Recado recebido
Um filho redescobre a mãe e um pesquisador descobre o avô do recado de zap.
No primeiro ato: um filho embarca numa arqueologia particular. Por Thallys Braga.
No segundo ato: a pré-história do recado de voz. Por Branca Vianna.
Os ouvintes do Apresenta têm 10% de desconto na compra do livro “Filho”, do Thallys Braga, no site da Companhia das Letras e na Amazon. O cupom é OFILHO10, e pode ser usado de 24/09 a 13/10.
Faça parte do Clube da Novelo! Os membros têm acesso a conteúdos bônus, uma newsletter especial, aos episódios do podcast Rádio Novelo Apresenta antecipados e sem anúncios, cupons de desconto em marcas parceiras e a eventos exclusivos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo feita só pra membros. Assine em clube.radionovelo.com.br
O Estranhos Encontros: Festival Internacional de Cinema de São Paulo é o nosso mais novo parceiro! Dedicado ao cinema independente, a obras que encontram pouco espaço nos circuitos tradicionais e à formação de novos públicos, o festival realiza sua segunda edição entre os dias 16 e 27 de setembro, com programação integralmente gratuita principalmente no Centro Cultural São Paulo. A Rádio Novelo vai ter uma participação especial no evento: exibir algumas histórias do Rádio Novelo Apresenta na sala de cinema, minutinhos antes do filme começar. Veja a programação completa no site: estranhosencontros.com
Palavras-chave: Filho, voz da mãe, recado de voz, fonopostal
Branca Vianna
Thallys Braga
Thomas Levin
- A redescoberta da voz da mãe através de áudios antigosmedo de esquecer a voz da mãe·arquivos de áudio corrompidos·áudios voltando a funcionar·choque com a voz real da mãe
- As dificuldades financeiras e o impacto na saúde da mãefalta de dinheiro e contas cortadas·dificuldade de acesso à saúde·morte da mãe por infarto·luto como motor para mudança de vida
- A compreensão tardia da mãe e o impacto da pobrezaculpa por não ter entendido a mãe·obesidade como doença de pobres·falta de oportunidades e trabalho doméstico·o sonho da mãe batendo na porta
- A relação complexa com a mãe e as expectativas sociaismãe namoradeira e confidente·homofobia e a reação da mãe·aceitação da mãe ao filho gay·virada política da mãe em 2018
- A história e o significado dos fonopostais como cartas faladasdiscos como cartas pessoais·popularização da gravação em disco·cabines de gravação em locais públicos·fonopostais como comunicação para analfabetos
- A censura e a preservação dos fonopostais ao longo do tempocensura em fonopostais de guerra·ansiedade ao gravar sem poder regravar·dificuldade de encontrar fonopostais brasileiros·a voz separada do corpo
Você já parou pra pensar no quão decisivo é o seu voto? O novo relatório da Oxfam Brasil mostra uma realidade incômoda. No Brasil, poder econômico e poder político andam de mãos dadas. Pra você ter uma ideia, na última eleição para governador, ninguém eleito tinha patrimônio inferior a R$100 mil. E mais da metade dos eleitos declarou entre R$1 e R$10 milhões em bens. Mas esse poder não se exerce só nas urnas. É como se existisse uma porta giratória entre o setor privado e o governo.
Funciona assim: executivos assumem cargos públicos e depois voltam para o mercado levando contatos e influência que beneficiam suas próprias empresas. E desse jeito ela vai girando. Na eleição, tudo fica mais evidente. É que fazer campanha custa caro e essa riqueza privada funciona como um filtro. É ele quem decide quem tem real de vencer. Para aumentar a representatividade nos espaços de decisão e acabar com essa porta giratória, a Oxfam propõe uma série de medidas, como justiça fiscal e democratização do financiamento político.
Acesse oxfam.org.br e baixe agora o relatório completo. Oxfam Brasil: mais justiça, menos desigualdade. Rádio Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Tem uma história que eu ouvi recentemente sobre um jantar interrompido por uma notícia. A história é de um documentário chamado They Shall Not Grow Old, sobre a Primeira Guerra Mundial. É um filme bem perturbador, aliás, porque a Primeira Guerra é um tanto mais distante da memória da gente do que a Segunda, não só pela distância temporal, mas também porque a evolução tecnológica entre os anos 1910 e 1940 fez muita diferença nos registros de cada conflito.
O que esse filme faz é usar um arsenal de tecnologias Pra atualizar, colorizar, sonorizar as imagens que a gente tem da Primeira Guerra, pra te jogar dentro daquelas cenas, sem o distanciamento natural que vem quando a gente assiste a uma cena meio desfocada em preto e branco. De repente, aquelas pessoas de antigamente surgem como gente. E o efeito é um pouco aterrorizante. Mas enfim, eu ia contar a história do jantar. Parece que ali em agosto de 1914 teve um jogo de rugby entre oficiais ingleses e alemães.
Eu não consegui descobrir quem ganhou. Acho que tudo isso ficou desimportante perto do que aconteceu em seguida. Porque naquela noite os jogadores dos dois lados estavam jantando, bebendo, conversando, quando alguém chegou com um recado: a Grã-Bretanha tinha acabado de declarar guerra à Alemanha. Então, de repente, os jogadores que estavam de lados opostos do campo naquele dia estavam de lados opostos na guerra. Um dos ingleses diz que ele lembra de pensar: o que que é para eu fazer?
Levantar da mesa e atacar o cara na minha frente? O grupo acabou tomando uma decisão naquela noite: eles iam ignorar o recado e considerar que a guerra só ia começar na manhã seguinte. Essa é uma anedota, como tantas, que fala do nonsense, do absurdo que é uma declaração de guerra entre países e povos. Mas é também uma história que tem a ver com como a gente recebe uma mensagem e o que a gente escolhe fazer com ela. No episódio de hoje, a gente tem 56 recados congelados no tempo e um caçador de recados alheios.
Quem vai contar a primeira história depois de um rápido intervalo é o Tales Braga.
Esse podcast é um oferecimento da Wise, o jeito certo de pagar no mundo todo. Quando você viaja para o exterior ou tá se preparando para uma viagem inesquecível, sempre chega aquele momento: a hora de converter os gastos para moeda local. E sabe qual é o erro mais comum? Viajar pagando com cartão de crédito. Na hora pode não parecer nada, mas o custo da conversão pode assustar quando a fatura chegar. A solução? Viajar com o cartão da Wise.
Com ele você pode pagar em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial, a mesma que você vê no Google. Você pode converter e manter o dinheiro na conta já na moeda que vai usar no destino. Depois é só pagar sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você também pode sacar dinheiro em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos no mundo todo. Faça parte das mais de 15 milhões de pessoas que pagam globalmente do jeito certo. Quem sabe vai de Wise? Baixe o app da Wise hoje. Termos e condições se aplicam.
Faz 7 anos que a minha mãe morreu. Logo depois, ainda nas primeiras semanas, teve um dia que eu fiquei muito desesperado com a possibilidade de esquecer a voz dela. Eu fiquei pensando que não ia ter jeito, que o tempo ia fazer isso, roubar a voz dela de mim. Olhando agora, eu vejo que eu tinha razão de ter medo. Porque quando uma pessoa é enterrada, a gente continua perdendo ela com o passar dos anos. A gente perde a noção da textura da pele, esquece o jeito que ela caminhava, o cheiro do cabelo, o som da risada.
Dá até pra guardar uma referência, tipo: a risada era alta, era baixa, era estridente, ou era tão engraçada que fazia a gente querer rir junto. Mas a memória não consegue guardar a risada, sabe? Quando esse pânico bateu, eu fui baixar uns áudios que ela tinha me enviado pelo WhatsApp. Fui baixando aqui e ali e joguei numa pasta. Um tempo depois, não lembro quando, eu fui mexer nos arquivos e eles não tocavam. Apareceu uma mensagem na tela que eu não consegui entender.
