Os usos de uma ilha
Um sonho, um pesadelo, e um reino.
No primeiro ato: uma ilha-presídio na foz do Amazonas. Por Thaís Regina.
No segundo ato: um principado efêmero a 1200 quilômetros da costa brasileira. Por Bárbara Rubira.
A história "Entre o Diabo e a Redenção" teve apoio da Porticus e do Brazil LAB.
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Palavras-chave: Ilha da Redenção, Ilha do Diabo, prisão, penitenciária, colônia reformatória, Ilha da Trindade, Espírito Santo, Principado da Trindade, James Harden-Hickey
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Branca Viana
Cássio Prates
Erika Palomino
Bárbara Rubira
Cid Quaresma
Estela Paiva Nunes
Isabel Fernandes Campos
José da Silva Campos
Martin Kemp
Thaís Regina
- Ilhas Canárias· InternacionalPrincipado da Trindade · James Harden-Hickey · Ocupação britânica · Cabo telegráfico · Doutrina Monroe
- A Ilha de São Miguel como Espaço de LiberdadeColônia Reformatória de Cotijuba · Raimundo Nogueira de Faria · Francisco Assis dos Santos (Fuzil) · Instituto de reeducação social · Francisco de Assis Nunes · Raimundo Luiz Santos (Senhor Oito) · Execuções sumárias · Quadrilha do cofre
- Dívida Pública BrasilIlha Brasil · Ilha Imaginária de O Brasil · Platô submerso
- Inteligência ArtificialVieses em sistemas de crédito · Erros em reconhecimento facial de pessoas negras · Curadoria não-neutra
- Moda e EstiloModa e cultura · Erika Palomino · Cássio Prates · Claudia Kopke
- Comunidades literárias e clubes do livroClube da Novelo · Newsletter especial · Bolsa da Novelo
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Branca Viana:Rádio novela. Novelo. Tá começando o Rádio Novela Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Muito tempo atrás tinha uma ilha nos mapas a sudoeste da Irlanda. Era uma ilha pequenininha, não muito longe da costa. Ela apareceu pela primeira vez num mapa do século XIV, mas sumiu no final do século XIX. E não, ela não foi vítima do aquecimento global, do derretimento das geleiras, da subida dos oceanos, nada disso. Nem caiu no esquecimento por causa de algum erro cartográfico. Essa ilha é um caso à parte. Teve várias expedições para tentar chegar lá, Mas fora um ou dois relatos meio suspeitos, ninguém nunca conseguiu. E detalhe: o nome dessa ilha era Brasil. Tem muitas variações desse nome, na verdade. Brasile, Rocha do Brasil, Breasal, High Brazil. Parece que o nome é de origem gaélica, nada a ver com o nosso pau-brasil. Até porque a ilha foi "descoberta", entre aspas, um bom tempo antes do Pedro Álvares Cabral aportar por aqui. Inclusive, tem gente que acha que essa obsessão secular com a Ilha Brasil pode ser uma das razões de por que o nome do país Brasil acabou pegando. Agora, ninguém sabe dizer como a história dessa Ilha Brasil surgiu. Diziam que ela era um lugar encantado, que ela vivia envolta numa névoa e que ela só aparecia um dia a cada 7 anos. Num mapa do século XVII, a ilha parece quase um búzio, com um rio cortando ela no meio. Em outro mapa do século XVIII, o cartógrafo incluiu essa pontinha no meio do mar Mas botou assim: "Ilha Imaginária de O Brasil". Conforme a ciência foi avançando e as navegações foram mapeando mais os mares, tinha cada vez menos espaço para uma ilha imaginária, por menor que ela fosse. O último registro que a gente tem do avistamento da Ilha Brasil é de 1872, mas Analisando a descrição do marinheiro, parece que foi uma miragem mesmo. O engraçado é que ao longo dos séculos, enquanto ela existiu nos mapas, praticamente todo mundo concordava sobre a localização da Ilha Brasil. Talvez porque um cartógrafo só copiava o outro. Até porque ninguém conseguia novas informações sobre essa tal ilha. Só que aí, no século 20, oceanógrafos descobriram um grande platô submerso quase naquele exato lugar. Parece que ali realmente foi uma ilha, só que mais de 100 mil anos atrás. O nosso episódio dessa semana vai ser um conto de duas ilhas, uma no norte do Brasil e a outra ao leste dele. No fundo, são duas histórias de experimentos, de pessoas que olharam para um pedaço de terra rodeado de água por todos os lados e resolveram criar um mundo novo ali. Quem conta a primeira história do episódio é a Thaís Regina. Isso já já, depois do intervalo.
Voz A:This episode is brought to you by Prime. What if you had one more chance with the one that got away?
Voz C:Sam.
Thaís Regina:You came home.
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Voz E:Durante todo o mês de junho, os episódios do Rádio Novela Apresenta chegam a você com o patrocínio da Airalo, líder mundial em eSIMs. Quem gosta de uma boa história sabe que os melhores capítulos de uma viagem costumam acontecer quando a gente sai da rota turística. Mas, para se perder com segurança e realmente mergulhar na cultura local, seja achando aquele restaurante escondido no México, ou entendendo uma placa de sinalização em Tóquio. Para tudo isso, você precisa estar conectado. Antigamente, a primeira coisa que a gente fazia ao pousar era caçar um balcão de aeroporto para comprar um chip ou implorar por uma senha de Wi-Fi. Quem nunca se pegou gastando seu portunhol num "por favor, la senha"? Mas você sabe que isso não precisa acontecer, né? Hoje em dia dá pra usar a Air Low, a líder de eSIMs do mundo. É um chip digital. Você baixa o aplicativo, compra um pacote entre os mais de 200 destinos disponíveis, instala o eSIM e já sai do avião com internet. Sem taxas surpresas de roaming. Não precisa nem pausar o podcast que você tava ouvindo. A Airlo tem pacotes locais, regionais e globais. E a instalação é super simples e leva poucos minutos. Então, na sua próxima viagem, já sabe: tenha internet ilimitada neste verão com airlo.com. A IHALO.com.
Thaís Regina:Essa história começa num barco azul e branco no meio de um rio no Pará. A primeira vez que eu peguei esse barco Foi em dezembro de 2022. Eu tava em Belém pra cobrir um festival de música e acabei aceitando um convite de última hora pra fazer uma parada numa ilha. Pra ir de Belém até Cotijuba, você tem que pegar um barco em Cuaraci. Depois de mais ou menos uma hora, você desce no trapiche da ilha.
José da Silva Campos:Bora, velho!
Cid Quaresma:Bora, filho!
Thaís Regina:Você sai e dá de cara com uma praça onde tem bancas de açaí E uma fila de motoboys esperando pra levar passageiro pras praias. Eles já começam a gritar: "Vai quem quer, vai quem quer!" Que a praia é mais longe, então a corrida é mais cara. Vai quem quer mesmo. Logo atrás desses caras tem uma estrutura grande, quase do tamanho de um quarteirão. Dois andares, pé direito alto, completamente tomada pela mata. É a carcaça de um prédio antigo. Abandonado. A ruína virou paisagem. Os turistas desembarcam, os mototáxis disputam a corrida e eu, lá em 2022, parei pra tomar uma. Foi aí que me contaram o que esse prédio tinha sido. Quando eu voltei pra Belém, eu fiquei comentando essa história com amigos, jornalistas, pessoas que eu conhecia na mesa do bar. Praticamente todo mundo conhecia, só os mais novinhos que não. Um garçom chegou a me dizer que as histórias que chegavam da ilha eram tão tenebrosas que elas caíram na boca do povo. Lá pros anos 50, virou ameaça de pai e mãe pra criança levada. Do tipo: "Se tu não tomar jeito, vou te mandar pra Cotijuba, hein?" Eu voltei pra São Paulo, mas a ilha não saía da minha cabeça. No último ano, eu fui conversar com várias pessoas sobre a ilha. Sobre aquele prédio, e sobre as pessoas que passaram por lá em diferentes décadas. E no começo de 2026 eu voltei para lá para tentar contar essa história. Belém é uma cidade rodeada de ilhas, 42 delas, incluindo a Ilha do Marajó, que é gigante.
Cid Quaresma:A ilha de Cotijuba, ela é bem diferente das demais ilhas que que compõe a região insular de Belém.
Thaís Regina:Isso porque Cotijuba é uma das poucas que é de terra firme. As outras têm muita várzea e gapó, ou floresta inundada. E ela tem quilômetros e quilômetros de praia.
Cid Quaresma:Você tá ali naquela loucura de Belém, naquele caos urbano da metrópole, e em uma hora você tá num paraíso, descortina uma visão formidável da Baía de Marajó.
Thaís Regina:Tem vista para Baía do Marajó de um lado, e para a Baía do Guajará do outro. Não é pouco bonito, não.
Cid Quaresma:Então, eu me chamo Cid Quaresma, trabalho como professor de educação básica na Rede Municipal de Educação do município de Parauapebas.
Thaís Regina:Eu fui falar com o Cid por causa de um documentário que ele publicou no YouTube sobre a história de Cotijuba. Ele trabalhou na ilha por quase 10 anos, de 2009 a 2018.
Cid Quaresma:Na área de educação também, foi onde eu conheci as histórias, primeiramente por via oral e depois fui pesquisar também esportivo. Daí que nasceu a dissertação e as ideias para outros projetos, inclusive para aquele documentário que você mencionou.
