Episódios de Rádio Novelo Apresenta

O segredo do seu lado

21 de maio de 20261h11min
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Quando Stephanie conheceu Eric numa balada onde ela era hostess, ela não reparou muito nele. Ele não era o tipo dela, mas ele era insistente; e depois de um tempo, ele acabou ganhando a confiança e o coração dela. Mas, desde o começo, tinha sinais estranhos. Viagens misteriosas, obsessões e resistências. Conforme a vida deles foi ficando cada vez mais entrelaçada, Stephanie começou a desconfiar que tinha alguma coisa muito errada acontecendo. E ela tinha razão – mas ela não poderia imaginar o que. Por Clara Becker e Paula Scarpin.

A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://shre.ink/apresenta180

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Palavras-chave: Rússia, espião, espionagem

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Participantes neste episódio5
F

Flora Tom Sandevô

Host
P

Paula Scarpin

Host
C

Clara Becker

Reporter
N

Natália Soares

ConvidadoEntregadora
S

Stephanie Arcanjo

ConvidadoHostess
Assuntos6
  • Ataques e ameaças digitais específicas no BrasilAlexander Andrejevich Utekin · Sergei Vladimirovich Tcherkazov · Polícia Federal · New York Times · Rússia · Guerra Fria · Identidade brasileira
  • Odisseia e IlíadaEric Falcher Lopes · Stephanie Arcanjo · Esfel Joalherias · Brasília · Relação abusiva
  • Segredo de DeusCharles Dickens · Um Conto de Duas Cidades · Mistérios e segredos
  • Encontro com entidade em armário embaixo de escadaStephanie Arcanjo · Abuso
  • Uber Mulher - ExpansãoNatália Soares · Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike de Natal · Economia informal · Labora
  • Necessidade de transformação social e econômicaEva Blay · Movimentos sociais · Fundação Tide Setúbal
Transcrição177 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Rádio. Rádio. Rádio. Novelo. Está começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Paula Scarpin. E eu sou a Flora Tom Sandevô. A Branca Viana está de férias. E já que a gente agarra um microfone aqui temporariamente, eu queria usar meus poderes ditatoriais para ler um pouco de literatura do século XIX.

Olha, ela nem tá brincando, tá? Quando a gente tava falando sobre o episódio dessa semana, a Flora lembrou de um trecho de Um Conto de Duas Cidades, do Charles Dickens. Eu amo essa passagem num grau. É do comecinho do romance, um daqueles parágrafos que eu grifei e nunca mais esqueci.

Vou ler aqui na tradução da Sandra Luzia Couto. Um fato extraordinário a merecer reflexão é o de que cada ser humano se constitui num profundo e indecifrável enigma para todos os demais. Sempre que entro numa grande cidade à noite, considero com solene gravidade que todas aquelas casas fechadas e escuras encerram seu próprio segredo, que cada aposento em cada uma delas oculta um mistério.

que cada coração pulsando nessas centenas de milhares de peitos esconde algum segredo para o coração que está ao seu lado.

Eu lembro do impacto de Layser pela primeira vez. De pensar numa cidade do tamanho de Londres, ou do Rio, de São Paulo, e pensar em cada prédio, cada quarto, cada coração ali dentro. A impossibilidade de conhecer completamente qualquer ser humano, mesmo a pessoa que está dormindo do seu lado. Acontece que tem segredos e segredos, né? Mistérios e mistérios.

Você pode nunca ter confessado, por exemplo, que na verdade você não gosta tanto assim daquele prato, que é a especialidade da sua mãe. Você pode escolher ou omitir do seu namorado algumas experiências que você teve antes do relacionamento, porque afinal ele não tem nada a ver com isso. Mas tem segredos que são mais sérios, com consequências maiores. Vamos combinar que esse trechinho do Dickens foi o prólogo da história de hoje. Já já, depois do intervalo, a Clara Becker conta esse segredo pra gente.

Quando eu comecei, era muito difícil ter mulher nas entregas. A Natália Soares tem 27 anos e mora em Natal, no Rio Grande do Norte. E a Sete decidiu sair do trabalho CLT para ter mais liberdade de horários e começar uma faculdade. Então, valeu a pena no momento o quê?

Eu tenho o meu horário e na minha vida pessoal dá para se organizar. Mas não é fácil a rotina de quem trabalha com entregas em aplicativos, especialmente para quem é mulher. Porque tem muito estabelecimento que eles não liberam banheiro para a gente, para nós mulheres. Aí a gente vai no posto de gasolina.

Só libera quando bota a gasolina na moto. 95% dos trabalhadores do setor de logística e entrega são homens. Mas, ainda assim, o número de mulheres entregadoras e motoristas passa de 100 mil no Brasil.

Com o apoio do Labora, o Fundo de Apoio ao Trabalho Digno, Natália conseguiu organizar o grupo do qual faz parte e hoje é diretora da Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike de Natal. Graças a esse apoio, ela consegue levar à luta pela melhoria das condições de trabalho adiante.

Hoje, a principal demanda para as plataformas é por pontos de apoio para os entregadores em Natal. Um espaço com infraestrutura para a higiene, alimentação e atendo os diferentes trabalhadores que atuam na economia informal. A última vez que a gente procurou, a resposta deles era que a gente estava mapeando onde tinha mais fluxo de entregadores para fazer. Só que foi há dois anos atrás.

Atualmente, 39 milhões de trabalhadores no país vivem na informalidade. O Labora é uma iniciativa do Fundo Brasil de Direitos Humanos e oferece apoio essencial à sobrevivência de movimentos e lutas por trabalho digno.

Em 2018, a Stephanie Arcanjo estava trabalhando numa casa noturna em São Paulo. Eu sempre trabalhei, desde os meus 12 anos. E depois com a chegada da minha filha, que eu não tive um apoio, eu tive que trabalhar mais, né? Daí eu fazia faxina durante a semana, dia de sexta e sábado eu trabalhava nessa baladinha ainda. A Stephanie era hostess nessa balada.

ela ficava ali na porta, checando o nome na lista VIP, colocando pulseirinha, dando as boas-vindas para os clientes. E um desses clientes ficou meio obcecado com ela. Ele chamava Eric. O Eric, de primeiro momento, eu não fui muito com a cara dele.

Mas ele ficava muito em cima de mim, sempre ia lá, pedia pra minha chefe deixar eu ficar com ele no meu tempo de pausa. Falava, vai lá, conversa com ele. Falava, não, porque ele é um cliente de muito tempo aqui, ele é muito legal, que não sei o quê. A Stephanie até dava um pouco de corda, mas ela não se sentia muito atraída por ele. Ele não era lindo, mas ele não era feio. Depois eu posso mostrar fotos dele.

Mas ele era uma pessoa que se cuidava, assim. Ele tinha um cabelo castanho claro, liso, mas ele era baixinho. Ele tinha uma cabecinha um pouco grande. Bom, e a Stephanie, ela não vai ela mesma dizer isso. Então deixa que eu digo. Ela é muito bonita. Do tipo que chama atenção mesmo. Em geral, hostess de casa noturna é assim, né? Mas mesmo dentro desse universo, eu acho que ela é fora da curva.

Pra você ter uma ideia, ela me lembrou um pouco a Zoe Kravitz. Então você pode imaginar que o Eric não foi o único a passar uma cantada nela. Mas ele era o mais insistente. Aí ele levava algumas coisinhas me agredendo, começou a fazer muitos elogios, essas coisas. Então nunca...

tinha recebido flores. Ele foi o primeiro homem, o único, né, até hoje, que me deu flores. Então, isso já me deu um... Nossa, aqui é diferente, sabe? E eu falei, ah, pô, não custa nada, né? Dar uma oportunidade assim.

Quando a gente saiu a primeira vez, ele não me convidou pra ir pra uma balada ou pra beber algo assim. Ele me levou pra almoçar, depois me convidou pra tomar chá na casa dele. Ele morava num apartamento na saúde de 50 metros quadrados, assim, bem pequenininho. A gente conversou sobre diversas coisas e...

