Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Ruído branco - Parte 1

03 de setembro de 202651min
0:00 / 51:24

A fortuna dos ventos e um telefone sem fio para o além.

No primeiro ato: um voo nas trevas. Por Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux.

No segundo ato: uma escritora busca contato com o absurdo. Por Bia Guimarães.

Faça parte do Clube da Novelo! Os membros têm acesso a conteúdos bônus, uma newsletter especial, aos episódios do podcast Rádio Novelo Apresenta antecipados e sem anúncios, cupons de desconto em marcas parceiras e a eventos exclusivos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo feita só pra membros. Assine em clube.radionovelo.com.br

Inscreva-se no canal da Rádio Novelo no YouTube: https://www.youtube.com/@rádionovelo

Siga a Rádio Novelo no Instagram: https://www.instagram.com/radionovelo

Palavras-chave: Santos Dumont, balonagem, balões, tempestade, poesia, cinema, rádio, morte

Participantes neste episódio6
B

Branca Viana

Host
B

Bia Guimarães

Reporter
F

Flora Thomson-DeVeaux

Narrador
G

Gabriela Grebe

EntrevistadoCineasta
O

Olga Bilenk

EntrevistadoArtista plástica
P

Paula Scarpin

Narrador
Assuntos5
  • A busca de Hilda Hilst por contato com o absurdo através de gravaçõesHilda Hilst·transcomunicação·ruído branco·Casa do Sol
  • A experiência de Santos Dumont em um balão durante uma tempestade noturnaSantos Dumont·balonagem·França·Bélgica
  • O experimento de Hilda Hilst com vozes do além e a transcomunicaçãoHilda Hilst·Fredrik Jungerson·Telefone para o Além·povo cósmico·Vladimir Herzog
  • A produção do filme 'Hilda Hilst Pede Contato' e os sinais recebidosGabriela Grebe·Hilda Hilst·Casa do Sol·Hilda Hilst Pede Contato·Flip
  • A interpretação das gravações de Hilda Hilst e a busca por contatoHilda Hilst·ruído branco·imortalidade da palavra·Marduk
Transcrição118 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Rádio Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novela Apresenta. Eu sou a Branca Viana e essa semana o episódio vai ser um pouco diferente. Isso porque ele foi preparado para apresentação ao vivo que a gente fez no MASP, o Museu de Arte de São Paulo, no dia 2 de setembro de 2026. No palco, enquanto a gente contava as histórias, tinha música ao vivo da Stella Neghini e do Vini Silva e imagens bem doidonas do coletivo Meio Lab sendo projetadas atrás.

A gente vai ficar devendo as projeções aqui nesse feed, mas a gente quis compartilhar esse episódio especialíssimo com todo mundo que não conseguiu estar com a gente em São Paulo, que obviamente a vasta maioria dos nossos ouvintes. Aliás, quem é membro do Clube da Novelo vai receber um link para a apresentação toda em vídeo logo mais. Lá no MASP, a gente contou 5 histórias no total e algumas delas precisaram ser enxugadas um pouquinho para caber na apresentação.

Então a gente resolveu publicar essas histórias aqui no feed na íntegra em 2 partes. 2 histórias essa semana e 3 na semana que vem. O tema que conecta todas elas e que foi surgindo das brumas das nossas conversas ao longo dos meses foi ruído branco. A gente sabe que essa não é uma combinação óbvia de palavras: ruído branco. Acontece que ao longo dos séculos muitas pessoas tentaram entender a relação entre cor e som. Isso sem contar a sinestesia, que é quando as pessoas associam sentidos diferentes.

Tem gente que vê cor em número, que sente toque com som, que sente o gosto das palavras. Não é necessariamente disso que a gente está falando aqui. É alguma outra conexão mais profunda, universal, uma sensação de que uma coisa tem que ser irmanada com a outra. Só que não é simples entender como se dá essa conexão. Os gregos antigos já estudavam o que eles chamam de cróia, ou a coloração da música. No começo do século 18, o Isaac Newton propôs uma correspondência entre notas musicais e as cores do arco-íris.

Ele tava errado, mas a ideia era bonita. Ruído branco, no fim das contas, é uma metáfora. Tem a luz branca, que contém todas as outras cores, e tem o ruído branco, que é um som aleatório em que quase todas as frequências estão em intensidades iguais. Um som aleatório que acaba abraçando tudo e não dizendo nada ou quase nada. A gente gosta desse chiado, e não só para trabalhar ou para dormir. A gente gosta da natureza randômica dele.

E dessa metáfora que junta a escuta com a visão. Nas duas histórias dessa semana, a gente acompanha pessoas tentando enxergar a vida na Terra de outras formas. A gente vai fazer um intervalo curtinho e a gente já volta.

?Voz B

Esse podcast é um oferecimento da Wise, o jeito certo de pagar no mundo todo. Quando você viaja para o exterior ou tá se preparando para uma viagem inesquecível, sempre chega aquele momento: a hora de converter os gastos para moeda local. E sabe qual é o erro mais comum? Viajar pagando com cartão de crédito. Na hora pode não parecer nada, mas o custo da conversão pode assustar quando a fatura chegar. A solução? Viajar com cartão da Wise.

Com ele você pode pagar em mais de 40 moedas com a taxa de câmbio comercial, a mesma que você vê no Google. Você pode converter e manter o dinheiro na conta já na moeda que vai usar no destino. Depois é só pagar sem se preocupar com cotação ou tarifas. Ah, e você também pode sacar dinheiro em mais de 3 milhões de caixas eletrônicos no mundo todo. Faça parte das mais de 15 milhões de pessoas que pagam globalmente do jeito certo. Quem sabe vai de Wise? Baixe o app da Wise hoje. Termos e condições se aplicam.

