Maria e Luiza
A busca para provar que elas existiram.
No primeiro ato: a existência (ou não) de uma heroína. Por Vinicius Luiz.
No segundo ato: a história de uma mãe, contada pelo filho. Por Thiago André.
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Palavras-chave: Maria Felipa, Independência da Bahia, 2 de julho, Itaparica, Felipe Peixoto Brito, Luiza Mahin, Luiz Gama, Sabinada, Revolta dos Malês, História Preta
Branca Viana
Thiago André
Bruno Lima
Felipe Peixoto Brito
Vinicius Luiz
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Rádio Novelo. Tá começando o Rádio Novela Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Se você parar alguém na rua e perguntar qual é o dia da Independência do Brasil, a resposta vai ser 7 de setembro.
Óbvio.
A não ser que essa rua fique na Bahia. Nesse caso, a resposta pode vir com um pouco mais de contexto. Tipo, sim, Dom Pedro deu o Grito do Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822. Mas o Brasil só ficou independente mesmo em 2 de julho de 1823. Isso porque as tropas portuguesas não foram todas embora logo depois do Grito do Ipiranga. Em algumas partes do Brasil, e especialmente em território baiano, ainda rolaram meses de disputa entre os brasileiros e os portugueses, que queriam manter pelo menos um pedaço da colônia.
Do lado brasileiro, tinha gente da elite lutando, mas tinha também gente do povo: indígenas, negros, caboclos, escravizados, livres, homens e mulheres também.
Eu acho que eu nunca tinha ouvido falar muito assim, muito em Maria Filippa, até e lá na Ilha de Itaparica.
Em 2024, o Vinícius Luiz, aqui da nossa equipe, viajou para a Ilha de Itaparica, que fica na Baía de Todos os Santos e que foi um ponto estratégico nessa guerra.
Eu fui para lá para fazer um outro podcast e aí uma pessoa lá da ilha foi fazer um tour com a gente pela ilha para mostrar os principais pontos e tudo mais. E aí chegou na estátua que tem lá, um monumento na verdade, que tem em homenagem à Maria Filippa. Que era em comemoração aos 200 anos da Independência da Bahia.
É uma estrutura de concreto pintada de azul com a imagem de uma mulher negra de turbante e escrito Maria Filippa. Essa homenagem fica numa praça de Itaparica. O Vini já sabia que a Maria Filippa era uma das heroínas da Independência na Bahia, ao lado da Joana Angélica, uma freira que foi assassinada pelos portugueses, e da Maria Quitéria, que tinha até se vestido com roupa masculina para lutar no exército. Mas até esse dia ele conhecia Maria Filippa praticamente só de nome mesmo.
E ali em Itaparica ele ouviu que ela era descendente de sudaneses e que ela foi marisqueira e capoeirista. Que ela cumpria a função de vedeta na Guerra da Independência, que era quem vigiava o movimento dos portugueses no mar para avisar as tropas brasileiras. Que ela tinha comandado um grupo de 40 mulheres e que esse grupo tinha conseguido incendiar 40 barcos portugueses. Mas a história mais famosa sobre ela era outra.
Dá surra de cansanção nos portugueses.
É uma história que também envolve um grupo de mulheres numa praia.
A história lá conta que ela e as outras mulheres seduzem os portugueses que estão chegando pra batalha. Os portugueses desistem de batalhar pra poder responder à sedução e tomam uma surra de cansanção.
Cansanção é uma planta urticante que dá uma coceira danada. Dizem que a surra delas nos portugueses foi tão forte que chegou a desfalcar o lado inimigo. E esse episódio acabou entrando para os livros de história.
Eu fiquei fascinado, eu falei, nossa, que legal, né, que ela bateu surra de cansação nos portugueses, que ela queimou 40 barcos, que ela foi essa heroína. E aí eu dei uma pesquisada no Google Li mais coisas sobre ela. E aí fomos seguindo e a gente chegou em um outro lugar lá. E lá nesse outro lugar tava um cara que a primeira coisa que ele foi contar sobre Maria Filippa— eu não sei se ele foi provocado ou se ele já chegou falando, eu não lembro— mas ele já falando assim: não, porque tem um papo aí que a Maria Filippa não existe.
Aí eu já fui, meu primeiro choque, eu falei: como assim uma pessoa não existe? Como ela fez isso tudo e não existe?
O Vini sentiu como se ele tivesse levado um tombo. Ele tinha acabado de ser apresentado aos grandes feitos da Maria Filippa, que aliás é homenageada em nome de rua, de praça, de escola, e agora estavam dizendo que a própria existência dela era um fato meio bambo.
Aí depois ele já veio trazendo de volta, falou: não, ó, ela existe, mas essas, todas essas coisas que contam sobre ela são mentira. Porque ela participou da Guerra da Independência, mas não tem cabimento ela ter feito nada disso, de dar surra de cansanção nos portugueses. Não faz sentido ela ter queimado 40 barcos e isso não ter registro, porque todos os barcos que foram destruídos estão lá registrados. Enfim, ele foi enumerando.
O Vini ficou com uma pulga atrás da orelha, duas pulgas na verdade. Primeiro, por que que a história da Maria Filippa dividia tanta opinião a ponto de ter gente questionando se ela era mesmo uma figura histórica ou um personagem de ficção? Segundo, se a vida dela tinha lacunas tão importantes, por que que ela aparecia com tantos detalhes nos livros e nas histórias que circulam por aí, especialmente em Itaparica?
O que me incomodou foi pensar, e depois eu fui procurar mais materiais sobre ela, é porque que eles entram no nível de detalhes sobre a vida dela que não faz sentido para uma pessoa que até você não tinha uma confirmação da existência. Então, tipo assim, que diferença faz dizer que ela era marisqueira? Que diferença faz dizer que ela participava da caça às baleias? É um incômodo assim que me dá.
Sinceramente, eu que também entrei nessa história assim como você, muito crítico Isso com muita ressalva, justamente pra não...
Bom, não era pra mim que o Vini tava contando tudo isso.
Mas diante da grandeza daquela história, eu fiquei assim, cara, me levou pra esse lugar de reflexão do por que que eu duvidei?
Por que que eu duvidei?
Qual foram os motivos? Será que foi só...
A gente te apresenta já já o dono dessa voz, que aliás é bem possível que você já tenha reconhecido. No episódio de hoje, a gente tem duas histórias que se cruzam e que de certa forma se completam. As duas já deixaram pulgas atrás de muitas orelhas ao longo de muito tempo. Mas aos poucos elas vão mostrando pra gente o que que tá escondido por trás desse tanto de dúvida. No primeiro ato, o Vinícius Luiz volta na história da Maria Filippa 2 anos depois daquela viagem pra Itaparica, pra tentar entender o que de fato se sabe sobre ela e se o incômodo dele com o jeito que essa história é contada tem cabimento ou não. Ele assume o comando logo depois do intervalo.
