Histórias subterrâneas
A cabeça da rainha e um contador Geiger velho.
No primeiro ato: buscando lições de vida num povoado sem líder. Por Bia Guimarães.
No segundo ato: a ambição brasileira, os poços americanos e um prédio rosa com janelas abertas. Por Paulo Victor Ribeiro.
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Você sabia que a história do manguebeat também passa pela Zona Oeste de São Paulo?
Gravado em 1994 no Be Bop Studios, o primeiro álbum da Mundo Livre S/A, Samba Esquema Noise, reuniu a produção de Carlos Eduardo Miranda e Charles Gavin e se tornou um marco de um movimento que conectou a identidade pernambucana a sonoridades e influências de diferentes partes do mundo. No dia 29.08, a Casa Natura Musical revisita esse capítulo da trajetória da banda e a conexão entre Recife, São Paulo e um dos álbuns mais importantes da música brasileira com um show enérgico e pulsante. Assinantes da Rádio Novelo têm 20% na compra do ingresso. Assine para saber mais e confira a programação completa de shows da Casa em www.casanaturamusical.com.br
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Palavras-chave: ciência, biologia, insetos, formigueiro, ditadura militar, bomba atômica, radiação
Arthur Nishibi Furegati
Bia Guimarães
Elvira Lobato
Érica Coutinho
Fernanda Gianazzi
Karina Gomes
Maria das Neves Pires dos Santos
Maria Vera Cruz de Oliveira
Tânia Malheiros
- Radiação e saúde do trabalhadorPrédio rosa em Santo Amaro·Nuclemon·Contador Geiger·Silicose e leucopenia·Exposição à poeira radioativa
- História nuclear brasileiraProjeto Manhattan·Urânio e areia monazítica·Acordo Brasil-EUA·Projeto Nuclear Paralelo·Submarino nuclear
- Indenizações para trabalhadores nuclearesAssociação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear (ANTPEN)·Convenção 115 da OIT·Processos judiciais·Exposição à radiação
- Vida em formigueirosOrganização social das saúvas·Ciclo de vida da rainha·Cultivo de fungos pelas formigas·Morte da rainha e desorientação das operárias
- Teste nuclear no BrasilPoço de teste nuclear·Serra do Caximbo·Deserto de Nevada·Projeto de armamento nuclear
- Uso de radioisótopos na medicinaReator multipropósito·Diagnóstico e tratamento de câncer·Produção de radioisótopos·Argentina
Rádio Novelo. Tá começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Eu não sei se você, quando era criança, brincou de cavar um buraco até chegar no Japão. Se você entrou nessa aventura, é bem possível que você não tenha ido muito longe, só até o braço cansar ou algum adulto perceber a bagunça que você tava fazendo. Mas é um passatempo irresistível e uma ideia mais irresistível ainda, a de conseguir ir tão fundo que você vai atravessar o planeta e sair do outro lado.
A gente sabe que mesmo que a gente tivesse força infinita no braço ou uma retroescavadeira poderosíssima, sei lá, não tem como concretizar esse plano. O máximo que a gente ia conseguir era chegar no magma terrestre e derreter ali dentro. Mas essa é uma ideia bem comum e não é monopólio brasileiro. Na Inglaterra, o que eles costumam dizer é cavar até chegar na Austrália. Nos Estados Unidos, e aliás na Austrália também, a expressão mais comum é cavar até chegar na China.
Infelizmente, para as crianças exploradoras e escavadoras do mundo, quase todos esses pares estão errados. Tem alguns sites por aí que mostram o seu antípodo perfeito, Ou seja, o ponto exato do outro lado da Terra que você teoricamente alcançaria se esse plano fosse possível. E os resultados não são muito animadores. As crianças britânicas iam parar no Oceano Pacífico Sul. Quase todas as australianas iam pro Atlântico, com algumas poucas saindo na Espanha e em Portugal.
As estadunidenses iam cair no Oceano Índico. Acho que já deu pra sacar a tendência geográfica aqui, né? Na maior parte do Brasil, o ponto oposto também cai no oceano, só que perto das Filipinas. Tem um pedaço na meiuca do país que sairia já na parte terrestre das Filipinas. Outro pedaço mais para o Nordeste que iria para a Indonésia. Mas para algumas crianças no sul do Brasil, a história do buraco para o Japão realmente é verdade.
Um pedacinho do Paraná e outro pedacinho do Rio Grande do Sul são antípodos de algumas ilhas do do sul do Japão. Não que a gente esteja encorajando esse tipo de atividade, que fique claro. Lembra do magma. As histórias do episódio de hoje são movidas pelo mesmo ímpeto de crianças mundo afora: a vontade de ir mais fundo e de desvendar os mistérios da terra debaixo dos nossos pés. Quem conta a primeira história, depois de um rápido intervalo, É a Bia Guimarães.
A rainha foi encontrada morta em casa numa tarde de abril. A imagem era um pouco chocante. Ela tinha sido decapitada pelo próprio povo. Mas essa não foi a causa da morte dela, porque esse não é o tipo de povo que costuma decapitar realezas. A gente não tá na Revolução Francesa, nem na Inglaterra do século XVI. A rainha provavelmente morreu de velhice e perdeu a cabeça depois. O povo devia estar totalmente desorientado com a morte dela.
E fez isso sem saber muito bem o que tava fazendo. Perder um líder, uma líder respeitada, não é fácil. E quem que descobriu que ela tinha morrido?
Fui eu que vi e chamei você? Mas acho que foi isso. Eu vi, aí eu chamei o Arthur pra confirmar.
Ela foi descartada? Foi guardada? O que aconteceu com ela?
Ela foi montada sem a cabeça.
Sem a cabeça, a gente rachou a cabeça.
E aí nós não sabemos o que fazer ainda. Um indivíduo sem cabeça causa uma estranheza pra quem vê, né?
Você viu que ela tinha morrido, tinha morto, teve algum pequeno ritual?
Tiramos foto. Nós também fizemos um post na nossa página no Instagram em homenagem a essa rainha.
E em particular eu posso dizer que eu fiquei muito triste, né, porque eu fui buscar esse formigueiro em Botucatu.
Como uma jornalista que por muito tempo só cobriu ciência, especialmente assuntos da biologia, eu tendo a buscar nos outros animais respostas para os problemas da nossa espécie. Quando eu vi o post no Instagram do Museu de Diversidade Biológica da Unicamp contando que a rainha do formigueiro deles tinha morrido, Depois de 16 anos de reinado, eu corri pra lá com uma lista de perguntas. A principal delas era um simples: e agora? O que acontece com o formigueiro quando a líder suprema morre?
Puta, que é sempre a pergunta, né? Morreu uma, e aí?
As eleições estão batendo na porta, a gente fica toda hora pensando em quem vai governar a gente pelos próximos 4 anos, em como sobreviver às angústias de uma troca de poder. Quem sabe as formigas do museu, que tinham acabado de perder a rainha, quem sabe elas podiam ensinar alguma lição pra gente? Quem me recebeu lá foram a Karina e o Arthur.
Meu nome é Karina Gomes, eu sou bióloga formada aqui pela Unicamp e trabalho no Museu de Diversidade Biológica desde 2012. Então a minha atuação principal na exposição é a monitoria aqui nessa sala do salveiro.
Salveiro porque o formigueiro do museu é de salvas, também chamadas de cortadeiras.