Ele me contou um pouquinho da vida dele. E depois eu fui embora. Ele não forçou nada. Então eu já senti uma... Nossa, essa pessoa é diferente, sabe? Enfim. Ele era diferente nisso, de ser respeitoso com ela. Mas ele era diferente em várias outras coisas também. O sotaque dele era muito forte. Mas ele falava muito bem brasileiro. E ele entendia muito bem brasileiro. Ele nasceu aqui no Brasil, no Rio de Janeiro.

A mãe dele faleceu quando ele nasceu. E quando ele tinha, assim, acho que uns dois anos, um ano, o pai dele levou ele pra França e ele foi criado lá na França até os 22 anos, depois ele foi pra Bélgica. Eu acho que o que mais me atraiu nele era... Ele se mostrava ser essa pessoa, assim, incrível.

não demorou muito pra eles engatarem um namoro. E ele era muito prestativo, assim, em questão de me auxiliar em tudo. E, tipo, ele... Ai, você precisa de ajuda? Eu falava, não, mas não, tá aqui, não sei o quê. Eu acho que você não deveria trabalhar tanto, não deveria fazer faxina. Então, ele tava sempre me auxiliando financeiramente, porque ele falava que ele era provedor, que ele foi ensinado assim.

Então, pra mim, era tudo mais... Ah, poxa, tem uma pessoa que vai ter um cuidado comigo. Eu nunca tive isso. As qualidades não paravam de aparecer. Ele era uma pessoa assim. Ele sabe fazer praticamente tudo. Tipo, de desmontar uma mesa, a falar rusa, sei lá. Tipo, várias coisas. Ele pintava também, tá? Olha, ele fazia muita coisa. É surreal. Um homem renascentista, né?

E a Stephanie achava estranho que ele não usava nenhuma dessas habilidades profissionalmente. Ele falava que era investidor e que ele trabalhava com criptomoedas, essas coisas, sabe? E ele tinha uma grana. Depois que o pai dele morreu, ele decidiu vir conhecer a pátria-mãe dele, né?

E aí, chegando aqui, ele queria investir em alguma coisa, porque ele tinha gostado do Brasil, os brasileiros eram acolhedores e... Cada hora o Eric tinha uma ideia de um negócio diferente. Teve uma fase dele querer abrir uma academia. Logo depois, ele estava falando em abrir um salão de cabeleireiro. Mas nada ia pra frente.

E aí, um dia, ele tirou mais um interesse da cartola. Eu fui uma vez na casa dele e ele me mostrou essa coleção de pedras preciosas que ele tinha numa caixinha, assim. E aí ele me mostrou um conjunto de joias de prata, que foi o primeiro que ele mandou fazer. Que era topazio sky blue, azulzinho, assim. Aí ele fez um anel, um pingente e os brincos.

Aí eu falei, poxa, você que desenhou, ele é, eu que desenhei. Aí ele mostrou alguns desenhos, eu falei, nossa, então você está perdendo tempo. Por que você não abre uma joalheria? Já tem pedra, você sabe onde comprar. E ele falou assim, se eu abrir, você vem trabalhar comigo? Aí eu, claro, com certeza, vamos, né? Nessa altura, eles já estavam juntos há quase um ano.

E a Stephanie, cada vez mais apaixonada. Ele sempre estava me ensinando coisas novas. E também ele me impulsionava a querer aprender, a fazer as coisas. E aí, com essa ideia de abrir a joalheria, o Eric matriculou a Stephanie num curso de gemologia. O Eric também foi se especializar. Ele foi para a França, porque lá ele poderia se certificar melhor. Na volta dele, eles abriram a loja.

Agora eu tava trabalhando, ele me registrou. Inclusive, eu ajudei ele a abrir essa empresa. Ele já tinha um CNPJ. E aí eu fui fazendo os corres lá, né? Tipo, de cartório, essas coisas.

E aí, a gente abriu essa joalheria ali na Paulista, do lado do MASP. Só que não era uma loja aberta pro público. Era uma loja onde as pessoas... Tipo, que a gente investiu mais no site, em divulgações, assim, Instagram. E aí, você podia agendar.

E marcar pra ver, provar joias. E eu achava legal, porque eu pensava assim, pô, faz sentido, né? A pessoa pode se sentir à vontade. As pessoas encontravam a gente pelo site e pelo Instagram. Então, até com isso também, monetização, a gente mexia. Mas ele, nesse caso, né? Que era, ah, você joga joias, já parecia Esfel. Esfel. Era esse o nome da loja.

Ele comprou as melhores câmeras, ele baixou o Photoshop, eu fazia a edição das fotos, eu tirava a foto. Ele me ensinou a fazer tudo isso. Tirar as fotos, postar, mexer no site, organizar o site, trocar, tirar quando sair uma peça, colocar de volta, sabe? Tipo, ele me ensinou todos os passos. Ele me levou pra ver aonde ele comprava as pedras, os orives. Ele desenhava as joias.

E eu levava. Isso daí era tudo, assim, bem certinho. Eu fazia as notas fiscais, nunca teve... Ele pagava tudo certinho. Eu era a única funcionária, sempre. E eu vendia, eu fazia todo o marketing de internet, inclusive... A loja deu muito certo, muito rápido. Depois que a gente abriu a loja, ele mudou pra um apartamento aqui.

Na Vila Mariana, só que bem maior. Com vista, todo tipo de vidro, bem bonito. E aí, nessa mudança, eu ficava mais com ele. Eu morava com a minha irmã. E aí, quando eu comecei a trabalhar com ele, ele falou, porque você não aluga uma casa?

Eu nunca tive isso, sempre no ambiente ali conturbado e com a minha filha. E aí eu vi uma chance de poder morar sozinha com a minha filha, de poder dar um suporte maior pra ela e tal. Enfim, aí nisso ele morava na casa dele e eu morava na minha. E nisso, alguns problemas começaram a aparecer também.

Porque eu pago o seu salário, né? Além de trabalhar lá, aí chegava em casa, eu ainda arrumava as coisinhas dele. Além de ter a minha casa, que eu cuidava, fazia as coisas para a minha filha, eu meio que fazia as coisas para ele. Arrumava, deixava tudo organizado. Em geral, a Stephanie não se incomodava muito com isso.

Ele falava assim, ó, vou pagar seu aluguel esse mês. Ou seja, o meu salário já era meu, entendeu? Não precisava pagar meu aluguel. Ou ele ia lá fazer a compra do mês. Então tinha essa, tipo, que internamente na nossa consciência você pensa assim, Ah, né?

Já tá fazendo isso, não custa nada, né? Eu vim aqui limpar a casa dele. Só que teve um dia que ela chegou na casa do Eric cansada. Eu cheguei na casa dele e aí tinha um monte de louça pra lavar. E aí eu cheguei, eu já tinha trabalhado, fiquei lá sentada. Ele falou assim, você não vai lavar louça? Eu falei, não.

Porque não fui eu que me disse, alô, você nem moro com você. E aí ele foi super grosso comigo, tipo, super agressivo. Tipo assim, como... Porque tinha essa coisa também. Tipo, eu te dou, mas você tem que fazer as coisas pra mim. Ele não falava diretamente com essas palavras. Mas deixava claro que era meio que uma dívida, né? Nesse dia, a Stephanie saiu de lá se sentindo mal, desrespeitada. E aí

mas depois eles acabaram fazendo as pazes. Só que essa primeira crise, ela acabou fazendo a Stephanie se dar conta de alguns incômodos que ela não estava dando muita atenção antes, ou que ela estava meio que passando um pano. Por exemplo, o Eric não fazia muito esforço para ser legal com a família dela.

Ele conhecia a minha família, mas ele não queria ter muito contato. A única vez que a gente teve contato com ele foi uma festa de Natal, que eu fiz na minha casa. E aí ele conversou bem pouco com a minha mãe. Ele conversou mais com o meu pai, mas depois ele foi dormir. E com a sua filha, como é que ele era? Ele era mais ríspido com ela. Ele falava pra ela que ele não era pai dela, mas ele tinha essa coisa de sempre estar presenteando, sabe?

Não sei se era uma forma de querer suprir algo, não sei, mas ele sempre, ah, se você precisa disso, eu vou te dar. A Stephanie sentia, muitas vezes, que o Eric passava sinais trocados. Por um lado, ele dava muita segurança para ela. Por outro, ele tinha um discurso de que não era para ela se apegar.