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Quando eu tava em Itaparica, eu ouvi dizer que tinha um cara que tava atrás de documentos pra provar aquilo que o povo baiano já dava como certo: que Maria Filippa tinha existido sim, que ela tinha vivido sim nessa ilha, e tinha lutado na Guerra da Independência. Me falaram que esse cara não tava lá na ilha naquele momento, que ele tinha viajado pra Portugal pra fazer uma parte dessa investigação. Mas eu não esqueci o nome dele.
O meu nome é Felipe Peixoto Brito, eu sou natural aqui da ilha de Itaparica, tenho 32 anos, 33 anos vai fazer.
Talvez você já conheça um pouco da obra do Felipe, porque ele colaborou com a banda Baiana System. 10 anos atrás, mais ou menos, teve um show da banda em Itaparica. E teve uma hora que o cantor Russo Passapulso gritou pra multidão assim: Viemos trazer a antropofagia pra vocês! O Felipe tava assistindo ao show e ele gritou de volta na hora: Ela nasceu aqui! Querendo dizer que não era o baianacista em que ia apresentar antropofagia pra um lugar onde um fidalgo português foi devorado em 1547.
O Felipe é técnico em telecomunicações, mas ele sempre foi envolvido com as atividades da ilha. Ele fundou lá um movimento social e ambiental chamado Maré de Março, e foi por causa desse movimento que ele começou a pesquisar a história da ilha por conta própria. Logo depois disso, ele decidiu fazer faculdade de história. Foi por isso que o Felipe tava com a resposta na ponta da língua para o pessoal do Baiana System. Resposta que garantiu o convite para ele colaborar no álbum seguinte da banda.
E foi nessas pesquisas que o Felipe chegou nos principais personagens da ilha, como Maria Filipa.
Logo na primeira pesquisa a gente se encontra com todas aquelas referências que foram catalogadas.
Eram bem poucas as referências sobre ela, na verdade. Uma é do historiador Ubaldo Osório, o avô do escritor João Ubaldo Ribeiro, que escreveu A Ilha de Itaparica: História e Tradição. No livro, ele conta que os habitantes da ilha fizeram um abaixo-assinado em 1905 para pedir que algumas ruas ganhassem o nome das pessoas que lutaram na Guerra da Independência.
Desde 1905, uma rua do centro histórico de Itaparica chama Maria Filippa. O Baldo também conta que ela morava na Rua da Gamileira e que ela teria morrido em 4 de janeiro de 1873 ou 1849, que depende, que numa edição do livro ele dá uma data, na edição dá outra.
A outra fonte que fala sobre Maria Filippa é o escritor Xavier Marques, no romance O Sargento Pedro.
E é importante dizer que Xavier Marques escreveu um romance histórico, que na segunda edição do livro, em 1922, centenário da Independência, tá lá nas notas de rodapé que os episódios de Maria Filippa são reais.
A nota de rodapé diz isso mesmo, que os eventos listados ali são, entre aspas, autênticos e verificáveis. Ele só não apresenta nenhuma fonte, dificultando essa tal verificação. No livro, a Maria Filippa é descrita como uma mulher, palavras dele, gorda e colossal. Ela aparece atacando um português depois da guerra, num gesto de vingança pela forma como os portugueses tratavam os brasileiros. E tem ainda outra referência importante sobre a Maria Filippa: o trabalho da educadora Enicleide Vasconcelos Farias.
Annie Claydes escreveu um livro a partir dos registros orais que existiam sobre a Maria Felipa. Mas em paralelo com estas poucas referências, corre entre algumas correntes da historiografia aquela ideia de que Maria Felipa nunca existiu. Tem historiador que fala que ela seria uma invenção popular, uma fantasia dos itaparicanos, de uma lenda reivindicada como verdade, talvez na intenção de dar um nome e uma biografia para uma heroína negra, Já que essas mulheres foram tão apagadas do passado do Brasil. Mas essa era uma ideia que o Felipe não comprava muito.
Então eu parti dessa documentação já conhecida, da documentação histórica que eu encontrei sobre os personagens da ilha, sobre a história administrativa e política do município.
O primeiro passo foi ir atrás de documentos sobre o nascimento da Maria Filippa.
Era muito difícil encontrar o batismo. Se ela nasceu antes de 1800, os registros se tornam bastante escassos na ilha. Houve uma mudança de freguesia também no período. Muitas coisas que dificultam essa coisa de certidão de batismo.
O Felipe tentou encontrar variações do nome dela, mas também não achou nada. E tinha ainda o fato de que nem todo documento sobre Itaparica tava em Itaparica.
Então, pra encontrar as coisas sobre a ilha, você não tinha que pesquisar necessariamente sobre Itaparica, mas sim sobre os indivíduos. As pessoas que detinham terra e algum tipo de poder, comércio na ilha de Itaparica. E eu comecei a fazer essa biografia coletiva através dos personagens da Guerra da Independência, os que tinham nome, né, nome e sobrenome: Francisco Xavier de Barros Galvão, Antônio de Souza Lima, Bernardino Ferreira Nóbrega.
Todos homens com registros provando que eles existiram. A Maria Filippa não tinha registro de nascimento, de batismo, de casamento, de óbito. Ela só existia na memória do povo ou talvez na imaginação dele. Foi aí que um historiador de Salvador falou para o Felipe dar uma olhada nos processos judiciais da época.
Então eu passei a dar atenção a esses processos e listar todos os processos que tinham no arquivo público sobre Itaparica. É aí que eu vejo em um catálogo um processo de uma Filipa Maria. Filipa Maria era o nome lá da queixosa e do queixoso Rodrigues Manuel. Pô, não existe ninguém com o nome Rodrigues, é Manuel Rodrigues. E se o dele tá trocado, da Filipa também tá trocado.
Era um processo de 1834.
Uma mulher denuncia um homem por agressão física. Esse homem chama outras 6 mulheres para serem testemunhas e uma dessas testemunhas dizem que foi Maria Filipa que bateu nele primeiro. No desenrolar do processo Ele bateu na filha dela primeiro, a Maria Roberta, e ela, em defesa da filha, bate nele. Bom, esse cara faz um pedido de habeas corpus em 1834. É o primeiro processo que vai a júri popular num recém-criado município de Itaparica, 2 anos depois da criação da lei que instituía essa coisa, que é o Código Criminal de Processo de 1832.
Então assim... Só que por alguma razão que não ficou clara, esse processo foi encerrado. Essa não era a prova definitiva de que a Maria Filipe heroína existiu, mas era uma prova material de que existiu uma Maria Filipe naquele lugar, naquela época.