Bom, meu nome é Arthur Nishibi Furegati, eu sou biólogo no museu, eu trabalho nas coleções de invertebrados com insetos, especificamente com insetos. Aqui no museu eu estou mais de 20 anos, né, bem mais de 20 anos, né.
O Arthur já tava ali quando esse formigueiro chegou em 2010. Na verdade, ele teve que pegar a estrada até Botucatu, também no interior de São Paulo, para buscar o formigueiro na UNESP com os pesquisadores que estavam fazendo essa doação. A rainha e o reino dela eram bem jovens nessa época.
Então, ou seja, eu acompanhei a vida inteira da rainha e tive o privilégio de ter conseguido visualizar essa rainha em vida. Em todos esses anos, né, 16, 17 anos, eu só vi duas vezes a rainha. Eu nunca mais vi.
No mundo das formigas, assim como no mundo dos humanos, não é fácil acessar a realeza. Ela tá sempre protegida pelas operárias, pelas soldadas e pela própria estrutura labiríntica do formigueiro.
E essa estrutura, ela é composta por vários compartimentos ligados por túneis. E pensando nas saúvas, elas podem ter formigueiros gigantes que chegam aí no tamanho de um campo de futebol.
Na natureza, a maior parte de um salgueiro fica embaixo da terra. De fora, a gente só vê os pontos de entrada e de saída, que às vezes formam aqueles montinhos de terra. Mas tem umas imagens de escavações feitas por pesquisadores que mostram o quão absurda é essa arquitetura. A ponto de fazer a gente se sentir pequeno. Em alguns cantos elas estão bem aglomeradas, mas tem várias caminhando livremente. No salveiro do museu, claro, a dimensão é outra.
Ali elas vivem numa estrutura de vidro, tipo um aquário retangular, grande, não muito fundo.
Nós chamamos esse espaço onde as formigas estão de arena ou terrário, né? Poderíamos usar esse nome.
No meio da arena tem 3 caixas, também de vidro, ligadas por túneis, pra tentar simular a maneira como as saúvas se organizam na vida livre. Uma das caixas é pra estocar matéria orgânica, no caso, as folhas que elas cortam pra levar pro formigueiro. Outra é pra descartar o lixo. E aí uma caixa principal pra guardar o que mais importa: o fungo que as saúvas cultivam pra se alimentar. Quando a gente vê elas cortando e carregando aquele monte de folha, não é pra elas mesmas comerem.
É pra dar de comer pra esse fungo, que parece uma esponjona crescendo dentro do formigueiro. Ele sim é a comida delas. A sociedade das saúvas é extremamente organizada. Cada grupinho ali tem uma função específica a cumprir e um corpo feito pra essa função. Mas com todo respeito às operárias, eu tava ali pra saber dela, da rainha. Da vida que ela teve e do que vem depois da morte dela.
E dentro de cada formigueiro de saúva tem uma, apenas uma, reprodutora, que é a que nós chamamos de rainha. Ela é a mãe de todas as operárias daquele formigueiro. Ela também tem a função importantíssima de iniciar um formigueiro.
Eu confesso que eu sempre imaginei as formigas rainhas como eu imagino as humanas rainhas, umas folgadas. Mas a Karine e o Arthur narraram pra mim a jornada que uma saúva rainha passa pra conseguir fundar o reino dela. E é um negócio inacreditável. Porque ela não nasceu ali. Ela nasceu em outro formigueiro, que é onde a história dela começa. Todo ano, num período específico, as rainhas dos salveiros espalhados por aí botam ovos especiais. Ovos que vão gerar príncipes e princesas.
Vários em cada formigueiro. Eles nascem aos montes.
Os príncipes e as princesas têm asas. E quando eles chegam na fase adulta, eles abandonam o formigueiro de origem e vão fazer a revoada, o voo nupcial.
Social. Vários machos vão acasalar com várias fêmeas e após a revoada os machos morrem.
Então a maior parte das princesas também morre, não porque elas estavam programadas para isso que nem os machos, mas porque a vida lá fora é dura mesmo. Tem muito bicho e gente também de olho nas saúvas.
É a tanajura, saque. Muitas, né, regiões isso é comum, as pessoas coletarem para comer.
Só uma minúscula parcela de princesas consegue passar pra próxima fase da vida. Fundar um reino e virar rainha.
E cada uma vai tentar cavar um buraco e iniciar o seu próprio formigueiro.
Ela se fecha nesse buraquinho e começa a botar os primeiros ovos dela. Os primeiros de muitos que ela vai botar ao longo da vida sem nunca precisar cruzar com um macho de novo. Tudo com base nos espermatozoides que ela coletou naquela única revoada. No começo, não tem operária nenhuma pra ajudar. É a rainha que faz tudo. Mãe solo. E ela também começa a cultivar aquele fungo que vai ser a base da vida do formigueiro.
Então, como que ela obtém esse fungo? Antes dela sair do formigueiro-mãe, ela vai lá e pega um pedacinho do fungo e leva com ela pra esse voo nupcial.
Sim. O nível de planejamento é tanto que esse tempo todo ela já tava com um pedaço de fungo guardado numa cavidade dentro da boca. Com o tempo, as operárias vão nascendo e vai se formando um sistema de castas.
Aí começa o luxo do formigueiro, que é ter uma gama de operárias que são especializadas em cortar, transportar matéria orgânica para dentro do formigueiro, as outras que são só responsáveis em pegar, cultivar o fungo, as outras que são responsáveis por cuidar da prole, cuidar da rainha, cuidar das crias. Da lixeira.
Tudo isso é rigidamente orquestrado pela rainha. E ela faz isso com pistas químicas.
Ou seja, cheiro, né, que a gente chama de feromônio.
São os feromônios exalados pela rainha que dizem, entre aspas, para as operárias o que elas têm que fazer. É o cheiro da rainha que bota ordem no formigueiro. As saúvas rainhas podem viver 10 anos, até 20 anos, especialmente se elas estiverem em cativeiro, mais protegidas dos perigos do mundo. Mas uma hora a morte chega. Quando eu saí de casa para visitar o museu, eu tava crente que eu ia conhecer o formigueiro da rainha que morreu e aprender alguma coisa com as sobreviventes.
Fazia 2 meses que a líder suprema tinha partido. Eu fiquei conversando com a Karina e o Arthur bem do lado da arena, espiando as formigas andando de um lado para o outro, vendo o ramo de folhas que tava lá dentro diminuir numa uma quantidade absurda, porque as formigas não paravam de cortar pra levar pra onde tava o fungo. E foi só mais pro meio da entrevista que eu entendi que aquele formigueiro ali já era outro, de outra rainha, vinda de uma nova doação. E do formigueiro anterior, todas elas já não estão entre nós?
Já morreram. Tanto é que a estrutura estava...
Alguns meses antes da rainha morrer, a Karina já vinha notando que o formigueiro tava diminuindo. A matriarca, por estar velhinha, estava botando menos ovos, a população estava caindo e a esponja de fungo também estava cada vez mais magrinha. Até por isso que a Karina conseguiu enxergar a rainha morta, já sem cabeça, dentro da caixa de vidro naquela tarde de abril.
Então, no momento que a rainha morre, as operárias começam a se desorientar. Acho que essa seria a melhor palavra para elas.
Sem o cheiro da rainha no ar, As coisas no formigueiro desandam rapidamente. É como se ninguém mais soubesse o que é pra fazer, pra onde tem que ir, como é que tem que viver.
