Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Estados Unidos do Brazil

30 de julho de 20261h20min
0:00 / 1:20:42

Uma cidade chamada Brazil e outra chamada Americana.

No primeiro ato: uma visita a um xará municipal do país. Por Flora Thomson-DeVeaux, com Paula Scarpin.

No segundo ato: um lugar onde uma bandeira polêmica é hasteada, muito ao sul do Velho Sul. Por Por Flora Thomson-DeVeaux, com Paula Scarpin.

No dia 2 de setembro, a experiência imersiva das histórias do podcast Rádio Novelo Apresenta vai ser transportada para o MASP. Branca Vianna e os repórteres da Novelo vão subir no palco num ao evento com histórias inéditas. Os ingressos entram em pré-venda no dia 3 de agosto, exclusivamente para membros do Clube da Novelo, que recebem um desconto de 30% na entrada. A venda geral abre no dia 7 de agosto.

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Palavras-chave: Brazil, Indiana, Festa Confederada, Guerra Civil, bandeira confederada, Santa Bárbara d’Oeste, Americana

Participantes neste episódio14
B

Branca Vianna

Host
F

Flora Thomson-DeVeaux

Host
C

Carolina Moraes

Convidadojornalista
C

Charles Volgan

Convidado
D

Diane

ConvidadoFuncionária da Sociedade Histórica de Brazil
J

João Leopoldo Padovesi

ConvidadoPresidente da Fraternidade de Descendência Americana
M

Mariana Volgan

Convidado
M

Mike

ConvidadoProfessor visitante
N

Natália da Cruz de Novaes

ConvidadoCoordenadora do Museu de Imigração
N

Noely

Convidado
R

Rogério C. Wright

ConvidadoPresidente da Fraternidade de Descendência Americana
S

Scott DeVille

ConvidadoMusicólogo, historiador de jazz, acadêmico
S

Sunny

Convidado
V

Vincent

Convidado
Assuntos7
  • Festa Confederada Brasil-Estados UnidosOrigens e tradições · Mudança de nome e símbolos · Debate público e protestos · Lei de proibição de símbolos · Fraternidade de Descendência Americana
  • Bandeira ConfederadaSímbolo de ódio racial · Ku Klux Klan · Charlottesville · Debate sobre uso
  • Guerras Americanas HistoricasCausa da guerra · Batalha de Gettysburg · Narrativas históricas · Robert E. Lee · Stonewall Jackson
  • Empreendedorismo de migrantes e refugiados no BrasilMotivações da vinda · Santa Bárbara d'Oeste · Sancoes Americanas · Vila dos Americanos · Projeto de branqueamento
  • Racismo e segurança pública no BrasilInocência racial brasileira · Cinismo histórico · Legado da escravidão · Cemitério de escravizados
  • Rodadas BrasileirãoVisita à cidade homônima · Chafariz barroco · Relação Brasil-Indiana · Getúlio Vargas
  • Memórias e IdentidadeReinterpretação histórica · Conflito de narrativas · Potencial da nação americana
Transcrição224 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
BVBranca Vianna

Oi, eu sou a Branca Viana e eu queria te fazer um convite. Pela primeira vez depois de um bom tempo, o Rádio Novelo Apresenta vai fazer um evento ao vivo e dessa vez vai ser no auditório do MASP, o Museu de Arte de São Paulo. Vai ser uma noite de histórias inéditas com direito à participação especial do coletivo Meio Lab, e de música ao vivo da Stella Neghini. Isso que você tá ouvindo, aliás, é música que ela compôs para acompanhar nosso último ao vivo na Flip de 2024.

Eu tô avisando com antecedência para você se programar, de repente até programar uma viagem para São Paulo, se você não morar lá. Vai ser na quarta-feira, 2 de setembro. A pré-venda dos ingressos começa no dia 3 de agosto só para membros do Clube da Novelo, que ainda ganham um desconto de 30%. A venda geral abre no dia 7 de agosto. Todo mundo aqui tá muito animado para esse encontro com os ouvintes e para contar várias histórias estranhas, para não perder o costume. A gente te espera lá!

?Voz B

Novelo.

BVBranca Vianna

Tá começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Às vezes, por trás de um sonzinho que aparece num podcast, tem uma luta tremenda que o ouvinte não escuta. Essa é a Flora Thompson Devaux negociando com o pai dela num dia de junho de 2021.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Em busca de um som. Era eu, meu pai, a Paula Scarpin e duas irmãs minhas, a Cília e a Sani, que na época estavam com 14 anos. A gente estava no carro tentando gravar um clichê sonoro, aquele sonzinho do GPS que indica que um podcaster está pronto para pegar a estrada e fazer uma investigação. Porque dessa vez achei que a gente merecia. Are you ready? Ready?

?Voz B

Yes.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Só que esse era um carro alugado que meu pai simplesmente não tava conseguindo dominar. A gente estava meio boba, meio eufórica, porque fazia muito tempo que a gente não se via. Na pandemia, eu fiquei no Brasil e a minha família ficou nos Estados Unidos, cada um no seu canto. Só que em 2021, quando nasceu a minha primeira sobrinha, a primeira neta da família, eu e a Paulinha não aguentamos e fomos passar uma temporadinha lá. E virou uma grande reunião familiar, regada a vacinas e máscaras.

Por causa do trabalho do meu cunhado, a minha sobrinha nasceu em Indiana, na meiuca dos Estados Unidos. Eu nunca tinha pisado lá antes. E eu nem posso dizer que eu conheci muito do estado naquele tempo, além do caminho entre o apê alugado e a casa da minha irmã, a Milia. Mas em algum momento de tédio, a Paulinha abriu o Google Maps e começou a olhar pras cidades ao redor da gente. Tinha uns nomes engraçados. Popcorn. Mecca. Santa Claus.

Montezuma. Parecia que o povo de Indiana tinha uma cabeça bem criativa. Ok, eu tô prestes a clicar em ir. Ok, espera pra ele parar de voltar. A Paulinha foi passando o mapa e lendo: Buda, Indiana. Alaska, Indiana. Edinburgh, Indiana. E aí ela viu: Começando a rota para o Brasil. Prossiga até a 3ª Rua, depois vire à direita. Tá bom, obrigada a todos! Aquele dia, a gente ia para Brazil, Indiana. Entre descobrir Brazil e conhecer Brazil, a gente levou algumas semanas.

Isso porque a minha carteira de motorista tinha vencido e não tinha muita gente na família com disposição pra dirigir uma hora em direção ao nada. Nesse ínterim, teve um dia em que eu e a Paulinha fomos fazer compras no mercadinho da cidade onde a gente estava. A gente engatou um papo com o dono, que quis saber de onde a gente era. A Paulinha falou Brasil e ele, ah, aqui pertinho. What did you put as the destination?

BVBranca Vianna

Just Brazil?

?Voz D

Brazil.

FTFlora Thomson-DeVeaux

That's all I did. Daí chegou meu pai Scott Deville, musicólogo, historiador de jazz, acadêmico em férias de verão e o mais importante, um homem com carteira de motorista válida e disposição para o convencimento. Why why did why is everyone in the car for an hour-long drive to Brazil? I have nothing better to do. E junto com ele duas adolescentes profundamente entediadas. Eu só tô Tô torcendo pra todo mundo não ficar com muita raiva quando a gente chegar no meio do nada.

Foi uma hora de paisagem monótona, com plantações que meu pai achou que talvez fossem de milho, mas ninguém tinha certeza.

?Voz E

Muito milho.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Talvez muito milho. Talvez muito milho. Primeiro, a Paulinha avistou uma caixa d'água com o nome da cidade. Depois, uma rua chamada Brasília. Brasilian? Yeah, with a Z. With a Z?

?Voz D

Yeah.

FTFlora Thomson-DeVeaux

That's weird. Mas fora isso, a gente não detectou muita brasilidade na paisagem. Até que.

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FTFlora Thomson-DeVeaux

Um chafariz barroco imenso numa pracinha qualquer, como se tivesse caído do céu de Minas Gerais diretamente para o meio de Indiana. O que era quase o que tinha acontecido. From the Republic of Brazil, a token of friendship. To her namesake, the city of Brazil, 1954. Era uma réplica dos chafariz dos contos de Ouro Preto, um presente do governo brasileiro para o chará municipal dele, que tanto hoje quanto em meados dos anos 50 tinha uma população de menos de 10 mil pessoas.

Chegaram a convidar o Getúlio Vargas para a inauguração do chafariz, mas entre o convite e a cerimônia Teve o pequeno percalço da morte dele. A segunda parada na nossa viagem era a Sociedade Histórica de Brazil, onde a gente foi recebida pela Diane.

BVBranca Vianna

Se você tiver qualquer pergunta, é só dizer, oi, Diane.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Diane, você se importa se a gente gravar o áudio?

?Voz F

Ok.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O museu ficava no antigo prédio dos Correios e tava abarrotado de velharias meio aleatórias. A Diane conhecia tudo.

BVBranca Vianna

I have a question.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Are you Brazilian? Yes, yes I am. Daí eu perguntei se eles costumavam receber muitos Brazilians do Brasil.

BVBranca Vianna

Brazil, South America?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Yes, yes we do. Na verdade já faz uns três anos que não vinham brasileiros para Brazil, mas bota a pandemia nessa conta aí. Não sei se reparou que em Brazil o Brasil tem um sobrenome. Tem Brazil, que por lá significa o município. E aí tem o país Brasil, que se chama Brazil South America. Não que eles não saibam quem chegou primeiro.

