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Deixa a vida me levar

05 de março de 20261h21min
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Num dia quente de outubro de 2014, duas bolotas apareceram numa praia cearense. Eram dois peixes-boi recém-nascidos – gêmeos, uma raridade – e foram salvos pela Aquasis, uma ONG que se especializou nesse tipo de resgate.

Os gêmeos, batizados de Tico e Teco, passaram os seguintes anos em reabilitação. Tico dava um pouco mais de trabalho: era um pouco mais devagar, um pouco mais arisco, e muito agarrado no gêmeo dele. Quando Teco morreu aos quatro anos, temeram também pela vida do irmão – mas em vez disso, Tico desabrochou. Tanto que em julho de 2022, ele foi o quinto peixe-boi solto pela Aquasis para tentar a vida livre.

Começou ali uma peregrinação que passou por três países e mobilizou pesquisadores pelo Caribe afora. E assim como Ulisses, da Odisseia, Tico também enfrenta dificuldades homéricas para voltar para casa. Por Flora Thomson-DeVeaux

A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep169

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Palavras-chave: peixe-boi, vaca marinha, Aquasis, resgate, manatí, manatee, Venezuela

Assuntos15
  • Viagem do Tico pelo Atlântico e CaribeCorrente Norte do Brasil · Trajetória de 4 mil km · Passagem por três países · Monitoramento via satélite · Duração de 60 dias
  • História de Tico e TecoGêmeos raros · Dependência entre irmãos · Morte de Teco · Transformação do Tico · Primeiros anos de reabilitação
  • Peixes-boi MarinhosCaracterísticas biológicas · Comportamento e alimentação · Conservação · Sirenios · Vaca marinha de Steller
  • Descoberta do Tico vivo em Trinidad e TobagoSinal do transmissor detectado · Confirmação de sobrevivência · Vídeo do avistamento · Condições do animal · Reação da equipe
  • Soltura e monitoramento de peixe-boiRecinto de aclimatação · Transmissores · Primeiras solturas falhadas · Monitoramento via satélite · Operações de resgate
  • Encalhe Filhotes Peixe-BoiCausas do encalhe · Berçário de Icapuí · Reabilitação e desmame · Taxa de sucesso · Frequência de encalhes
  • Operação caribenha de localizaçãoRede de encalhe caribenha · Furacões e condições climáticas · Cooperação internacional · Monitoramento via satélite e rádio · Deslocamento para Granada
  • Captura Tico VenezuelaLa Blanquilha · Ministério do Ecossocialismo · Operação militar · Transferência para aquário privado · Estrutura de resgate
  • Repatriacao FiscalDiplomacia Brasil-Venezuela · Embargos econômicos · Mudanças de governo · Prioridades políticas · Acordos de transporte
  • Operação de resgate no CearáBusca terrestre por barcos · Tentativa de helicóptero · Percurso por estados brasileiros · Dificuldades logísticas · Foco em transmissor
  • Liberdade AnimalLivre-arbítrio do animal · Questão de repatriação versus permanência · Espécie versus híbrido · Direitos do animal · Aceitação da incerteza
  • Permanência no zoológico de BarquisimetoCondições de cativeiro · Alimentação · Companheiros de zoológico · Problemas de infraestrutura · Cuidador Carlos
  • Aquasis e programa de reabilitação30 anos de atuação · Equipe de mamíferos marinhos · Metodologia de desmame · Apoio da Petrobras · Equipamentos e transmissores
  • OceanografiaCorrente Norte do Brasil · Simulação de trajetória · Análise de velocidade oceânica · Influência em migração animal · Sverdrup
  • Impacto EducacionalArtigo científico 2024 · Pesquisas subsequentes · Interesse estudantil · Variação de sotaque em peixes-boi · Inspiração para carreira científica
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Oi, aqui é a Paula Scarpin. E se você já teve vontade de fazer uma reportagem em áudio, a gente queria te fazer um convite. A gente aqui da Rádio Novelo montou um curso gratuito de podcast narrativo pro Centro Night, pro Jornalismo nas Américas. Ele parte de como identificar uma boa história, passando por como apurar em áudio, como pesquisar, como entrevistar, como organizar o seu material, até chegar em como escrever pro ouvido. O curso vai ser dado por toda a redação da Novelo.

Rádio Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novelo Apresenta.

Eu sou a Branca Viana. Depois de meses e meses no alto mar, os marinheiros começam a ver coisas estranhas. Bolas de fogo que dançam pelo mastro, monstros marinhos gigantescos, com tentáculos sem fim e bocas abissais. E no meio disso tudo, às vezes aparecem também algumas visões mais sedutoras. Por exemplo, mulheres com vozes bonitas cantando no meio das águas.

Ele não deixou nenhum registro sobre o canto delas. Mas, evidentemente, ele não achou o canto delas muito sedutor também, não.

do Colombo, esse canto pode ter sido meio assim. Isso porque hoje em dia a gente entende que as belas banhistas que o Colombo enxergou perto da costa do que é hoje a República Dominicana devem ter sido peixes boi. Mas esse equívoco está ali até hoje no nome científico deles. Eles são da Ordem dos Sirenios. É um pequeno elenco de bichos grandes. A maior de todas era a vaca marinha de Steller,

que vivia no mar de Bering entre a Rússia e o Alasca. Ela chegava a ter até 10 metros de comprimento e pesava entre 5 e 10 toneladas. Ela foi descoberta pelos europeus em meados do século XVIII e bastou uma geração para ela ficar extinta. Os sirenios são grandes, gordinhos, cinzentos, eles se mexem devagar, são meio banguelas, mas eles têm muito carisma.

E de uns tempos para cá, a Flora Thompson DeVoe está absolutamente obcecada com eles. Depois de um rápido intervalo, ela vai começar a contar a história do episódio de hoje.

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automaticamente no carrinho. Insider, se é confortável, é uma escolha inteligente. Eu acho o peixe-boi um animal bonito, fofo, mas tem gente que não acha. E são animais muito frágeis, apesar de serem grandes, animais de 3 metros, que podem pesar mais de 700 quilos. Eles são muito vulneráveis. Esse que está aqui defendendo as virtudes dessas sereias diferentonas é o Vitor Luz. Ele é veterinário numa ONG chamada Aquarium.

Eu coordeno o programa de mamíferos marinhos aqui da ONG, uma ONG que atua com conservação de biodiversidade aqui no Ceará e no Nordeste há mais de 30 anos. E aí eu já estou à frente, liderando essa equipe do programa de mamíferos marinhos aqui há seis anos. Foi com o Vitor que eu aprendi uma palavra. Fofofauna. É um termo que não é científico, mas que é usado por cientistas para falar dos bichos que costumam ter mais carinho da torcida.

Eles são animais muito dóceis, apesar de que os animais selvagens não vão se aproximar de pessoas. Eles são muito discretos, mas eles são super importantes para o ambiente. O peixe-boi é como se fosse um jardineiro mesmo. Eles têm esse nome, peixe-boi ou vaca marinha, porque eles pastam em algas e capins.

ser indelicada, o produto dessa cumilança, o cocô deles, acaba fertilizando os mares, ou os rios, no caso. Realmente ele é um animal bem versátil. Ele fica tanto no mar como ele consegue entrar em rio. Mas na Amazônia a gente tem outra espécie que é só de água doce. Tanto nos rios quanto nos mares do Brasil, o peixe boi é um alvo há alguns séculos. Ele já era caçado por povos indígenas, que usavam o couro grosso dele para fazer escudos, segundo relatos históricos.

No período colonial, teve padre dizendo que em dia que não podia comer carne, tipo Sexta-feira da Paixão, estava liberado comer peixe-boi. Mas a matança comeu solta mesmo entre os anos 1930 e 1940, quando milhares de peixes-boi foram mortos por coro dele ser utilizado como correia de máquina. A caça foi banida em 1967, mas o estrago já tinha sido feito. A gente, homo sapiens, é até hoje o maior predador dos peixes-boi.