Mas eu detinha de informações suficientes sobre Itaparica para interpretar esse documento. Inclusive reconheci assinaturas que estavam ali no original. Então, Isidoro Martins Braga, que é um dos maiores traficantes de escravizados da Bahia e que morava na ilha de Itaparica, tá lá como uma pessoa que participou do júri popular desse processo. O próprio Barros Galvão, que votou contra Maria Filippa nesse processo. E o juiz era conhecido e veterano da Guerra da Independência. Então eu conhecia.
Era um sinal de que aquela figura que circulava por Itaparica, a Maria Filippa do processo, tinha idade suficiente para também ser a Maria Filippa da Guerra da Independência.
E eu levanto esse questionamento: Barros Galvão do processo é o Barros Galvão, herói da Independência, que perdeu a mão, etc. e tal? O juiz do processo é o Batista Massa, o professor de primeiras letras que depois vai virar soldado da Guerra da Independência? Todos são todos, eles são quem são, só a Filipa que não é ela?
Essa descoberta foi publicada num artigo assinado pelo Felipe com o professor Milton Moura, da Universidade Federal da Bahia.
Então eu tinha uma ideia de que isso ia despertar uma discussão historiográfica. Não despertou.
Pro Felipe, essa descoberta merecia atenção mesmo que fosse provado mais tarde que aquela Maria Felipa não era a Maria Felipa que lutou na Independência. Porque definitivamente chamava atenção que uma mulher negra analfabeta tivesse denunciando um homem por agressão lá em 1834. Mas parecia que a comunidade de historiadores só ia se interessar se tivesse uma prova clara de que essa Maria Felipa era a Maria Felipa real oficial. Então Felipe continuou procurando a agulhinha dele no palheiro.
Não sei se vocês sabem, Itaparica é a 14ª capitania hereditária do Brasil. Essa ilha é uma capitania hereditária, como Ilhéus foi, como Porto Seguro foi, como Salvador.
A capitania pertenceu à família de Dom Antônio de Ataíde. O Conde de Castanheira de Portugal. E ela continuou pertencendo a uma única família portuguesa até 1838. Quer dizer que pra morar, ter engenho, pescar, enfim, fazer qualquer atividade lá, você tinha que pagar tipo um imposto pra essa família. Foi aí que o Felipe se deu conta de que alguns documentos sobre Itaparica podiam estar em Portugal.
Eu fui a Portugal a convite de Dino de Santiago, um cantor negro que gravou aqui com o Baiana System a faixa Batuquerê. Ele me convidou pra passar uns dias em Portugal e eu fui no Arquivo Municipal de Cascais e encontrei quase 100 documentos inéditos sobre a administração da Capitania de Itaparica, com intervalo cronológico do século XVI ao século XIX.
Achei de tudo nesses documentos.
Mas eu achei também, digamos assim, o IPTU de Itaparica no ano de 1835. 34 e 35, o mesmo ano do processo.
Lembra? Segundo Baldosório, o autor daquele livro sobre Itaparica, a Maria Filippa morava na Rua da Gamileira. O problema é que essa rua tinha sumido do mapa. Ela não existe hoje na ilha.
Por mais que eu estudasse as compras e vendas, o livro de notas de todos os comércios que foram feitos ali no centro histórico de Itaparica e na ilha como um todo, eu nunca tinha encontrado menção a essa rua. Rua da Gameleira. E aí estou lá folheando esse PTU da ilha de Itaparica, confeccionado no ano de 1835. E esse documento, diferente das outras listas de foreiros que só pegavam as grandes propriedades, esse vai tratar da vila de Itaparica, do centro histórico, rua por rua.
E ele vai ali, Rua do Forte, Rua da Fonte, daqui a pouco Rua da Gameleira. Aí eu paralisei, cara, Rua da Gameleira, Rua da Gameleira existe!
E lá tinha o nome dos moradores da rua.
Vamos lá, primeiro, segundo, terceiro, quarto. E aí, sexto morador, Maria Filipe, pagando os impostos da casa. Uma casinha de 15 palmos, 3 metros e meio mais ou menos, um casebre ali. E ela pagando os impostos até 1829, devendo 5 anos. Aí eu paralisei assim na hora.
Era ela, Rua da Gameleira.
Não só existe como ela pagava o imposto da casa dela daquele período.
Então assim, isso para mim é uma uma descoberta sensacional.
Para mim, acaba assim as dúvidas de que essa mulher existiu.
Essa descoberta ainda não foi publicada em artigo científico, mas fez barulho nas redes sociais do próprio Felipe e apareceu em algumas reportagens.
Porque veja, eu não quero provar que ela queimou 40 barcos, porque não há menção a isso na guerra. Não houve esse incêndio, isso eu posso garantir. Então assim, eu não estou dizendo que ela comandava 40 mulheres, nada disso que já já é uma questão de interpretação, já é uma coisa da oralidade, do trânsito dessa memória. Não era isso que eu buscava provar. Eu buscava provar que ela existiu, porque pra mim a maior agressão à personagem não é negar o feito, é negar a existência.
E sabendo que a Maria Filippa morou ali naquela época e que ela processou um homem por agressão, o caminho fica aberto pra encontrar novas informações sobre ela.
Então é um ponto de partida. Eu tenho certeza que Maria Filippa comprou alguma coisa na mão de alguém, vendeu alguma coisa a alguém, e que isso foi parar numa nota de cartório, e que isso pode ser encontrado. Eu encontrei pistas da família dela, entrei nessa investigação, alguns becos sem saídas, que é normal na historiografia, mas tenho a esperança.
Quando eu conversei com o Felipe sobre essas descobertas, aquilo tirou uma das pulgas da minha orelha. Ok, Maria Filipe existiu mesmo, mas eu ainda tava encafifado com a camada provavelmente ficcional que se criou em cima da história dela. Eu só fico ainda assim, ah, precisa falar que ela era marisqueira, sabe? Com essas, só esses detalhezinhos que me incomodam, porque eu fico assim, ai, para que construir o personagem a partir daí, sabe?
Mas eu acho que enquanto memória popular, pô, é inevitável, é inevitável que as pessoas construam.
Esse ouvindo meu desabafo é o Thiago André.
Eu sou criador do podcast História Preta. E lá a gente fala sobre memória histórica da população negra no Brasil e no mundo, mas principalmente no Brasil.
Eu fui conversar com o Thiago porque ao mesmo tempo em que eu tava tentando descobrir a verdade sobre a Maria Felipa, ele tava mergulhado na vida de outra pessoa que também tem uma história cheia de lacunas. Uma pessoa que a gente tem toda a certeza que existiu, mas que a gente conhece muito menos do que deveria. E essas duas histórias tinham ainda mais uma coisa em comum. As duas foram iluminadas por causa de documentos achados em Portugal.