É como se elas perdessem a motivação pra viver.
De repente, já não é tão óbvio que não é de bom tom se arrancar a cabeça da rainha falecida. No mundo das formigas saúvas, não existe sucessão. Não existe eleição. Nem trabalho de base para formar uma nova líder. Ou você nasceu para ser rainha, nasceu princesa, ou você nunca vai ser. Também não existe trazer uma rainha de fora para governar aquela população.
Então cada formigueiro tem seu cheiro característico. Se entrar qualquer outro indivíduo de um outro formigueiro, vai ser expulso ou eliminado.
As operárias ainda têm um tempo de vida, né? Então elas vão viver ali mais algumas semanas, alguns meses, e depois desse tempo o formigueiro acaba.
Não tem o que fazer. É loucura, ruína e morte coletiva. Sorte que aqui do lado humano a gente não perde a motivação de viver a cada troca de poder. Às vezes até perde, né? Mas não por motivos químicos. É, nem sempre o mundo animal oferece respostas e consolos para as angústias da nossa espécie. E essa mania de querer enxergar nos bichos exatamente a nossa lógica de vida, a nossa forma de necessidade às vezes só faz a gente parecer meio bobo.
Vai ver a lição que essa uva estão mandando pra gente lá do subsolo seja justamente essa: lida com seus B.O. aí em cima que a gente tá aqui fazendo o nosso, ocupadíssimas.
Essa foi a Bia Guimarães. A gente volta daqui a pouquinho. No segundo ato do episódio, tem gente fazendo escavações literais e gente fazendo escavação jornalística, uma na cola da outra. Quem conta é o Paulo Vitor Ribeiro.
Talvez isso seja uma daquelas coisas que mudaram desde o advento do celular. O fato de que, quando a gente faz todo dia o mesmo trajeto, a gente acaba decorando a paisagem. Os desníveis na calçada, ou o tempo dos semáforos. E, claro, cada prédio no caminho. Eu sou desses, até pra não dar bobeira com o celular. E outro dia eu conheci uma pessoa que também é dessas. Que sempre foi dessas, na verdade. Ela me contou uma história que se passa nos anos 80. 5 dias por semana ela passava por ali.
Eu morava em Santo Amaro e o meu caminho passava todo dia por um prédio cor-de-rosa em plena Avenida Santo Amaro.
Essa é a Fernanda Gianazzi.
Sou engenheira civil e de segurança do trabalho e fui auditora fiscal do Ministério do Trabalho na área de segurança e saúde do trabalhador por 30 anos, concursada em 1983, em plena ditadura militar.
Foi em 83 que o prédio rosa entrou no caminho da Fernanda. Era um prédio grande, antigo, parte de um complexo de 20 mil metros quadrados. Mas ele não tinha nenhuma placa, nenhum letreiro, nenhum indício do que pudesse ser.
E eu curiosa, sempre querendo saber o que que era aquilo.
Acho que pra ser auditora fiscal deve ser pré-requisito ser curiosa, né? A Fernanda é uma curiosa profissional. Mas pra uma fiscalização estar na alçada dela, precisava envolver condições de trabalho, questões relacionadas à saúde dos trabalhadores. Ela não podia ir investigar o tal prédio rosa sem placa só porque ela tava intrigada. Foram 7 anos assim, até que um dia ela abriu o jornal e viu o prédio rosa lá.
Uma matéria da jornalista Tânia Malheiros no Jornal da Tarde dizendo radiação no Brooklyn. Quando eu vi essa matéria, aquilo foi, puxa, mas é o prédio que eu sempre quis fiscalizar, que A essa altura, a Fernanda já tinha algum reconhecimento pelo trabalho dela fiscalizando o uso de amianto, um cancerígeno muito usado na construção civil.
Agora, essa reportagem no Jornal da Tarde era o estopim pra ela começar a fuçar num novo setor.
Aí eu consegui uma ordem de serviço e fui até lá. Eu comecei a fiscalizar e aí fui envolvendo os órgãos, o sindicato de trabalhadores, o Sereste, tá?
Sereste é o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador. Um braço do SUS.
E também o Ministério Público do Estado.
Tudo normal, procedimento padrão, mas com uma novidade. Bom, novidade pra Fernanda. A ferramenta nem tava tão nova assim.
E eu com um contador Geiger velho, que tinha um bip. A única coisa que funcionava bem é que ele apitava tudo que tinha de radiação. Então ele fazia um barulho e era bastante expressiva essa situação.
Contador Geiger talvez você já tenha visto em algum filme sobre espionagem, Guerra Fria, desastres nucleares. Mas eu me surpreendi que a delegacia regional do Ministério do Trabalho tivesse um desse à disposição, porque, né, pra que que um medidor de radiação ia servir na cidade de São Paulo? Mas nesse caso fazia todo sentido. Perguntei pra Fernanda quanto deu a medição com o contador. Ela não se lembrava, mas lembrava do som.
E eu com aquele contador, a hora que eu me aproximava, é pipipi. Tanto que cada vez que eu chegava lá, veio a mulher com um contador que só apita. Virou até meio que assim cômica a coisa, mas era trágica. Até teve uma matéria que foi feita comigo e aí o repórter diz assim, estamos aqui acompanhando uma fiscalização, Chernobyl no Brooklyn.
Você imagina o impacto disso.
Eu me interessei muito pela questão nuclear porque eu vi quantos segredos havia, né? Havia muitos segredos, havia uma mina de informações a serem apuradas e muitas coisas estranhas, né?
Essa é a Tânia Malheiros, autora da matéria que chamou a atenção da Fernanda. Ela já cobria assuntos nucleares há alguns anos quando teve acesso a um relatório da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Apontando que o volume registrado de radiação naquele prédio rosa e no entorno dele era maior do que os padrões admissíveis pelos órgãos brasileiros e internacionais de fiscalização atômica. A Tânia já tinha escrito sobre vazamentos na usina nuclear de Angra dos Reis e sobre o financiamento desse setor.
Ela também já tinha acumulado algumas boas fontes na área, o que é essencial para o que ela se propunha a fazer. Fazer jornalismo quase nunca é fácil, mas vamos combinar que a Tânia escolheu um setor especialmente complicado num momento especialmente complicado.
A questão nuclear, ela era assim coberta por um tema, né, por uma venda, né, um manto do segredo, né, era tudo muito segredo. Imagina na época da ditadura, ninguém podia falar nada.
A Tânia levou anos entre ter acesso àquele relatório e entender de onde tinha surgido a, entre aspas, Chernobyl paulistana. A história do Prédio Rosa começa antes da ditadura e se estende para depois dela. E acumula segredos em todas essas eras.
O nome dessa empresa, que nem eu sabia que ela existiu um dia, chamava-se Orquíma. Esse Orquíma ninguém falava, ninguém pronunciava. Foi uma luta para conseguir desvendar isso. A Orquíma desapareceu do mapa, foi transformada nessa Nuclemon. Tem muita gente boa aí, ô Paulo, que tem vergonha de dizer que passou por lá, tá?
Nuclemon, abreviação de Nuclebras Monazita, uma indústria estatal que cuidava da obtenção, da separação e do beneficiamento de areias monazíticas brasileiras. Esse era o nome que constava na matéria da Tânia, nos relatórios da Fernanda e que consta ainda hoje em processos judiciais. Mas essa é a segunda encarnação do prédio rosa. A primeira começou com um cara chamado Augusto Frederico Schmidt, um poeta e editor brasileiro com um bom trânsito nos governos do Getúlio Vargas e do Juscelino Kubitschek.
