Olhando para as estrelas
Um alerta: este episódio contém descrições de luto familiar.
Diálogos cósmicos de Rita Lee e trocas extraterrestres no Acre.
No primeiro ato: um velório e uma viagem para 12 anos antes. Por Bia Guimarães.
No segundo ato: discos voadores no céu do Acre, e outras anomalias nacionais. Por Victor Manoel.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep171
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Palavras-chave: música, funeral, astronomia, filme Noites Alienígenas, Acre, tráfico de drogas
- Violência e Tráfico de Drogas no AcreEntrada de facções (PCC e Comando Vermelho) · Homicídios crescentes · Execuções e decapitações · Violência estrutural e familiar · Impacto geracional · Transformação de comunidades
- Violência e tráfico no AcrePCC versus Comando Vermelho · Aumento de homicídios · Violência doméstica · Transformação da família
- Rita LeePrimeiro velório no Planetário Ibirapuera · Céu do nascimento da Rita · Projeção de céus significativos · Despedida pública de fã
- Filme Noites AlienígenasPrimeiro filme acreano · Diretor Sérgio de Carvalho · Tráfico e periferia · Metáfora de invasão alienígena
- Morte e luto parentalMorte da mãe Elza de câncer · Falta de comunicação sobre vontades finais · Organização do velório · Culpa pós-morte
- AstronomiaPlanetário do Ibirapuera · Experiência de observação celeste · Educação sobre o cosmos · Papel do planetário na comunidade
- Ufologia e ExtraterrestresSentimento de ser alienígena · Identidade deslocada · Solidão e isolamento · Pertencimento incerto
- Morte da avó e avistamentos OVNIFalecimento da avó · Três luzes no céu · Interpretação como contato extraterrestre · Luto infantil
- Fuga para Rio BrancoMudança de 600km · Busca por segurança · Afastamento da família · Reconstrução de vida
- Infância em Cruzeiro do Sul, AcreVida ribeirinha · Lendas amazônicas · Relação com avó · Comunidade Boa Fé
- Destino versus AcasoEncadeamento de eventos · Significado da coincidência · Beleza do acaso · Física e filosofia
- Narrativas amazônicas na mídiaSubrepresentação do Acre · Narrativas hegemônicas · Necessidade de contar histórias regionais · Impacto de produções locais
- Astronomia e Navegacao CelesteConstelação de Órion · Estrela Sirius · Simuladores de planetário · Observação do céu noturno
- Obervatórios solares e filtrosProtuberâncias solares · Telescópios e lentes · Visualização de camadas solares · Fascinação com fenômenos solares
- Meteoritos e Impactos CelestesAnn Hodges atingida por meteorito · Caso único documentado · Probabilidade de impacto · Reação pública ao evento
Oi, aqui é a Paula Scarpin. E se você já teve vontade de fazer uma reportagem em áudio, a gente queria te fazer um convite. A gente aqui da Rádio Novelo montou um curso gratuito de podcast narrativo pro Centro Night, pro Jornalismo nas Américas. Ele parte de como identificar uma boa história, passando por como apurar em áudio, como pesquisar, como entrevistar, como organizar o seu material, até chegar em como escrever pro ouvido. O curso vai ser dado por toda a redação da Novelo.
Rádio, Rádio, Rádio, Rádio, Rádio, Rádio.
Eu sou a Branca Viana. Eu não consigo imaginar o tamanho do susto da Ann Hodges. Ela estava tirando um cochilo no sofá num dia de novembro de 1954, quando uma coisa fez um buraco no teto da casa, ricocheteou num aparelho de rádio, bateu na mão e na perna dela. Era uma pedra grande, maior que um punho, pesando quase 4 quilos. Considerando a situação toda, a Ann não se machucou muito.
A pedra só deixou um roxo bem grande na perna dela. Mas ela acabou indo parar no hospital no dia seguinte porque ela estava estressada, aflita, com o furdunço todo. O motivo do furdunço era que a pedra que acertou primeiro o rádio, depois a Anne, era um meteorito. Um fragmento de meteorito, na verdade. Mas isso significava que a Anne tinha virado a primeira pessoa, e até agora a única de que se tem notícia, a ser atingida por um meteorito.
Uma pedra de mais de 4 bilhões de anos de idade. Naquele mesmo dia, uma multidão foi parar na porta dela. Porque muita gente na cidadezinha, que fica no Alabama, tinha visto a luz atravessando o céu e tinha ouvido o barulho do meteorito atingindo a casa. Parece que foi tão forte que parecia uma batida de carro. Teve até gente que achou que era um ataque russo, porque afinal isso aconteceu durante a Guerra Fria.
tentaram falar com a Anne e pouquíssimos conseguiram. Muita gente escreveu para ela, mas parece que ela não estava afim de falar com ninguém. Todo ano, milhares de fragmentos de meteorito atravessam a atmosfera da Terra, mas a maioria acaba parando nos oceanos. Eu li uma aspa de um cientista dizendo que você tem mais chances de ser atingido por um tornado, por um raio e por um furacão ao mesmo tempo do que virar alvo de um meteorito.
Tem indícios de que um meteorito pode ter matado um cara e ferido o outro no final do século XIX no que é, hoje em dia, o Iraque. Mas a Anne, até agora, foi o único ser humano que a gente tem certeza que teve essa distinção. Num primeiro momento, ela disse que achava que Deus tinha mandado aquela pedra para ela. Mas, no final, ela ficou tão perturbada com a situação toda que ela nem quis ficar com a pedra que escolheu ela como alvo.
de história natural da cidade. Nas histórias do episódio dessa semana, a gente tem impactos siderais de outra natureza, de uma natureza bem menos literal. São duas histórias sobre pessoas olhando para as estrelas e fazendo perguntas. E muitas vezes tirando respostas bem diferentes. A gente vai fazer um intervalo rapidinho e já já quem começa é a Bia Guimarães. O aniversário da Insider é um bom momento para celebrar a tecnologia que funciona de verdade.
