Presas na rede
Um fantasma na máquina e um diabinho no ombro.
No primeiro ato: uma conversa com uma figura oculta da internet moderna. Por Flora Thomson-DeVeaux.
No segundo ato: o dilema moral da influencer de baixa renda bem informada e com empatia pelo próximo. Por Clara Becker.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep172
Membros do Clube da Novelo podem ouvir os episódios do Rádio Novelo Apresenta antecipadamente, além de ter acesso a uma newsletter especial e a eventos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo. Assine em https://www.radionovelo.com.br/clube
Inscreva-se no curso "Contando histórias em áudio com a Rádio Novelo": https://journalismcourses.org/product/contando-historias-em-audio-com-a-radio-novelo/
Inscreva-se no canal da Rádio Novelo no YouTube: https://www.youtube.com/@R%C3%A1dioNovelo
Siga a Rádio Novelo no Instagram: https://www.instagram.com/radionovelo/
Palavras-chave: IA, tradução, transcrição automática, Faxina Boa, Veronica Oliveira, bets, apostas, influencer, influenciadora
Mayra Vallejo
Kátia Costa Santos
Clara Becker
Sônia Robert
- Impacto Psicologico e MoralVerônica Oliveira
- impacto da internetFlora Thompson-DeVeaux · Clara Becker
- Trajetória de vida e origem
- Realidades econômicas da classe trabalhadora
- Transcrição automática e erros de IASônia Robert
- Impacto da IA no trabalho
E se uma música pudesse te levar mais longe? Pra perto de novas histórias, misturando sonhos, culturas e pessoas na energia da latinidade. Com a Latam, você garante sua viagem completa e chega onde todo mundo vai se encontrar. O Rio de Janeiro. Latam Airlines. Bem-vindo a ir mais alto. É viajar com o ritmo da música. Companhia Aérea Oficial do Todo Mundo no Rio 2026.
Está começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Eu não sei quando foi a última vez que eu parei para pensar no significado por trás de www. Essas letras que a gente digita no piloto automático no começo de muitos links.
Elas são uma relíquia dos primórdios da internet, uma sigla para World Wide Web. A World Wide Web é, e não é, a internet em si. A internet é a rede de computadores e a web é um dos usos dessa rede, uma das formas de interagir com a internet. Mas eu estava pensando nela por causa dessa palavra web.
Tanto web quanto network costumam ser traduzidas para o português como rede mesmo. Rede social, rede de computadores e tal. Mas web é teia. Desde os primeiros usos da palavra em inglês, ela significa tanto a trama de um tecido quanto a teia de uma aranha, que, como a gente sabe, é feita para prender, para paralisar e, em último caso, para matar.
Nada contra as aranhas que precisam se sustentar de algum jeito, que nem todo mundo. Mas eu achei relevante trazer mais essa metáfora à baila quando a gente pensa naquilo que a web, que a internet, virou hoje em dia. A gente está escolhendo fazer parte da rede ou a gente está presa na teia?
As duas histórias do episódio de hoje se passam nesse lugar interconectado, para o bem ou para o mal. No primeiro ato, duas desconhecidas se esbarram no mesmo canto da rede. Uma delas é a Flora Thompson-Devore. Isso daqui a pouquinho, depois do intervalo.
Tem uma mulher no palco, vestindo trajes de freira. Ela tá meio desabada, sentada no chão, apoiando um braço num banco de jardim. E ela começa a cantar. Não sei se você fala italiano, eu não falo. Vendo o vídeo, consigo entender que ela tá triste e parece que ela acabou de receber uma notícia terrível.
É uma cena de uma ópera de Puccini, chamada Suora Angélica, ou Irmã Angélica. Angélica era uma moça nobre. Começa a ópera, ela está num convento. Com o desenrolar da história, você vai saber que ela está no convento, porque ela engravidou, teve um filho, e a família mandou ela para o convento e escondeu ela.
A criança ficou com a família. Os anos se passaram e a Angélica ficou sem notícias do filho. E tudo que ela queria era rever a criança e ela não podia. E um dia, eu não me lembro, acho que a tia dela que vai ao convento e conta pra ela que o filho dela morreu. E aí ela canta essa área.
Sem a mamãe, crianças, você morreu. Você morreu sem saber o quanto a sua mãe te amava. E eu achava aquela música linda. Eu conhecia até então só essa área, não conhecia a ópera toda. Percebia que devia ser alguma coisa triste, mas não sabia, assim.
E quando que eu fui conhecer a ópera toda, né, e que eu vi aquele texto, assim, a primeira vez que eu ouvi a cantora que estava fazendo o papel principal cantando aquilo e eu sabendo o que que era, eu chorei muito, assim, porque era um negócio muito forte, né.
Na ópera, Angélica começa a delirar de dor e vê a figura do filho chamando ela. Ela acaba comendo umas folhas venenosas do jardim para estar com ele. Aí ela percebe que está cometendo um pecado mortal e entra em desespero.
No final, ela acaba morrendo, mas no último momento ela tem uma visão da Virgem Maria perdoando ela, com o filho da Angélica do lado. Eu vou ter que supor que em matéria de ópera isso configura um final semi-feliz. Eu não queria ter contado essa história triste, mas não teve muito jeito. Foi culpa da máquina.
Antigamente, a Rádio Novelo tinha um grupo de pessoas de idades, profissões e origens variadas que a gente acionava de vez em quando, às vezes o tempo todo, para transcrever as nossas entrevistas. Foi assim para o Prado dos Ossos, foi assim para o Retrato Narrado, foi assim para o República das Milícias.
Mas chegou uma hora que as ferramentas automáticas de transcrição começaram a ficar muito boas. A gente foi testando, testando, e uma hora, sem muito alarde, nem muita cerimônia, a gente se despediu dos nossos humanos transcritores queridos.
Hoje em dia só tem um ser humano, a minha chará Flora Vieira, que faz a revisão final da transcrição dos episódios que vai para o nosso site. Mas no dia a dia a gente trabalha com muita transcrição feita por máquina, que a gente vai corrigindo enquanto escreve os roteiros. Vira e mexe aparece uma nova ferramenta no mercado. Ano passado estava testando uma nova, chamada Descript, que te deixa editar o áudio diretamente na transcrição. E não, isso não é publi, é importante para a história.
Acontece que de novembro de 2025 pra cá, um fantasma começou a me assombrar por lá. Porque às vezes o Descripts não entendia o que um entrevistado estava dizendo. Aí ele tentava interpretar algum som aleatório como palavras. Em vez dele não escrever nada, ou escrever, sei lá, ininteligível, ou barulho, ele escrevia outras coisas. Teve toda uma conversa que ele não conseguiu entender e transcreveu assim.