?Voz A

Pra primeira história de hoje, você vai precisar de um pouquinho de contexto visual. Faz de conta que a Paula Escarpim tá sentada no palco, crochetando. E aí, a Flora Thompson Devaux vem e senta do lado dela.

?Voz C

Quando eu casei com a Paulinha, ela não era assim tão prendada. Começou com bordado, depois migrou para o macramê, depois veio o crochê, agora tem a costura. E isso tudo criou uma necessidade nas nossas vidas, uma necessidade de entretenimento.

?Voz D

Porque tudo bem, posso ouvir podcast enquanto eu faço essas coisas, E muitas vezes eu ouço, mas aí é uma atividade solitária, né? Então eu recrutei a Flora.

?Voz C

Eu fui recrutada não só para alcançar um copo d'água, uma agulha específica que tava no outro quarto. A Paulinha tava com as mãos ocupadas, né? Então eu comecei a ler para ela em voz alta, tipo um audiolivro ao vivo. E foi nessas que a gente descobriu que nem Todo livro serve pra isso.

?Voz D

Alguns livros são meio difíceis de acompanhar ali ouvindo. Tipo, parece que eles não foram feitos pra ser lidos em voz alta mesmo. E tudo bem. Mas alguns livros funcionaram muito como leitura compartilhada. Tem alguma coisa no estilo. O assunto não importava muito. Na verdade, quanto mais variados os temas, melhor.

?Voz C

Eu não sei dizer exatamente como a gente foi parar numa biografia do Santos Dumont. Chama O Homem com Asas, do Paul Hoffman.

?Voz D

Capaz eu ter pedido para a Flora ler para garantir que ela tava totalmente doutrinada sobre quem inventou o avião.

?Voz C

Eu não gravei muita coisa do livro, fora o fato de que o Santos Dumont fez uma mesa de jantar absurdamente alta para os convidados dele ficarem com as pernas balangando. Mas teve um trecho da biografia que deixou a gente de queixo caído, que fez a gente sentir e ver coisas que a gente nunca tinha imaginado e entrar numa experiência de vida que a gente com certeza nunca vai ter.

?Voz D

Eu vou só dar um contexto antes. Era uma tarde de março de 1898. Nessa época, o Santo Dumont ainda não tinha inventado o 14 bis, mas ele já era um mestre de balonagem, que é exatamente isso, flutuar por aí num balão. E se balão já é uma coisa um pouco perigosa hoje, Naquela época era uma loucura absoluta e total, porque eles não tinham como direcionar o balão. Você subia e tava basicamente à mercê dos ventos. Você não tinha a menor ideia de onde você ia parar.

E ele tava fazendo isso na França, então a chance de você ir parar em outro país era enorme. E bom, nessa tarde de março de 1898, tava trovejando bastante. Se o Santos Dumont tivesse sido criado por vó que nem eu, Ele tinha desistido, mas ele não foi criado por vó e ele resolveu subir sozinho, sem copiloto.

?Voz C

Tá, agora eu vou ler esse trechinho que é na verdade das memórias dele, do Santos Dumont. O livro se chama Os Meus Balões. Pode ir crochetando aí, tá? Só um detalhe, o Santos Dumont chama a balonagem também de aerostação.

?Voz E

Vamos lá.

?Voz C

Em breve lastimei-me da minha temeridade. Achava-me só, perdido nas nuvens, entre relâmpagos e ruídos de trovões, e a noite se fechava em torno de mim. Eu ia, ia nas trevas. Sabia que avançava a grande velocidade, mas não sentia nenhum movimento. Ouvia e recebia a procela, e era só. Só um parênteses, procela aqui significa temporal. Ouvia e recebia a procela e era só. Tinha consciência de um grande perigo, mas este não era tangível.

Daí ele passou a noite toda assim, em pé, esperando a tempestade passar. Diz assim: uma espécie de alegria selvagem dominava os meus nervos. Lá no alto, na solidão negra, entre os relâmpagos dos raios, eu me sentia como parte integrante da própria tempestade. Quando aterrissei na manhã seguinte, após haver por muito tempo procurado uma altitude superior e deixado passar a tempestade sob mim, encontrei-me na Bélgica. A aurora era calma, de modo que pude pousar sem o menor inconveniente.

Falo desta aventura porque foi objeto dos comentários dos jornais e serve para mostrar que a aerostação à noite é perigosa mais na aparência do que na realidade. Na verdade, ela tem um encanto especialíssimo. A gente sente-se só no vácuo obscuro, em limbos de trevas onde se tem a impressão de flutuar sem peso, fora do mundo. A alma aliviada do fardo da matéria. Estás feliz assim quando, e de tempos em tempos, surgem luzes terrestres.

Pontinhos acendem-se ao longe e lentamente se apagam. Ali onde antes não se enxergava senão um débil clarão, vêem-se de súbito inumeráveis manchas brilhantes que desfilam em linhas, uma atrás das outras como cachos de claridade. É uma cidade que se atravessa. Ou então plana-se sobre campos desertos. Apenas uma ou outra vermelhidão se avista aqui ou além. Quando a lua se levanta, percebe-se de relance uma fímbria cinzenta que se contorce.