É que quando o Felipe Brito tava pesquisando sobre aquele processo envolvendo a Maria Filippa, ele pegou a lista de quem tava apto a fazer parte do júri.
E lá apareceu um cara chamado Antônio Carlos Pinto da Gama. Quando eu li o sobrenome, o intervalo cronológico, eu automaticamente liguei a Luiz Gama.
Depois do intervalo, quem continua contando essa história é o Thiago André.
Eu passei os primeiros 6 meses desse ano mergulhando na vida de um homem chamado Luiz Gama, um ex-escravizado que se fez poeta, jornalista e advogado autodidata. Um dos maiores abolicionistas das Américas, um dos juristas mais importantes do Brasil do século 19. Eu queria contar essa história em detalhes numa temporada do meu podcast, o História Preta, mas quando eu comecei a minha pesquisa, eu dei de cara com um buraco na biografia dele.
A gente sabe muita coisa sobre Luís Gama, principalmente sobre a vida adulta e o trabalho dele como abolicionista, Mas a gente sabe pouquíssimo sobre a infância e a vida que ele teve antes de se tornar quem ele se tornou. Faltavam coisas básicas mesmo. Ninguém sabia, por exemplo, onde e em que ano exatamente ele nasceu. Quer dizer, ele mesmo contou que nasceu em Salvador, no dia 21 de junho de 1830, e que ele foi batizado, já mais velho, em Itaparica.
Mas nunca ninguém encontrou documentos que comprovassem isso. Ninguém sabia também se Luiz Gama tinha nascido escravo, livre, ou se ele foi alforriado. Ele disse que nasceu livre, mas de novo, nunca ninguém encontrou documentação disso. Só que esses detalhes são quase pequenos perto do mistério em torno da mãe dele. Nos registros do Luiz Gama, ele descreve a mãe com detalhes quase fotográficos. Ele diz que ela era baixa, Magra, bonita, com a pele bem preta e dentes tão brancos como a neve.
Que ela era, nas palavras dele, altiva, geniosa, insofrida e vingativa. E que ela tinha desaparecido depois da Revolta da Sabinada, quando ele tinha uns 7 anos. É um retrato vívido, detalhado, mas essa descrição sempre gerou desconfiança. Porque nunca nenhum pesquisador, historiador ou biógrafo de Luís Gama tinha encontrado qualquer documento que pudesse indicar a existência dessa mulher, que segundo o filho se chamava Luísa Amain.
Algumas pessoas notaram, talvez você também, que Luísa é o feminino de Luís, que podia significar que ela quis dar o nome dela para o filho, ou podia significar outra coisa. Será que Luís Gama tava mesmo descrevendo uma mulher real? Ou será que ele tava refletindo a própria imagem sobre ela e construindo a mulher que ele gostaria que tivesse sido a mãe dele? Será que Luís Gama inventou a própria mãe? Eu cavoquei essa história o quanto eu pude, mas eu tava bem ciente das minhas limitações de pesquisa.
Se pesquisadores de 3 séculos diferentes não tinham achado respostas definitivas para essas perguntas, Não ia ser eu que ia matar essa charada. Eu tinha ouvintes ansiosos no meu encalço e eu precisava começar a temporada do História Preta. Daí eu comecei do jeito que dava, mesmo sem ter todas as respostas. Mas em março de 2026, logo depois de publicar o primeiro episódio da série, eu recebi uma mensagem que me deu calafrios.
Thiago, tá tudo bem?
Era do Bruno Lima. O Bruno é doutor em Direito e é pesquisador do Instituto Max Planck. Eu conheci ele em 2021, quando eu resenhei as obras completas de Luís Gama, que ele organizou. 5 anos depois, quando eu já tava produzindo a temporada, eu li outro livro dele, Luís Gama Contra o Império. Eu sabia que pra contar essa história eu precisava entrevistar o Bruno. Durante a produção da temporada, eu mandei mensagem pra ele em todos os contatos que eu tinha.
Email, telefone, sinal de fumaça, e nada, sem resposta. Foi só quando ele mesmo veio falar comigo que eu me dei conta que aqueles contatos estavam desatualizados. Ele tinha ouvido o primeiro episódio e tinha gostado, mas ele queria que eu soubesse que tinha mais coisa a ser dita sobre a infância de Luiz Gama. Eu perdi o sono pensando em quais coisas seriam essas. E aí, claro, eu fui marcar entrevista com ele. Por décadas, tudo que se sabia sobre as origens de Luz Gama vinha de uma única fonte, uma carta, e eu já citei informações dela várias vezes aqui.
Eu li muitas vezes essa carta, leio muitas vezes essa carta, e vou vendo coisas que não via nas primeiras leituras. E a história da mãe, o que acontece com a mãe, eu, por exemplo, li muitas vezes sem nem imaginar o que aconteceu com ela.
Essa carta foi escrita pelo Luís Gama em 1880, no auge da popularidade dele como intelectual e abolicionista. Eram 6 páginas escritas a pedido de um amigo que queria fazer um perfil biográfico dele no jornal. O Luís Gama conta a vida dele nessa carta. Ele diz que nasceu livre, filho dessa mulher chamada Luísa Maim e de um homem que ele preferiu não dizer o nome. Para poupar a infeliz memória do homem. A mãe era uma africana rebelde envolvida em insurgências escravas na Bahia, que tinha sido presa várias vezes por isso.
Em 1837, ela viajou para fora de Salvador e não voltou mais. O Luiz procurou várias vezes por ela ao longo dos anos, mas ele nunca soube se ela tinha sido presa, deportada ou coisa pior. O pai era um fidalgo, membro de uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. E alguns anos depois do sumiço da mãe, esse cara teria vendido o próprio filho como escravo para pagar uma dívida de jogo. Sim, o pai do Luiz Gama vendeu ele para ser escravizado.
Dá para entender porque ele escolheu levar para o túmulo a identidade desse homem. Luiz Gama foi escravo por 8 anos em São Paulo. Ele era um cara muito autodidata que aprendeu a ler já adolescente e conseguiu ganhar a própria liberdade. Depois ele virou advogado e abolicionista que libertou centenas de pessoas da escravidão. Naquela mesma carta, o Luiz Gama descreve a mãe dele, uma figura quase mítica, colocada num pedestal heroico.
Ele diz que a mãe foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos que não tiveram efeito. Mas não dava para saber o que a Luísa Maim tinha feito exatamente. Quais envolvimentos eram esses? Em quais revoltas? E de novo, não tinham documentos comprovando sequer que ela existiu. Com o tempo, essas lacunas foram sendo preenchidas pela imaginação, pela suposição, pela necessidade que cada época tem de encontrar nos mortos o que os vivos precisam acreditar.