Sim. Amém. Amém. Tchau, tchau. Amém. Deus abençoe. Achei fofo, porém errado. Eu fui encontrando várias outras interpretações criativas dessas. Eu estava trabalhando com algumas fitas muito barulhentas e distorcidas para a história que eu fiz sobre secretárias eletrônicas. E essa máquina digital estava sofrendo um pouco para interpretar essas mensagens do passado.
Tudo bem, faz parte do jogo. Eu ia ouvindo e corrigindo os trechos que eu ia usar. Só que um negócio começou a acontecer muito. Pra você ter uma ideia, numa única fita cassete que a gente comprou numa feira de antiguidades, esse negócio aconteceu nove vezes. Tinha um barulho assim...
Não dá para entender nada, né? Mas a ferramenta entendeu. E o que ela entendeu foi... Legenda, dois pontos. Sonia Huberti. Isso também é... Legenda por Sonia Huberti. Isso também. Legenda por Sonia Huberti.
Legenda, dois pontos, Sonia Robert. Você pode achar que isso é o começo da música Tom's Diner, da Suzanne Vega. Na verdade, aos ouvidos do Descript, é... Legenda por Sonia Robert. Acho que já deu pra entender, né?
No mês seguinte, a Sônia deu as caras de novo, num pequeno silêncio no começo da minha entrevista com um veterinário de peixe-boi. E aí eu já estava oficialmente encafifada. Eu joguei o nome da Sônia no Google. E a primeira coisa que eu vi era o LinkedIn de uma Sônia Robert, que era, de fato, técnica de legenda do Teatro Municipal de São Paulo. Mas, descendo um pouco na busca, eu vi um monte de legendas que ela com certeza não fez.
Eram vídeos no Instagram, no Dailymotion e em alguns outros sites, em que a transcrição automática também tinha metido o nome dela. Ela aparecia no silêncio do começo de um vídeo sobre descobertas que o robozinha Perseverance tinha feito em Marte, no final desse vídeo de sete segundos de um tenista treinando. Na legenda do post desse homem falando sobre a invenção histórica do conceito do tempo,
Não é que o tempo não exista, ele existe... Segundo um site, o primeiro verso da música Triste Saudade, de Júlia Graciela, é... Legenda por Sônia Roberti. O último verso também. Daí eu resolvi que eu precisava conhecer a lenda, né? Eu puxei no Instagram dela e mandei uma DM, sem explicar muita coisa, mas tentando não assustar. Eu só falei que tinha achado uma coisa esquisita envolvendo o nome dela.
Antes de eu te explicar a coisa esquisita, eu queria saber um pouco de você, se você pudesse me contar o que você faz na vida. Bom, eu sou formada em música pela USP. Eu sou mineira, mas vim para cá para fazer faculdade. Então eu me formei em piano, bacharelada em piano. Ao longo de mais de 20 anos, a Sônia deu aula de piano e canto.
Fiz eventos, fiz casamento, enfim, vida de músico. Tem até algumas faixas dela no Spotify. Mas depois de alguns anos, a Sônia estava um pouco cansada do corre da vida de músico. No fim, acabei indo trabalhar no Teatro Municipal daqui de São Paulo. Técnica de legenda era uma profissão que ela nem sabia que existia.
Ela já tinha assistido a ópera com legenda, mas ela nunca tinha pensado que tinha uma pessoa por trás dessas legendas. E essa pessoa, agora, é ela. Eu que coleto os textos originais para mandar para a tradução, desde o espanhol até o húngaro, aparece de tudo. Uns meses antes de uma determinada ópera ser montada, a Sônia vai catar o texto que vai ser cantado.
porque às vezes, dependendo de quando a obra foi feita, a gente não tem o texto separado da partitura. Então eu pesquiso, e graças a Deus que hoje tem a internet, porque antigamente você tinha que ir atrás do livro impresso, o libreto impresso, então eu entro na internet, tento achar o texto separado para evitar que eu tenha que...
digitar tudo, né? Que conste dos atos. A Sônia já tentou essas ferramentas de transcrição automática nas partituras, mas ela disse que eles sempre acabam bagunçando no meio. Mas aí, quando o texto volta da tradução, a Sônia dá uma adaptada, enxuga repetições, faz tudo caber no espaço da legenda.
Fora que na ópera ainda tem uma bagunça que é, tem muitos trechos de ópera que são vários personagens, mais o coral cantando junto e falando textos diferentes. Aí você tem que escolher o que é mais importante para o público. E isso dá um trabalho. Eu já fiz legenda para alguns filmes. E tem um negócio sobre legendar ópera, ou enfim, qualquer apresentação ao vivo, que simplesmente não tinha me ocorrido.
Não é como, sei lá, como legenda de filme que ela vai automaticamente. Se um dia você for no Teatro Municipal para assistir uma ópera legendada, pensa na Sônia. Ela está ali na cabinezinha dela, que fica atrás da plateia, com uma partitura aberta e a mão no mouse. Então a minha partitura é toda marcada. Cada troca de slide tem uma marquinha na minha partitura.
O arquivo da legendagem está ali, mas ela precisa saber o tempo de cada frase, prestar atenção na cadência dos cantores, na batuta do maestro. Porque ali é ser humano fazendo, não é a máquina, não é exatamente o mesmo tempo.
Ali no palco, cada vez que uma frase aparece na tela, isso é a Sônia clicando no mouse, ou apertando o botão de avançar, em tempo real. Duas vezes, na verdade. Ela clica para botar a frase e em seguida tem tipo um slide vazio, sem nada, para dar um respirinho. Numa ópera, por exemplo...
sem contar os slides em branco, mas às vezes eu tenho, por exemplo, mil cortes de frases. Ultimamente, eu ando trocando a mão, sabe? Eu faço um pouco com a direita, um pouco com a esquerda, porque depois de muitos anos, nossa, tem ópera que eu acabava com a minha mão assim, prestes a ter uma tendinite.
Ou seja, é um trabalho minucioso, repetitivo e cansativo. O tipo de coisa que, talvez, a inteligência artificial possa substituir. Teve uma época que, quando eu comecei a ver essas legendas automáticas, por mais que elas venham com erro e tal, me deu uma certa paura.