É um rio, refletindo a claridade do astro ou das estrelas. Um clarão rasga a sombra e percebe-se fracamente um apito rouco. É um trem que passa. As fagulhas da locomotiva iluminam a fumaça por cima dela. Em outros casos, ao soltar lastro por medida de prudência, o aeronauta eleva-se através do sombrio deserto das nuvens, no seio de um emocionante e maravilhoso embrasamento de um céu de estrelas. Aí, sozinho com as constelações, aguarda-se a aurora.

E quando esta vem, numa coroa de carmesim, de ouro e de púrpura, é quase a contragosto que se procura a Terra. Novo prazer é o imprevisto de uma aterrissagem em não se sabe que parte da Europa. Para muitas pessoas, a aerostação não possui atrativo maior. O aeronauta transforma-se em explorador. Sois um jovem curioso de percorrer o mundo, conhecer aventuras, perscrutar o desconhecido, contar com o inesperado, mas retido em casa pela família e pelos negócios?

Praticai o balão esférico. Ao meio-dia, almoçais tranquilamente com os vossos. Às 2 horas, partis em balão. 10 minutos mais tarde, não sereis mais um cidadão vulgar, e sim um explorador, um aventureiro da ciência, tal como os que vão gelar nos icebergs da Groenlândia ou fundir de calor nas margens de coral da Índia. Não sabeis senão vagamente onde vos achais, não podeis saber onde ides, muito embora isto dependa por muito da vossa vontade, da vossa habilidade e e da vossa experiência.

Tendes a escolha da altitude. Podeis aceitar uma corrente de ar ou ir atrás de outra. Podeis franquear as nuvens, atingir regiões em que se respira o oxigênio dos tubos, perder a visão da terra que desaparece como que girando embaixo de vós, e então todo sentido do rumo vos escapa. Podereis descer de novo acompanhar a superfície do solo, ajudado pelo guide rope e por punhados de areia, para dar, sem esforço, saltos de gigante por cima das casas e das árvores.

Chegado o momento de aterrar, goza-se de indizível alegria em ir ter com homens estranhos, como um deus saído de uma máquina. Em que país se está? Em que língua?

?Voz F

Alemão?

?Voz C

Russa, norueguesa, obter-se-á a resposta. Membros do aeroclube foram alvejados com tiros de fuzil ao transpor em certas fronteiras europeias. Outros, detidos no momento de aterrissarem e levados à presença de algum burgomestre ou governador militar, começaram por sofrer o susto de uma acusação de espionagem enquanto telégrafo avisava sua prisão à capital distante, Para acabarem o dia bebendo champanhe no entusiasmo de uma roda de oficiais.

Outros, mesmo em pequenos lugares perdidos, tiveram de se defender contra a ignorância e a superstição das populações rurais. Tal é a fortuna dos ventos.

?Voz A

Essa foi a Flora Thompson Devô com a Paula Escarpim. A gente volta daqui a pouquinho. Quando a gente começou a planejar o programa ao vivo, a gente não tinha nenhuma ideia do tipo de história que a gente queria contar. Alguma coisa com arte, será? Por ser no MASP. O desafio era fazer várias histórias curtas, porque é mais fácil prestar atenção em histórias longas quando você tá lavando uma louça, faxinando a casa, ou sei lá, fazendo crochê.

Mas aí a Bia Guimarães veio com uma história que acabou definindo o tema do episódio. Essa, aliás, é uma das que precisaram ser cortadas para caber no ao vivo. Então, mesmo para quem tava lá no MASP, vale a pena ouvir aqui a versão na íntegra. Tem amor, tem morte, tem aranhas e tem grandes nomes da literatura brasileira e do mundo. E muito ruído branco envolvido.

?Voz F

Hoje, dia 2 de outubro de 1979, 7 e pouco da noite. Ah, eu tava lendo aqui sobre o Vitor Tausky. Que vontade de falar com ele. Vitor Tausky. Será que você não queria falar comigo? Meu nome é Hilda Yust, hein? Ah, eu acho você tão extraordinário, meu Deus, vontade de ser sua amiga.

?Voz G

Eu nunca tinha ouvido a voz da Hilda Yust, a escritora, a poeta, antes de dar play nessas fitas. E a gente provavelmente não estaria aqui ouvindo essas fitas se não fosse pela Gabriela.

?Voz E

Meu nome é Gabriela Grebe, eu sou cineasta.

?Voz G

Em 2008, a Gabriela recebeu um email do escritor José Luiz Morafuentes. O Morafuentes foi um dos grandes amigos e amores da Hilda. Ela tinha morrido 4 anos antes, em 2004, e ele tava cuidando do legado dela.

?Voz E

O Morafuentes entrou em contato comigo pra eu fazer um filme sobre a Hilda, que ele queria um filme, um documentário poético sobre ela.

?Voz G

A Gabriela ficou honrada, mas também preocupada.

?Voz E

Eu fiquei com medo, né? Porque eu falei, nossa, quem sou eu pra falar sobre a Hilda, né? Tipo, socorro, né? Assim, eu sabia da Hilda, né, da existência dela e tal, mas eu não conhecia a obra da Hilda.

?Voz G

E ela não tava sozinha nessa. Não tinha tanta gente lendo a Hilda naquela época.

?Voz E

Daí a primeira coisa que eu fiz foi ir até a Casa do Sol e conhecer o Moura Fuentes e pedir para ele me contar quem era a Hilda na casa dela.

?Voz G

A Casa do Sol fica em Campinas, onde eu moro. Só que num bairro mais afastado da cidade. A Hilda se mudou pra lá nos anos 60. Ela tava cansada da vida agitada de São Paulo. Era muita gente, ficava difícil se concentrar pra escrever. Então ela decidiu construir uma casa nessa fazenda antiga que a família dela tinha.