Quando não é intencional, é porque a gente está ocupando as águas deles e atropelando eles com os nossos barcos. As últimas estimativas são que existem um pouquinho mais de mil animais só na costa do Brasil. Isso dos peixes bois marinhos. A população dos peixes bois amazônicos é um pouco maior, mas a gente não sabe direito quanto. E hoje eu queria focar nesse grupo menor, dessas belas bainhistas discretas no mar do Brasil. E aí a área aqui no Ceará, que é uma cidade chamada Icapuí,

próximo da divisa com o Rio Grande do Norte, tem uma situação muito particular que tem afloramento de água doce no mar. As águas infiltram nas falésias, nas dunas, e sai água doce realmente do lençol preático no mar. E eles bebem água nesses olhos d'água. Os peixes-boi vivem bem perto da costa, em parte porque eles bebem água doce, e em parte porque as plantas que eles comem só crescem em águas mais rasas. Então pode ser que a pessoa esteja, dependendo da região, lógico, no mar tomando banho aqui no Nordeste,

nem sabe que tem um bichão imenso ali perto dela, mas eles jamais vão se aproximar. Quer dizer, eles não vão se aproximar dos humanos, mas estão sempre ali pela costa. E essa história começa com um peixe-boi se aproximando da costa e com humanos se aproximando de um peixe-boi. Todos os grandes mitos precisam de uma boa história de origem. Moisés aparecendo num cestinho entre os juncos, Macunaíma nascendo na Mata Virgem. O nosso herói de hoje brotou um dia numa praia.

E aqui no Ceará a gente tem uma demanda muito grande, uma situação muito particular, que é essa do encalho dos recém-nascidos de peixe-boi. Não acontece muito, mas quando acontece, é dramático. Eu tenho animal que chega aqui com menos de um dia de vida, com cordão umbilical, com sangue. Tem algumas hipóteses do porquê disso acontecer. Uma delas é que todos os melhores lugares para uma peixe-boimã em Paris,

Elas já foram ocupadas pela atividade humana. Então, as peixes-boi estão parindo em lugares menos abrigados. E o filhote acaba se perdendo da mãe. Os peixes-bois têm uma visão bem limitada. Então, a mãe e o filhote dependem muito de comunicação por som. A audição é o melhor sentido deles. Ou seja, se acontece de um barco barulhento passar na hora errada, isso pode acabar separando mãe e bebê. Mas tem outra explicação para o fenômeno. Tem algumas outras teorias.

de que as fêmeas realmente, algumas fêmeas abandonam os filhotes. Isso porque análises genéticas dos peixes bois bebês encalhados mostram que muitos vêm das mesmas mães, que talvez não tenham muita vocação materna mesmo. No Caribe, nos Estados Unidos, não é assim. A mortalidade, os encalhes é maior dos adultos, juvenis, né? Aqui nessa região é que a gente tem essa particularidade. Virou esse berçário de peixe bois. Isso, isso.

É um berçário mesmo, sim. E a gente tem uma média de quatro a cinco encalhes de filhotes por ano aqui no Ceará. Parece bem pouco, mas quando a gente considera um universo de pouquinho mais de mil bichos, não é tão irrelevante assim. Agora, se você me permitir, eu preciso voltar no assunto da fofura. Quando eles são filhotes, eles têm cara de neném. Eles são muito fofos. Enquanto adultos, algumas pessoas podem achar mais feio, um animal grande, mais político.

Não tem um formato tão bonito como é um golfinho, né? Mas aí é gordofobia, né, gente? Convenhamos. É, pode ser um pouco. Não dá pra dizer que um peixe boi recém-nascido não seja um pouco roliço. Ele não é um recém-nascido pequeno. É uma média de 1,30m de tamanho. Então é grandão. Ele nasce bem grande, com média de 32kg. Pode ter algumas variações aí. Então é um bebezão grande, né?

E um instinto muito natural das pessoas é, encontrei um animal encalhado, eu vou voltar, devolver para o mar. Essa é a pior coisa que qualquer pessoa pode fazer com qualquer animal que encalha, porque se ele encalha é porque ele não consegue ficar na água. Aqui na nossa região, como é muito quente, é proteger do sol. A gente orienta levar para uma área abrigada de sombra. Se não tiver como levar, montar algum tipo, colocar um guarda-sol, fazer algum tipo de barra improvisada, ou cobrir com uma toalha e manter a pele límida, né? Sempre molhando para lá.

Quando uma pequena sereia dessas encalha numa praia no Ceará, com sorte, alguém vê, tira do sol, bota uma toalhinha molhada no lombo dele e chama a Aquasis, a ungue onde o Vitor trabalha. O povo da Aquasis vai, pega o neném, examina e dá um leitinho na mamadeira. Os mamíferos marinhos, João Paulo, em geral, não têm lactose no leite, então há uma fórmula sem lactose e um leite com bastante gordura que a gente substitui por manteiga, sem sal.

fofo. Não sei dizer porquê. Bota na conta da Fofofauna. Mas, em geral, a gente tem uma taxa de sucesso bem boa. A sobrevivência é bem grande deles aqui nesse primeiro ano. O berçário, como não podia deixar de ser, é uma série de tanques e piscinas, cobertos com, tipo, grandes ombrelões. Então, são tanques bem grandes porque eles realmente crescem muito rápido. Em um ano, esse filhote vai estar com mais de 1,80m, com seus 140, 150kg.

Normalmente, um peixe-boi passa os primeiros dois anos de vida com a mãe, sendo amamentado e, de forma geral, aprendendo a ser um peixe-boi.

Mas é um aprendizado que é bem rápido, às vezes com 15 minutos, meia hora. Pouquíssimos animais deram mais trabalho. O Vitor está na Aquazes há mais de 20 anos. Ele entrou ainda estagiário, mas um encalhe-mirim marcou ele particularmente. Foi na Praia das Agulhas, na cidade de Fortim, a umas duas horas e meia de Fortaleza. Ele encalhou em 2014, em outubro de 2014. Foi a situação mais particular aqui da Aquazes ao longo desses 30 anos.

E acho que é a situação mais inédita também no Brasil. Ele encalhou do lado de um outro filhote, eram dois. Eram o Tico e o Teco. O nome não ficou muito criativo, a gente, ah, qual o nome desses bichos? Alguém falou Tico e Teco, foi ficando sem, não ficou Tico e Teco. E aí a gente comprovou com exames genéticos, com avaliação genética, depois que eles eram gêmeos. A análise mostrou que eles eram gêmeos desigóticos, ou gêmeos não idênticos.

Até o jeito deles era diferente. O Tico foi o único animal que não conseguiu se adaptar ao desmame, que a gente chama,

aleitamento. Parou dois anos, aí não comia, não comia, a gente teve que aumentar o tempo de aleitamento dele, depois ele se adaptou. Ele foi o único animal até hoje, com mais de 40 animais, que deu esse trabalhinho. Ou seja, o Tico era um neném, um pouco mais neném que a média. Ele era extremamente dependente do irmão, tipo assim, ele era, siga o meu irmão. Ele mamava depois, ele mamava pouco, aí o irmão tomava a mamadeira dele, cresceu muito, ficou bem maior do que ele.

Em 2018, quando os gêmeos tinham quatro anos, veio uma tragédia. O irmão dele, infelizmente, morreu aqui com quatro anos, né? O Teco. Ele teve uma ruptura do intestino, uma infecção generalizada, uma situação bem atípica, assim. E aí, quando o Teco morreu, a gente tirando a carcaça da piscina, o Tico estava grudado, abraçado, assim, no irmão, e a gente tirando ele da piscina. E agora, o que é que vai ser do Tico? O Tico simplesmente...

