Ida e volta
Um homem retraça o passado da família, e pais retraçam a história deles para o filho.
No primeiro ato: um beninense descobre raízes no Brasil. Por Vinicius Luiz.
No segundo ato: um sitcom de família vira um thriller indesejado. Por Fernanda Bastos e Luiz Mauricio Azevedo.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep170
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Palavras-chave: Retornados, Agudás, Islamismo, Revolta, Malês, Benin, Escravizados, assédio sexual, crime organizado, escritores, ameaças.
- Violência contra a mulherImportunação no elevador residencial · Testemunhas presenciando ato · Câmera de segurança registrando · Impunidade do agressor · Impacto psicológico prolongado · Narrativas similares de outras mulheres · Falta de resposta institucional
- Retorno de Escravizados para a ÁfricaAgudás no Benin · Deportações após Revolta dos Malês · Viagens transatlânticas século XIX · Reconstituição de raízes familiares · Retorno voluntário por medo de repressão · Família da Glória em Agué · Câmaras de batismo nos portos africanos
- Impunidade no Sistema de JusticaPolícia sem poder proteger vítima · Sugestão de vítima sair da cidade · Agressor não pagando condomínio · Agressor continuando no mesmo prédio · Inquérito sem conclusão meses depois · Diferença de tratamento por raça · Fracasso da denúncia criminal
- Genero e PoderHomem negro constrangido por script de masculinidade · Impossibilidade de resposta com violência · Agressão de homem branco impune · Privilégio racial do agressor · Fantasia paralela de mundo invertido · Responsabilidade desigual de homens negros · Proteção de criança como prioridade
- Agudás e retorno à ÁfricaEscravizados que retornaram do Brasil · Família da Glória · Viagens entre Brasil e África · História multigeracional · Identidade e raízes familiares
- Racismo e segurança pública no BrasilRacial profiling · Ineficácia policial · Desigualdade de direitos · Proteção diferenciada por raça · Violência estrutural
- Revolta dos MalêsLevante muçulmano em Salvador · Conspiração islâmica contra governo · Repressão e deportações · Morte de aproximadamente 70 pessoas · Derrotas antes de expansão planejada · Fechamento de comunidades de aprendizado islâmico · Mudança de ordem política
- Mudança forçada e deslocamentoAbandono de cidade · Trauma pós-assédio · Impacto em criança pequena · Perda de espaço urbano · Retorno ao interior
- Identidade e RepresentatividadeSer negro em contextos diferentes · Sentimento de brasilidade · Integração e exclusão · Diferenças raciais estruturais · Liberdade e opressão
- Pesquisa genealógica e história oralRegistros de batismo em África · Documentos de passaporte · Cartas de alforria · Rastreamento de famílias · Pesquisa acadêmica sobre terreiros
- Masculinidade negra e violênciaPressão social sobre homens negros · Resposta a agressão · Fantasia branca sobre violência · Dilema ético · Paternidade responsável
- Histórias Pessoais e de ViajantesEscrita autobiográfica · Salvação de narrativas · Construção de memória · Testimonianza · Poder das palavras
- Vida em São Paulo e segregação urbanaMoradia em centro versus periferia · Família negra em classe média · Vizinhança e dinâmica de prédio · Mudança de bairro · Sentido de segurança urbana
- Islamismo no Brasil colonialPráticas islâmicas entre escravizados · Mesquitas erguidas por agudás · Sincretismo religioso · Autoridades religiosas muçulmanas · Candomblé e tradições africanas
- Impacto cultural de telenovelas brasileirasPor Amor e representação racial · Influência de atores em decisões de vida · TV como janela para Brasil · Consumo de mídia infantil · Narrativas de troca de bebês
Oi, aqui é a Paula Scarpin. E se você já teve vontade de fazer uma reportagem em áudio, a gente queria te fazer um convite. A gente aqui da Rádio Novelo montou um curso gratuito de podcast narrativo pro Centro Night, pro Jornalismo nas Américas. Ele parte de como identificar uma boa história, passando por como apurar em áudio, como pesquisar, como entrevistar, como organizar o seu material, até chegar em como escrever pro ouvido. O curso vai ser dado por toda a redação da Novelo.
quatro semanas, a ideia é te deixar pronto pra produzir uma história. Seja pra você mesmo, num projeto independente, seja pra algum veículo. E quem sabe até aqui pra gente, na Rádio Novelo, né? Você pode ter experiência com jornalismo ou não, não importa. O importante é ter curiosidade e gostar de podcast. O curso se chama Contando Histórias em Áudio com a Rádio Novelo e vai começar no dia 4 de maio. Todas as informações e o link pra se inscrever já estão lá no nosso site. Rádio Novelo. Tá começando o Rádio Novelo Apresenta.
Eu sou a Branca Viana. A gente não sabe qual foi o motivo da briga, nem quem disse o quê pra quem. Mas em algum dia de 1790, teve um duelo. Dá pra imaginar dois homens, de costas um pro outro, em cima de algum morro, em alguma clareira, em algum campo. Tem uma contagem regressiva, eles puxam as armas e disparam. Infelizmente, eu também não sei te dizer se alguma das balas pegou em alguém.
Além de todos os envolvidos, vamos supor carinhosamente que não. Tudo que passou para a história é que em algum dia de 1790, um jovem oficial francês participou de um duelo. E ele recebeu um castigo por causa disso. Ele ia ter que ficar 42 dias em prisão domiciliar. E a gente sabe disso porque durante esses 42 dias, ele escreveu um livro que acabou inspirando o Machado de Assis
uma leitura reconfortante para quem teve preso em casa durante a pandemia. O livro se chama Viagem ao Redor do Meu Quarto. E nele, o autor, o Xavier Demetre, viaja, entre aspas, da poltrona para o sofá, do sofá para a cama, da cama para a escrivaninha, passeando pelas gravuras na parede. E uma das grandes reviravoltas da trama é quando ele está quase chegando na cômoda e ele tropeça,
E cai no chão. No final dos 42 dias e dos 42 capítulos curtinhos, ele retoma a liberdade e sai do quarto até a hora de dormir naquela noite, a gente presume. Muitas das grandes obras literárias, e algumas pequenas como essa, são viagens de ida e volta. Do retorno ao ponto de partida. Um ponto de partida que nunca é igual ao lugar que a gente deixou. E as duas histórias do episódio dessa semana
por motivos muito diferentes e em circunstâncias bem mais sérias do que aquele francês temporariamente confinado. No primeiro ato, a gente tem uma saga multigeracional que vai de lá para cá, de cá para lá e para cá de novo. Quem conta depois desse intervalo é o Vinícius Luiz. O aniversário da Insider é um bom momento para celebrar a tecnologia que funciona de verdade. Por trás de cada lançamento, a pergunta é sempre a mesma.