?Voz E

E daí ele foi andando pela casa e me mostrando assim, aqui é o quarto, aqui é isso, e quem era a Hilda e as histórias, e como eles transaram pela primeira vez, e quem morava na casa, e nananã. E eu assim, meu Deus, como eu vou fazer esse filme, né? E daí, conforme eu fui andando, eu vi no quarto da Hilda, meio do lado da cama, meio escondidinho, uma caixa de papelão cheia de fita cassete. E daí eu olhei, eu falei, o que que são essas fitas?

Aí o Moura, não, não é nada, essas caixas não é nada, essas fitas não são nada. Eu falei, não, mas Tem a voz dela nessas fitas? Não, mas isso não é importante. Essas fitas estavam assim escondidas ou para ser eliminadas, digamos, né? Ninguém queria que a Hilda fosse abordada pelas fitas. Ah, porque vão chamá-la de louca, porque a Hilda já é mal vista, né? Porque ela tinha essa coisa de ser diferentona. Eu falei, não, mas pelo amor de Deus, tem a voz dela nessas fitas?

?Voz F

Tem.

?Voz G

No fim das contas, o Moura acabou contando pra Gabriela o que que tava gravado ali. E aí não tinha mais volta.

?Voz E

Aí eu falei, fudeu, o filme tá dentro dessa caixa.

?Voz G

Ele ficou meio receoso, mas não censurou a ideia. Ele falou, bom, você que é artista aqui, você sabe o que faz.

?Voz E

Daí eu peguei as fitas, eu restaurei as fitas, né, que elas estavam estragadas, abri uma por uma, limpei uma por uma. E eu ouvi todas as fitas, né? Digitalizei.

?Voz G

Não era pouca coisa. Eram umas 100 horas de gravação. De um experimento que a Hilda começou a fazer em 1974, ali na Casa do Sol. Alô, Campinas. 20 de março, Casa do Sol. Nas últimas décadas, aquelas terras que antes eram da família da Hilda acabaram virando um loteamento. A Casa do Sol hoje tá rodeada de outras casas e pra chegar nela você tem que passar por uma portaria de condomínio.

?Voz H

Você quer já ir gravando enquanto a gente— eu te mostro a casa? Sim, pode ser.

?Voz G

Outra coisa que mudou é que o Mora Fuentes já não tá lá. Ele morreu em 2009, quando a Gabriela tava começando a fazer o filme dela. Mas eu fui recebida pela Olga Bilenk, que mora na casa e que virou uma espécie de guardiã da memória desse lugar. E da memória da Hilda.

?Voz H

Aí eu vim aqui pra passar uma chuva, não vim pra passar 50 anos eu tô nessa casa.

?Voz G

A Olga é artista plástica. A história de como ela foi parar na Casa do Sol é uma novela à parte. Ela e o Moura Fuentes namoravam quando eles eram novinhos, ali por volta dos 18 anos de idade. E aí um dia ela encontrou uma calcinha no quarto dele.

?Voz H

Uma calcinha preta. Tipo, que não era minha.

?Voz G

A calcinha era de ninguém mais, ninguém menos que Hilda Just. O Moura tava tendo um romance com a Hilda. Um romance meio proibido, porque ela era 20 anos mais velha que ele e era casada. O Moura e a Olga terminaram o namoro naquele momento. Mas depois de uns anos, eles voltaram a se falar e se apaixonaram de novo. O romance dele com a Hilda já tinha terminado. Mas eles tinham ficado muito amigos e ele tava morando na casa dela, na Casa do Sol. E aí a Olga foi pra lá também.

?Voz H

Eu falo sempre que o que nos uniu, eu e a Hilda, foi o morafontes nosso amor, né? Não ao mesmo tempo, que todo mundo fala, ah, vocês transavam tudo.

?Voz B

Não.

?Voz G

A Olga me mostrou o escritório onde a Hilda trabalhava. As fotos dos tantos escritores, artistas e cientistas que frequentavam a casa e a figueira enorme no jardim que ficou conhecida por realizar pedidos.

?Voz H

Que ela é muito antiga.

?Voz G

Ela contou da vez que o Caio Fernando Abreu, antes de virar um escritor conhecido—

?Voz H

Ele nem era o Caio ainda, ele era o pré-Caio.

?Voz G

Ele chegou perto da figueira numa noite de lua cheia e fez um pedido.

?Voz H

Aquela voz fininha, aí ele pediu que ele não queria mais aquela voz, Ele queria ter uma voz mais grossa, mais madura.

?Voz G

E aí dizem que na manhã seguinte o pessoal tava tomando café ali na casa, o Caio chegou, abriu a boca e a voz dele tinha mudado completamente.

?Voz H

Mudou.

?Voz G

Mas deixa eu voltar para as gravações da Hilda, para o experimento dela.

?Voz H

Quando eu cheguei aqui, ela tava em plena experiência, em 75. A experiência das vozes, como que chama, o nome da experiência é transcomunicação.

?Voz G

Naquela época, a Hilda tava fascinada com o livro de um cara chamado Fredrik Jungerson. O Jungerson foi um cineasta ucraniano radicado na Suécia. Na primavera de 1959, ele tava curtindo uns dias no campo e decidiu pegar um gravador pra captar o canto dos pássaros, que ele adorava. Só que depois, quando ele foi ouvir as gravações, ele notou umas coisas estranhas: um chiado e aí umas vozes, às vezes em outras línguas. O Jungerson cogitou se as fitas estavam com defeito ou se o gravador não estaria captando uma interferência de rádio, mas depois de vários experimentos, ele concluiu que as vozes só podiam estar vindo de outra dimensão, do além, dos mortos.