BVBranca Vianna

Porque nós somos nomeados por Brazil South America. É daí que nós pegamos o nome.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Brazil surgiu na década de 1830.

BVBranca Vianna

E você sabe a história de como nós viramos Brasil?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Antes de virar município, Brazil, Indiana era uma fazenda. E quando o dono foi botar nome no lugar, sei lá, pra registrar a propriedade em alguma papelada, Diz que ele vinha lendo muitas notícias sobre o Brasil no jornal.

BVBranca Vianna

Porque tava tendo muitas brigas por lá.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Por aqui, no caso. Daí o cara falou: pronto, bota o nome da fazenda de Brazil. Aparentemente ele não tinha nenhum medo dessas brigas todas serem um augúrio ruim pra fazenda dele. A Diane não lembrava qual briga teria botado o Brasil nos jornais do meio dos Estados Unidos. Pela década, a gente chutou que talvez tivesse sido a Revolução Farroupilha. Eu fiquei entrevistando a Diana um pouco, que disse que não acompanhava muito as notícias de Brazil South America.

Eu perguntei se ela ia querer conhecer o Brasil algum dia. Ela disse que sim, só não tinha ganhado na loteria ainda. Mas que ela provavelmente não ia, porque ela não jogava na loteria. Depois ela buscou uma pastinha pra gente, cheia de notícias sobre a relação entre o Brasil E o Brasil. Brasil, S.A. South America. Tem o Brazil Daily Times. Brazil, South America and Brazil Indiana fast friends now. Ali nos anos 1950, quando o chafariz foi inaugurado, falou-se bastante nessa aliança transnacional entre os Brasis.

Mas dá pra dizer que não avançou muito a partir dali. Gente, Brazil Indiana tem um ouro olímpico. Dava pra ter vasculhado mais ainda dos arquivos de Brazil, mas não consegui segurar a minha família ali mais do que uma meia hora. Os adolescentes já tinham se refugiado nos celulares e meu pai já tinha aprendido mais do que ele queria saber sobre talvez o filho mais famoso de Brazil, um cara chamado Jimmy Hoffa, que foi um sindicalista que se meteu com o crime organizado e sumiu em 1975.

Bom, tinha ele e tinha um cara que popularizou a pipoca de micro-ondas. Sunny, what did you think of Brazil?

?Voz 1

It was okay.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Quando a gente gravou esses áudios, eu não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Eles ficaram guardados durante um tempão, até que o destino quis intervir. Quase 5 anos depois da excursão pro Brasil, eu e a Paulinha acabamos embarcando em outra viagem com meu pai. E essa ia mostrar uma face bem mais estranha, perturbadora na verdade, da relação entre os Estados Unidos da América e os Estados Unidos do Brasil.

BVBranca Vianna

Essa história a Flora conta na sequência, assim que a gente voltar do intervalo.

?Voz H

Se você já assistiu Raw ou Titani, sabe que a diretora Julia Ducournau não brinca em serviço. Ela, que já levou a Palma de Ouro, está de volta com Alpha, uma experiência visceral que mistura body horror, com uma alegoria social poderosíssima. No filme, a gente acompanha uma metrópole marcada por um vírus misterioso que causa danos irreparáveis às pessoas. No meio disso tudo, a relação super complicada entre uma mãe solo e a filha de 13 anos, vivida pela atriz Melissa Borros.

Tudo embalado por uma trilha sonora que explode nos ouvidos. Alpha já está disponível para streaming na MUBI. É aquele tipo de filme meio perturbador que a gente adora recomendar aqui na Novelo. Acesse mubi.com/radionovelo e assista ao melhor cinema, começando com 30 dias grátis.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Your present position is indicated by the white light on the map. The town of Gettysburg is north of us, about one mile. Esse é um som que ao longo de boa parte do século 20 botou milhões de crianças e adolescentes para dormir. É a narração de uma maquete no museu que não existe mais, foi demolido. Imagine uma maquete mostrando uma região rural com matas, plantações, casinhas, morrinhos. Tem tipo uma arquibancada construída ao redor dele.

Isso porque a maquete era enorme, uns 8 metros de cada lado. E essa paisagem toda era cheia de luzinhas, lampadinhas que acendiam e apagavam enquanto essa voz ia contando uma história pras pessoas sentadas na arquibancada. A sala ficava com a luz baixa e a apresentação durava uma meia hora. Super dava pra um cochilo. Era a história de uma grande batalha que durou 3 dias. E conforme as lampadinhas se acendiam e apagavam, dava para acompanhar as tropas subindo o morro, descendo o morro, se encontrando, um flanco batendo em retirada, outro avançando.

Que eu saiba, eu só fui nesse museu uma vez. Ele ficava a uma horinha da casa da minha avó, na Pensilvânia. Mas antes mesmo de eu ir para o museu, eu já conhecia a história da batalha. Aconteceu em 1863, 2 anos depois de vários estados declararem independência independência do resto dos Estados Unidos e deflagrarem a Guerra Civil. Teve batalha para tudo quanto é lado nesse tempo. As tropas dos Estados Confederados chegaram a sair do Sul e entrar nos estados do Norte.

O ponto mais longe que eles foram foi justamente Chambersburg, onde a minha avó nasceu. Eles queimaram a cidade. Logo depois, os dois lados se encontraram em Gettysburg e, ao longo de 3 dias, a maré da guerra virou. Eu lembro de assistir as luzes piscando na maquete e torcer pra onda azul varrer as luzinhas amarelinhas do mapa, pra vingar a conflagração da cidade da minha avó. A gente se divertia com pouco nos anos 90. Eu também lembro que meu pai fez questão da gente andar pelo campo de batalha depois, apontando pra algumas ladeiras e planícies aleatórias, e que eu achei isso chatíssimo.

A Guerra Civil era uma história que não me dizia muita coisa naquela época. Mas aos poucos ela foi chegando mais perto de mim. Eu nasci e cresci no estado da Virgínia. Quando eu tava no ensino fundamental, tinha um feriado em janeiro chamado Lee-Jackson King Day. O Lee era o Robert E. Lee. O Jackson era o Stonewall Jackson. 2 generais confederados, nascidos no meu estado, cujos aniversários tinham virado feriado na virada do século anterior.

Daí, em 1983, o aniversário do Martin Luther King, que eu acho que dispensa apresentações, o aniversário dele, que também caía no final de janeiro, virou um feriado federal. Em vez de tirar os generais confederados, ou de fazer em dias diferentes, sei lá, O governo estadual teve a brilhante ideia de juntar num único dia. O feriado da dissonância cognitiva. Comemorando os aniversários de quem lutou pra acabar com a segregação racial junto com quem lidou centenas de milhares de tropas em defesa de um regime escravocrata.

O feriado de Lee-Jackson-King Day existiu durante quase duas décadas na Virgínia. E eu acho que isso resume um pouco a relação do lugar onde eu cresci com o seu próprio passado. Quando eu nasci, já fazia mais de um século que a guerra tinha acabado. Mas quase no dia seguinte da rendição do Sul, se não antes, começou a guerra das narrativas. Em 1866, saiu um livro chamado The Lost Cause, ou A Causa Perdida, de um jornalista também da Virgínia chamado Edward Pollard.

A causa perdida é a ideia de que os estados do Sul só estavam reagindo às agressões do Norte, Que o conflito tinha tudo a ver com soberania e nada a ver com escravidão. Ou, ok, talvez até pudesse ter a ver com escravidão, mas que o pessoal do Sul tratava muito bem os escravizados. Que talvez eles estivessem até fazendo um favor pra eles. Eu tive professor na escola que contou uma versão dessa história. Eu tive também professor que contradizia o que tava nos livros didáticos.

Que contava que vários estados do Sul eram tão dependentes da escravidão Tanto economicamente quanto politicamente, que eles não conseguiam ver um futuro sem ela. Apesar da minha origem, eu nunca me identifiquei com o lado confederado e nem com a narrativa da causa. Os meus pais nasceram no Norte e eu sempre senti que eu era sulista por CEP, não por identidade. Uma vez, numa prova estadual, eu percebi que a resposta certa, entre aspas, era que o único motivo da Guerra Civil tinha sido a soberania dos estados.

E eu prefiro deixar essa questão em branco, pra não ter que acertar errando. Passados mais de 150 anos, os Estados Unidos não superou esse trauma de adolescência, esse conflito que mudou a cara do país e deixou mais de 600 mil mortos. Todo ano tem gente que veste os uniformes do Norte ou do Sul e que vai nos campos de batalha pra reensinar os principais conflitos. E todo ano a guerra sobre os motivos da guerra também é reensinada, de uma forma ou outra.

Essa é uma história que sempre me acompanhou, mas eu não esperava que ela fosse me acompanhar até o Brasil.

?Voz E

Bom, o primeiro ponto que eu vou lançar pra gente debater é o mito que os Estados Confederados da América lutaram para preservar a escravidão e que os Estados Unidos da América para acabar com a escravidão.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é uma gravação de 2017. Quem tá falando é o Marcelo Dodson, da Fraternidade Descendência Americana. E sim, por mais que tivessem abolicionistas do lado do Norte, é consenso que eles lutaram principalmente pra trazer os estados do Sul de volta pra União. Mas eu não tô aqui hoje pra reencenar essa discussão historiográfica.