Aconteceu inesperado. Ele brotou depois da morte do irmão. O pessoal estava com medo dele entrar em depressão. Mas o Tico desabrochou, ficou mais solto, mais independente, mais comilão. E tudo isso queria dizer que ele estava mais pronto para ser solto, para voltar para a vida livre. Começar a vida livre, na verdade, considerando que a experiência prévia dele tinha sido muito curtinha. Antes da soltura, os peixes boi passam por uma fase intermediária de aclimatação no mar.

É um grande cerco de eucalipto com rede, né? De mais de 2 mil metros quadrados. E no interior desse cerco tem uma plataforma flutuante com blocos de plástico mesmo. Tipo aqueles de fazer pier, né? De atracação de barco. E um tanque rede onde a gente coloca eles. Por mais que seja mais um tanque na vida deles, é outra parada. Isso aqui é bem tranquilo. Fica numa piscininha. Ai, quero dormir. Vai lá pro fundo. Dorme. No mar é diferente, né?

inclusive outros peixes bois da região, que às vezes dão uma passada por lá para dar uma espiada nos novos vizinhos. O Tico foi transferido para esse condomínio aquático no final de 2020. A gente levou ele para o recinto de aclimatação. E aí ele foi solto em julho de 22. Antes de soltar o Tico no mar de vez, o pessoal da Aquasis botou um transmissor nele para poder monitorar e ver se estava tudo bem com ele.

E como tinha corrido as outras devoluções? Não tinham corrido tão bem. A gente sempre foi bastante transparente com isso. Para começar, a primeira soltura aconteceu sem querer. A rede do tanque de aclimatação arrebentou e uma fêmea chamada Alva fugiu, sem transmissor. Nunca acharam ela.

Ele foi atropelado por um barco, morreu. Ele teve uma fratura bem grave aqui da escápula, né? E aí foi encontrado lá no Piauí. A terceira foi a pintada, que foi solta, ficou presa num curral de pesca, foi capturada, solta, capturada de novo, teve que voltar para a reabilitação. Mas hoje em dia vive livre. Ela só tem um defeito. Ela não soube se afastar tanto assim do mundo humano.

Ela fica em áreas portuárias, bebendo água de barco, água suja, ela pega infecção intestinal. Então, o animal que não conseguiu, apesar de estar solto, a gente considera adaptado, não conseguiu ficar tão independente assim. A quarta, a Mani, perdeu o transmissor dela dois dias depois de ser solta. Alguns meses passaram e o transmissor voltou a dar sinal, mas já se aproximando de Cabo Verde, na costa da África. Aí, muitas vezes, as pessoas falam, mas vocês perdem muito esses bichos,

transmissores, mas é porque o dispositivo é feito para quebrar caso o animal se engate em alguma corda, alguma rede, algum tipo de artefato, para ele não ficar preso e não morrer afogado. Tem um cinto de couro com borracha que vai na base da cauda do peixe boi. Desse cinto sai um cabo que conecta no transmissor. Quando o animal está mais perto da superfície, o transmissor fica boiando fora d'água. E aí ele emite um sinal de rádio em tempo real.

também manda sinal de satélite. Aí nesse ponto que ele prende perto do cinto e no ponto que ele prende perto do equipamento, ele tem dois pontos de quebra. Justamente para se o animal se engatar, ele sai. Mas aí a gente perde completamente a notícia do animal. É como catar a agulha num palheiro. Em alguns casos, depois do peixe-boi perder o transmissor, eles montaram campanhas para ver se a população avistava. Então a gente já teve alguns casos de sucesso, mas às vezes nos animais, nunca mais a gente tem notícia.

É muito triste, nem só triste, é frustrante, porque é todo um processo de anos, de cuidado, que de repente chega um momento de soltura e você perde aquela informação e você não tem o resultado que você esperava. Mas, enfim, trabalhar com fauna é isso, a gente tem todos esses... O Vitor me contou que tem uma cobrança extra nessas solturas, porque desde 2010, esse processo de reabilitação está sendo apoiado pela Petrobras, como parte do licenciamento ambiental deles,

na região. Mas eles estão sempre atualizando os equipamentos, trocando os transmissores e tentando, na medida do possível, manter essas sereias aí no mapa. Essa é a Camila Carvalho, bióloga e mestre em Oceanografia Biológica.

A Camila começou trabalhando com peixes bois amazônicos em Tefé, na reserva Mamirauá. E lá, o jogo era bem diferente. Os pesquisadores tentavam mapear as populações cruzando vários tipos de dados, se baseando em avistamentos, passando em todos os pontos mais badalados dos sireneos, mas não tinha esse monitoramento todo, esse panóptico aquático. Porque com os peixes bois amazônicos, a gente usa um outro tipo de transmissor, que ele sai no sinal de rádio.

Então a gente não tem um equipamento que emite sinal de satélite que nem tem para os peixe-beis marinhos. Então é muito mais difícil a gente encontrar um peixe-beis amazônico, né? Porque isso depende da gente estar próximo dele para captar o sinal. Ou seja, se você não está bem pertinho dele, azar. Por um lado, isso era frustrante. Por outro, tem aquela história de que a ignorância é uma benção, né? E por maiores que sejam os rios da Amazônia, o Oceano Atlântico é bem maior.

umas poucas agulhas de peixe boi dentro. A Camila chegou na Aquasis em 2022 e a primeira soltura dela foi a do tico. Ele sempre foi um dos menores animais, assim, dos animais mais magros, mais esguinhos e que tinha pouca interação com as pessoas, né? Porque, ah, esse é outro critério que é importante também, né? Nesse caso, ser antissocial é bom. Lembra, o problema da pintada era ficar perto demais dos humanos, correndo o risco de ser atropelado por um barco ou beber esgoto sem querer.

Em meados de 2022, o Tico estava forte, saudável e arisco, perfeito para retomar a vida livre. Era o dia 6 de julho. Eu nem sou uma pessoa religiosa, assim, não tenho nenhuma religião, mas eu sempre faço, assim, algum tipo de, quando eu participo das solturas, algum tipo de mentalização, assim, meu Deus, proteja essa criatura que dê tudo certo com ela, sabe assim? Ele ainda tinha tido, acho que um outro surto de Covid, eu lembro que estava todo mundo de máscara ainda.

Nos dias de soltura, vai uma equipe grande no barco. Isso por causa de precisarem recapturar o peixe-boi, o que não é uma tarefa simples. O Tico já estava com mais de 2,5 metros e quase 300 quilos. É sempre bastante emocionante, mas também, por outro lado, é tenso. Porque a gente sabe que podem acontecer muitas coisas a partir do momento e a gente não tem mais controle a partir do momento que ele está solto. Os outros peixes-boi na área de aclimatação estavam isolados num canto.

Tico no outro. Daí eles baixaram a rede, tipo, abrindo a porta pro Tico sair. Aí o Tico, acho que ele demorou bem pouco. Depois de uns 10 minutos ele já saiu do recinto, só que daí eles ficam um tempo ali na volta ainda, né? Entendendo o que tá acontecendo. Mas no mesmo dia ele já se afastou um pouco pra outras praias ali de Capuí. Nessas horas, não dá pra saber como o bicho vai reagir. Tem peixe boi que fica ali pertinho e tem peixe boi que engata uma quinta.

O Tico, obviamente, estava mais preparado que um banhista médio,

para se entender com essas correntezas. E a equipe que estava monitorando viu que ele estava seguindo esse fluxo, de leste a oeste. E aí a gente monitorou, tipo, acho que 48 horas seguidas, assim, sempre trocando equipe, para garantir que esses primeiros dias não ia ter nenhum encalhe e que ele ia seguir tranquilo. Logo nos primeiros dias, acendeu um sinal de alerta. Ele começou a se afastar da costa. Isso era preocupante porque, lembra, Peixe Boi mora pertinho da costa.