Ele escreveu alguns livros contando tudo isso. Um dos mais conhecidos ganhou o título Telefone para o Além. A Hilda leu o Jungerson e ficou impressionada. Ela tinha que testar. Ela pediu ajuda pro Moura Fuentes pra montar a parafernália.

?Voz F

Você pôs no 000? Pus no 000, agora aqui. Microfone pra trás. Acho que tá tudo certo, né?

?Voz G

Rádio, gravador, microfone, fone de ouvido. E aí, de vez em quando, a Hilda sentava ali toda equipada e procurava um espaço entre as estações de rádio.

?Voz H

Como fosse um ruído branco. Fica lá e pede: povo cósmico.

?Voz F

Hilda. Pedindo contato com o povo cósmico. Hoje, dia 16 de novembro de 1974, eu estou sozinha no quarto, são 7:30. Peço contato com o povo cósmico, peço contato com Povo cósmico. Chamo vocês o povo cósmico porque eu li no livro de Wilkinson que essas duas palavras foram usadas.

?Voz G

Essas palavras se repetem bastante nas muitas gravações que a Hilda fez naquela época. Contato, povo cósmico, contato. Hilda pedindo contato. Mas eu gosto mesmo é quando ela diz: Hilda procura contato com o absurdo.

?Voz F

Hilda procura contato com o absurdo.

?Voz G

Às vezes ela também chama essa ponte de rede telefonia.

?Voz F

Rede telefonia, por favor. Rede telefonia, quando é que nós vamos começar?

?Voz G

Em alguns momentos parece mesmo que ela tá ligando pra um telefone do além, pedindo pro telefonista encaminhar a chamada pra um parente, um amigo, com um ídolo já falecido?

?Voz F

Queria falar com Franz Kafka, com Per Lagerqvist, com Camus, com Nikos Kazantzakis. Quem mais? Paulo Emílio, Lope, Osmalins, Clarice. Meu intermediário, meu intermediário, por favor, põe alguém na linha, alguém conhecido meu, algum amigo meu. Por favor, meu intermediário.

?Voz G

Eu acho muito fina a maneira como ela tenta tirar satisfação com o Arnaldo Pedroso Dorta, um artista e jornalista que morreu em 73 e que aparentemente tinha suas críticas sobre a Hilda.

?Voz F

Arnaldo Pedroso Dorta, você ainda acha que eu sou uma fêmea desejosa de homens?

?Voz G

Também é elegante o jeito como ela tenta solucionar o mistério, pelo menos na época isso ainda tinha um ar de mistério, da morte do Vladimir Herzog.

?Voz F

Vladimir Herzog, é Hilda Yusti. Acho que nós não nos conhecemos, mas eu gostaria de saber se você tem alguma coisa para dizer e como você está se sentindo. Vladimir, será que seria assim deselegante, seria terrível se eu te perguntasse se mataram você ou se você suicidou-se?

?Voz E

E como ela reaproveitava fitas, você ouvia muitas coisas.

?Voz G

Aqui é de novo a Gabriela Grebe, que esbarrou naquela caixa de fitas em 2008, 30 anos depois dos experimentos da Hilda.

?Voz E

Você ouvia todos os sons da casa, você ouvia o barulho dela mexendo o gelo no uísque, você ouvia os passos dela, ela— fiquei arrepiada— ela acendendo a luz, os sons dos cachorros latindo na casa, as outras pessoas.

?Voz G

Tem gravações em que a Hilda aparece acompanhada. Nessa aqui, ela tá com um físico que a gente não conseguiu confirmar certinho quem é. Ela tinha vários amigos físicos. E ele também faz um chamado.

?Voz F

Alô, Antônio, onde é que você anda? Acredito que você esteja melhor do que eu. E se você tiver oportunidade de poder dizer um alô daí pra gente, faça, por favor.

?Voz G

Entre um chamado e outro, aparecem longos trechos de silêncio. Ruído branco. Hilda esperando contato.

?Voz E

E ela gravava, por exemplo, 5 minutos desse ruído. Depois ela ficava ouvindo mil vezes esse ruído. Daí ela ficava anotando tudo que ela ouvia nesse ruído.

?Voz F

Dia 2 de outubro. Tem amor, amor. Dia 3 de outubro. Aquele que mentiroso.

?Voz G

A Hilda realmente encontrava e gravava coisas fora do normal. Uma palavra solta no meio do chiado, uma voz distante surgindo por trás de um locutor de rádio, um sussurro chamando o nome dela no meio de uma música. Ou uma frase misteriosa, uma possível resposta pros chamados dela. Tinha coisa que ela entendia e via sentido. Ela se emocionou com uma voz que ela interpretou como sendo a da mãe dela dizendo um sim. E tinha outras coisas que não dava pra decifrar muito bem, que tavam muito baixinhas ou confusas, mas ela anotava tudo e tentava ligar os pontos.

Tem uma gravação que ela tá com a Lígia Fagundes Telles, uma autora que eu amo e uma amiga que a Hilda amava. E elas comentam que a maioria das interferências vinha quando já tinha alguma voz rolando no rádio ou enquanto elas mesmas estavam falando. Era como se os mortos precisassem dos vivos para poder se expressar.

?Voz F

E nós, de um certo modo, talvez sejamos os próprios instrumentos. Acho que sim.

