vai lá e pede para publicar ela tem que pagar e alguém que tá recebendo esse serviço e cobrando pelo serviço sabe quem é que mandou, então eu imagino que havia Tinham muitos meninos de recado e isso se sabe na historiografia.
Voz G:Ou seja, você mandava um mensageiro com bilhete, com dinheiro, e aí o recado saía no jornal, cifrado daquele jeito, e você torcia para o destinatário ler. Só que e se a pessoa não comprasse jornal naquele dia? Ou se outra pessoa entendesse que era para ela?
Alessandra Alfard:Certeza, certeza que foi a pessoa "Você tava namorando?" te respondeu, isso não se tinha.
Voz G:Segundo Alessandra, rolava até troll respondendo no lugar da pessoa. Não sei se pra atrapalhar a vida dos namorados ou só pra zoar mesmo.
Alessandra Alfard:A pessoa lia uma mensagem enviada no Jornal do Comércio e, de brincadeira, ia até a redação e pagava um anúncio ela mesma respondendo. Então você tinha essas brincadeiras, mas que faziam parte desse jogo amoroso que é aberto ao público.
Voz G:Daí, para lidar com isso, as pessoas foram criando outras estratégias.
Alessandra Alfard:Vou te dar um exemplo: "Minha cara a: Para me certificar se foste tu que me escreveste a carta que vem no jornal de hoje, "Desejo que me dês um sinal ou um nome de qualquer objeto do nosso conhecimento por esse jornal. Diz onde e quando poderei ver-te. Assinado G." E tem gente que ainda era tão desconfiada que criava os seus próprios códigos amorosos. Então tem uma mensagem aqui que começa assim, destinada ao I. Aí a linha é essa: N1C3G5ND1 e vai.
Voz G:E você achando que a senha do seu Wi-Fi tava difícil.
Alessandra Alfard:Mas também você encontra mensagens que dizem só o seguinte: "V. Não sei decifrar tal enigma e por isso não posso explicar.
Voz G:Assinado G." Quer dizer, mesmo com uma língua inventada e com bilhete de verificação em duas etapas, tinha muito desencontro. E tinham as decepções também, as brigas. Ouve só essa aqui: "Quem tramou tudo foi uma pessoa de tua casa. Só tenho a dizer que fui fiel a ti, ingrata. Adeus pra sempre." Esse recado era de um sujeito que assinava com a letra B e é do dia 27 de junho de 1871. A Alessandra transcreveu muitos desses recados no estudo dela. Mas eu fiquei meio viciada e fui atrás de ler mais. Imaginei gente que nem eu, correndo pra pegar o jornal de manhã e abrir as últimas páginas.
Alessandra Alfard:Eu acho que devia ser uma alegria, eu ia adorar, assim, não tinha todos os dias, mas era bastante recorrente. Aí imagina, as pessoas lendo e falando: "Ah, mas essa aqui pode ser tal pessoa, essa aqui tal pessoa", mas certeza ninguém tinha.
Voz G:É um prato cheio pra curiosidade, pra especulação, né? Porque imagina, não devia ser só gente solteira se correspondendo ali. Devia ter muito casal de amantes mandando esses recados, além de mais gente que não podia se relacionar publicamente. Alessandra até achou um bilhete que parecia ser entre dois homens, do dia 6 de abril de 1872. Ele só dizia assim: "Ó meu zi, sou teu. J.S.C." Eu fiquei pentelhando Alessandra durante a conversa pra saber mais dessas fofocas. Para saber o que foi feito da ingrata do B. Se ela sabia o que tinha rolado entre PB e S. Mas eu fiquei só na vontade.
Alessandra Alfard:E é claro que quando aparece publicado e tem as iniciais, há uma especulação enorme na cidade para saber quem é que tá falando isso para quem. Então você tem muitas interrupções. É muito difícil, raro você ver uma história se desenrolar por mais de 2, 3, 4 semanas. O que você vê às vezes são interrupções e depois reata lá na frente, mas isso também é muito raro. O que se vê são muitas mensagens que terminam em 2, 3 semanas.
Voz G:Fuçando na hemeroteca, encontrei um bilhete de M. para J.G.N. só dizendo que não ia mais responder cartas anônimas.
Alessandra Alfard:Aí tem uma outra nota no mesmo ano, bem curtinha, que diz assim: "J, há 2 dias que não me escreves, não sei o motivo. Assinado, tua." Hoje acho que principalmente os jovens estão acostumados com as redes sociais, com as mídias. Você quer se comunicar com alguém, enviar uma mensagem, mandar um recado, é algo de segundos. Agora imagina o que é isso sem tu 100, 150 anos atrás, a angústia que era você não poder nem chegar perto e não ter um meio de se comunicar com aquela pessoa que conquistou o seu coração.