E que ficou mais famoso por lançar as primeiras edições do Graciliano Ramos do que por ter lançado a primeira usina de processamento de urânio do Brasil. Urânio, acho que você sabe, é a matéria-prima para qualquer projeto nuclear, seja para geração de energia, seja para bomba. Uma das matérias-primas, para ser mais exato, mas com certeza a mais famosa. O potencial do urânio para energia foi descoberto nos anos 30 e em 1942 O mesmo ano em que os Estados Unidos embarcaram no Projeto Manhattan, que ia dar na bomba atômica, o Augusto Schmidt fundou uma empresa chamada Urquima.
A Urquima não era o Projeto Manhattan brasileiro, era uma indústria química. Mas logo depois da Segunda Guerra Mundial, ela começou a trabalhar com areia monazítica. Eles pegavam essa areia do litoral do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e levavam pra São Paulo pra tratar. Eu tô falando em areia monazítica aqui como se eu fosse ultra familiarizado, Mas a verdade é que eu nunca tinha ouvido falar dela antes de fazer essa matéria.
Mesmo agora que ela tá mais hypada por causa do boom das terras raras. As areias monazíticas, porque têm tipos diferentes, são basicamente um aglomerado de elementos. Tem urânio, tório, monazita, terras raras. O trabalho da Orquídea era separar, fazer o processamento desses elementos. E aí, individualmente, eles passam a ter aplicações diversas, inclusive nucleares. A areia chegava e os funcionários submetiam ela a vários processos físicos, tipo separação e moagem, e uma série de processos químicos, como o cozimento com ácidos, pra extrair os elementos.
E o processo foi evoluindo com o tempo. A fábrica já tava funcionando há quase uma década quando o Augusto Schmidt convidou o Getúlio Vargas pra inauguração da extração de urânio. E o Getúlio foi, com pompa, circunstâncias, chefes militares e uma comitiva que incluía o então governador de Minas, Juscelino Kubitschek. No convite pro Getúlio, o Schmidt dizia que aquela era uma data histórica no nosso desenvolvimento científico e industrial nos domínios da energia nuclear.
Mas o urânio beneficiado na Urquima não ficava aqui. Nem a monazita, nem as terras raras. No esquema que o Augusto Schmidt montou, São Paulo era só um pit stop.
Ele tinha a parte poética dele, né? Erudita, escrevia e era até premiado. Tinha uma editora que lançou vários poetas. Mas ele tinha essa parte dele que era lindíssima e tinha a parte que ele gostava muito de fazer negócio com os Estados Unidos.
E era pra lá que o material tratado ia. Em 1945, pouco antes dos Estados Unidos atacarem o Japão com bombas atômicas, o Getúlio Vargas assinou um acordo com os norte-americanos pro envio de 3 a 5 mil toneladas de areia monazítica por ano. A valores irrisórios por tonelada. A negociação garantia exclusividade aos americanos. Isso é, o Brasil ficava proibido de fornecer o material a qualquer outro país. Esse acordo durou 3 anos.
Quando chegou a hora de renovar, o governo brasileiro tentou barganhar um preço melhor, mas não deu certo e o negócio foi pro espaço. Mas a Orquídea podia ter contratos de fornecimento sem ser do governo, com outras empresas. Isso a gente não sabe ainda. Alguns anos depois, o governo brasileiro acabou proibindo empresas particulares de exportar materiais nucleares, mas na prática a Urquima passou a vender para o governo, que vendia direto para os americanos.
Você usa seu trabalhador aqui no Brasil, separa as areias monazíticas, extrai urânio todo e manda para os Estados Unidos. Alguém ganhou dinheiro com isso, alguém se deu bem, tá? Alguém se deu bem, porque o que que o Brasil ganhou com isso? O Brasil não ganhou nada.
Bom, quase nada. Talvez tenha sido bom pras padarias brasileiras. O governo brasileiro fechou um acordo em que ele comprava areia da Orquídea e vendia pros Estados Unidos, que pagavam com trigo. Foi assim durante 5 governos seguidos, do Getúlio ao JK, que já tinha uma relação com Augusto Schmidt. O Schmidt escrevia os discursos do JK. Sabe o slogan 50 anos em 5? Foi o Schmidt que criou. O favorecimento das indústrias privadas e os acordos estranhos com os Estados Unidos geraram uma CPI em 1956.
A ideia era que não dava pra exportar materiais tão estratégicos sem ganhar nada de tecnologia ou conhecimento. Naquela altura, já tinha sido criado o Conselho Nacional de Pesquisas, o CNPq. Naquele ano, surgiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear, E todo o processo de exploração nuclear, da mineração pra exportação e tudo no meio, tudo isso ia ser estatizado. A Urquima, junto de todas as outras indústrias nucleares do Brasil, foi comprada pelo governo.
Um pouco mais pra frente ela vira Nuclemon, uma das estatais criadas nessa grande arrumação do setor nuclear. E ela tava funcionando em Santo Amaro com esse nome, mas sem nenhuma placa, já tinha mais de uma década quando a Tânia publicou a matéria dela. A investigação acabou virando um livro, O Cobaias da Radiação: A História Não Contada da Marcha Nuclear Brasileira e de Quem Ela Deixou Para Trás. Um monte de informação que eu tô contando aqui, aliás, vem desse livro e também de um outro livro da Tânia, O Bomba Atômica Pra Quê? Brasil e Energia Nuclear.
A partir da quantidade de funcionários ex-operários, né, dessa Nuclemon que ficaram doentes, que morreram. E eu fui a São Paulo fazer uma matéria, e que eu fui, comecei a investigar, apurar, quando eu cheguei ao esquema, entendeu? Isso foi uma coisa importantíssima, porque houve esse apagamento dessa história das pessoas que foram tratadas de uma forma desumana, usando material radioativo, manuseando muitas, sei lá quantas, centenas desapareceram, morreram.
Eu chegar lá, eu fiquei assombrada com as condições de trabalho. Eram pré-históricas, pré-revolução industrial.
Essa, de novo, é a fiscal do trabalho Fernanda Gianazzi.
Me lembro do engenheiro mecânico que foi comigo e ele era especialista em caldeiras.
Ele falou, Fernanda, olha aqui, a caldeira é do lado do depósito de material radioativo. Se essa caldeira explode, velha do jeito que tá, isso vai jogar esse material pra tudo que é lado.
Esse era um perigo potencial. Mas é que esse não era o único risco a que os trabalhadores ali estavam sujeitos.
Aí eu encontro vários trabalhadores doentes que foram realocados na portaria, com silicose.
Quer dizer, os trabalhadores respiravam poeira radioativa e isso causava uma fibrose irreversível no tecido pulmonar deles. E o que a empresa fazia era trocar eles de posto, botar pra trabalhar na portaria.
Eles diziam, não, aqui nessa área não pode entrar porque essa é uma área controlada. Como controlada com janelas abertas? Coisa assim, controlada pra quem? Eles então colocavam lá umas proteções, assim, umas gambiarras, pra que não houvesse vazamento pra fora da edificação. Mas era impossível, porque você não pode dizer que só tem um tipo de radiação. Era numa área dita controlada, que de controle não tinha nada, tá?
Os trabalhadores da produção até tinham equipamentos de proteção individual. Os dosímetros, que ficavam afixados no corpo deles e marcavam índices de radiação acima do permitido. Óculos de proteção, luvas, macacão.