?Voz G

Os ruídos que apareciam aqui e ali, as vozes, não eram coisa da cabeça da Hilda, nem dos amigos que às vezes estavam com ela. Se você prestar bastante atenção nos trechos que a Hilda ouviu e reouviu mil vezes e deixou sinalizado nos diários e nas próprias fitas, você vai ouvir também. O que daria pra debater é a origem desses sons, ou como a gente explica eles. Eu confesso que a primeira vez que eu ouvi falar dessa história, eu fiquei meio sem saber o que sentir.

Eu não sabia muita coisa sobre a Hilda. Eu só tinha lido A Obscena Senhora D uns anos atrás e, pra ser sincera, eu passei boa parte do livro pensando que a escrita dela talvez não fosse pra mim. Aí eu soube desse experimento. E eu fui atraída pra ele muito mais pela excentricidade do que por qualquer outra coisa. Eu me pegava pensando: será que a Hilda acreditava mesmo que os mortos estavam do lado de lá, tentando contato? Por isso eu entendo o receio que os guardiões da memória da Hilda tinham dessas fitas ganharem o mundo.

O medo das pessoas pensarem que ela era louca. Tem uma reportagem do Fantástico de 1979 sobre o experimento das fitas em que perguntam isso para Hilda.

?Voz F

Você é uma escritora famosa, não tem medo assim que as pessoas pensem que você está ficando louca, essas coisas? Não, não tenho medo, Porque se eu estiver louca, eu estou muito bem acompanhada.

?Voz G

A Hilda, belíssima, com um sorriso meio ácido, responde que se todo mundo tivesse medo de ser chamado de louco, que ninguém faria inovação nenhuma, que ninguém mudaria uma vírgula de lugar num texto.

?Voz F

Isso não me incomoda, não. Acho que é uma boa companhia.

?Voz G

Ela foi chamada de louca, direta ou indiretamente, muitas vezes ao longo da vida. Fosse por causa do comportamento dela, do fluxo da escrita dela, do lado erótico dos textos, mas ser chamada de louca por causa desse experimento meio que não fazia sentido para ela. Ela só tava testando uma via de contato. Pesquisando sobre a vida da Hilda, indo na casa dela, eu comecei a entender que acima de tudo ela era uma pessoa extremamente curiosa.

Eu soube que ela lia um grande filósofo com a mesma curiosidade que ela assistia o Jornal Nacional e depois a novela. Ela se interessava na mesma medida pela vida de uma amiga próxima e de um cavalo distante, um cachorro, uma vaca. Ela adorava as teorias da física, a relatividade, a quântica, mas também adorava o tarô. Era como se a Hilda acreditasse em tudo e ao mesmo tempo questionasse tudo. O que que é Deus? O que que é a morte?

A alma? O que que vem depois? O que que vem antes? A obra dela, tanto a poesia como a prosa, é cheia desses mistérios.

?Voz H

Ela era muito aberta, a Hilda, para as coisas mais incríveis, mais incríveis. Ela dizia, Olga, vamos ver a noite. Aí a gente saía pela sala passear no jardim de braço dado. A gente foi até o fundão, no portão, voltamos. Quando a gente tava voltando, ela viu num canteiro como se fossem umas éguas altas. Aí ela falou, Olga, você tá vendo essas éguas? E eu não tava vendo nada. E o Moura Fuentes tava na sala, a televisão ligada naquele—

?Voz G

As éguas que a Hilda tava vendo lá fora eram na verdade o reflexo do que tava passando na televisão.

?Voz H

Aí o Zé explicou, falou, Hilda, é tal esse reflexo. Aí no outro dia ela escreveu um poema, Eu Vi as Éguas na Noite.

?Voz G

Vi as éguas da noite entre os escombros da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas. Laços de pedra e palha entre as alfombras e vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato. Vi-as tumultuadas, intensas. E numa delas, insônia, me vi. No fim das contas, eu já não acho surpreendente que a Hilda tenha se aventurado no experimento das vozes. Nessa tentativa de buscar os mortos do mesmo jeito que ela buscava os vivos. Até porque isso tinha muito a ver com o que ela tava vivendo enquanto escritora.

?Voz E

Quando ela fez essas experiências, ela não era lida. Ela escrevia, mas ela não era lida. Então ela não tinha completude, digamos, o outro lado da ponte, né, que ela fala.

?Voz F

Parece que ninguém lê nada meu, como sempre. Por quê? Eu penso em contato com vocês.

?Voz G

Por uma série de razões que vão além da literatura em si, as escolhas editoriais da Hilda, o mercado da época, enfim, por uma série de razões, A obra dela não foi lida e compreendida do jeito como ela gostaria, pelo menos não em vida.

?Voz E

E ao longo, assim, do filme, eu entendi totalmente a busca dela, né? Ela buscava contato com os leitores, na verdade. Eles não estavam ali, eles não eram, não tinham carne, né? Eles não existiam ainda, né?

?Voz F

Vocês me têm ensinado que um dia vai ser possível já Me deem um sinal.

?Voz G

A Gabriela também acredita que a Hilda tava buscando ali na frente do rádio alguma pista sobre a imortalidade. Não exatamente a imortalidade dela, mas da palavra dela. Algum sinal de que esse diálogo que ela tava tentando construir aqui na Terra não precisava acabar quando ela passasse para o outro lado.

?Voz E

Ela queria continuar a conversa e é uma busca muito verdadeira a dela. Eu acho tudo isso muito sério. Eu não acho loucura. Eu acho isso maravilhoso.

?Voz F

Alguém quer falar comigo? Nobody wants to talk with me. Nobody loves me there. Okay, let's leave.