?Voz 2

Tá, mas o Norte foi o bonzinho? O Norte queria independência dos negros? Não, também não. Eu concordo com você. Isso não tava posto Todos os dois lados, as duas regiões se beneficiaram dessa instituição, tanto o Norte quanto o Sul. Então não é essa a nossa questão, não é?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Cláudia Monteiro, membro da UNEGRO, a União de Negras e Negros pela Igualdade. O motivo desse debate que você tá ouvindo é outra coisa: o uso da bandeira confederada. Anos atrás, eu tinha ouvido falar numa cidade no Brasil, no interior de São Paulo, onde se comemorava a história do lado vencido da Guerra Civil, com direito a bailes com roupas de época num palco pintado com a bandeira confederada. Me deu uma mistura de fascínio e repulsa pensar num lugar, no país que eu escolhi, onde a bandeira confederada fosse hasteada.

Era um símbolo que me dava nos nervos toda vez que eu via nos Estados Unidos. Mas até recentemente eu não tinha entendido que tanta gente no Brasil não tinha ideia da história por trás dela.

?Voz E

O que foi a bandeira confederada? Ela foi criada Esse é o Marcelo Dodson de novo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Nesse debate, ele explica que o que a gente chama hoje de bandeira confederada foi uma das bandeiras de batalha dos exércitos do Sul. Ela era mais usada pelos regimentos do General Lee. Mas quem conhece a bandeira provavelmente conhece por outro motivo, que não passa pelas minúcias da vexilologia bélica do século 19.

?Voz E

Aqui é a Ku Klux Klan, né? Uma foto de 1920. Vocês podem ver que não existe bandeira confederada, né? A bandeira confederada só foi instituída pela Ku Klux Klan a partir de 1948, quando os direitos civis dos negros começaram a bater.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A Ku Klux Klan, você deve saber o que é. Uma organização que nasceu pra promover o terror racial, inclusive através de linchamentos, nos anos depois da Guerra Civil. E que ressurgiu ao longo de vários momentos do século 20. Entre os anos 40 e 60, ela passou a usar a bandeira confederada, resgatando a luta dos estados separatistas para confrontar tentativas de integração racial.

?Voz E

Então, nessa época que foi adotada a bandeira confederada como símbolo de supremacia branca—

FTFlora Thomson-DeVeaux

Para Cláudia, não fazia muita diferença em qual década a bandeira tinha sido eleita símbolo oficial do ódio racial.

?Voz 2

Sendo assim, uma bandeira apropriada por grupos radicais e que passa a simbolizar o ódio racial Ela se torna ofensiva, pois representa um legado de ódio e opressão. Então a gente pensa que talvez não tenha esse propósito, mas na própria simbologia há uma violência.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Na época desse debate, a Festa Confederada tava acontecendo há mais de 30 anos. Podia ter gente que torcia o nariz, podia ter quem preferisse não frequentar, mas muita gente via como só mais uma festa. Sabe, tem a festa do morango, a festa do peão, a festa da confederada. Vira e mexe vinha um pesquisador ou outro, ou jornalistas de veículos estadunidenses, para cobrir esse fenômeno curioso, esse mar de bandeirinhas confederadas tão ao sul do antigo sul dos Estados Unidos. Mas em 2017, a coisa pegou fogo.

?Voz B

Quando vem uma mídia dos Estados Unidos para cá, a gente responde bem água com açúcar não. Pra não ficar tendencioso. Porque a gente não quer que o olho de todo mundo vire pra gente e venha prejudicar não só a gente como a cidade. Pra você ter uma ideia, quando saiu o debate lá de Charlottesville, nossa, recebi ligação de tudo quanto é canto.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Charlottesville. No dia 12 de agosto de 2017, a cidade onde eu nasci e cresci virou metonímia de um acontecimento histórico. Isso porque bem no meio da cidade, num parquinho sem muitos atrativos, um parquinho onde eu já passei várias tardes com amigos, tinha uma estátua pra qual eu nunca tinha dado muita atenção. Era um homem a cavalo, como tantas estátuas. E como tantas estátuas de homens a cavalo, ela tinha uma história feia por trás.

A estátua era do General Lee, figura máxima do Exército dos Estados Confederados. E a cidade tinha resolvido que não passava uma mensagem legal deixar ela ali no centro da cidade, do lado do fórum. Eles começaram a falar em tirar a estátua dali. E isso bastou pra ela virar ímã de manifestantes de extrema-direita. Eu acompanhei a invasão da cidade de longe, de Chicago, onde eu tinha viajado pro casamento da minha irmã, Amília. Naquela sexta-feira, teve gente marchando com tochas pelos gramados da universidade onde meus pais davam aula.

No dia seguinte, enquanto a polícia cruzava os braços, o pau comeu entre essa turma e um pessoal da cidade que resolveu fazer uma contramanifestação. Na hora em que parecia que o pior tinha passado, um sujeito acelerou com o carro e atropelou um grupo de contramanifestantes, machucando dezenas de pessoas e matando uma. Pela terceira, quarta ou quinta vez naqueles últimos anos, O mundo parou para discutir a violência racial nos Estados Unidos. E esse pedaço do interior de São Paulo tinha muito interesse nela.

?Voz B

Para nós é uma grande reunião de família que com o tempo foi crescendo e divulgando de tal forma que chegou no tamanho que está hoje.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Esse é o João Leopoldo Padovesi, que na época era presidente da Fraternidade de Descendência Americana. Ao longo dos anos, a FDA teve que explicar muitas vezes as origens da festa confederada.

?Voz B

Só para você entender, sabe qual que é o símbolo mais importante que a gente coloca na festa? A bandeira do Brasil. Primeiro a do Brasil, depois dos Estados Unidos, depois do Estado de São Paulo, Santa Bárbara, Americana, Fraternidade e a Confederada. A Confederada a gente coloca como lembrança porque foram os confederados que vieram para essa região.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O exército do General Lee se rendeu em abril de 1865. E isso desencadeou uma pequena migração de algumas milhares de pessoas.

?Voz B

Vieram fugidos, vieram descontentes com o que aconteceu lá, porque o Norte só ganhou a batalha porque o soldado Sherman, que fez a marcha no mar, entrou por trás da guerra e começou a matar as famílias lá atrás. Então o Sul se rendeu porque tava ficando Impossível, sei lá, para o campo de batalha sem ter o que comer e tal, vê sua esposa, seus filhos, sua família, sua fazenda queimada, sua esposa estuprada. Esse é o sentimento que o Sul ficou. Eu não vou ficar nesse país com um presidente que apoia isso.

FTFlora Thomson-DeVeaux

É verdade que a guerra deixou um rastro de destruição imensa pelo Sul. Mas desde a década de 1840, tinha sulistas mapeando o Brasil como um possível destino quando a escravidão acabasse nos Estados Unidos. Porque já tava claro que o sistema ia cair em algum momento. E o Brasil tinha um atrativo óbvio. Um militar confederado escreveu assim: Meu objetivo não é introduzir a escravidão onde ela não existe. O Brasil é tão escravista quanto a Virgínia.

Pro Império Brasileiro, os confederados também eram um bom partido. Agricultores que pudessem cultivar algodão e, ao mesmo tempo, contribuir pro branqueamento da nação. Que era um objetivo de várias políticas públicas da época. Então o governo brasileiro ofereceu terras baratas, até pagou a passagem de alguns confederados. Teve um grupo que, depois de uma viagem complicada e longa até o Rio, recebeu uma visita do próprio imperador.

Aliás, nessa mesma época, o governo norte-americano chegou a propor o estabelecimento de uma colônia de negros libertos na Amazônia. Ao que o governo brasileiro disse: Não, obrigado. Os confederados chegaram a estabelecer colônias em vários lugares. Teve uma no vale do Rio Doce, no Espírito Santo, outra perto de Santarém, no Pará. Mas a única que durou foi em São Paulo, na cidade de Santa Bárbara do Oeste. Com o tempo, essa comunidade foi apelidada de Vila dos Americanos. E já no século 20, ela virou a cidade de Americana.

?Voz 2

No nosso grupo, nós temos lido sobre a história dos Estados Unidos e especificamente a história aqui da formação da cidade de Santa Bárbara, sob a ótica de uma escritora, a Judith McKnight Jones, com essa proposta mesmo da alteridade, de se reconhecer no outro, conhecer o outro, enxergar o outro e criar essa empatia.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu também li o livro da Judith McKnight Jones, uma descendente confederada que nos anos 1960 se pôs a contar a história da comunidade. Ela reconta histórias de naufrágios, de penúria, de mortes por doença e também de dificuldades mais comezinhas, que nem aprender português e se acostumar com a comida.

?Voz 2

Ah, mas tiveram uma trajetória difícil, sim. Não foi fácil para eles se estabelecerem em outro país, em outra região, depois de uma derrota, de perder muitos entes queridos, separar. Não foi fácil, mas foi uma opção.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O título do livro da Judith é Soldado Descansa. Que é um poema que aparece no epitáfio de um veterano confederado. Os confederados da região de Santa Bárbara tiveram que fazer um cemitério próprio porque os padres não permitiam que protestantes fossem enterrados com católicos. Isso logo nos anos 1860. E aí, um século depois, na época em que o livro da Dudes saiu, tava tendo um movimento de retomada dessa memória confederada paulista.

A Fraternidade de Descendência Americana foi fundada em 1954 com o objetivo de salvaguardar a memória dessa imigração. No estatuto da fraternidade diz que a organização não pratica qualquer tipo de discriminação, mas de qualquer forma achei curioso que ela tenha surgido justamente no ano em que a Suprema Corte dos Estados Unidos finalmente derrubou a legalidade da segregação racial. Mas voltando, a FDA foi fundada em 54, o Livro da Ajuda até de 67, e em 80 teve a primeira festa no Cemitério dos Confederados.