Thaís Regina:Documentário do Cid se chama Cotijuba, a ilha do diabo? Assim mesmo, com ponto de interrogação no final. Isso por causa das histórias que ele foi ouvindo quando ele começou a morar por lá.
Cid Quaresma:Contavam muitas histórias de pessoas que tinham sido mortas, jogadas na travessia da Baía de Guajará, com pedras atadas ao pescoço. Isso daí impressionaria qualquer pessoa, né?
Thaís Regina:Tinha história de alma penada, de visagem. O pessoal também contava histórias de fugas da ilha, de gente que tava tão desesperada pra sair de lá que ia nadando ou numa canoinha qualquer.
Cid Quaresma:Mas as histórias de fuga sempre me deixaram de boca aberta porque A ilha fica a uma distância considerável, dezenas de quilômetros da capital da região continental de Belém.
Thaís Regina:Depois de ouvir várias histórias dessas, o Cid começou a fuçar pra ver se ele conseguia separar os causos dos fatos. Acontece que antes de virar um pesadelo, Cotijuba foi um sonho. O sonho da Ilha da Redenção. E esses dois nomes, Ilha do Diabo Ilha da Redenção, eles têm a ver com aquele prédio em ruínas.
Cid Quaresma:É realmente uma ruína bem vistosa. Qualquer turista curioso de história ou até mesmo curioso, simplesmente curioso, vai se deparar com aquilo e se perguntar o que aconteceu ali.
Thaís Regina:Alguns especialistas falam do conceito de crime da moda, tipo os arrastões nos anos 90 ou o golpe do Pix hoje. Não é necessariamente o crime que mais está sendo cometido, mas é o crime que as pessoas mais comentam, o que tá mais na boca do povo. Nos anos 30, o crime da moda era a delinquência infantil. Crianças soltas, morando na rua e se juntando em gangues pra cometer delitos. O livro Capitães da Areia conta a história de um bando desses em Salvador. E ele é bem dessa época, de 1937. E bom, nessa época Belém, assim como o resto da Amazônia, tava mergulhada na crise da borracha. O crime tava subindo de forma geral, mas o que tava na boca do povo eram aquelas crianças. E foi assim que nasceu a Colônia Reformatória de Cotijuba.
Cid Quaresma:Ela é encabeçada, idealizada por uma pessoa chamada Raimundo Nogueira de Faria.
Thaís Regina:O Raimundo Nogueira de Faria foi um desembargador que chegou a trabalhar na Vara da Infância do Pará.
Cid Quaresma:Então, chegou a ser juiz responsável pelas políticas de infância e de adolescência.
Thaís Regina:O Nogueira de Faria jogava nas 11. Além de juiz, ele era um espiritista conhecido, poeta amador e jornalista. E nessa época, ele começou uma campanha na imprensa do Pará. A ideia dele era comprar uma ilha, Cotijuba, e fazer um educandário lá, uma instituição pra tirar as crianças e adolescentes das ruas e dar uma formação pra elas. Ia ser quase uma escola integral e as crianças iam sair de lá com ofício. É bem estranho pra gente hoje essa ideia de uma ilha particular catando criança solta na rua. Mas o Nogueira de Faria tinha muito prestígio e, afinal, ele tava apresentando uma solução pro crime da moda. Aí ele acabou sendo comprada de uma viúva chamada Joana pelo valor de 37 contos na época. É difícil converter exatamente esse valor pra hoje, mas eu encontrei nos classificados, por esse valor, tanto casas grandes no Rio de Janeiro quanto pequenos sítios no interior. O Nogueira de Faria foi o primeiro diretor do Educandário, que chegou a receber mais de 500 alunos. O primeiro interno foi um menino de 9 anos que já tinha tido 9 encontros com a polícia. A cara do menor delinquente que a sociedade paraense queria corrigir. O nome dele era Francisco Assis dos Santos, mas ele também atendia por Fuzil. Na nona vez que ele foi preso, em 1932, O Fuzil foi entrevistado pessoalmente pelo Nogueira de Faria e diz que ele topou, sei lá sobre quais condições, ir pra Cotijuba. Essa ideia dessa ilha como um lugar de reformar as pessoas foi se expandindo. Em 1945, construíram uma prisão lá também, pra adultos no caso, mas também pra "menores considerados perigosos". Era um instituto de reeducação social. A ideia era parecida com o Educandário: mandar presos pra lá, pra eles aprenderem a trabalhar e voltarem pra sociedade como bons cidadãos. Era chamada "terapia do trabalho compulsório".
Cid Quaresma:Então, ali se constrói a chamada mística da Ilha da Redenção, com a união dos dois projetos.
Thaís Regina:Depois de um tempo, em 1947, o Educandário foi estatizado vendido pro estado do Pará. Teve um grande evento e tudo. No jornal saiu assim: "Premiados os alunos de bom comportamento. A Ilha da Redenção é um sonho quase materializado." As ilhas mexem muito com o nosso imaginário. Lugar isolado, rodeado por água, como um mundo em miniatura. Fora do mundo normal. Se uma criança, um adulto, tá dando problema, por que não tirar desse mundo e mandar temporariamente pra outro?
Estela Paiva Nunes:O meu avô, ele perdeu a mãe muito cedo, né? Ele perdeu a mãe dele com 7 anos, 6 anos de idade, né?
Thaís Regina:Essa aqui é a Estela.
Estela Paiva Nunes:Meu nome é Estela Paiva Nunes. Sou graduada em História pela Universidade do Estado do Amazonas.
Thaís Regina:A monografia da Estela na graduação foi sobre o avô dela. Isso porque ele foi uma das crianças que passou por Cotijuba.
Estela Paiva Nunes:O meu avô ficou de início com a avó dele, só que ela não tinha condições naquela época realmente de arcar com a condição de sustentar, de dar uma vida.
Thaís Regina:O nome do vô da Estela era Francisco de Assis Nunes. Não confundir com Francisco de Assis dos Santos, o Fuzil. Um dia, a tia do Francisco chamou ele pra ir comprar peixe em Quaraci. Quando ele chegou lá, ele percebeu que tinha alguma coisa errada. Não era pra comprar peixe que eles tinham ido pra lá. O barco pra Cotijuba tava esperando ele.
Estela Paiva Nunes:Quando ele chega lá, ele se depara, né, que entregaram ele para um tenente, porque era governado por militares, o reformatório. E ele foi pra cortar o cabelo, que ele fala que é cabelo raspado, né. E ele foi colocado de castigo.
Thaís Regina:A família do Francisco tinha mandado ele pra Cotijuba, em parte, pra ele ter o que comer. Mas, na lembrança dele, ele passou o primeiro dia sem ter nada pra comer ou beber. E não melhorou muito a partir dali.
Estela Paiva Nunes:Tudo que era levado pra eles comerem ali dentro acabava sendo levado pelos funcionários, né? Deixavam só resto de comida ou até ossos.
Thaís Regina:Francisco ficou no educandário dos 7 aos 15 anos. Durante esse tempo, ele não teve contato com a família. Na lembrança dele, todo ano os meninos eram levados para Belém para fazer um desfile de uniforme, para mostrar como o trabalho do Educandário estava funcionando.
Estela Paiva Nunes:Porque o Educandário vinha com a proposta militar de realmente tornar aqueles que estavam indo por caminhos incertos dentro de Belém, órfãos que precisavam de acolhimento, em homens de bem.
Thaís Regina:A Estela chegou a conversar com uma tia do avô dela, que ainda achava bom ter mandado Francisco para Cotijuba. Mas o Francisco era tão traumatizado pela experiência que, mesmo depois de contar tudo para Estela, ele tinha medo que ela publicasse a pesquisa.
Estela Paiva Nunes:Ele ainda falava, né, no final que eu tinha gravado ele, ele ainda falava assim: "Minha filha, tenho medo, né, que eles de repente venham, me encontrem e mandem me matar por eu estar falando." as situações que realmente aconteciam dentro do educandário.
Thaís Regina:A Estela sabia que isso não ia acontecer. Ela explicou para o avô dela várias vezes como funcionava um trabalho acadêmico. No fim, ele cedeu. Mas essa paranoia, esse medo, diz muito sobre o que ele viveu. A Estela diz que o avô dela era uma pessoa fechada, rígida.
Estela Paiva Nunes:Assim, sabe, eu via que aquilo acabou fechando muito ele como pessoa. E eu sentia um pouco disso. No entanto, foi demorado uns anos realmente para ele quebrar essa barreira, né? E com os netos acabou quebrando, né? Como fala, "neto muda", né?