Porque ele era um homem do mundo. Era um homem do mundo. Mas eu já tava bem apegada. Eu pensava assim, ah, ele pode mudar um dia, assim. E eu pensava, pô, é o homem da minha vida, né? É uma pessoa ali que eu acho que agora vai dar certo. Tipo, pensar assim, ah, eu acho que ele fala isso porque ele não teve pai, mãe. Tipo, sempre foi uma pessoa sozinha. E ele falava que ele era uma pessoa sozinha, sempre. Ele era bem assim, sou seu amigo, mas...

Tipo, teve um casal de amigos que a gente viajava, mas também não era aquela coisa de... Muita intimidade, sabe? Ele era muito reservado. Só que a Stephanie não era assim. Tinha essa questão de também me moldar ou querer que eu fosse uma pessoa assim mais...

reservada ou mais... Tipo assim, mudar meu cabelo, sabe? Quando ele me conheceu, eu usava o cabelo 100% natural, não tipo black e tudo. E ele falava que era lindo. Ele amava. E aí, depois, com o tempo, isso foi mudando. Por que você não alisa o cabelo? Que vai ficar mais bonito, que não sei o quê, e a gente tá mudando. Sabe? Ele não falou com essas palavras que vai passar uma imagem, mas...

Tipo, sei lá, pode ser mais fácil. Aí eu pensei, tá, pode ser. Aí eu fiz uma escova, gostei, eu falei, vou alisar. E nisso, alisei o cabelo. Porque eu pensei, poxa, tô aqui com uma pessoa, a gente pode crescer junto. Enfim. Daí veio a pandemia.

e com a pandemia a gente vendeu muito, muito, muito, e nisso ele falava que ele faturava mais vendendo pedras preciosas para fora do Brasil, então ele estava sempre viajando. Daí, quando foi no final de 2021, ele foi para Brasília, e aí ele voltou e falou eu quero mudar a loja para Brasília, e eu vou.

Você quer vir comigo? Aí eu falei, ah, eu quero, né? A gente já tá junto praticamente. Eu sempre vivia mais na casa dele do que na minha. E aí eu falei, por que não, né? Se minha filha puder ir, vamos. Sim. E ele falou, tudo bem. Pode ser. E aí a gente começou essa mudança.

De levar tudo. Casa, loja. E aí no final de 2021 a gente já estava fazendo essa mudança, né? A gente escolheu a casa. Ficava no Jardim Botânico. A gente abriu a loja física também. Num prédio. Tudo igual aqui. Eu ia pra lá todo dia. Praticamente todo dia.

E aí, minha filha ia pra escola, depois ela ia me encontrar e a gente voltava pra casa. Tinha toda uma rotina, assim. Ele ficava o tempo todo no escritório, porque nessa casa que a gente alugou era enorme. Ela tinha, tipo, cinco quartos, tinha piscina, era uma mansão. Eu achei estranho, mas como ele falou que a loja tinha dado resultados rápidos e tinha o fato dele já investir...

Eu achei normal, né? Tipo, legal, eu só fui uma pessoa de sorte. Porque eu nunca imaginei ter vivido isso. Não foi só a metragem da casa. Tudo mudou muito com a mudança para Brasília. Por um lado, a Stephanie notou uma mudança no comportamento do Eric. Um pouco mais frio, mais calado.

Por outro, parecia que ele estava compensando isso com outros cuidados com ela. Aí ele contratou uma pessoa para fazer comida, para cuidar da casa. Essa pessoa ia duas vezes na semana. Eu já não tinha esse trabalho. Ele falava que eu tinha que focar agora em estudar, em se comportar nos lugares. Tenta fazer amizade com pessoas influentes. E eu achava que era tudo normal, porque era tudo em prol da Sfell, da loja.

Ele focou mais em mim, em me transformar em uma mulher, tipo... Já tipo, casalzinho, que tem uma filha, uma pessoa pra apresentar, sabe? Ele queria muito estar envolvida nesse meio de pessoas...

assim, envolvidas com política, né? Ah, ele me pagava aulas, ele falava que eu tinha aulas de tênis, eu fazia bastante coisa. Inglês, aula de tênis, aula de golfe. E esse investimento todo foi dando certo, dando os resultados que ele queria. E aí ele começou a ter muito contato com...

Ai, embaixadores. Inclusive, ele fez churrasco na nossa casa. Essas pessoas foram lá. E a gente se deu super bem, assim, de início, né? Mas eu não me sentia 100% à vontade, porque não era o meu grupo, né? Eu sempre ficava assim, ai, tipo, quadrada. E tinha políticos também?

Não, políticos não. Teve embaixador dos Estados Unidos. Essa perguntando pra Stephanie é a Paula Scarpin, que tava acompanhando a entrevista comigo. Sua família chegou a conhecer a casa de vocês em Brasília? Minha irmã e minha amiga, minha melhor amiga. Elas foram passar um final de ano com a gente lá. Foi na virada de 2021 pra 2022. E ele tratava bem elas? Super bem. Ele tratava meus amigos, assim, muito bem. Não queria que eles pagassem nada, tipo...

Ele sempre se colocava como uma pessoa mais sensata, mais inteligente, tipo, cordial, atencioso. Comigo também, mas tinha os seus momentos, né? Era como se ele fosse um general e eu fosse o soldado, sabe? Mas vou te dar aqui o meu carinho também, às vezes.

Assim que o ano virou, a Stephanie notou uma mudança maior no comportamento do Eric. Ele começou a viajar muito mais. Tipo, ele ficava um mês em casa, um mês fora. Um mês em casa, um mês fora, praticamente. E eram sempre viagens assim, muito que eu não esperava. Ele simplesmente saía, depois voltava. Ah, eu vou ter que viajar. E aí eu comecei a achar muito estranho. Eu comecei a ficar muito mais...

Tipo, tem alguma coisa errada, mas eu tinha medo, sabe? Tipo, de questionar. E às vezes... O que você achava que tinha de errado? Olha, quando começou muitas viagens, eu pensei que talvez ele estivesse contrabandeando pedras. Porque a gente mexia com isso, sei lá. O humor dele também tinha piorado muito. Toda vez que ele viajava, ele voltava um pouco mais frio, mais calado.

E aí, quando surgiu essa guerra na Ucrânia, que ele, tipo, mudou completamente, eu achei. Achei que ele ficou bem mais frio. A gente foi passar o carnaval na Bahia, no Morro de São Paulo. E eu achei ele bem, bem, bem diferente. Ele ficava o tempo todo no celular. E o tempo todo ele só falava disso. Só falava disso. A Stephanie não acompanhava muito o hábito do Eric de ler o jornal. De estar por dentro das questões políticas e econômicas.

Ela sabia que, como ele era investidor, ele tinha que estar super atento a essas mudanças todas. Mas ela não entendia por que essa notícia da invasão da Rússia na Ucrânia mexia tanto com ele. Ele explicava e ele defendia bastante o Putin. E ele contava a história da Rússia e tudo mais. E ele falava o tempo todo. Esse era mais um dos mil sinais que ela percebia o tempo todo de que eles eram de universos diferentes. Muitos casais são assim, né?

Não quer dizer que eles não tinham uma conexão. Ela contou, por exemplo, como ela gostava de chegar em casa, abrir a porta e ver a cara dele se transformar. Falava, e a alegria chegou. Teve um dia que, um domingo, que a gente ia sair para jogar golfe. E aí ele falou, eu só vou resolver algumas coisas aqui no escritório e depois a gente vai.

Aí eu fiquei lá esperando, ele demorou uma hora, duas horas, três horas, e ele não saía, ele não saía. E eu achei muito estranho. Aí ele saiu de lá e ele falou, a gente vai ter que ir para São Paulo.

Eu vou sumir por um tempo e você vai ficar lá na casa dos seus pais e depois você vai voltar, você vai viver normalmente. E eu, por quê? Porque nada a ver, que não sei o quê. Ele falou assim, olha, tem uma pessoa me perseguindo. Essa pessoa fala que eu devo ele, mas eu não devo. Eu vou ter que sumir por esse tempo. Eu falei assim, mas deveu o quê? Ele falou, um dia eu vou te explicar. Aí eu, né...