Eu só deduzi que os arquivos também tinham morrido. O que me consolou naquela hora foi pensar que, durante a maior parte da história da humanidade, não tinha áudio de WhatsApp pra ajudar as pessoas a viverem o luto. Então eu não tava sozinho. Eu ia ter que lidar com essa dor, essa perda, como todo mundo lidava antigamente. E isso me deu algum conforto. Eu acabei revisitando a história da minha mãe algumas vezes nesse tempo. Eu contei quem ela foi, quem ela foi comigo, como a gente se transformou junto e como eu continuei me transformando depois dela.
Primeiro eu escrevi um ensaio pra Revista Piauí. Depois acabei decidindo escrever um livro. E depois que eu decidi escrever um livro, eu passei bastante tempo olhando pro teto e pensando: Eu li e reli um monte de autores de literatura autobiográfica. A Anne Ernaux, o Édouard Louis, a Joan Didion, a Natalia Ginzburg e o Ocean Vuong. Pra saber como eles investigaram e recontaram as memórias familiares deles. Mas nada parecia tá encaixando.
Provavelmente porque não dava pra falar com a pessoa mais importante da minha vida. Eu tinha muita pergunta pra fazer pra ela. Eu precisava ouvir ela. E eu lembrei daquela pasta dos arquivos mortos. Eu fiquei me achando um pouco relaxado de ter desistido tão fácil, porque devia ter algum modo de salvar os áudios. Algum técnico de TI faria isso de olhos fechados. No dia 5 de junho de 2025, uma quarta-feira, Eu cheguei do trabalho à noite, liguei o computador e abri a pasta que eu tinha nomeado de mãe.
As primeiras coisas que eu vi foram as imagens que ela me mandava. Tinha fotos do nosso gato, o Botas, e fotos também dos doces que ela fazia para vender. Também tinha uma selfie da minha mãe com purpurina na bochecha do último carnaval dela. Eu cliquei no primeiro arquivo de áudio. Pra ver qual era exatamente a mensagem de erro. Mas aí o arquivo abriu. Eu não sei explicar o que aconteceu. Acho que já deu pra entender que eu não sei nada de tecnologia.
Eu só sei que um dia eu tentei ouvir os áudios, eles não funcionaram, e que do nada eles voltaram a funcionar. Eu fui botar um fone de ouvido e escutei a voz da minha mãe.
Filho, cheguei em Campo Grande agora. Não se preocupa comigo não, que eu vou pegar um Uber, tá? Pra chegar em casa.
Beijo.
Eu não sou de chorar, e eu não tô dizendo isso com um selo de masculinidade. Sou triste, mas dificilmente eu choro. Eu só expresso a tristeza de outros jeitos. Mas quando eu ouvi a voz da minha mãe depois de 6 anos, eu senti os meus olhos lacrimejarem.
Pior que é, Thales, eu ainda nem fiz nota, cara. Como é que tu me avisa agora em cima da hora? Vou lá secar as coisas pra fazer a panqueca.
O choro era de emoção, mas também tinha um pouco de culpa. Porque nos anos que eu passei longe dos arquivos, a minha memória já tinha transformado a voz da minha mãe. Eu jurava que ela falava baixo, que tinha a voz mais grave e que ela não cometia erros de português. Foi um choque.
A Margaret tá muito doida, até cair no chão ela já caiu. Não quer deixar eu ir embora, também tá chovendo pra caraca.
Eu tenho 56 áudios da minha mãe. Eles dão conta de um pouco mais de um mês da vida dela, quase o último, entre fevereiro e março de 2019. A mulher desses 56 áudios fala principalmente da falta de dinheiro, dos preços do mercado e de namorados que não amavam ela. E ela fala de tudo isso com um jeito bem suburbano, que nem as minhas primas, que ainda moram lá no bairro pobre onde eu cresci.
Oi, meu filho, cheguei em casa agora derrotada. Nossa, fui no mercado, fiz umas compras, tudo muito caro, muito caro, muito caro, muito caro.
Eu era muito, muito próximo da minha mãe. Quando eu nasci, ela tava com 21 anos e tinha acabado de se formar na escola normal. Ela chegou a ser professora de jovens e adultos durante um tempo. Mas depois ela foi trabalhar como babá e empregada doméstica. O meu pai ficou com a gente só no meu primeiro ano de vida, depois ele foi embora. Até a morte dele, quando eu tinha 10 anos, a gente teve pouquíssimo contato. Eu fui criado pela minha mãe, com a ajuda dos pais dela.
Quando eu tava crescendo, a minha mãe me dizia que eu era o melhor amigo dela. Ela era muito namoradeira. E vinha me contar sempre que conhecia um homem no site de namoro. Quando ela ia sair com um deles e não queria que os meus avós soubessem, ela me dizia num tom meio autoritário: Thales, se tua avó perguntar, diz que eu fui no shopping com a Bianca. Eu tinha 10 anos, mas ela conversava comigo como se eu fosse um adulto. A gente frequentava uma igreja evangélica batista e, no primeiro domingo de cada mês, os membros batizados faziam a ceia.
Com copinhos de suco de uva. Às vezes a minha mãe era proibida de ceiar. Ela ficava no canto da igreja, orando de olhos fechados e chorando. Eu lembro de uma vez que a gente chegou em casa e eu perguntei por que que ela não tinha participado da ceia. Ela falou, a mamãe tá no erro, filho. E eu sabia que o erro dela tinha a ver com algum homem. Quando eu era adolescente, toda vez que eu saía do meu quarto e passava por ela na sala ou na cozinha de casa, Ela perguntava, a mamãe já disse que te ama hoje?
Eu dizia, sim, mãe. E mesmo assim ela mandava um beijo estalado, tipo, e repetia, a mamãe te ama, filho. Eu tenho um carinho especial por um áudio que ela me mandou na madrugada do meu aniversário de 20 anos. Ela tava deitada no quarto do lado e botou o despertador pra tocar meia-noite, só pra acordar e me dar os parabéns.
Vai dormir, hein? Fica tanto tempo acordado não. Olha, tua hora de ir trabalhar amanhã, tá? Um beijo, te amo, meu filho.
Parabéns.
A minha mãe queria que eu fosse um homem direito, o que significava um homem hétero e sóbrio. Sóbrio porque o meu pai era viciado em drogas e morreu por causa do vício. Ela sempre me dizia num tom meio ameaçador Que o maior desgosto da vida dela seria ter um filho drogado. Ela queria que eu fosse hétero porque é isso que os pais esperam pra vida dos meninos. Que eles cresçam, casem com uma mulher e tenham filhos. A gente sempre via TV junto em casa.
E eu reparava no jeito que a minha mãe, meus avós e meus tios reagiam aos personagens e celebridades gays e travestis. Eu entendi bem cedo que esse tipo de gente não era bem-vinda numa família como a nossa. A minha mãe nunca cobrou que eu passasse na faculdade, que eu fosse advogado ou médico. Essas possibilidades não estavam nem no horizonte da minha família. Ninguém tinha estudado para subir na vida lá em Guaíba. Sucesso era casar, ter filho, um emprego com salário mínimo, um carro seminovo e passear no shopping de vez em quando.
Eu consegui cumprir uma das expectativas da minha mãe. Nunca fui drogado, mas eu sou e sempre fui bicha. A minha mãe soube disso quando eu tinha 14 anos, lendo as mensagens que eu trocava com os meus amigos. Ela tacou fogo em todos os meus CDs da Lady Gaga. Eu até contei essa história aqui no Rádio Novelo Apresenta. Ela me proibiu de sair de casa pra encontrar meus amigos, me mudou de escola, cortou minha internet e batia na minha cara várias e várias vezes me perguntando por que que eu tinha feito aquilo.