Voz G:Eu fiquei angustiada só de imaginar essa espera de dias, semanas, até meses para ter uma resposta. Para talvez nem vir nada no final. Mas visitar esses namorados do passado também me deu um pouco de autopiedade. Hoje em dia, a gente não tem mais que ler nenhum dicionário de flores, nem decorar a simbologia da jabuticaba, nem muito menos tentar decifrar a forma como alguém limpou a testa. O máximo que acontece é especular o que significa aquele meme do nada na DM depois de um sumiço de meses. Ou ter que se acostumar com o silêncio depois de um encontro legal. O que eu percebo, e que todas as minhas amigas e amigos meus amigos reclamam também é que mesmo com toda facilidade do mundo para mandar e receber mensagem, ainda é difícil se comunicar. Os códigos podem ter mudado, mas não é por isso que ficou simples entender o que que a pessoa do outro lado tá querendo te dizer. Às vezes uma curtida no story do Instagram quer dizer alguma coisa, ou não quer dizer nada mesmo.
Flora Thomson-DeVeaux:Essa foi a Maíra Vallejo. A gente já volta.
Voz B:Esse podcast é um oferecimento da Wise, o jeito certo de pagar no mundo todo. Quando você viaja para o exterior ou tá se preparando para uma viagem inesquecível, sempre chega aquele momento: a hora de converter os gastos para moeda local. E sabe qual é o erro mais comum? Viajar pagando com cartão de crédito. Na hora pode não parecer nada, mas o custo da conversão pode assustar quando a fatura chegar. A solução: viajar com cartão da Wise. Com ele você pode pagar em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial, a mesma que você vê no Google. Você pode converter e manter o dinheiro na conta já na moeda que vai usar destino. Depois é só pagar sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você também pode sacar dinheiro em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos no mundo todo. Faça parte das mais de 15 milhões de pessoas que pagam globalmente do jeito certo. Quem sabe vai de Wise? Baixe o app da Wise hoje. Termos e condições se aplicam.
Voz J:Durante todo o mês de junho, os episódios do Rádio Novela Apresenta chegam a você com o patrocínio da Carlo, líder mundial em eSIMs. Quem gosta de uma boa história sabe que os melhores capítulos de uma viagem costumam acontecer quando a gente sai da rota turística. Mas, para se perder com segurança e realmente mergulhar na cultura local, seja achando aquele restaurante escondido no México ou entendendo uma placa de sinalização em Tóquio, para tudo isso você precisa estar conectado. Antigamente, a primeira coisa que a gente fazia ao pousar era caçar um balcão de aeroporto para comprar um chip ou implorar por uma senha de Wi-Fi. Quem nunca se pegou gastando seu portunhol num "por favor, la senha"? Mas você sabe que isso não precisa acontecer, né? Hoje em dia dá pra usar a Airlo, a líder de eSIMs do mundo. É um chip digital. Você baixa o aplicativo, compra um pacote entre os mais de 200 destinos disponíveis disponíveis, instala o eSIM e já sai do avião com internet, sem taxa surpresa de roaming. Não precisa nem pausar o podcast que você tava ouvindo. A Airlo tem pacotes locais, regionais e globais, e a instalação é super simples e leva poucos minutos. Então, na sua próxima viagem, já sabe: tenha internet ilimitada neste verão com airlo.com. A-I-R-L-O.com.
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Voz B:Learn more at windows.com/studentoffer.
Carolina Moraes:While supplies last.
Voz B:Ends June 30th.
Carolina Moraes:Terms at aka.ms/collegepc.
Flora Thomson-DeVeaux:No segundo ato dessa semana, a gente acompanha mais uma história de amor através das páginas de um diário. E essa a gente sabe como terminou. Quem vai contar é a Carolina Marcondes. Só um aviso antes de começar, que essa história fala de violência.
Bia Guimarães:É Natal de 1985. Este ano talvez tenha sido o mais difícil e ao mesmo tempo o mais importante de todos os 30 outros que vivi. Eu me dei de presente a minha vida. Eu me dei de presente a minha importância. Talvez eu não me sinta assim no próximo Natal. Talvez eu nem esteja viva no próximo Natal. Mas esses 365 dias que estão terminando foram muito bons. Sinto-me leve, segura, e eu sei que nem todos que me rodeiam gostam dessa nova pessoa, que não é tão nova assim, estava apenas adormecida.