Isso funciona no mundo real. Pra quem vive no corre, pega calor, se desloca durante horas e emenda um dia longo, ter a Tech T-Shirt é uma virada de jogo. É a peça que desamassa no corpo, que te mantém seco porque facilita a evaporação do suor e que garante conforto do começo ao fim do dia. Roupa que não te dá trabalho. E pra aproveitar o aniversário da Insider, é só usar o nosso cupom Rádio Novelo, tudo junto e sem acento. E tem bônus.
E 10% off pra quem já é de casa e ama Insider. O link tá na descrição do episódio. Com ele, o cupom Rádio Novelo entra automaticamente no carrinho. Insider. Se é confortável, é uma escolha inteligente. Numa noite chuvosa, uma mãe e uma filha estão internadas numa clínica. As duas estão grávidas, prestes a ter os bebês. As duas crianças nascem, mas só uma delas sobrevive.
da criança sobrevivente, toma uma atitude desesperada. O segredo fica entre ela, o médico que fez o parto das duas, e o diário onde ela anota tudo. Essa cena parou o Brasil quando passou na novela Por Amor, em 1997. A partir dali, a novela girou em torno do segredo que a Helena, vivida pela Regina Duarte, guardava sobre o bebê da Eduarda, interpretada pela filha dela, Gabriela Duarte.
fez um diário, foi a chave da revelação sobre o segredo, capítulos mais tarde. A revelação tirou o chão da Eduarda. O bebê que ela estava criando como filho era, na verdade, irmão dela. Algum tempo depois, a história da troca dos bebês atravessou o Atlântico e chegou em Cotonou, no Benin.
Nos países da África que falam francês, como é o caso do Menin, Por Amor foi batizada de sublime mensonge, que quer dizer sublime mentira.
Na época de Pur Amor ou Sublime Monsonge, o Yassin estava com os nove anos e não perdia nenhum capítulo. Apesar do impacto da cena da troca dos bebês, teve outra coisa que ficou mais marcada na cabeça dele. Nessa novela, eu lembro que era o ator Antônio Fagundes, que era o atilho, arquiteto. Então foi ali desde os meus nove anos que eu sabia que ele ia ser arquiteto, então eu estudava muita matemática, desenho para isso.
do arquiteto por causa do Antônio Fagundes. O que seria muito legal, vamos combinar. A história também não é sobre o Yassim descobrindo que ele foi trocado na maternidade. O que seria menos legal para todos os envolvidos. Mas assim como a Eduarda, o Yassim também acabou descobrindo um outro lado da própria família. Um outro lado que tinha a ver com o Brasil que ele já conhecia das novelas e do futebol. Era uma noção parcial.
sobre o Brasil. Uma parte era das novelas, que mostrava um país com mais brancos que negros, e uma parte era do futebol, onde os negros superavam os brancos. Então, eu soube primeiro que eu era um agudá na escola. Agudá é o termo usado no Benin para pessoas que viveram como escravizadas no Brasil e conseguiram voltar para suas terras de origem. Mas nas aulas de história contando sobre a escravidão, eles não repassavam para a gente a história com o peso
e a gravidade. Ah, teve comércio, que a gente chama de comércio triangular, europeio, vem pra África, busca africano, depois leva nas Américas e só. Nessa época da escola, Yassin estava mais interessado em brincar e ver televisão. Então isso não fez muita diferença na vida dele. Aliás, ele nem ligou aquela conversa de Agudá, que ele ouviu na escola, ao país que ele via na TV. E dentro de casa não se falava muito sobre o passado da família dele.
A maior parte das outras famílias jagudás no Benin, essa história é diferente. Até hoje, elas tentam manter alguma coisa da cultura brasileira. Tem festa do Senhor do Bonfim, tem feijoada, tem cocada, tem carnaval. Na família do Yassim, o que tinha sobrado era mesmo o sobrenome, da Glória.
Anos mais tarde, apesar da vontade que o Yassin tinha de seguir os passos do Atilho e estudar arquitetura, ele acabou se formando em engenharia civil. A arquitetura virou um plano para a pós-graduação. Eu pensava muito mais em fazer arquitetura em um país de língua árabe, porque eu ficava fascinado pela arquitetura das mesquitas. Então, assim, eu pensava em morar talvez em Marrocos, Tunísia, esses países, para poder também vivenciar além da espiritualidade, mas também a parte arquitetônica das mesquitas.
como mais de 25% da população do Benin. Por isso que ele estava olhando para esses países no continente africano, tem maioria muçulmana. Mas essa ideia não deu certo. Ele cogitou também estudar na Europa, mas isso também não estava rolando.
aqui no Brasil. Aí pra mim foi uma decisão muito rápida, porque eu sou muito fã de futebol e teria a Copa do Mundo no Brasil em 2014 e a Olimpíadas em 2016. Tudo isso e mais o fato de que o Yassin tinha um passado familiar aqui no país. Mas assim, pra ser 100% transparente, foi o futebol que realmente falou mais alto nesse caso. Eu participei de um edital de pós-graduação, um edital de convênio internacional do Brasil sobre desenvolvimento de
materiais com fibras vegetais, que foi aprovado, eu recebi a bolsa e eu vim. O Yassim chegou aqui em 2013 para estudar na Federal do Rio de Janeiro. E graças a Deus eu tive essa possibilidade de assistir jogos da Copa do Mundo em 2014, no Mineirão, mas não chegou a ser o 7x1, e ainda participei das Olimpíadas como voluntário e ainda fui porta-bandeira do PNI no encerramento das Paralimpíadas no Maracanã.