Ela foi feita para arrecadar fundos para manutenção do lugar. Lá no começo ela se chamava Festa Country, tipo um churrascão beneficente. Era continuidade ou a expansão de uma tradição que vinha lá do século 19. Dos descendentes irem para o cemitério, celebrarem um culto e ter um almoço depois. Mas aos poucos ela foi mudando e crescendo. Em 92, ela virou a festa confederada Brasil-Estados Unidos.

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FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é uma reportagem feita por uma TV canadense. Nesse ano. Dá para ver um lugar bonito, verde, cheio de mesas, com o pessoal comendo milho verde, tomando Coca, fritando frango. Mas também dá para ver uma coisa que ia levantar muita sobrancelha na minha cidade: jovens e velhos vestidos como figurantes de E o Vento Levou e tocando e dançando a modo do Velho Sul. Detalhe: não é que o pessoal passou essa tradição de geração em geração, tá?

Tem um estudo de um antropólogo que diz que os jovens americanos e americanas tavam meio inseguros, tiveram que aprender a dançar o square dance com a ajuda de pesquisadores de Campinas. Esse som já é de uma filmagem de 2003, em que o baile tá mais elaborado e acontecendo num palco pintado com a bandeira confederada. Ele é de um documentário curtinho chamado A Faint Sound of Dixie. Da Juliana Hoskinson, em que ela entrevista vários descendentes.

Um deles diz que eles agora são os únicos confederados de verdade, porque eles saíram dos Estados Unidos para não ter que bater continência para bandeira ianque. O último depoimento é de outro descendente falando sobre a bandeira, dizendo que ela que é melhor representa a história dos antepassados Então eu queria deixar uma indagação, se vocês puderem responder depois. Não chama atenção quando nós vemos algo marchando ao lado de grupos radicais e racistas, será que nós não deveríamos repensar o porquê dos seus vários significados?

Aqui, de volta ao debate de 2017, na Câmara Municipal de Santa Bárbara do Oeste. Depois de comentários de representantes do movimento negro, de um núcleo LGBT, de dois membros da fraternidade, eles abriram para o público fazer perguntas.

?Voz 2

Que memórias vocês querem trazer para os seus descendentes com a bandeira?

?Voz 1

Por que não poderia ser uma E várias das perguntas eram parecidas.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Algumas pessoas compararam a bandeira confederada com a suástica, um símbolo muito antigo cultuado por várias religiões, mas que hoje no Ocidente ninguém usa de forma inocente.

?Voz E

A bandeira confederada não é símbolo de racismo, tá? Porque eles não defenderam, eles defenderam a independência. Tendência que influencia várias questões, como é o mercado econômico.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Esse de novo é o Marcelo Dodson, da Fraternidade.

?Voz E

O que acontece é que essa virulência dos Estados Unidos, por isso que eu volto a dizer que é um problema americano, não é uma bandeira, mas é uma sociedade que tá doente, né? Por causa da velocidade de comunicação, o que vem é a grande influenciação de uma mídia americana para cá. As pessoas começam ouvir CNN, ainda me cita, trazem essas respostas, o mesmo repertório americano para cá e repete o mesmo mantra. Então quem não estuda, quem não tem a curiosidade ou não gosta de entrar e ver os outros vídeos, ela não vai conseguir ter uma outra linha de raciocínio, porque toda a mídia repete a mesma coisa.

Ela é lógica, racional, mas ela não é verdadeira, porque o racismo é americano, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ali no debate teve quem lembrasse que o racismo não é exclusividade dos Estados Unidos. Unidos e que em 2010 teve briga de skinheads na festa confederada. Depois disso, ela até parou durante um par de anos. Então, por mais que vocês não tivessem vínculo com os skinheads, o que que eles foram fazer na festa? Uma das últimas linhas de argumentação da FDA ia no caminho da liberdade de expressão.

?Voz E

Eu não gosto da bandeira do Corinthians, ele não gosta da bandeira do Santos, mas ele respeita. Isso é democracia.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Quando a Cláudia retomou a palavra, ela quis rebater essa metáfora específica.

?Voz 2

Quando você empunha a bandeira, você vai sofrer. Você pode deixar a bandeira. O negro não. O estigma tá na cor da pele.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O debate naquele dia durou mais de 2 horas e meia. Por mais que ninguém parecesse ter exatamente mudado de opinião, as pessoas pareciam contentes de terem aberto a conversa.

?Voz 2

Bom, eu também quero agradecer a presença de todos, né? Estava um sábado à tarde aqui falando de história, né? São só os abnegados.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Um dos abnegados que tava ali naquele dia era uma aluna de ensino médio. Ela não levantou a mão, não fez nenhuma pergunta, mas tava ouvindo muito atentamente. E você é nascida e crescida em Santa Bárbara?

?Voz D

Sim, sou barbarense. Brinco que eu sou nascida e me criando, né? Eu tô com 27 anos, então tô me criando aqui em Santa Bárbara ainda.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Esther Moraes. 3 anos depois daquele debate, ela virou vereadora, a mais jovem da história da cidade, aos 21 anos. E praticamente na primeira semana do mandato dela, em janeiro de 2021, ela propôs um projeto de lei para alterar o Código Municipal de Posturas. Essa lei ia proibir o uso de símbolos, nomes, bandeiras ou outras formas de expressão que, entre aspas, incitem ou representem ofensa à diversidade racial, cultural ou religiosa, assim como as que façam apologia de movimentos ou instituições identificadas com ideais racistas ou segregacionistas.

?Voz D

E esse regramento, ele é inserido para festas públicas que dependam de alvarás, como é o caso da festa da FDA, bares, espaços de lazer como um todo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O projeto de lei não fala especificamente da Festa Confederada, mas ela é mencionada na justificativa do projeto. A Ester tinha se aproximado do movimento negro já na adolescência e essa tinha sido uma promessa de campanha dela: fazer alguma coisa a respeito dessa festa e desse símbolo.

?Voz D

Porque na verdade ele não era só usado na festa, ele também era usado em outros ambientes. A gente tinha ele no anfiteatro da prefeitura, Na Câmara Municipal, quando tocava o hino nacional e passava ali um slide, né, com o hino nacional, passava bandeira.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Lá em 2017, parece que teve mais uma conversa daquelas entre a FDA e o negro. E depois nada. No ano seguinte, teve a festa confederada normalmente. Só que dessa vez, pela primeira vez, com uma pequena manifestação na porta. Esse som é de um documentário chamado A Controversa Confederada, da Silvia Mota e do Denis Carvalho. Em 2019, a manifestação foi maior, umas 50, 60 pessoas. A Esther tava lá. E digamos que o pessoal da festa confederada não recebeu muito bem a contraprogramação.

?Voz D

Eles passavam rápido com um carro pra levantar poeira, eles passavam e tinham pessoas gritando macaco.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Tudo isso pra dizer que o diálogo que começou no pós-Charlottesville não foi muito longe. A festa ia acontecer de novo em abril de 2020, mas ela foi cancelada por causa da pandemia. E aí, no ano seguinte, a Ester aproveitou a pausa pra propor o PL. Mas não é porque não tava tendo a festa que a cidade tava disposta a abrir mão dela.

?Voz D

Foi terrível. Todas as coisas de ruim que podiam ter acontecido aconteceram. Eles passaram a procurar a lesbe, o Congresso Nacional. Eles chegaram inclusive a trazer o Eduardo Bolsonaro aqui para cidade para fazer a defesa dessa festa.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Depois da visita do filho 03 do então presidente Bolsonaro, a Esther diz que os ataques escalonaram.

?Voz D

Eu me lembro de andar a pé da Câmara até minha casa, porque é muito próxima, e eu não poder andar a pé porque a gente tinha pessoas o tempo todo nos xingando, de fato.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Era a primeira vez que Santa Bárbara do Oeste estava sendo obrigada a debater se ainda era apropriado exibir essa bandeira. Então é preciso que fique estabelecido aqui que a chegada dos estadunidenses que vieram para nossa região nos anos 60 vieram em busca da continuidade do seu projeto, um projeto ultraliberal, um projeto escravocrata. Esse é o historiador Sidney Aguilar falando numa audiência pública sobre o PL em meados de 2022.

Teve várias apresentações sobre a história e o significado da bandeira. Um pesquisador norte-americano descendente de confederados, o Jordan Brasher, participou virtualmente. Todos podem ter direito às suas tradições, mas tem que ser com humildade e respeito pela história e, na minha opinião, sem símbolos de opressão.

?Voz 2

Se querem rememorar as suas expressões, as suas tradições culturais, Nós não nos opomos a isso, desde que se faça com honestidade histórica, desde que sejam abolidos qualquer símbolo que possam segregar e oprimir a memória e a trajetória do nosso povo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Cláudia Monteiro, que tava no debate de 2017 representando a Unegro. Dessa vez, a FDA não mandou nenhum representante, só uma carta afirmando que as festas deles não usavam símbolos racistas.

BVBranca Vianna

A Fraternidade de Descendência Americana não irá participar desta audiência pública, cujo objetivo é difamar nossa comunidade perante a sociedade barbarense.

FTFlora Thomson-DeVeaux

No final da audiência, alguns vereadores presentes se manifestaram. Já participei de quase todas as festas dos confederados, mas nem passava pela minha cabeça que em relação ao símbolo que tinha atrás, né, nesse símbolo, algo que realmente Aí traz a questão do racismo. Então conta com meu apoio, tô junto com vocês.

?Voz B

Eu confesso também que eu não conhecia nada acerca da bandeira, confesso que vou repensar tudo e fico muito feliz na terça-feira que a senhora nos convidou para essa audiência pública, que foi uma aula.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Pouco tempo depois, o projeto foi para votação.