Carolina Moraes:Esse foi o último texto escrito no diário de Isilda Sueli Dias Silvério, minha tia. Em 12 de abril de 1986, 108 dias depois que ela escreveu esse texto, uma foto dela foi publicada no Diário do Grande ABC. Do lado esquerdo tinha a imagem do marido dela, Valdir Aparecido Silvério. Do lado direito, a foto do revólver que ele usou para matar minha tia e cometer suicídio em seguida. No primeiro parágrafo, a reportagem diz assim: O advogado "Esse é o Valdir?" O advogado deixou uma carta explicando as razões do seu ato. O irmão de Valdir disse na polícia que ele havia telefonado horas antes, dizendo que surpreendera a mulher com outro homem. A tia Zilda foi a primeira de 3 filhos. Depois dela veio o Marco Antônio, o meu pai, e depois veio a Deise. Durante anos, a tia Zilda escreveu diários e eles ficaram guardados com o filho mais novo dela, o Carlos Eduardo. Em 2018, o Cacá, como a mãe dele chamava, me emprestou os cadernos da Zilda para eu conhecer melhor a história dela. E desde então eu tenho tentado reconstruir o que aconteceu com ela naquele casamento, se tinha alguma pista ali apontando para o que ia acontecer. Se dava para ter feito alguma coisa ou se ela percebia o que podia acontecer.
Bia Guimarães:29 de junho de 1973. Uma garota, eu, sem objetivos para viver, estava trabalhando quando em seu local de trabalho entrou um rapaz. Não gostei da pasta que carregava, não gostei da roupa que vestia, não gostei do modo de pentear o cabelo.— Não gostei de vê-lo com os fios da barba aparecendo, mas gostei de seus olhos, seu jeito de falar, e reparei até numa pintinha que ele traz na face esquerda. E naquele aperto de mão que foi correspondido, naquele olhar, senti que provavelmente algo mudaria em minha vida.
Carolina Moraes:A Isilda só foi escrever sobre o Valdir nos diários 2 anos depois desse primeiro encontro. Mas eles começaram a namorar logo depois de se conhecer. E esse namoro foi uma revolução na vida da minha tia. Ela sempre foi muito estudiosa e concentrada no trabalho. Ela trabalhou a vida toda em uma empresa de tratores canadenses, onde ela começou como secretária. Então abrir espaço para um namorado foi uma mudança enorme e era a primeira vez que ela tava fazendo isso. Além disso, O meu pai contou que a minha tia sempre se achou feia. E ela mesma diz nos diários que se sentia assim. Ela era bem magrinha e achava a irmã dela, a Daisy, mais atraente. Meu vô também era um cara muito ciumento, não deixava nem ela usar vestido. Então ela não acreditava muito que alguém um dia fosse se apaixonar, querer casar, formar uma família com ela. Nos diários, ela diz que o relacionamento com Valdir era bom porque percebia que, abre aspas, alguém sentia necessidade dela.
Bia Guimarães:Eu precisava superar uma série de coisas, e por ele se interessar por mim, eu sentia que muito em breve eu superaria.
Carolina Moraes:Essa sensação que ela tinha de que ela tava no caminho certo, isso ficou ainda mais forte uns meses depois. Em novembro daquele ano, o pai dela ficou doente. O Valdir foi junto com ela para o hospital. O pai pareceu aprovar o candidato a genro. Ele disse que a Isilda merecia ser feliz e que o Valdir devia cuidar dela.
Bia Guimarães:Mas uns dias depois, o pai dela morreu e ela escreveu assim no diário: Quando eu telefonei para ele avisando, ele simplesmente largou tudo que estava fazendo e veio ao meu encontro. Sempre que eu entrava em depressão, ele me lembrava que papai confiava muito em mim e que eu não podia desapontá-lo.
Carolina Moraes:9 meses depois que eles se conheceram, a Isilde escreveu que o inevitável tinha acontecido. Março de 1974.
Bia Guimarães:Eu me entreguei a ele. Embora não acreditasse muito no amor dele por mim, acreditava no meu por ele e sempre fui da opinião de que quando a gente ama "Tem que deixar a razão um pouco de lado e agir mais com o coração. Não me importava saber se ele se casaria ou não comigo.