Quando a Sônia percebeu que tinha ferramenta que fazia legendagem automática até ao vivo, ela achou que ela ia ficar desempregada em questão de meses, talvez um ano. É o fim da minha carreira, né? Obviamente, isso ainda não aconteceu. E ela acha que a IA pode acabar agilizando partes do trabalho dela sem eliminá-lo por completo. Eu brinco, vai ter que ter pelo menos alguém para apertar o play.
Não sei quanto que te interessa saber das minúcias do trabalho por trás das mil e tantas frases que compõem a legenda de uma ópera no Teatro Municipal de São Paulo. Eu, enquanto tradutora, legendadora bissexta e pessoa interessada no futuro do trabalho, me interesso bastante.
E eu achei curioso que a pessoa que estivesse assombrando as minhas transcrições automáticas fosse justamente uma profissional assim. Daí, eu finalmente contei para a Sônia o porquê da entrevista. Ele punha, de vez em quando, não era sempre, mas aparecia, legenda por Sônia e Robert. Gente! E a primeira vez eu falei, ahm. E a segunda vez eu falei, que caceta. A terceira vez eu falei, eu preciso falar com a Sônia e o Robert.
Só um parênteses aqui. Na hora de transcrever o nome Sonia Robert, o mesmo programa de transcrição automática entendia como Sonny Robert. Vai entender. A Sonia não sabia explicar por que, de todos os legendadores do Brasil, o nome dela acabou sendo sugado pelo grande robô-aspirador, que são esses IAs. A vasta maioria das legendas que ela fez está só nos arquivos internos do Teatro Municipal de São Paulo.
Depois da Sônia, o WoodScript começou a me apresentar mais alguns legendadores. Nos últimos tempos, ele insistiu que alguns trechos dos meus áudios eram legendados pelo Pedro Negri ou pela Adriana Zanotto. Talvez a Sônia devesse criar um grupo de zap com eles.
Eu achei uns fóruns discutindo esse problema desde pelo menos 2023. E a hipótese das pessoas era a mesma que eu aventei pra Sônia. Nos vídeos que ela legenda, o nome dela aparece por último, quando o vídeo já tá sem som, ou são os últimos acordes da música, ou na hora do aplauso. E o robô da Yá, que tá só tentando interpretar as coisas que a gente bota no mundo, vê aquilo e pensa.
Beleza, quando eu escuto silêncio, ou um barulhinho, ou alguns acordes, para os seres humanos, isso significa legenda por Sony e Robert. Eu troquei várias mensagens com os humanos por trás dos robôs do Descript, e eles achavam que devia ser isso mesmo que aconteceu. O incrível é que quanto mais esse erro fosse repetindo, maiores as chances dele se espalhar.
Quando eu conversei com a Sônia, ela disse que, mais do que um medo de perder o emprego, ela se preocupa com o tipo de erro que essas ferramentas podem estar perpetuando. Erros bem mais sérios do que esse que eu encontrei.
que tipo de informações vão chegar para nós, até mesmo nas traduções, com que viés essas traduções vão ser feitas. Como seres humanos, como nós vamos ser atingidos por isso? Já estamos sendo, mas como vai ser isso daqui para frente? Como que isso vai nos atingir? Como que a gente vai reagir?
A Sônia me contou que quando ela começou a trabalhar como técnica de legenda no teatro, ela foi pesquisar um pouco a história da profissão dela.
As primeiras vezes que foi colocada legenda no mundo, ela não foi bem aceita pelos apreciadores de ópera. Porque muita gente que gosta da ópera, muitas vezes nasceu num ambiente em que se ouvia muito, em que o vô, o pai, sei lá mais quem, já conhecia e já ia transmitindo aquilo, ou seja, crescia sabendo as histórias.
Ou se de repente não tinha isso em casa, mas você foi se interessando, foi procurando e tal. Mas isso também fazia com que ficasse restrito a um círculo de pessoas, né? E teve uma ala que abominou mesmo.
a existência da legenda, mas aos poucos ela foi sendo aceita. Em muitos lugares o público de ópera ampliou por causa da legenda, por causa do entendimento e não teve jeito. Hoje, se a gente faz uma ópera sem legenda, o que a gente vai ouvir mais é reclamação, não aplauso pela escolha de fazer sem legenda.
Eu pedi para a Sônia me dar um exemplo de uma cena que fica muito mais forte com legenda. E foi aí que ela me contou da suor angélica, da mãe sabendo da morte do filho. Do impacto quando se sabe exatamente o que está sendo cantado ali. Um resultado dos avanços tecnológicos é que alguns colegas de legenda da Sônia já conseguem fazer o trabalho deles de casa, sem ter que ir para o teatro.
Eu acho que vai chegar uma hora que não vai precisar mais ter a pessoa ao vivo. E uma das coisas que eu gostava era que todo dia tinha alguma coisa de diferente, né? Não era exatamente o mesmo espetáculo todo dia. Nem pra nós músicos e nem pros atores, assim. E eu acho que isso era a grande graça da coisa, né?
Também acho. Já toquei em um orquestra. E a sensação de estar criando a música em tempo real ali, conectada com dezenas de outros seres humanos, esperando o respiro do cantor, ou esperando a batuta cair, isso é muito mágico. E muito delicado, e muito perigoso também. Você sente a toda hora o risco daquilo se desintegrar.
Eu vou dizer uma coisa aqui que eu espero que não desvalorize minha profissão atual, mas é muito mais confortável fazer podcast gravado do que fazer ao vivo. Eu errei minha locução aqui um bocado de vezes, mas você só vai ouvir os takes bons aqui. Porque a gente vai editar. Um ser humano, mediado por outros seres humanos, e também pela máquina. O que não é ruim, só é diferente.
Quando mandei DM pra Sônia, ela comentou que ela tinha acabado de ouvir o episódio aqui do Apresenta, em que eu falava sobre a minha caixa postal. E foi engraçado porque, assim, eu não tinha ainda, que eu me lembre, eu não tinha me deparado com o seu nome na novelo. E logo depois que eu ouvi o podcast, você falou comigo, né?
As conexões misteriosas da máquina. Estão falando aí esses dias das máquinas que estão se conversando e falando dos humanos, vai ver que elas estão falando de nós. Elas queriam que a gente conversasse. Se algum dia precisar de um humano para transcrever, você me avisa. Obrigada, viu? Se a máquina enlouquecer aqui, então já sei a quem apelar.
Essa história foi produzida pela Flora Thompson-Devô. A gente volta já já. Oi, aqui é a Neka Setúbal. E aqui é a Sueli Carneiro. Esta semana, no Escute as Mais Velhas, a gente conversa com a educadora ambiental e ativista Rosália Lemos.