Por que que eu tinha dado aquele desgosto pra ela? Um dia ela me segurou pelo queixo, me fez olhar nos olhos dela e disse que preferia um filho drogado que um filho viado. Eu não podia nem no quarto dela pra escutar ela falar dos namorados. Eu me sentia triste por ter decepcionado a minha mãe, por ela não me entender, mas também porque eu tinha deixado de ser o melhor amigo dela, de ouvir os segredos, de ouvir ela reclamando da sobrecarga do trabalho de doméstica, E de dizer, do alto da minha ignorância juvenil, que ia ficar tudo bem.
Mas o tempo passou. Quando eu tinha 16 anos, a minha mãe conheceu o meu primeiro namorado. E de pouquinho em pouquinho, ela foi me tratando de novo como melhor amigo. Agora como um melhor amigo gay, com quem ela se sentia ainda mais à vontade pra falar da vida romântica. E não era só comigo, viu? Quando os meus amigos gays vinham pra minha casa, a minha mãe sentava com eles pra falar dos caras com quem ela tava ficando. E pra mim era tudo muito surreal.
De repente a minha mãe tava ali na roda, falando com os meus amigos gays sobre boffes. E era essa palavra mesmo que ela usava: boffes. Quando os editores leram essa parte no manuscrito do meu livro, eles perguntaram: Mas sua mãe mudou assim, do nada? Eles não tavam achando muito verossímil e queriam que eu desenvolvesse melhor essa virada. Daí eu tive que explicar que a minha mãe era assim. Ela sabia ter raiva, mas também sabia amar.
Quando ela decidiu odiar o filho gay, ela me tratou da pior maneira possível. Mas quando ela escolheu me amar, ela morreu me amando exatamente do jeito que eu era. Eu mesmo me espantei com a virada da minha mãe nas eleições de 2018. Ela era a mais velha de 3 irmãos e os meus 2 tios tinham virado bolsonaristas radicais. A minha mãe nunca tinha ligado pra política, mas começou a postar no Facebook sobre a defesa dos direitos humanos e brigou com os irmãos, chegou a cortar contato com eles por causa de postagens homofóbicas.
Teve um domingo de manhã que ela foi pra missa vestindo vermelho. Nessa época ela tinha voltado a frequentar a Igreja Católica. O Lula tava preso e alguém teve a ideia de colocar o nome dele na lista de orações. Daí, na saída da igreja, uma mulher abordou a minha mãe e disse que tava na cara que era ela que tinha colocado o nome do Lula na oração. Minha mãe chegou em casa puta da vida, disse que não tinha vestido vermelho por causa do Lula, mas que ficou tão revoltada com a mulher que mandou ela tomar no cu na frente do padre.
Eu tenho certeza absoluta que a minha mãe só não virou bolsonarista por minha causa. Porque ela tinha um filho bicha. Na época eu tinha alguma noção disso, mas não tanto quanto eu tenho hoje, o que é uma pena, porque eu queria ter falado isso pra ela, do quanto eu fiquei agradecido e admirado. Naquele ano, depois de uma década morando com os meus avós, eu e a minha mãe voltamos a morar só nós dois. Ela não tinha mais condições de trabalhar limpando a casa dos outros.
Mal tinha feito 40 anos, mas tava muito debilitada fisicamente. Ela tava obesa e ficava exausta de ter que abaixar, limpar o chão, desinfetar a privada e pegar o transporte público no fim do dia. Ela passou 2018 em casa, vendendo quitutes pelo Facebook. Bolos, docinhos pra festa de aniversário, sacolé.
Guardei o de goiaba pra você, porque a Rafaela veio comprar o último de maracujá que tinha.
Tá.
Num dos áudios, ela tá revoltada porque eu pedi pra comprar um produto fiado dela.
Ué, se eu tô fazendo pra ganhar dinheiro, se você começar a comer um, comer outro pra provar, eu não ganho nada? Desaforada não, meu filho. Por que que nos outros você pode comprar e comigo tem que ser fiado?
Nessa época eu não tava trabalhando, porque ela disse que eu podia tirar o ano pra estudar pro vestibular de jornalismo. Só que ela não tava conseguindo segurar as pontas. A nossa luz foi desligada algumas vezes. Cortaram nossa água por uma dívida que a gente não tinha condição de pagar. E pelo resto do ano, a gente teve que encher baldes na associação de moradores pra tomar banho, lavar as louças e as roupas.
Ah, eu quero ir lá no Esperança pra comprar água, porque esse filtro não tá filtrando, as garrafas já estão tudo vazias. E batata e cenoura pra fazer uma saladinha de maionese, entendeu? Aí enquanto isso eu tô pegando água. Tava aqui fazendo as contas, a gente sobrevive com 132 litros de água por dia.
A gente tinha um balde, duas bacias e uma panela grande. Por sorte, a associação de moradores ficava em frente à nossa casa, literalmente do outro lado da rua. Mas a sorte meio que acabava ali, porque imagina quanto que a gente atravessava essa rua pra chegar em mais de 100 litros d'água por dia. Numa tarde eu tava estudando no quarto e a minha mãe abriu a porta passando mal. A garganta dela fazia um barulho assustador enquanto ela tentava puxar o ar.
Eu lembro que ela encostou na parede e ficou sussurrando, socorro, socorro. Eu segurei a mão dela e pedi para ela acompanhar o ritmo da minha respiração. Inspirar, Espirar. Ela levou alguns minutos pra retomar o fôlego. E quando ela voltou a falar, ela brigou comigo. Reclamou que eu passava todo meu tempo estudando e não ajudava a carregar os baldes. Ela chorou, disse que tava muito sobrecarregada. Eu não lembro como a conversa terminou. Só sei que eu voltei a estudar me sentindo muito culpado.
O problema da sopa de ervilha é que tem que ter a linguiça. Eu não tenho mais linguiça aqui e nem comprei no mercado porque não tem mais dinheiro, entendeu? Só tinha R$50 pra fazer pro Agri.
Eu escrevi no meu livro que pra quem é pobre não existe segurança. Rapidinho a gente perde a água, a luz, a comida, até o ar. A minha mãe voltou a comprar fiado no mercado. Coisa que ela não fazia desde que eu era pequeno. E a gente começou a comer pior. Brotaram umas manchas vermelhas no corpo dela e ela andava com dificuldade de respirar. No postinho diziam que os médicos estavam sem agenda.
Pior que não sobrou dinheiro nem pra comprar carne. Vou ver o que que eu faço aqui na festa do Chico e Puxa.
Esse foi o ano em que eu comecei a perder ela. Enquanto eu estudava, eu só pensava em sair de lá o mais rápido possível. Às vezes, no fim de semana, eu visitava os museus do centro da cidade com os meus amigos e chegava em casa animado para contar para minha mãe. Ela até me ouvia, mas assim que eu terminava de falar, ela voltava a reclamar do preço do mercado. Uma noite eu cheguei em casa contando de uma exposição do Basquiat e ela respondeu: Legal, filho. O que que você vai querer pro jantar?
Ah, tá bom, meu filho. Eu deixei até aqui separado porque eu achei que o homem ainda ia vir pra cá e eu tô aqui esperando ele igual uma babaca.
A gente só conseguia conversar daquilo que a gente ainda tinha em comum: a casa, as refeições, os boletos, as lembranças e as fofocas familiares. E assim como ela não se interessava pelo Basquiat, eu não me interessava pela vida dela. Os homens, as receitas de bolo que ela queria fazer pra vender, as amigas com problema em casa. Ela tava com 41 anos, sem nenhuma perspectiva profissional, e eu tava com 20, olhando pra ela e pensando que a minha vida tinha que ser diferente.