Carolina Moraes:Me importava que ele era a coisa mais maravilhosa que já acontecera em minha vida." A Iside escreveu no diário que ela sabia do risco de engravidar, mas ela nem se importava. No mesmo ano, ela começou a falar sobre um possível casamento com Valdir. Os dois tinham 20 anos na época.
Bia Guimarães:Já disse que eu não exigia nada dele. Creio que nunca o forcei a tomar nenhuma decisão. Mas intimamente eu sempre desejei o casamento com ele. Não precisava ser de papel passado, juiz de paz, testemunha, etc. Precisava ser ele. Eu precisava que ele estivesse comigo para o resto da vida.
Carolina Moraes:Nos diários, ela conta que eles já vinham pensando em morar juntos. E resolveram marcar uma data pro casamento, pra concretizar esse plano. E aí, eles descobriram a gravidez. Em 6 de março de 1975, eles se casaram e foram morar juntos. Eles celebraram o casamento na casa da minha família. Ela não se vestiu de noiva. Os dois tinham saído juntos pra comprar aliança no centro de São Paulo naquele dia mesmo. E aproveitaram também pra comprar as passagens pra lua de mel no Rio de Janeiro. O Daniel, o primeiro filho deles, nasceu em setembro daquele ano.
Bia Guimarães:Ele se parece muito com o pai. Essa é a principal prova que consegui dar a ele de que a criança é filha dele, de que eu sou, fui e serei só dele. Ele não acredita, mas eu não imagino qual seja o tipo de prova que ele quer que eu dê. Acho que eu já lhe dei todas as provas que uma mulher pode dar.
Carolina Moraes:Essa é a primeira vez que o ciúme do Waldir aparece no diário. Esse tema de desconfiança começa a aparecer depois do nascimento do Daniel, mas ainda de forma bem pontual. A Isilda escrevia sobre as guerras que estavam acontecendo no mundo, dizia que estava preocupada com a miséria. Ela comemorava sempre que o filho estava crescendo e comemorava o casamento também.
Bia Guimarães:Nosso relacionamento é quase perfeito. Existem algumas falhas de ambas as partes, mas aos poucos vamos sabendo superar. Acredito sinceramente que emocionalmente estou atravessando uma de minhas melhores fases. Sinto-me muito bem, sinto-me realizada.
Carolina Moraes:Depois de uns meses totalmente dedicada ao neném e a casa, a Isilda voltou a trabalhar. E a partir deste momento, o diário dela vira um relato da montanha russa que o casamento virou. Quando tava tudo em paz com o marido, a Isilda se preocupava muito com o mundo que o Daniel tava crescendo.
Bia Guimarães:Hoje ele me pediu uma irmãzinha. Eu disse que ia pensar. Agora, cá entre nós, eu continuo tendo medo de pôr outro filho neste mundo que está a cada dia mais feio e cruel.
Carolina Moraes:Além da preocupação com o mundo, a Isilda tinha bastante coisa pra se preocupar dentro de casa. Ela se sentia muito culpada por ter que voltar a trabalhar. E ela conta nos diários que ela se sente cobrada como esposa, como mãe, como profissional, como filha e como dona de casa. A rotina dela ficou muito mais pesada e ela se sentia muito cobrada pelo Valdir. Ela sempre escrevia sobre o amor que ela sentia por ele, sobre como ela tava incentivando ele a viver uma vida melhor. Ela começou a pagar para ele uma faculdade de direito. E a minha família me contou que ele até se empenhava nos estudos.
Bia Guimarães:Você continua sendo o acontecimento mais importante em minha vida. Apesar das queixas que você sabe que tenho de você, do seu jeito de ser, não consigo deixar de amar você nem por um instante sequer.
Carolina Moraes:Esse trecho é de 1979, não tem uma data exata. Nessa época, algumas anotações que ela fazia no diário eram feitas assim: Como cartas para o Valdir.
Bia Guimarães:Creio que nós estamos precisando conversar. Não pense que estou me queixando, mas acontece que ultimamente nós não temos conversado tanto quanto antes, e isso me faz muita falta. Na minha casa está sendo um pouco difícil porque eu não tenho contado com a sua colaboração, e você sabe ao que me refiro.
Carolina Moraes:Ela escrevia que o Valdir largava as roupas jogadas pela casa, que ele não ajudava com as tarefas domésticas mais básicas e, pior, que ele perdia muita paciência com Daniel e batia muito nele. A Isil descreve no diário, como se estivesse falando com ele, que ela entende o cansaço que ele sente, porque ele estuda e trabalha ao mesmo tempo.