Por trás de cada lançamento, a pergunta é sempre a mesma. Isso funciona no mundo real? Pra quem vive no corre, pega calor, se desloca durante horas e emenda um dia longo, ter a Tech T-Shirt é uma virada de jogo. É a peça que desamassa no corpo, que te mantém seco porque facilita a evaporação do suor e que garante conforto do começo ao fim do dia. Roupa que não te dá trabalho.
Eu queria muito que você me ajudasse a navegar por aquele céu. Você tá vendo minha tela? Tô, tô sim. É o Stellarium? É o Stellarium, é.
com várias constelações bem icônicas no céu. Talvez você já tenha navegado por um desses softwares que simulam um planetário que mostram um céu bem realista para você abrir no computador ou no celular e ficar observando as estrelas, os planetas. E aí pertinho dela já estava Saturno e Marte. Eu tenho gostado de dar uma espiada antes de dormir. Eu aponto o celular para o céu, para o teto do meu quarto, no caso, para ver o tanto de coisa que está em cima da minha cabeça.
do céu, Sirius, que é a estrela mais brilhante do céu. Mas nesse dia, eu estava viajando por um céu específico, com a ajuda de um especialista, o João Fonseca. E aqui do ladinho já está essa constelação que é icônica, que é muito famosa, principalmente no céu de São Paulo, que é a constelação de Órion, que é tudo isso aqui. Só que ela é famosa por essas sete estrelas aqui. O João devia ter uns seis anos quando ele foi num planetário pela primeira vez.
A família dele era de uma cidade relativamente pequena, no interior de São Paulo. Chamou São Joaquim da Barra, fica próximo de Ribeirão Preto. Mas de vez em quando, eles iam pra capital pra visitar uma tia dele que morava lá. Nesse intermeio, meu pai me levou no planetário. Era o planetário do Parque Ibirapuera, um dos cartões postais de São Paulo. E o João lembra bem desse dia, porque não foi amor à primeira vista. Porque eu fiquei com muito medo.
A hora que o céu escureceu, que o planetário descortinou as estrelas, eu fiquei com medo.
Eu estava com a sensação que o céu ia cair na minha cabeça. Por sorte, o pai não decidiu levar ele embora. Não demorou muito para o medo virar fascínio. E aí eu falei, nossa, uau, que coisa impressionante. A imensidão, a escuridão, o mistério. E aí eu adorei. Meu pai abriu as portas do inferno ali, né? Porque todas as férias a gente ia aqui nos planetários. Em qualquer cidade por onde eles passassem, se tivesse um planetário por perto, eles tinham que dar um jeito de visitar.
A história do João tinha tudo pra acontecer em linha reta. Ele podia ter decidido ali, ainda criança, que ele queria ser planetarista. Sim, essa profissão existe. Planetarista é a pessoa que pensa a programação do planetário, que monta o roteiro das sessões e opera os equipamentos pra projetar o céu na cúpula. Ele podia até ter se imaginado trabalhando naquele lugar onde tudo começou, o Ibirapuera. Na realidade, as coisas não foram bem assim.
causa da história que eu vou te contar já já. E depois de acabar a escola, demorou um tempo para o João resolver fazer faculdade. Mas o resultado acabou sendo esse. Ele decidiu fazer faculdade de física por causa desse fascínio pelo céu. Aí ele se especializou na área de astronomia, foi contratado pela Prefeitura de São Paulo para trabalhar nos planetários da cidade e mais tarde, em 2021, ele assumiu a diretoria do Planetário Ibirapuera, que a essa altura já tinha passado para as mãos da iniciativa privada, junto com o Parque Ibirapuera.
do João é tentar provocar nas outras pessoas aquele encantamento que ele teve quando se viu num planetário pela primeira vez. Tem um diretor de planetário que ele fala que tem dois pontos na sua vida. Quando você nasce e quando você descobre porque você nasceu. O planetário fez descobrir o que eu estou fazendo aqui. No comecinho de 2023, o João estava lá, trabalhando, quando a administração do parque foi falar com ele por causa de uma demanda especial.
Um pedido. Da família da Rita Lee. Eles queriam falar com o pessoal do planetário e tal. Aí me colocaram.
Colocaram o João em contato com familiares e com a empresária da Rita, que era a Silvia Vena. E o pedido, a princípio, parecia simples. O João sempre foi muito fã da Rita Lee. Ele tem a discografia inteira dela, passando pelo período dos Mutantes, do Tutti Frutti, da carreira solo.
Ele lembra de ouvir ainda novinho, em casa, com os pais, os tios. E aí ele levou pra vida. Na época da escola, o João tinha uma banda com os amigos. Ele tocava baixo. Eles estavam sempre botando Mutantes no set list. A gente não era músicos bons. A gente tinha bom gosto. O João tem até uma tatuagem grandona no braço esquerdo com a ilustração de capa do álbum Jardim Elétrico, de 1971, que foi o penúltimo disco dos Mutantes antes da Rita Lee sair.
Mutantes e seus cometas no País dos Bauretes. Que foi o último álbum que ela participou. O João adora todas as músicas desse disco. A Rita nasceu e cresceu na Vila Mariana, não muito longe do Parque Ibirapuera. Ela e a família dela gostavam de passear por lá quando tudo era mal.
Ela gostava de ir no planetário também. Nem precisa ir muito fundo na obra da Rita para entender que ela tinha uma relação especial com o céu, que ela passava um tempão viajando na reluzente galáxia, nos planetas, nas estrelas, na lua, na melodia, dando um alô para os marcianos e imaginando interações com discos voadores. Quando aquela demanda chegou para o João, ele sabia que a Rita andava debilitada. Dois anos antes,
em 2021, ela tinha sido diagnosticada com câncer de pulmão. Então ele pensou que talvez ela estivesse querendo planejar uma visita ao Planetário com algum cuidado especial de acessibilidade, ou até num horário fechado para o público, para ser mais tranquilo. Eu falei, cara, vamos, a gente fecha aqui, a gente faz e tal. Demorou um pouco para ele entender que a ideia, na verdade, era que a Rita fosse velada no Planetário quando a hora chegasse. E talvez isso não fosse demorar muito para acontecer.