No começo de 2019, eu passei pra faculdade de jornalismo, e no primeiro mês de aula A minha mãe morreu de infarto. Eu fiquei sem norte e ainda tô um pouco sem norte até hoje, 7 anos depois. A nossa relação tinha conflitos, mas eu sabia que podia contar com ela. Mesmo sabendo que ela não tinha dinheiro nenhum, eu também sabia que em qualquer situação urgente, se qualquer problema aparecesse na minha vida, a minha mãe estaria lá pra dar conta.
Ela ia dar um jeito porque as pessoas pobres dão um jeito. Ela ia dar um jeito de me ajudar se eu não tivesse dinheiro pra comer na faculdade, se eu sofresse um acidente ou se eu voltasse pra casa de coração partido por causa de um cara.
Meu filho, você já saiu? Porque tá chovendo muito, muito, muito, muito, com relâmpago, com raio.
Com a morte dela eu fiquei muito apavorado. A minha família agora se resumia aos meus avós, que também podiam morrer de uma hora pra outra. O luto virou um motor para mudar de vida. Na época, eu trabalhava numa operadora de telemarketing durante o dia e ia para faculdade à noite. Eu tinha medo de acabar morando na rua. Quando eu escrevi isso no livro, pareceu um absurdo, um exagero, mas eu realmente sentia isso aos 20 anos. Eu acordava às 6 da manhã, movido por essa ansiedade, e saía para trabalhar.
Durante a pandemia, eu perdia o sono com medo dos meus avós morrerem, porque eu ainda não tinha conseguido um bom emprego, e sem eles eu estaria literalmente sozinho no mundo. A vida começou a melhorar em dezembro de 2021, quando eu passei num estágio pra Revista Piauí. Eu deixei a casa dos meus avós e fui morar em Niterói, perto da faculdade. E ia quase todos os dias pra Zona Sul do Rio. Ipanema, Leblon, Copacabana. Toda vez que eu lia um livro novo, eu me sentia um pouco mais longe da minha mãe.
A mesma coisa quando eu andava de avião e ficava num hotel pra apurar uma reportagem em outro estado ou até em outro país. Eu comecei a acordar de madrugada, assustado, sempre por causa do mesmo sonho. A minha mãe batia na porta da minha casa pra dizer que nunca tinha morrido. Eu dizia pra ela entrar, ficar à vontade. Mas eu não tinha a menor ideia do que conversar com ela. A gente era dois estranhos. Depois que eu comecei a escrever o livro, o sonho mudou um pouco.
Ele começava do mesmo jeito. Ela batia na porta, eu dizia pra ela entrar, ficar à vontade. E aí não sabia mais o que dizer. Mas daí eu ficava desesperado, pensando: eu assinei um contrato pra escrever sobre a morte da minha mãe e agora ela tá viva aqui na sala de casa. Que que eu vou fazer? Eu acordava no susto, ia pra cozinha beber uma água, sentia meu coração batendo muito forte. O susto ia passando e eu começava a me sentir aliviado, porque a minha mãe continuava morta. E eu ainda poderia escrever um livro sobre a desgraça dela.
Alice, cadê você? Tá caindo um temporal, meu filho.
Conforme eu fui estudando, me intelectualizando, a morte da minha mãe me deu ódio. Eu tenho convicção de que ela morreu nova porque era pobre. Se minha mãe tivesse tido um plano de saúde, por exemplo, ela poderia ter cuidado do coração.
Então eu acabei de almoçar, aí tava aqui sentada no sofá.
Esse é um áudio de 7 de março de 2019.
Aí pensei assim, pô, vou lá botar o prato lá na pia e vou voltar a lavar a roupa. Aí eu peguei, tomei uma água gelada. Na hora que eu saí da cozinha, comecei Comecei a sentir o coração aceleradão, mas muito acelerado, muito acelerado mesmo.
Nessa hora ela bota o dedo em cima do microfone e o som fica abafado. Não dá pra ouvir direito o resto do áudio, mas ela diz assim: eu senti meu corpo todo indo embora, não tava sentindo mais nada. Minha mãe morreu 32 dias depois. Se a gente não fosse pobre, ela teria se alimentado melhor. Se ela tivesse crescido numa família de classe alta, ela provavelmente teria estudado pra faculdade e não ia trabalhar limpando a privada dos outros.
Como teria sido a vida da minha mãe se ela não tivesse engravidado aos 21 anos? Eu tenho muitas perguntas sobre a morte dela, e a mais difícil e provavelmente a mais cruel é a que mais me persegue. Será que a minha vida seria boa como é hoje se a minha mãe não tivesse morrido? Será que eu teria estudado tanto, trabalhado tanto para me tornar um bom jornalista se não fosse o luto, esse vazio, o medo que a ausência dela me deixou?
Teve um momento estranho naquele primeiro dia que eu fui ouvir os áudios. Eu tava ouvindo ela falar sobre um homem porque ela tava apaixonada. Ela usava o pouco dinheiro que tinha para pagar Uber e colocar crédito no celular desse cara.
Sei lá se ele tava arrumando emprego mesmo, se tava falando com outra mulher, porque ele quase não gastava o crédito comigo, entendeu? Quase não ligava para mim. Toda vez estava online, não falava comigo, e eu otária achando que eu era Última bolacha do pacote.
Eu tava ali ouvindo esse áudio e me dei conta de que eu tava perdendo a paciência. Era como se eu tivesse esquecido que tava ouvindo o desabafo de uma mulher morta. De certo modo, eu voltei para 2019 e me vi ali na rua ouvindo a mensagem da minha mãe no WhatsApp. E agora eu ia ter que gravar uma mensagem de volta dizendo as mesmas coisas de sempre: segue em frente, mãe, esse cara não quer nada contigo.
Eu falei, Cássio, sabe de uma coisa? Vou botar minha fila pra andar. Já que você não quer mais nada, vou botar a fila pra andar. Aí ele ia filando, eu falei assim, vem cá, você achou o quê? Você não desmanchou comigo? Você acha que eu vou ficar no muro das lamentações, lamentando, chorando, isso e aquilo, outro, por causa de você? Não vou não, Cássio. Não vou não, vou botar minha fila pra andar. Pô, tem um bombeiro lindo me querendo aí do seropédico, eu vou pegar o cara.
Agora eu não vejo mais graça nas piadas que a minha família fazia sobre as tentativas frustradas dela de arrumar um namorado. A minha mãe era uma mulher gorda, pobre, sem estudos, que queria ser amada. E poucos homens querem amar uma mulher assim. Daí vem outra pergunta: se a minha mãe não tivesse morrido, se eu não tivesse lido os livros que eu li, será que eu olharia pra ela desse jeito compreensivo? Eu ouvi uma entrevista com Ocean Vuong, um desses escritores autobiográficos que eu andei lendo para me inspirar para o meu livro.
Ocean Vuong é um escritor vietnamita-americano e perdeu a mãe dele no mesmo ano que eu perdi a minha. A mãe dele morreu de câncer de mama aos 51 anos, no auge do sucesso literário do filho. Na entrevista ele diz assim: um dia você volta para casa querendo dizer, mãe, Vó, tia, eu entendi. Eu li Hannah Arendt, li Toni Morrison, li James Baldwin. Não foi culpa de vocês. Esse sistema foi feito pra que vocês não conseguissem sair dele.
Eu levei 15, 20 anos, todas aquelas horas de leitura pra saber que não é culpa de vocês. Mas então você chega em casa e não tem mais ninguém lá. A casa tá vazia. É tarde demais. Eu senti uma coisa parecida enquanto escrevia o meu livro. Eu queria poder dizer para minha mãe que ela não precisava ter se culpado por ter sido gorda, que a obesidade é uma doença que afeta principalmente os pobres. Não dava para você cuidar da sua saúde só com esforço pessoal, mãe.