Thaís Regina:No dia 7 de agosto de 1951, a primeira página do jornal Liberal mostrava uma foto de meninos enfileirados, apertando os olhos por causa da claridade do sol. A manchete era: "Egressos da Ilha do Diabo". O jornal já tinha denunciado que, ao contrário do que o governo estava dizendo, os menores detidos lá estavam passando fome e eram torturados. Isso foi poucos anos depois do fim da Segunda Guerra, e com tudo que veio à tona, o jornal comparou o lugar a um campo de concentração nazista. Naquele mesmo ano, Teve mais uma notícia do Fuzil, o primeiro interno da colônia, que já não era um menino, era um homem feito. Aparentemente, ele vivia indo e voltando entre Cotijuba e Belém, sendo preso e solto, preso e solto. Depois de furtar uma alfaiataria, ele acabou sendo mandado pro São José, um presídio no meio da cidade. Depois disso, eu não achei mais nada dele. Ao longo dos anos, a fama da ilha só foi piorando. Teve relato que a polícia encaminhava menores delinquentes direto pra ilha, sem ter nem audiência com o juiz. Também teve casos de pais que tinham mandado os filhos pra lá pra receberem uma educação e depois acabaram pedindo os filhos de volta. Dois meninos que voltaram de lá contaram que o castigo deles era trabalhar carregando pedra na praia do Vai Quem Quer, junto com os presos adultos da ilha. Tem um registro de 1964 mostrando que o educandário finalmente tinha construído um lugar pros meninos aprenderem ofícios, que, vamo combinar, era o propósito do lugar desde que ele tinha sido inaugurado, 30 anos antes. Quando eu voltei pra Cotijuba, no começo de 2026, e desci do barco, eu reparei numa coisa que não tinha visto da primeira vez. No centro da praça, em frente ao trapiche que dá de cara pro educandário, tem uma obra da prefeitura, tipo um pequeno obelisco. Na placa tem um agradecimento da cidade ao "Senhor Oito".
Cid Quaresma:O nome dele é Raimundo Luiz Santos, falecido já. Ele também era conhecido na Ilha de Cotijuca como Raimundo Oito.
Thaís Regina:Oito, obviamente, não era o sobrenome dele. Foi um dos números que ele ganhou quando ele era interno. O Cid Quaresma acabou ficando muito interessado no Raimundo 8 porque ele evidentemente tinha outro tipo de memória da ilha.
Cid Quaresma:Esse morador, ele evitava tratar da Ilha de Cotijuba como esse inferno, como essa ilha do diabo. Ele evitava por todos os meios possíveis, inclusive se irritava se a gente mencionasse esse tipo de afirmação. A Ilha de Cotijuba não era a Ilha do Diabo, né? Pelo contrário, a Ilha de Cotijuba era a Ilha da Redenção.
Thaís Regina:O Raimundo nasceu em 1929 na cidade de Cametá, no interior do estado do Pará. Ele não conheceu o pai, perdeu a mãe aos 5 anos de idade e acabou indo morar como agregado na casa de uma família em Belém. Ele deu uma entrevista pro Cid em que ele lembrou o dia em que ele resolveu que não dava mais. Era um dia comum. A dona de casa deixou a comida no fogo e foi no dentista. E o Raimundo, que tinha ficado de cuidar da casa, deixou o feijão queimar. Quando a mulher voltou, o Raimundo apanhou de um umbigo de boi, que é um chicote feito da carne do boi seca e trançado com couro por cima. Esse chicote é muito conhecido como "cassetete do caipira" ou "pau de dar em doido", que diz muito sobre o Brasil, mas melhor não entrar nisso agora. Depois dessa surra, os donos da casa foram almoçar. Feijão queimado ficou pro Raimundo. E quando o Raimundo foi pedir a bênção antes de ir pra escola, a mulher disse: "Deus te abençoe, e quando tu voltar, vai pegar uma surra pior que essa." Ele nunca voltou. O Raimundo foi pra delegacia e disse lá que ele precisava de um lugar pra ficar. E o Juizado de Menores encaminhou ele pra Cotijuba. O Raimundo chegou na ilha no dia 25 de setembro de 1943. Ele deu um depoimento dizendo que, quando ele completou 18 anos, o diretor decidiu fazer um teste com ele. Ele deixou Raimundo, ainda aluno, como diretor provisório do educandário. E os dois subdiretores tinham que responder a ele. Assim, todo mundo sabia que não era bem desse jeito, mas o Raimundo se saiu muito bem. Ele batia todas as decisões com os subdiretores. E quando o diretor voltou, ele foi contratado pra ser funcionário. O Raimundo dizia que ele foi promovido. Pra ele, era um dia de festa, a coroação da redenção.
Cid Quaresma:Ele é aquele que consegue galgar de aluno interno pra funcionário. Então, a vida dele foi dentro da instituição.
Thaís Regina:O Raimundo não foi o primeiro, nem o último. Em maio de 1947, bem naquela transição de Cotijuba pro governo do estado do Pará, o Raimundo Nogueira de Faria chamou a imprensa para presentear internos por bom comportamento. Ele aproveitou para fazer um discurso com, abre aspas, conceitos elogiosos a vários alunos, entre os quais os de números 10, 29, 51, 53, 55 e 57, estendendo esses conceitos a outros, inclusive os ex-alunos que hoje regenerados "Servem várias funções ali." Cotijuba contratava os meninos pra vigiar outros meninos. Não faltava trabalho na Ilha do Diabo. Também não faltam divergências entre o depoimento do Francisco, né, que é o avô da Estela, e o do Raimundo, o Senhor 8. Se a única coisa boa de Cotijuba pro Francisco foi a educação, Pro Raimundo, tudo era bom em Cotijuba, exceto a educação, que ele achava meio fraca. O Francisco teve medo da ilha até o fim da vida dele, e o Raimundo nem gostava que ninguém falasse mal dela. Essa diferença fica ainda mais gritante porque é muito possível que eles tenham convivido, só que eles não eram iguais. O Raimundo teria sido contratado como inspetor no final dos anos 40, o que significa que ele deve ter recebido Francisco no final dos anos 50. É difícil chegar até aqui sem pensar que essa é a história de um campo de concentração de trabalho infantil que ficou em atividade por mais de 30 anos no coração do Pará. Mas o que explica o Raimundo VIII? Por que ele continuou vendo Cotijuba como a ilha da redenção até o fim da vida? Esse é ele naquele documentário do Cid.
Martin Kemp:Cotijuba, sentinela da amiga gentil Belém, és a fonte amiga e bela dum sonho de fazer bem.
José da Silva Campos:És a paz de muitos lares, és um gênio protetor cujas asas dos telhares são feitas de luz e amor.
Thaís Regina:Em 1968, saiu uma pequena notícia no Diário da Noite do Rio de Janeiro. Ilha vira colônia de presos. O governo paraense tinha desistido oficialmente de usar Cotijuba como um centro de recuperação de menores. Agora, só os adultos é que iam ser mandados pra lá. Os presos correcionais. Esse instrumento da prisão correcional deixou de existir depois da Constituição de 88. Mas dá pra comparar esses presos correcionais com os presos provisórios. Eles não tinham sido fichados, não tinham sido formalmente acusados, mas eles eram despachados para prisão. Chegou a ter preso político mandado para ilha também, pelos mais diversos motivos. A Colônia Penal de Cotijuba existiu durante 3 décadas. E se o educandário já não tinha boa fama, a colônia conseguiu espalhar mais terror ainda. Em setembro de 1970 teve uma fuga da prisão. 11 detentos serraram as grades das celas e escaparam. Eles foram pegos lá no Vai Quem Quer e obrigados a andar os 13 km de volta para a prisão. E quando eles chegaram, eles foram espancados. Os guardas meteram um deles numa canga de boi e ele apanhou tanto que morreu. O inquérito, um ano depois, concluiu que eles tinham fugido por causa da fome e dos maus-tratos. No ano seguinte, saiu uma notícia de um preso em Belém que se machucou deliberadamente. Segundo a polícia, ele tava tentando se fingir de louco pra não ser mandado pra Cotijuba. Quando eu voltei pra Cotijuba, eu queria achar alguém que tivesse passado pelo educandário ou pela colônia penal. O Cid tinha entrevistado alguns internos, inspetores, mas quase todos já tinham morrido desde a gravação do documentário dele. Eu fui puxando papo, encontrando pessoas, e me disseram que o avô do menino do açaí já morava na ilha no tempo do Educandário. Me indicaram mais ou menos onde era a casa, eu fui batendo de porta em porta e consegui chegar lá. Me fala seu nome.
José da Silva Campos:O meu nome? José da Silva Campos.
Thaís Regina:José da Silva Campos, que todo mundo chama de Seu Banha. Ele chegou adolescente em Cotijuba, no final dos anos 40, mas ele não foi pra lá pra ser interno. Ele trabalhava num engenho de branqueamento de arroz que tinha lá.
José da Silva Campos:Compreendi, 90 anos já é uma boa vida, né? Já foi namorador, dançador.
Thaís Regina:E ele já foi me dizendo que eu não era a primeira pessoa a procurar ele para saber do passado da ilha.
José da Silva Campos:O que eu posso lhe informar é que já vieram diversas pessoas aqui. Eu nunca gostei de contar mentira, sabe? Quem fala a verdade é comigo.
Thaís Regina:Agora, quem conta boato, negócio de conversinha, O Seu Banho me contou dos alunos do educandário que aprenderam ofícios lá, dos presos que trabalhavam na roça, que plantavam pimenta-do-reino. Ele disse que todas as pessoas que ficaram presas em Cotijuba já morreram ou deixaram a ilha.
Isabel Fernandes Campos:A gente antigamente éramos vistos como ilha de presos, né? "Você mora em Cotijuba?" "Ah, Deus me livre!" Essa é a filha dele.
Thaís Regina:A Isabel Fernandes Campos, que estava acompanhando a conversa.
Isabel Fernandes Campos:Aqui, o tio Juvancê era uma pessoa que era muito procurada, assim, e foi meu ex-sogro, né?
Thaís Regina:E qual que era o nome do seu ex-sogro?
Isabel Fernandes Campos:Raimundo dos Santos.
Thaís Regina:Até uma placa. Raimundo 8?
Isabel Fernandes Campos:É, Raimundo 8, chamava 8.