Como que eu faço isso, né? O João nunca tinha ouvido falar de nenhum velório que tivesse acontecido dentro do Planetário do Ibirapuera. E não teve mesmo, desde a fundação dele, nos anos 1950. A parte mais burocrática da negociação era a administração do parque que ia resolver. Outros detalhes já chegaram definidos, tipo que o velório ia ser aberto ao público, pros fãs poderem se despedir. Mas o João ia ter um papel importante. Ouvir os pedidos da família da Rita sobre os detalhes da cerimônia,
gregoriano que ia estar tocando baixinho e a cor que ia ficar projetada na cúpula do planetário. Uma cor âmbar. A gente salvou lá como a cor da Rita. E ele precisava pensar em como tudo ia acontecer naquele espaço. Aí a gente começou a preparar. Como é que ia ser? Eu desmonto essas cadeiras aqui, a gente deixou o caixão aqui, aí o pessoal ia entrar, passar por aqui, sair pela outra porta e tal. O planejamento da cerimônia começou em janeiro daquele ano, 2023. Durante o processo, o João conversava às vezes
Com a família da Rita, com a empresária, gente muito próxima dela. Mas ele não chegou a conhecer a Rita pessoalmente. E os meses foram passando. A gente montou um grupo, que era o grupo, assim, quando esse grupo tocasse, aconteceu. Aconteceu no dia 8 de maio, uma segunda-feira. A Rita ali morreu aos 75 anos. O velório ia ser na quarta. O João foi pro Planetário horas antes da cerimônia, de madrugada. Eu cheguei duas horas da manhã lá. E ele lembra que por volta das 5 da manhã, chegou a Rita.
de carregar o caixão. Aí ficou lá. Eu fiquei sozinho lá no planetário. Muito tempo. Eu tenho a discografia ali no planetário. Eu fiquei ouvindo. Fiquei bem no escuro, assim, sabe? Só com o céu estrelado lá. Vantagem de ser diretor do planetário, né? Você pode ter o céu só pra você ali. E fiquei com as músicas aí, sabe? Só pensando, assim, sabe? Eu tava absorvendo aquilo do que que tava acontecendo.
Então o João teve uma ideia. O trabalho dele é basicamente criar céus, né? Fazer roteiros pra navegar pela posição dos planetas e das constelações. Ele podia programar, ali rapidinho no computador, um céu especial pra Rita Lee. Pra rodar ao longo daquela despedida. Eu coloquei o céu do nascimento dela e esse céu ia passando bem devagarzinho.
31 de dezembro de 1947. Ela dizia que não gostava de fazer aniversário nessa data tão conturbada e que preferia comemorar no dia 22 de maio, o dia de Santa Rita de Cássia. Mas o céu sob o qual ela nasceu e a primeira parada daquele céu que o João montou para ela foi o do 31 de dezembro de 1947. A gente já tem aqui Sirius, que é a estrela mais brilhante do céu. Era esse o céu pelo qual ele estava me guiando lá no começo.
A projeção transicionava lentamente para outros períodos, outros céus, que marcaram a vida da Rita. Lançamentos de álbuns, a época em que ela começou a namorar com Roberto, o nascimento dos filhos deles, até chegar em 8 de maio de 2023, o último dia dela aqui na Terra. E, quando terminava, eu voltava para o céu inicial. Tudo isso ia estar projetado bem clarinho, porque o teto do planetário é feito para admirar no escuro, e no velório as luzes iam estar acesas.
Quase um easter egg, um presente discreto de um fã. Só pra constar, o João consultou a família da Rita antes de colocar esse plano em ação e eles autorizaram. Tem gente que acredita que o céu tá de um jeito ou de outro quando uma pessoa nasce, determinam tanto de quem ela é ou de quem ela vai ser. O João não acredita nisso, mas ele acha que tem uma certa beleza nessa coisa de tomar o céu pra si, mesmo que pra ele isso não signifique nada além do concreto.
Tipo, é o meu céu, né? É o meu céu, exato.
de hospital, cheio de remédios, de aparelhos, de fraldas, máscaras. Pelo menos ela tinha aquele céu. Muita gente passou no planetário ao longo daquele dia pra se despedir da Rita. Amigos, artistas, jornalistas, muitos fãs também. Tem um vídeo bonito que aparece no final do documentário Rita Lee Mania de Você, que foi lançado em 2025. É uma cena das pessoas entrando no velório cantando Ovelha Negra.
Acho que ele entrou na fila umas cinco vezes. Todas as vezes ele começava. Rita, você não morreu. Um, dois, três e levanta. Vai, levanta, levanta. E aí teve um cara muito louco também. Ele tinha um livro. Ele estava com um livro assim. Ele foi entrando assim. A hora que ele abriu o livro, eu vi que saiu um negócio. Aí eu fui lá perto ver. Era um monte de marimbom. E grudou tudo na cúpula. Tem muito artista que é para raio de maluco.
Mas a Rita talvez tenha sido acima da média. E isso é um elogio. Como fã, estar presente no velório da Rita, ter trabalhado por ela,
muito o João. Ele diz que foi uma das experiências mais especiais que ele teve enquanto diretor do Planetário Ibirapuera. Mas em paralelo com tudo isso, no meio do corre, tinha outra coisa acontecendo com ele. Naquelas horas antes do velório abrir, quando a madrugada ainda estava começando a virar dia e ele ficou sozinho com a Rita no Planetário, cuidando dos últimos preparativos e montando um céu pra ela, naquele momento, o João começou a pensar em outra pessoa, em outra mulher, que também nasceu num dia
31 de dezembro, só que seis anos depois da Rita, em 1953. A mãe dele, a Elza. No céu da minha mãe, Saturno e Mars estão bem juntinhos e a Lua pertinho também. No da Rita, eles estavam mais separados. Eu só comecei a conhecer minha mãe, depois que meus pais separaram, que a gente começou a passar um... que mudou, mudou muita coisa na nossa vida. O João tinha 12 anos quando os pais dele se divorciaram. Até esse momento, eles levavam uma vida muito boa.
E as histórias, assim, da minha mãe, ela perdeu os pais com 15 anos, ela é a mais velha, teve que cuidar de todo mundo, né, dos outros quatro irmãos.