Não quis questionar muito. Porque quando ele era questionado, ele ficava nervoso, ele já, sabe? De novo, ela obedeceu e fez o que ele queria. Ficou um tempo em São Paulo. Depois, quando ele deu o sinal, ela voltou para Brasília. E ele sumido. E ele dizia para mim que ele tinha ido para a Amazônia, que ele ia ficar um tempo na Amazônia. Mas quando ele voltou, que eu fui mexendo no celular dele, eu vi fotos de lugares que não eram aqui no Brasil.

E aí eu questionei ele e falei, não, é só papel de parede, isso daí faz tempo, coisas assim, sabe? Enfim, isso já começou a dar aquela sensação de, tem alguma coisa muito errada. E aí eu fiquei com medo, porque querendo ou não, eu e minha filha estávamos muito envolvidas, porque a gente morava lá. E aí ele começou a encher a casa de câmeras, ele deixou câmeras em toda a parte da casa.

Mas ele falava que era só por precaução, porque não sabia. E aí me acalmou, né? No fundo, eu tinha essa sensação. Tem alguma coisa errada? Mas não queria. Não queria sair da minha zona de conforto, sabe? Tipo, tá muito bom, acho que é melhor não mexer. E assim, eu tava vivendo o sonho de princesa, né? Tipo, a vida que eu nunca imaginei que eu teria.

Pouco tempo depois disso, o Eric avisou a Stephanie que ele ia ter outra viagem. Mas que dessa vez, ele queria que ela fosse junto. A gente foi pra África do Sul, pra Johannesburg e depois pra Kenton. Ele só falou que ele ia ter uma reunião lá e ele queria me levar porque ele achava que ia ser legal conhecer, tipo, os meus ancestrais, essas coisas. Então tinha muito isso, essa coisa. A gente vai, sabe?

E aí eu achei o máximo, né? Incrível, fui. Eu pensei, ai, nossa, tipo, tô vivendo aqui o auge do amor. E ele era muito, tipo, romantiquinho e tal. Assim, tinha coisas que ele não queria fazer, né? Que tinha isso também, que era sempre o que ele queria fazer. Por exemplo, eu gosto de sair à noite. Eu queria conhecer a noite da cidade, queria ir na balada.

E aí ele não queria, eu fiquei insistindo muito, teve um dia que a gente foi e ele ficou extremamente arrogante, ignorante e a gente teve que ir embora. A Stephanie estranhou essa resistência do Eric de sair à noite ali na viagem. Até porque eles se conheceram numa casa noturna, né?

Mas ela tinha uma hipótese. Ela já tinha percebido que ele era muito racista. Eu via também que essa coisa de ficar muito perto de pessoas muito, tipo, negras, retintas, ele deixava ele um pouco, assim, incomodado. E uma vez eu perguntei pra ele, se eu fosse preta retinta, você ficaria comigo? E ele falou que não. Nossa, gente.

De algum jeito, a Stephanie sempre conseguia encontrar um lugar de compreensão, até para os comportamentos mais abjetos do Eric. Ah, não sei, eu acho que ele achava que se eu me considerasse como negra, eu seria desvalorizada. Tipo assim, sabe? Ela passou pano mais uma vez. E eles voltaram para o Brasil já com outra viagem em vista, passar o Réveillon em Dubai. Era virada de 2022 para 23.

Ele chegou, a gente já tinha combinado de passar o ano novo lá, depois a gente ia viajar, ia pra outros lugares. Aí um dia eu acordei e ele não tava. Aí eu fui lavar meu cabelo, fazer escova lá no quarto mesmo. E ele demorou. Quando ele chegou, ele foi pro banheiro. E ele ficou muito tempo lá, ele ficou tipo uma hora e meia lá dentro.

E aí eu falei, nossa, tá acontecendo alguma coisa? Aí depois ele saiu e ele falou assim, você vai ter que ir pro Brasil e eu vou pra outro país. Mas ele não falou qual país. Do nada. Aí eu falei, o que que tá acontecendo? Por que isso agora? A gente já tinha pagado mais cinco dias no hotel. Aí ele falou assim, eu não posso te contar agora, mas um dia eu vou te contar. De novo, um dia eu vou te contar.

Ele me deixou no aeroporto, comprou uma passagem assim em cima da hora e mandou para o Brasil. Aí eu já sabia, tipo assim, senti que foi a última vez que eu iria vê-lo, sabe? Sabe quando você sente assim forte? Aí eu voltei para o Brasil assim o caminho todo acabado, chorando e tudo mais.

Enfim, aí ele falou que ia entrar em contato comigo. Ele me deu alguns dólares pra eu me virar aqui. E falou que eu deveria, tipo, depois que passasse as festas, isso era final do ano, era um dia antes do ano novo. E ele falou, quando passar as festas, você volta pra Brasília e vai continuar a vida normal. Vai abrir a loja, dararã. Ele me instruiu a tudo. E sumiu, né? Tipo, mesmo.

Não me mandou mensagem, eu não falei mais com ele e nada, tipo, nem por e-mail, nada. Daí, voltei para São Paulo, porque minha filha estava em São Paulo, aí a gente voltou para Brasília, vivi minha vida normal, só que com aquela angústia. E meio que eu já estava sentindo que alguma coisa estava muito errada, sabe? Aí ele entrou em contato comigo.

com o DDD do Paquistão. DDD não, né? DDI.

Daí ele falou que estava no Paquistão e falou que ia entrar em contato comigo para me orientar sobre algumas coisas. E nisso a gente só conversava mais por e-mail, só por e-mail. Mesmo eu tendo esse número dele do WhatsApp do Paquistão. Eu não podia mandar mensagem para ele fora dos horários. Ou se eu mandasse ele também não ia receber. Tinha horários específicos ou dias específicos. Tinha dia que eu ficava sem falar com ele. Isso durou mais ou menos um mês.

Depois ele me ligou realmente e aí ele falou, acabou Brasília, você vai ter que entregar a casa, fechar a loja e voltar para São Paulo. E aí eu fiquei em choque, né? Só que eu queria saber o que aconteceu. Perguntei para ele, o que que houve? Aí ele falou assim, um dia eu vou te contar, só que eu não posso te contar agora. Não vou poder voltar para o Brasil agora.

Naquela mesma ligação, o Eric disse que ele ia passar uma procuração para a Stephanie romper os contratos de aluguel da loja e da casa deles, que ela podia levar os móveis que ela quisesse para São Paulo e para ela vender o resto. Uma parte do dinheiro era para ficar para ela, para ela recomeçar a vida.

E o resto era pra ela guardar pra ele, junto com umas poucas coisas que ele queria ficar. Tipo assim, bolsa de tênis, um quadro que ele pintou lá, que tinha uma montanha, um homenzinho lá em cima. Que ele que pintou esse quadro, ele levou. E algumas coisas, e joias. Tudo isso ele pediu pra eu guardar, embalar. E aí foi uma pessoa, tipo, eu encontrei com essa pessoa.

Em um lugar lá, em Brasília. E só tava esse cara, tipo, Brasília é um calor, né? Enorme, você sabe que você mora. E esse moço, ele tava de blusa de frio, de máscara, de boné. E ele também tinha um sotaque, assim, bem carregado. Aí eu cheguei lá e ele falou assim, ó, você vai levar essas coisas. Inclusive as joias. Aí ele falou assim, você vai levar essas coisas. E quando chegar lá, essa pessoa vai perguntar, você trouxe a ração do cachorro? Aí eu vou falar que sim.

E a ração do cachorro era as coisas dele. E essa pessoa estava sozinha. Eu deixei essas coisas dele lá. E dei a volta para ver se eu ia ver alguma coisa. Só que quando eu dei a volta com o carro. E se a pessoa já tinha sumido. Com essas coisas. Aí eu já fiquei. Ele está envolvido com alguma coisa. Muito, muito, muito pesada. Aí eu já pensei em tráfico humano. Várias coisas. Tudo eu imaginava.

E eu quis agir com ele, assim, tipo, calma, tranquila, não querer questionar muito pra não... Sei lá. E ele não falava que o nosso relacionamento ia acabar. Ele falava que a gente ia arrumar um jeito de eu ir encontrar com ele lá e ficar nessa, assim, tipo, ficar aqui no Brasil até as coisas se ajeitarem. Era isso que ele falava pra mim. Ele falava que quando a gente se encontrasse, ele ia me contar as coisas, tudo o que tinha acontecido.