Bia Guimarães:Mas e você, reconhece que eu me canso? Veja bem, eu não estudo, mas além de trabalhar fora, o que eu trabalho na nossa casa Principalmente nos finais de semana, não é normal. Bem, deixa isso pra lá, senão você vai dizer que eu quero uma empregada. Não, agora não.
Carolina Moraes:Lendo os diários, às vezes eu achava que ela tava rascunhando uma conversa pra ter com ele. Ou que ela pressentia que escrever ali era o único jeito de deixar aquilo registrado. Mas tem outra possibilidade também que foi me ocorrendo. Que o Valdir tinha acesso ao que estava sendo escrito ali, que era um indício da falta de privacidade que a minha tia estava vivendo cada vez mais. Mas também parecia uma tentativa de travar um diálogo com Valdir que ela não conseguia ter nas discussões, como se ela usasse aquele espaço para comunicar o peso do que ela estava vivendo, para ver se ela encontrava alguma compreensão por parte dele.
Bia Guimarães:"Meu amor é você, a minha vida é você." Pela milésima vez eu li tudo que está registrado neste caderno e pela milésima vez eu senti como nosso amor é lindo, como nós encontramos um ao outro. Pela milésima vez eu tomei consciência de como eu consegui o que muita gente procura: encontrar um amor verdadeiro que traga alegrias, tristezas, satisfação. Tenho quase certeza que você também encontrou. Eu espero que disso tudo que eu acabei de escrever Você conclua que eu amo você mais do que quando te conheci e bem menos do que amanhã.
Carolina Moraes:No final da década de 70, a minha tia já sabia que aquela dupla jornada de trabalho dela era injusta, mas ela ainda não achava que aquilo era motivo de discussão de casal. A responsabilidade pela ordem da casa e dos filhos eram sempre da mãe. O Waldir começou a sair com frequência para jogar cartas com os amigos ou com os irmãos, e a Isilda começou a se sentir cada vez mais culpada por não passar tanto tempo com Daniel quanto ela gostaria. Palavras como tristeza e sofrido começam a aparecer com frequência nas páginas do caderno.
Bia Guimarães:Sabe, é muito complicado ser mãe. A gente sempre acha que está fazendo o melhor possível, Mas de repente parece que tá tudo errado. Tenho a impressão de que pedir desculpas não adianta. A minha vida não é fácil. Sei que você não tem culpa disso. Aliás, você não tem qualquer culpa.
Carolina Moraes:Aqui nesse texto de novembro de 79, o você já não é mais o Valdir, é o Daniel.
Bia Guimarães:Quero lhe pedir desculpas pelas minhas broncas, pelos meus gritos, pela minha ausência, Minha Delícia, se há uma coisa nesse mundo de que não me arrependo, é de ter trazido você para junto de nós.
Carolina Moraes:Em setembro de 81, quando Daniel faz 6 anos, a Isilda escreveu uma outra carta para ele no diário. Dessa vez, ela escreve como se o autor fosse o Valdir, o pai dele. Parece uma tentativa de explicar para ela mesma que as atitudes agressivas do marido eram uma prova de amor.
Bia Guimarães:Eu não costumo pedir perdão. Mas a você eu peço. Hoje, quando você já está com 6 anos, eu criei coragem para lhe pedir perdão pelos meus momentos de nervosismo com você, por descarregar os meus problemas em você, por não dar a você ou não demonstrar todo o amor que eu tenho por você. Quero que você saiba que eu sofro muito depois de cada tapa que dou em você, sabe? Eu sofro porque é como se eu tivesse batido em um pedaço de mim mesmo. Vou fazer o possível para demonstrar que eu amo você.
Carolina Moraes:Entre o Natal e o Ano Novo de 1979, a Isilda resolveu viajar para o Rio de Janeiro com Daniel e a mãe dela. O Valdir ficou em casa e o diário também. E dentro dele, um pedido que, pelo jeito, ela tinha certeza que o Valdir iria ler. Ela pedia para ele entender que ela precisa descansar.
Bia Guimarães:Não de você, mas da vida que tem levado, que não é fácil, nada fácil.
Carolina Moraes:Eu não sei se ela chegou a falar isso para ele em voz alta. Quando ela voltou para Santo André, já com saudade do marido, a realidade era, nas palavras dela, triste. E aí ela escreve um desabafo longo, um desabafo que me soou comum quando eu li, que poderia ter sido escrito por muitas mulheres que eu já conheci.