Ela foi despejada da casa, porque eles não tinham como pagar aluguel, foram morar na rua. Morava num vestiário de um campinho de Várzea, no interior do Paraná. Até que uns familiares apareceram pra ajudar e a Elza e os irmãos foram morar em São Joaquim da Barra. Ela terminou os estudos e virou professora. Só que aí, quando ela se casou com o meu pai, meu pai falou pra ela parar de dar aula. Eles tiveram uma vida luxuosa e tal.
E aí, depois disso, ela perdeu tudo de novo. E ela perdeu e nunca era um problema. Ela sempre disse assim, vamos seguir.
Ela tinha uma consciência muito grande, uma consciência de classe mesmo, de saber de onde veio. O que você mais gostava dela? Os momentos que a gente parava pra conversar. Toda noite a gente parava pra conversar um pouquinho. Quando eu trabalhava, eu chegava em casa, tinha amigos meus batendo papo com a minha mãe, que passavam lá pra bater papo com ela e eu nem tava lá. Minha mãe era do agito. Então, os meus amigos começaram a passar fraldeando tudo lá em casa. Minha mãe tinha essa coisa de reunir
pessoas. Tudo pra ela era um motivo de festa. E minha mãe era quase uma pessoa da turma, assim, sabe? Ela ia nos shows, ela tava sempre com a gente. A Elza, assim como o João, gostava muito de ouvir música. Hora do almoço, ela colocava música. A gente, inclusive, colocou uma vitrola na própria cozinha ali, pra ficar ouvindo música. E os discos, a maioria dos discos era da Rita, era discos Robert Carlos, Gal, Caetano, assim, da turminha Tropicália, né? Alguns discos do Fagner,
E Beatles, Supertramp, assim, que era mais comum em casa. Quando o João tinha por volta de 14 anos, a mãe dele descobriu que estava com câncer de mama. O João passou a ir com ela para as sessões de rádio e de quimioterapia. Aí eu meio que dediquei a minha vida, assim, eu dava aula de música, ficava fazendo outras coisas, e aí eu cuidava da minha mãe. O tratamento era cansativo e a Elza ficava derrubada. Um tempo depois, as irmãs foram morar com ela, e ficou mais fácil dela se ajudarem.
As coisas se acalmaram por um tempo. Mas ainda no primeiro ano do curso, os médicos alertaram que o câncer tinha atingido o fígado. Em 2008, a irmã do João teve uma filha. E a chegada da netinha deu uma injeção de alegria na Elza. Mas enquanto isso, o câncer se espalhava mais,
pulmão, até que os médicos disseram que não tinha mais o que fazer. A Elza sabia, sentia, que ela não tinha muito mais tempo por aqui. E nessa fase, de vez em quando, ela pensava em como que ia ser essa partida. A Elza morreu no dia 24 de outubro de 2011, aos 57 anos.
E aí, na hora de organizar como ia ser o velório, e se ia ser enterro ou cremação, eles perceberam que sabiam muito pouco sobre o que a mãe deles queria pra esse momento. Eu não sei se a roupa que ela foi é a que ela queria ir, sabe? Eu não sei nada. A única coisa que eles sabiam, porque a Elsa fez questão de dizer, é que não era pra tirar a dentadura dela de jeito nenhum. A perda óssea do câncer fez os dentes dela caírem. E ela não queria ser vista assim. Pro resto, eles tiveram que usar a intuição.
enterro em vez de cremação, uma roupa marrom, que vinha sendo uma das cores preferidas dela naqueles últimos anos. Eu coloquei a última roupa que ela tinha comprado. A minha irmã falou, ah, ela gostava muito de rezar num tercinho aqui. Ela tinha um tercinho, que era um que era meu e outro da minha irmã, que ela pegava os dois e rezava nos dois, assim. A gente colocou os dois terços na mão dela. Bastante gente apareceu. Gente que o João nem conhecia.
Como um cara dizendo que tinha sido aluno da Elza e que ela tinha mudado a vida dele. Que ela tinha feito ele estudar.
No fim das contas, deu tudo certo. Foi uma despedida com amor vindo de todo lado. Mas o João ficou com esse amargo na boca. Ele sentiu uma espécie de culpa por não ter deixado a mãe dele dizer o que ela estava pensando sobre o fim da vida. E por não ter se permitido pensar e planejar essa despedida antes. Depois da morte da mãe, o João entrou numa fase muito ruim.
fui seguindo a vida. Entrei numa fase extremamente autodestrutiva, assim, com bebida, drogas e tudo mais, sabe? Nesse abuso, eu fui me perdendo, assim. Perdi tudo mesmo. E aí, quando eu comecei a sair disso, foi quando eu comecei a tomar leito, assim, sabe? Aí eu tava formando já, conheci minha esposa nessa época, pedi ajuda, que eu precisava de tratamento, precisava de coisa, sabe? E aí eu comecei a construir minha vida do jeito que eu entendi que tinha que ser, sabe? Fiz a minha carreira,
E nessa carreira eu tive a oportunidade de enterrar minha mãe de fato, sabe? No e-mail que ele escreveu pra gente pra começar a contar tudo isso, ele dizia assim, enterrei minha mãe 12 anos depois dela morrer. Isso porque ele sente que, de alguma forma, foi só naquela madrugada em maio de 2023, na companhia da Rita Lee e do Cell, depois de ajudar na despedida de outra mulher que ele gostava muito, ele sente que foi só naquele momento que ele fez as pazes com essa história.
E ali eu falei, cara, ali eu deixei minha mãe ir. Eu li, na segunda autobiografia da Rita, que quando ela recebeu a notícia que a mãe dela estava com câncer, ela compôs Coisas da Vida, que saiu pela primeira vez no disco Entradas e Bandeiras, de 1976.
tão simples. A sensação de estar vivo enquanto o outro morre. É muito estranho ser humano nessas horas de partida. Nos livros da Rita, tem momentos em que ela fala sobre a própria morte e o que poderia vir depois dela. Ela diz assim numa passagem.
deve ser o grande gozo final da vida. Aonde quer que eu vá, lá estarei eu. Em outra parte, a Rita tá falando da dificuldade dela em se desfazer das coisas. E ela fala que tudo, inclusive os objetos todos, tudo tem alma. Porque tudo, ou quase tudo, é feito de poeira de estrelas. Tem gente que usa esse argumento pra dizer que nada é assim tão importante. No fim das contas, a gente não passa de poeira estelar. Ela usava quase as mesmas palavras, mas querendo dizer o contrário.