Thaís Regina:A Isabel falou que eu teria gostado do Raimundo, que ele era alegre, fazia piada quando vinham conversar com ele sobre a vida dele na ilha. E que ele tinha orgulho da trajetória dele.
Isabel Fernandes Campos:O que ele falava pra nós era isso, né? Que pra ele, que o Tijuba deu sentido à vida pra ele.
Thaís Regina:Ao contrário do Raimundo Oito, o Seu Banha nunca trabalhou no educandário nem na colônia penal. Mas ele conhecia muita gente que trabalhava.
José da Silva Campos:A gente só sabia notícia da cadeia lá porque tinha os guardas que tomavam conta. Por conta dele, né?
Thaís Regina:É, o pessoal morava aqui, né?
José da Silva Campos:Agora, a boa não era porque eles fugiam de lá, mesmo como tinha segurança, mas eles fugiam pra não trabalhar.
Thaís Regina:Ele tava falando disso, dos presos que fugiam, e aí ele falou isso: Aí, dele, se ele pegasse ele 2, 3 vezes, sumiu ele dentro do mato.
José da Silva Campos:Sumiu, sumiu.
Thaís Regina:Quando eu perguntei mais sobre o que os amigos policiais contavam, ele disse que hoje em dia Polícia trata bandido igual criança. Aí ele dá um corte.
José da Silva Campos:Agora enxerrei com a senhora que não... O resto eu não sei contar, não.
Thaís Regina:Uma das coisas mais impressionantes do documentário do Cid Quaresma sobre Cotijuba é o jeito que os entrevistados falam da violência lá.
José da Silva Campos:Então é por isso que chamam Cotijuba Ilha do Diabo, lá que o diabo ia se regenerar, né?
Thaís Regina:Esse é o depoimento que abre o documentário do Cid. Quem fala isso é o seu Arthur, que é ex-pracinha e ex-subdiretor da Colônia Penal de Cotijuba.
José da Silva Campos:Agora tem uma coisa: na hora da disciplina, aquele que pisou na bola pode ser até o filho de São Paulo, Pedro, filho de São Francisco e São Januário, tinha que entrar na palmatória de ferro, na bunda, em bico de boi, na costa e o formigueiro, porque eles apanhavam de qualquer maneira. Ou eles aprendiam a ser cidadão, ou então morriam.
Thaís Regina:Os entrevistados falam de bater nos presos, de fuzilar os fujões, de inspetores jogando pessoas na Bahia.
José da Silva Campos:Jogou o cara na maré e depois faz o boletim dizendo Que ele fugiu meia-noite numa embarcação do pescador e tinha muito vento, tinha muita onda na travessia do Guajará e ele revirou ele e mais 4 colegas em cima da embarcação e morreu afogado. Ponto final.
Cid Quaresma:As pessoas tratam os episódios de violência com um certo "scarno", um certo deboche, com uma naturalidade que Às vezes nos deixa indignados.
Thaís Regina:O Cid disse que a única pessoa que não contava essas histórias de bom grado era justamente o Raimundo.
Cid Quaresma:Chegavam pra ele e perguntavam, por exemplo: "Ei, Raimundo, como eram as histórias da Ilha do Diabo e tal?" Aí ele já fechava a cara, não gostava de falar.
Thaís Regina:Antes de voltar pra Cotijuba, eu já tinha ouvido muitas histórias dessas. Do Cid, do pessoal de Belém, de relatos em teses e dissertações. Mas ali com o Seu Banha foi a primeira vez que uma pessoa envolvida nessa história me falou sobre execuções sumárias diretamente. Não como uma história, não como um boato, mas como uma confissão de amigos policiais. "Seu José, o pessoal conta muita história sobre que no trajeto de Belém pra cá os presos eram jogados no rio, que os presos eram torturados..." "Eu não sei." "Você nunca escutou uma história assim, não?" "A gente escutou essa história já na época do Teodorico Rodrigues." A Isabel começou a me explicar que tinha uma estrutura no topo do antigo prédio da prisão, uma casinha, e que as pessoas diziam que os presos eram torturados lá. Ela ia para o presídio quando ela era jovem, nos anos 70, como parte de um grupo da Assembleia de Deus.
Isabel Fernandes Campos:Saiu da cela e cheirava o cheiro da cela, levava para o auditório que tinha tudo dentro do presídio, né, aquele auditório lá. Então tinha uns curiosos que subiu a escadaria. Então quando ele viu subindo a escadaria, eles visualizavam sangue, fezes, entendeu?
José da Silva Campos:Nesse tempo não existia nem transporte aqui de...
Thaís Regina:A Isabel falou várias vezes que era uma história que ela tinha ouvido, que ela nunca teve coragem de subir lá.
Isabel Fernandes Campos:Era muito severo, é por isso que eu tô falando pra você que eles não nos amedrontavam dentro da ilha, Porque se houvesse denúncia de moradores, era o fim deles, né? Então eles preferiam fazer uma amizade com os moradores, ter um respeito pelos moradores, porque era mais light para eles.
Thaís Regina:Na memória da Isabel, a única queixa que os moradores tinham dos presos é que às vezes eles vinham pegar comida e às vezes roubavam uma canoa para tentar fugir da ilha.
Isabel Fernandes Campos:Também uma coisa que eu presenciei ainda, era adolescente, adolescente, como eu te falei, jovem, mas eu lembro muito bem.
Thaís Regina:Ela lembrava de estar andando na rua, voltando da escola, e ver os agentes penitenciários trazendo fugitivos de volta.
Isabel Fernandes Campos:Tivesse uma casa assim que desse pra gente entrar, a gente entrava pra não ver, porque eles vinham, o castigo deles, eles vinham com pau assim amarrado, entendeu? Braço aberto assim, o pau amarrado, e eles vinham andando na rua pra todos os moradores verem eles. Isso aí eu vi, cheguei a ver. É, Thaís, mas é a vida, mana. Felizmente, né? Felizmente existe a escolha entre o bem e o mal, né? Você é uma jornalista, você é uma pessoa que estudou pra isso e foi uma escolha sua, pela oportunidade que você teve, você aproveitou essa oportunidade e fez essa boa escolha, né? Mas isso não vai deixar você insensível impossível àqueles que não tiveram a mesma chance, a mesma oportunidade.
Cid Quaresma:A minha pesquisa, ela tá relacionada à formação das memórias, né? Eu tento buscar elementos que comprovem a construção dessas memórias, sejam a positiva ou a negativa. Então, o que que eu pude arrolar? As fugas realmente existiam, Os motins eram constantes, as torturas eram muito presentes. Sobre as pessoas com pedras atadas no corpo e jogadas na baía, eu não consegui uma prova contundente. O que eu consegui foi a repetição do relato, que é uma evidência interessante.
Thaís Regina:Tem um caso que marcou bem a memória da ilha e que acabou contribuindo para o fim da Colônia Penal. E esse foi bem documentado.
Cid Quaresma:Que foi o sequestro de uma embarcação que transportava presos pra colônia penal.
Thaís Regina:Era uma noite de fevereiro de 1976. Quem tava no barco com os presos era o administrador do presídio, um militar e radialista chamado Teodorico Rodrigues. Entre essa turma tava um grupo de presos que andavam praticando assaltos em Belém. Que tinha ficado conhecido como a quadrilha do cofre.
Cid Quaresma:Se eu não me engano, entre uma hora, uma hora e meia, está chegando na Ilha de Cotijuca, passando pela frente da Ilha de Paquetá, ocorre um motim de presos.
Thaís Regina:Um deles conseguiu se desamarrar e pegar a arma do Teodorico. Aí ele foi desamarrando os outros.
Cid Quaresma:E infligiram ao Teodorico uma surra terrível.
Thaís Regina:Alguns queriam matar ele na hora, mas dois presos intervieram. Então eles jogaram o administrador na lama na beira da ilha, pra ele morrer ali na maré. E depois eles fugiram.
Cid Quaresma:O que se segue a isso é uma caçada implacável das forças militares contra essas pessoas.
Thaís Regina:Depois de 5 dias, a polícia chegou nos últimos fugitivos. O que aconteceu na sequência foi presenciado por vários repórteres e fotógrafos locais. Saiu até na capa do Pasquim, com a manchete "Vietnã? Não, Belém do Pará". Isso porque os policiais espancaram alguns dos presos, já rendidos, e em outros eles atiraram a queima-roupa, na frente das câmeras.
Cid Quaresma:A imprensa em geral vai cobrir isso do ponto de vista da polícia, como se fosse algo heroico o que eles fizeram.
Thaís Regina:Boa parte da imprensa cobriu assim. Mas teve uma exceção notável: o jornalista Lúcio Flávio Pinto, que já apareceu por aqui na Rádio Novelo Apresenta, no episódio "O Fardo Que Carregamos". Tá linkado no post desse episódio no site. O Lúcio Flávio era editor de um suplemento no Liberal, E ele publicou uma cobertura em tom de denúncia.
Cid Quaresma:E resultado: foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional.
Thaís Regina:No caso, quem foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional foi o próprio Lúcio Flávio, por ter denunciado a ação da polícia. Ele escreveu sobre isso nos cadernos dele: quando ele foi levado ao interrogatório, um coronel mostrou para ele os depoimentos dos outros fotógrafos que tinham coberto a recaptura. Todos eles diziam que a cena tinha sido montada, que eles tinham pedido para os policiais e para os presos posarem assim. Tanto Lúcio quanto o repórter que tinha feito a matéria, o Paulo Ronaldo Albuquerque, foram processados como subversivos, mas o caso acabou arquivado. Em 1979, a Colônia Penal de Cotijuba Encerrou suas atividades.