Eu comecei a refletir que a favelada fazia luta ambiental também, né? Só que a nossa luta ambiental não era uma luta em defesa do mico-leão dourado, em defesa da mata atlântica, da floresta amazônica. A busca por dignidade em territórios periféricos sempre foi um dos motivadores da Rosália.
A nossa luta era em defesa do saneamento básico, da água potável canalizada dentro de casa. Então era uma luta ambiental da pobreza, era uma luta ambiental da miséria.
E a Rosália também contou pra gente um pouco da trajetória dela dentro de uma das principais organizações pelos direitos das mulheres no Brasil, o Nizinga. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tietze Tubal, produzido pelo Estúdio Novelo, com episódio novo toda terça-feira. Siga o podcast no seu aplicativo de podcast favorito para não perder nenhum episódio.
o nosso segundo ato se passa em dois momentos bem diferentes da nossa vivência internética. Dá para dizer que a protagonista dessa história conseguiu uma tábua de salvação num tipo de internet e está tentando não naufragar nessa nova coisa que ela se tornou. E um aviso aqui, essa história faz referência ao suicídio.
A Virginia e o Vini Jr. fazem. O Wesley Safadão faz. A GK faz. O Galvão Bueno faz. E muito. A Beth Faria fez. Lá nos Estados Unidos, o Shaquille O'Neal também faz. Aí eu mandei mensagem num grupo de Whites e falei, quem não fez? Aí um amigo meu respondeu, você.
Essa é a Verônica Oliveira. Tenho 44 anos, mãe de três filhos, criadora de conteúdo. Talvez você seja uma das mais de 280 mil pessoas que consomem o conteúdo que a Verônica cria e veicula no perfil dela, o arroba faxina boa. E o que ela nunca fez foi publicidade para a Betis, as casas de apostas digitais.
A primeira vez que eu vi publicidade de bet entre influenciadores, eu não fazia a menor ideia do mercado, eu não fazia ideia de como funcionava. E aí eu vi uma pessoa me contando dos valores. Falou, você já viu isso aqui? E aí falou, ah, fulano ganhou um milhão para apostar ao longo do ano. Eita, um milhão? Hoje em dia, a Verônica faz parte de uma elite da internet.
Mas é uma elite que, quando o dinheiro aperta, ainda usa transporte público, hospital público e matricula os filhos em escola pública. Uma elite que perde muita noite de sono com medo de não conseguir pagar o financiamento da casa e o banco vir tomar. E é nesse lugar, entre o sucesso e a sobrevivência, que o dilema das bets aparece. E às vezes, o diabo veste a pele de seguidor.
Os meus seguidores falam, faz amiga, você vai conseguir resolver seus B.O. Vai pagar escola para as crianças, vai pagar convênio. Além do diabinho e do anjinho que a gente tem naturalmente, tem os diabinhos do seguidor que manda.
fica mandando print, fica mandando perfil, link, e fala, olha lá, fulana fez e se deu bem, faça também. E aí a menina me mandou o link de uma mulher com 8 mil seguidores, uma manicure. E ela começou a fazer publi de joguinho.
E de repente essa menina estava em Dubai, ela fez o enxoval dela em Miami, ela viajou o mundo com as crianças, fez não sei o quê. E ela falou, ah, você está sendo burra. Aí na hora que ela falou, você está sendo burra, eu comecei a chorar. Eu sou muito chorona. E aí eu pensei, será que eu estou sendo burra mesmo? Mas eu não consigo. Quando eu penso na classe trabalhadora se fodendo. E eu...
aproveitando disso para ganhar dinheiro, eu não consigo. A Verônica acompanha as notícias e sabe que esses joguinhos não têm nada de inofensivo. Eles representam um risco sério para a saúde pública e para a economia popular do país como um todo. Já saiu um episódio inteiro sobre isso aqui no Rádio Novelo Apresenta. Se você ainda não ouviu, procura lá, o buraco que cavamos.
E bom, é por saber disso que a Verônica tem resistido ao diabinho no ombro ou na caixa de comentários. E não é que ela não sonhe com um uso mais que justificado para esse dinheiro. Eu sou uma pessoa com problemas de saúde. Eu não sei se eu vou chegar aos 70 anos para terminar de pagar minha casa. Eu penso nisso todo santo dia.
ter um filho no espectro autista. Eu gostaria de poder proporcionar os melhores tratamentos para ele. Eu queria poder fazer com que a vida dele se torne mais fácil. Ele vai fazer 18 anos esse ano. Eu quero que ele tenha cada vez mais condições de ter uma vida plena e saudável. Então, eu tenho a criança pequena. Ou seja, a seguidora diabinha da Verônica está encarnando, na verdade, a advogada do diabo.
ela está expondo, com todas as letras, o dilema moral que qualquer influencer de baixa renda está enfrentando. Quer dizer, qualquer influencer de baixa renda com empatia pelo próximo e bem informado. Esse argumento da desinformação, aliás, é um que muita gente usa quando é pressionado a parar de fazer propaganda de bet.
O ator Kawan Raymond, por exemplo, ganhou cerca de 22 milhões de reais em um único ano fazendo propaganda da empresa Bateu Bet. Na época da CPI das Bet, o Kawan disse que ele tinha visto tantas outras personalidades fazendo propaganda de Bet que ele não viu problema em fazer também. Depois da pressão, ele disse que tinha prendido a lição e acabou rompendo o contrato com a empresa.
Ele mediu os prós e os contras e achou que não valia a pena continuar. Mas vamos combinar que ele tem outras fontes de renda garantidas, né? E a Verônica? Bom, vamos começar do começo. Bem no começo. Na geração passada. A mãe da Verônica engravidou quando ela tinha só 15 anos. Ela morava no interior da Bahia.
E para blindar a honra da família, mandaram ela para São Paulo, uma semana depois do parto, com o bebê no colo. Ela chegou aqui adolescente, conheceu o pai dos meus irmãos e começou uma nova vida num novo lugar. E, por muita sorte, as coisas deram certo. Então, ele estudava, ela cuidava da casa, ele se tornou um profissional de elétrica, trabalhava na extinta eletropaulo.
E eles tiveram filhos a cada dois anos. A cada dois anos chegava uma criança nova na minha casa. Falava, meu Deus, o que é isso? A Verônica cresceu na Vila Buarque, entre Santa Cecília e Higienópolis. Ela andava de skate na Praça Roosevelt. Estudava no Colégio Sion, que é uma escola de freiras com mais de 100 anos. Eu acho que esse foi um ponto de partida que transforma a minha história para que hoje eu seja quem eu sou. A educação básica de qualidade que eu recebi.