Por exemplo, foi um dia de realização enorme. De poder ter abandonado o meu país, entrando no Maracanã, pensando que o Pelé passou por esse corredor, o Zico passou por aqui. Enfim, foi algo realmente que pra mim foi impressionante. O Yassin lembrava sempre que antepassados dele viveram no Brasil e ele até se sentiu um pouco brasileiro por causa disso. Mas ele não sabia quase nada sobre quem foram essas pessoas que viveram aqui antes dele. E ele só começou a descobrir em 2015.
quando ele recebeu uma mensagem no Facebook. Eu sou Lisa Castilho, sou uma pesquisadora americana de TV, no Benin. Conheci os seus tios, que me falaram que você está no Brasil. Fiz muitas pesquisas sobre a sua família e fiquei muito feliz de te encontrar um dia. E o que você achou quando ela chegou com essas informações? Eu achei isso maravilhoso, porque eu não sabia. Eu sabia que eu era uma gudada, mas de onde?
com a Lisa. Eu preciso contar o que a Lisa estava fazendo aqui no Brasil. Bom, meu nome é Lisa Earl Castilho. Eu sou dos Estados Unidos, mas eu moro na Bahia desde 1995. Eu fiz doutorado aqui na Bahia, no Instituto de Letras, na UFBA, com projetos sobre a tradição oral no candomblé. E a partir disso, eu comecei, depois de terminar o doutorado,
a fazer pesquisa sobre as famílias antigas do candomblé e sobre a história dessas famílias. A Lisa queria entender as idas e vindas entre Brasil e África dos fundadores do terreiro da Casa Branca, em Salvador, que é considerado o terreiro mais antigo em funcionamento no Brasil, e que é também de onde saíram os fundadores de outros terreiros, tanto da Bahia quanto de outros estados.
Você imagina, eram viagens de pessoas no século XIX.
Foi juntando esses grãozinhos de informação que ela conseguiu fazer um montinho sobre a história dos fundadores da Casa Branca. Só que, no caminho, ela encontrou também registros de outras pessoas. E aí fui para o arquivo e comecei, então, a encontrar vários documentos falando dessas viagens de volta de africanos depois da Revolta dos Malês e em outros períodos também.
depois da Revolta dos Malês, em 1835. E Malê é a palavra em Yorubá para muçulmano. Nessa época, o Império Brasileiro proibia qualquer religião que não fosse a católica, mas muitos escravizados eram muçulmanos e tentavam manter as tradições islâmicas. Eles se juntavam para rezar, aprender a escrever em árabe e para ler o Corão. E foi esse grupo que decidiu fazer um levante. Eles escolheram um domingo, dia 25 de janeiro,
ia para a Igreja do Bonfim celebrar a Nossa Senhora da Guia. Só que alguns acontecimentos atrapalharam os planos dos malezes. Acontecimentos não é bem a palavra, na verdade. Alguns mexericos melaram a revolta. Tipo, uma mulher irritada com o sumiço do marido acabou descobrindo o plano e falou para uma amiga que passou a mensagem adiante até chegar nos ouvidos das autoridades. Resultado, o grupo que estava se preparando para atacar lugares chaves da cidade durante a festa do domingo,
foi surpreendido ainda na noite de sábado. Os malês conseguiram passar pelas forças do governo e seguiram pela cidade aos gritos com palavras de ordem em línguas africanas. A ideia era convocar outros escravizados para se juntarem na luta. O plano inicial era de provocar um levante em todo o recôncavo baiano, mas a revolta foi derrotada antes disso. Das 600 pessoas que participaram da luta, cerca de 70 morreram.
O objetivo dos malês era derrubar o governo e acabar com a escravidão. Mas ninguém sabe qual era o plano deles a partir dali. Se eles iam fundar um país muçulmano, se eles iam voltar para a África. O que se sabe é que foi um movimento político articulado para mudar a ordem das coisas. Porque do jeito que estava, não dava para ficar. Mas ficou. Depois que a revolta passou, os envolvidos receberam uma série de punições. Alguns foram presos, outros foram açoitados,
Outros foram executados e outros tantos foram deportados para a África. Foram degredados, como se dizia na época. Esses deportados eram um grupo que o governo suspeitava que tinha participado na conspiração, mas eles não tinham prova disso. 150 pessoas foram colocadas no navio que partiu de Salvador com destino a Uidá, no Benin.
Bom, a gente sabe o que acontece quando as autoridades têm receio de alguém, né? No fim, mesmo quem não estava envolvido na revolta, achou melhor ir embora também.
Maria da Glória de São José. O mesmo sobrenome da Glória, da família do Yassin. Ela era uma pessoa extremamente abastada, tinha um sobrado e possuía também numerosas pessoas escravizadas. Apesar de ser africana, ela tinha vários escravizados. Isso pode parecer contraditório, mas era bem comum na época. O Brasil era uma sociedade escravagista,
e de poder. No caso da Maria da Glória, ela tinha pelo menos 20. E ela sumia dos registros depois da Revolta dos Malês. E eu acabei encontrando ela nos pedidos de passaporte. A Lisa não conseguiu descobrir muito mais sobre a vida dela. Mas se dá pra aliviar alguma coisa no pouco que a gente sabe da biografia dela, é que ela costumava distribuir cartas de alforria, com algumas condições.
garante ao escravizado que ele não vai ser vendido, mas que ele tem que cumprir algumas condições para o senhor ou a senhora. E no caso dela, a condição, e a condição muito comum nessas cartas condicionais, era de acompanhar ela até a morte. E ela, então, como ela estava indo para a África, esses escravizados dela, apesar de ter essas cartas condicionais,
obrigados a ir junto com ela. Então, quando ela sai da Bahia, eles também têm que sair. Em maio de 1836, a Maria da Glória foi embora de Salvador, acompanhada dessas pessoas que estavam em liberdade condicional. Então, eu comecei a foliar os registros de batismo nos portos da costa da África, que eram, na verdade, os retornados.
quando chegava no outro lado do Atlântico, eles, incrível que pareça, continuavam a cultuar, então, o catolicismo e batizavam os filhos. Batizavam mais por uma questão de registro da criança do que por uma questão de fé. E tinha padres que vinham da ilha de São Tomé para lugares como Uidá, Lagos, Porto Novo e uma cidadezinha chamada Agüé.
para batizar os filhos dos retornados. Lagos, na Nigéria, Porto Novo e Agüé, no atual Benin. Acontece que os registros dessa cidadezinha chamada Agüé começavam em 1844, ou seja, nove anos depois da Revolta dos Malês. E nesses registros eu consegui localizar muitas pessoas que receberam passaportes na Bahia.
várias pessoas que tinham sido escravos de Maria Glória de São José. E uma dessas pessoas se chamava Daniel, Daniel da Glória. O Yassin não tinha nada a ver com a Maria da Glória, a não ser o sobrenome. Mas ele tem a ver com Daniel da Glória e a mulher dele, a Antônia. Eles são os pentavós dele. E eles todos saem daqui do Brasil depois da Revolta dos Marais
Eu não encontrei nenhum registro de acusações contra Daniel ou de outras pessoas que eram escravizadas de Maria da Glória de São José. Porém, tinha muitos libertos que eram muçulmanos que temiam a repressão depois da Revolta dos Malês e saíram de vontade própria, mesmo sem ter sido presos ou abandonados.