?Voz D

A gente teve somente um vereador aí bolsonarista que se retirou de plenário e não quis votar.

?Voz K

O projeto de lei está aprovado com 17 votos favoráveis.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa nova lei não acabava com a festa.

?Voz D

Nosso debate nunca foi sobre a questão da festa. A gente nunca foi contrário à festa. Foi sempre contrário ao uso do símbolo confederado.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Mas durante um tempo parecia que o evento talvez fosse indissociável da bandeira. A Festa Confederada ficou um bom tempo sem dar nenhum sinal de vida. Em algum momento, a FDA procurou a Câmara de Vereadores.

?Voz D

Então eles já chegaram com algumas propostas. Eles pediram, eles disseram que iriam retirar o símbolo do chão, que tem um símbolo que era pintado. Eles também queriam retirar das vestes, porque existiam nas vestes isso. E também iam deixar de hastear, né, nas bandeiras. Mas o movimento negro fez um pedido para que eles não comercializassem também essas bandeiras, porque elas eram comercializadas. E aí a gente teve um outro embate porque eles não queriam deixar de comercializar. E depois disso a gente não sentou mais.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Aí, em maio de 2026, a FDA anunciou que a festa ia voltar, agora com outro nome. Ia ser a Festa dos Americanos. Em vez de ser em abril, o mês em que a Guerra Civil começou e acabou, ia ser no dia 4 de julho. O aniversário da independência dos Estados Unidos. No aniversário de 250 anos, no caso. Eu perguntei pra Esther como que ia ser essa comemoração repaginada.

?Voz D

Bom, não vou saber porque eu não irei de jeito algum nessa festa. Mas ela tá muito quieta, sabe?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ela me explicou que, segundo a interpretação dela da lei, se a bandeira confederada fosse exibida, vendida, ou mesmo se deixassem entrar uma pessoa usando roupas com símbolos confederados, isso ia infringir a lei.

?Voz D

Eu entendo que se dentro dessa festa esse símbolo estiver presente em algum momento, essa festa precisa ser multada e imediatamente cassado o seu alvará.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu evitei entrar em contato antes com a fraternidade porque eu não sabia como eu podia ser recebida. Aquele acadêmico estadunidense, o Jordan, chegou a ser barrado de fazer pesquisa na festa e ele pareceu um pouco traumatizado com a experiência toda. Mas eu aproveitei para conversar também com a Cláudia Monteiro, da Unegro, para saber o que ela tava achando da volta da festa.

?Voz 2

Viver em Americana, em Santa Bárbara, nunca foi muito fácil para nós. A gente pauta esse debate sobre a questão racial, a questão étnico-racial na cidade de Americana, mas sempre foi muito pesado.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A Cláudia tem uma pesquisa sobre a trajetória da população negra em Americana, que passa tanto por um estudo de uma casa grande dali da cidade quanto de um mapeamento de de lideranças negras. E ela sente que a história da imigração estadunidense é endeusada a ponto de apagar a presença negra na região. Tem todo esse debate em torno dos cemitérios confederados, mas tem relatos orais que teria um cemitério de escravizados ali perto dessa casa grande.

Só que ninguém sabe direito onde fica. Naquele mesmo ano do debate de Charlottesville, a prefeitura de Santa Bárbara do Oeste tinha revogado o feriado de 20 de novembro. De novembro, por exemplo. O Dia da Consciência Negra só virou feriado nacional alguns anos mais tarde. A gente conversou durante um bom tempo e deu para sacar que a festa confederada era meio que a ponta do iceberg. Eu perguntei se ia ter alguma mobilização da Unegro no dia 4 de julho.

?Voz 2

Ir para frente da festa, nós não iremos mais.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ao mesmo tempo, ela não tava nada feliz que o evento tinha ressurgido das cinzas.

?Voz 2

Ah, mas vocês eram a favor de retirar simbologia, mas agora retirando a simbologia confederada tá tudo bem, tá tudo certo. Não é tão simples assim.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Obviamente ela era a favor do PL, mas ela não queria que a mudança, a retirada da bandeira, a troca de nome tivesse acontecido assim.

?Voz 2

Por conta de uma lei, né, que não nos permite usar a simbologia confederada, porque senão estariam usando. Então a gente não conseguiu êxito, é isso que eu falo, nós não conseguimos aprofundar O nosso debate para que ele pudesse fazer minimamente essa mudança de mentalidade.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Por isso ela estava desencorajando as pessoas da cidade de irem na festa. Mas eu avisei para ela que eu ia, para tentar entender o que que a festa era hoje com meus próprios olhos. Are you recording me?

?Voz H

Really?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Yes, I'm gonna explain. Depois de vários anos sem vir para o Brasil, meu pai tinha marcado uma viagem. Ele ia vir sozinho pela primeira vez. Meu plano era levar ele para ouvir música, para conhecer o sítio, mas agora a gente ia ter que mudar de rota porque o dia da festa caía bem no meio da viagem dele. Felizmente, assim como ele topou ir para Brazil Indiana, ele topou ir para Americana Brasil para a gente passar 4 de julho mais esquisito das nossas vidas.

Pelo menos, como ele disse, a gente ia estar bem longe das comemorações patrocinadas pelo Trump em Washington.

BVBranca Vianna

Daqui a pouquinho, depois do intervalo, a Flora Thompson DeVoe continua contando essa história.

?Voz J

No tempo que você vai levar para ouvir esse anúncio, uma mulher em algum lugar do Brasil tá denunciando uma violência que sofreu. Só que denunciar é só o começo. Depois disso vem a parte que, para muitas mulheres, é a mais complexa: reconstruir a vida. E o que muda o jogo nessa hora é ter alguém do lado, uma psicóloga que ajuda a organizar os pensamentos e sentimentos, uma advogada que explica direitinho que caminho se deve seguir.

É exatamente isso que o Mapa do Acolhimento faz há 10 anos. E é aqui que você que tá me ouvindo entra. Se você é psicóloga ou advogada com experiência em questões de gênero, a gente quer a sua ajuda para caminhar com a gente. Estamos em busca de voluntárias para orientar as sobreviventes de violência que buscam instituição. Além de ajudar a mudar a história dessas mulheres, você vai fazer parte de uma rede enorme de profissionais trocando conhecimento e indicação.

E você nunca vai estar sozinha. A nossa equipe técnica e multidisciplinar tá pronta para te oferecer suporte em cada caso, sempre que precisar. Se você tem vontade de ajudar a reconstruir histórias que foram pausadas pela violência, faça parte da nossa equipe de voluntárias, visite mapadoacolhimento.org/voluntaria, sem acento.

?Voz K

Quem sobe pela primeira vez ao segundo andar do MASP encontra quadros que não estão pendurados na parede. Estão sobre cavaletes de vidro soltos numa galeria aberta onde você é livre para traçar o próprio percurso entre eles. Esse é o Acer em Transformação, A principal coleção do MASP, o Museu de Arte de São Paulo, que tem a coleção de arte europeia mais importante do Hemisfério Sul, com uma expografia pensada por Lina Bo Bardi.

Ali dá pra colocar lado a lado uma obra do Renascimento, do Barroco, da arte moderna e da arte contemporânea, estabelecendo um diálogo visual direto entre diferentes períodos. Os cursos de Histórias da Arte da Escola MASP ensinam justamente a notar os detalhes que costumam passar batidos e a conectar tempos e lugares que à primeira vista parecem distantes. Em agosto, o MASP oferece 4 perspectivas: Renascimento na Itália, Arte Moderna, Arte Contemporânea e Arte Latino-Americana.

As aulas são online, ao vivo e todas ficam gravadas por 30 dias para você assistir quando e onde quiser. Os cursos são independentes, mas podem ser cursados paralelamente. Ao fechar o pacote completo, um dos cursos sai de graça. E assinantes do Clube da Novelo ganham mais 10% de desconto. Histórias da Arte na Escola MASP. Inscreva-se no site do museu. O link tá na descrição do episódio.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Tá de pé, hein? Podemos ir?

?Voz B

Podemos?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Na verdade, eu preciso fazer uma pequena errata. A gente só entrou na cidade americana no segundo dia da viagem, sem querer, quando a gente perdeu uma saída. Quase todo o tempo que a gente passou foi no município de Santa Bárbara do Oeste mesmo. O Cemitério Confederado faz parte do território barbarense. A gente chegou lá no dia 3 de julho, na véspera da festa, e foi conhecer um museu no centrinho da cidade. Museu de Imigração.

O museu é um predinho que já foi a Câmara de Vereadores e já foi uma cadeia. No primeiro andar tem um corredorzinho resumindo a história do município. No meio da escada, a gente já deu de cara com um quadro mostrando os generais enfileirados. Eu já tinha lido vários estudos sobre o acervo do museu, então eu senti como se já tivesse visitado lá mesmo antes de ir. O museu passou por uma reforma recente, mas nada do conteúdo da exposição parecia ter mudado.

Em duas salas grandes dedicadas à história, às virtudes da imigração norte-americana, só tinha a imagem de uma pessoa negra, um homem identificado como escravo. Também tinha algumas fotos da festa confederada. Meu pai disse que era um pouco perturbador ver pessoas que pareciam ter saído direto do Alabama dos anos 1860. A gente fez algumas perguntas sobre a festa para Jânia, funcionária que tava ali, mas ela disse que não tava sabendo de nada.

Na verdade, não, assim, sempre trazem um folder, né, daquele jeito, mas não chegou nada para o Pet Love. Ah, é? Não posso falar a menor para você, ela tá aqui coordenadora e ela fica ali sempre do menor. E ela também é descendente, então talvez ela saiba mais ainda um pouco. Você é Natália de quê?