?Voz G

Mas ouvindo as fitas, dá a impressão que o experimento da Hilda acabou não dando tão certo, não do jeito que ela queria. Ela também não encontrou do outro lado da ponte o diálogo que ela tanto buscava por aqui.

?Voz F

É 4 anos aqui na Terra que eu tô fazendo isso, não vai dar tempo, porque uma hora eu tô aí, né? Por que que vocês inventaram essa coisa da ponte se vocês não podem nem falar alto nem dizer nada. Não entendo, meu intermediário. Eu vou terminar minhas gravações definitivamente, não há mais possibilidades. Acho uma coisa, uma tarefa inútil, porque parece que vocês não querem mais falar comigo. Eu fico falando como uma louca aqui, ninguém ouve nada.

Quando vocês falam, ninguém entende. Olha, eu vou dizer para você, sabe, eu tô fazendo papel de palhaça, viu? Por que que vocês ficaram pondo fogo no rabo de todo mundo aqui na terra só para falar com uma pessoa que é o Júlio? Que adianta? Eu morro e daí chegando aí eu vou saber, né? Será que nenhum amigo meu pode dizer claramente o nome e dizer que está vivo? Eu já tô ficando completamente A gente brocha com a experiência. Boa noite para vocês, a experiência foi praticamente nula. Eu ouço vocês de longe, mas eu não entendo nada. Obrigada.

?Voz G

A Hilda parou com as gravações em 1979. E morreu em 2004, com 73 anos. Ela costumava dizer que depois da morte, as almas, ou pelo menos as almas dos escritores, dos poetas, elas iam para um lugar chamado Marduk.

?Voz H

Aí eu acreditava piamente, mas ninguém voltou para contar, como dizem, né?

?Voz G

Nos últimos anos, a casa passou por uma reforma e voltou a receber escritores, artistas, Tem até um festival e um programa de residência. E a Olga tá sempre lá, cuidando de tudo. Eu perguntei pra ela se a Hilda não manda um sinal de vez em quando.

?Voz H

A gente até combinou. Ela combinou comigo e com o Zé.

?Voz G

Zé, no caso, é o Moura Fuentes.

?Voz H

Ela falou que ela mandaria um sinal com a palavra vermelho. Seria o vermelho da vida. Mas não aconteceu nada aqui. Pudesse dizer, olha, a Hilda mandou um recado ali e tal. Nada explícito ainda, né? Ainda pode acontecer.

?Voz G

Já a Gabriela acha que a Hilda tá sempre mandando sinais. E que talvez a Olga só tenha normalizado eles. Afinal, ela convive com as coisas e as memórias da Hilda. Talvez pareça que a Hilda não tentou contato com ela só porque as duas nunca perderam o contato. Quando a Gabriela começou a fazer o filme dela sobre essa história, ela achou importante esclarecer uma coisa logo de cara. Esclarecer pra Hilda.

?Voz E

Eu falei, olha, eu vou fazer seu filme e tal, mas eu tenho medo de fantasma. Eu não quero que você apareça. Se você aparecer, eu paro tudo. Mas você pode falar.

?Voz G

A Hilda podia falar e também mandar outros tipos de sinais não fantasmagóricos. E segundo a Gabriela, isso aconteceu várias vezes durante a produção, começando já naquele dia em que ela foi visitar a Casa do Sol pela primeira vez. Ela disse que já tava indo embora e foi pegar a bolsa dela na cozinha. O sol tava terminando de se pôr. Aí quando ela entrou na cozinha, um feixe de luz invadiu a brecha da porta, bateu nas acerolas que estavam na mesa e o cômodo ficou todo vermelho.

Ela chamou o Moura pra ver e ele riu. Podia ser o sinal que a Hilda tinha prometido. A Gabriela também falou que em alguns momentos ela sentiu a Hilda dando pistas pra ela de como o filme podia ser. Tipo quando ela tava numa estradinha de terra, voltando da Casa do Sol pra São Paulo com uma amiga, e o carro passou no meio de uma teia de aranha imensa. Centenas de aranhas invadiram o carro.

?Voz E

Teve uma hora que eu entrei no Rancho da Pamonha. Me joguei no chão assim, socorro, socorro! E as pessoas vieram ajudar pra matar as aranhas. Um absurdo.

?Voz G

A Gabriela tirou daí a inspiração pra um elemento importante do filme: a imagem da Casa do Sol rodeada de uma teia de fitas. Fita tipo de fita cassete mesmo, igual a Hilda usava pra gravar. Também teve o dia que a Gabriela tava hospedada num hotel perto da Casa do Sol, tipo um hotel Já era de madrugada e ela tava revisando uma parte do roteiro do filme em que aparece um cavalo.

?Voz E

E nessa hora, a porta do meu quarto abriu, um cavalo enfiou a cabeça dentro do meu quarto e foi embora.

?Voz G

Ela se sentiu como a Hilda vendo as éguas da noite, só que dessa vez o cavalo não era um reflexo da televisão. A Gabriela me contou de outros sinais que ela diz ter recebido. E falou que ela chegou a ter uns contatos mais diretos com a Hilda, mesmo. Eu sei que tem gente que acredita nessas coisas e gente que não acredita. Eu, geralmente, tô no time dos céticos. Mas é curioso que desde que eu comecei a pesquisar essa história, meu computador do trabalho foi tomado por interferências na imagem e no som.