Bia Guimarães:São quase 23 horas e não sei onde está meu marido. Ele saiu antes do almoço e ainda não voltou. Isso me deixa triste, chateada e com medo. Triste porque estou só, chateada porque brigamos e com medo, dois tipos de medo: de que possa ter acontecido algo com ele e de que nosso casamento esteja por um fio. Talvez eu esteja vendo coisas ou imaginando-as ou dando uma importância muito grande a fatos bobos. Pode ser que eu queira do Val mais do que ele pode me dar. Estou com medo porque parece que ele não me suporta mais. Será que eu que provoco isso? Não sei. Francamente, não sei exatamente o que está errado comigo. Não sei nem se realmente há alguma coisa errada. Eu sempre procurei ser tudo que ele queria e dizia que precisava, mas agora tudo é uma grande incógnita. Onde errei? Por que errei? Será que errei? Eu ainda amo meu marido, amo muito. Tenho me esforçado, tenho feito muito, tenho suportado outro tanto por ele, para vê-lo bem, para vê-lo progredir, para ajudá-lo a construir algo de bom. Eu não sei, não quero, não posso me imaginar sem ele. Ele tem, como todos nós, seus defeitos, Mas tem suas qualidades. Um de seus defeitos é ser machão. Pra não dar o braço a torcer, ou pra não dialogar, pegou suas coisas e saiu. E eu fiquei aqui, com o meu filho, sem saber pra onde foi, o que foi fazer, e principalmente se está bem. Nós precisamos conversar, conversar bastante. Mas eu sei que vai ser difícil. Gostaria que ele lesse isso aqui. Se bem que ele já me disse que acha tudo isso uma mentira.
Carolina Moraes:Foi no meio deste mar de dúvidas, de insegurança e de medo que a Isilda engravidou do segundo filho deles.
Bia Guimarães:O Valdir mudou muito desde que engravidei. Está mais carinhoso comigo e com o Dani. Mais atencioso, mais amável, mais tudo. Aliás, nós dois mudamos. Estamos mais maduros, mais crescidos, com uma situação mais sólida. Estamos bem.
Carolina Moraes:O Natal de 81 foi o primeiro, tanto para mim quanto para o Cacá. No diário, a Tizilda comemorou muito o nascimento dele, alegria do Daniel de ganhar um irmãozinho, mas já registrou ali um pedido de desculpas para o caçula.
Bia Guimarães:De antemão, eu lhe peço que perdoe a minha ausência quando eu voltar a trabalhar.
Carolina Moraes:Com a volta ao trabalho e agora com dois filhos, a minha tia começou a escrever menos nos diários. Os poucos relatos nesses anos são de uma mulher exausta, tentando entender por que aquela relação tinha virado aquele desgaste todo.
Bia Guimarães:Eu também me canso. Eu também preciso que alguém, um dia, faça um favor que aliás não é feito para mim. Pois é, assim fica difícil, muito difícil. Ser cobrada e não ter o direito de cobrar. Dar e não receber. Este sentimento de inutilidade me mata. Val, por favor, me ajude.
Carolina Moraes:Será que ele leu? Eu me pergunto. Será que ela falou isso para ele? No Natal de 1982, a Isilde escreveu pela primeira vez dizendo com todas as letras que o ciúme do marido tava incomodando ela.
Bia Guimarães:O que mais me machuca é a desconfiança que ele tem quanto ao meu comportamento, principalmente com os homens. E este assunto sempre vem à baila em nossas discussões, mesmo que elas se refiram a algo que não tem nada a ver. Não sei como ele quer que eu me comporte. O único homem que me interessa ter por perto é o meu Val. Será que dá para ele entender?
Carolina Moraes:Eu me lembro direitinho da primeira vez que eu cheguei nessa altura dos diários, em 2018, e do choque que eu tive quando eu vi uma letra completamente diferente da minha tia. Eu percebi que aquela era a letra do Waldir. Ele escreveu ali que, apesar dos pesares, ele nunca deixou de amar a Zee, como ele chamava ela, que o que tava acontecendo para ele era um "disacerto natural". E que ela não devia levar os conflitos e as ofensas muito a sério, porque tudo sempre ficava bem no final.
Alessandra Alfard:Eu amo demais a Zee.
Carolina Moraes:Sou muito ciumento.
Alessandra Alfard:Se pudesse, furaria os olhos e cortaria a língua e etc.
Voz B:de todos os homens que olhassem pra ela mal-intencionados.