A gente é feito dos elementos mais comuns, mais abundantes no universo. E isso é valioso. Alguém poderia olhar pra sua história e falar, nossa, tava tudo escrito nas estrelas. Você, criança, vai num planetário um dia, se encanta, fica voltando em planetário, vai fazer física, acho que se encanta por mutantes também poderia ter escrito nas estrelas, porque é uma banda que...
solo também, fala desse mistério do universo, fala do céu, né seu álbum favorito, tipo, tem cometas no nome e aí você de repente um dia calha de ajudar no velório da Rita Lee que é também essa pessoa apaixonada pelo céu e ela te ajuda com um luto que tava, né, precisando de um desfecho alguém poderia olhar pra isso e falar tava tudo escrito nas estrelas, tipo, é claro que ia ser a Rita Lee que ia te ajudar com isso você acha que tava tudo escrito nas estrelas?
O acaso. O acaso. São dois jeitos de olhar pra mesma história. Você escolhe o acaso. Total. O João acha que essa história dele com a Rita, dele com a mãe dele, da mãe dele com a Rita, que o encadeamento disso tudo é fruto do acaso. Talvez a gente esteja muito acostumado a falar do acaso como uma coisa menor, uma coisa menos bonita e grandiosa que o destino. Mas pro João, e imagino que pra muitos outros físicos e amantes do universo, o acaso tem sim muita beleza. É o que tá por trás de tudo que existe.
Hoje o João não trabalha mais no Ibirapuera, mas ele continua prestando serviços para planetários e observatórios. E ele continua fazendo uma coisa que ele adora fazer, que é montar telescópios. Ficar combinando lentes, filtros e tecnologias para conseguir enxergar o mesmo céu, os mesmos corpos celestes, de um jeito diferente. Desafiando não só a distância, mas a fronteira entre o que é visível e o que é invisível para a gente.
O que você mais gosta de observar? Atualmente é o sol. Por quê? Eu tô fascinado com... Eu montei um filtro que eu vejo aquelas protuberâncias do sol. Aquelas explosões. Porque quando você olha no visível, ele é só branco, é só algumas manchas, assim. Agora eu tô vendo essa... Tipo a atmosfera dele, assim. Do grosso modo, sem uma atmosfera. E eu tô encantado com isso, sabe? Tô apaixonado por essas fases, assim. Eu não sei se você já viu uma dessas imagens super detalhadas do sol.
post desse episódio no site da Novelo pra você ver também. Às vezes parece um tecido laranja fumegante, com os desfiadinhos despontando. Outras vezes parece uma plantação vista de cima, como um mar de girassóis pintado pelo Van Gogh. O sol ganha outra proporção. E dá uma coisa que eu tô apaixonado, tô encantado com isso. O João não acredita em vida após a morte. Nas tantas horas que ele passa observando o sol e o restante do céu, ele não fica questionando
se existe algo pra além disso. Algum lugar pra onde a gente vai depois que acaba nossa vida na Terra. Ele acredita que a mãe dele tá viva dentro das pessoas que amavam ela. E isso também é valioso. Essa foi a Bia Guimarães. A gente queria agradecer ao Tiago Coelho, que além de repórter e roteirista, é um baita ritalizólogo e deu os palpites certeiros aqui pra gente. A gente volta já já.
Esta semana, no Escute as Mais Velhas, a gente conversa sobre como é atuar nos direitos humanos com a educadora e ativista Jurema Batista. Porque eu, como uma pessoa da área de educação, e sempre trabalhei muito com mulheres, eu descobri que elas não tinham onde deixar os filhos. Comecei uma luta por creche comunitária. A Jurema foi a primeira deputada estadual negra do Rio de Janeiro e uma das fundadoras da Associação de Moradores do Andaraí,
de janeiro. Aí batemos na casa de vários homens. Um dizia que não podia, que no final de semana ele tinha que ter lazer com a família. Um disse que nem pensar que o presidente da Associação dos Moradores tinha que comprar briga com a polícia. A Jorema contou pra gente os desafios e as diferenças da mobilização popular e da mobilização na esfera política. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tid Setúbal, produzido pelo Estúdio Novelo. Já disponível no seu
E com episódios novos toda terça-feira. Siga o podcast para não perder. Oi, amiga. Oi, amiga. Hoje a gente está aqui para convidar vocês a ouvir um quadro especial do Duas e Tanto, o videocast em que a gente explica, todas as terças e quintas, um tema quente da política de um jeito descomplicado e rapidinho, como um papo entre amigas. E agora a gente estreia o Glossário Político, um quadro em que a gente explica um tema que vira e mexe,
volta ao debate. Pode ser sobre saúde, segurança pública ou como funciona um projeto de lei. E o primeiro tema do nosso glossário político, na próxima sexta-feira, vai explicar o que está em jogo no debate sobre o aborto no Brasil. É uma parceria com a campanha Nem Presa Nem Morta, que atua pelos direitos reprodutivos da mulher. Se sua organização trabalha com um tema importante para a formação crítica da sociedade e você quer esse tema debatido no glossário político do Duas e Tanto, fale com a gente no e-mail
parcerias.radionovelo.com.br Eu vou repetir, parcerias.radionovelo.com.br A segunda história de hoje vem do nosso acervo e foi publicada originalmente em setembro de 2023. Quem conta é o Vitor Manuel, que talvez você tenha fresco na memória como o cara que contou para a gente das cartas para o Chico Mendes. Em 2023, o Vitor estava super empolgado com o lançamento
filme inteiramente rodado e produzido no Acre, o estado dele. Só que quando a gente foi ver, essa história ia muito além do filme. Não vou falar mais nada. E só um aviso aqui, que essa história fala de violência.