Seguindo as linhas de Luís Gama, o imaginário popular criou a Luísa Maim, um símbolo de resistência e rebeldia da mulher negra brasileira. Aconteceu em camadas ao longo de quase um século. Em 1933, o escritor Pedro Calmon pegou aquelas poucas linhas do Luís Gama e ampliou a história da mãe dele. Ele escreveu um romance histórico sobre a Revolta dos Malês. E na história dele, quem encabeçou o levante todo foi a Luísa. A gente sabe que uma vez que uma história foi contada de um determinado jeito, fica difícil sair desse trilho.
Então, nos anos 70, com o renascimento do movimento negro, essa personagem da Luísa Maim voltou a ganhar força. Coletivos adotaram o nome dela, poetas celebraram a memória dela, e ela virou referência para a comunidade negra organizada. Em 2006, com um defeito de cor, a Ana Maria Gonçalves botou a Luísa, ou uma personagem muito inspirada nela, para contar a própria história. No romance, ela tá voltando para o Brasil, já muito velha, em busca do filho que ela perdeu quando teve que fugir depois da revolta.
Foi essa Luísa, de quem muitos historiadores ainda duvidavam, que entrou para o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2019.
Histórias.
Uma mulher que passa a existir a partir das palavras do filho.
A maneira que ele fala da mãe é de uma potência, de uma força. Os adjetivos que ele escolhe, o arco da história. E o pai é muito menor.
Apesar do Luiz Gama ter deixado de propósito esse buraco na história dele, dele ter omitido o nome do pai para ninguém saber, esse mistério alimentou a curiosidade de pesquisadores e biógrafos durante décadas. Todo mundo que decidia pesquisar a vida e as ideias de Ludgama, uma hora ou outra, acabava ficando obcecado por essa pergunta. Afinal, quem foi o pai dele?
Não vejo justificativa alguma nessa obsessão com o pai.
Nesse quesito, o Bruno era do contra.
Não tem um porquê. Não tem uma relevância historiográfica. Pensava assim mesmo. Do tipo: não é para ter interesse nesse assunto, porque o Gama mandou e ponto. Era um dogma, era um dogma.
Até que um dia ele mudou de ideia.
Eu tinha um hábito, ainda tenho na verdade, de ler essa carta, ler em voz alta, em duas datas do ano, em três datas na verdade: no 21 de junho, no 24 de agosto e no 10 de novembro.
São 3 datas importantes na vida de Luís Gama. 21 de junho é o dia do nascimento dele. 24 de agosto é o dia em que ele morreu. E 10 de novembro é o dia que ele foi traído pelo pai e vendido como escravo.
Já li essa carta com textos muito legais, muito bonitos. E ler em voz alta é um exercício de você conversar com o seu autor. Né, eu até entendo dessa maneira. E antes eu fazia isso em público, com outras pessoas participando da leitura dessa solenidade.
Uma das ocasiões em que o Bruno lia essa carta era num evento que ele organizava para comemorar o aniversário de nascimento do Luiz Gama em Salvador. Era um ritual simples: o Bruno lia a carta em voz alta, aí o pessoal fazia uma caminhada que subia a ladeira do bungalow e terminava na frente do sobrado onde Luiz Gama nasceu. Em 2015, eles fizeram a leitura da carta no Colégio Teixeira de Freitas, onde tava rolando uma ocupação estudantil, e dali o grupo partiu para o sobrado na Rua do Bângala.
Foi durante essa caminhada que um professor de filosofia da escola, o João Belmiro, se aproximou e disse uma coisa que o Bruno não queria ouvir: vem cá, você conhece a história do pai de Gama? O Bruno desconversou. Ele falou que só sabia o que tava na carta, mas o Belmiro continuou: pois eu sei quem ele era.
No momento eu recebi mal pra caramba, eu não queria olhar para aquela figura, quis tirar saber o seu nome. Eu, como um leitor devoto do Luiz Gama, pensava: se o Luiz Gama não quis dizer o nome, quem sou eu para querer saber? Ele simplesmente botou uma pedra em cima e falou: aqui ninguém cruza. Era exatamente essa minha leitura. Só que aí o Belmiro disse o seguinte: se o Gama não quisesse que se descobrisse o pai dele, o nome, a identidade, a procedência, ele não plantaria na autobiografia tantas pedrinhas para seguir a trilha que dá no nome na identidade na casa do pai.
Isso porque a carta do Luiz Gama traz discretamente um certo fiozinho a ser seguido.
E o fio tem um nozinho dele decisivo que se chama Luiz Cândido Quintela.
O Luiz Gama escreve que esse cara, o Luiz Cândido Quintela, era o melhor amigo do pai dele. E ele dá mais detalhes. Profissão: dono de uma casa de apostas. Endereço: um sobrado de esquina no Largo da Praça, em Salvador. Daí que quem achasse esse amigo talvez achasse também a identidade dessa figura recortada do álbum familiar. O grande carrasco da história.
Salvador tem uma classe média e uma elite muito pequena, muito pequena. Todo mundo se conhece e tem linhagens ali que estão no mesmo bairro há 300 anos. Então, todo mundo sabe quem é o avô, bisavô nessa fração da sociedade soteropolitana.
E o Belmiro, o professor que estava tentando convencer o Bruno a seguir esse fio, Ele é, de certa forma, um filho dessa classe média soteropolitana, que conhecia bem a família Quintela, os descendentes do Luís Cândido. Mas não só eles. O Belmiro contou que ele também conhecia a história dos Pinto da Gama, que seria a família do pai do Luís Gama. Ele sabia muita coisa sobre essas linhagens, coisas que por séculos correram as ruas de Salvador na forma de história oral.
As ruas diziam que sabiam o nome completo do pai. Mas esse tipo de história, essa que passa de boca em boca, de geração em geração, geralmente não tem assim muito prestígio acadêmico, né? Maria Filippa que o diga. Daí que por muitos anos toda pista que vinha daí era ignorada por boa parte dos pesquisadores, e a carta do Luiz Gama acabava sendo a única fonte de informações sobre ele. Por mais que essa também não fosse considerada uma fonte muito confiável.
Afinal, era um homem escrevendo sobre ele mesmo, sobre a própria mãe, sobre a própria vida, resgatando lembranças de uma infância já distante. A justificativa para desconfiança que se criou em torno da mãe dele, a Luísa Maim, também vinha daí.
Então, a historiografia brasileira se dedicou a esse esporte de dizer Luiz Gama Mentiu. Luiz Gama inventou. Luiz Gama ficcionalizou. Mas ninguém nunca pôs em dúvida a palavra de qualquer sujeito branco de quem teria sido ou foi a mãe. Ainda mais a mãe. As pessoas disseram que Luiz Gama mentiu ou ficcionalizou ou inventou quem foi a mãe. E a gente achou isso normal.