Carolina Moraes:Se essa ciumeira toda é amor, putz, como eu a amo. Nessa época, o Waldir perdeu o emprego e a Isilda foi promovida de secretária a analista de comércio exterior. Quando a minha tia completou 30 anos, ela fez uns resumos no diário de tudo de bom que ela já tinha conseguido na vida, mas ela também escreveu que o marido andava ofendendo ela na frente de outras pessoas. E que a situação era humilhante.
Bia Guimarães:"Por quê? Eu nunca lhe dei motivos. Agora, não sou contra ter ciúmes.
Carolina Moraes:Apenas eu acho que ele não deve atrapalhar dessa maneira o relacionamento de duas pessoas." No final de 1983, a Isilda comemorou que finalmente tinha reencontrado o irmão dela, o Marco, o meu pai. Eles tinham passado quase 3 anos sem se ver. A única vez que eles se viram nesse ato foi quando a minha tia veio me conhecer, quando ela decidiu ter o cacá. Ela tava vivendo esse relacionamento cada vez mais difícil e ainda por cima ficando cada vez mais restrita ao núcleo familiar do Valdir e dos filhos, porque ela não tava falando com o resto da família. Mas dá para entender o que aconteceu para a Isilda retomar o contato com a família toda. Foi parte de uma mudança maior que tava acontecendo na vida dela. Nos diários, ela conta que tinha começado a se consultar com uma psicóloga. No final da vida dela, sem ela saber que era o final, ela tinha decidido reagir. Eu nunca vou saber como e nem porquê, mas ela entendeu que aquela relação não era saudável e que a culpa não era dela. Não podia ser.
Bia Guimarães:Eu tenho a impressão, relendo algumas passagens, De que sempre procurei esconder de mim mesma a minha realidade. O Val contribuiu muito para que eu me sinta como agora. Durante algum tempo, movido talvez por sua insegurança, por sua depressão, por sua provável sensação de fracasso, apoiou-se e passou a depender muito de mim. Tenho a minha individualidade, a minha personalidade, o meu modo de ser. Não quero voltar a me sentir como um patinho feio. Que ele me humilhe ou me ofenda impunemente. Não quero viver à sombra dele, a vida dele. Eu quero voltar a me sentir feliz, se é que um dia me senti. Eu quero voltar a rir com naturalidade. Neste novo processo de descoberta, muita coisa virá à tona. Talvez eu tenha que enfrentar verdades que um dia eu não tive coragem. Talvez esse trabalho de análise e autoanálise me mostre coisas que Eu nunca vi. O que realmente sei é que, embora o Val torça o nariz cada vez que se lembra que é dia de analista, eu vou em frente. O passo mais importante está dado: assumir que há algo errado.
Carolina Moraes:No penúltimo texto do diário da Isilda, num texto sem data, parece que ela vai dar um ultimato para o Valdir. Ela diz que aquela Zee que ele conheceu não existe mais.
Bia Guimarães:Se você é importante para mim, Eu sou mais. Não vou deixar de ajudar você, mas vou me ajudar primeiro. Porque eu amo você, mas amo mais a mim mesma. É dessa maneira que vejo as coisas agora. Primeiro eu. Primeiro o que eu quero. Primeiro o que eu preciso. E depois todos os que contam comigo. Isso é egoísmo? Talvez seja. Mas eu quero sentir o gosto de ser egoísta, pelo menos por pouco tempo. Conte comigo. Amo você. Ame-me como eu sou, com meus altos e baixos, com minhas descobertas que podem ser tardias, com minhas falhas, como eu amo você.