Ela não estava rezando e nem conversando. Era mais próximo de um monólogo, mas muito intenso e muito focado. Hoje eu gosto de pensar que talvez ela estivesse jogando o feitiço. Mas o que quer que ela estivesse falando era uma coisa muito íntima. Ela não deixava ninguém chegar perto nessas horas. Na verdade, a única pessoa que ela deixava era eu. A minha avó era o centro da família. Ela tinha acumulado uma pensão de professora e a pensão de trabalhador rural do meu avô. Então ela dava meio que um chão financeiro pra todo mundo.
Meses tinha uma força gravitacional. Tudo passava por ela e nada passava ao largo dela. Eu e ela, a gente era um encarne. É meio feio dizer isso, mas eu tenho quase certeza que eu era o neto preferido dela. Lembro de ver ela de costas, com o vestido batendo na perna, indo em direção ao mercadinho comprar alguma coisa que eu queria. Seja um brinquedo ou um docinho. Teve uma vez que ela gastou 10 reais de figurinha só pra mim. E eu me senti a criança mais mimada da face da terra.
Nossas tardes eram meio ecléticas. Primeiro, a gente lia a Bíblia juntos. Depois, eu fazia uma troca de figurino. Eu tirava meu calção velho, geralmente comprado de um primo mais abastado, e botava alguns dos vestidos dela, os mais coloridos e estampados. Lembro que amava um com tons vermelhos e um tecido bem fininho. Ela nunca se incomodava de emprestar. Nessas horas, eu virava a Angélica, cantando o voo de táxi, ou a Patrícia,
apresentando roda a roda, ou a Thalia, na abertura de Maria do Bairro. Dependia do que a gente tinha visto no dia. E ela sempre, sempre morria de rir. Foi assim até os meus nove anos. Eu, a minha avó, a Bíblia, os vestidos e a Angélica. Quando meu pai passava, ele fazia cara feia. E os vizinhos viam e me zoavam. Mas a minha avó não ligava. Isso me dava o direito de não ligar também. E sempre vinha aquele momento da minha avó sair de cena. Bíblia fechada, olhando pro vazio, pro mato,
falando alguma coisa bem baixinho. Por mais que eu tente hoje, por mais que ela me deixasse ficar do lado dela, eu não lembro o que eu ouvia. Eu cresci em Cruzeiro do Sul, uma cidade que fica no extremo oeste do Acre, quase na ponta final da única estrada que atravessa o estado. No trapicho da minha casa, dá pra ver todo o nosso bairro. Uma cratera enorme, recheada de casas de madeira e muito verde. A cidade toda é uma coleção de barrancos e um sobe e desce de ladeiras nas margens do rio Juruá,
O meu pai cresceu num ponto mais alto do rio Juruá, uma comunidade ribeirinha chamada Boa Fé, que já era o Amazonas. As histórias que o pessoal contava sobre o Boa Fé eram mais próximas de contos de fadas que eu já ouvi. Parecia um lugar mágico, onde a realidade já não era uma coisa tão firme assim. Uma tia minha jurava que ela tinha visto várias vezes Boto virando homem, e meu pai sempre me contava a lenda do batedor, que é assim.
Se você, numa noite, ouve alguém bater na água, lá no rio, tem uma coisa que você não pode falar.
Bate mais perto, porque aí o barulho vai se aproximar um pouco. E aí se você falar, bate mais perto, ele vem mais pertinho da margem. Se você pedir mais, ele sai da água e bate no chão. Se você pedir de novo, daqui a pouco ele bate na parede do seu quarto. E se você pedir mais uma vez, o batedor te leva embora. E tinha uma história que eu vi tanto da minha avó quanto do meu pai. Essa era sobre um homem muito cabeludo, cheio de cabelo no corpo todo, que aparecia lá na beira do rio.
E a ele às vezes. Mas se ela tava com meu pai, que era o caçula dela, era quase certo. Eles me contavam sobre o dia que esse homem cabeludo apareceu na beira do rio. Ele tava lá na água, olhando pra eles. E de repente, ele deu um salto. Que nem um boto. E chamou meu pai pelo nome. Minha avó agarrou meu pai bem firme. Bem firme mesmo. E correu com ele pra longe dali. O meu pai contava essa história rindo. Mas a minha avó contava com toda a seriedade do mundo. Pra ela, foi o dia em que ela salvou a vida do filho. Minha avó morreu.
Em julho de 2011. Não foi do nada. A gente vê ela mudar de casa em casa. Da minha, pra da minha tia, pra da minha outra tia, até o hospital. Era um dia de sol. Eu tinha acabado de chegar da escola. E o meu pai tava destruído. No dia do velório dela, ninguém tava de preto. As pessoas não vestiam preto nos velórios. Não sei se por causa do calor. Eu, por exemplo, tava com uma camiseta do Homem-Aranha. Nesse dia, eu quase não chorei. Eu lembro que cheguei na igreja, fui ver ela no caixão,
Tinha três pontinhos brilhando no céu, parecendo estrelas, um pouco maiores que o normal, com as bordas avermelhadas.
Eu acreditava muito em ET. Nos jornais locais, parecia que dia sim, dia não, vinham reportagens sobre um avistamento de OVNI em algum canto da Amazônia. Algum desenho nas plantações, algum sinal de vida lá fora. Eu era o mais medroso dos meus primos. Mas naquela noite, eu não senti medo. E eu lembro de olhar para aquelas luzes e pensar. Será que foi a avó que chamou eles? Depois da morte da minha avó, foi a minha vez ficar falando sozinho. Eu não queria saber de ninguém. Nessa época, eu brincava muito sozinho.
Ficava no quintal, embaixo da caixa d'água, que era o único canto de sombra. E eu ficava narrando minhas aventuras imaginárias naquele canto de sombra, falando baixinho, com o olhar meio perdido. Eu era um mestre pokémon ou um vingador, na maior parte das vezes, tentando salvar o universo como qualquer criança de 9 ou 10 anos. Era mais fácil brincar sozinho, era mais fácil falar sozinho, do que tentar compartilhar meu mundo com mais alguém.