Não, tudo muito precário. É assim, como se os trabalhadores tivessem trabalhando com, vamos dizer, uma poeira. Sempre poeira faz mal, tá? Mas existe a chamada poeira respirável, não respirável, poeira tóxica, não tóxica. Como se fosse algo, fazia parte do mundo deles aquilo. Então assim, eu não acredito que eles tivessem noção da gravidade da situação e de que eles iriam adoecer.
E a Fernanda nem tá falando só de quem mexia com areia mesmo.
E aparecia alguns casos relacionados diretamente à radiação, como o caso de um técnico de segurança, que até está no meu laudo, e que ele apresentou um quadro de leucopenia.
Leucopenia é uma condição médica em que os leucócitos, os glóbulos brancos do sangue, ficam abaixo do normal. Isso pode acontecer por vários motivos, Uma gripe forte ou a infecção por outro vírus, tipo HIV, mas também por uma dieta deficiente, algum problema na medula óssea. Mas a consequência é sempre o prejuízo da imunidade, porque os leucócitos são o principal sistema de defesa do corpo contra vírus e bactérias. E esse caso que a Fernanda tá falando é de um técnico de segurança.
Quer dizer, ele não era um trabalhador diretamente da produção, mas os glóbulos brancos dele foram diminuídos pela exposição à radiação. Eu ouvi da vizinhança, tá, gente, famílias inteiras que tinham morrido de câncer, que nunca foram investigados, todos morando ali do lado praticamente, né?
Uma das medidas que a fiscalização adotou foi encaminhar os funcionários da usina de Santo Amaro para o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador daquela região.
Os usuários que têm algum problema que possa estar relacionado com o trabalho Eles ou procuram espontaneamente ou são encaminhados para o centro de referência para você fazer o nexo causal, o relacional que eles têm com a ocupação deles.
Essa é a Maria Vera Cruz de Oliveira, que atendeu os trabalhadores da Nuclêmon lá.
Pelo centro de referência passaram, na época tinha em torno de 400 trabalhadores, passaram uns 150 com a gente.
A Maria Vera lembra que desses funcionários, vários chegaram no centro de referência com perda auditiva. Ela citou a leucopenia, né, que a Fernanda já tinha comentado, que é a diminuição dos glóbulos brancos, e que ela atribuiu à exposição à radiação. E como a especialidade da Maria Vera é a pneumologia, ela lembrava bem dos casos de silicose, que ela chama pelo nome mais abrangente: pneumoconiose.
Porque eles processavam areia monazítica e aquilo fazia com que ficasse suspensão no tinha sílica, terras raras, produtos que podem se depositar no pulmão e causar fibrose, que é o que a gente chama de pneumonia mucoriosa. Grande maioria eram homens, tinham pouquíssimas mulheres trabalhando lá.
A Maria Vera chegou a visitar a fábrica e, como a Fernanda, ela também notou as janelas abertas. Quer dizer, todo mundo, do chão de fábrica à faxina ao administrativo, tava exposto à radiação e poeira tóxica.
É claro que algumas pessoas tinham uma exposição maior, né? Quem trabalhava nos moinhos, quem trabalhava direto com aquilo, às vezes carregava o saco com material que seria desprezado.
Era muita exposição, um monte de gente exposta à radiação todo dia e sem nenhum monitoramento.
Bem ou mal, em Goiânia foi feito isso. Você coloca toda aquela população que tava assombrada, apavorada, né, que vai lá e aceita ser monitorado.
O caso de Goiânia que a Fernanda tá falando, você deve imaginar, é o acidente com o césio em 1987. Saiu recentemente uma série ficcionalizada sobre o caso, o Emergência Radioativa, na Netflix. Mas eu vou dar uma resumidinha aqui pra quem não sabe do que se trata. Em setembro de 87, um grupo de catadores de lixo encontrou aparelhos de radioterapia abandonados, sem nenhum cuidado. E eles entenderam que a cápsula de sésio que tinha ali dentro tinha algum valor, porque o material realmente é super bonito, um pó azul brilhante.
Muita gente se encantou com o material, passou no corpo, enfim. Foram 4 as mortes diretas e centenas de contaminados. Uma tragédia. Mas no caso de Goiânia, talvez por ser um acidente, um caso concentrado, com muito apelo midiático, o governo fez às pressas uma operação de mapeamento. Primeiro retraçando por onde o pó azul radioativo tinha passado, depois convocando quem achava ter tido contato com ele. Era pra entender a extensão do problema de saúde, encaminhar todas as pessoas afetadas pra tratamento e também pra impedir novas contaminações.
As vítimas goianas também foram colocadas em um programa de acompanhamento, que incluía exames genéticos. Mas pros trabalhadores da Nuclemon, nada disso chegou.
E daí, o que a gente tem? É justamente a prova de que eles estiveram expostos. E a gente tem isso não só pela avaliação ambiental, mas pelos exames que foram feitos na época, que mostram que realmente eles tiveram exposição. Tinham índices de urânio, de tório na urina, nas fezes, elevados. Mesmo trabalhadores da parte administrativa.
Em tempo, as consequências da contaminação por césio e por urânio não são as mesmas. Portório também não, claro. Cada elemento emite um tipo de radiação que causa uma consequência diferente no organismo. O que eles têm em comum é que todos têm potencial de quebrar o DNA, o que pode causar complicações de saúde e até matar, dependendo da exposição.
A Convenção 115 fala isso, que a gente tem que acompanhar esses trabalhadores até o fim da vida. Não tem outra coisa para fazer.
A Convenção 115 é um documento da Organização Internacional do Trabalho que determina a proteção aos trabalhadores contra radiação ionizante. O Brasil adotou essa diretriz ainda em 1968. A Convenção não usa exatamente o termo vitalício, mas diz que trabalhadores que são expostos à radiação ionizante têm que ter acompanhamento médico em intervalos adequados. E aí o entendimento geral, por causa do período de latência de doenças radiológicas, que podem levar muito tempo para se manifestar, é que o único intervalo adequado é a vida toda.
Infelizmente, a nossa hipótese tem se confirmado, porque a gente tem 30% de câncer e uma mortalidade também elevada. Câncer de próstata, a gente sabe o índice na população geral, aqui o índice é bem maior. Então isso foge. Ah, mas Ah, é uma amostra pequena, mas ok, gente, mas é isso, você tem um número.
Não há isso como política de Estado, não é uma vigilância epidemiológica que venha, por exemplo, uma determinação do Ministério da Saúde. No caso da Nuclêmon, nunca houve como política de Estado, nunca houve essa, vamos dizer, uma visão do Estado preocupado com a saúde dos trabalhadores. Esse estudo que a gente chama longitudinal, que acompanha as pessoas ao longo dos anos, não há interesse. Eu nunca vi isso.
O interesse do Estado brasileiro no campo da radiação tava em outro lugar. Eu vou voltar alguns anos no tempo agora. Não lá pros anos 40 de novo, só pra 1986. 86 foi o ano do acidente na usina nuclear de Chernobyl, na União Soviética. Um ano antes do Césio, em Goiânia. Foi nesse ano, 86, que a jornalista Elvira Lobato ouviu uma história bem estranha de uma fonte. A entrevista era em off, porque era sensível. O sujeito tinha sido diretor da CPRM, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais. E um dia, ele foi procurado por um pessoal da Aeronáutica.