O relato autobiográfico do Luiz Gama sempre foi lido pela maioria dos biógrafos, historiadores e pesquisadores pela chave da dúvida, coisa que a gente aprende da faculdade e que é o prudente a se fazer. A gente tem que questionar as fontes, mas isso já tava sendo feito por todo mundo.
Então eu não li o Luiz Gama assim: ah, vou pôr em dúvida, ah, vou Achar erro. Porque esse é outro esporte nacional, né? É essa coisa de: não, ele se confundiu, ele errou, ele falou que a mãe era africana livre, mas a mãe não era africana livre.
Então Bruno resolveu ir por um outro caminho. Ele decidiu ler a carta do Luiz Gama como se tudo ali fosse fato, verdade verdadeira. Começando por aquele nozinho chamado Luiz Cândido Quintela. O amigo do pai do Luiz Gama. O Bruno foi procurar esse nome nos jornais do século 19, edição por edição, e ele encontrou Quintela. O endereço batia, a casa de apostas batia, cada detalhe confirmava o que tava escrito na carta. Mas ainda faltava confirmar o nome do pai e o vínculo desse nome com o do Luiz Gama.
Até que no começo de 2025, uma notícia chegou no celular do Bruno. Era uma matéria do jornal O Globo sobre o Felipe Brito, pesquisador que você conheceu aqui mais cedo. A matéria falava que ele tinha descoberto documentos comprovando a existência da Maria Filipa. Só que a reportagem dava a entender que a documentação que o Felipe tinha encontrado ia muito além de Maria Filipa, que podia ter ali outras coisas importantes do passado de Itaparica, que era justamente de onde vinha a família Pinto da Gama, e onde o Luís Gama teria sido batizado.
Isso deu um estalo na cabeça do Bruno. O Felipe Brito tinha achado esses documentos em Portugal. Então o Bruno arrumou a mala e partiu para lá.
Agora, Portugal também não é muito grande. Vem de onde? Bom, o nome ele vai dizer: Pinto da Gama. Ele não tá dizendo Souza, Farias, Nogueira. E então você diminui as jurisdições que possa vir. Só um Google básico, Gama, Portugal, história, genealogia, você vai chegar em Cascais, que era a sede da Casa Gama. Tem uma casa nobiliárquica em Cascais que é Gama.
Durante 3 dias, o Bruno vasculhou tudo que tinha em Cascais que fosse relacionado à Bahia, até que ele encontrou a lista de foreiros da vila de Itaparica, a mesma lista em que o Felipe tinha encontrado a Maria Filippa. Nome por nome, endereço por endereço, e na página 12, verso número 188, um nome saltou do meio dos outros: Agostinho Carlos Pinto da Gama. Esse nome era muito parecido com aquele que já corria pelas ruas de Salvador, que seria o do pai de Luiz Gama, mas tinha uma pequena variação, e o Bruno entendeu que esse na verdade seria o avô de Luiz Gama.
Ele ainda não tinha chegado no pai. O Bruno continuou procurando, mas parecia que ele tava buscando uma agulha no palheiro. Quando ele já tava quase se dando por vencido, chegou uma mensagem no Instagram dele. Era do Felipe Brito.
Ele vai dizer, olha, tem um assunto da família paterna do Luiz Gama que é do seu interesse, é do meu, portanto é do nosso. Aí eu falei, ele tá falando a minha língua.
O Felipe e o Bruno nunca tinham se falado antes. Mas o Felipe tinha lido o livro do Bruno, O Luiz Gama Contra o Império, e ele percebeu que podia ajudar nessa pesquisa. Os dois passaram dias conversando por telefone. O Felipe compartilhou com o Bruno o material que ele tinha e o Bruno juntou com o que ele tinha conseguido em Cascais. E o que surgiu dessa costura era o nome que faltava. O pai do Luiz Gama se chamava Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama.
Antônio Agostinho era filho do Agostinho Carlos, sobrinho de criação de uma mulher chamada Maria Rosa de Jesus, filha de uma família de Santo Amaro da Purificação com algum prestígio local, uma família de fidalgos de segunda linha, proprietários de terras com trânsito na sociedade baiana, mas sem grandes títulos. Com esse nome na mão, o Bruno já sabia o que fazer. Ele foi pro Arquivo Público do Estado da Bahia e começou um pente fino.
Testamento, certidões de compra e venda, de hipoteca, é um conjunto de documentos.
A carta do Luiz Gama dizia que o pai dele esbanjou uma boa herança obtida de uma tia em 1836. Se tinha herança, tinha testamento. Se tinha testamento, ele tava em algum cartório de Salvador. Esse foi um dos documentos que o Bruno encontrou no arquivo público.
E o testamento tem uma parte muito importante da história.
O testamento de Maria Rosa de Jesus, a tia da Boerança, traz revelações que colocam um ponto final em algumas discussões e dúvidas sobre a vida de Luís Gama que duraram mais de 100 anos. A primeira delas é sobre a liberdade do Luís Gama. Na quinta cláusula do documento, a Maria Rosa declara explicitamente que o menino Luís Gonzaga Pinto da Gama, filho do sobrinho dela, era livre de toda escravidão como se assim nascesse. Esse é o registro documental que comprova por A B que a venda de Luís Gama como escravo foi absolutamente ilegal.
Foi um ato criminoso do pai dele. Isso nos leva a outra revelação desse documento.
Quando ela faz o testamento, Ela morreu 2 ou 3 meses depois. Ela já não tava muito bem de saúde, sentiu que ia morrer, chamou alguém de confiança dela, que era um tabelião, por sinal, registrou a vontade final, registrou ali com testemunha e tudo, e depois levou no cartório. E o menino Luiz Gama é herdeiro.
O Bruno, que acima de tudo é doutor em direito, faz uma leitura minuciosa desse testamento. Ele me explicou que a herança que o pai do Luiz Gama dilapidou tinha uma hierarquia. Antônio Agostinho, o pai do Luiz Gama, foi nomeado herdeiro universal dos bens, mas tinha uma condicionante para ele desfrutar disso: ele seria o tutor legal do filho, e ele tinha uma obrigação de prover toda educação necessária até a maioridade dele. E era para ele só administrar os bens do filho nesse tempo.
O testamento diz claramente que o pai do Luiz Gama só ia herdar o que sobrasse depois que o menino recebesse tudo que era de direito dele. E tinha mais uma coisa: esse testamento também podia encerrar um longo debate da história do Brasil, o da existência ou não da Luísa Amain. Na quinta cláusula do documento, a Maria Rosa lista os bens dela, e entre esses bens ela nomeia duas escravas de nação nagu. Uma delas é Luísa, mãe do menino Luiz.