Mas quem me visse de longe devia achar que a esquisitice da minha avó tinha passado pra mim.
época, a gente só não passou fome por causa da igreja e dos meus tios. Os meus pais ficaram mais violentos e mais distantes. E não tanto tempo depois, uma coisa foi ganhando força ao redor da casa e dentro dela. Primeiro, um dos meus tios começou a usar droga. E era só isso. Só droga. Ninguém falava o que era. Lembro dele chegando drogado e nu, meio noiado, meio morto, numa noite que toda a família estava reunida no sítio dos pais da minha mãe. Depois de um tempo, ele abandonou a mulher e a filha pequena.
Eu lembro do meu pai saindo do meio da madrugada pra socorrer ele porque ele tinha se metido numa briga. Os filhos da vizinha também começaram a usar. Acharam uma arma no guarda-roupa de um outro tio meu. E se eu demorasse muito pra voltar pra casa, os meus pais me batiam. Hoje em dia, eu não deixo de achar traje cômico porque eles me batiam com uma tauba de madeira que tinha meu nome, Vitor, escrito num lado, e o nome da minha irmã, Jamile, escrito no outro. Eu tinha mais medo daquilo do que de uma bala. Aos poucos, mas não tão devagar,
A minha família foi se transformando. Tinha parentes, andando com gente da pesada. De repente, alguns dos meus primos tinham muito dinheiro. Todo mundo parecia estar trocando de papel. Era como se a novela da minha família tivesse trocado de gênero. Passado de uma comédia familiar, ao redor de uma Helena, do interior do Acre, pra um bang-bang. Sem que o roteirista tivesse justificado a virada direito. Os atores eram os mesmos.
Mas a atuação deles não estava me convencendo mais. E tinha outra. Se aqueles personagens tinham mudado da noite pro dia,
garantia que eu mesmo não podia acordar transformado. E aí, veio o Natal de 2016. Eu tinha acabado de terminar o ensino fundamental, mas esse Natal marcou a minha entrada num mundo diferente. Depois de anos sem frequentar o sítio dos meus avós, a minha mãe tinha resolvido voltar a passar o Natal lá. Tava todo mundo no quintal, meus tios fazendo churrasco, minhas tias fuxicando, e a polícia invadiu. Eu me abaixei. As minhas irmãs e as minhas primas mais novas estavam chorando.
Aquele meu tio que tinha usado droga e estava num período de reabilitação fugiu pra mata.
devia nada pra polícia, mas tinha levado surra demais pra não ter medo. Eu nem lembro direito o porquê de tudo aquilo. Ninguém foi preso naquele dia, mas isso ficou na minha cabeça, junto com outros eventos que começaram a acontecer cada vez mais. Tudo era mais confuso pra mim, porque eu era criança. Na verdade era pior ainda, porque eu tava deixando de ser criança. E do mesmo jeito que eu não consigo lembrar direito quando foi que a situação começou, o fim também não parecia estar no horizonte. E tudo que veio depois também foi assim, sem pé e nem cabeça.
assistindo alguma série no celular, escondido da minha mãe, fingindo que eu estava dormindo, quando ouvi um barulho bem próximo. Parecia fogo de artifício, mas nem era dia de jogo. Era um tiro na frente da minha casa. Eu fiquei calado. Eu ainda estava com medo do meu próprio crime ser descoberto. Não era para eu estar acordado, muito menos assistindo série. Mas depois de um tempo, meu pai chamou todo mundo em casa para ver. Uma em branco e loiro, de regata vermelha e um calção cinza, com um buraco enorme no meio da cabeça. Aquilo estava na cerca do meu terreno.
Eu fiz uma pequena coleção de recortes enquanto eu estava escrevendo esse ensaio. Manchetes que foram pontuando essa virada da adolescência. Os primeiros anos de ensino médio. Jovem executado com oito tiros. Esse foi o filho da vizinha. Homem é morto e decapitado e a cabeça encontrada em cima de padrão de luz. O padrão de luz, tipo um relógio de luz, ficava na rua depois da minha. Menino de 12 anos é decapitado. O menino em questão morava num bairro vizinho do meu. E era pouca coisa mais novo.
A taxa de homicídios no Acre dobrou. No ano seguinte, subiu mais ainda. O PCC e o Comando Vermelho estavam em guerra. E, de repente, isso estava no meu quintal. Podia ser uma fábula, do tipo que eu me contava embaixo da caixa d'água. Num reino distante, dois exércitos poderosos tinham sido desentendidos. E a consequência disso era que a batalha deles
chegado no meu fim de mundo. Essa era a violência que vinha de fora. A de dentro me dava mais medo ainda. Tinha tábua, como é o nome escrito nela, mas também tinha prima. Foi pega beijando meninas. O pai dela bateu nela até quase matar. Ela teve que sair correndo de casa e tentar a vida em outro canto, em outra cidade. Os traficantes ainda eram aceitos no almoço da família, mas eu olhava porque tinha acontecido com a minha prima e já não tinha certeza se tinha lugar pra mim naquela mesa. Não tem outro jeito de dizer. Eu fugi de lá. Fugi 600 quilômetros em linha
Para o outro lado do estado, Rio Branco, é aqui que eu estou hoje. E foi aqui que eu vi um filme que me lembrou um pouco o filme da minha família. É, teve uma crítica da Maria do Rosário, que é uma grande crítica de cinema brasileiro, que ela, em Gramado, ela chama de um filme OVNI que pousa em Gramado. Esse é o Sérgio de Carvalho, que dirigiu o filme Noites Alienígenas. Simplificando, dá para dizer que esse é o primeiro filme acreano da história.
comercial. É menos dramático dizer assim, né, mas paciência. Talvez, mesmo com todos esses disclaimers, você esteja se perguntando, como assim o primeiro filme é criando? Primeiro filme de estado que existe desde 62?