Você não tinha dinheiro para fazer uma dieta adequada, você não tinha acesso a bons médicos, você não pôde se dar de ir pra academia. E não, mãe, você não virou empregada doméstica porque foi irresponsável na juventude. Se você tivesse sido uma jovem com dinheiro, você teria tido tempo de sobra pra jogar fora. Tempo pra ficar à toa tentando descobrir o que fazer da vida. E ainda assim você não teria virado empregada. Eu sei disso porque agora eu ando com gente que teve esse tempo.
Você ainda nem conhece eles direito, tá, meu filho? Só tô te alertando porque é o meu papel de mãe, tá bom? Eu confio em você, mas tem que— a gente não confia no outro, tá? Sempre tem que confiar desconfiando.
Eu também me pergunto como eu falaria se a minha mãe não tivesse morrido, se eu não tivesse mudado de cidade e de classe social, se eu ainda teria o sotaque do subúrbio.
Alice, cadê o homem, Thales? Eu tô no meio do caminho aqui, no meio da rua, e o homem até agora não chegou aqui. Pô, acho que eu vou descer a pé mesmo.
Eu ainda sinto a minha mãe na minha voz. Tipo quando eu derrubo alguma coisa no chão e encho a boca pra soltar um caralho, como ela fazia. Quando alguém me estressa e eu penso em mandar a pessoa pra puta que pariu, que nem ela mandou a mulher lá na missa. Eu também digo o tempo todo que eu amo os meus amigos, os meus avós, os meus tios. Eu não tenho vergonha e nunca tive de demonstrar amor pelos outros. E essa também é uma herança da minha mãe.
Beijo, meu filho, também te amo. Dorme com Deus, tá?
Beijo, beijo.
Já era para mim estar dormindo há muito tempo, mas eu fico preocupada, você sabe, né? Tchau, dorme com Deus.
Esse foi o Tales Braga. E esse ensaio foi um desdobramento do primeiro livro dele, que acabou de sair pela Companhia das Letras e se chama Filho. Os ouvintes do Apresenta têm 10% de desconto na compra do livro no site da editora e na Amazon. O cupom tá lá no nosso site, no post do episódio, e ele é válido até o dia 13 de outubro. A gente volta já já.
Quando a gente tá na escola, a gente confia em tudo que tá no livro didático, certo? Mas e se um grupo financiado pudesse reescrever essa história para proteger os próprios interesses? Parece história de filme distópico, mas foi isso que o Aos Fatos revelou na série de reportagens Mentiras Plantadas. A investigação mostrou como uma ONG ligada ao agronegócio atua junto a editoras brasileiras para suavizar a imagem do agro nos livros escolares.
Por exemplo, eles fazem pressão para remover conteúdos que associam a agroindústria a problemas ambientais, mudanças climáticas ou trabalho escravo. No lugar, exigem relatos que retratem o negócio apenas como moderno e sustentável. O Aos Fatos confirmou que diversos materiais já foram alterados. Num dos casos, eles conseguiram trocar o termo agrotóxico por defensivo agrícola, uma mudança bem aceita em escolas particulares e que tem apoio de famílias do setor.
Se você é educador, pai, mãe, ou se preocupa com o ensino no país, vale a pena conferir a reportagem. Acesse aosfatos.org e busque por Mentiras plantadas. O que causa mais estrago, acreditar numa mentira ou duvidar de uma verdade?
O problema dele não é você duvidar daquilo, porque é saudável você duvidar se alguma coisa é fácil ou não. É você descartar aquilo que é verdade pelo simples fato de que você não sabe e dá muito trabalho saber.
A resposta para essa pergunta é bem assustadora, principalmente se a gente parar pra pensar que estamos às vésperas de uma eleição no Brasil. Qual é o estrago que a inteligência artificial pode causar na democracia? Eu sou o Felipe Foratini, do Instituto Cunume, e quero te convidar pra ouvir a nova temporada do Área Podcast. Em 4 episódios, a gente discute com especialistas da área de informação os impactos dos modelos de IA no processo eleitoral e como a gente pode se proteger disso.
Eu digo a gente porque do meu lado vai estar o pesquisador em IA e professor da Universidade Federal de Campina Grande, Leandro Balbi. A gente vai falar de fake news, IA generativa, soberania tecnológica, algoritmos, palavras que a gente precisa começar a incorporar no nosso dicionário democrático para ontem. O Área é um podcast do Instituto Cunume, produzido pelo Estúdio Novelo. Quando terminar esse episódio, Procura pelo nosso feed no seu tocador preferido. O primeiro já tá disponível.
No segundo ato, a gente quis voltar para uma história do primeiro ano do Rádio Novelo Apresenta, sobre um tipo de recado que eu aposto que você nunca ouviu falar. Quer dizer, você só ouviu falar se você já escutou essa história, que foi ao ar pela primeira vez em setembro de 2023. Mas assim como os recados nessa história, vale a pena ouvir de novo. Esse som que você tá ouvindo em inglês é de um disco Eu sei que é meio difícil de entender, mas tudo bem, porque não era para você tá ouvindo esse disco.
Esse disco é uma carta. O homem conta do dia dele, pergunta como estão as coisas em casa, e no fim do disco ele dá boa noite. Esse disco foi gravado por um soldado americano no dia 14 de julho de 1944. Mas foi gravado pelo Walter para ser ouvido pela Julie. Não era para você. O Walter sobreviveu à guerra e morreu em 2005. A Julie, para quem ele gravou aquela carta, morreu alguns anos depois dele. Mas a voz do Walter perguntando para Julie como tava tudo em casa, ela ainda tá aqui.
É uma voz órfã, uma voz à deriva, Foram-se os dois e ela ficou. No episódio de hoje, a gente vai falar sobre vozes do além, sobre jeitos das pessoas falarem quando elas não estão mais aqui. E o primeiro jeito que a gente vai investigar hoje são discos como esse do Walter para Julie. Quem me apresentou essa gravação foi o Tom.
Meu nome é Thomas Levin.
Eu chamo ele de Tom porque eu conheço ele há muitos anos. Ele é americano, mas fala português porque ele é casado com uma brasileira amiga minha, a cineasta Sandra Kogut.
Professor lá nos Estados Unidos, na Universidade de Princeton.
Lá em Princeton, o Tom dá aula sobre teoria das mídias e ele trabalha com vários gêneros.
Som, cinema, mas outros mídias também. Mas eu sou Também um curador.
Ele organiza exposições e também é colecionador. E isso pode até parecer tipo um hobby dele, mas tem a ver com todo o resto.
E eu gosto muito de pensar com objetos.
Quando eu sentei com ele para gravar as nossas vozes, o Tom começou a me contar sobre um momento muito específico na história da tecnologia da gravação de As gravações mais antigas da voz humana são dos anos 1850, e no começo de tudo as gravações eram uma tecnologia super experimental e pouco acessível. Mas há um século mais ou menos o jogo mudou. O que entrou em cena foi o disco. Esse disco era uma novidade porque o que tinha antes eram uns rolinhos, em cilindros de cera.
O princípio era o mesmo, mas em vez da agulha girar em cima do disco, ela girava em torno do rolo. Os discos eram muito mais resistentes, muito mais baratos, mais fáceis de transportar e de guardar também. E foi aí que nasceu a indústria fonográfica. Mas o que ficou meio esquecido foi o fato de que, por um tempo, essa tecnologia de gravação em disco também ficou disponível para o público em geral. Pela primeira vez, as pessoas começaram a ter acesso a equipamentos de gravação, a possibilidade de elas mesmas gravarem um disco.
Era um poder inédito. Isso foi nos anos 20 do século passado. Então, no meio dos anos 20, você pode ir num estúdio, dava para ir num estúdio de gravação, mas também tinha até em lojas de departamento. Você tá ali escolhendo um belo chapéu e aí você pode dar um pulinho numa cabine de gravação e gravar uma mensagem para mandar, gravar sua voz num disco e botar no correio para ser ouvido por alguém. Uma carta falada. Eles eram chamados de fonopostais, como se fosse um cartão postal em áudio.