E eles foram saber com a CPRM se ela tinha tecnologia pra perfurar um poço. Com dimensões que não tinha no Brasil. Se dominava a tecnologia. Aí eles chamam os geólogos, os engenheiros de minas, de mineração, e falam assim: olha, a gente teria condição, desde que a gente tivesse equipamentos. E os caras: ok, e vão embora.
O que eles queriam era um buraco de 320 metros de profundidade por 3 metros de diâmetro. Mas pra que que a aeronáutica queria cavar o maior buraco do país?
Eles me relataram que a primeira coisa que ficou claro pra eles, muito estranho, é que tudo tinha que ser sigiloso. Todos tinham que firmar ali um compromisso de segredo absoluto. Eles não poderiam contar isso pra ninguém. E mais, todos envolvidos teriam seus telefones grampeados. Os militares iam vigiar isso aí.
Acontece que pra fazer o maior buraco do Brasil, a Aeronáutica teve que comprar equipamentos nos Estados Unidos. Isso tá virando um mote aqui. E quando dois técnicos da CPRM foram ajudar nessa aquisição, eles perceberam pra que que o buraco ia servir.
Que era um campo pra teste nuclear. Porque tudo era exatamente igual aos campos de teste nuclear do deserto de Nevada.
Esse novo campo de teste nuclear, igual ao de Nevada, ia ser feito na Serra do Caximbo, no sul do Pará. A Elvira publicou tudo isso na Folha, numa matéria de 8 de agosto de 1986. E o governo obviamente negou.
O governo deu algumas explicações na época, né, que era para guardar lixo atômico da usina de Angra, foi um critério, que era para guardar outros dejetos, né, mas não colava. Porque, por exemplo, se era para guardar lixo nuclear da usina, como é que você ia sair de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, levar esse lixo para Amazônia? Depois um poço não teria capacidade suficiente para ser um armazenamento de coisa. Então as teorias não batiam.
O que acabou ficando claro, e o que o governo, até o próprio Sarney, admitiram com o tempo, é que sim, era um poço de teste nuclear. O poço é pra testar a bomba. Ele precisava ser bem fundo pra radiação não vazar pra superfície e ser revestido em concreto pra não contaminar o subsolo. No caso, esse foi revestido só até uma parte. Porque de um ponto pra baixo era gabro, que é uma pedra muito resistente que não precisava de isolamento adicional.
Essa matéria da Elvira Lobato em 86, ela jogou luz num projeto que operou nas sombras durante quase uma década: o Projeto Nuclear Paralelo. A ideia era bem simples: dominar a tecnologia nuclear sem o conhecimento da sociedade civil ou de outros países e fazer uma bomba atômica. O motivo de ser secreto também era simples: Se o projeto fosse público, ia entrar na mira das grandes potências nucleares. Isso porque, desde que o Brasil começou a mexer com urânio, ficou claro que os países do chamado Clube do Átomo não tinham o menor interesse em dar uma pulseirinha atômica pro Brasil.
A usina de Angra 1, por exemplo, foi comprada dos Estados Unidos num pacotão com tudo dentro: construção, reator, testes, pronta pra funcionar. Não porque é mais fácil assim. Mas porque os americanos não queriam liberar nada de informação ou tecnologia nuclear. Aqui de novo a Tânia Malheiros.
Até na hora da troca do combustível, você vai trocar o combustível, o que que é? Urânio enriquecido, né? E quando vai trocar isso aí tem que se contratar técnicos americanos, americanos de outros países, né, que dominam, porque o Brasil não tem ainda, não dominou totalmente a tecnologia para fazer esse trabalho, entendeu?
Os projetos de Angra 2 e Angra 3 vieram de uma parceria com o governo alemão, e a ideia era ter alguma transferência de tecnologia dessa vez. Mas acabou não rolando, por um embargo, adivinha, dos Estados Unidos. Enfim, daí que entre os anos 70 e 80, cada braço das forças armadas embarcou num projeto nuclear. O Exército ia desenvolver um reator de urânio natural pra obter plutônio. A Marinha ia fazer um submarino nuclear e também desenvolver uma supercentrífuga pra enriquecer urânio, E a Aeronáutica ia se dedicar ao enriquecimento a laser e à construção de poços para testes nucleares.
Alguém ficou responsável pelo desenvolvimento da bomba. Até hoje não se sabe quem. E parece, pelas informações disponíveis, que ela nunca chegou a ser feita.
O que deu certo foi o que deu resultado. A palavra correta não é certo, é resultado. Foi o da Marinha. Os outros pode até ter continuado, mas o que prosperou foi o projeto da Marinha.
Um dos projetos da Marinha, na verdade. E prosperou rápido. Já em 1982, com maquinário próprio, a Marinha conseguiu enriquecer urânio pela primeira vez. Mas só anunciou isso publicamente 5 anos mais tarde, em 1987. O submarino nuclear, por outro lado, nunca saiu do papel. Quando comecei essa apuração, alguns meses atrás, a expectativa era de que o submarino ficasse pronto em 2029. Enquanto gravo, a Marinha já adiou sua previsão pra 2038.
O Exército não entregou a parte dele do programa. E a Aeronáutica pode até não ter conseguido avançar no enriquecimento de urânio a laser, mas eles fizeram mesmo aquele buraco imenso na Serra do Caximbo que a Elvira vazou. Quem resolveu fechar foi o insuspeito Fernando Collor, numa cerimônia bem midiática em que ele fez questão de jogar uma primeira pá de cal.
E isso é triste, sabe, Paulo? Porque é dinheiro público, sabe? Dinheiro que podia estar na educação. Olha, eu sinceramente acho até um pouco assim um descaso.
Hoje em dia, Angra 1 e Angra 2 geram cerca de 2% da energia elétrica do Brasil. Isso é menos do que o carvão até. Angra 3, por sua vez, nem chegou a existir propriamente. As obras da usina estão estagnadas em 65% e volta e meia o governo discute se eles devem concluir o projeto ou abandonar ele de vez. Qualquer uma das decisões deve custar em torno de R$20 bilhões. Quanto à produção de urânio enriquecido no Brasil, o combustível para essas usinas funcionarem, né, a nossa produção não atende nem a demanda de Angra 1.
A gente ainda importa mais do que produz. Da ambição nuclear brasileira, o mais concreto mesmo parece ser as vítimas. Quando ele falou em Itu, eu me lembrei que Itu Aqui do lado já tava rachado em 80, né?
Que aqueles, sei lá, 80 e poucos.
É como Interlagos, né? Quantos anos a gente fala até aqui?
Durante a apuração dessa história, eu fui convidado para assistir a uma reunião da Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear, a ANTPEN, em São Paulo. A organização é composta majoritariamente por pessoas que foram ligadas à Nuclemon, ex-funcionários e esposas e filhos, no caso de pessoas já falecidas. O encontro começou com um minuto de silêncio em respeito ao falecimento de dois associados naquele mês.
Depois me contaram que essa cena fica mais comum a cada reunião. A Nuclemon fechou as portas em 1992. Logo todos os funcionários foram mandados embora. O prédio ficou para estocar rejeitos radioativos. Na verdade, uma parte dos resíduos ficou lá, Outra foi transferida para outra usina da estatal, em Interlagos, também na zona sul de São Paulo. E outra parte ainda foi para uma instalação em Minas Gerais, na cidade de Caldas. Interlagos e Caldas ainda armazenam o lixo radioativo, mas o prédio rosa foi demolido.