Aí, depois que finalmente ele viu que eu estava estabilizada aqui em São Paulo, que eu já tinha feito tudo, fechado tudo, que não ficou nenhum rastro, assim, tipo, nenhuma pendência da empresa, de nada, ele me ligou e falou que ele tinha virado monge.

Ele falou que ele tinha virado monge, que ele ia se desconectar de tudo, de internet, que ele iria desaparecer. Ele ia desaparecer. Ficar totalmente incomunicável. Num mosteiro, sabe-se lá onde. Mas não imediatamente.

Ele ia desaparecer dali a três meses. Daí o que eu pensei? Eu tinha uma grana, né? E eu tenho uma prima que mora na Suíça.

Aí, a mente da mulher apaixonada. Eu pensei, pô, se ele não pode vir pro Brasil, então eu vou pra Suíça e vou, sei lá, pedir pra ele me encontrar lá, porque, né? Aí eu falei com ele, ele falou, não, vai, porque pode ser que as coisas dê certo, mas ele não falou que ia me encontrar lá. Ele falou pra eu ir, pra eu tentar algo novo lá. Nisso ele já tinha terminado comigo, tá? Ele já tinha falado que daqui três meses ele iria desaparecer, que a gente não ia ter mais contato nenhum.

Mas eu tinha essa esperança. Aí eu fui pra Suíça, nessa esperança. Aí eu falei, não, vou dar um ultimato, né? Ver se realmente vai ser isso. Aí eu mandei mensagem falando, vamos se ver, que não sei o quê. Eu acho que a gente pode, sei lá, acertar as coisas. Aí ele me ligou e falou, não. Que a gente não ia mais se ver.

mesmo, aí falou que eu tinha sido a única mulher que ele amou na vida, só que eu não acredito, enfim. E que realmente muita coisa tinha mudado, que ele não poderia mais me ver, mais ter contado comigo. E eu não quis nem questionar o que aconteceu, sabe? Quando você fica assim muito...

Aí eu finalizei a chamada, fiquei bem triste e fui seguir minha vida, né? Eu falei, ah, vi também que não queria ficar na Suíça e tal, voltei pro Brasil e fui trabalhar, fazer minhas coisas, né? Viver minha vida normal. Quer dizer, ela teve algumas recaídas.

Mas de cara, ela percebeu que o contato que ela tinha dele... Esse contato dele simplesmente ficou fora do ar, já não tinha mais. Eu mandava mensagem e ele não respondia. Nem chegava. E aí eu mandava mensagem por e-mail também. Nunca tive retorno. E aí eu falei assim, ah, quer saber? Também pode ser bom eu não saber. Mas eu ficava com esse questionamento. Será que um dia eu vou descobrir o que aconteceu? Quem será que ele era?

Será que um dia ele me amou? Sabe? Esses questionamentos. Daí eu fui viver minha vida normal, né? Tipo, voltei a trabalhar numa padaria ali na Santa Cecília, artesanal. Quando foi em 2025, né? O ano passado, tava lá trabalhando o meu dia normal, um dia de semana. Recebi uma notificação da Polícia Federal.

Isso foi em setembro de 2025, mais de dois anos depois da última vez que a Stephanie tinha falado com o Eric. Eu já tinha até esquecido, não esquecido, mas tipo assim, ah, é um assunto que eu não quero mais tocar. Ah, eu tô trabalhando, recebi uma notificação da Polícia Federal pra eu confirmar o meu e-mail que eu estava sendo intimada.

E aí eu já fiquei nervosa, assim, eu falei, mas por quê? Comecei a questionar, né? A pessoa falou assim, eu não posso te falar nada, você tem que só confirmar o e-mail. Aí eu confirmei e eu pensei assim, só pode ser sobre ele, não tem outra coisa, né? Aí conversando com meu amigo, meu amigo falou assim, Esté, procura uma advogada, você não pode ir pra uma audiência ou algo assim sem advogada.

Aí eu procurei, tipo, conheci uma menina na academia, ela era advogada. Quando eu fui, isso era um sábado, ela falou assim, vem aqui pra gente ir no meu escritório, a gente vê, já fala sobre. Aí quando chegou lá, eu contei toda a história pra ela. Ela falou assim, qual o nome dele? Aí eu falei, Eric Falcher Lopes. Quando ela jogou, já tinha um monte de reportagem, New York Times, Metrópolis. Um monte de coisas que eu não imaginava. Ela falou, tá falando aqui que ele é espião russo.

Já já, depois de um intervalo curtinho, a Clara Becker continua contando essa história. O dia já exige demais da gente. Nossa roupa não precisa exigir também. A ideia da Insider é levar tecnologia para aquilo que você veste no dia a dia.

São peças que desamassam no corpo, facilitam a evaporação do suor e seguem confortáveis por horas, sem virar mais uma coisa pra você administrar. Pra aproveitar, usa o cupom Rádio Novelo, tudo junto e sem acento. Ele é um cupom dinâmico, te dá 15% de desconto se for sua primeira compra ou 10% se você já for cliente. E o melhor é que ele acumula com descontos que já estiverem no site. O link tá na descrição do episódio.

Insider, se é confortável, é uma escolha inteligente.

Onde a gente estava? Ah, sim. Na advogada que a Stephanie conheceu na academia, jogando o nome do Eric no Google e... Tá falando aqui que ele é espião russo. Espião russo. Eu fiquei assim, não. Não pode ser, gente. Tipo, eu fiquei em choque. Eu descobri lá no escritório da advogada. Eu já ouvi muita história de relacionamento abusivo.

E essa história da Stephanie tem sim os elementos clássicos, tipo comunicação truncada, dependência financeira, falta de transparência, agressividade, enfim. Além de uma dose caprichada de machismo e de racismo, né? Se fosse minha amiga, eu tinha falado pra pular fora muito antes. Mas olha, eu confesso que espião russo não estava no meu repertório de golpes.

Talvez olhando retroativamente, o sotaque, esses sumiços e essas mudanças bruscas de humor por causa da invasão da Ucrânia fossem umas red flags. Mas, afinal, quem que ia cogitar uma coisa dessas?

Você nunca tinha gulgado o nome dele antes? Eu tinha, só que nunca aparecia nada, porque essas reportagens são recentes. Foi no começo, eu acho, do ano passado. E aí, eu já tinha deixado de mão de pesquisar algo. E eu fiquei, assim, muito em choque. Você estava achando que ele tinha virado monge mesmo? Não, eu nunca acreditei nisso. Você achava o quê?

Ah, eu achava que ele tinha se envolvido com alguma coisa muito errada e que ele não podia vir pro Brasil. Mas eu não imaginava que ele era espião russo. Aí eu, conversando com amigos, aí os seus amigos ainda falam assim, ah, eu já pesquisei sobre espião e espião não tem sentimento. O que te ajuda bastante, né? Você já tinha visto algum filme, alguma coisa de espião russo? Não.

Desde a Guerra Fria, a expertise russa na arte da espionagem vem inspirando um monte de obras. Desde os livros do John Le Carré até a série The Americans, mais recente. E mesmo depois da Guerra Fria, a KGB continua em plena atividade pelo mundo. O próprio presidente Vladimir Putin foi agente secreto. A espionagem é a menina dos olhos dele.

Mas essa história de espiões russos no Brasil é uma história mais recente, que nem todo mundo acompanhou. A Stephanie foi pega totalmente de surpresa aquele dia no escritório da advogada. Mas antes disso, um jornalista já tinha mandado mensagem no meu Insta, falando assim, você trabalhou na Esfel, eu queria... A mensagem era de 8 de março.

Boa tarde, Stephanie. Tudo bom? Desculpa te incomodar no teu Instagram. Meu nome é Rodrigo Pedroso, sou jornalista. Estou trabalhando numa matéria sobre fraude e vi que você trabalhou na Esfel Joalherias há uns anos, que até já está fechada. Gostaria de conversar um pouco contigo o seu trabalho lá naquela época.