?Voz F

Natália da Cruz de Novaes.

FTFlora Thomson-DeVeaux

E os sobrenomes americanos da sua família eram quais? Você sabe?

?Voz F

Da minha avó era Weisinger.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A avó da Natália nasceu no Brasil, filha de imigrantes dos Estados Unidos.

?Voz F

A minha avó gostava bastante que a gente frequentasse, né, lá o cemitério, até porque ninguém da família, né, do lado dela ficou como sobrenome. Então ela fazia questão que a gente frequentasse lá o cemitério e as festas.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A Natália descreveu esses eventos como uma reunião da comunidade, uma festa americana, no sentido que o pessoal fala de um encontro onde cada um leva um prato.

?Voz F

Mas antigamente era só para os descendentes mesmo, as famílias, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Daí, ao longo dos anos 80, 90, 2000, foi crescendo cada vez mais. A ponto de ter 3 mil pessoas na última edição. A Natália disse que ela foi secretária da fraternidade na época em que começaram os debates sobre a bandeira. Então perguntei para ela o que que ela achava.

?Voz F

Eles não gostam, né, é por esse contexto do racismo que existiu, né, a gente sabe que teve, mas a gente não pode falar que nem muitos argumentos que Todos os americanos são racistas, né? Isso que é ruim, né? Isso não é uma verdade.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ela disse que as pessoas não conheciam direito a história.

?Voz F

Então é melhor não debater com pessoas que não têm conhecimento, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Segundo ela, até por isso a fraternidade teria deixado de usar a bandeira. Eu perguntei como ela estava se sentindo sobre a volta da festa nessa nova versão.

?Voz F

Tomei ali em cima do muro, né? Tô muito, muito ansiosa para a volta da festa, mas ao mesmo tempo também a gente fica com receio, né? O que pode acontecer, né? De repente esse pessoal vai lá fazer protesto de novo, mas espero que não, né? Espero que não.

?Voz 2

Senhora, a senhora aceita o nosso panfleto? É sobre a Festa Confederada. Só já ouviu falar da festa?

?Voz B

Já.

?Voz 2

Só já frequentou alguma vez? Já, bem.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Cláudia Monteiro, que eu encontrei na praça central de Santa Bárbara logo depois da nossa conversa com a Natália. A Uneuro tinha resolvido não fazer nenhuma manifestação na festa em si, mas eles decidiram fazer uma ação de conscientização na véspera.

?Voz 2

Lê, você vai entender. Nós somos o movimento negro e a gente explica por que que nós somos contrários a essa festa.

FTFlora Thomson-DeVeaux

O panfleto do do movimento eram pouco vagos sobre a festa em si, até porque nem eles sabiam como ia ser. Mas o ponto principal é que eles eram contra uma festa que romantizasse um estilo de vida sulista baseada na escravidão. Você acha que as pessoas vão conseguir entender isso?

?Voz 2

Eu acho que não, muito na superficialidade ainda, mas precisa ser um grande debate, um debate histórico. Por isso que não pode ser uma festa fugindo desse contexto histórico, ela precisa trazer esse contexto histórico.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Uma coisa que eu, negro, queria combater era a tendência de muita gente de ir na festa de farra sem ter noção de onde ela veio.

?Voz 2

Mas eu acho que tem a ver com essa falta de consciência histórica mesmo, sabe? De não conhecer a história mais profundamente.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Achei engraçado e comentei com ela que a Natália tinha dito a mesma coisa uma meia hora antes.

?Voz 2

Então quando dizem que a gente é contrário à bandeira porque nós não conhecemos a história, Muito pelo contrário, a gente foi a fundo conhecer essa história. A gente não tá aqui sem entender, a gente tem um embasamento histórico pra dizer, ó, por que que nós somos contra.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu não queria atrapalhar a panfletagem, porque se tem uma coisa do que as pessoas fogem mais que panfleto, é uma pessoa com panfleto e outra com microfone na mão. Então eu me despedi da Cláudia e das companheiras dela. Eu tava me sentindo bem esquisita de ir na festa que elas estavam protestando contra. Mas ela me incentivou.

?Voz 2

A pesquisa é isso, né? Ter a visão do todo. Não dá para conhecer só um lado. Como aqui no Museu da Imigração, nós só temos um lado da história, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

É verdade. A gente acabou dormindo em Campinas para visitar os amigos e pegou estrada de volta para Santa Bárbara na manhã seguinte. Eu perguntei para o meu pai como ele estava se sentindo no aniversário de 250 anos dos Estados Unidos. Ele disse que ele tava feliz de estar longe do calor, ao que eu acrescentei: e pelo menos aqui você tá num país democrático. Eu aproveitei o trajeto para perguntar o que que ele lembrava do bicentenário da Independência Americana em 1976.

Ele tinha 21 anos, tinha acabado de se formar na faculdade e tava razoavelmente otimista sobre os Estados Unidos naquele momento. Tinha acabado a Guerra do Vietnã, o Nixon tinha sido defenestrado da presidência, tendências positivas. Em 76, o meu pai passou o 4 de julho no meio de um parque nacional. Eu perguntei o que que ele tava achando de passar os 250 anos num cemitério confederado. Ele disse que era um bom lugar pra estar.

E eu disse que era um bom lembrete do quão complicada era a nossa história. Foram muitas horas de estrada. Bem mais do que o planejado, aliás, porque o nosso voo do Rio pra Campinas foi cancelado. A gente acabou indo de carro mesmo. E eu passei um bom tempinho discutindo com meu pai sobre o que os Estados Unidos foram, são e o que eles acham que são. Ele disse uma coisa que eu nunca tinha ouvido dele, mas que talvez eu só nunca tivesse perguntado: que apesar de tudo, ele tem uma fé quase religiosa no potencial da nação de cumprir suas melhores promessas, de viver de acordo com seus ideais.

I just just feel in my bones that America will be what it's meant to be, but there. There are plenty of reasons to be concerned these days. Eu falei que eu não compartilhava dessa fé. Ele disse que sabia disso. Logo antes da gente entrar numa estrada de terra ao sudoeste do município de Santa Bárbara do Oeste, e vi um cara parado ao lado de uma caminhonete com uma camiseta que fundia a bandeira do Brasil. Com a bandeira confederada.

Já me deu um certo medo, sem saber se ia ter mesmo fiscalização do que entrar no evento, se podia dar barraco. A estrada era estreita e foi ficando congestionada, com carros parados de lado a lado, bem mais do que eu esperava. A gente teve que estacionar meio longe, pegar uma van do evento até a entrada do cemitério em si. Um dos nossos companheiros de van era um rapaz que tava usando um boné MAGA, do Make America Great Again.

Eu, meu pai e a Paulinha só nos olhamos. A gente não falou nada. Na fila pra entrar no cemitério, eu puxei papo com a família na nossa frente, perguntando se eles vinham sempre. Sim, sim, a nossa família é descendente aqui e aí a gente sempre vem, todas as festas, vários anos a gente já veio. Já sepultado aí. Então a gente vem sempre. Essa é a Mariana e o Charles Volgan. Perguntei se eles iam sentir falta da bandeira confederada no evento e eles disseram que não.

?Voz K

Famílias se juntarem, cuidar do cemitério, né, os entes que já foram sepultados aí.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Enfim, eu tava de olho numa família na frente deles em que várias crianças estavam usando camisetas com a bandeira confederada. A gente ia ter que passar por uma revista E eu fiquei me perguntando o que que ia acontecer. Alguns minutos depois, a resposta veio: nada, todo mundo entrou. Bom, ninguém viu problema nas camisetas, mas um dos organizadores veio perguntar do meu gravador. Ele tava com uma bandeira imensa amarrada no pescoço, não a confederada, atual, Yankee, quase igual ao do Norte na Guerra Civil, só com mais estrelas.

?Voz E

O problema é o seguinte, que citam muito nosso problema contra a CIA e tudo mais, então aqui tinha um De jeito nenhum, entendeu?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu não tinha mandado mensagem antes, nem feito credenciamento, justamente porque eu não ia poder me comprometer a falar da festa sem falar de racismo. Mas eu falei que eu queria ouvir o lado deles e ele deixou a gente entrar. As primeiras pessoas com as quais a gente conversou ali dentro não eram descendentes de confederados, mas os dois se diziam simpatizantes. Do que exatamente não ficou muito claro. Um cara disse que ele curtia história americana e achava importante essa guerra que tinha unificado a nação. Até aí eu tava achando o discurso bem nortista.

?Voz E

Mas eu acho que a causa confederada era muito além das questões, era um estilo de vida, né? Era uma outra proposta numa outra época, né? Eu acho que a reinterpretação no momento atual é uma injustiça com o que houve no passado.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Depois de conversar com ele, eu fui bisbilhotar a lojinha da festa pra ver se estavam vendendo merchan com a bandeira. Eu não vi, ou se vi, tava discreto, mas a Paulinha lembra de ter visto um ímã. Ali na tenda, conversei com uma professora de inglês chamada Sílvia. Ela era de origem italiana, mas disse que sempre defendeu a festa.

?Voz 2

Eu fiz um artigo até que foi no jornal a favor da festa, e na internet tiveram 210 pessoas se manifestando a favor.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ela comparou com outras festas de comunidade comunidades imigrantes, os japoneses, os suíços. Eu não falei, mas pensei que essas festas não costumam comemorar movimentos separatistas do Japão ou da Suíça. A Paulinha e eu deixamos meu pai estacionado numa mesa na sombra e fomos atrás de um cara que já me era familiar, perguntando se ele topava conversar.