Naquele mesmo ponto da Avenida Santo Amaro, hoje tem um condomínio residencial. Os operários da indústria atômica ficaram anos sem se encontrar.
Quando a empresa fecha, há uma uma dispersão tremenda, né? Eu fiquei em contato com 2 ou 3 e me incomodava muito o fato. Eu dizia, gente, vocês precisam fazer alguma coisa, precisam se organizar.
Aqui de novo a Fernanda Janazzi.
Mas eles assim, no início, eles estavam um pouco incrédulos sobre qual é o poder que a gente tem contra uma empresa, né, que é dominada, é regida pelo Estado. Eles ficaram um pouco reticentes. Chamo de novo esses meninos da antiga Nuclemon, digo, vocês têm que fazer alguma coisa. E aí não tinha nenhum advogado que queria pegar a causa deles, porque é uma empresa estatal, porque tinha um problema de prescrição, a empresa já tava fechada, enfim, coisas assim. Tudo era pretexto pra que eles não tivessem apoio.
Eles conseguiram criar a associação só em 2006, e desde então duas categorias de processos foram protocolados na justiça. Um deles pedia, com base na Convenção 115 da OIT, a manutenção de um plano de saúde para os trabalhadores. Mais de um processo desse tipo foi feito, atendendo diferentes grupos de ex-funcionários. Hoje, dois grupos conseguiram esse benefício da sucessora da Nuclemon, a INB, que é a sigla de Indústrias Nucleares do Brasil.
Mas a doutora Maria Vera, que ainda acompanha eles de perto, diz que não é um processo fácil.
De repente, do dia para noite, ah, foi cortado o plano de saúde. De saúde, uma vez que as operadoras começaram a conversar sobre, ah, mas não vale a pena esse número de vidas pelo gasto, não sei o quê. Então é uma conversa bem, bem chata. Com certeza eles não pagam de bom grado esse convênio. Essa é uma vitória colateral do processo, sabe? A gente considera uma vitória, mas Enfim, era uma das reivindicações, mas não é a principal, né?
A principal reivindicação são as indenizações aos trabalhadores da indústria. E esse processo é ainda mais difícil. Quem me guiou por esses detalhes foi a Érica Coutinho, advogada da Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear.
Num primeiro momento, a decisão que veio foi uma decisão de prescrição. Entendeu-se que a associação já estava formalizada há muitos anos. E a ação já deveria ter sido proposta. Entendeu-se também que a fábrica havia sido fechada há muito tempo e que os malefícios que os trabalhadores já sabiam também poderia ter sido levado antes ao Poder Judiciário.
A Érica está representando a associação numa ação civil pública na Justiça do Trabalho.
Quando nós entramos com a ação civil pública, é um pouco para demonstrar para o Poder Judiciário que os adoecimentos não são coincidência. Ou seja, nós não estamos falando de uma pluralidade de casos que acontecem, mas que eles não têm relação. Então, quando você faz uma ação civil pública, que foi o que nós decidimos fazer em 2018, quando a gente entrou com a ação, era para dizer um pouco isso. Olha, nós temos uma quantidade grande de trabalhadores já monitorados que têm doenças mais ou menos comuns.
Então, existe uma incidência maior de câncer, por exemplo, nessa população. Existem também já muitos documentos médicos e publicações científicas fazendo essa relação. Então, é possível indicar que existe, pelo menos indícios, né, muito fortes de que nós estamos falando de um ambiente insalubre e adoecedor, capaz mesmo de deixar sequelas.
Na reunião da associação que eu participei, eu vi um número grande de mulheres representando seus maridos ou os pais já falecidos. Uma delas era Maria das Neves Pires dos Santos. Ela foi casada com Antônio José dos Santos. Ele trabalhou por 10 anos na Nuclemon, entre 1974 e 1984, e ele morreu no fim de 2025.
Ele desenvolveu um câncer, aí eu levei ele no médico, o médico examinou, foi comprovado, só que o câncer tava assim pequenininho. Aí o médico passou umas sessões de radioterapia, ele fez 37 e chegava em casa só um bagaço. Não tinha ânimo pra nada. Emagreceu terrivelmente e ficou fazendo aquele tratamento. Ele conseguiu viver uns 5, 10 anos, no máximo, por aí, bem de saúde. Depois começou tudo de novo.
Eu não sou nenhum especialista no assunto, mas parece meio básica a ideia de que se um trabalhador é exposto à radiação, ele vai ter uma chance maior de ter complicações de saúde. Mas o que eu aprendi pesquisando pra essa história é que mapear isso, provar isso, é mais complexo do que parece. Pra começar, por mais que tenha gente que chame Anuclemon de Chernobyl paulista ou de Océsio de São Paulo, esse é um paralelo que não funciona muito.
Aqui não teve pó azul brilhando e gente morrendo em questão de dias. Também não teve aquelas nuvens imensas pairando em cima da Europa. Foi uma tragédia em câmera lenta, um timelapse de quase meio século, de uma atividade que, apesar de ter sido estatizada, sempre foi meio feita às escondidas. Daí o prédio rosa sem nenhum letreiro, né? E tudo isso sem nenhum monitoramento, no melhor dos casos por ignorância, no pior por descaso mesmo com os trabalhadores.
Mas haja boa vontade pra acreditar no melhor dos casos depois de ouvir tudo isso. Mas enfim, fato é que, por todos esses motivos, é muito difícil provar por A B que aquele prédio rosa foi a causa da morte de sabe-se lá quantos trabalhadores, nem da doença de sabe-se lá quantas pessoas relacionadas. E a Doutora Maria Vera me lembrou de mais um complicador pra provar essa causa e consequência.
A gente sabe, a gente sabe, a gente não sabe, né, até, que o câncer é multifatorial.
Ela me explicou que o câncer é causado e agravado por um monte de fatores. Daí, por mais que a gente saiba que radiação ionizante é um fator muito fortemente associado com câncer, não dá pra desenhar uma seta entre a poeira voando pelo ar naquele prédio rosa e um câncer que dá os primeiros sinais 1, 3, 10, 20 anos depois.
E existe um exame que se chama dosimetria citogenética. Que você poderia pegar esses trabalhadores aqui e fazer um estudo da parte genética deles. E talvez você visse alguma aberração, alguma coisa que apontaria para um potencial de ter doença neoplásica. No Brasil não existe isso.
A gente não tem esse mapeamento. O que a gente tem é a suspeita, os indícios. Que nem no caso do Antônio, marido da Maria das Neves.
Ninguém nunca explicou isso pra ele, nunca falou, olha, isso aqui é químico, isso aqui prejudica a saúde. Ele mexia, dava umas idas e ia no urânio. Ninguém falou isso pra ele, ninguém. Tanto é que ele teve uma época que ele tava se sentindo mal, ele falou assim, eu não vou continuar na Monclemon porque eu não tô muito legal, e antes que eu piore mais, O Antônio trabalhava ensacando material radioativo.
Depois ele foi transferido para as entregas de caminhão, carregando e descarregando sacos de areia.
Mas os macacão vinha em estado de horror, e quem lavava era neguinha aqui. Lavei 10 anos macacão desse jeito aí. Hoje em dia eu tenho um problema de saúde, querido. Eu tô com problema de um aneurisma também. Já fiquei Me cumpriram o modelo não sei quantas vezes internada, já atacou até meus pulmões. Eu tô cansada, pra ser franca, tô cansada. E ele não deixou recurso quase nenhum pra minha vida futura. E eu preciso de uma estabilidade, é isso que eu falo.