Porque se alguém fala, ah, qualquer faxineira que quisesse se esforçar, conseguiria chegar onde ela chegou. Mas eu tive um background para ter a construção social de análise crítica que eu aprendi criança na escola, ela fez toda a diferença. Então não dá para dizer que qualquer pessoa chegaria onde eu cheguei do nada. Parecia que a vida da Verônica ia trilhar um caminho típico de classe média.
Mas essa rota mudou drasticamente quando ela tinha 17 anos. Ela repetiu o ciclo da mãe e também engravidou na adolescência.
Minha mãe, na época, tinha 35, 34. E ela só chorava dizendo que eu não quero ser avó, eu sou tão jovem. E esse também é um ponto de partida muito importante na minha trajetória, porque a partir dali, todas as minhas escolhas, elas são baseadas no que eu acho melhor para a minha filha. Então, eu achei melhor não dar continuidade nos meus estudos para cuidar dela.
A mãe da Verônica chorou, mas fez diferente dos próprios pais. Ela deu todo o apoio para a filha poder cuidar da criança. Foi só quando a filha completou cinco anos que a Verônica decidiu, enfim, tentar alçar um voo solo e buscar um emprego. Então, sem ter uma formação e já com uma idade avançada, você vai procurar emprego com vinte e tantos anos, sem nunca ter feito nada?
O que sobrou para mim? O telemarketing. Então eu fui trabalhar como operadora de telemarketing. O telemarketing, as pessoas falavam assim, se você deixar cair um RG na porta de um call center, eles te põem para dentro. O emprego não era lá essas coisas, mas deu alguma autonomia para a Verônica. E ela foi procurar uma casa para começar a família dela.
Só que com o salário que ela ganhava, ela acabou se mudando por um CEP bem diferente. Aí eu já tive que ir para a periferia. E eu fui morar na região do Aricanduva, entre Aricanduva e São Mateus, no extremo da Zona Leste de São Paulo. Então, é uma outra realidade. Antes eu queria ir para qualquer lugar, eu podia ir a pé.
Era tudo muito próximo, tinha o metrô perto, tinha tudo. E aí, de repente, era uma hora para chegar na estação do metrô. As coisas mudaram absurdamente para mim. E no contexto social, os meus amigos da região de Higienópolis, Santa Cecília e Vila Buarque, eles tinham medo de me visitar na Alicanduva. Ai, não é perigoso? Eu me lembro de uma amiga uma vez ter perguntado se ela podia ir de carro. Aí eu falei, não, é porque nunca vimos um carro em São Mateus, gata.
A vida estava diferente, mas a Verônica estava conseguindo tocar. Ela conseguiu alugar uma casa um pouco melhor, ainda na Zona Leste, e teve o segundo filho. Eu trabalhava no atendimento de plano de saúde, e nós fazíamos a liberação de procedimentos para o plano. Aí chegou um dia em que eu estava assistindo TV, e almoçando antes de ir para o trabalho, e eu vi pela TV a notícia de que a empresa tinha falido.
Assim, do nada. E cheguei para trabalhar e eles disseram que era para a gente ficar tranquilo, que tudo ia ser resolvido. E essa empresa, de fato, abriu a falência. Nós entramos na justiça para receber os direitos trabalhados e isso levou anos. E foi assim que Verônica acabou indo morar num cortiço. Então eu tentava me confortar com o fato de que estávamos morando numa região legal.
E aí, ó, tem um shopping perto, tem o metrô do lado. E isso fazia com que a gente acreditasse que, embora a situação estivesse horrível, a gente estava protegido por algum conforto. Mas nós morávamos num cômodo menor do que um quarto de empregada, onde cabia só uma cama de solteiro, nós tínhamos uma geladeira e um fogão, e ficavam empilhados, o micro-ondas ficava em cima da geladeira.
As panelas, as coisas ficavam em cima do fogão, embaixo da cama ficavam as sacolas com as roupas, tinha uma janela um pouco maior do que o tamanho da minha cabeça, e o botijão de gás ficava do lado de fora, logo embaixo da janela, e a gente morria de medo de alguém roubar o botijão de gás.
No cortiço onde a família da Verônica foi morar, eles tinham que compartilhar o banheiro com outras 40 famílias. A pia e o tanque ficavam do lado de fora, sem cobertura para os dias de chuva e tinha fila para usar. Ela ganhava um salário mínimo trabalhando num laboratório, e mais da metade desse salário ia só para aluguel, água e luz. O que sobrava mal dava para comida e remédio.
Quando ela queria tomar um banho decente, ela botava os filhos no metrô e eles iam para o Sesc Belenzinho. É óbvio, em todos os momentos a conta não fechava, mas os meses em que tudo estava muito bagunçado, a gente chegava a roubar papel higiênico dentro do shopping para poder economizar algum centavo. Então nós fazíamos a escolha entre um detergente ou um miojo. Era o que fosse mais importante naquele momento.
No começo, a Verônica achava que aquilo era só uma fase, que as coisas iam se acertar e ela ia poder voltar para o padrão de vida que ela tinha antes. Mas o tempo passou, as dívidas cresceram, os problemas se acumularam e ela já não sabia como sair dali. E aí vieram as crises de ansiedade, as noites sem dormir e a dificuldade até de encontrar força para sair de casa e trabalhar.
Foi aí que a depressão se instalou. A Verônica passava dias sem trocar de roupa ou levantar da cama. E o meu filho, na época, ele estava com oito anos de idade e ele é um menino no espectro autista. Uma coisa que eu sempre escutei muito é que crianças autistas não têm empatia. Crianças autistas não entendem sentimentos.
E nós tivemos o diagnóstico dele muito tardio e eu estava habituada a ouvir esse tipo de coisa sobre as crianças autistas, como se todas as crianças autistas fossem iguais. E o meu filho, ele percebendo aquelas coisas, ele entendeu que algo ali não estava certo.
e que eu não estava me sentindo bem. Então, um dia ele me perguntou, era a época do filme, divertidamente, e ele tinha me perguntado se o azul tinha encostado nas minhas bolinhas e eu tinha ficado triste.
E naquela época teve uma outra situação que foi muito profunda para mim e ela acarretou um dos momentos mais difíceis da minha vida. Mas ele, vendo que eu não me levantava, que eu não fazia nada, ele decidiu pegar um pão, um pouquinho de manteiga.
E era o pãozinho do lanche da escola. Ele trouxe da escola e guardou junto com um suquinho de caixinha. E ele cortou esse pão, passou a manteiga. Daquele jeito de criança que ficou parecendo um sonho. De tanta manteiga saindo dos lados. Uma coisa horrível. E ele colocou dentro do saquinho do supermercado. E me cutucou na cama. Falou, mãe, levanta.