Não é nada demais, estou no começo da minha pesquisa, mas acho que você poderia me ajudar com algumas coisas. Se você tiver dúvidas ou quiser fazer algumas perguntas, fique à vontade, pode olhar meu perfil ou ver meu nome no Google. Se também quiser, me manda mensagem no WhatsApp, deixe o WhatsApp. Obrigado pela atenção e bom dia para ti.

Talvez você esteja lembrando da voz do Rodrigo Pedroso por aqui. Ele já participou de algumas histórias do Rádio Novela Apresenta, sobre o Starlink na Amazônia, sobre merenda escolar no território ticuna. Eu sou jornalista freelancer, já faz uns 10 anos, 12 anos. E uma parte considerável dos freelas que o Rodrigo faz é de fixer, que é tipo ajudar na apuração de jornalistas estrangeiros aqui no Brasil.

Ele já trabalhou em reportagens para a CNN, para o Le Monde, para o Guardian e também para o New York Times, como era o caso dessa vez. Aí me ligaram, falaram se eu podia ajudar com uma reportagem investigativa que o New York Times estava fazendo, que ia vir dois gringos para cá. E precisávamos de uma força para entender um pouco o contexto, para ajudar com as entrevistas e tal. Os dois gringos eram o Michael Schwartz e a Jane Bradley. Eles costumam trabalhar em dupla.

Eles tinham bastante informação, já estavam há quase um ano investigando o tema. Eles falaram, ah, estou fazendo uma investigação sobre uns espiões no Brasil. O Rodrigo nunca tinha, ele mesmo, feito nenhuma reportagem sobre o tema. Mas ele tinha lido as notícias.

Dois anos antes, a BBC Brasil tinha publicado uma reportagem explicando como funcionava o que eles chamavam de um berçário de espiões russos no Brasil. Tinha saído na Folha também, né? Não é uma história nova, exatamente. O que o New York Times tinha de diferente era a experiência do Michael Schwartz. Esse cara, ele cobriu o governo russo durante vários anos. E além disso, eles tiveram um bom acesso à investigação da Polícia Federal aqui no Brasil.

O que muitas vezes não é simples, né? Quem trabalha com jornalismo, só que a PF é um pouco hermética, né? Só que nesse caso, a PF tinha todo interesse em falar. Pelo seguinte, de pelo menos nove espiões que eles conseguiram mapear, só um foi detido. Todos os outros conseguiram escapar.

Quando eles conseguem fugir, ou sair sem ser pego, a PES fica de mão atada, né? Pra outro país e tal. Aí eles soltam na Interpol o nome, todas as informações, foto. E aí eles vão pra lista da Interpol. Então, assim, onde eles forem, dá pra reconhecer. Então, tipo, beleza, a gente não pegou vocês, mas agora vocês estão presos no país de vocês.

Na reportagem que o New York Times publicou e que o Rodrigo aparece como colaborador, eles citam uma frase de um investigador sênior da PF que não é identificado, que resume a linha de raciocínio deles. Para um espião, o que é pior do que ser preso? É ser exposto como um espião. O espião acabou, né? Tchau, game over, entendeu?

Tipo, todo interligado, então beleza, eles usam outros nomes, mas a cara mesmo. Só se eles fizerem igual aqueles narcotraficantes que mudam toda a cara, sabe? Acho que é isso o golaço da PF, assim. Mas voltando, o que já se sabia era isso. Que a Rússia estava usando o Brasil como uma espécie de... Uma fábrica de espiões, né? Então meio que o Brasil com uma categoria de base, um CT de espiões, assim. Tá, mas por que o Brasil?

Primeiro porque o Brasil é um país multiétnico, então qualquer um meio que pode ser brasileiro, digamos, fenotipicamente você não levanta as peitas por ser russo, sendo brasileiro. Segundo, o sistema brasileiro de criação de documentos de identificação, ele é muito robusto, mas ele tem algumas partes falhas, sobretudo na certidão de nascimento.

Não é nem uma falha, exatamente. É uma flexibilização do sistema, que faz muito sentido num país com uma população rural expressiva. Quando uma criança nasce num centro urbano, num hospital, o próprio hospital emite uma declaração de nascido vivo para fazer a certidão de nascimento. Mas claro que dá para registrar um bebê que nasceu em casa, né? Com uma doula ou com uma parteira. Para isso, você só precisa ir no cartório com duas testemunhas.

Na verdade, é muito louco, porque uma medida que vem para desburocratizar e ajudar as pessoas a terem acesso ao setor de nascimento, acaba sendo explorada para a criação de setidões de nascimento falsificadas. E a partir da setidão de nascimento que você criou para essa pessoa, você consegue todos os outros documentos. Então, tudo é partir do setor de nascimento, tudo.

A gente é título de eleitor, reservista de exército, passaporte. Então, se você tem uma certidão de nascimento à prova de balas, entre aspas, você consegue fazer todo o resto de maneira sumamente legal. Você não tem que subordar ninguém, você tem que copiar, você tem que falsificar. E é aí que entra a terceira vantagem de ser identificado como brasileiro. O passaporte brasileiro é um dos mais cobiçados do mundo, porque com ele dá para entrar sem visto em muitos países. Quase tantos quanto para quem tem o passaporte americano.

Ou seja, os espiões russos não estavam aqui para espionar o Brasil. Eles estavam aqui para adquirir uma identidade brasileira. E aqui, identidade não é só carteira de identidade, os documentos todos, enfim. É também uma série de rastros no Brasil. Uma história de vida convincente no país. Eles não vinham aqui e pegavam esses documentos todos e iam embora.

Eles vinham, moravam alguns anos, abriam empresas, criavam laços de amizade, namoravam. E aí, quando esse espião chegasse no país que ele fosse espionar, ele ia ter uma identidade brasileira acima de qualquer suspeita. E a partir disso, eles teriam uma grande fachada para poder operar emissões no mundo inteiro. No Oriente Médio, na Ásia, na Europa.

Em 2022, o espião russo Sergei Vladimirovich Tcherkazov concorreu a um estágio no tribunal de Haia que investigava os crimes de guerra russos com uma identidade brasileira. Ele se apresentava como Victor Miller Ferreira. Ele foi identificado pelas autoridades holandesas, deportado de volta para o Brasil e está preso na Penitenciária Federal de Brasília por uso de passaporte brasileiro falso.

Mas antes de embarcar nessa tentativa de espionagem ambiciosa, ele viveu durante anos por aqui, construindo essa identidade. O Tcherkazov chegou a fazer um mestrado em relações internacionais na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, usando sua falsa identidade brasileira. E diz que ele já era conhecido lá como um brasileiro sociável, com sotaque confuso, e que dizia que já tinha perdido o pai e a mãe. Ele evitava se engajar com outros brasileiros para não acabar se comprometendo.

Foi depois desse mestrado que ele tentou se infiltrar no tribunal de Haia. Era justamente dessa vida inventada dos espiões russos no Brasil que os repórteres do New York Times estavam atrás quando eles procuraram o Rodrigo. Então ele já tinha parte da Polícia Federal, já tinha parte da investigação, de ter espiões russos, ter uma fábrica, ter uma política de Estado, governo russo ali. E faltava um pouco essa coisa de entender as pessoas, esses seres humanos.

Eles já sabiam, por exemplo, de um espião russo que tinha aberto uma gráfica de impressão 3D no Rio de Janeiro, bem pertinho do consulado americano. E ele prestava serviço até para a Globo e para o exército brasileiro. Eles tinham aquele pessoal do Rio, mas eles precisavam de pessoas de outros espiões, né?

Naquela altura, os repórteres do New York Times já sabiam que o Eric, o namorado da Stephanie, que ela conhecia como Eric Forcher Lopes, ele se chamava, na verdade, Alexander Andrejevich Utekin. E ele tinha uma joalheria chamada Esfel. Aí eu dei uma pesquisada no YouTube, básica, e acabei achando um programa antigo. O vídeo é de abril de 2023 e ainda está no ar.

Esse programa, meio Pequenas Empresas, Grandes Negócios, versão B, assim. O canal chama Empresários de Sucesso. Eu nunca tinha ouvido falar, mas tem quase 130 mil inscritos no YouTube. O Brasil é um dos maiores produtores de pedras preciosas do mundo. Eu pensei, pô, então vamos tentar falar com quem estava lá nessa gravação. O Rodrigo achou fácil a repórter que aparecia no vídeo.