A família da Glória estava lá registrada nas igrejas de Agué. Foi lá que o Daniel e a Antônia batizaram Adriano, que tinha saído do Brasil com dois anos de idade, com uma carta de alforria. Mas em todos os estudos que tem sobre os retornados no atual país do Benin, eu não encontrei nenhuma menção da família da Glória. Aí o que eu fiz? Quando eu estive no Benin, em 2012,
sobre as famílias retornadas em Agüé. Eu acabei encontrando um senhor que era também descendente de um retornado em Agüé. E eu perguntei a ele se ele conhecia essa família da Glória. Ele disse, eu conheço sim. Só que ninguém está morando na casa deles. E ele levou a gente para essa casa. A gente entrou, vimos o quintal, a casa fechada.
E essa casa estava do outro lado da rua da mesquita. E essa localização em termos do desenvolvimento urbano é super importante. A proximidade física à mesquita já sinalizando a importância dessa família na prática de Islã. Apesar de batizar os filhos na Igreja Católica, o Daniel da Glória era a maior autoridade da mesquita de Agué.
E depois dele, o filho, Gregório, se tornou o imã da mesquita. Mas a casa estava fechada porque a família da Glória tinha mudado de cidade. A Lisa conseguiu o número de telefone de uma pessoa da família que morava em Cotonou, um tio do Iassim. Essa pessoa se chamava Ibrahim, Ibrahim da Glória. Então eu ligava para ele e não atendia o telefone. Acabei voltando para o Brasil.
Triste de não ter encontrado com essa família. Aí eu cheguei aqui, eu não me conformei. Aí eu disse, deve ter algum rastro na internet. Eu vou procurar no Facebook para ver se eu encontro alguém no Benin com esse sobrenome da Glória. Que no Benin não é muito comum. Um sobrenome brasileiro, muito menos da Glória. Aí eu encontrei um rapaz, Karim, Karim da Glória. Que é primo do Yasin.
Mandei mensagem para ele. Oi, Karim, eu me chamo Lisa Castilho, sou pesquisadora e estou fazendo pesquisa sobre as origens da família da Glória no Benin. Por acaso, de que parte do Benin é sua família? Ele disse, é de Agué. Eu disse, gente, que incrível. Essa família que eu estou procurando. O Khalid colocou a Lisa em contato com o Ibrahim, que era tio dele.
quem ficou alucinado de saber da história da família, que eles lembravam de Gregório, lembravam de Adriano, lembravam de Daniel, mas não sabiam exatamente quando a família tinha chegado, nem o que foi o histórico da família no Brasil. Então ele ficou super feliz de saber que tinha recebido passaporte,
Depois de anos, a família da Glória estava conseguindo retomar o fio da própria história.
história dos agudás, como se chama lá, os retornados, no Benin. Nesse meio tempo, entre as duas viagens para o Benin, a Lisa ouviu falar pela primeira vez no Yasin. Aí eu voltei para o Brasil e uma brasileira que eu tinha conhecida lá no Benin, que estava dando aula de português na universidade, ela me escreveu dizendo, ô Lisa, eu tenho um aluno que se chama Yasin da Glória,
Eles só foram se falar em 2015, quando a Liza mandou aquela mensagem para o Yassim. Eu sou Liza Castilho, sou uma pesquisadora americana. Eu convidei ele a vir para a Bahia, quando ele queria, para conhecer os lugares que a família dele frequentava aqui na Bahia.
Essa viagem foi acontecer em janeiro de 2017, e assim foi a primeira pessoa da família dele a pisar em Salvador quase 200 anos depois.
era tão comum no resto do Brasil que ele tinha até uma pasta no celular com mapa e fotos do Benin para mostrar. Eu levei ele para a lavagem do Bonfim, que ele adorou, apesar de... Vocês sabem que tem muita bebedeira nessas festas populares da rua e ele não bebe. Além da questão culinar também. Por exemplo, Salvador foi a primeira cidade onde eu recebi um prato junto com pimenta. Eu achei isso incrível, porque amo pimenta.
ele a vários lugares. Inclusive, levei ele para uma festa de candomblé. Ele foi muito educado em termos de interagir. Mas ele, como muçulmano, não se interessa muito nessas coisas. Com uma riqueza histórica muito grande. Conhecendo as ruas, os locais. E até me levou na rua onde tinha morado a minha família na época.
A Liza também mostrou para ele as cartas de libertação assinadas pela Maria da Glória de São José.
deitada, mas eu consegui entender e foi pra mim... Digamos que janeiro de 2017 foi o ano de reconexão de fato com a história da minha família. Aquela foi só a primeira viagem que o Yasin fez pra Bahia. Depois ele voltou lá mais cinco vezes e quer voltar muitas vezes mais. Essa reconexão do Yasin com a história da família, nem todas as famílias agudas conseguem fazer. Não é todo descendente de quem retornou do Brasil pra África que consegue rastrear esse
É difícil você ter uma informação tão precisa. Às vezes eu encontro pessoas descendentes de Agudas que me dizem lá na África Ah, porque meu pai foi para a Bahia décadas depois procurando saber onde moravam os antepassados dele e não descobriu. Então é um desejo, uma curiosidade que de modo geral as pessoas Agudas têm.
tem sobre esse vínculo deles antigo com o Brasil, que muitas vezes não é possível apontar com tanta precisão. Quando Yassin decidiu vir continuar os estudos dele no Brasil, não passou pela cabeça dele que ele ia acabar encontrando algumas pontas que faltavam na história da família. Mas vivendo aqui e juntando essas pontas, ele acabou também entendendo como funciona a divisão racial no Brasil. Coisa que ele não aprendeu na escola,
vendo a novela brasileira. Ele nunca tinha passado por isso no Benin. Agora, no Brasil...
ou em outras situações talvez precárias, poderia ter sido eu também. Compreender a realidade do Brasil hoje também ajudou, e assim, a entender que levou o Daniel e a Antônia a tomar o caminho de volta para a África, dois séculos atrás. E para mim foi nítido que naquele momento o casal com o filho, eles decidiram pegar de novo esse navio negreiro, enfrentar o mar para voltar para a África,
os netos e bisnetos possam nascer livres e felizes. Porque pra mim, quando eu vejo toda a construção, como que o racismo realmente está estruturado no Brasil, eu penso que é muito difícil pra um preto aqui poder se desenvolver, ter todo o alcance. Só que no Benin, por exemplo, eu fui criado como ser humano, e não como preto. Quando eu soube que o Iassim veio do Benin, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a história de Bessém, ou Dan.