?Voz B

Quem quer conversar, a gente conversa, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Mas assim, eu gosto de conversar com pessoas inteligentes, com dados históricos, e falar sobre Esse é o João Leopoldo Padovesi, que eu já conheci do vídeo do debate da FDA com o Inegro de 2017.

?Voz B

Eu não peguei o sobrenome americano, mas eu sou descendente direto de pelo menos 2 soldados confederados.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A família dele sempre frequentou a festa.

?Voz B

Mas eu com 13, 14 anos eu já vinha na festa. Com 15, 16, minha mãe já botou eu de soldado para dançar, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Veio aqui completar, e aquela coisa de completar, nunca mais A mãe dele organizava as danças típicas em trajes de época. Ele disse que na última festa teve 100 pessoas dançando no palco, mas que esse ano não ia ter nada porque tinha sido tudo em cima do laço. O João Leopoldo foi presidente da fraternidade por 8 anos. Ele entrou em junho de 2016 e pouco depois ele já teve que cuidar de um enterro no cemitério.

?Voz B

Meu irmão gêmeo Gêmeo idêntico, né? Então foi uma coisa meio doida assim. Daí foi meio que um choque. Você percebe, putz, essa é a missão, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Cuidar do cemitério da comunidade, no caso. Lembrando que a festa surgiu para arrecadar fundos para manutenção do cemitério.

?Voz B

Em 2017 já começaram alguns debates, né? O que eu falo, não foi muito debate, né? Acho que foi coisa mais agressiva, porque debate você tem duas pessoas, duas ou mais pessoas inteligentes conversando.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu disse que eu tinha achado as conversas tranquilas, e respeitosas, mas ele discordou.

?Voz B

Mas é difícil ter conversa, é difícil ter conversa, porque você vem com fatos mesmo, realmente você vem com fatos e as pessoas sempre vão usar a mesma coisa. Mas, cara, putz, entendeu? Vamos ver, ah, você discutia Ebraninho, quando o Ebraninho comprou uma parte do país ele era bom, comprou uma parte do país ele é ruim, entendeu? Você leu os dois lados? Você entendeu? Segunda Guerra Mundial, por que que aconteceu? Você leu os dois lados?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Porque alguma coisa justifica o cara ter feito o que Essa música ao fundo era da cerimônia de achamento das bandeiras do Brasil, do estado, dos municípios, da fraternidade, dos Estados Unidos, sem a bandeira confederada. A gente conversou mais um pouco sobre esse debate, sobre como se lida com a memória, e aí eu pedi para ele mostrar o cemitério para gente. A gente tinha se afastado um pouco da festa que tava acontecendo numa clareira.

E vindo parar num bosquezinho onde tinha uma capela de tijolos e um campo de túmulos atrás, com o fundo meio tomado pelo mato.

?Voz B

Meu irmão, meu pai, atrás minha avó, meu vô.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ele mostrou pra gente o primeiro túmulo do cemitério, da Beatrice Oliver, que chegou dos Estados Unidos já com tuberculose, morreu em julho de 1868 e foi enterrado nos fundos do terreno do marido.

?Voz B

Aí começou As pessoas pediram também e deu origem ao cemitério.

FTFlora Thomson-DeVeaux

E a capela é de que ano mesmo?

?Voz B

1871.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu ouvi um rapaz falando que aquela ali é o túmulo do avô da Rita Lee. É esse?

?Voz 1

Você sabe?

?Voz B

A Rita Lee? A família dela é Jones. A família Jones tá pra lá.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ele não sabia dizer exatamente qual era o túmulo do antepassado imigrante da Rita Lee. Lee, aliás, foi uma homenagem do pai dela pro general confederado. A Rita chegou a frequentar a festa quando ela era criança e escreveu nas memórias dela que achava tudo pra lá de surreal. No final da caminhada, perguntei pro João Leopoldo se a gente tinha deixado de tocar em algum ponto importante.

?Voz B

E o que eles fizeram pelo Brasil foi tão grandioso que é até uma surpresa isso não ser ensinado hoje nas escolas, né? Porque você tem toda A questão do Brasil ser uma potência agrícola surgiu, iniciou aqui com esses imigrantes que trouxeram tudo isso.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu não sei mensurar a influência dessa pequena comunidade de imigrantes no desenvolvimento do Brasil enquanto potência agrícola. Eu sei que eles cultivaram algodão, que trouxeram noz-pecã, um tipo de melancia, um tipo de arado mais moderno. Também sei que estabeleceram a primeira escola protestante do país.

?Voz B

Então você tem tudo isso que não é explicado, não é contado, por sabe-se lá por quê. Porque entrou de umas décadas para cá, entrou um bando de gente lá que acha que os Estados Unidos é o mal do mundo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu pensei que os males do mundo são muitos e nem todos têm a ver com os Estados Unidos, mas que talvez fosse mais fácil reconhecer as contribuições dessa leva de imigrantes se a memória deles não fosse tão atrelada à identidade confederada. A gente voltou para festa e foi dar uma circulada. De cara, eu vi o deputado federal Paulo Bilinski posando para fotos do lado de um obelisco com a bandeira confederada. Eu lembrei que o bisavô dele lutou junto com os nazistas contra a União Soviética e pensei que talvez por isso o João Leopoldo tivesse falado na Segunda Guerra Mundial.

Aí a Paulinha veio me contar que ela tinha ouvido pessoas falando inglês na fila do hambúrguer. Esse é o Vincent, que nasceu na Califórnia e veio morar em Americana por causa da mulher. Ele disse que não pensava muito na bandeira confederada, mas que tinha ficado feliz de ver numa festa de 4 de julho. Eu também conheci o Mike, que estava de professor visitante na Unicamp. E qual que é a sua relação com a bandeira confederada nos Estados Unidos?

?Voz B

Meu, minha relação, meu relacionamento é muito ruim. Na verdade, é bem óbvio, isso é racista e odeio.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Nos Estados Unidos, pessoas também falam assim, mas isso é parte da nossa história, que você quer deleitar nessa história, mas a verdade é: este tipo de história é racismo mesmo. Ele parecia ter uma relação parecida com a do meu pai com a bandeira, de ficar puto quando ele vinha nos Estados Unidos e só achar meio bizarro ver ela por aqui. A gente foi checar como é que tava meu pai e reparou numa mesa perto da dele. Você já veio aqui na festa?

?Voz 1

Primeira vez.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Você é daqui da região?

?Voz F

Moro nos Estados Unidos.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Noely, que é do Rio, mas mora em Nova York há mais de 50 anos. Ela disse que tinha vindo com amigas. Eu confesso que eu fiquei curiosa pra falar com ela porque ela era uma das poucas pessoas negras que eu vi no evento. Tinha um pessoal do movimento negro panfletando pra não vir na festa.

?Voz 1

Nessa festa aqui? É, eu não vi não.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ela perguntou por quê e eu dei uma resumidinha.

?Voz 1

Então, então por isso que não tem muito negro aqui. Ah, now I know.

FTFlora Thomson-DeVeaux

No final da nossa conversa chegou uma banda de jazz tocando Dixie, o hino não oficial dos Estados Confederados. Foi a primeira vez que eu vi meu pai entretido. Ele é historiador de jazz e correu lá pra fazer um vídeo. Eu já tava pronto pra picar a mula. Mas antes de ir, eu queria conversar com mais alguém.

RCRogério C. Wright

Meu nome é Rogério C. Wright. Hoje eu sou o presidente da Fraternidade de Descendência Americana. E estamos aí administrando essa festa bonita aqui pra todo mundo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu queria muito entender como a festa tinha feito essa transição. O que ela significava agora que ela não era mais confederada.

RCRogério C. Wright

Acho que a festa americana não representa mais porque Quando eles saíram dos Estados Unidos, já em 1866, os Estados Unidos já era unificado, né? Já não fazia mais, já não eram mais os Estados Confederados.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu perguntei se ele tinha estado na conversa com a equipe da vereadora Esther Moraes sobre a adequação da festa à nova lei. Mas ele disse que nem tava sabendo dessa reunião.

RCRogério C. Wright

Não, nós atendemos toda a lei. A lei diz que nós não podemos ter símbolos racistas, como você pode ver. Você tá vendo alguma coisa racista?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Ele não esperou minha resposta. Mas pela pergunta eu sabia que ele não tava vendo.

RCRogério C. Wright

Inclusive nós temos um parecer do Ministério Público que nós podemos utilizar simbologia como fins culturais. Então nós utilizamos com fins culturais, não como fim racista. Nós não somos racistas, nunca fomos, nunca pertencemos a nenhum grupo racista, nunca tivemos nenhum problema com outras etnias que viessem na nossa festa, muito pelo contrário, sempre tivemos apoio a toda a comunidade. Então é uma briga que não tem, não faz muito sentido pra gente.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu perguntei pra ele por que a bandeira confederada tava apagada do palco então.

RCRogério C. Wright

Na verdade, nós estamos, nós mesmos, estamos cada vez mais assim, queremos nos afastar um pouco da bandeira confederada porque ela foi usurpada por movimentos que não nos representam. Movimentos racistas que utilizam essa bandeira de forma errônea e acabam sendo confundidos com o nosso. Então, para você não ter a mesma embalagem de um produto ruim, você troca a embalagem.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa defesa eu já tinha ouvido e lido algumas vezes, que daria para separar o uso histórico do símbolo confederado das manifestações racistas posteriores que usaram ele como emblema.