Aí eu olhei para ele e falei, eu não quero levantar. Ele falou, mas eu fiz o seu café e a gente não vai comer aqui, a gente vai comer no parque. Tem o parque do Piquiri, ali do lado de onde nós morávamos. E eu olhei para ele com uma carinha e falei, por quê? Porque no parque todo mundo é feliz e você não é feliz. Naquele dia, a Verônica entendeu o tamanho do impacto que a depressão dela estava tendo sobre os filhos.
Na verdade, pior que isso. Ela passou a acreditar que ela estava atrapalhando a vida deles. Que sem ela, talvez eles tivessem mais chances, mais sorte, mais futuro. E com isso na cabeça, ela tentou se suicidar. Isso foi no final de 2016. A filha mais velha dela tinha 17 anos na época.
E foi ela que encontrou a mãe desacordada depois de ingerir medicamentos e ligou para o SAMU. Depois de resolvida a emergência, a Verônica foi levada para uma clínica psiquiátrica particular em Moema, que é um bairro nobre da zona sul de São Paulo. Ela tinha direito ao atendimento por lá por causa do trabalho dela no laboratório, que dava plano de saúde.
A clínica funcionava numa casa grande, com quintal, piscina, e tinha uma rotina toda estruturada. Café da manhã, almoço e jantar todo dia. Ali, pela primeira vez em muito tempo, a Verônica conseguiu descansar. E nesse momento da internação, eu percebi que era ali a minha primeira chance de descansar depois de tantos anos. E eu dormi muito tempo.
na chegada da clínica, até uma enfermeira falar, gata, você precisa comer, você precisa levantar um pouco. E quando eu sentei na cama, eu pensei...
Ninguém chamou o mãe e faz muito tempo que isso não acontecia. Então, acho que eu nunca tinha me dado conta do quão sobrecarregada eu estive por todos esses anos. Então, eu decidi que aquele momento era a hora de eu descansar, colocar a cabeça no lugar e aceitar o que estava acontecendo. Aceitar o tratamento, aceitar o que os médicos falavam, aceitar que eu precisava de ajuda.
E aí, eu tomava meus remédios super certinho, participava das atividades. Depois de um mês de internação, a Verônica recebeu um diagnóstico inesperado. E aí, numa consulta médica, na hora de passar com o psiquiatra, ele falou assim, você não é doente, você é pobre. Tá, já sabia. Eu preciso ter comida todo dia, um lugar bacana pra dormir, e isso que vai mudar a minha vida. Eu, por mim, tava lá até hoje.
Quando a Verônica recebeu alta, ela entrou em desespero. Dentro da clínica, estava tudo garantido. Cama macia, banho quente, comida boa. Do lado de fora... Eu tinha que voltar para o meu barraco, eu tinha que voltar para o meu telemarketing. Para evitar o choque de voltar para a mesma realidade de antes, a Verônica pediu para ficar mais um tempo afastada do trabalho e foi para a casa da mãe.
Nesse período, eu fiquei sob vigilância constante da família, porque quando uma pessoa tenta suicídio, isso não afeta só ela, isso afeta a família inteira. Eu estava muito presa na casa dela, não podia pegar a tesoura para abrir uma embalagem. Todo mundo olhava, não, não, não pega não. Falei, gente, está tudo bem, fica calmo.
Depois de duas semanas confinada, a Verônica conseguiu convencer a família de que ia ficar tudo bem se ela fosse dormir uma noite na casa de uma amiga. Cheguei lá de tarde, a gente comeu alguma coisa e ficou batendo papo. Terminamos de comer e eu lavei o prato. Eu terminei de lavar o prato, limpei a pia.
Terminei de limpar a pia, limpei o fogão. Dei uma varrida no chão. Esfreguei uns azulejos que eu vi que tava sujo. E minha amiga desesperada, tipo, amada, pare. Falei, não, rapidão aqui. Aí falei, ah, depois a gente senta pra ver um filme. E aí comecei a varrer tudo. Falei, pô, deixa eu tirar o pó aqui dos negócios. E aí limpei a casa inteira e a gente bateu no papo. E aí lavei, lavei o banheiro, lavei as coisas. Falei, ah, tomei um banho e a gente sentou pra assistir o filme.
Passou super rápido, porque eu tava limpando e conversando. E ela morrendo de vergonha. Aí a gente sentou pra ver um filme, e ela falou assim, amiga, você se ofenderia se eu te pagasse por essa limpeza? Mano, eu tava com R$1,70 no banco, eu só olhei pra ela com uma sorrisão, e eu falei, claro que não, dá logo. E aí ela falou, eu pago R$150 pra moça que limpa aqui em casa. E aí ela colocou o filme, e eu fiquei pensando, eu falei, pera.
Eu ganho um salário mínimo. Se todo dia eu fizer uma faxina e ganhar 150 reais, véi, eu vou virar muito uma Kardashian da Zona Leste. A Verônica já não conseguia nem prestar atenção no filme. Ela continuava lá, de corpo presente em frente à TV. Mas a cabeça estava um milhão pensando em como transformar a faxina em sustento, em virada de vida.
Ela mandou mensagens para as amigas, que repassaram para outras. Começou a pegar uma casa aqui, outra ali. Mas eram uns bicos esporádicos, com um saldo ainda longe do suficiente para sair do sufoco, que dirá a ambição Kardashian. Até que uma amiga falou o óbvio. Se ela não divulgasse, ninguém ia saber que ela estava fazendo faxina.
Era uma época em que todo mundo usava muito o Facebook e que os grupos estavam no auge. E tinha os grupos de oferecer serviços, de meninas oferecendo serviço para meninas. A Verônica foi lá ver como eram os anúncios desse tipo, para ter de referência. E ela percebeu um padrão. Quem se oferecia para fazer faxina parecia sempre que estava se desculpando por aquilo.
Ah, eu não consigo pagar as minhas contas, estou complementando a minha renda com faxina. Meu pai está doente, então eu estou fazendo faxina. A Verônica ficou incomodada com aquilo e decidiu que ia fazer diferente. Aí eu chamei o pai do meu filho, que até hoje, ele é o... Nos 20 anos de separado, ele ainda é o meu menino da TI. Tudo que eu não sei mexer no computador, eu não sei mexer em nada, tudo é ele que faz pra mim.