E ela contou a história de como ela foi lá gravar, não sei o quê. Achei tudo estranho e tal. Para trabalhar essa variedade de gemas, o especialista em pedras preciosas, Eric Lopes... O cara tinha um... falavam por ele com sotaque, um sotaque forte de gringo, né? Eles escolheram montar um showroom na Avenida Paulista. Porque assim, era um programa também daqueles que os empresários pagavam para aparecer, entendeu? Era como se fosse um merchan disfarçado. A repórter estava achando muito estranho que o próprio dono da joalheria não queria aparecer na filmagem.

E uma hora ela tentou fazer ele falar, ele foi meio que super grosseiro, ele não queria aparecer de jeito nenhum, só que ao mesmo tempo ele ficava perto falando para a Stephanie que ela tinha que falar. Sim, a Stephanie aparecia nesse vídeo. O dono da Esféu, sendo gemólogo, especialista em pedras preciosas... Ela está lá, de cabelo alisado e com um texto super decorado. Procurando sempre o melhor possível por um preço justo. Esse é o nosso diferencial.

o Rodrigo também tentou falar com a Stephanie para a matéria. Achei o LinkedIn dela, depois achei o Instagram. Foi aí que ele mandou aquela primeira mensagem no Instagram. Lembrando, em março de 2025. Ignorei a mensagem dele. Naquela altura, a Stephanie não tinha a menor ideia de por que aquele jornalista estava atrás dela. Dois anos tinham se passado e ela estava querendo era esquecer a Esfel, o Eric, enfim.

Só que aí, meses mais tarde, quando ela descobriu que o Eric, na verdade, era um espião russo, ela lembrou da mensagem do Rodrigo no Instagram. E depois eu pensei, agora tudo faz sentido. Então isso daqui já tá rolando um tempo e eu não sabia de nada. Ela já respondeu no Instagram. Eu tinha passado o meu WhatsApp pra ela na mensagem no Instagram. Ela já me mandou mensagem também no WhatsApp. Aí ela tava em choque. Ela tinha acabado de ser citada pela Polícia Federal pra prestar um depoimento. Que ela não tinha ideia.

Até então, o Rodrigo só sabia que ela tinha trabalhado na Esfel. Ela mandou, eu descobri no sábado, ele era meu namorado também. Ela mandou, mulher, como é que você tá depois de descobrir isso? Ela respondeu, tô muito mal, ainda não caiu a ficha, eu não tinha ideia de nada disso. Eu falei, putz, imagino, deve dar demais. Ele não conseguia nem imaginar o tamanho do baque que tava sendo pra ela. Aí eu comecei a conversar um pouco, dar uma força.

Ele entendeu que não era a hora de tentar descolar uma entrevista exclusiva ali. Que era a Stephanie quem estava querendo conseguir alguma informação dele. E um ombro amigo, talvez. Eles ficaram um tempo conversando. Ela respondeu, eu ainda estou gerindo tudo. Amanhã devo depor na PF. Ia ser em Brasília, mas eu não pude comparecer e a gente fez chamada de vídeo. E como que foi a audiência remota com a Polícia Federal?

Olha, o delegado foi bem tranquilo. Tipo, eu estava nervosa, mas eles queriam saber mais sobre a loja, na verdade. O que a Polícia Federal parecia querer com a Stephanie era só checar se a Esfel existiu mesmo, se não era só uma loja de fachada. Eu tinha vídeos, documentos, nota fiscal, essas coisas, consegui mandar para eles.

Foi uma via dupla no final, porque ela também tinha muitas perguntas para fazer para eles. Perguntas que o Rodrigo não sabia responder. Eram informações que ele não tinha tido acesso. Aí ele falou que realmente eles usavam o passaporte, mostrou o pai.

Dele, né? Que nunca foi pai. Que ele falava que era esse moço português. Mostrou a foto. Esse moço já tinha morrido muito antes dele nascer, né? A Stephanie saiu desnorteada dessa audiência. Eu me senti enganada, assim. Olha, eu não chorei na hora, mas... No outro dia, assim. Tipo, eu fiquei muito... Gente, eu me senti ousada. E depois descartada, assim, como nada, né?

Aí vem tudo na sua cabeça, assim, pensando, ó, caramba. Então era tudo mentira, sabe? Os momentos... Nada ali foi verdadeiro. Eu senti amor. Eu estava ali 100%. Mas eu não posso dizer dele, sabe? Ó, agora ele deve estar lá na Rússia, sei lá onde, vivendo a vida dele normal. É, o palpite é o que sai da matéria lá, né? Que ele voltou pra Rússia, mas assim...

O Rodrigo não procurou mais a Stephanie depois daquele contato. O trabalho que eu tava fazendo pra eles lá do New York Times já não ia adiantar, já passou, já foi publicado fazia muito tempo. E pra uma investigação própria, como eu tava com outros trabalhos, eu falei, não vou ficar pressionando. Eu esperar ela retornar pra mim, aí eu vejo o que eu faço com isso. Mas acabou que eu não falei, não conversei com ele, não. Até que você vê.

Eu já estava intrigada há um tempo com essa história dos espiões russos aqui no Brasil, criando laços, enfim. Eu queria muito ouvir gente que tinha convivido com eles. Eu tinha tentado outros caminhos, com outras ex-namoradas de outros espiões até. Até que a Paula Scarpini me sugeriu procurar o Rodrigo. E ele, gentilmente, me passou o contato da Stephanie. Que agora sim, estava se sentindo pronta para falar.

As reportagens que saíram antes, não tinha as pessoas comuns que estavam sendo afetadas e conviveram. E acho que aí o jornalismo ganha força. Porque se você fala com as pessoas comuns que tiveram aí do lado, aí você entende muito melhor, entendeu? E aí você entende a pessoa, aí você descobre que o cara estava almoçando com o embaixador, entendeu? Ok. Sobre o tal embaixador americano. Claro que a gente não podia deixar de checar essa história.

E não, o embaixador dos Estados Unidos não jogava golfe com um espião russo e frequentava churrasco na casa dele. Sim, tinha esse americano, que a Stephanie tinha entendido que era embaixador. Que inclusive ele me procurou depois que o Eric sumiu, só que como eu não sabia do que se tratava, eu não respondi. Porque eu fiquei com muito medo, tipo, depois de tudo, né? Ela me mandou uma foto desse cara, tirada no tal churrasco.

E a gente acabou encontrando ele com a ajuda de umas ferramentas de inteligência artificial. E ele não é diplomata. Ele é um funcionário do governo americano que estava trabalhando no Brasil na época.

A gente descolou o telefone dele e ele pareceu genuinamente chocado de descobrir, pela gente, que o amigo que ele tinha feito jogando golfe em Brasília, o único com quem ele conseguia conversar em inglês, e que depois disso tinha sumido do nada, que ele era um espião russo. Ele gritou, Get out of here, no way! E aí disse que aí mesmo que ele não ia topar gravar entrevista nenhuma.

Mas ele foi simpático. Disse que ele não lembrava do Eric ter perguntado nada sobre o trabalho dele nunca. Mas que ele tinha comprado uma joia da Esfel pra mulher dele. Gente, se vocês ouvissem, vocês nunca diriam que ele era russo. Porque quando a gente fala de russo, você imagina uma pessoa branca, muito branca, alta, olhos claros, loiro. Não, ele não era. A Stephanie disse que ela se esforçou muito pra enterrar esse episódio da vida dela.

Acho que não tem jeito. Até mesmo o meu Google Fotos não deixa esquecer também. É que a gente viveu quase cinco anos, né?

É muito tempo, então. E, querendo ou não, ainda está recente. Eu descobri que ele era espião no ano passado. Quando veio essa coisa de descobrir quem ele era, aí ficou mais pesado, porque vem todo um questionamento. Uma parte dessas questões são curiosidades sobre o Eric. Ou Alexander. Tipo, será que ele tem uma família?