Besen é um vodum, que no Benin é uma entidade equivalente a um orixá. Entre os yorubás, ele é conhecido como Oxumaré, e ele é representado por uma cobra que morde o próprio rabo. À primeira vista, ele pode indicar a repetição infinita de um ciclo. Mas não é isso que a tradição conta. Entre uma extremidade e outra, a cobra passa por transformações. Então, quando ela volta ao ponto de partida, ela já não é mais a mesma. Não é um eterno retorno. São caminhos em cima de caminhos.
Cada caminho dá uma chance de fazer melhor. Esse foi o Vinícius Luiz. A gente queria agradecer ao Gabriel Weber, que nos apresentou a história do Yassim e que fez uma super pesquisa sobre as mesquitas erguidas pelos agudais na África Ocidental. A gente volta daqui a pouquinho.
Porque eu, como uma pessoa da área de educação e sempre trabalhei muito com mulheres, eu descobri que elas não tinham nenhum de deixar os filhos. Comecei uma luta por creche comunitária. A Jurema foi a primeira deputada estadual negra do Rio de Janeiro e uma das fundadoras da Associação de Moradores do Andaraí, no Rio de Janeiro. Aí batemos na casa de vários homens. Um dizia que não podia, que no final de semana ele tinha que ter lazer com a família.
que o presidente da Associação dos Moradores tinha que comprar briga com a polícia. A Jurema contou pra gente os desafios e as diferenças da mobilização popular e da mobilização na esfera política. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tid Setúbal, produzido pelo Estúdio Novelo, já disponível no seu tocador favorito. E com episódios novos toda terça-feira. Siga o podcast para não perder. Oi, amiga!
Oi, amiga! Hoje a gente está aqui para convidar vocês a ouvir um quadro especial do Duas e Tanto, o videocast em que a gente explica, todas as terças e quintas, um tema quente da política de um jeito descomplicado e rapidinho, como um papo entre amigas. E agora a gente estreia o Glossário Político, um quadro em que a gente explica um tema que vira e mexe e volta ao debate. Pode ser sobre saúde, segurança pública ou como funciona um projeto de lei.
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.con.br. O segundo trajeto de ida e volta hoje se passa todo aqui no Brasil. Quem vai contar pra gente é a Fernanda Bastos e o Luiz Maurício Azevedo. A Fernanda é poeta, tradutora, editora, curadora e o Luiz Maurício também é escritor, professor e crítico literário. Aliás, talvez você tenha ouvido a entrevista que eu fiz com o Luiz Maurício no fim da meada do ano passado. A gente conversou sobre literatura,
jovem e sobre a função da crítica literária hoje. Mas aqui, o Luma e a Fernanda vão contar a história de uma viagem de ida e volta que eles fizeram por motivos nada estéticos. E só um aviso antes da gente começar. Essa história fala de violência sexual. Falaram pra gente que morar em Santa Cecília ia ser ótimo. Muita gente que é do meio do livro vive por lá. Falavam muita gente como a gente. Se bem que a gente via muito pouca gente
como a gente nas redondezas da rua Aureliano Coutinho. Tinha floricultura, tinha livraria no quarteirão, tinha sorveteria pra beber, tinha 200 farmácias nos arredores e tinha a melhor pizzaria do universo. Tinha um Sesc perto também, que a gente frequentava muito mais pelo espaço de brincar e pela comida do que por qualquer valor artístico. A gente já tava na era da mamadeira e da Peppa Pig. E pra além das padarias de fermentação longa,
Segue para São Paulo justamente pelo que a cidade poderia oferecer para o nosso filho. Quando a gente decidiu vir, ele ainda estava na minha barriga. Quando a gente chegou, ele estava com 28 dias. A gente tinha projetado toda uma vida para ele na cidade. As escolas boas que ele ia frequentar, as livrarias, os espaços de arte, as universidades. No dia a dia, a realidade era muita correria para pagar os boletos e muita Peppa Pig.
Foi um amigo que achou o apartamento pra gente. Só teve uma coisa que eu não gostei. Tinha duas janelas que davam pro corredor. Eu disse que a gente ia ver outros. E os outros eram muito piores. Então, foi aquele mesmo. Eu não consigo dizer com certeza absoluta que a gente era a única família negra no prédio. Dá pra dizer que a gente era uma família negra de classe média, morando no centro,
numa cidade em que os negros moram na periferia e os brancos no centro. O Francisco é um menino de vários bonés. Ele tem um boné amarelo, um boné preto. Mas quando ele saía com um boné vermelho, isso gerava um pouco de discórdia. Teve vizinha recomendando que ele tirasse. Esse boné não, esse não dá. Como se o boné fosse comunista. E se o boné é, a Peppa Pig também é de ser. O Francisco reagia do jeito que ele sempre reage. Rindo e achando que é brincadeira. É uma coisa maravilhosa que ele tem.
E eu me preocupava com a hora que essa coisa fosse se perder. Mas fora esses pequenos incidentes, a nossa vida paulistana estava correndo muito bem. Até o dia 6 de outubro de 2025. Eu tinha ido numa dessas lojas para comprar um carregador de celular. E eu estava chegando em casa. No nosso prédio tem um primeiro portão com identificação facial. E depois um segundo. Um vizinho estava entre os dois conversando com alguém. Eu passei pelo primeiro portão. Passei pelo vizinho. E fui passar pelo segundo portão.
E nessa hora, o vizinho começou a gritar. Ele tava dizendo que eu tinha que ter esperado por ele pra entrar. Era um homem mais velho, que eu não lembrava de conhecer nem de vista, mas que evidentemente morava ali. O Francisco tava na creche, o que significava que aquela era uma hora preciosa em que eu podia tentar resolver a minha vida. Eu nem tinha almoçado ainda, e tinha uma viagem no dia seguinte. Eu olhei pro porteiro com uma cara de, como assim? E ele me olhou de volta com uma cara de, como assim?
Fui em frente. A gente morava no bloco dos fundos, então tinha que atravessar um bloco e outro jardim até chegar nos elevadores. Quando eu cheguei lá, não tinha nenhum elevador no térreo, então eu tive que esperar. Nesse tempo, o vizinho, que eu tinha acabado de descobrir que também era vizinho de bloco, veio correndo e me alcançou. Que bom que você esperou, ele disse. Se fosse uma cidade menor, um prédio menor, talvez aquilo fizesse sentido. Mas a gente estava em São Paulo. É uma questão de boa vizinhança.