É só perto da costa que tem a água doce que eles bebem e as plantas que eles comem. E o Tico estava rumando para o mar aberto, o que em termos de recursos para ele era o mesmo que um deserto. A equipe ia ter que interceptar e trazê-lo de volta.

rádio da embarcação de uma pessoa da equipe dizendo que o Tico tinha voltado para a costa sozinho. A gente ficou super feliz, né? Ai, que coisa maravilhosa ele aprendeu a se orientar. Eles abortaram a missão, contentes da vida, e continuaram monitorando. E aí estava estranho porque o transmissor, os sinais que a gente recebeu, estavam todos num ponto muito restrito ao longo da noite. Isso podia significar que o Tico estava preso em algum lugar, ou que ele tinha perdido o transmissor. E aí a gente viu no mapa,

satelital, que é uma área que tem uma arte de pesca que em algumas comunidades aqui no Ceará tem, que é uma pesca de curral. Eles constroem grandes estruturas de madeira que são labirintos para os peixes entrarem e ficarem presos nesse curral. E aí o transmissão estava, gente, acho que o Chico deve estar num curral de pesca. Eles foram até aquela região, seguindo o sinal de satélite. E quando eles estavam mais perto, eles conseguiam captar o sinal de rádio para chegar até o lugar exato.

A gente tem uma antena e um aparelho que é o receptor, né? Daí a gente conecta essa antena no receptor com o cabo e coloca a frequência do equipamento que o animal está usando. E aí a gente vai captando uns bips. É aquela coisa bem de documentário, vai apitando, né? Quanto mais frequente fica o bip, mais próximo você está. Eles foram girando a antena, seguindo os bips e acharam o transmissor do Tico, flutuando sozinho. Ai, meu Deus, Tico perdeu o equipamento, né?

O Vitor lembra que foi a Camila que teve a ideia de checar os pontos onde o transmissor do tico tinha estado de madrugada. E aí, dito e feito, o tico estava dentro do curral de pesca. O curral ficava em Acaraú, na costa oeste do Ceará. O Vitor me explicou que faz tempo que não tem mais peixe boi nessa região. Então as pessoas não estão acostumadas com o bicho. E a presença do tico causou um certo frisson. Não no melhor sentido.

extremamente decepcionadas. Como assim? Cadê o chifre dele? Ele não é um peixe boi, o peixe boi não tem chifre. Eu não sei que tipo de imaginário as pessoas tinham do que era um peixe boi. E uma coisa que eu achei muito curiosa, as crianças achavam o bicho feio. Então a gente se olhava assim, gente, como assim? Todo mundo chega e diz, nossa, que bicho feio, que bicho feio. Tem foto desse resgate no site da Novelo, pra você conferir com seus próprios olhos a feiura, ou a beleza, do Tico.

até dizer para os pescadores, olha, ele é esperto, ele sabe fugir de rede. Porque a gente capturava eles com rede no recinto. Não tem perigo não, aqui no burral a gente pega tudo. E esse Tico fugiu, deu um baile nos pescadores. Enfim, conseguimos pegar, colocamos ele numa canoa bem grande. As fotos foram tiradas dentro dessa canoa. E dá para ver que o Tico está rodeado de gente da Aquasis. A gente estava em cinco pessoas e ficamos numa divisão. A divisão era assim.

E eu era do outro time. Enfim, optamos, mas isso a gente tem que assumir as decisões coletivas, né? Por soltá-lo no local. Soltamos o Chico no fim da tarde, assim. Aí foi uma soltura, assim, eu fiquei bem inseguro, assim, com bastante dúvida se realmente era aquilo que a gente tinha que fazer, mas enfim. E aí, imediatamente, no mesmo tempo,

Sempre tem uma janela no dia em que o transmissor para de mandar sinal via satélite. Ele fica fora do ar durante algumas horas.

uns 40 quilômetros. O Tico tava indo longe. 50, né? Depois ele foi pra 100. Agora ia ser um resgate mesmo. Só que tava muito rápido, ele tava se deslocando muito rápido e se afastando cada vez mais da costa. Ele tava se afastando e subindo pela costa, seguindo naquela direção, leste a oeste. E a equipe da Quasis foi correndo por terra, em dois carros, parando e tentando conseguir barcos que pudessem fazer o resgate.

A gente tentou operação de helicóptero com o político local. Quando tentava fazer o embarque, tinha que passar. Foi Maranhão. E a gente passou o Maranhão todinho. Parava. E quase que a gente conseguiu embarcar em Augusto Correia, no Pará, em uma embarcação no Atunzeiro, porque esses barcos que pescam Atunes vão mais distante da costa. Só que um mestre de embarcação não estava na cidade naquele dia.

já ia estar em outra. E tudo isso é muito dinâmico e muito difícil, porque você tem que chegar num local que você não conhece, você tem que convencer uma pessoa, contratar um barco, pagar, e ainda existe toda a burocracia de ter a nota fiscal, enfim, é muito estresse pra equipe de campo, né? Até você conseguir fazer isso acontecer operacionalmente e realizar, tem um tempo, né? Tem um tempo de preparo, só que o Tico não dava esse tempo pra gente. E aí chegamos em Belém,

Também vimos que a gente não ia conseguir barco em Belém. Também sair de Belém tinha uma outra desvantagem, porque você sai de dentro do estuário. Então até você chegar em mar aberto, demora bastante também, aí o animal já podia ter passado. Acabou para o Pará. Partiu Amapá. A gente já estava enviando as localizações do Tico para um pessoal de dentro da Petrobras que trabalhava com modelagens. E aí eles fizeram algumas modelagens para tentar prever onde ele ia passar perto do Amapá.

A Aquasis entrou em contato com o grupamento tático aéreo do Amapá e eles começaram a montar uma operação. Pra você ter ideia, a equipe foi parar no Oiapoque, tentando se antecipar. Eles iam pegar um avião da Força Tática saindo do Oiapoque para o que podia ou não ser um resgate. Porque nessa altura do campeonato, fazia muito tempo que ninguém avistava o Tico. Eles estavam acompanhando os sinais do transmissor, mas ninguém garantia que ainda tinha um peixe boi junto.

Passou uma noite e ficou acompanhando os pontos, né? Ficou acompanhando as localizações do Tico para ver onde é que ele ia passar. E aí, quando a gente recebeu as últimas localizações, a gente viu que ele estava muito distante do Amapá, né? Ele não seguiu as previsões, né? Ele não passou tão perto assim da costa. Acho que estava a mais de 200 quilômetros e aí a aeronave não tinha autonomia para fazer sobrevoo, né? Chegar até lá para sobrevoar um tempo e retornar, né?

dia 6 de julho, pra você ter ideia como isso foi rápido. 30 de julho, ele atingiu as águas da Guiana Francesa já, as águas internacionais. E aí a gente ficou muito limitado, né? E até com um pouco de receio. Existe um histórico de uns conflitos de pesca, de pescadores que saem do Brasil na Guiana Francesa. Então não é um território tão seguro pra você ir de barco do Brasil pra lá. Mas aí ali a gente entendeu que a partir dali, como a gente não tinha encontrado embarcação, né?

e aí a gente começou a retornar. Aí a gente voltou para o Ceará. Só que os pontos continuavam chegando, né? E aí aquela angústia de você ver os pontos, né? E aí chegou um determinado momento, Flora, passado mais de um mês, assim, é que a gente... Gente, isso deve ser o transmissor derivando. Não tem como ele estar vivo, né? Dentro da Quasis, tinha otimistas e pessimistas. Teve um período que eu achava que eu estava mais pessimista,

porque teve uma mudança no padrão das localizações. Antes elas estavam mais irregulares, elas começaram a estar mais regulares, assim. O que eu achava que era porque o equipamento ficou mais tempo fora da água. Então, a gente achava que ele tinha morrido, a gente continuava acompanhando, porque, enfim, queria entender o que aconteceu. E recuperar o transmissor também, porque é um equipamento bem caro. Ele é um equipamento importado e ele custa mais de 40 mil reais, né?