Curiosamente, uma coisa que ninguém conhece.
Quando o Tom descobriu as cartas faladas, há uns 15 anos, ele começou a colecionar feito um doido. Uma carta falada não precisa ser gravada num disco. O Tom coleciona tudo quanto é carta falada feita em gravador de rolo, em fita cassete, mas são todas vozes gravadas para serem mandadas para alguém, tipo recado de voz WhatsApp na Idade da Pedra.
Hello darling, how's the darling wife of mine today? Still love me? Alô, minha querida, aqui é seu papai que vos fala da exposição e que vos envia chocolate.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Ich komme mir zwar ein bisschen komisch vor, dass ich zu euch reden soll statt zu schreiben. Hoffe aber, dass euch die Sache Freude macht.
A prática se popularizou mesmo nos anos 30. Quando eu conversei com Tom, ele tinha acabado de comprar um disco gravado em 1929. Um cara em Nova York tinha comprado um disco e tinha gravado um recado de parabéns para uma cantora de ópera em Londres. Pra quem tem preguiça de ouvir recado de voz no WhatsApp, imagina que é seu aniversário e começa a chegar um disco atrás do outro. E não era só uma coisa dos Estados Unidos e da Europa, isso começou a rolar no mundo todo.
Tudo bem, não era todo mundo que tinha dinheiro pra frequentar a loja de departamento, mas não era um serviço muito caro. Inclusive, costumava ser mais barato do que fazer uma ligação de longa distância.
Nos anos 30 começa um novo sistema, um tipo de cabines quase igual a essa cabine que todo mundo conhece agora, onde você vai para fazer uma foto de você. Então lá você vai nessa cabine, você bota alguns pedaços de dinheiro, você entrava, enfiava algumas moedas, e aí a máquina começava a gravar. E você gravou 2 minutos de mensagem sobre um pequenininho disco de 10 centímetros e sai esse disco com um envelope e você pode mandar esse para o correio.
E esses discos funcionavam que nem todos os outros, dava para tocar na sua vitrola, no seu toca-discos, enfim.
E tinha essas cabines de gravação em tudo quanto era lugar, nos lugares turísticos, mas também nas estações de ônibus, de trem, em cima do Empire State Building.
Cavaleiros, boas tardes, senhoras e senhores. Estamos na festa de Nova York admirando essa magnífica cidade.
Teve até países que incorporaram os fonopostais dentro do serviço de Correios.
Nos anos 30, na Alemanha, foi a primeira tentativa desse modelo. Depois, interessantemente, na Argentina.
A Argentina inaugurou o Serviço Nacional de Fono Postal em 1939. E nesse caso, o sistema era um pouco diferente. Você ia na agência dos Correios e gravava um disco. Hoje, miércoles, recién podemos venir hasta el correo central para hacer Vamos dizer que você gravou num disco uma mensagem para o seu tio Carlos, que mora numa zona rural. O disco ia parar na agência postal mais perto do tio Carlos e ele podia ir ouvir o disco lá, para o caso muito provável dele não ter nem gramofone, nem vitrola e talvez nem luz em casa. Ah, isso democratiza bastante, né?
Exatamente. E Essa estrutura abre a comunicação postal, de letras, às pessoas que não sabem ler e que não sabem escrever. Então, muito importante.
Depois da Argentina, começou o serviço no Brasil no final de 1941. Abriram várias agências no Rio, que ainda era a capital, onde as pessoas podiam gravar esses recados. E nas mesmas agências tinha vitrolas onde os destinatários podiam ouvir. Numa entrevista na época, o diretor-geral dos Correios fazia questão de dizer que a gravação era absolutamente sigilosa, que as portas eram hermeticamente fechadas. Ele dizia que a maior parte dos fonopostais era mandada para o norte do país, mas que outra boa parte dos discos nem chegava a ser despachada.
Tem uma aspa dele que diz assim: grande parte dos discos têm sido gravados por gente Morro, que trazendo instrumentos adquire o disco e nele fixa as suas canções. Quer dizer, lá nos anos 40 você podia gravar um disquinho demo numa agência de Correios, e não era pouca gente que fazia isso. Quando apareciam essas bandas para gravar nos Correios, juntava tanta gente só para espiar que até atrapalhava o fluxo dos carros.
Tão grande que Foi um problema para o trânsito.
O Tom acha que esses discos, se ainda estiverem por aí, podiam ajudar a gente a reescrever a história da música popular brasileira. Uma coisa engraçada no arquivo do Tom é que tem muita gente que canta mesmo, em vez de só falar.
Soldier boy, I love you so.
Tem gente cantando em alemão, em espanhol, em espanhol e inglês, músicas de amor, músicas engraçadinhas, músicas que deviam significar alguma coisa para quem fosse receber. Uma das hipóteses do Tom é que essa é uma vantagem da gravação da voz, da carta falada, sobre a carta escrita, porque você consegue repassar a qualidade musical da voz. Você consegue brincar com a entonação, ouvir o timbre. Então, dali a cantar é um pulo. Outra coisa que a gente tem que pensar é como essa experiência devia ser nova, devia ser diferente para quem tava gravando.
Tenta esquecer tudo que você já naturalizou e pensar nisso: A ideia de você falar alguma coisa fechado num estudiozinho, sem ninguém na sua frente, e que só vai chegar no ouvido de uma outra pessoa no futuro. Não tem aquela expressão palavras ao vento? Você falava e o vento ou os Correios levavam a sua voz, o seu timbre, para o nunca mais. Agora as suas palavras estavam sendo gravadas nos sulcos de um disco para um ouvido futuro.
A pessoa pode receber aquilo depois de 2 meses, 3 meses, você não sabe quem vai estar na sala, por exemplo. Isso é uma coisa que eu pensei num caso que eu achei, eu fiquei fascinada por um áudio de um argentino que é um sujeito chamado Ricardo que tá apaixonado por uma mulher chamada Renê. Quero eu por sempre ficar do lado, uma insônia de amor, muito amor eterno. Lembra que o diretor dos Correios tinha falado várias vezes naquela entrevista que as cabines eram hermeticamente fechadas, imagino que talvez fosse por causa de recados como esse.
E ele tá muito apaixonado e ele não vê a Renê há muito tempo. E ele faz o que eu, ouvindo, eu falei, gente, esse homem inventou o fone de sexo, porque ele faz, é uma carta de amor assim inacreditável.
E dos lábios nascem o fogo intenso de carvão.
Ele grava dos dois lados do disco, que nem que todo mundo faz, né? E ele suspira. Então ele diz: beijos, beijos, beijos.
Fechar e terminar ali mil vezes, beijos eternos de amor.
Mas eu fiquei pensando, se a Renê bota isso na sala da casa dela e ela tá ouvindo com os pais, por exemplo, entendeu? Isso pode dar uma confusão danada, porque é meio complicado. Então não é nada explícito, obviamente, é um um, acho que é dos anos 30 esse, mas você sente na voz do cara uma coisa sensual, entendeu? Uma vontade de estar fisicamente com a Renê. E eu fiquei imaginando isso, porque quando ele gravou, ele não sabe quem vai estar do lado dela quando ouvir, né?
Esse é um problema grande que você ouve também sobre muitos discos nesses anos 30, 40. Onde foi o gramofone? Na sala. Quando você bota um disco na sala Não é no seu quarto privado, outra gente pode ficar lá também, completamente. Então, sobre vários discos você tem essa, como dizia, anxiety.
Ansiedade.
Essa ansiedade, você pode ouvir essa ansiedade várias formas. Por exemplo, as pessoas falam, ó, meu amor, e o quê? Você sabe que eu quero.
Eu tô aí do lado com o Tadinho, neném.