Eu lembro que eu falei, tentando deixar claro que não tinha nada a ver com ele. O elevador chegou e a gente entrou. Ele disse que estava muito feliz de estar subindo no elevador comigo porque ele tinha acabado de cortar o cabelo e estava se sentindo bonito. Nessa hora, ele começou a tocar nas partes íntimas dele. Ele passou a mão na boca e, em seguida, ele foi botar a mão em mim. Eu sabia que eu estava em perigo e quem veio na minha cabeça foi a minha sogra, que já não está mais entre nós.
que a minha sogra tinha sido cabeleireira e ela sempre dizia que era o cabelo que fazia as pessoas se sentirem bem. E que bom que ele estava feliz. O elevador tinha chegado no quinto andar, o andar dele. Ele estava segurando a porta. Eu já não lembro o que ele falou por último, mas ele acabou saindo do elevador. Lembro que quando ele saiu, eu baixei a cabeça e fiquei muito triste, como se eu tivesse falhado em alguma coisa. Mas eu tinha tanta coisa para resolver
Eu não tinha muito o que dizer. Eu vi o que aconteceu, ele disse. Aquilo não é certo. Não é certo o que aconteceu. Eu sei, eu disse. Me deu muita vontade de chorar e eu não queria chorar no interfone. Eu comecei a pensar que eu tinha que contar pro Luma o quanto antes. O celular dele tinha sido furtado.
Ela disse, não fica nervoso. Aconteceu uma coisa comigo, mas por favor, fica aqui. Eu pensei que podia ser com o Francisco, mas eu tinha acabado de passar pelo quarto dele, vi que ele estava dormindo, que ele estava dormindo, que ele estava sentindo.
Eu estava bem, aí ela me contou que tinha sofrido uma importunação sexual. A primeira coisa que eu pensei é que tinha sido de um estranho no metrô. Eu estava inteiramente preparado para lidar com aquilo. Eu já sabia até como a gente ia denunciar, como a gente ia fazer, como ia dar apoio para ela. Mas quando Fernanda me contou que tinha sido no elevador do prédio com o vizinho, aquilo me desestabilizou. Eu entendi porque ela tinha pedido para eu ficar ali.
É engraçado, mas quem vem na minha cabeça também foi a minha mãe. Ela foi uma mulher negra, solteira, e o grande objetivo da vida dela era afastar os filhos da criminalidade. Eu fiz Karate até os 17 anos. Eu sou faixa vermelha de Karate Shotokan, que não significa nada, porque eu não me lembro de nada. Mas no Karate a gente aprende que ele é pra se defender, pra impedir que alguém use a violência contra você. Em caso contrário, você nunca vai usar aquilo. A Fernanda tinha sofrido uma violência, e eu tive que apelar pro Karate,
não cometer uma outra. A primeira coisa que o Luma me perguntou foi como eu estava me sentindo. Eu disse que estava triste, como se tivessem tomado alguma coisa de mim. Depois, ele perguntou o que eu queria fazer. Alguma parte minha achava que o vizinho ainda ia pedir desculpas, porque, afinal, ele tinha sido até flagrado. Teve testemunha, tinha câmera no elevador. Mas eu achava que era importante denunciar de qualquer jeito, porque a situação podia escalar. Eu ia viajar para o Rio na manhã seguinte,
um compromisso de trabalho. Eu ia sozinha, mas depois daquilo, o Luma e o Francisco me acompanharam até a estação. Primeiro, eu fui pedir as imagens das câmeras de segurança. Eu também fui pedir o nome do vizinho, porque até ali a gente só sabia que ele morava no quinto andar. E quando eu fui pedir as imagens, fiquei sabendo que outra pessoa já tinha feito a mesma coisa. As imagens que tiveram que vir da empresa de segurança chegaram um pouco depois.
Eu lembro que eu assisti junto com um dos funcionários do prédio. E diferentemente do porteiro,
Ele não percebeu de cara o que tinha acontecido. A imagem não tinha áudio. Eu assistia o vídeo mais algumas vezes depois com outras pessoas. Os homens às vezes precisam de legenda. As mulheres, nunca. Elas veem um homem botando a mão nas partes íntimas, levando até a boca e, em seguida, até uma mulher. Naquele dia, eu deixei Francisco na creche e voltei para casa. O vizinho estava saindo do prédio e ele estendeu a mão para mim. Eu achei aquilo de uma canalícia absurda.
entre homens, num aperto de mão. Um aperto daquela mão. Eu fiquei olhando pra ele, esperando ele sair. E ele ficou muito contrariado que eu não quis apertar a mão dele. Eu entrei no prédio sem dirigir a palavra a ele. Eu ouvi ele gritar que eu tinha que tomar muito cuidado com a Fernanda, que uma mulher como essa não valia nada. Aos poucos, as informações foram chegando. Eu fiquei sabendo que ele não pagava o condomínio há anos e que o apartamento dele ia a leilão pela segunda vez.
As pessoas do condomínio não pareciam surpresas que ele tivesse feito uma coisa dessas. Ou,
Que se tivesse acontecido uma coisa dessas, que tivesse sido ele. Mas também com o pai que ele teve, as pessoas diziam assim como se fosse um atenuante. Continuou não fazendo muito sentido quando eu soube quem era o pai. O maior bicheiro de São Paulo, que tinha falecido alguns anos antes. Depois daquele dia 6 de outubro, eu ouvi muitas histórias de muitas mulheres. Histórias de abusos, de assédios, de ataques. No ônibus, no metrô, no trabalho.
por empregados, por colegas. Algumas delas tinham denunciado, outras não. Nenhuma história terminava bem. Eu comecei a ouvir um coro em dois canais. Tanto quem estava tentando me defender, quanto quem estava tentando passar pano para o agressor, dizia as mesmas coisas. Que denunciar ia ser difícil, que provavelmente não ia dar em nada. E isso até podia ser verdade. Mas eu e o Luma temos uma tendência a fazer as coisas sem esperar o resultado. Fazer por fazer.
para acreditar, em alguma medida, que elas contribuem para uma mudança. Se mesmo com as mulheres falando do que elas tinham vivido, mesmo com elas trazendo provas, se mesmo assim as coisas não estavam mudando, não era silenciando que elas iam mudar. Quando eu voltei do Rio, a gente foi na delegacia. Os policiais avisaram que eles não iam poder garantir a minha proteção, que eles só iam poder intervir se acontecesse alguma coisa mais grave. Eles sugeriram que eu não ficasse sozinha pelo prédio,
E por outro lado, a gente tinha um filho pequeno que ia no parque, no posto de saúde, no teatrinho. Do dia pra noite, a nossa vida mudou. Tudo que tinha sido normal pra mim, sei lá, deixar o Francisco na escola, ir pra um café e trabalhar, eu comecei a não fazer mais. Eu cheguei a recusar trabalhos. O Luma faltou na Unicamp.