Mas Moro no Acre há mais de 20 anos já. Ele produz principalmente documentários. Alguns estão disponíveis nos streamings. E ele é um dos fundadores das AC Filmes, uma produtora de audiovisual que fica aqui na capital. Mas eu acho que essas narrativas amazônidas, elas precisam atingir mais o Brasil. Imagina, a gente é a maior parte do território brasileiro, né? E a gente liga a TV na hora do almoço e a gente tá vendo sobre o trânsito da marginal Pinheiro, né? Noites Alienígenas. Apesar do nome, é um filme bem pé no chão.
sobre a violência e o tráfico na periferia de Rio Branco. Várias imagens me deram um arrepiozinho de reconhecimento. Parecia que elas tinham sido tiradas de dentro da minha cabeça. Eu contei isso para o Sérgio e ele disse que já ouviu isso de outras pessoas daqui. As paisagens vistas na moto, os céus salpicados de papagaio, que é como a gente chama pipa, e no meio disso tudo tem os ETs.
Uma das primeiras cenas é de um traficante, o Ale, fazendo discurso sobre a vida lá fora. O Ale é um cara de uns cinquenta e tantos, sessenta e poucos anos. Trabalha com um rapaz chamado Riva. E nessa cena, o Ale está discursando sobre ETs que fizeram pirâmides.
enquanto o Riva pinta um quadro com tinta spray. Solidão do caralho aqui nessa terra. Eu senti essa solidão vendo o filme, vendo o Riva, que é uma imagem do que eu, em outro universo, em outra vida, talvez pudesse ter sido, ou que a minha mãe tinha medo do que eu virasse. Um menino acreano que não consegue evitar a força gravitacional do tráfico. Quando ele tenta, já tá tarde demais.
Teve uma crítica que saiu que eu gostei muito, que ela perguntava muito quem são os alienígenas. Será que é o diretor que está no Acre, não é do Acre? Será que é a facção que não é do Acre e chega abduzindo um território? É o indígena que está na cidade? Eu fiz essa exata pergunta para o Sérgio, mas ele não quis responder. Ele acha que o espectador é quem tem que decidir. O pessoal da Rádio Novelo, que estava fazendo essa história comigo, tinha certeza de que a invasão alienígena eram as facções sudestinas que invadiram o Acre.
Estrelas avermelhadas no velório da minha avó. Da sensação de estar no fim do mundo. Na fronteira da galáxia. Se dava pra ver as estrelas tão bem lá em Cruzeiro, era fácil imaginar que elas conseguiam ver a gente também. E ouvir. Acho que no fundo, não dá pra separar as duas coisas. O extraterrestre, do terrestre, os discos dos voadores, das balas perdidas. O Acre continua sendo um alienígena dentro do território brasileiro. Eu me senti um alienígena dentro da minha família. Aqui em Rio Branco, eu sou um estranho do interior.
No interior, eu também não me sinto em casa mais. O constante de uns anos pra cá tem sido a violência, que tá cada vez menos estranha e cada vez mais familiar. A maior mudança nesse tempo talvez tenha a ver com a solidão. De todas as coisas nessa equação, de todas as forças que estão em jogo, ela pode ser a mais fácil de mudar. O filme do Sérgio acaba rompendo um pouco dela, levando o céu de Rio Branco pro resto do Brasil. E depois de passar boa parte da minha infância falando sozinho, agora eu tô aqui, falando com você.
Esse foi o Vitor Manuel. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. As nossas histórias saem do forno às quintas-feiras, mas a gente libera a fornada mais cedo ainda para os membros do Clube da Novelo. Na semana que vem, tem isso aqui.
ela viajou o mundo com as crianças, fez não sei o quê. E ela falou, você está sendo burra. Aí na hora que ela falou, você está sendo burra, eu comecei a chorar. Eu sou muito chorona. E aí eu pensei, será que eu estou sendo burra mesmo? Se você quiser fazer parte do nosso clube, as informações estão todas no nosso site. A gente volta já já. Em junho de 1987, o advogado e ex-deputado estadual pelo Pará, Paulo Fonteles, foi assassinado a tiros dentro do carro dele.
era conhecido por atuar na defesa dos pequenos agricultores e da reforma agrária. Nessa época, o repórter Lúcio Flávio Pinto estava trabalhando em dois jornais, o Liberal do Pará e o Estado de São Paulo. Na hora, ele começou a acompanhar as investigações do caso. Depois de meses de apuração, ele chegou na mesa da diretora administrativa do Liberal com a reportagem em mãos. A diretora ficou impressionada com o trabalho, mas disse que não iam poder publicar a matéria.
dois dos homens mais ricos do Pará e grandes anunciantes do jornal estavam envolvidos na denúncia. Foi ali que Lúcio Flávio tomou uma decisão. Para poder contar o que ele sabia, ele ia criar um jornal independente, só dele, o Jornal Pessoal. Essa história é contada na revista Piauí de Abril, que traz a segunda parte do perfil do repórter Lúcio Flávio Pinto, escrito por João Moreira Salles.
no celular ou no computador. Saiba mais em revistapiaui.com.br. Na página desse episódio, no nosso site, tem fotos fofíssimas do Vitor Manuel e da avó dele e tem algumas imagens da superfície do Sol que tem fascinado o planetarista João Fonseca e uma foto dele com a mãe dele, a Elza. Para coroar, a Bia Guimarães fez uma playlist de músicas celestiais e espaciais da Rita Lee para você continuar ouvindo pela semana fora.
Se você for de redes sociais, a gente está nas redes no arroba radionovelo no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Se você é de e-mail, dá para mandar sugestão de história, crítica, elogio, etc. para o e-mail apresenta arroba radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast
A produção executiva é da Marcela Casaca. A gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jäger. Nossos repórteres e roteiristas são a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, o Vinícius Luiz, a Bárbara Rubira, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes.
Nossos treinis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Valejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farah e pela Denise Ribeiro. Esse episódio teve desenho de som da Júlia Matos e da Bia Guimarães, que assina a mixagem junto com a Mariana Leão. Nesse episódio, a gente usou música original de Vitor Rodrigues Dias e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento.
são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Taina Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. E quem faz a revisão das transcrições dos episódios para a gente é a Flora Vieira. Obrigada e até a semana que vem.
Clube da Novelo
Membros do clube com acesso antecipado a episódios e bolsa de brindeInsider
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