Tentando pensar no melhor cenário, assim, pensar, o Tico pode estar bem em outro lugar,

o equipamento, alguma coisa nesse sentido. Como a gente não tem certeza, às vezes escolhe o melhor cenário para acreditar. Às vezes eu ia dormir, eu imaginava aqueles filmes mar aberto, aquelas ondas gigantescas. Meu Deus, onde é que esse peixe boi está? Foram semanas angustiantes. E aí, no final de agosto, eles viram uma oportunidade. A gente viu que os pontos estão se aproximando de Trinidad e Tobago, que são duas ilhas já caribe.

a um bate-sinal muito específico. Quem trabalha com mamíferos aquáticos, com encargo, a gente trabalha muito em rede. A gente chama de redes de encargo. Eu fiquei imaginando telefones tocando pelo Caribe todo.

A Ria começou como especialista em corais, mas hoje em dia ela pesquisa tanta coisa que ela brincou que a profissão dela é tipo meu escritório é na praia. Entre outras coisas, ela é voluntária nessa rede de encalhe. Ela diz que o que mais encalha em Trinidad e Tobago é um golfinho chamado Cabeça de Melão. Mas o maior encalhe lá,

em números absolutos, foi de 22 baleias-piloto, por volta de 1990. Eles conseguiram desencalhar 12, mas 10 morreram. Daí lá foi a Ria fazer parte do time que fez 10 necrópsias de baleia-piloto. Ela disse que foi inesquecível, tanto a experiência quanto o cheiro.

da hora. A Ria chuta que é tipo quatro, cinco vezes ao ano. Mas são sempre variados e animados. Tem golfinho com sacola de plástico preso na nadadeira. Tem tartaruga com pereba na cara. E tem todo um elenco pronto para responder. Pesquisadores, pescadores, moradores locais. Quando a Ria recebeu o bate-sinal do Ceará e essa missão de recuperar o transmissor,

Porque ela mora e trabalha na outra ilha, Trinidad, que é bem maior. E enquanto ela não chegava, ela pediu para um pessoal que já estava no mar, perto de Tobago, para verificar, ver se conseguiam catar o transmissor logo. No dia 24 de agosto, eu recebo um e-mail, isso a gente trocando e-mails, né? Eu recebo e-mail desse moço que embarcou. E aí, eu acho que eu reli o e-mail umas três vezes para ver se eu tinha entendido certo, dizendo assim, não é um transmissor.

Está com o peixe boi. E o peixe boi está vivo. Aí foi assim uma... Todo mundo... Foi parecer Copa do Mundo. A gente... O Tico está vivo. E todo mundo gritando e feliz. O Tico está vivo. E algumas pessoas chorando. Enfim, né? Só que aí, rapidamente, passa o momento de euforia e vem. E agora? Como é que a gente vai... O que a gente vai fazer? Vamos pra Trinidad e Tobago. Daqui a pouquinho, a Flora Thompson Devore continua contando

Odisseia Aquática.

Oi, aqui é a Neca Setúbal. E aqui é a Sueli Carneiro. Esta semana, no Escute as Mais Velhas, a gente conversa sobre como é atuar nos direitos humanos com a educadora e ativista Jurema Batista. Porque eu, como uma pessoa da educação, e sempre trabalhei muito com mulheres, eu descobri que elas não tinham nenhum onde deixar os filhos. Comecei uma luta por creche comunitária. A Jurema foi a primeira deputada estadual negra do Rio de Janeiro,

e uma das fundadoras da Associação de Moradores do Andaraí, no Rio de Janeiro. Aí batemos na casa de vários homens. Um dizia que não podia, porque no final de semana ele tinha que ter lazer com a família. Um disse que nem pensar que o presidente da Associação de Moradores tinha que comprar briga com a polícia. A Jurema contou para a gente os desafios e as diferenças da mobilização popular e da mobilização na esfera política.

E com episódios novos toda terça-feira. Siga o podcast para não perder. Oi, amiga. Oi, amiga. Hoje a gente está aqui para convidar vocês a ouvir um quadro especial do Duas e Tanto, o videocast em que a gente explica todas as terças e quintas um tema quente da política de um jeito descomplicado e rapidinho, como um papo entre amigas.

Glossário Político, um quadro em que a gente explica um tema que vira e mexe e volta ao debate. Pode ser sobre saúde, segurança pública ou como funciona um projeto de lei. E o primeiro tema do nosso Glossário Político, na próxima sexta-feira, vai explicar o que está em jogo no debate sobre o aborto no Brasil. É uma parceria com a campanha Nem Presa Nem Morta, que atua pelos direitos reprodutivos da mulher. Se sua organização trabalha com um tema importante para a formação crítica da sociedade

batido no glossário político do Duas e Tanto, fale com a gente no e-mail parcerias arroba radionovelo.com.br. Eu vou repetir, parcerias arroba radionovelo.com.br. Esse áudio é de um vídeo feito no dia 24 de agosto pelo pessoal de Trindade Tobago que tinha ido atrás do transmissor do Tico, sem saber que o transmissor estava acoplado nele.

E aí essa equipe da Ria foi pra lá e eles conseguiram avistar o animal no dia seguinte, porque ele parou num porto que tem lá em Tobago. E aí nesse porto eles conseguiram filmar ele a dois metros de distância, porque você consegue andar assim na lateral do porto. E aí eu tinha que estar bem ali na frente deles mesmo. A Ria me mandou o vídeo curto que ela fez ali na hora.

Quando a Ria disse que o Tico parecia estar brincando na água, eu desconfiei. Imagina, ele deveria estar super cansado depois dessa viagem toda. Mas quando vi o vídeo, é bem isso mesmo que parece. Ele está girando devagarinho, parecendo de boa. Ele come um pouco de alface que o pessoal joga para ele. O vídeo é muito bonitinho e muito angustiante, porque ele está muito perto, do ladinho do cais. Dá para ouvir a Ria falando, a gente precisa de um barco.

A Ria me contou que Trinidad é uma das poucas ilhas do Caribe que tem uma população de peixe-boi, mas que ela é muito pequena. Tem só uns 30 animais, então a maior parte das pessoas lá nem tem ideia. Quer dizer, por mais que eles tivessem toda a boa vontade do mundo, essa era uma comunidade bem pouco equipada para lidar com peixe-boi, que dirá capturar um peixe-boi com certa experiência em fugir de rede.

que já era fim de tarde e não ia dar tempo de contratar um barco. Então a Rio e o pessoal dela continuaram monitorando, tentando acompanhar o percurso dele, enquanto o pessoal da Quasis não chegava.

O povo da Quase estava correndo para conseguir chegar em Tobago a tempo. Estava complicado conseguir até a passagem, porque a maior parte dos voos fazia escala nos Estados Unidos e ninguém ali tinha visto.

Vitor e a Camila. Eles finalmente acharam o itinerário horrível, que dava para chegar lá sem passar pelos Estados Unidos, e estavam para embarcar. Nesse caso, o pânico do Vitor estava justificado.

deixaram eu embarcar. Então foi só a Camila. Fortaleza-Rio, Rio-Cidade do Panamá, Cidade do Panamá-Georgetown na Guiana, Georgetown para Trinidad e Trinidad para Tobago. A Camila disse que ela teve bastante dificuldade para explicar para o pessoal da migração da Guiana o que ela tinha comprado uma passagem só de ida para Tobago. Isso não está nas perguntas padrão, né? É uma viagem de trabalho? Férias? Ou você está tentando alcançar um peixe-boi-fujão?