Cid Quaresma:Então Belém meio que tava saturada de notícias de problemas relacionados à Ilha de Cotijuba. E aí, como é que resolve isso? Com a construção de um outro sistema prisional, de um outro presídio, que é o presídio americano existente até hoje.
Thaís Regina:Até hoje, o Brasil segue essa mesma lógica: construir mais presídios pra resolver o problema dos presídios. A resposta pra superlotação é sempre construir mais um complexo. E assim prisão vai gerando cada vez mais prisão. O presídio de Americano fica a uma hora de carro de Belém, no interior do estado. É uma tendência: as unidades saíram das capitais e foram pro interior, longe da vista e, especialmente, longe dos familiares. É como se quanto menos a gente souber o que acontece lá dentro, melhor. Mas as prisões estão por toda parte. E como não, né? Tem quase 1 milhão de pessoas presas no país. Eu nem tô no jornalismo há tantos anos assim, mas durante uma parte considerável desse tempo eu tenho olhado pras prisões no Brasil. Eu entrevistei familiares de pessoas presas, entrevistei egressos do sistema prisional, Acompanhei movimentos sociais abolicionistas e fiz pesquisa na fila de visitas de alguns complexos prisionais. Uns anos atrás, eu conversei com uma pesquisadora chamada Catarina Pedroso. A Catarina entrevistou vários egressos do sistema prisional pra entender como a prisão marca as pessoas. Uma coisa que chamou a atenção dela foi como a palavra "sofrimento" é usada para se referir à própria prisão, ao lugar da prisão ou ao tempo da prisão. As pessoas falam "lado sofrimento" ou "meus irmãos de sofrimento" ou "peguei 8 anos de sofrimento". E sofrimento vira uma categoria de tempo e espaço. Nem toda ilha é um presídio, mas todo presídio é feito para ser uma ilha de sofrimento, pra repetir esse experimento social de Cotijuba, da Ilha Grande, de Alcatraz. A lógica da prisão é também a lógica da ilha: você chega, fica um tempo, depois volta. É nesse isolamento que nasce um novo mundo, com novas regras, novas hierarquias, novos papéis. Os pactos de violência por trás desse mundo Não se dão só entre os presos ou entre os presos e os funcionários. Por onde as prisões passam, elas deixam um rastro, uma ruína ou uma história repetida mil vezes. Em uma das paredes das ruínas de Cotijuba tem uma frase pintada, já com a tinta gasta, corrida pelo tempo. Só dá pra ler o comecinho e isso já dá uma pista do todo: Diz assim: "Tudo pelo Brasil." Essa foi a Thaís Regina.
Branca Viana:Ela pediu para agradecer a Amanda Seabra, que também colaborou com a pesquisa dessa história. A apuração dela teve apoio do Brasil Lab, do Instituto de Estudos Internacionais e Regionais, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, uma iniciativa acadêmica que considera o Brasil um nexo planetário vital. Conheça mais em brasillab.princeton.edu. A gente já volta.
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Voz L:Esse podcast é um oferecimento da Wise, o jeito certo de pagar no mundo todo. Quando você viaja pro exterior ou tá se preparando pra uma viagem inesquecível, Mas sempre chega aquele momento: a hora de converter os gastos para moeda local. E sabe qual é o erro mais comum? Viajar pagando com cartão de crédito. Na hora pode não parecer nada, mas o custo da conversão pode assustar quando a fatura chegar.
Martin Kemp:A solução?
Voz L:Viajar com o cartão da Wise. Com ele você pode pagar em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial. A mesma que você vê no Google. Você pode converter e manter o dinheiro na conta já na moeda que vai usar no destino. Depois é só pagar sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você também pode sacar dinheiro em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos no mundo todo. Faça parte das mais de 15 milhões de pessoas que pagam globalmente do jeito certo. Quem sabe vai de Wise? Baixe o app da Wise hoje. Termos e condições se aplicam.
Voz K:Um museu decide o que você vê. Já uma inteligência artificial, bem, ela decide como você é visto. Pensa bem. Hoje existe câmera de reconhecimento facial no Brasil que erra mais quando o rosto que ela enquadra é negro. Existe algoritmo de seleção que penaliza sistematicamente currículos de mulheres. E tem sistema de crédito que reproduz desigualdades que já existiam muito antes do computador ser inventado. Isso não é um defeito da máquina. É que toda IA é treinada com dados que alguém escolheu. É uma curadoria. E nenhuma curadoria é neutra. E é sobre isso que a Silvana Bahia vai falar na Escola Maisp em junho. Vão ser 4 encontros sobre inteligência artificial, justiça de dados e imaginação de futuros. E ó, pode esquecer prompts ou dicas de produtividade. O curso não é sobre o que a IA pode fazer por você. Sobre o que ela já está fazendo com a gente. O curso começa no dia 9 de junho com aulas online e ao vivo às terças-feiras das 19 às 21 horas. As gravações ficam disponíveis por até 30 dias. O link para inscrição está na descrição do episódio e o Clube Novelo tem 10% de desconto com cupom que será enviado na newsletter exclusiva para assinantes.
Branca Viana:No segundo ato dessa semana, a Bárbara Rubino investiga uma ilha deserta que já foi o pivô de brigas internacionais e a sede de uma realeza um tanto esquisita. Essa história foi veiculada pela primeira vez no comecinho do Apresenta, em abril de 2023, e ela é daquelas que não envelhecem. Vai lá, Babi!
Voz C:Quando você era criança, você brincava de faz de conta? De pirata, veterinária, cantora? E de rei? De rainha? De princesa? Esse é um clássico, né? Quando a gente é criança, a ideia da realeza parece tão glamourosa. E pra muita gente continua sendo, mesmo depois de crescido. Milhões de pessoas no mundo inteiro ficam vidradas na TV cada vez que um membro da família real britânica se casa. Mas o "faz de conta" fica pra trás, né? A gente cresce, fica chato, para de brincar. Agora, e se não ficar pra trás? E se a fantasia continuar? Hoje eu vou contar uma história de realeza. E essa história de realeza se passa num reino muito perto daqui. Reino não, desculpa, principado. Um principado pertinho da costa brasileira. O nosso cenário é a Ilha da Trindade.
Martin Kemp:Ela fica aí pouco menos de 1.200 km do litoral do Espírito Santo.
Voz C:Quem me contou sobre a história da Ilha da Trindade foi o Martin.
Martin Kemp:Bom, meu nome é Martin Kemp, eu sou diplomata de carreira Ao longo da minha carreira, quando estava no Instituto Rio Branco, o meu mestrado foi sobre a ocupação britânica da Ilha da Trindade.
Voz C:O Martin passou muitos anos estudando toda a história da Ilha da Trindade, para tentar entender melhor uma disputa diplomática sobre o território que rolou no fim do século 19 entre o Brasil e a Inglaterra. Mas a história que eu quero contar hoje é outra.
Martin Kemp:A história do Barão Hardenhick, que pareceu bastante inusitada e algo um pouco ali A história do Barão Hardenrique.
Voz C:Guarda esse nome: Hardenrique. Porque antes de chegar nela, eu pedi pro Márcio me contar um pouco da história da Ilha da Trindade antes do Barão.
Martin Kemp:O registro que se tem é que a ilha teria sido descoberta no início do século 16, 1500 e pouco, por um navegador português.
Voz C:O navegador seria o João da Nova, que na verdade era espanhol da Galícia, mas estava a serviço da coroa portuguesa. Ele teria avistado a ilha em 1501. Nos anos seguintes, a ilha teve a posse reconhecida pelos portugueses e foi batizada com o nome que tem até hoje, em homenagem à Santíssima Trindade.
Martin Kemp:É uma ilha montanhosa, tem uma formação que eles chamam de pão de açúcar, lembra um pouco o Pão de Açúcar do Rio de Janeiro. E ela tem uma característica também, vários relatos, é que ela é difícil de atracar, ou seja, ela não tem um porto natural, é difícil um barco chegar até ela, né, então por questão lá da movimentação da água e maré e correnteza, Enfim, então tem essa dificuldade natural de atracar na ilha.
Voz C:A ilha tem pouco mais de 10 quilômetros quadrados de área, um terreno acidentado e picos que chegam a 600 metros de altura. A paisagem de hoje é diferente daquela de 1500, e logo você vai entender por quê. Mas naquela época ela era coberta de mata, muito verde e montanhas no meio de um mar muito azul. Vivendo lá: caranguejos, tartarugas, águias, aves de vários tipos. Coisa linda mesmo, paradisíaca. E mesmo com toda dificuldade para tracar, ainda assim tinha gente que passava pela ilha durante toda aquela era das grandes navegações.
Martin Kemp:Conta-se que em 1700, o astrônomo britânico Edmund Halley—
Voz C:Edmund Halley, o cara que descobriu o cometa Halley—
Martin Kemp:teria passado pela ilha, encontrando ela deserta, achou que ela não tinha dono, então tomou posse da ilha para o governo britânico e E deixou lá algumas cabras, se porventura algum náufrago ficasse na ilha, ele ia ter algum alimento. Só que essa história das cabras levou a um impacto ambiental muito grande porque as cabras dizimaram a vegetação da ilha.