Mas ele sempre agia como uma pessoa que nunca teve afeto. Tipo, de mãe. Às vezes eu fico até me perguntando, será que ele foi criado num laboratório? Claro que não, mas sei lá, às vezes as pessoas podem se tornar assim, né? Esse tipo robô. Não conseguir ter empatia, amor por ninguém, sei lá.

Tem hora que ela acha que ele é esse robô feito em laboratório para enganar. Tem hora que ela acha que ele estava tentando preparar ela para essa despedida. Ele sempre apontava que o mundo era cruel, que devia não se apegar às pessoas, que não sei o quê. E aí, conforme o tempo foi passando, foi...

Chegando, eu acho que, o momento, né, dele ir embora, que eu não sabia, ele falava sempre que as pessoas iam, e que às vezes a gente tinha que ser dura. Tipo assim, não só seguir em frente, sabe? Tem hora que a Stephanie acha que o problema era ela.

que ela era ingênua demais. Ele me viu como uma pessoa frágil, pobre, que não ia questionar ele. Se ele pegasse uma mulher estudada, uma mulher rica, ela ia questionar, cadê sua família? Não, mas essa história, mas seu sotaque não é de francês, sabe?

Algumas amigas ficam tentando levantar a moral dela. Tipo, tentar ver o lado bom dessa experiência. Você viveu assim, você foi pra Dubai, você foi pra África, você viveu uma vida. Mas e o sentimento, né? Já ouvi pessoas falando assim, ah, eu queria tanto ter passado. Porque você não queria. Porque, gente, é uma dor.

Ai, mas você viajou. Gente, isso daí eu poderia ter pego meu cartão de crédito, parcelado em 500 vezes e viajado. Sabe? São coisas que não valem a sua dor, não valem o seu psicológico. Entendeu? Não é algo assim, ai... Pra romantizar, eu acho. Eu acho que não é.

Por exemplo, ele como o Eric Falchelli poderia ter me matado, matado minha filha. E ninguém nunca ia fazer nada. Ele poderia ter sumido. Qualquer coisa, sabe? Aprendi bastante coisa com ele. Mas também ele me mostrou esse lado sombrio da vida. Que é não confiar nas pessoas. Não consigo mais confiar. Não consigo mais me entregar. Não consigo... Sei lá. Você teve outros namorados depois dele? Não.

Nem consigo, eu acho. Pela dificuldade de confiar. Exatamente. Muita coisa hoje em dia me trava por conta disso, assim, sabe? Acho que até mesmo na minha vida profissional, porque eu tenho dúvidas, né? Será que eu sou essa mulher capacitada mesmo? Tantos tropeços, sabe?

Ou eu só sirvo pra ser usada. São questões, assim, tipo... Bem ruins. Que eu acho que vai ser difícil, assim. Só com muita terapia mesmo pra... Superar. É bem pesado.

O monstro do armário não escolhe o quarto Entrar na madrugada sem ser convidado Destrói o seu retrato, a sua inocência O monstro do armário tem diversas aparências Diversas aparências Quando eu estava me preparando para entrevistar a Stephanie, eu acabei esbarrando nessa música.

A letra é minha. O nome da música é Monstro do Armário e fala justamente sobre abusos. Eu perguntei pra ela se ela tinha composto a letra pensando no Eric. Não, eu comprei essa música antes do relacionamento, só que eu nunca tinha colocado assim, aí depois quando...

acabou e tudo mais, eu falei assim, vou ver aqui se dá certo, de lançar uma musiquinha. Eu fiz também pra mim, sabe? Tipo, queria colocar pra fora. Mas encaixou perfeitamente. Mas antes disso também, gente, eu já sofri outros tipos de abusos, infelizmente. Mas esse assunto eu já superei.

Aí eu fico pensando assim, né? Agora que você comentou da música. Tipo, como tudo faz sentido, né? Tipo, eu não quero que minha filha carregue esse peso. Eu quero que ela siga os sonhos dela. Tipo, eu consegui. Minha filha vai fazer 18 anos. Graças a Deus, eu não tive nenhum relato. Eu consegui trazer ela até aqui. Sem ter sofrido nenhum tipo de abuso.

Então, é isso que eu, tipo assim, quero que a gente mude. Vamos mudar, vamos falar, vamos orientar, sabe? Porque senão vira um ciclo. São muitos monstros. É, gente, é isso. Essa é a minha história.

Eu acho que vai ser algo que um dia eu vou falar aqui. Vou falar com vocês ou com qualquer outra pessoa, assim, normal. Sorrindo, fazendo piada. Mas hoje em dia, eu achei que hoje eu ia chegar aqui. Eu ia conversar sobre isso normal. Não ia cair uma gota d'água, mas... Lembrando, assim, tudo é difícil. Legal vocês terem me escutado também e...

Colocado, né? Essa história. Porque eu acho que vale a pena a gente alertar, sim. Outras mulheres. Esse é meu intuito também. E também é bom pra mim também. Colocar pra fora, sabe? Eu acho que me fez super bem. Vou sair daqui mais leve.

Essa história foi produzida pela Clara Becker e por mim, Paulo Scarpino. Obrigada por ouvir mais esse A Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. E tá aqui um trecho do que vem por aí na semana que vem. Então eu assisti o jogo. Pelado. Entre vários policiais que estavam ali, teoricamente, fazendo interrogatório, mas estão vendo o jogo. Uh!

Quem é membro do clube da Novelo consegue ouvir o Apresenta um dia antes e sem anúncios. Para se juntar a gente e ganhar esses e outros benefícios, inclusive uma bolsa linda da Novelo, é só ir lá no nosso site. A gente volta daqui a pouquinho. Oi, aqui é a Sueli Carneiro. E aqui a Neca Setúbal.

No episódio dessa semana do Escute as Mais Velhas, a gente conversa com uma figura que acredita na força popular para a transformação social. A solução, no meu ponto de vista, é pressão através dos movimentos sociais.

a socióloga e educadora Eva Blay. Eu acho que hoje é movimento social. Não tem outro jeito. Ministério não resolve, criar mais conselhos não resolve. Agora, a pressão popular, a pressão no dia a dia, nas escolas, nos clubes, nos partidos, no jogo de futebol, em todos os lugares, funciona. Isso funciona.

Nessa conversa, a Eva contou para a gente sobre a experiência pioneira no estudo de gênero dentro da USP, além de sua atuação no Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo nos anos 1980. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tid Setúbal, produzido pelo Estúdio Novelo e já está disponível em todos os tocadores.

com episódios novos toda terça-feira. Siga o podcast para não perder.

No post desse episódio no nosso site, tem o link para as reportagens sobre os espiões russos, a do New York Times e as de outros veículos brasileiros, e também o clipe da música da Stephanie, o Monstro do Armário. Eu tenho um recado para quem ainda não segue o canal da Rádio Novelo no YouTube.

Além de ouvir todos os episódios do Rádio Novelo Apresenta por Lá, você também pode assistir a lives com a nossa equipe sobre temas ligados às histórias que a gente conta. E tudo fica gravado para você acompanhar depois, para quem não consegue entrar na hora. É só procurar por Rádio Novelo no YouTube e se inscrever para não perder nenhum conteúdo.

Pra quem é de redes sociais, a gente tá no arroba radionovelo, no Instagram, no Twitter, no Threads, no Plusky, no TikTok. E pra quem é de e-mail, dá pra mandar críticas, elogios, etc. Pro e-mail apresenta arroba radionovelo.com.br A gente também recebe sugestões de histórias por lá.

Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar o seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em comercial.radionovelo.com.br O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo.

a direção criativa da Paula Scarpin e minha, Flora Thompson Devoe. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager. Nossos repórteres e roteiristas são o Vitor Hugo Brandalize, a Carolina Moraes, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubiro, o Vinícius Luiz e o Paulo Vitor Ribeiro. A Mayra Valejo é a nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é a nossa produtora.

A chicagem desse episódio foi feita pela Eto Rudnitschke. Esse episódio teve montagem e desenho de som da Paula Scarpin. A mixagem é do Gabriel Pimentel. A gente usou o músico original do Kiko Dinucci e da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento.

Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes, Ellen Pimentel, a nossa analista administrativa e financeira, a Tainá Nogueira, e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até semana que vem. Obrigada e semana que vem a Branca está de volta aqui.

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