RCRogério C. Wright

Minha esposa mesmo, ela é— o avô dela era negro. E não tenho problema nenhum com isso. Nós temos famílias que têm negros. A família do Crisp, por exemplo, teve 11 filhos com uma negra. E qual o problema?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Bom, no Velho Sul teria problema. Nem tão velho, na verdade. Teve estado onde o casamento interracial era ilegal até meados do século 20.

RCRogério C. Wright

Estados Unidos, você hoje, você anda por lá, você vê o negro negro e o branco branco. Você não vê a mistura. E nós não, nós somos um povo multicultural, nós temos de tudo.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Tá, mas isso quer dizer que esse povo multicultural teria o direito de achar a bandeira confederada?

RCRogério C. Wright

Eu acho que esse negócio de discriminação é muito ruim, muito feio, que não condiz, principalmente quando discriminam nós, que menos ainda temos a ver com a história, né?

?Voz 1

O Brasil tem muita dificuldade de dar nome aos bois. É como se fosse uma espécie de inocência racial que a gente tem. Mas eu acho que por outro lado também tem um, eu vou usar um termo um pouco pesado, mas um cinismo histórico, né, ao dizer isso. E claro que é um cinismo que é racista, né.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Essa é a Luciana Brito.

?Voz 1

Eu sou historiadora e professora da Universidade Federal do povo da Bahia.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu queria ter entrevistado a Luciana antes de ir para a região de Americana, mas afinal foi bom conversar depois para contar tudo que eu vi e ouvi.

?Voz 1

Eu acho impressionante na narrativa da festa confederada que, claro, né, uma lembrança, uma memória do sul dos Estados Unidos, mas é feita pela leitura de brasileiros, né, que são socializados na chave da democracia racial. Então eles estão ali performando um sul dos Estados Unidos que pensa abrasileirado, né, que pensa: não, esse não era nosso problema, não sei quem casou com não sei quem, a gente convive aqui.

FTFlora Thomson-DeVeaux

A Luciana estudou a migração dos confederados na tese de doutorado dela, que virou o livro O Avesso da Raça.

?Voz 1

Existem vários livros publicados no Brasil por descendentes de confederados e todos esses livros eles negam a escravidão motivo principal da vinda para o Brasil.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Daí, na pesquisa dela, a Luciana focou nas cartas de quem migrou.

?Voz 1

As motivações para a vinda para o Brasil eram muito, eram discutidas abertamente, não havia um tabu de se esconder porque que se vinha para o Brasil.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Dá para dizer que das cartas que você estudou, a maioria das pessoas expressavam de forma clara essa motivação predominante da manutenção da escravidão na vinda deles?

?Voz 1

Todas elas, todas elas, todas elas, todas elas expressavam o desejo de migrar para um lugar onde a escravidão continuasse. Eles sabiam que não iam conseguir restabelecer a escravidão nos Estados Unidos. Eles discutiam entre si que, olha, o Brasil vai continuar a ser escravista por muito tempo, e foi.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Tem um trecho de um livro publicado por um dos confederados que a Luciana estudou, o James McFadden Gaston, que diz assim: Embora a escravidão possa estar destinada a cessar no Brasil em algum dia futuro, por meio de uma emancipação gradual, os elementos da sociedade resultantes da supremacia do homem branco Jamais serão totalmente apagados do povo. Podia ser uma crítica contundente de racismo estrutural, mas aqui era um elogio.

?Voz 1

Um grande contra do Brasil era o fato dos negros nascidos no Brasil serem cidadãos. Então, isso não existia nos Estados Unidos. Cidadania para os afro-americanos só veio em 68. E aqueles que eram contra a vinda dos confederados para cá desde 1865 diziam: vocês estão indo para um país que não tem lei de segregação racial e onde os negros têm acesso a tudo, como eles diziam. Então é importante dizer que, claro que é um exagero. Quando essa notícia chega no ouvido dos abolicionistas negros, um Frederick Douglass diz: nossa, esse país é maravilhoso, não tem racismo lá.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Dessa vez podia ser um elogio, mas era para ser uma denúncia.

?Voz 1

Porque eles voltam dizendo e escrevem nos jornais: olha, aqui no Brasil a situação é horrível, as pessoas casam com quem querem, tem um monte de mulato aqui vivendo como se fosse branco. Porque muitos brancos no Brasil, no olhar do sulista, era negro, mestiço, era mulato, como eles chamavam, chamavam de mulato. A mistura racial brasileira é algo assim inadmissível para eles. Diz: não, a gente vai se contaminar com isso aqui. Se os Estados Unidos, se não tiver lei de segregação racial, vai ficar assim igual o Brasil.

A gente tem muito uma ideia do sulista como esse ser caipira do sul dos Estados Unidos, bronco, mas eles têm uma leitura de serem senhores de escravos transnacionais. Eles têm uma leitura da escravidão como algo global e eles se percebem senhores de escravos globais. Então eles migram para o México, para Cuba, para o Brasil. Isso aqui é um projeto que desde o século 19 é global, né, de inferiorizar as populações não brancas no mundo.

E um lugar mesmo de poder e supremacia, né? Por isso que a gente chama de supremacista branco. Então a bandeira do Sul, a bandeira confederada, ela não pode estar desconectada desse projeto que vem desde o século 19 e que ainda existe, né?

FTFlora Thomson-DeVeaux

Eu tava tão ocupado olhando para Santa Bárbara do Oeste que eu nem tinha visto essa notícia. Que naquele mesmo dia 4 de julho, enquanto a gente estava na Festa dos Americanos, no interior de São Paulo, centenas de homens mascarados de um grupo de supremacistas brancos marcharam pela capital dos Estados Unidos carregando bandeiras. Entre elas, é claro, tava a bandeira confederada. Nos anos 90, quando eu tava crescendo, a Guerra Civil tava no auge.

Não a guerra em si, óbvio, mas as reencenações dela. No aniversário de 135 anos da Batalha de Gettysburg, em 1993, 1998, tinha em torno de 30 mil pessoas, a vastíssima maioria branca, óbvio, vestidas de soldados, enfermeiros e capelães, refazendo os 3 dias que representaram o auge dos Estados Confederados e também o começo da derrocada deles. Quando eu tava pesquisando para essa matéria, eu reli um livro também de 98 chamado Confederates in the Attic.

É de um jornalista chamado Tony Horwitz, que passou um ano rastreando a memória viva da Guerra Civil. Naqueles anos, parece que tava difícil conseguir gente que quisesse vestir a farda azul das tropas federais. Todo mundo queria o romance, entre todas as aspas, de lutar pelo lado dos rebeldes, sem entender, ou sem procurar saber, pelo que eles lutaram. Em 2017, saiu uma matéria do mesmo repórter dizendo que nos últimos anos as tropas de reencenadores tinham sofrido baixas imensas e que num mundo pós-Charlottesville pouca gente acharia razoável brincar por aí com a bandeira confederada.

Eu li no livro do Tony Horwitz que logo depois da guerra muitos veteranos confederados, inclusive o ex-presidente dos Estados Confederados, Falaram que essa bandeira nunca mais devia ser achada, que tava na hora dela descansar. Quem sabe um dia ela ainda vai.

BVBranca Vianna

Essa foi a Flora Thompson DeVoe. E essa história teve apoio do Brasil Lab do Instituto de Estudos Internacionais e Regionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Uma iniciativa acadêmica que considera o Brasil um nexo planetário vital. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Você já sabe que toda quinta tem episódio novo no ar. Quem é membro do Clube da Novelo consegue ouvir um dia antes e sem anúncio. E tá aqui um pouco do que vai ter na semana que vem.

FTFlora Thomson-DeVeaux

Meu nome é Leandro. Minha história começou já de uma maneira meio cinematográfica, porque eu nasci no dia que caiu um avião em Guarulhos.

BVBranca Vianna

A gente tá sempre trabalhando pro Clube da Novelo ser cada vez mais legal. Além dos episódios adiantados e sem anúncio, além dos encontros virtuais e da bolsa que vem com assinatura anual, a gente já produziu vários episódios bônus. E daqui a pouco vai ter um episódio saindo do forno justamente sobre essa história confederada. Se quiser fazer parte do clube, no nosso site você acha todas as informações. A gente já volta. No post desse episódio no nosso site tem fotos da Festa dos Americanos em Santa Bárbara do Oeste e links para muita pesquisa sobre o assunto, para quem quiser cair nesse buraco do coelho igual a Flora.

Tem documentário sobre a polêmica da bandeira, tem aquelas filmagens nas festas confederadas de anos atrás. Pra quem for muito fissurado, dá até pra assistir a apresentação lá sobre a Batalha de Gettysburg. E tem um ensaio que a Flora publicou na Revista Piauí em 2017, logo depois do que aconteceu em Charlottesville. Se você nunca parou pra dar uma olhada no nosso canal no YouTube, fica a dica. Além de todos os episódios do Rádio Novelo Apresenta, a gente publica lá várias playlists de histórias avulsas.

Vale a pena ouvir de novo e vale mandar para aquele amigo que ainda não conhece o podcast. Tem ainda a aba Comunidade, onde a gente coloca fotos relacionadas às histórias. Para quem é de redes sociais, a gente tá no @radionovelo no Instagram, no Twitter, no Threads, no Bluesky e no TikTok. Para quem é de email, dá para mandar críticas, elogios e sugestões de pauta para o email apresenta@radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou um cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar o seu próprio podcast ou para anunciar nos intervalos dos nossos episódios.

É só escrever para gente em comercial@radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devaux. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Paulo Vitor Ribeiro, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes.

A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitzky. Esse episódio teve desenho de som da Mariana Leão, que também assina a mixagem com a Bia Guimarães. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.

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