Voz C:Essa coisa de deixar animais não foi invenção do Hallen. Era uma prática até que comum na época. Além das cabras, ele deixou porcos também, inclusive. Agora, esse papo de achar que não tinha dono não cola. Quando Halley escreveu sobre isso, ele já se referia à ilha como Trinidad. Se ele sabia o nome dado à ilha pelos portugueses, devia saber a quem ela pertencia. Mas quem saber achou que tava abandonada, vai? Voltando aos bichos. A presença das cabras na ilha acabou levando à extinção da árvore mais característica da vegetação local: a colubrina glandulosa, conhecida também como saguaraji. A estimativa é que no século 17, uma mata densa dominada principalmente por essa espécie cobria cerca de 80% do território da ilha. Na década de 1880, expedições que passaram por lá já relatavam uma floresta morta. No meio do século passado, um naturalista do Museu Nacional visitou a ilha para coletar amostras e achou um último espécime vivo da árvore. Foi só muito recentemente, nos anos 2000, que a Marinha Brasileira conseguiu acabar de vez com todas as cabras da Trindade. Cada uma delas foi caçada. Mas aí o estrago pro ecossistema já tava feito. Essa tentativa do Raleigh de tomar posse da ilha em nome dos ingleses com as cabras não deu muito certo. Só vários anos depois, em 1781, é que o governo britânico foi tentar tirar proveito disso. Mas aí isso incomodou os espanhóis, que queriam controlar as rotas comerciais da região, e reclamaram com os portugueses. Aí a coroa portuguesa mandou os ingleses embora.
Martin Kemp:Avançando um pouco mais no tempo, quando houve a independência do Brasil, na minuta da primeira Constituição brasileira, ela constava como território brasileiro. Mas aí depois, na Constituição final, que o Dom Pedro outorgou, essa parte já não estava lá.
Voz C:Só para esclarecer: a Constituição do Dom Pedro não estipula os limites territoriais do país. Não é que a Ilha da Trindade ficou fora do que foi determinado como território brasileiro.
Martin Kemp:Mas mesmo assim o Império a considerava como parte do território. Houve visitas por navios da Marinha Brasileira. Há inclusive um artigo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, na época do Império, sobre a ilha, detalhando vegetação, enfim, aspectos geográficos. Então havia um certo conhecimento sobre a ilha por parte do governo e havia uma certa presença estatal, ainda que não a presença a presença de fato de pessoas ocupando a ilha. E, ah, só fazendo um parênteses, a ilha também tem uma outra história interessante, que tem uma lenda de que haveria um tesouro pirata na ilha.
Voz C:Tesouro pirata. Pois é, ao longo dos séculos, entre as navegações que sofreram para atracar na Trindade, estavam alguns navios piratas. E daí veio a história de que teria um tesouro escondido na ilha, que permanece até hoje. Essa lenda só servia pra atrair ainda mais navegadores pra ilha, vindos de todas as partes do mundo. E talvez tenha sido isso mesmo que atraiu o nosso personagem principal aqui.
Martin Kemp:E aí, voltando pra história do Barão Hardenhickey...
Voz C:O Barão Hardenhickey. Pra contar a história do Hardenhickey, a gente vai sair da costa brasileira um pouquinho e viajar até os Estados Unidos. Os registros variam um pouco sobre as datas e locais exatos da biografia do cara, mas o consenso é basicamente o seguinte: James Hardenhickey nasceu em 1854, na Califórnia. O pai dele tinha feito uma grana na época do Gold Rush, a corrida do ouro na costa oeste americana. A mãe dele era francesa e mandou o filho pra morar e estudar em Paris ainda pequeno. E lá na França, tudo indica que o Hardenhickey se deu muito bem. Ele fez umas amizades na corte do Napoleão III, que era sobrinho do primeiro Napoleão, aquele baixinho que a gente conhece. O Napoleão III tinha sido eleito presidente em 1848, mas ele logo deu um golpe de estado e se proclamou imperador da França. Em 1870, ele foi deposto e alguns anos depois ele foi exilado, depois da proclamação de uma nova república francesa. E o Hardenhickey, que já tava super integrado na corte e na sociedade francesa do Segundo Império, não gostou muito da mudança política. Ele era um monarquista ferrenho. Coisa de família, parece. Os antepassados dele seriam irlandeses que se mudaram da Grã-Bretanha acompanhando a família real inglesa quando ela ficou exilada no século XVII. Em 1878, o James Radenrich se casou pela primeira vez e fundou um jornal, o L'Étrier Boulet. Perdoem meu francês. Era um periódico satírico que fez o Radenrich ganhar certa fama em Paris pelas críticas ao regime republicano.
Martin Kemp:Então já era um personagem interessante nessa época. O título de barão dele também não é muito pacífico na literatura de onde teria vindo esse título de barão.
Voz C:Pois é, ele é barão de quê mesmo?
Martin Kemp:Alguns registram que ele seria barão do Sacro Império Romano Germânico, que é uma entidade política que já tinha sido extinta 50 anos antes dele nascer.
Voz C:Outras fontes dizem que ele teria ganhado o título de nobreza do Papa. O Hardenricke nessa época era católico. Mas voltando à carreira dele no jornalismo. O Triboulet fazia sucesso. E incomodava muita gente também. Enquanto ele foi editor, o Hardenrique acabou se envolvendo em 42 processos judiciais, foi multado em mais de 300 mil francos e ainda teve que resolver umas discussões em duelos. Coisas da época. Em 1888, o cara que era patrono do jornal, que financiava toda a operação, morreu. Aí o Triboulet parou de circular, O Hardin Ricci largou a política e foi fazer aquilo que é um clássico do jovem rico europeu: viajar o mundo. Ele terminou o casamento dele e deixou os filhos, um menino e uma menina, aos cuidados de um amigo jornalista: o Conde de La Boétie.
Martin Kemp:Numa viagem para a Ásia, ele teria saído da Europa e passado pela Ilha da Trindade. E o que se estima é que provavelmente ele já sabia dessa história da lenda do tesouro também, né, o que foi um atrativo O Hardin Ricci estava embarcado no Astoria, um navio mercantil inglês rumo à Índia.
Voz C:Se foi a caça ao tesouro ou só as condições climáticas, eu não posso te dizer com certeza. Mas por algum motivo, o capitão decidiu atracar brevemente na Trindade. O que se conta é o seguinte: do Astoria, um pequeno barco foi enviado à terra firme. Nele estava o Hardin Ricci, que desembarcou na ilha. A gente não sabe em que momento ele ouviu falar da ilha, das cabras do Raleigh, do João da Nova, do Império Brasileiro. Porque aquela ilha teoricamente tinha dono. Mas ele resolveu discordar de tudo isso. Se nem os portugueses, nem os ingleses tinham feito uma colônia na ilha, ele considerou que ela era terra de ninguém. E se era de ninguém, podia ser dele. Por que não? Diz que antes de ir embora, ele fez uma bandeira improvisada e fincou ali mesmo, na praia. Daí a viagem seguiu até o destino, seguindo o trajeto planejado até a Índia. O Hardenhick voltou para Paris e conheceu uma mulher chamada Annie Harper Flaggler. Em 1891, ele e a Annie se casaram em Nova York, onde eles foram morar. O casamento pode ter sido motivado pela paixão mais arrebatadora, mas fato é que, de quebra, o Hardenhick ganhou um sogro magnata. O pai da Annie era o John Flaggler, um industrial americano que fundou a National Tube Company, que produzia, de forma coerente com o nome, tubos e canos. Consta que depois do casório, o Hardenrique passou uns anos quieto, sumido. Nesse tempo, ele escreveu e publicou um livro sobre suicídio, mas não se ouvia falar muito nele por aí. Pouca gente sabia da visita dele à Ilha da Bandeira, da mudança muito sutil no mapamundi que ele tinha promovido por conta própria. Só que a calmaria não durou muito. Agora ele tinha a grana do sogro à disposição. Em algum momento, ele resolveu que era hora de começar a colocar em prática os planos dele para Trindade.
Martin Kemp:O dinheiro não faltava para as ideias dele. Então, um amigo dele, que é o Conde de La Boétie—
Voz C:O Conde de La Boétie, aquele amigo com quem ele tinha deixado os filhos antes de partir pelo mundo.
Martin Kemp:Ele foi nomeado como chanceler desse reino, então, e se constituiu uma chancelaria em Nova York, de todos os lugares.
Voz C:Uma chancelaria de verdade, um escritório diplomático em Manhattan. E pra confirmar a realeza, ele tinha que espalhar a notícia. Em novembro de 1893, o Hardenhick foi parar na capa do New York Tribune. O texto diz assim: "Se os planos do Barão James A. Hardenhick forem executados, haverá uma nova nação criada na face da Terra até a próxima primavera." Parece um empreendimento notável. Mas o Barão Hardenrique está confiante de que pode ser realizado com sucesso e com a mesma facilidade de muitas outras conquistas notáveis e aparentemente impossíveis. Ele não se propõe a derrubar nem dividir nenhum governo estabelecido. Ele não vai invadir o território de ninguém ou interferir nos direitos de ninguém. Ele encontrou um lugar onde ninguém mora, que segundo ele ninguém possui e que não é reivindicado entre as posses de nenhuma nação existente.