barulho no corredor me assustava. Eu passei a ter crises de asma. Eu voltei a usar roupa larga pra esconder o corpo que nem quando eu tinha 13 anos. Quando eu tava fora de casa, eu me preocupava com a hora de voltar. Quando eu tava dentro de casa, eu me preocupava com a próxima saída. Eu não conseguia nem tomar banho tranquila, porque as janelas do banheiro e da sala davam pro corredor. Alguns amigos ofereceram as casas deles. Outros falaram em azar, em superação, na falência
o movimento Me Too, falavam que ele supostamente tinha dado palco para mulheres que tinham feito acusações vazias contra homens que supostamente seriam grandes aliados da causa feminista. As pessoas sempre culpavam as mulheres. E eu era mulher. A culpa estava bem colocada. O condomínio chegou a me pedir desculpas. A gente fez uma série de recomendações. Que no elevador tivesse um cartaz daqueles de bar falando de como intervir em casos de assédio.
colocadas para captarem áudio também. Até onde a gente sabe, nada disso foi feito. E depois que a gente foi a público com a história, que a gente deu entrevistas, que as imagens do elevador saíram na TV, as coisas mudaram. O prédio tinha duas entradas, uma pelo hall e outra pela garagem. A gente passou a usar a da garagem. Quando o vizinho via a gente saindo ou entrando, ele começava a gritar. Outro dia, a gente estava saindo da garagem com o Francisco
No começo do filme irreversível do Gaspar Noé, um homem esmaga a cabeça do outro com um extintor de incêndio. Ele estava procurando o estuprador da mulher dele, mas na busca pelo mal, ele acaba encontrando o mal nele mesmo. No script da masculinidade, cada violência tem que ser respondida com uma violência ainda maior. É assim que se conquista respeito.
Os homens negros são orientados desde cedo a combater a fantasia branca de que somos violentos. A gente é orientado a afinar a voz, a baixar o tom, a usar roupa sóbria, a evitar assustar as pessoas. Se você nascer negro, tente ter um filho mestiço. Se possível, é melhor evitar ser negro o tempo todo. Principalmente na frente dos outros. Em algum universo paralelo, eu sou agressor. Eu me aproximo de uma moradora. Ela é branca. Eu continuo preto.
Olha que incrível. Eu constranjo a minha vizinha no elevador. Peço pra ela tocar em mim. Levo a mão na minha língua e tento beijá-la. Ela pede pra eu ir embora. Depois, ela me denuncia na polícia. Eu continuo andando normalmente pelo prédio. Nesse universo paralelo, eu devo 114 mil reais pro condomínio. Nesse universo, eu encontro o marido da mulher que eu assediei e tento explicar pra ele o que houve. Mas ele é rude comigo. Só diz pra eu não dirigir a palavra a ele. Mas tá tudo certo.
Os dias passam e eu posso continuar morando onde eu estou, tentando falar com ele sempre que me dá na tele. Nesse universo, numa tarde de novembro, eu avisto o marido da moça na porta do nosso prédio, carregando o filho deles no colo. Eu não tenho dúvidas de que a melhor coisa a fazer é ir até eles e passar a mão no rosto da criança. A mão. O marido dela reage mal. Eu chamo ele de animal imundo e vou perseguindo ele pela rua. Eu ameaço a vida dele e dou um ultimato para eles saírem do prédio.
não quer ligar pra polícia. Então o marido liga ele mesmo. Quando a polícia chega, eu explico que eu sou a vítima. Nessa fantasia, o que mais salta aos olhos, o que mais ofende o nosso senso de suspensão da realidade, é o fato de que se eu fosse branco e o nosso agressor fosse preto, essa história teria terminado no primeiro dia, com a prisão dele. No dia 10 de novembro, a gente tinha ido buscar o Francisco na creche. A gente, porque eu não fazia mais nada sozinha.
A gente chegou na porta do prédio, o Francisco teve uma crise dessas que qualquer criança de um ano e meio tem. Ele não queria voltar pra casa, queria ir pro parque. Pois bem, a gente ia pro parque então. O Luma ficou com ele enquanto eu subia com a mochila. Quando eu desci, eu vi o vizinho, o Luma e o Francisco do lado de fora do portão. De novo, eu não ia poder passar sem passar por ele. Eu fiquei presa. O Luma pediu pro zelador ligar pra polícia. Eu pedi também. Ele só fazia que não com a cabeça. Dizia que não podia.
Luma foi ligar pra polícia, o vizinho avançou pra impedir. E eu consegui sair. Eu peguei o Francisco do colo do Luma e nós três começamos uma caminhada medonha, humilhante, pelo quarteirão. A gente andava em círculos enquanto ele xingava e ameaçava a gente. E falava várias coisas sobre a nossa vida. Que a gente chegou no prédio achando que era famoso, que a gente queria acabar com ele, que a gente odiava branco, que o Luma era um animal. A polícia militar tinha orientado o Luma a ficar no lugar
Então a gente andava e ele xingava. Um amigo nosso saiu da livraria no final do quarteirão e começou a filmar a cena. Depois, eu e o Francisco entramos na livraria enquanto o Luma falava com a polícia. Eu tinha duas preocupações. A primeira era que muitas vezes nessas situações a pessoa negra vai presa. A segunda era que o Francisco não percebesse o que estava acontecendo. Que ele não percebesse que o roteiro do nosso filme tinha mudado de gênero.
e tô no Cine Vitória, em Porto Alegre. Eu insisti muito para vir ver Esqueceram de Mim, parte 2, perdido em Nova York. A minha tia parece feliz, porque parece que agora a coisa é definitiva. Com a morte dos meus pais, eu sou oficialmente um órfão tutelado por ela. Segundo a juíza, vai ser assim até eu virar homem e poder responder pelas coisas que eu faço, como todo homem. Em Esqueceram de Mim, parte 2, o personagem de Kevin McAllister assiste a um filme chamado Anjos com Almas Ainda Mais Imundas.
gangster executa o outro e grita Seu animal imundo! Agora que eu lembro da cena do filme, eu não penso mais na minha alegria de órfão tendo um respiro no cinema. Eu penso no agressor do quinto andar e na tentativa torpe dele de transformar o mundo numa imagem da confusão que ele tem dentro de si. Eram dois policiais. Um conversou comigo, outro conversou com ele. O meu policial foi muito claro. Ele disse que aquele era um sujeito violento, desequilibrado e sugeriu que a gente deixasse o prédio e, se possível,
a cidade. Que quem tinha a perder era a gente, não ele. Que ele ia levar a gente até a vala. Ele disse que aquela era uma batalha perdida. Que em outros tempos dava pra resolver essas coisas de um outro jeito. Mas que agora, com o presidiário no poder, tudo tinha mudado. Aquele foi o dia em que a gente começou a ir embora de São Paulo. As pessoas do nosso entorno achavam muito extremo, muito radical o que a gente tava fazendo.