No dia que eu gravei a entrevista com a Gabriela, a minha imagem no vídeo parecia uma pintura esquisita, uma coisa meio cubista. E agora toda vez que eu tento escutar qualquer coisa no computador sem fone, o som é invadido por um ruído super alto. Isso é de um dia que eu botei uma musiquinha pra relaxar. Eu fiquei ensaiando falar pras minhas chefes: Juro que eu não quebrei o computador da Novelo, é que a Hilda Hirsch tá tentando contato comigo.

E a verdade é que me dá uma vontade imensa e quase automática de responder o chamado dela. Eu senti isso ouvindo as gravações dela. Eu fiquei querendo mandar uma mensagem de volta no tempo. E agora eu sinto isso lendo a Hilda também. Eu peguei pra ler de novo A Obscena Senhora D. E a leitura mudou completamente pra mim depois dessa história. Antes, eu não percebia o tanto que a protagonista do livro, a Ilê, que de certa forma é a Hilda, eu não percebia o tanto que ela chama.

Ela chama o companheiro que faleceu, ela faz pergunta para Deus. Os personagens às vezes se perguntam: Você me ouviu, hein? Tem horas que parece que ela tá chamando você, o leitor: Ei, você tá me ouvindo, hein? O filme da Gabriela ganhou o nome Hilda Yust Pede Contato. E foi lançado em 2018, no mesmo ano em que a Hilda foi homenageada da Flip, a festa literária de Paraty. No filme, a Gabriela inverte a direção dos chamados. Os amigos vivos da Hilda estão na Casa do Sol, celebrando, jantando, e ela, já morta, tá tentando contato com eles pelo lado de lá da ponte.

Talvez esse filme seja uma espécie de resposta para os chamados da Hilda. Talvez só ler a Hilda já seja. Ou ouvir essas fitas hoje, 50 anos depois. Talvez, sei lá, a gente também esteja respondendo ela aqui.

?Voz F

Saudade de todos. Um beijo para todos vocês. Abraços. Hilda.

?Voz A

Essa história foi produzida pela Bia Guimarães. Obrigada por ouvir o Rádio Novela Apresenta. Você sabe que por aqui tem episódio novo toda quinta-feira, né? E que quem assina o Clube da Novelo pode ouvir o episódio da semana um dia antes e sem anúncios. Esse episódio aqui excepcionalmente não foi ao ar adiantado para a gente não dar spoiler para quem ia poder encontrar com a gente em carne e osso no MASP naquele mesmo dia. Mas foi por uma boa causa, e de novo, quem é membro do clube vai sair ganhando porque quarta-feira que vem não só sai o episódio novo adiantado, como sai o vídeo da íntegra da apresentação no MASP para quem quiser ver ou rever. Vai aí um trechinho.

?Voz G

Você achou normal fazer isso? Eu não achei normal não, porque nunca tem como você voltar ao passado, não tem como você voltar o que já aconteceu.

?Voz E

E isso não é normal.

?Voz A

A gente tá sempre suando do lado de cá para fazer o Clube da Novelo ficar cada vez mais legal. Além de desconto em eventos como esse do MASP, tem episódio bônus, tem newsletter especial, tem brindes e tem descontos com as nossas marcas parceiras. E além de tudo, claro, você ajuda a gente a produzir mais histórias que você nem sabia que precisava ouvir. Pra saber mais sobre como se juntar à gente, é só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouco.

?Voz G

Oi, aqui quem fala é Natacha Barzaghi Genen, diretora cultural da Japan House São Paulo. E eu sou o Guilherme Wisnik, arquiteto e professor da FAESP. No episódio do podcast da Japan House São Paulo dessa semana, eu e o Guilherme vamos tentar entender como se organizam as cidades japonesas.

?Voz B

Vamos falar, por exemplo, sobre como Tóquio, uma das maiores metrópoles do mundo, consegue se organizar em torno da rede metroviária.

?Voz G

E sobre por que é tão difícil encontrar uma lata de lixo nas ruas da cidade. A 5ª temporada do nosso podcast já tá no ar. Quando terminar de ouvir esse aqui, procura a gente no seu tocador de podcasts favorito.

?Voz A

Te espero lá! No post desse episódio no nosso site tem fotos lindas que a Bia tirou lá na Casa do Sol em Campinas e também imagens dos cadernos da Hilda na época em que ela tava fazendo os experimentos dela, que a Gabriela Grebe garimpou e mandou pra gente. Também dá pra ver o trailer do Hilda e o Estipé de Contato e a entrevista da Hilda no Fantástico. No canal da Rádio Novelo no YouTube, a gente sempre posta os episódios completos para quem prefere escutar por lá, e tem também playlists com histórias avulsas de até meia hora.

Se você ainda não viu, vale a pena dar uma conferida nas playlists e seguir ali. Para quem tá nas redes sociais, fica o convite para seguir a novela no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Bluesky e no TikTok. Pra quem prefere se comunicar por email, dá pra mandar críticas e elogios e sugestões de pauta pro apresenta@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou um cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo pra criar o seu próprio podcast ou pra anunciar nos intervalos dos nossos episódios.

É só escrever pra gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devô. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro. Nossos repórteres e roteiristas são a Bia Guimarães, a Maíra Valejo, a Bárbara Rubira, a Carolina Moraes, o Vitor Hugo Brandalize, o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta e o Paulo Vitor A Ashley Calvo é nossa produtora.

A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitzky. Esse episódio teve música original composta especialmente pela Stella Nijin e desenho de som da Bia Guimarães e da Mariana Leão, que também assinam a nossa mixagem. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel, A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.

Anunciantes2

Clube da Novelo

Assinatura do clube de membros
external

Wise

Conta e cartão internacional
external