O Luiz Gama não tinha inventado a mãe dele, nem o nome dela. Mas tem um ponto: o Luiz Gama descreve a mãe dele na carta como africana livre, e o testamento diz que ela era escrava da Maria Rosa. A hipótese do Bruno é que Luiz Gama apresentou a mãe dele como africana livre de forma estratégica, como uma defesa da liberdade dela.
Mas ele vai afirmar a dignidade do estatuto jurídico de africana livre muito de caso pensado como um advogado perante o tribunal da história.
O Luís Gama construiu a carreira dele principalmente fazendo interpretações das leis do Império sobre a proibição do tráfico de escravos. Desde 1818, era proibido trazer africanos escravizados para o Brasil. Todo africano desembarcado depois dessa lei era por direito livre. A Luísa chegou depois dessa proibição, portanto, a escravidão dela era ilegal desde o dia 1. Ao apresentar ela como africana livre, o Luís Gama não tava negando a escravidão da mãe. Ele tava argumentando que, aos olhos da lei, ela sempre deveria ter sido livre.
Então, Ele não mentiu. Muito antes, ele construiu um caso histórico: a liberdade da mãe.
O Bruno acha que a Luísa Maim não foi só a mãe do Luís Gama, que ela foi muito mais que isso, que ela de fato tava no centro das revoltas que aconteceram na Bahia na década de 1830. É isso que ele defende. Mas a historiografia sempre foi cautelosa quanto a isso. Inclusive, o Bruno não era o único debruçado nesses arquivos. Mais ou menos na mesma época, as historiadoras Liza Castillo e Vlamira Albuquerque estavam mexendo nos mesmos documentos atrás da mesma história, inclusive também com a ajuda do Felipe Brito.
Mas elas chegaram a uma conclusão diferente. Para elas, não dá para afirmar que Luísa lutou na Revolta dos Malês. E segundo elas, isso não diminui a Luísa, isso humaniza. A gente não vai entrar nesse debate aqui, mas é importante dizer que nem todo mundo que olhou para os mesmos documentos enxergou a mesma coisa. Vários pesquisadores vasculharam a lista de mais de 300 pessoas presas após o levante Mallet de 1835 e não encontraram nenhuma Luísa Maim.
A heroína que a memória popular construiu não deixou rastro nos arquivos da repressão.
No livro eu argumento, sustento que Luiza Maim estava sim no Levante Malê. Agora, tem gente que exige fotografia, teste do pezinho, 3x4, sabe? Tem gente que exige digital, entendeu? Exigem muito do Luiz Gama. O Luiz Gama deu todas as pistas, deu todos os elementos para afirmar Que a mãe estava assim na insurreição.
O argumento do Bruno começa pela palavra que Luiz Gama escolheu na carta. Ele diz que a mãe foi presa por se envolver em planos de insurreições de escravo, e ele conhecia de cor o código criminal do Império. No código, a palavra insurreição tinha uma definição técnica precisa: o crime cometido por 20 ou mais escravos para haverem a liberdade por meio da força. Não era rebelião, não era conspiração, era insurreição. O Levante Malê foi exatamente isso.
O uso do plural também é importante. Gama diz insurreições, não uma, mas várias. Bruno identifica pelo menos 3 insurreições principais em Salvador entre 1828 e 1835. Segundo ele, Luísa teria participado de todas.
Ele usa no plural: foi presa como suspeita de participar em planos de insurreições de escravos que não tiveram efeito. Agora, é claro que ele muito habilmente vai dizer, colocar o suspeita de participar. Tudo isso, lê o código criminal da época e você fala: ah, Luiz Gama, Ah, Luiz Gama!
O Bruno acha que Luiz Gama tava estrategicamente atenuando a gravidade criminal da participação da mãe dele, que é por isso que ele diz que as insurreições da mãe não tiveram efeito. Ele transforma a participação da mãe em tentativa, não em crime consumado, e no Código Criminal isso tinha uma pena menor. Era como se Luiz Gama tivesse agindo como advogado póstumo da mãe. Usando a lei como escudo para proteger ela, mesmo que ela não estivesse mais aqui, e sem apagar o caráter revolucionário dela.
Luísa Maim continua sendo, na carta, uma insurgente da resistência africana na Bahia.
Mais que uma habilidade literária, é isso também, claro, mas é um manejo do discurso histórico. Ele tá construindo um caso para agora, este século.
O Luiz Gama diz na carta que a mãe dele desapareceu logo depois da Sabinada, que foi um levante separatista que rolou entre 1837 e 1838. O Bruno escavou os registros da investigação judicial daquela época, também lá no Arquivo Público do Estado da Bahia, e ele achou uma relação de presos que tinha sido enviada pelo juiz de paz da freguesia de Santana em abril de 1838. Um mês depois da derrota dos revoltosos da Sabinada. Nessa lista ele encontrou a Luísa Maim e uma hipótese forte para o que poderia ter acontecido com ela.
Esse achado saiu primeiro na pesquisa do Bruno. Era isso inclusive que ele queria que eu soubesse depois que ele escutou o primeiro episódio do meu podcast sobre o Luiz Gama. O documento diz: Luísa Nagô escrava de Antônio Agostinho Carlos, recolhida ao Aljube a pedido do seu senhor. Ou seja, o mesmo homem que dilapidou o patrimônio do filho agora tava entregando a mãe desse filho às autoridades. No dia 6 de abril de 1838, Luísa foi levada para prisão em Salvador. 25 dias depois, o próprio Antônio Agostinho pagou para tirar ela de lá.
No dia 1º de maio de 1838, a Luísa tava fora da cadeia, mas ela nunca mais foi vista pelo filho. Daí a pergunta: por que Antônio Agostinho pagou para tirar Luísa da cadeia se foi ele que tinha mandado prender? Para o Bruno, a resposta mais sombria é também a mais provável: um sujeito atolado em dívidas, gastando o patrimônio do filho à torto e direito, Não ia fazer isso se não fosse por dinheiro. E a Luísa tinha valor, era propriedade dele.
Pelo que as pistas indicam, o pai do Luiz Gama pode ter vendido a mãe dele numa transação clandestina.
Você sabe, o Luiz Gama para um momento da autobiografia para se lamentar, para suspirar, como se ele caísse de joelhos com a cruz que ele carregava. Que ele vai dizer: ó, Eu tenho lances douridos que mais valem além das sentidas dos mártires. Então ele tem muito sofrimento, e um dos sofrimentos que tem, se eu não me engano, é exatamente esse desabafo, exatamente depois de falar da mãe.