E eu tinha uma referência que eu gosto muito, que é o filme Kill Bill. Aí eu falei pra ele, vamos pegar três fotos aqui e vamos colocar a minha cara. E aí coloquei o meu rosto no lugar do rosto da Uma Turma e uma vassoura no lugar da espada. E escrevi Faço Faxina, volume 1.
E a gente fez no pente, velho. Ficou muito feio. E aí eu olhei e falei, é isso, tá perfeito. E escrevi um texto dizendo, eu sou a Verônica, eu tenho dois filhos, eu era operadora de telemarketing e isso não estava sendo suficiente para sustentar a minha família. Eu sou muito foda na faxina e eu quero uma oportunidade para entrar na sua casa que eu vou trabalhar muito bem. Foi uma coisa meio assim, tipo, me chama que eu sou foda.
Eram duas montagens naquele primeiro post. Uma da Verônica como uma Thurman. E a outra dela como Saul Goodman, o advogado do Better Call Saul. Só que dessa vez, era Better Call Verônica. E postei. E foi apenas isso. Eu fui dormir. E assim, eu estava numa situação tão absurda, que eu tinha um celular que um amigo meu me deu.
que era basicamente um telefone fixo, porque ele precisava ficar carregando na tomada toda hora. Se tirasse da tomada, a bateria acabava muito rápido. E eu estava sem crédito no pré-pago. Aí tinha uma padaria bacana do outro lado da rua. Aí eu fui na padaria, 11 horas da noite, postei a foto lá do que o Bill e fui dormir. Eu tinha 300 amigos no meu Facebook. Eu acordei e tinha 10 mil likes na foto.
A Verônica virou vítima do próprio sucesso. As mensagens e ligações não paravam. No dia depois desse primeiro post, ela marcou 60 faxinas. E o desespero passou a ser outro. O meu desespero era pensar que a pessoa ia ficar dois meses sem limpar a casa para quando eu chegar lá estar o caos completo. O primeiro dia da primeira faxina...
A gente tava naquela leva de dias sem ter grandes coisas pra comer, e comendo só besteira. E aí eu tava com o dinheiro, eu falei, meu, cada um escolhe o que quer. E aí meu filho é o de gosto refinado. Aí ele gosta de comida japonesa, ele gosta de queijos caros, ele gosta de umas coisas que eu falei, mano, tu nasceu na quebrada, por que você gosta disso aí? Aí ele fala que ele vai fazer viagens gastronômicas. E aí eu mando.
Honra quebrada, moleque. E aí ele pediu temaki. A minha filha pediu. Minha filha é... Ela é a pessoa da simplicidade. E ela falou, quero uma marmita de arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Falei, ok.
E eu tenho uma fatia de marguerita tatuada na perna. Eu falei, eu quero comer pizza. E eu pedi os três. Aí chegou em casa. E na hora que meu filho tava comendo, eu dei uma mordida no temaki, na pizza. Minha filha deu uma mordida na pizza, comendo arroz e feijão. E aí todo mundo tava comendo tudo. Como se a gente nunca... Acho que foi... E é...
bobo dizer, mas acho que foi um dos momentos mais felizes, assim, a gente comia sentado na cama, porque, né, não tinha espaço, e aí cada um sentado ali com uma marmita na mão, uma coisa, e a gente dando risada, sabe? Acho que foi um momento que a gente percebeu que as coisas iam ser diferentes.
Quando a coisa bombou da noite para o dia, a Verônica logo teve a ideia de criar uma página no Facebook para separar o trabalho dela da vida pessoal. Porque ela não queria estranhas vasculhando fotos do almoço ou da família. E foi assim que nasceu o Faxina Boa. Mas isso foi só o começo do sucesso. As páginas de meme não demoraram para descobrir o cartaz do Kill Bill improvisado. E no mesmo dia, a página dela já tinha 6 mil seguidores.
E aí, quando a série Stranger Things começou a estourar, a Verônica decidiu repetir a fórmula que tinha funcionado com o cartaz do Kill Bill. Dessa vez, ela encarnou a Eleven, a personagem da Millie Bobby Brown. E agora, a caracterização ia ser mais fácil. E eu sou careca. A foto que a Verônica queria imitar era da Eleven comendo um waffle com o nariz sangrando.
Mas se não me engano, eu tinha 12 reais. E eu queria comprar um waffle para fazer a foto de Eleven. E aí o waffle custava R$ 5,90. E aí o que sobrou, eu consegui comprar um sangue falso numa lojinha de fantasia para fazer o sangue saindo do nariz. A Verônica ainda tinha aquele mesmo celular velho, o fixo, que precisava ficar preso na tomada. Imagina a qualidade da foto.
E a imagem é tão ruim na qualidade da câmera que mal dá pra ver que o sangue tava saindo do meu nariz. E aí eu pensei, ainda gastei dinheiro à toa. E aí era o último dinheiro que eu tinha naquele dia. E aí a gente jantou aquele waffle.
Vinha dois waffles na embalagem, a gente comeu os dois waffles, e eu falei assim, como eu já tinha entendido a dinâmica de que as pessoas gostavam daquelas montagens, aí eu falei pra eles, cara, hoje a gente vai comer o waffle. Esse negócio vai dar certo. E a gente vai começar a comer comida todos os dias. Eu prometo. E desde então, a gente nunca mais passou fome.
Quando a Verônica fez aquele primeiro post, do Kill Bill, ela estava só querendo divulgar o trabalho dela e conquistar novos clientes. Mas nem ali, no auge do desespero, ela conseguiu disfarçar a criatividade dela e o humor.
Só um parêntese aqui, porque além do que o Bill e de Stranger Things, tem mais um post da Verônica que eu sou apaixonada, que é o da Xena, a princesa guerreira. A Verônica rebatizou a Xena de Faxena, entendeu? Bom, todas essas imagens estão lá no post desse episódio, no site da Novelo, para quem quiser ver. Mas voltando, com esses posts, a Verônica acabou acertando em cheio um público muito específico de gente que reconhecia essas referências da cultura pop.
Quem começou a contratar as faxinas da Verônica eram jovens trabalhadores da área da comunicação, que moravam em apartamentos pequenos no centro de São Paulo. Muita gente vinha da publicidade, do jornalismo, desse universo dos criadores.
Eu morri de rir a primeira vez, falaram, mas os analytics dos seus posts, eu falei, o quê? Eu falei, gente, eu só posto e tá lá, não sei o que tem que olhar depois. Eu não fazia a menor ideia. E aí começaram a me ensinar. Ensinaram sobre números, sobre alcance, sobre as métricas. E a Verônica entendeu que ela tinha uma coisa rara nas mãos. Alcance grande, engajamento real e uma comunidade que prestava atenção no que ela dizia.
e ela pensou que ela queria fazer o melhor uso possível desse espaço. De novo, ela foi ver o que as pessoas que tinham chegado antes dela estavam falando.