Carolina Moraes:No dia 11 de abril de 1986, de manhã, o telefone tocou na minha casa em Pinamonhangaba. Eu tinha acabado de completar 5 anos e eu atendi. Do outro lado tava minha avó, com uma voz que eu nunca tinha ouvido, sem fazer graça, como sempre. Ela só me pediu pra eu chamar minha mãe. Então ela e uma amiga foram pra São Paulo encontrar meu pai, que trabalhava na capital durante a semana. Neste mesmo dia, a família decidiu que os filhos da Tisilda iriam morar com a gente. E foi nesse dia que eles viraram meus irmãos. Quem encontrou os pais mortos na cama foi o Daniel, que tinha 10 anos de idade na época. Depois chegaram a minha avó e o Carlos Eduardo, que tinha 4 anos. Aos poucos a notícia se espalhou. Outros parentes, vizinhos, a imprensa, curiosos, amigos, colegas de trabalho. O jornal disse que o Valdir surpreendera a mulher com outro homem. Isso depois de um depoimento do irmão do Valdir ao jornal. A minha família não tem nenhuma notícia desse suposto outro homem. E depois de ler os diários, eu tenho certeza que o Valdir podia interpretar absolutamente qualquer coisa como uma prova cabal de traição. Então ele matou a Isilda. Matou a minha tia e se matou em seguida. Eu tenho 45 anos hoje e com frequência eu penso que eu já vivi muito mais do que a minha tia, quase 15 anos a mais. Eu nunca cheguei perto de viver a violência que a Isilda viveu, nem da violência física e nem da tentativa de feminicídio. Mas quando eu comecei a ler os diários dela, eu tava presa num relacionamento muito ruim, que me fez questionar por muito tempo se eu era uma boa mãe, uma boa esposa, uma boa pessoa. No mesmo ano em que eu comecei a ler os diários, eu decidi sair dessa relação. Muitas coisas me levaram a essa decisão, mas os relatos da minha tia talvez tenham sido um impulso pra eu decidir dar um outro rumo pra minha vida. Eu não queria que ler aquele diário fosse olhar pro espelho. A história que eu quis contar desse crime não é imparcial. É a vida de uma mulher morta aos 31 anos de idade por alguém que ela amava. Uma história baseada nos diários dela, na voz dela. É a história que não chegou no jornal quando ela foi assassinada e que não chega quando muitas outras mulheres ainda vão parar nos jornais por crimes parecidos. E por isso eu quis contar a história da minha tia. Quer dizer, eu quis deixar ela contar a própria história.
Flora Thomson-DeVeaux:Essa foi a Carolina Marcondes. E essa história foi adaptada de um ensaio dela na revista Serrote pela nossa Carolina Moraes. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. Tá aqui um pouco do que vem por aí.
Carolina Moraes:E eu perguntava para minha fonte: "See you!" que sou essa pessoa que tem dificuldade de fazer regra de três, como que o Banco Central e a CVM, lotados de especialistas, não perceberam isso?
Flora Thomson-DeVeaux:Para quem é membro do Clube da Novelo, o episódio do Apresenta chega um dia antes, sem anúncio. A gente também andou fazendo episódios bônus com conversas entre os nossos repórteres e posso falar que são excelentes porque eu não tive nada a ver com isso. Pra se juntar a gente, é só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouquinho.
Carolina Moraes:Oi, aqui é a Neca Setúbal.
Paula Scarpin:E aqui a Sueli Carneiro. Essa semana, no Escute os Mais Velhos, nós conversamos com a socióloga e ativista Guacira Oliveira. A Guacira contou pra gente sobre a trajetória dela em movimentos sociais, desde a organização mobilização estudantil até o feminismo. E lembrou da importância das mobilizações coletivas para o nosso avanço como sociedade. E eu acho que esse ativismo exclusivamente individual, individualista, ele é importante, ele dá gás para as atuações, mas é preciso respeitar o sujeito político, os sujeitos políticos repetido, sabe? O Escute as Mais Velhas é produzido pelo Estúdio Novelo e já está disponível em todas as plataformas de áudio.
Carolina Moraes:Toda terça-feira tem um episódio novo.
Paula Scarpin:Siga o podcast para não perder.
Flora Thomson-DeVeaux:No post desse episódio no nosso site dá para conferir todos os significados das flores e frutas naquele dicionário do século 19 para entender a verdadeira mensagem por trás do seu buquê de Dia dos Namorados. A gente também vai deixar um link para edição da revista Serrate em que saiu o ensaio da Carolina sobre a tia dela e tem fotos dos cartões maravilhosamente dramáticos da Perereca. Você já sabe que dá para ouvir todos os episódios do Rádio Novela Apresenta também no YouTube? No nosso canal lá a gente fez várias playlists de histórias curtas de até 30 minutos e também algumas playlists temáticas. Tem sobre futebol, música, política, lendas urbanas. Vem acompanhar a gente por lá. E recomenda pros seus amigos que ainda não ouvem a gente. Pra quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Bluesky e no TikTok. Pra quem é de email, dá pra mandar críticas, elogios e sugestões de pauta pro email apresenta@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, Você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Scarpin e da Flora Thompson Nevoa. A direção executiva é da Marcela Casaca e a A proposta de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jaeger. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalisi e a Carolina Moraes. A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farrar e pela Ethel Rudnitsky. Esse episódio teve desenho de som do Bauer Marim e da Bia Guimarães e a mixagem do Gabriel Pimentel. Nesse episódio a gente usou música original de Pedro Nego e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Thayna Nogueira. Eu sou a Ana Vieira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.
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