Eles foram me buscar no aeroporto. Aí era meu aniversário, nós chegamos lá no dia do meu aniversário. Depois de dois dias sem dormir, eles me pegaram no aeroporto para já ir direto para uma reunião. A reunião era com o departamento de emergências da ilha. Era uma coisa meio de filme, a gente traçando estratégias. Uma das preocupações era onde eles iam botar o Tico. Tinha plano A, plano B, plano C.

tentando colocar as coisas em lugar.

estrear o Tico ao vivo no mar. A Ria deu um desconto. Ela disse que era o comecinho da temporada de furacão por lá.

não estava para peixe. A ventania e as ondas também não estavam ajudando na tentativa de captar o sinal do tico. O pessoal ficava revezando, segurando a antena no ponto mais alto do barco, que nem se estivesse tentando pegar sinal de celular no lugar de pouca cobertura. A Camila estava embaixo, tentando ouvir os sinais da antena e também tentando não botar as tripas para fora.

Mas estava lá, né, trabalhando, passava mal, voltava, e tinha outras pessoas para a gente revisar também o equipamento, a gente procurando. O tempo estava passando, e nada do Tico. Pelo satélite, começaram a ver que o Tico podia estar rumando para Granada, outro país caribenho, um pouco mais ao norte. E a Ria já foi acionando os colegas por lá. Mas aí a gente passou o dia embarcado, né,

Ok, então isso não vai realmente acontecer.

Naquele momento, eram um pouco essas dúvidas. Onde é que eu vou parar? Onde é que o Tico vai parar? Onde é que a gente vai parar? Acho que eram nós dois. A Camila nem tinha passagem de volta de Tobago ainda. Então, ela ia ter que ficar por lá mesmo. A Ria, que já tinha passado uma semana sendo voluntária nessa caça ao Tico, levou a Camila para passear pelas ilhas, conhecer a família dela.

Pessoal desse departamento de emergência. Eu mostrei como era o nosso trabalho na quadra, como era a reabilitação dos peixes bois. Eles queriam entender se realmente lidavam com qualquer tipo de emergência. Eles pensaram, se acontecer algo assim de novo, o que a gente precisa? Enquanto isso, o Vitor estava correndo, acionando outras redes de encalhe. E o Tico também estava correndo, do jeito dele. E aí ele se aproximou de uma ilha chamada La Blanquilla, que é no Caribe venezuelano.

eu consegui ter contato com o pessoal do Ministério, eles chamam lá a partir do órgão ambiental, é o Ministério do Ecossocialismo. Quando foi no dia 5 de setembro, isso faltou quase dois meses, ele foi solto 6 de julho, 5 de setembro ele foi capturado nessa ilha, em La Blanquilha. E aí a gente recebeu, não conseguimos capturar o tipo, a gente está levando ele para um aquário, um aquário privado que tem lá nas Ilhas Margaritas, que são da Venezuela também.

Quando a gente viu as fotos do que aconteceu, a gente ficou extremamente impressionado, porque foi uma estrutura de resgate, eles acionaram, foi uma força militar, que ninguém aqui no Brasil tem. Então a gente estava imaginando a Venezuela naquela situação mais precária, a gente tinha notícia até de que em alguns pesquisadores, existem algumas comunidades que já estavam começando a caçar golfinho, para comer, por conta de fome.

E, de repente, a gente viu uma mega estrutura para fazer um resgate de um peixe de boia. A gente, como assim? Então, navio militar de guerra gigante com o Gru, assim, eles capturaram o Tico com a rede, né? Colocaram, insaram, colocaram primeiro num bote inflável, levaram para esse navio, né? E o navio atracou lá no aquário. Então, assim, a gente ficou bem impressionado com a capacidade de resgate, assim. Tem uma foto maravilhosa do Tico dentro do avião militar,

pessoas com uma cara bem de o que foi que eu fiz? O que ele tinha feito era o percurso mais longo já registrado por um peixe-boi da espécie dele. Pouco mais de 4 mil quilômetros em 60 dias. Tinha dado tudo certo, né? Tá, agora o Tico tá lá, agora a gente tem que pensar como é que a gente traz ele de volta. Agora que o drama ia começar. Quando o Tico foi resgatado no Caribe venezuelano, ele tava surpreendentemente bem. Só bem magro.

peso dele. A equipe venezuelana também tirou uma sacola plástica do intestino dele. Num primeiro momento, a Quasis recebeu alguns relatórios. E aos poucos a comunicação foi ficando difícil, assim. Pedir informações, não conseguia, né? Isso foi setembro de 2022. O Brasil não tinha representação diplomática na Venezuela, né? Estávamos sem embaixada. Périodo eleitoral fervendo, então assim...

A gente ainda estava no governo Bolsonaro aqui no Brasil, que estava rompido com o governo do Nicolás Maduro na Venezuela. Imagina. Digamos que o retorno de um grande mamífero perdido não estava no topo das prioridades de nenhum dos dois governos. No começo de novembro de 2022, a gente só viu umas postagens no Instagram de que o Tico tinha sido transferido para um zoológico no continente, um zoológico de Bararida, em Marquis e Meto.

depois do segundo turno das eleições presidenciais aqui. Início de 23, começou o novo governo, então foi um momento bem difícil de conseguir apoio governamental mesmo. E ainda havia um entendimento de alguns órgãos de que não, acho que não precisa fazer isso, deixa esse animal lá. Antes do resgate, algumas pessoas vinham questionando se precisava mesmo capturar o Tico.

quase soltou ele, e ele resolveu que queria conhecer o Caribe, isso não estava dentro do direito dele? Bom, a perda de peso e toda a questão plástica intestinal acabaram justificando o resgate. Mas aí veio a pergunta, por que eu preciso trazer de volta? Nesse quesito, a ciência ainda não bateu o martelo. Mas tem gente, o pessoal da Quases entre eles, que defende que o peixe boi marinho do Brasil é uma espécie, ou subespécie, diferente dos peixes

da Venezuela. Ou seja, não ia adiantar soltar o Tico por lá, porque mesmo que ele se reproduzisse com alguma peixe boi venezuelana, o filho deles ia ser uma espécie híbrida, provavelmente infértil. E além disso, a gente está falando de uma espécie ameaçada de extinção, com menos de mil, um pouquinho mais de mil animais na costa do Brasil. Mas para além de tudo isso, tem ainda uma questão que dava até para chamar de livre-arbítrio. O Tico não tinha o direito de sair por aí solto no mundo?

Quem somos nós para dizer que ele tinha que voltar para o lugar de onde ele veio? Eu estava lembrando ontem, quando você me mandou uma mensagem, que eu até estou usando aqui uma moeda, que eu, na verdade, encontrei quando eu tinha uns 15 anos. Esse é o Yuri. Ele catou uma moeda no chão e reparou que ela era do mesmo ano do nascimento dele. E aí, sei lá, achei aquilo tão curioso que eu furei a moeda e fiz um cordão na época.

A moeda é de 100 cruzeiros, eu acho. É, 100 cruzeiros. E o que ele só reparou mais recentemente é que no verso dessa moeda tem um peixe-boi. Eu me chamo Yuri Simões de Souza. Eu sou oceanógrafo computacional e físico também. Sou cearense, nasci em Fortaleza. Por mais que o Yuri tivesse carregado um peixe-boi perto do coração esses anos todos, ele não tinha muita conexão com o bicho.