Eu preciso de uma estabilidade pra poder tirar o restinho de vida que eu tenho. Eu pago convênio R$1.200, eles não aceitaram me dar convênio. Não aceitaram. Porque diz que as mulheres não têm direito, que as mulheres não trabalhavam com produto. E a gente, com a mão naqueles macacões horrorosos, a gente não trabalhou não?
A Érica Coutinho, a advogada, me disse que a ação judicial até previa indenizações a familiares expostos à contaminação radioativa. Mas que a Justiça do Trabalho recusou o pedido, dizendo que isso deveria ser tratado na Justiça comum.
Então é como se houvesse mesmo um silêncio. Em relação a isso. E tendo a achar que até do ponto de vista médico é uma análise que talvez não se faça. Então, se a viúva chega e ela fala, eu me sinto assim, dificilmente se pergunta com o que que seu marido trabalhava. A pergunta geralmente tem mais a ver com aquilo que a pessoa em si fazia, mas não sobre a organização familiar, né, e os trabalhos dos outros integrantes da família.
É um grande silêncio mesmo que se tem a respeito disso, né? E não é que seja muito, não é pouco comum que quando são as mulheres também haja mesmo esse silêncio, né? Do ponto de vista da medicina, do Poder Judiciário, enfim, não é uma fala que surpreenda, né?
No momento, o Superior Tribunal do Trabalho está analisando o pedido de indenização aos trabalhadores da Nuclemon e às famílias dos que já morreram. E detalhe, se essa decisão não for favorável, eles podem perder até o convênio médico também. Aqui, de novo, a jornalista Tânia Malheiros.
O Brasil precisa fazer um ajuste de conta com essas pessoas da Orquídea, que é o Zan, que é a Nuclemon, que estão morrendo sem receber as indenizações. Um ajuste de conta muito tardio. Mas que o Brasil precisa fazer através das indústrias nucleares do Brasil.
Eu já cheguei nessa apuração com a cabeça feita de que essa história de investimento nas indústrias nucleares era uma grande perda de tempo e de dinheiro. Uma brincadeira perigosa que não tinha por que o Brasil se meter. E uma parte de mim ainda acredita nisso, mas conforme eu fui me aprofundando no assunto, eu fui entendendo que essa questão, como tudo, né, é mais complicada do que parece. Meu desejo, que parece quase ingênuo, era que ninguém, em nenhum país, tivesse se metendo com energia nuclear, e claro, muito menos com bomba.
Mas já que essa não é uma possibilidade, alguns países simplesmente dependem da energia nuclear na matriz energética deles, e vários só não tão dispostos a não brincar de bomba, nesse caso, existe um argumento de que não ter essa tecnologia é perigoso pra gente. É um argumento meio ter arma em casa deixa a gente mais seguro e é só pegar os dados de segurança pública pra mudar de ideia rapidinho. Mas esse argumento tem um ponto.
Foi justamente nesses últimos meses, quando eu tava atrás dessa história, que muita gente voltou a falar na bomba brasileira. O gatilho foi o sequestro do Nicolás Maduro pelo exército dos Estados Unidos, que reavivou a discussão sobre se o Brasil teria que ter armas nucleares pra garantir a soberania. Enquanto isso, tem a guerra do Irã, toda a discussão sobre o programa nuclear deles, a Arábia Saudita começando a enriquecer urânio.
O argumento pacifista ingênuo é: apenas parem todos. E o outro é: por que só alguns países podem descer pro play? Esse segundo argumento era justamente o argumento, sabe de quem? Dos militares.
Eu lembro de ouvir muitos militares dizendo isso, né? A gente precisa pelo menos dominar a tecnologia. Não significa que você pode ter o uso pacífico, mas precisamos conhecer a tecnologia, né?
Será muita ingenuidade pensar que talvez a Nuclemon tivesse sido menos irresponsável com os funcionários se toda essa operação não tivesse sendo feita meio na surdina pro Clube do Átomo não ficar sabendo? É, provavelmente seria muita ingenuidade.
Os milicos estavam tentando a soberania, isso que você falou, tava tentando ficar poderosos, né, ter um poder e meter os pés pelas mãos. Eu sou uma pessoa completamente pacifista, eu acho que tem que buscar outro caminho, né. Que os caras pensem isso, militar, até admito, mas num país pobre, miserável como o nosso, gastar dinheiro com energia nuclear, eu acho uma loucura.
Eu já tava quase fechado com o argumento da Elvira quando eu lembrei de uma coisa que eu ouvi da Tânia Malheiros, a outra jornalista que cobriu a fundo o programa nuclear brasileiro.
Talvez, talvez seja um equívoco a gente renunciar à tecnologia. Sempre vai precisar de tecnologia. Nós vamos precisar de um reator multipropósito para produzir radioisótopo. Para quê? Para diagnóstico e tratamento de combate ao câncer.
Nessa conversa com a Tânia, foi a primeira vez que eu ouvi falar desse outro projeto nuclear. Um projeto que, se estivesse avançado mais, podia estar ajudando a tratar os sobreviventes da Nuclemon.
O projeto tá sendo— ele começou acho que em 2009, alguma coisa assim. A questão é a falta de verba. Tem que liberar verba pra fazer esse reator, entendeu? Porque a Argentina, ela praticamente começou a produção com o Brasil e o reator da Argentina já está pronto. E o nosso, ele ainda está caminhando a passos muito lentos. Enquanto isso, nós temos que comprar radisótopo.
Não teve uma nuvem nuclear em cima da Zona Sul de São Paulo. Mas teve décadas de má gestão, negligência e silêncio. O que a gente não pode é olhar pro futuro sem ter noção do estrago que o passado deixou.
Esse foi o Paulo Vitor Ribeiro. Obrigada por ouvir o Rádio Novelo Apresenta. Você já sabe que tem episódio novo toda quinta-feira, e quem vem para o Clube da Novelo escuta já na quarta sem anúncio. Tá aqui um gostinho do episódio da semana que vem.
Eu falei, olha, eu vou fazer seu filme e tal, mas eu tenho medo de fantasma. Eu não quero que você apareça.
Se você aparecer, eu paro tudo.
Mas você pode falar.
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Oi, aqui quem fala é Natasha Barzaghi Genin, diretora cultural da Japan House São Paulo.
E eu sou Guilherme Wisnik, arquiteto e professor da FAESP.
No novo episódio do podcast da Japan House São Paulo, a gente tenta desvendar a fronteira entre os espaços públicos e privados no Japão. A gente falar um pouco da concepção de espaços de uso coletivo.
E também sobre como a arquitetura japonesa precisa se adaptar às condições geográficas do país, especialmente no contexto dos terremotos.
A 5ª temporada do nosso podcast já tá no ar. Quando terminar de ouvir esse episódio, procura a gente aqui no seu tocador de podcasts favorito. Te espero lá!
No post desse episódio no nosso site tem fotos do formigueiro no Museu da Diversidade da Unicamp. E pra quem quiser entrar nessa toca do tatu que são as aspirações nucleares brasileiras, tem links pras reportagens e livros da Tânia Malheiros e da Elvira Lobato. No canal da Rádio Novelo no YouTube, a gente sempre posta os episódios completos pra quem prefere escutar por lá. E tem também playlists com histórias avulsas de até meia hora.
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