Esse desabafo vem logo depois dele contar das sucessivas traições do pai, que separou ele da mãe e condenou os dois à escravidão e ao esquecimento. Não deu certo. 40 anos depois, o Luiz Gama escreveu essa carta. Ele construiu a própria história a partir da história da mãe. Para o pai, ele não deu nenhum nome, mas ele deixou pistas suficientes para que 2 séculos depois alguém pudesse constatar o canalha que ele foi e pudesse usar o nome dele para chegar na Luísa Maim.
Nessa carta, o Luiz Gama dá à luz a própria mãe. Ele bota o nome dela na história. E apesar de toda a desconfiança que circula, a gente tá aqui falando dela até hoje.
O que pega para mim nessa história, tanto no caso da Maria Filippa quanto no caso da Luiza Maim, foi essas inconsistências foram suficiente para poder decretar que elas não existem, que nenhuma das duas existiu, né? Interditar a memória a respeito delas e dizer que isso tudo é uma mentira. Porque eu, eu fui esse cético, né? Eu fui o cético da Luísa Maim.
Eu também duvidei muito que ela pudesse ter sido uma pessoa real.
Essas inconsistências, às vezes, que a gente também encontra em outras histórias de vultos populares, que estão nas nossas praças, as estátuas que estão aí, nomes de rua que também têm histórias questionáveis. Essas pessoas não são apagadas da nossa história, né? Ninguém duvida da existência de muitas dessas pessoas. Minha chave para começar a pensar melhor sobre isso foi pensar em quanto às vezes precisa de muito pouco para que você pegue uma memória histórica de povos que foram subalternizados, principalmente pessoas negras no Brasil, e apague elas da história.
Quando eu conversava com o Thiago sobre as histórias que a gente tava apurando, eu olhando pra Maria Filippa e ele pro Luiz Gama e pra Luísa Marim, a gente tava meio que em lados opostos. Eu tava incomodado com a construção que a gente costuma fazer em cima dessas figuras históricas, às vezes dando detalhes que têm mais cara de fantasia do que de verdade. Aquela história da surra de cansanção e dos 40 barcos que a Maria Filippa teria queimado Ela não saía da minha cabeça. E do outro lado, o Thiago tava me dizendo que pra ele isso não era uma questão.
Esse desejo que as pessoas têm de, na memória pública, na memória popular, preencher lacunas que, né, que a gente não consegue preencher com documentos históricos, é um desejo também de se ver, né, de se ver na história. A gente precisa ter os nossos próprios nomes, né, os nossos próprios heróis, as nossas próprias referências. Eu acho que é um movimento desse, muito nesse lugar, né? E é claro, né, acaba nesse contexto às vezes aumentando um pouco uma história aqui, outra acolá e tal. Mas é isso.
Que às vezes eu fico pensando é se a gente deve utilizar as mesmas estratégias que usam com os heróis brancos, sei lá, um Tiradentes, Dom Pedro I, que eles são quase santificados.
É, eu acho que Eu acho que é válido esse pensamento, né, de essa mitificação de pessoas negras. Acho que eu sou do time que não, eu acho que a gente não precisa dessa mitificação extrema dessas figuras negras, né, porque inclusive também é uma forma de desumanizar pessoas negras, né. Mas pensando em memória popular, eu acho que isso é quase que inevitável, as pessoas vão fazer isso, né. Acho que é uma das características dessa história oral que vai passar de geração em geração, é que ela ganhe seus contornos, né, do seu próprio povo, né.
Agora cabe a nós aqui que estamos fazendo essa história com H maiúsculo entender isso, não ignorar essa voz, essa memória popular, que eu acho que o problema tá justamente aí, né. Por muitos anos o fato de que a memória popular foi ignorada a respeito dessas pessoas foi que não se investigou a fundo, né? E as investigações pararam em certo ponto. A gente vai investigar aqui, mas muito, muito mais numa chave de dúvida do que de vamos confirmar essa história, vamos procurar muito mais pôr em dúvida a história dessas pessoas subalternizadas.
Infelizmente, por uma dinâmica de poder colonial, a gente não tem como produzir memória, assim como essas populações brancas têm memória a partir de documento timbrado pelo, sei lá, pelo imperador. A gente não tem essa mesma capacidade.
Só te interromper nesse ponto, porque eu acho que o que essas duas histórias mostram é que elas negam um pouco isso, porque assim, uma das grandes justificativas que existem para pagar essas figuras é dizer: não existem documentos, não existem comprovações. Só que nesse caso os documentos existiam, os documentos estavam lá para provar que elas existiram. Então, tipo, o que que falhou nesse caminho aí? Faltou interesse? Faltou olhar para esse outro lado, para essas figuras?
Essa pergunta era retórica, claro. Até porque a essa altura, depois de ter conhecido mais da história da Maria Filippa e da Luísa Marim, Eu já meio que me converti. Eu já não tô incomodado de imaginar que pelo menos uma parte do que se diz de figuras como elas é provavelmente ficção. É reflexo de um desejo nosso. O Felipe Brito falou disso uma hora durante a nossa conversa.
Eu acho essas histórias todas fantásticas. Que sim, inventem mais histórias sobre Maria Filippa que sirvam de acalento, que sirvam de identificação pra gente se ver num lugar de herói, de heroína, de protagonismo, que é o que a gente tá precisando, inclusive, pra resolver esses problemas estruturais do nosso país e da autoestima de mulheres e de homens negros. Então assim, eu acho fantástico que eles tenham menosprezado o personagem pra que a cultura popular, pra que a imaginação, pra que a oralidade tomasse conta.
Se elas sobreviveram na boca do povo é porque elas estavam ali em algum momento fazendo alguma coisa. Então acho que isso acabou com minha resistência um pouco assim. Que bom que a memória popular é capaz de guardar essas figuras, né? Porque se não fosse por ela, pela memória, né, pela história oral, pela memória popular, essas pessoas poderiam ficar apagadas para sempre mesmo, né? Elas ficariam perdidas aí na história.
Esses foram o Vinícius Luiz e o Thiago André. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. Tá aqui um pouco do que vem por aí.
Tinha um pessoal do movimento negro panfletando para não vir na festa, nessa festa aqui.
Eu não vi não.
Ela perguntou por quê e eu dei uma resumidinha.
Então é por isso que não tem muito negro aqui.
Ah, now I know. Quem é membro do Clube da Novelo consegue ouvir o Apresenta um dia antes, sem anúncio, e tem acesso a conteúdo extra. Pra se juntar à gente e ganhar esses e outros benefícios, inclusive uma linda bolsa da Novelo, É só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouquinho. No post desse episódio no nosso site, a gente vai deixar um link pra série que o Thiago André produziu sobre o Luiz Gama no podcast dele, o História Preta.
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A Maíra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farrá. Esse episódio teve montagem e desenho de som da Big Guimarães e da Mariana Leão, que também assinam a nossa mixagem. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira, e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.
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