Talvez fosse o caso de sair do prédio por um tempo, voltar pra Porto Alegre por algumas semanas. Mas a gente
tinha começado a entender que a nossa vida valia muito pouco. Que numa cidade violenta, a gente podia virar número. E a gente não tava disposto a deixar isso acontecer com o nosso filho. Sabe aquela cidade pequena em que o cara é dono do supermercado, da polícia, de tudo? Em que uma pessoa pode ser dona de um monte de coisa e interditar o mundo pra você? Qual o sentido de morar numa cidade grande se você não pode ter a liberdade que ela supostamente oferece? Eu vim pra Porto Alegre no final de novembro.
Uma no começo de dezembro. O vizinho ficou no mesmo bairro onde ele nasceu. No mesmo prédio onde ele não paga o condomínio. Se tudo der certo, o nosso relato vai para o tribunal. E a nossa vida volta a ser uma sitcom monótona de uma mãe e um pai em apuros com as travessuras de um menino de dois anos. Se tudo der errado, você pelo menos já sabe quem fez o que a quem. Até agora, em março, a gente ainda não teve notícias do inquérito. No nosso prédio novo, que é o nosso prédio antigo,
A gente é a única família negra, mas os vizinhos a gente conhece. Não tem livraria no quarteirão, mas tem perto. E eu posso sair sozinha. Recentemente, a Fernanda viajou de novo a trabalho, dessa vez pro Quênia. Foi a primeira vez em muito tempo que eu voltei a ver ela feliz. Num dos dias da viagem dela, eu tava lendo pro Francisco. Eu li alguns poemas da Elizabeth Bishop, inclusive A Arte de Perder. A Arte de Perder não é nenhum mistério. Perdi duas cidades lindas e um império que era meu. Dois rios,
E mais um continente. Tenho saudade deles. Mas não é nada sério. Eu achei engraçado que o Francisco, com um ano e dez meses, pudesse tranquilamente entender a poesia de Bishop. É muito fácil você roubar uma cidade de uma pessoa. Dessa história toda, o Francisco, por enquanto, só sabe que mudou de escola. E que ele sente falta da Bia, do Romeu e do Noah. Que ainda estão lá com as mesmas professoras, descobrindo a vida que tem que ser vivida.
Mas um dos mais importantes é que o Francisco saiba quem a gente foi e o que a gente fez. A gente ainda não tem o relato dele de tudo isso. Ele ainda não escreve. A gente queria ter o poder de proteger não só o corpo dele das coisas terríveis que acontecem, mas também as palavras que ele está começando a usar para descrever o mundo. Salvar as palavras é a principal tarefa de quem ama literatura. Pelo menos é isso que a gente tenta.
porca, sim, mas que tá longe de ser um animal imundo, do tipo que sai do esgoto das metrópoles. Essa foi a Fernanda Bastos com Luiz Maurício Azevedo. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Toda quinta-feira a gente publica um episódio novo, mas você já deve saber que os membros do Clube da Novelo conseguem ouvir antes, ainda na quarta. Na semana que vem, vai ter isso aqui. Ele teve um cara muito louco também. Ele tinha um livro, ele tava com um livro assim, ele foi entrando assim. A hora que ele abriu o livro,
Eu vi que saiu um negócio, aí eu fui lá perto, era um monte de marimbom e grudou tudo na cúpula. Se quiser fazer parte do clube, tem todas as informações no nosso site. A gente volta já já. Em junho de 1987, o advogado e ex-deputado estadual pelo Pará, Paulo Fonteles, foi assassinado a tiros dentro do carro dele. Ele era conhecido por atuar na defesa dos pequenos agricultores e da reforma agrária. Nessa época, o repórter Lúcio Flávio Pinto,
estava trabalhando em dois jornais, o Liberal do Pará e o Estado de São Paulo. Na hora, ele começou a acompanhar as investigações do caso. Depois de meses de apuração, ele chegou na mesa da diretora administrativa do Liberal com a reportagem em mãos. A diretora ficou impressionada com o trabalho, mas disse que não iam poder publicar a matéria. Isso porque dois dos homens mais ricos do Pará e grandes anunciantes do jornal estavam envolvidos na denúncia.
Flávio tomou uma decisão. Para poder contar o que ele sabia, ele ia criar um jornal independente. Só dele. O Jornal Pessoal. Essa história é contada na revista Piauí de Abril, que traz a segunda parte do perfil do repórter Lúcio Flávio Pinto, escrito por João Moreira Salles. O assinante da Piauí lê essa e outras reportagens no papel, no celular ou no computador. Saiba mais em revistapiaui.com.br. Na página desse episódio, no nosso site,
Tem fotos do Yassim da Glória em Salvador e no Benin. E também o link para a minha conversa com o Luma, o Luiz Maurício, no Fio da Meada. Foi uma conversa muito legal e a gente vai deixar o link no post desse episódio no nosso site, além de links para você conhecer melhor o trabalho dele e o da Fernanda. A gente está nas redes no arroba radionovelo, no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para mandar sugestão de história, crítica, elogio, etc.,
Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em anuncie arroba radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paulo Escarpim e da Flora Thompson-Devaux.
A produção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jäger. Nossos repórteres e roteiristas são a Carolina Moraes, o Vitor Ubrandalize, a Bia Guimarães, o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta e a Bárbara Rubira. Os nossos treinis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Maíra Vallejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitsky.
da Paula Escarpim e do Bauer França e da Mariana Leão, que assina a mixagem junto com a Bia Guimarães. Nesse episódio, a gente usou música original de Pedro Nego e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parcerias são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Taina Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães.
faz a revisão das transcrições dos episódios para a gente é a Flora Vieira. Obrigada e até a semana que vem.
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