Porque também é um detalhe muito interessante que não somente ele tem uma forma de falar muito sensual, ele fala muito baixo, mas também ele usa o silêncio de forma retórica. Ele, ele não He doesn't fill the sound waves.
Ele não, ele não enche o silêncio, né?
Ele usa esse silêncio e também uma outra forma de, em inglês essa chama medium specificity. O silêncio é uma forma de falar. Você pode falar coisas com a pausa entre dois palavras que você não pode fazer na carta escrita. Então o silêncio é uma forma expressiva nesse médium.
Às vezes a ansiedade vem daí mesmo, da vontade de estar com a pessoa para quem você tá mandando o recado.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Mas também tinha gente que ficava ansiosa só pelo fato de estar gravando.
I don't know what to say. I'm so nervous.
Quando você começa a gravação de um desses discos, essa gravação não para.
Não dava para voltar. Não dava para regravar.
Então, se você não tem nada para dizer, esse nada também gravou.
É, tá registrado.
É a estrutura de uma sessão psicoanalítica, onde o fato de não poder falar de uma coisa fala. E também você tem outra coisa que eu gosto muito, eles falam do fato da gravação. Oi, estou aqui gravando um disco incrível, eu não tenho muito tempo, mas vou tentar de falar tudo e fazer assim.
Tem um maravilhoso americano ótimo que tá viajando pelo país e que diz: então mamãe e papai, não se preocupem comigo porque eu vou sumir um tempo. Então se eu sumir, vocês não se preocupem, pode deixar que meu carro tá funcionando muito bem, ele tá ótimo. Porque eu acho que a preocupação devia ser essa, né? Isso é nos anos 30, né? O sujeito viajando pelo— ele diz: eu tô conhecendo os Estados Unidos inteiro, tô adorando, super bem, mas vou dar uma sumida, vocês não se preocupem.
E uma coisa muito interessante sobre essa mensagem: nessa viagem que ele fez para todo o país dos Estados Unidos, grande país, em várias cidades ele Eu não sei como ele conseguiu, mas ele achar um lugar para fazer uma gravação e tem uma série de discos dele.
Você tem uma série de discos dele? Você tem o percurso da viagem dele, um pedaço pelo menos? Que maravilha!
Hoje eu sou no Texas. Esse último pedaço de Louisiana foi um pouquinho longe, mas tô vivendo.
Muito interessante.
Você tem, eu penso que foi 8 discos sobre essa viagem.
O Tom tá nessa longa viagem com os fonopostais faz uns 15 anos. Ele ama feiras de antiguidade, mercado de pulgas, que são o tipo de lugar onde você encontra coisas que você nem sabia que podia querer. E foi numa dessas feiras que ele achou o primeiro fono postal dele.
E aí eu descobri um desses discos dentro de um envelope. Eu comprei porque esse tipo de coisa nunca viu essa, então eu queria saber mais, então eu comecei a fazer a pesquisa. Sabe onde tem outros?
Naquele dia, o Tom caiu dentro de um buraco, porque não existia uma coleção desses discos no mundo e não existiam estudos sobre eles. Na verdade, até hoje não existe um arquivo especializado nisso. Mas no mundo, milhões desses discos foram gravados ao longo de décadas. Onde eles foram parar? Como é possível que não tenha ninguém estudando isso? Além do Tom, claro. O Tom tem uma suspeita, porque uma pergunta que muita gente faz quando sabe da coleção é: tem gravação de gente famosa?
E sim, tem algumas, mas a maior parte e quase toda a coleção do Tom é de gente comum falando sobre coisas comuns.
A comida, os carros, temperatura, o dente do bebê.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
O dente do bebê. Vida cotidiana, não são espetaculares, mas são muito interessantes. Mas para um tipo de pensamento acadêmico que quer os grandes momentos da história, esses não são grandes momentos, mas esses pequenos momentos têm muitas coisas para dizer ao nosso tempo.
Os fonopostais são um museu dos pequenos acontecimentos, da vida comum. E além disso, eles são um prato cheio para os linguistas.
Porque tem vocabulário, accents, sotaque e também expressões que não existem mais.
Dá para sentir isso quando você tá ouvindo. O tom de voz é antigo. É uma coisa muito difícil de captar, Mas inconfundível quando você ouve.
Hören das Abhören, was ich heute in das Mikrofon sage.
Tem um deles que é em alemão que eu não consegui entender, mas como o teu arquivo é muito bem organizado, tem uma descrição, né, do que está acontecendo. E aí é um pai e uma mãe gravando para os filhos. E aí tem uma hora que a mãe diz: Quando não estivermos mais aqui, esse disco fica de lembrança para vocês.
Sollten wir einmal Esse também é uma forma dessa ansiedade sobre o ouvido futuro.
Porque quando eu falo, eu não sei se quando essa gravação vai ter ouvido. Pode ser semana próxima, mas pode ser também 40 anos depois.
A gravação separa a voz do corpo e no fim a voz é tudo que sobra. O Tom me disse também que esse disco específico da mãe alemã é um exemplo da importância dos envelopes, porque quando você consegue achar um fono postal com o envelope, isso te diz muita coisa sobre esse fono postal: de quem para quem, de onde para onde, em quais circunstâncias.
Esse disco foi gravado no meio dos anos 30, uma feira tecnológica dos fascistas. Então foi um tipo de competição: vem gravar sua voz, a gente quer a voz da Alemanha. E se você pode, pega esse disco como souvenir. Mas então você deve pensar, essa pessoas estão gravando esses discos e do lado deles teve 2 soldados nazis. Então eles estão falando, mas também tem lá uma forma de ouvir proximal, né, no momento, mas é uma forma de censura.
Entendi, porque tem um ouvinte que é o soldado que tá ali em pé do lado ouvindo tudo que você tá gravando, né?
Também.
Então por isso que eles ficam falando: sejam bons alemães, pensem na Alemanha, né?
E não ao seu bestemor, e vocês, meus jovens, sejam bons alemães, pensem na Alemanha, né?
É muito diferente essa carta das outras que você vê de pais e mães mandando para os filhos, né? Não tem a conversa do dente do bebê, ninguém vai falar das férias na praia, né? O Tom também tem exemplos da versão americana dessa censura prévia aos recados. Porque as cartas faladas que os soldados americanos mandavam para os pais também eram censuradas.
O correio durante a guerra é sempre censurado.
Agora, para mim, é bem fácil pegar um arquivo de som e cortar um pedacinho que eu não quero que saia. Mas como dava para fazer isso em 1940?
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Em muitas dessas gravações de soldados, aliás, tem uma voz que entra antes, uma voz do patrocinador.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
O que que é essa voz? Essa é a voz do cara que tá fazendo a gravação?
O Tom tem um site que tá linkado lá na página do episódio no site da Rádio Novelo, onde dá pra ouvir algumas das milhares de gravações que ele já coletou. O site não é atualizado há alguns anos porque o Tom só conseguiu botar ele de pé com uma bolsa de uma fundação alemã e a grana acabou há tempos. Por enquanto, ele tá só caçando cartas faladas. Ele vive procurando mais em sites do tipo Mercado Livre, eBay, em leilão, em mercado de pulgas.
E às vezes ele compra direto da família da pessoa que gravou. Nesses casos, ele fica até meio perplexo.
Você não quer guardar a voz do seu avô? Ele fala: não, não tem gramofone.
Só que muita gente não tem toca-discos. Mais. Então nem faz sentido guardar um disco que não dá para ouvir, né?
Eu falo, bom, venda essa para mim e eu vou fazer um MP3, vou transferir digital e eu mando para você. Assim você pode dar a seus filhos, porque é muito mais importante para você que para mim.
E toda vez que sai alguma cobertura sobre o projeto do Tom, mais gente entra em contato. No site do Tom tem gravações da Argentina, de Portugal, da Inglaterra, da Holanda, mas nenhuma do Brasil. Mas na coleção dele tem.