E, de novo, ela não gostou do que viu. Era a menina mostrando como se limpa a mancha tal. Ah, como é ser faxineira nos Estados Unidos. Como é não sei o quê. Mas ninguém nunca falou a realidade do... Como é a forma que alguém te trata por ser faxineira? Como é que a sociedade te vê enquanto profissional? Como é que você se prepara pra entrar num mercado em que... Querendo ou não, o que mais tem por aí é pessoas fazendo faxina.
Essas pessoas, elas estão preparadas para isso? Elas têm o conhecimento do quanto elas podem cobrar? Elas têm o conhecimento de como ela deve cuidar do corpo dela para poder suportar esse trabalho por muitos anos? E aí eu comecei a falar sobre isso. Até então, a Verônica tinha dificuldade de se ver como influenciadora. Aqueles posts bem-humorados eram um jeito de chamar a atenção de ela conseguir botar comida na mesa.
Mas depois que ela passou a postar também esse outro tipo de conteúdo, uma hora a ficha caiu. Eu acho que o dia que eu admiti pra mim mesma, dentro do meu coraçãozinho, que eu influenciei alguém, foi a primeira mensagem que eu recebi de uma seguidora que falou assim, a minha mãe tem vergonha de mim porque eu faço faxina. A minha irmã é professora.
e a outra é enfermeira. Então elas têm diploma, elas têm uma profissão que é considerada melhor do que a minha. Eu ganho muito mais do que as duas. Eu sustento a minha família sozinha, eu tenho os meus filhos, eu tenho a minha casa própria, eu tenho o meu carrinho.
Mas a minha mãe tem vergonha de mim. Isso fazia com que eu tivesse vergonha de mim. Eu nunca tinha visto na internet uma faxineira que fala com tanto orgulho do que faz. Uma pessoa que mostra que o nosso trabalho é digno. E aí eu comecei a te seguir e eu penso muito diferente agora. Eu sou muito mais feliz comigo e com a minha profissão.
Aí eu li, respirei fundo e pensei, eita, como é influencia. Pronto, mais uma profissão para o currículo. O problema é que... Eu percebi, depois de um tempo, que é um trabalho precarizado também. 99% do meu conteúdo é gratuito.
E aí um dia vem uma marca, e aí quer dizer que eu preciso ter outras formas de me manter, porque eu não posso ficar contando com a ideia de aparecer uma publicidade. E aí é que está também o mito de que todo influencer é rico. Eu brinco muito que 280 mil seguidores não são 280 mil reais, são situações muito diferentes. Ser famoso na internet é igual ao dinheiro de banco imobiliário. Não, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Assim como tem influencers e tem influencers. Não estou atacando as pessoas brancas, tenho até amigos que são. Mas é a branca que está segurando o produto dando beijinho? Está ganhando, sei lá eu, 100 mil reais para tirar uma foto beijando um produto. É outro mundo. E nesse outro mundo, o que a Verônica habita, ainda está muito longe de garantir padrão Kardashian.
E aí, como diz o ditado, conta bancária de influencer vazia, oficina das Betis. E aí eu vi recentemente um amigo fazendo. E aí me deu aquela sensação, porque eu sei também, é uma pessoa que também ficou desempregada há muito tempo. Eu falei, eu não entendo aonde o calo dele aperta. Então eu não vou julgar. Já faz tempo que a Verônica não sabe o que é passar necessidade.
Ela já está morando num apartamento numa região mais central da cidade. Mas ela não sabe o dia de amanhã, né?
Nós não é na Apple, baby. Então, você está muito mais perto de acabar num barraco do que de virar bilionário. Eu não quero me colocar num lugar de superioridade moral. Ah, olha só como eu sou incrível porque eu não faço bet. Porque não tem um dia que eu não pense no quanto eu preciso. Para terminar de financiar o apartamento e sair do aluguel. Para garantir o melhor tratamento para o filho. Para ter uma vida menos apertada.
Mas, enquanto ela consegue, ela segue firme. Essa foi a Clara Becker. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Você já sabe que tem história nova toda quinta-feira por aqui. Mas esse dia feliz chega antes, na quarta-feira, para quem é membro do Clube da Novelo. Semana que vem vai ter isso aqui.
Aproveitei aquele dia para pedir para minha avó contar de novo a história dos pais dela. Minha mãe é cantiliana Maria da Conceição. Cantiliana Maria da Conceição? Eu nem precisei pedir, na verdade. A história veio. Mas a mãe da senhora era de Santana de Deserta. Minha mãe não, porque a mãe foi roubada. Sua mãe foi roubada? A mãe roubou ela. Se você quiser fazer parte do clube, as informações estão todas no nosso site.
A gente volta já, já. Bom Crepúsculo, ouvintes da Rádio Novelo. Meu nome é Matias Pinto. E eu sou Felipe Figueiredo. E juntos nós fazemos o Xadrez Herbal, a sua revista semanal de política internacional em formato podcastal. E a gente sabe que é um pouco longo, mas é para você ouvir durante toda a semana e ficar atualizado. E você pode nos acompanhar em todos os agregadores. Então se inscreva no feed do Xadrez Verbal.
Na página desse episódio, no nosso site, dá pra ver os posts da Verônica que viralizaram lá atrás, com excelentes montagens amadoras de uma época pré-Canva e pré-Chat GPT ou outras IAs dessas. E quem quiser ouvir mais músicas da Lenda das Legendas, tá lá o link pro Spotify da Sônia Roberto Real Oficial.
Se você for de redes sociais, a gente está nas redes no arroba radionovelo, no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Se você é de e-mail, dá para mandar sugestão de história, crítica, elogio, etc. para o apresenta.arroba.radionovelo.com.br.
Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em anuncie.radionovelo.com.br.
O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devoe. A produção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager.
Nossos repórteres e roteiristas são a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, o Vinícius Luiz, a Bárbara Rubira, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes. Os nossos treineis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Vallejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitsky.
Esse episódio teve desenho de som do Bauer Marim e do Amon Medrado. A nossa mixagem é da Bia Guimarães e da Mariana Leão.
Nesse episódio, a gente usou o músico original de Luna França e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. E quem faz a revisão das transcrições dos episódios para a gente é a Flora Vieira.
Obrigada e até a semana que vem.
Latam Airlines
Viagem completa