E eu acho que o desafio principal era tentar entender se o Tico nadou ou surfou. Se ele quis chegar até a Venezuela ou se ele foi simplesmente carregado pelas correntes. Então eles precisavam de um oceanógrafo físico. O Yuri me contou que o lugar onde o Tico foi solto é bem peculiar.

a gente tem tanto a atmosfera como o oceano transportando calor para fora do Equador. Então você tem uma concentração de calor na região equatorial e isso é transportado para latitudes maiores. E isso é importante, muito importante para o clima. Mas o que é curioso para essa região é que a gente, na verdade, está transportando calor para o Equador. E isso ocorre porque você tem uma corrente que é uma das maiores, das mais intensas correntes do mundo, que é a corrente norte do Brasil. Os oceanógrafos usam uma unidade

Os cálculos variam, mas vários estudos estimam que a corrente norte do Brasil leva uns 30 Sverdrups.

tem rios Amazonas. E parece que o Tico passou bem na parte mais forte dessa corrente. Foi muito curioso, porque quando eles me mostraram o mapa da trajetória do Tico, primeiro que a direção era totalmente condizente com o que a gente espera das correntes, mas o que foi mais engraçado é que tem um momento que a trajetória do Tico faz quase um loop, ou metade de um loop, e isso foi exatamente no lugar onde normalmente tem esses vórtices da corrente.

de que ele está simplesmente sendo carregado pelas correntes. Dá para dizer, então, que o Tico pegou uma pista por uma via expressa sem querer? Exatamente. Eu acho que essa analogia é muito boa. Mas uma das coisas que eu fiz para representar isso de uma forma melhor foi, basicamente, eu soltei milhares de Ticos virtuais no campo de velocidade de uma simulação. Então, eu tenho várias partículas que estão seguindo,

seguindo as correntes. E eu simplesmente sobrepus a trajetória do Chico, a trajetória dessas partículas. E você vê que ele segue igualzinho a trajetória das partículas. É uma corrente tão grande e tão forte que ele não ia conseguir sair nem que ele quisesse. Eu perguntei para o Yuri se ele conseguia imaginar como devia ser para o Chico entrar nessa esteira rolante marítima. Eu não sou um oceanógrafo que em inglês se chama sea going.

oceanógrafo que vai muito pra embarques, né? Apesar de ter participado e tal, eu lembro de um embarque que eu participei que eu tava no turno da noite. Normalmente os oceanógrafos eles separam entre turno de dia e de noite, né? E aí se revezam, né? Nos turnos. E eu tava no turno da noite e uma hora eu saí pro convés, assim, a gente tava muito distante da costa. E eu olhei pra baixo, assim, tava até a lua cheia, então eu conseguia ver um pouco das ondas e

A primeira coisa que eu pensei foi, se eu cair aqui, eles nunca vão me encontrar. É claro que o Tico é um animal que é marinho, então ele deve ter um conforto infinitamente melhor de estar no mar do que eu tenho. Mas mesmo assim, estar em um lugar totalmente inóspito, eu imagino que deve ter sido uma aventura bem assustadora para ele também. Sai um artigo científico sobre essa aventura do Tico em 2024, com a Camila, o Yuri e o Vito,

entre os autores. Um dos desafios que a gente teve foi também de entender como que ele sobreviveu essa trajetória. Em termos de alimentação, será que ele teve acesso à água doce? E aí a gente fez uma análise com dados de satélite, tanto de salinidade do mar, e a gente vê que ele cruzou a pluma do Amazonas, mas ele também encontrou algumas tempestades nessa jornada. Principalmente no final da jornada, que provavelmente é quando ele mais precisava. E durante o processo de reabilitação,

foi observado que esses peixes bois, eles tendem, eles ficavam numa piscina, né? E a água doce era fornecida pra uma fonte que ficava fora do nível da água da piscina. E eles tendiam a beber a água antes que ela chegasse na superfície. Então, provavelmente, ele sabia como beber a água da chuva, se ele precisasse, né? Mesmo assim, o Tico provavelmente não ia conseguir manter o pique por muito mais tempo. Então, a vida dele deve ter sido salva mesmo pelo time de Venezuela.

Aquasis conseguiu liberação para visitar o Tico lá em maio de 2024, mais de um ano e meio depois do resgate dele.

um animal que passou por tudo o que ele passou, com todo o investimento que eles fizeram no resgate. Mas eu entendo que não é uma questão de má vontade, é de limitação de estrutura mesmo, sabe? Esse é o Carlos. O Carlos estava muito preparado para receber um peixe boi.

E, bom, também, muita experiência com o trabalho de maratilhas, o país submarino, como o chamam lá no Brasil.

só os quatro peixes boi do zoológico comem uns 700 quilos de alface por semana. Em 2022, a situação estava mais ou menos tranquila. Mas alguns anos antes, quando teve uma mudança no governo estadual, acompanhada por uma troca de provedor de alimento, chegou até animal passando fome. Morreram cinco macacos-aranha. Culparam Carlos. E ele foi preso.

Nessa época, morreram animais em vários zoológicos pelo país afora. O processo contra o Carlos acabou arquivado e ele continuou trabalhando no zoológico. E ainda em julho de 2022, o Tico entrou no radar dele, quando começou a circular em redes marítimas que tinha um peixe-boi brasileiro dando um rolê no Caribe.

O post do zoológico daquele dia diz assim. Até o Maduro tuitou sobre o Tico. Era uma notícia boa no país, num momento de muita notícia ruim.

diz que ele não queria nem que o Tico ficasse, e muito menos que ele se reproduzisse. E parece, não sei exatamente quando, mas parece, que o Carlos conseguiu convencer os superiores dele.

Nunca se opuseram a fazer a repatriação. A história do Tico é muito entremeada de uma morosidade, mas também quando a gente está avançando, as questões políticas vêm e fazem uma reviravolta no caso. Primeiro foram as eleições no Brasil. Novo governo, outras prioridades. Aí, em meados de 1924, a delegação cearense conseguiu fazer aquela visita à Venezuela. Aí foi exatamente nesse momento que a gente pensou que estava evoluindo que vieram as eleições na Venezuela.

E aí, em 1924, estremeceu tudo de novo. O Brasil não reconheceu a auto-declarada vitória do Maduro. E isso, para fins de intercâmbio de sirenios, atrapalhou bastante. Uma opção que chegou a ser aventada seria do Tico ser levado para o Brasil no mesmo avião que ajudou a fazer o resgate dele. Descobrimos lá na Venezuela que os aviões da Venezuela não podem abastecer no Brasil por causa dos embargos econômicos. Então, mesmo que eles cedessem o avião,

avião não pode abastecer no Brasil. Aí a gente, assim, murchando, né? São muitas peculiaridades que a gente não conhecia. Eles chegavam numa proposta e esbarravam no obstáculo. E assim, sucessivamente. A gente queria o apoio do mesmo avião que levou o Tico para o zoológico levar-se para a fronteira. E aí, com essa crise política, ah, não. O mais frustrante da conversa é porque nunca tem um não. É silêncio.

em tal mês. Tipo, ah, vamos programar pra novembro. Aí chega novembro, não é. Aí tá, ah, não, acho que até daqui seis meses vai ser. Então sempre ficou uma coisa meio assim, ah, parece que tá chegando a hora, mas não chega. Então a gente ainda não tinha perdido as esperanças, assim, de que ia trazer ele, né? Agora eu não sei como é que estão os ânimos. Agora eu realmente já começo a desacreditar um pouco, assim, de que o animal vai voltar, assim, né? Eu sempre em contato com o pessoal, o Tico hoje fez um ano, 23, 24

com a Tico estar dois anos na Venezuela, num recinto ruim. Essa iniciativa, ela deveria ser uma iniciativa de interesse nacional, porque a gente tá falando de fauna nativa ameaçada de extinção, né? E que por mais que seja uma operação cara, né? É completamente possível de ser feita, né? É muita demora e a gente sempre perdendo tempo, sempre perdendo tempo. Só que o Tico não tem esse tempo. Em outubro ele

No protocolo nacional, um peixe-boi só é considerado apto para ser solto até os 12 anos. Se ele estiver muito bem, dá para avaliar uma soltura até os 15. Depois disso, não tem jeito.