Eu tô indo na Praça XV para ver se eu posso achar outros. É muito difícil.
Um dos problemas é que esses discos eram bem mais finos do que um disco de música. Era por isso, em parte, que eles eram tão baratos. Mas se você tocasse demais, uma hora a agulha simplesmente furava o disco. Por isso que quando o Tom consegue um disco desses, ele normalmente toca só uma vez, na hora de digitalizar.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
E agora, depois de todo esse suspense, vamos ouvir um genuíno fono postal brasileiro.
Alô, alô, amigos, bom dia. Boa tarde, boa noite. Então vocês que ouviram a minha voz como speaker improvisado, gostaram? Sim? Ah, não gostaram? Que injustiça! Pois olhem, minha mãe, antes mesmo de me ter botado neste mundo tão cheio de baboseiras, dizia a todas as pessoas conhecidas que eu havia de ser um ótimo speaker. Mentira? Quem foi que disse mentira por aí? Ah, foi você? Ó, mas não faça isso, que deselegância! Não se desmente assim uma pessoa queimar roupa.
Pois olhe, tanto tinha lá razão para se pensar que agora vocês estão me ouvindo e conhecendo as minhas belíssimas qualidades. É verdade que há 90 anos atrás não havia rádio, mas ela possuía convicção de que eu seria um bom, um ótimo speaker. E vocês que são meus amigos, meus parentes, Responda de uma vez: sou ou não sou o tal? Deixe-se de vergonha. Não falam? Então boas festas e bichos. Agora, como tenho terminado o que eu queria dizer, quero fazer uma saudação à garotada.
Essa garotada, o Marcos, o Juarez, o Zequinha, o Antônio, a todos os garotos, eu quero fazer a minha Saudação, saudação de garotos, de garotos, vamos dizer, de garoto para garoto.
Muito bom, muito bom ele.
Impressionante, né?
A gente sabe muito pouco sobre esse disco por enquanto, não tem nada escrito nele, e no envelope diz que foi gravado em dezembro de 1943, do Alberto para Beatriz, no aniversário dela. Mas como o homem na gravação não menciona nenhum desses nomes, nem dá parabéns para Beatriz, é possível que a gente esteja diante de um caso de identidades ou de envelopes trocados. De qualquer forma, o que eu achei mais interessante ouvindo esse fono postal específico é que o cara tá impostando a voz como se ele tivesse falando para multidões, para uma plateia, ou então no rádio.
Ele tá Fingindo uma forma de telefonema, mas essa mostra que ele tá imaginando o ouvido que não existe nesse momento da gravação. Essa é bem interessante.
Você não sabe agir diante do microfone, então você pega os modelos que tem. Tem o rádio, tem os discos de música, e o outro tipo de voz sem corpo que as pessoas conheciam na época era o telefone. Pelas contas do Tom, devem ter sido gravados algumas dezenas de milhares desse tipo de disco no Brasil nos anos 40, mas pouquíssimos deles sobreviveram. O serviço ainda voltou a funcionar no final dos anos 70, agora em forma de fita cassete.
E o Tom até foi na sede dos Correios tentar achar alguma, mas ele só ganhou uma fita virgem. A foto tá lá no nosso site. As cartas faladas, os cilindros, os discos, as fitas, os recados gravados de uma voz para um ouvido podem contar toda uma outra história da comunicação no século 20, da música e da vida cotidiana também. O Tom tem até um fono postal português de parabéns que parece muito um precursor das figurinhas de WhatsApp.
Muitos parabéns, Dona Maria. E uma das gravações que eu achei mais tocantes na pequena seleção que tá no site do Tom é justamente de Portugal. Boa parte das gravações dele são de homens que estão viajando ou indo para guerra, mandando as vozes deles para as mulheres. Mas essa é de uma mãe, ou de quem eu suponho que seja mãe, ou uma tia talvez, tentando fazer uma criança bem pequena falar para mandar um recado para o pai. E ela tem poucos segundos para fazer isso.
Aquilo tudo devia ser muito estranho para criança. O pai não tá ali naquela salinha e ele não tá do outro lado de um telefone, mas em algum momento o ouvido dele vai estar lá. E em algum momento depois disso, o pai não vai estar lá mais. Em algum momento ainda depois Além disso, nem a criança vai estar lá.
Como tá, Dili? Vem cá, vem cá.
O que fica é essa tentativa de uma voz procurando um ouvido.
Tá, até logo.
Kia!
Até amanhã. Amanhã!
Deixa eu ver a Dili.
Ela não quer mais, ela quer o pai. Ela não quer, né?
Essa história foi produzida pela Flora Thompson Devaux. Obrigada por ouvir o Rádio Novelo Apresenta. A gente solta um episódio novo toda quinta-feira, menos pra quem é do Clube da Novelo, que já consegue ouvir na quarta sem anúncio. Aqui uma préviazinha do episódio da semana que vem.
E se tiver algum problema?
E os outros casos que não são tão gritantes que nem presidente? As pessoas podem se enrolar pra frente? E esse sistema aí que não vale de bosta nenhuma? E esse Estado que tá tudo corrompido?
Levantando a mão, virando a mesa. Ninguém sabe nada nessa porra! Nossa, fecha essa espelunca! Além disso, tem episódios bônus, brindes especiais e descontos com as nossas marcas parceiras. E cada assinatura ajuda a gente a trazer cada vez mais histórias que você nem sabia que precisava ouvir. E pra saber mais, é só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouco. Oi, aqui quem fala é a Natasha Barzaghi Janin, diretora cultural da Japan House São Paulo.
E eu sou Guilherme Wisnik, arquiteto e professor da FAESP.
No novo episódio da 5ª temporada do podcast da Japan House São Paulo, a gente faz um mergulho pelos jardins japoneses. A gente vai investigar o simbolismo dos do paisagismo japonês, a sutileza dos jardins zen de Kioto e entender por que essa tradição tem tanto significado ainda hoje no Japão. A 5ª temporada do podcast da Japan House São Paulo já tá no ar, então assim que terminar de ouvir esse episódio aqui, procura a gente no seu tocador de podcasts favorito.
Eu te espero lá. No post desse episódio no nosso site, a gente deixou links para o livro do Tales, para outra história que ele já publicou aqui no Rádio Novelo Apresenta sobre a Lady Gaga, e para o ensaio dele na Revista Piauí. Também dá para conferir o site onde o Tom andou juntando fonopostais de várias épocas e de vários lugares. E se você tiver um fonopostal dando sopa aí em casa e quiser que se cuide e digitalize. O email dele também tá lá no nosso site.
E vem cá, você sabia que a gente também posta os episódios completos do Rádio Novelo Apresenta no YouTube? Lá também tem playlists com histórias avulsas curtinhas de até meia hora. Vale a pena dar uma olhada e indicar para um amigo que ainda não conhece a gente. Para quem tá nas redes sociais, fica o convite para seguir a novela no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para quem prefere se comunicar por email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pauta para o apresenta@radionovelo.com.br.
Se você tem uma marca ou um cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar o seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever pra gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devaux. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro.
Nossos repórteres e roteiristas são a Bia Guimarães, a Maíra Valejo, a Bárbara Rubira, a Carolina Moraes, Vitor Hugo Brandalize, o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta e o Paulo Vitor Ribeiro. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pelo Gilberto Porcidônio. Esse episódio teve desenho de som da Raquel Vieira e da Mariana Leão, que assina a nossa mixagem junto com a Bia Guimarães. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento.
Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.
Aos Fatos
Série de reportagens "Mentiras Plantadas"Clube da Novelo
Assinatura de clube de membrosCompanhia das Letras
Livro "Filho" de Thallys BragaOxfam Brasil
Relatório sobre poder econômico e políticoWise
Cartão de viagem internacional