Martin Kemp:E o "show's the devil" dele, então, O Conde de La Boétière, ele preparou uma carta supostamente às grandes potências da época, colocando então em conhecimento que a Ilha da Trindade seria então o Principado do James I e pedindo o reconhecimento então das grandes potências a esse novo reino.
Voz C:E como é que isso foi recebido em geral?
Martin Kemp:Então, apesar do próprio chanceler em outro momento dizer que algumas das potências teriam reconhecido, não há registro de que ele de fato alguma vez se pronunciou. Até procurei no Arquivo Britânico e os britânicos simplesmente ignoraram o pedido. Da mesma forma, eles fizeram um pedido para a União Postal, sediada na Suíça, para o reconhecimento como um novo país e ter direito a emitir selos, e também foi totalmente desconsiderado o pedido. Mas como ele era, enfim, genro do um magnata americano, tinha certa proeminência na sociedade americana, então ele volta e meia aparecia em jornais, mesmo jornais grandes como New York Times.
Voz C:Poucos meses depois dessa matéria no Tribune, começou a sair nos jornais a notícia da proclamação do Principado da Trindade. Foi em junho de 1894 que a história apareceu pela primeira vez no New York Times. O texto é bem curioso. Começa narrando o encontro do repórter com um marquês, no caminho da redação pra casa, passando pela 5ª Avenida. O marquês ajuda o repórter a acender um cigarro e eles batem um papo meio aleatório, que em certo ponto chega ao tema da realeza. Aí o marquês para, no meio da 34ª Avenida, e tira um papel do bolso. E pede pro repórter ler, em voz alta: "O Principado da Trindade." O documento que tava no bolso do marquês Começa descrevendo a geografia da ilha, a localização, conta de expedições anteriores, inclusive aquela do Raleigh com as cabras, fala das tartarugas e dos pássaros nativos, do tal tesouro, até que: "O príncipe soberano da ilha da Trindade é o Barão Hardenhick, que há 3 anos desposou-se com a filha do senhor John Flagler, rica herdeira norte-americana." Aí o texto conta um pouco do currículo do Hardenhick e da viagem em que ele acabou por se deparar com a ilha. Após 5 anos de estudos e maduras deliberações, o Barão tomou posse da ilha formalmente em setembro de 1893 e proclamou a ele mesmo Príncipe Soberano, com o nome de James I. Ele anunciou oficialmente a proclamação às potências. Nenhuma nação levantou a menor objeção e várias nações já reconheceram o novo pequeno estado. De certo, nenhum governo tinha o direito de desempenhar o papel de cão de guarda. Ninguém se opôs e várias nações o reconheceram um principado. Tá. O príncipe adotou como forma de governo uma ditadura militar. O Principado da Trindade será uma espécie de acampamento, onde qualquer ato de insubordinação ou delito será punido com a expulsão. Uma ditadura militar. Com que exército, você me pergunta? Pois é, eu também não sei. Porque, no caso, a Ilha da Trindade não era habitada. Bom, tinha as cabras, mas não era habitada por gente. Não era quando o príncipe James I passou por lá e continuou não sendo depois que ele voltou pra casa se intitulando rei. Mas a ideia era mudar isso daí. "Os primeiros colonos consistirão em um pequeno número de homens selecionados que vão formar a aristocracia do Principado." Eu não preciso nem falar que esses homens selecionados iam ser brancos e ricos, né? Aliás, o texto continua dizendo, com termos bastante pejorativos inclusive: que iam ser recrutadas pessoas negras e asiáticas para realizar trabalhos que os brancos não poderiam fazer no clima tropical. Em seguida, o documento fala da bandeira do principado, um triângulo amarelo num fundo vermelho, do idioma oficial, o francês, e sobre uma tal ordem de cavalaria, a Cruz da Trindade, que ia reconhecer as conquistas nas artes, nas ciências, nos valores humanitários.
Martin Kemp:Aí entra uma questão que alguns acham que que ele na verdade era um golpista, porque ele começou a vender títulos do Tesouro da ilha. A propaganda era: se a pessoa comprasse, salvo engano, 1.000 ou 2.000 dólares em títulos do Tesouro, que naquela época era muitíssimo dinheiro, ela ganhava direito a uma passagem só de ida para a ilha.
Thaís Regina:Uau!
Martin Kemp:Exato! E aí, se a pessoa ficasse pelo menos 1 ano, salvo engano, na ilha, Aí sim ela podia voltar.
Voz C:No fim do documento, os interessados em uma expedição à ilha são convidados a escreverem ao escritório do chanceler Labossière.
Martin Kemp:Mas já num tom meio satírico, a própria reportagem mostra que não levava muito a sério, né? Apesar dele se levar a sério, ele e o chanceler dele se levavam a sério como de fato achavam que eram governantes de uma ilha onde só tinha cabras e pássaros e caranguejos.
Voz C:O tal documento que o repórter do New York Times leu nas ruas de Nova York foi recebido em outros lugares ao redor do mundo. Aqui no Brasil, a tradução do documento apareceu nos jornais já nos meses seguintes. Mas na esfera governamental, a Proclamação do Principado repercutiu muito pouco.
Martin Kemp:Aí a gente chega à ocupação britânica, que trouxe em maior evidência essa questão do Principado.
Voz C:A ocupação britânica. E não era aquela das cabras do Halley. Essa ocupação que o Martin Kempf tá falando aconteceu no final do século 19. E é ela que foi o foco do trabalho de pesquisa dele no Instituto Rio Branco.
Martin Kemp:Então, em 1895, em janeiro, a Inglaterra, por lobby de uma empresa britânica de telégrafo, ela tomou conta da ilha porque a ideia era a instalação de um cabo telegráfico saindo do Uruguai que se conectasse à Europa, e eles precisavam de um ponto de apoio no meio do caminho. Então a Ilha da Trindade seria um ponto interessante para eles.
Voz C:Um parênteses aqui: o telégrafo transmitia códigos por meio de uma corrente elétrica. E para isso precisava ter cabos conectando as estações. Então ali no século 19 foram construídos vários cabos telegráficos submarinos enormes, atravessando oceanos mesmo. E esse seria mais um deles. Ah, e deixando de lado um pouco a soberania supostamente reconhecidíssima do Principado da Trindade: a ilha, nessa época, era oficialmente território brasileiro. Era 1895, o Brasil já era independente e já era república. Mas pra variar, o país tava passando por um momento bem conturbado. Só 3 meses antes tinha assumido Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil. E ele assumiu uma bucha. Pegando o posto depois dos Marechais, ele tinha que arrumar a casa política e economicamente. A relação do Brasil com a Grã-Bretanha também não era das melhores. Tavam rolando há tempos umas tretas na fronteira com a Guiana e um sentimento anti-inglês vinha crescendo depois de outros embrólios territoriais entre os países. E aí veio essa história do Cabo Telegráfico.
Martin Kemp:Então, eles queriam criar essa rota alternativa a uma linha que já existia, um cabo submarino do Brasil até a Europa. Mas a questão é que a empresa que era dona desse cabo tava no final da sua concessão, né, que tinha sido dada pelo Dom Pedro II, e o Brasil, pelo contrato que tinha sido estabelecido na época, podia exercer o direito de comprar essa linha telegráfica, né. Então, caso o governo brasileiro comprasse, ele ficaria com monopólio do tráfego telegráfico entre praticamente boa parte do continente sul-americano com Europa. E isso era contrário aos interesses da empresa britânica e também contrário aos interesses geopolíticos aí da Inglaterra. Então seria interessante para eles terem uma outra linha que também, caso essa linha se mostrasse viável, ela diminuiria o valor da linha que o Brasil teria pago também. Então seria um bom negócio para os britânicos, um mau negócio para o Brasil. Então essa ocupação aconteceu sem ter sido foi anunciada, né? O governo britânico mandou um navio da Marinha, eles tomaram posse da ilha, botaram a bandeira e foram embora. Não comunicaram para imprensa, não divulgaram essa notícia.
Voz C:E foi assim que a Ilha da Trindade foi reivindicada mais uma vez. Mais uma bandeira colocada na surdina. Pelo menos dessa vez, os britânicos não levaram mais uma espécie invasora.
Martin Kemp:Essa notícia foi ser conhecida quase 6 meses depois, em junho, principalmente quando já estava na iminência de uma troca no governo britânico, ia sair um governo liberal e ia retornar um governo conservador, que tinha características menos favoráveis à aquisição de novos territórios, eles preferiam ter a influência, mas não a posse de um território novo. E aí, na iminência dessa troca, saiu essa notícia na imprensa britânica, né, e era uma nota pequena na imprensa, meio anedótica, o próprio um tom meio jocoso da notícia dizendo que era um novo território para o Reino Unido, mas que provavelmente não ia agregar muito, mas já falava que possivelmente havia um tesouro lá e até terminava dizendo: "Ah, quem sabe o governo quer procurar o tesouro que esteja lá aí também." A notícia, a princípio, passou meio despercebida pelos diplomatas brasileiros na Inglaterra.
Voz C:Mas adivinha quem estava de olho?
Martin Kemp:O primeiro a reagir a essa notícia foi o chanceler do O outro James, que numa reportagem do New York Times se pronunciou achando um absurdo a ocupação pelos britânicos.
Voz C:A reportagem do New York Times é de junho de 1895. O Conde de La Boétie diz que o Hardenrique ainda não tava sabendo do acontecido. Ele tava do outro lado do país, na Califórnia. E o chanceler só via duas saídas: guerra ou diplomacia.