O Carlos me contou que os peixes bois do zoológico estão nesse tanque raso porque a piscina maior está com problema. Um problema que nunca tem grana para consertar. Ele me mandou uma foto do Tico nesse tanque, com os companheiros dele de zoológico. Kami, Karina e Orinoco.

o Brasil não resgata o Tico não por falta de recursos financeiros. Eu acho que é mais falta de articulação, de vontade política para que isso aconteça. Aí eu brinco que o Tico é um refugiado político, um peixe-boi refugiado político na Venezuela. E se, por acaso, você anda acompanhando o noticiário, você pode ter pensado num acontecimento recente na Venezuela. Eu estou desde outubro, Flores, esperando o retorno do e-mail. E aí, quando a gente pensa que tem uma janela,

Aí vem um negócio desses Estados Unidos e invade Venezuela. Como que eu vou conversar com o diplomata para ele achar que é prioridade ele ir lá na porta do ministério? Vamos conversar sobre a repatriação de um peixe de boi em meio a uma crise desse tamanho dentro do governo. No dia em que o exército americano baixou em Caracas, o Carlos pensou primeiro nos bichos do zoológico. Será que ia faltar comida?

para o trabalho. Quando conversei com Carlos, ele disse que, por precaução, eles estavam até racionando um pouco a comida, mas que, por enquanto, parecia tudo sob controle. Nesse quesito, pelo menos.

A Ria, claro, foi uma das pessoas mobilizadas pelo Tico. E ela me contou que a passagem do Tico pelas ilhas deixou um marco. Estão surgindo novas pesquisas para descobrir se os peixes bois de Trinidad e Tobago são uma espécie diferente, se é uma subespécie, se eles têm um dialeto próprio.

Porque sim, peixe-boi também tem sotaque. E a Ria também ficou comovida de ver o tanto de gente que se coçou para cuidar desse rapaz roliço e bigodudo. Agora, a Quazes tem um canal de comunicação com a universidade dela, onde a Ria fala do Tico todo ano nas aulas. O Yuri, o oceanógrafo, me falou de uma professora norte-americana

alunos dela também, estudantes de ensino médio em Massachusetts. Vários alunos, inclusive alunos brasileiros ou filhos de brasileiros, se inspiraram nessa história e se interessaram na ciência e na carreira científica. Tem os desenhos do Tico feitos pelos alunos no site da Novelo. E isso sim é fofo fauna. A nossa expectativa é realmente ainda tenho esperanças que a gente consiga soltá-lo novamente. Espero que sim.

de novo, você fala assim, rapaz, você fique perto da costa. A gente precisa dar chance aos animais. E com certeza ele já tem uma bagagem de vida que nenhum peixe-boio vai ter de conhecer ambientes diferentes. Então a gente tem essa expectativa de que pela resistência dele, o animal de tudo que ele passou, que realmente a segunda soltura pode ter chance dele se adaptar. Eu ainda tenho esperança, eu ainda acho que

Carlos até tem dúvida se, depois de tanto tempo, o Tico vai conseguir se adaptar na natureza. Mas, independentemente disso, ele quer que o Tico possa voltar para o país dele, assim como ele quer que os venezuelanos da diáspora possam voltar para o país deles.

dessa história era bem agridoce. Eu estava na torcida pela volta do Tico, mas sem muita esperança. E aí, na véspera do carnaval, o Vitor me escreveu. Era para dizer que estavam fechando um acordo para fretar um voo para o Tico. Ainda ia depender da Embaixada em Caracas, do Ministério pelo Ecossocialismo, da Petrobras, de uma empresa americana, do Ministério da Agricultura, porque é como se a Quaz estivesse importando um peixe-boi para o Brasil, que, digamos, não é uma operação comum,

pareciam estar se abrindo. E ainda mais gente estava se prontificando para ajudar. Nesse tempo que me apaixonei pela história do Chico, fiquei pensando muito sobre o que significa ele ter nadado tão longe. Esses milhares de quilômetros que ele andou. Dá para contar essa história como se fosse um relato dos grandes navegadores da época do Colombo. Mas também dá para pensar sobre o quanto que a gente controla o nosso rumo na vida.

peixes-bois sendo arrastados pela corrente norte do Brasil, só torcendo para encontrar alguma sustância, um pouco de água doce e alguns seres solidários no caminho. Uma coisa que os peixes-bois, ou o Tico, ou todos eles me ensinaram, hoje que hoje em dia eu não planejo mais nada na minha vida, eu acho que eles me ensinaram a fluir com a vida, tanto que eu tenho uma dificuldade agora de marcar alguma coisa para daqui a um mês. Eu penso, ah, eu não sei o que vai acontecer, eu não sei se vai dar certo.

pela corrente norte do Brasil, de repente você está na Venezuela. Um dia você está aqui no Ceará, no outro dia você está lá no Maranhão. Acontece, acontece com qualquer um. Eu nunca mais fui a mesma pessoa desde esse trabalho de monitorar os peixe-boes marinhos, né? Acho que mudou a minha perspectiva de vida. Essa história foi produzida pela Flora Thompson Devoe. E ela pediu para agradecer a Erika Berenger, que sugeriu essa história e foi responsável

na onda de sireneofilia aqui na Novelo. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Tem episódio novo toda quinta-feira, menos pros membros do Clube da Novelo, que conseguem ouvir já na quarta. Tá aqui um gostinho do episódio da semana que vem. O Francisco é um menino de vários bonés. Ele tem um boné amarelo, um boné preto, mas quando ele saia com um boné vermelho, isso gerava um pouco de discórdia. Teve vizinha recomendando que ele tirasse. Esse boné não, esse não dá.

Se quiser fazer parte do clube, tem todas as informações no nosso site. A gente volta já já.

foi assassinado a tiros dentro do carro dele. Ele era conhecido por atuar na defesa dos pequenos agricultores e da reforma agrária. Nessa época, o repórter Lúcio Flávio Pinto estava trabalhando em dois jornais, o Liberal do Pará e o Estado de São Paulo. Na hora, ele começou a acompanhar as investigações do caso. Depois de meses de apuração, ele chegou na mesa da diretora administrativa do Liberal com a reportagem em mãos.

que não iam poder publicar a matéria. Isso porque dois dos homens mais ricos do Pará e grandes anunciantes do jornal estavam envolvidos na denúncia. Foi ali que Lúcio Flávio tomou uma decisão. Para poder contar o que ele sabia, ele ia criar um jornal independente, só dele, o Jornal Pessoal. Essa história é contada na revista Piauí de Abril, que traz a segunda parte do perfil do repórter Lúcio Flávio Pinto, escrito por João Moreira Salles.

Essa semana, na página do episódio no nosso site, tem muitas fotos do Tico em várias idades, bebezão na Praia das Agulhas, na piscina com o irmão Teco. Infelizmente, a gente não tem a menor ideia de qual é o Tico e qual é o Teco. E também no zoológico em Barquecimeto, na Venezuela. Também tem links para pesquisa científica

sobre a grande viagem dele. A gente está nas redes no arroba radionovelo, no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok. Para mandar sugestão de história, crítica, elogio, etc., é só escrever para o e-mail apresenta arroba radionovelo.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios.

É só escrever para a gente em anuncie arroba radionovelo.com.br. O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Tholson-Devô. A produção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager. Nossos repórteres e roteiristas são o Vinícius Luiz, a Evelyn Argenta, a Carolina Moraes, a Bárbara Rubira, a Bia Guimarães e o Vitor Hugo Brandalize.

A nossa criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Valejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farah. Esse episódio teve desenho de som da Bia Guimarães, que assina a mixagem junto com a Mariana Leão. Nesse episódio, a gente usou música original de Chico Correia e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel.

A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. E quem faz a revisão das transcrições dos episódios para a gente é a Flora Vieira. Obrigada e até a semana que vem.

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