Martin Kemp:E o governo brasileiro só foi se manifestar quase um mês depois, só no mês de julho, também sabendo pela imprensa, quando um jornal britânico que ficava no Rio de Janeiro republicou essa notícia. Então aí foi que a chancelaria brasileira de fato tomou ciência desse episódio. A partir de então começou toda uma operação diplomática para primeiro confirmar de fato a notícia e depois toda uma negociação para reaver a ilha.
Voz C:O chanceler da Trindade também tava trabalhando. Em julho, ele mandou uma carta às potências da Europa e ao Departamento de Estado americano, pedindo providências. Aos americanos, ele invocou a Doutrina Monroe, que estabeleceu a não interferência europeia no continente americano.
Martin Kemp:E o secretário de Estado norte-americano nem tomou conhecimento da carta. Consultado pela imprensa, ele disse que não conseguia ler a letra na qual a carta foi não foi escrita. E a imprensa fez uma festa em cima dessa questão. O que se comenta é que esses episódios deram, principalmente no mês de agosto nos Estados Unidos, um mês onde tinha poucas notícias porque o parlamento não se reunia, então tinha pouca, chamavam de "silly season", uma temporada meio boba, na qual notícias pouco relevantes ganhavam mais peso porque o jornal não tinha muito o que mostrar de notícias E com isso o New York Times virou meio que o diário oficial do Hardinique, então ele começou a publicar quase que semanalmente notícias do que o chanceler estava pensando, o próprio príncipe da Ilha da Trindade pensava da questão. E isso levou até que alguns jornalistas do New York Times fossem condecorados pelo chanceler com a medalha A medalha da Ordem da Trindade.
Voz C:Apesar de toda essa cobertura do New York Times, ninguém levava o Hardenhick a sério. Nenhuma autoridade deu bola. E o período de cobertura extensa nos jornais também não tinha como durar para sempre. Acabou a silly season, voltaram as notícias sérias da política americana. E o Hardenhick e o Principado foram sendo esquecidos.
Martin Kemp:O fato é que alguns anos depois, toda essa questão da Trindade teve seu desfecho Favorável ao Brasil.
Voz C:Em agosto de 1896, a questão diplomática foi resolvida. O governo britânico reconheceu a soberania brasileira sobre a Ilha da Trindade. Na briga entre a jovem República Brasileira e o poderoso Império Britânico, o triunfo foi daquele que, à primeira vista, podia ser considerado o mais fraco. Não teve guerra, só negociações mesmo. E o envolvimento do governo português. Eu não vou entrar nos pormenores aqui, mas é nisso que o Martin Kemp se debruça na obra dele. Se você quiser saber mais, no site da Rádio Novelo você encontra o link para o livro dele. Em 1897, a Marinha Brasileira ergueu um marco de posse na Ilha da Trindade com a inscrição: "O direito vence a força". Hoje, a ilha ainda é território brasileiro.
Martin Kemp:Isso, a Marinha tem uma base permanente na ilha, uma visita constante também de pesquisadores, então tem navios da Marinha que fazem contato regular e abastecimento da ilha. E há um rodízio tanto do pessoal da Marinha que fica lá quanto de pesquisadores que ficam lá, biólogos, enfim, diversos tipos de cientistas que ficam fazendo pesquisas com a fauna, flora, enfim, da ilha.
Voz C:E o Barão Hardinrique, ou Príncipe James I, não conseguiu ir muito adiante com os planos dele de colonização, ditadura militar e ordem de cavaleiros. Nos anos que se seguiram a ocupação britânica e a a derrota diplomática, o Hardin Ricci caiu em depressão. A Trindade era para ele, para usar um termo em francês, o joie de vivre, alegria de viver. Perder o principado e ter sido ridicularizado publicamente por tanto tempo machucaram ele profundamente. Ele continuava casado, mas via muito pouco a esposa e os filhos, que estavam sempre longe. Financeiramente, ele também passou por maus bocados. Ele precisava vender as terras que tinha, mas não conseguia encontrar comprador para elas. E por fim, ele brigou com o sogro, que cortou a grana. Em fevereiro de 1898, aos 43 anos, James Hardenhick se suicidou num hotel no Texas. Na suíte, do lado dele, encontraram uma carta endereçada à esposa. E, segundo o New York Sun, encontraram também a coroa da Trindade. Poucos anos depois, em 1906, O escritor Richard Harding Davis contou a história do Barão num livro: Real Soldiers of Fortune, Verdadeiros Soldados da Fortuna em português. Ele descreve o Hardin Hickie como um homem "atrás de seu tempo". Nasceu na época errada. Totalmente deslocado entre os contemporâneos dele. O Hardin tem um ponto. Os sonhos de realeza do Hardin Hickie são meio anacrônicos mesmo. O fim do século 19 era o auge da Era dos Impérios. Com as grandes potências disputando influências. E vamos combinar que um suposto príncipe e o chanceler dele, por mais espaço que eles conseguissem nos jornais nova-iorquinos, estavam longe de ser uma potência capitalista, né? Mas quem sabe se o Hardin Hickey tivesse chegado antes na Trindade? No século XVI, XVII ou até no XVIII? A história não poderia ter sido diferente? Olhando daqui do futuro, o faz de conta do príncipe da Trindade parece absurdo. Ele chegou, viu a ilha e pegou pra ele. Pronto, agora é minha. Mas na verdade, isso não é muito diferente daquela dinâmica colonial que imperou por séculos: "descobrir", entre todas as aspas, um lugar novo e tomar pra si. O Hardenricken chegou atrasado nessa. Ele levou a sério demais um sonho de realeza que já tinha passado do tempo.
Branca Viana:Essa foi a Bárbara Rubira. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. Daqui um pouco do que vem por aí.
Thaís Regina:E tem gente que ainda era tão desconfiada que criava os seus próprios códigos amorosos. Então tem uma mensagem aqui que começa assim, destinada ao i.
Cid Quaresma:Aí a linha é essa: N1C3G5ND1 e vai.
Thaís Regina:E você achando que a senha do seu Wi-Fi tava difícil.
Branca Viana:Quem é membro do Clube da Novelo consegue ouvir o Apresenta um dia antes, sem anúncio, e tem acesso a conteúdo extra e belos brindes. Pra se juntar a gente, é só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouquinho.
Thaís Regina:Olá, ouvintes do Rádio Novelo Apresenta! Aqui quem fala é a Erika Palomino.
Cid Quaresma:E aqui é o Cássio Prates.
Thaís Regina:Queremos convidar você pro nosso novo videocast: o Babado Forte.
Cid Quaresma:A gente veio aqui porque sabe que vocês adoram as histórias por trás da história. E nesse nosso videocast a gente vai fazer isso, só que usando a moda e a cultura como a nossa antena.
Thaís Regina:A ideia é entender de que maneiras a moda atravessa a cultura, as artes e o nosso dia a dia de um jeito vivo.
Voz E:Como ela transita do mundinho dos desfiles, da internet, das tendências, pra um mundão muito maior.
Thaís Regina:E sobre como isso impacta a vida real.
Cid Quaresma:A gente vai falar de filmes, de séries e vai entrevistar quem trabalha de maneira com moda e com cultura para entender quais são os movimentos que estão acontecendo por aí. E o primeiro episódio do Babado Forte vai ser bem especial.
Thaís Regina:Ele vai ser ao vivo, com plateia e tudo, no Web Summit Rio. Vamos conversar com Claudia Kopke, que assina o figurino do filme Ainda Estou Aqui. Esperamos você no Rio Centro, dia 11 de junho, às 14h20.
Cid Quaresma:E se você quiser que sua marca faça parte desse babado fortíssimo, Manda um email para comercial@radionovelo.com.br.
Branca Viana:No post desse episódio no nosso site, a gente vai deixar links para pesquisa da Thaís Regina e da Bárbara Roubira sobre as respectivas ilhas, Cotijuba e Trindade. Também dá para ver algumas fotos da ruína do educandário que a Thaís tirou no começo desse ano. Você já sabe que dá para ouvir todos os episódios do Rádio Novela Apresenta também no YouTube. A novidade é que no nosso canal lá a gente fez várias playlists de histórias curtas de até 30 minutos e também algumas playlists temáticas. Vem acompanhar a gente por lá e recomenda para os seus amigos que ainda não ouvem a gente. Para quem é de redes sociais, a gente está no @radionovelaapresenta Estúdio Novelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para quem é de email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pauta para o email apresenta@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou um cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar o seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios. Seus ouvidos. É só escrever para a gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Scarpin e da Flora Thompson de Vaux. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager. Nossos repórteres e roteiristas são a Bárbara Rubira, o Paulo Ribeiro, Vinícius Luiz, o Vitor Hugo Brandalisi, a Carolina Moraes, a Evelyn Argenta e a Bia Guimarães. A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farrar e pela Marcela Ramos. Esse episódio teve montagem e desenho de som da Mariana Leão, que assina a mixagem junto com a Bia Guimarães. Nesse episódio a gente usou música original de Stella Nejhine e Amon Medrado e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.
Voz A:Capture your favorite summer feeling with Pandora jewelry. Discover a collection inspired by the sunshine, freedom, and moments that make the season unforgettable. From sun-kissed metals to personalized pieces ready to be engraved with your summer mantra, each design moves with you from beach days to golden nights and every memory in between. Shop Pandora Jewelry's new summer collection in store or online at pandora.net and let your summer unfold.
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