Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Mães e madres

14 de maio de 20261h2min
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Em maio de 2006, centenas de civis foram assassinados no estado de São Paulo. Foi uma chacina que durou duas semanas e superou os números oficiais das mortes causadas pela ditadura militar – mas é muito provável que você nem saiba que ela aconteceu.

Uma das vítimas foi Edson Rogério Silva dos Santos. Quando a mãe dele começou a mobilizar outras mães e parentes de vítimas, ela ouviu logo falar nas Madres de la Plaza de Mayo, as argentinas que caminharam durante anos em busca de justiça pelos filhos. Mas as mães e as madres de maio têm mais em comum do que a luta. E contar essa história significa falar daquilo que nem sempre tem explicação. Por Paulo Victor Ribeiro.

Este episódio foi produzido com o apoio da Conectas Direitos Humanos, organização não governamental que atua para efetivar os direitos humanos na vida de todas as pessoas. A Conectas propõe soluções, impede retrocessos e denuncia violações para contribuir para uma sociedade mais justa, livre e democrática. Saiba mais em conectas.org

A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://shre.ink/apresenta179

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Palavras-chave: direitos humanos; violência de Estado; mães de maio; crimes de maio; madres de la plaza de mayo; ditadura militar; fantasmas; assombrações

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Assuntos8
  • Violência FiccáriaChacina de maio de 2006 em São Paulo · Crimes de Maio · Violência policial · Letalidade policial · Sistema prisional · PCC · Ditadura militar argentina · Madres de la Plaza de Mayo · Mães de Maio (Brasil)
  • Movimento Mães de MaioMobilização de mães e parentes de vítimas · Busca por justiça e responsabilização do Estado · Conexão com as Madres de la Plaza de Mayo · Movimento Mães de Maio do Nordeste e Minas Gerais · Resquícios da ditadura militar
  • Contratação de Cuca SantosMorte durante a chacina de maio de 2006 · Filho de Débora Maria da Silva · Trabalho na reforma de casa · Abordagem e morte por policiais militares · Cinco tiros recebidos · Luta da mãe pela exumação e prova
  • Biografia de Elza SoaresMorte durante a chacina de maio de 2006 · Filho de Ilza Maria de Jesus Soares · Estudante · Morto a tiros · Sonhos com o filho correndo em campos
  • Experiências sobrenaturais pessoaisAparições de fantasmas de vítimas · Hospitalidade com a morte · Vitalidade dos mortos · Relatos de contato com entes queridos falecidos · Relaboração do lugar do morto na vida da mãe · Marcos de bala e ruínas como memória · Fantasmas de la Dictadura (livro)
  • Santos e BragantinoMorte durante a chacina de maio de 2006 · Filho de Maria Sônia Lins · Trabalho como pizzaiolo · Levou um tiro no abdômen · Aparição para a mãe e enteado
  • A história de Maru e o Castelinho AssombradoDitadura militar argentina · Morte de militantes políticos em Córdoba · Reforma do castelinho e permanência dos fantasmas · Hospitalidade com a morte
  • Memória e NarrativasEstudo etnográfico sobre violência e ditadura · Pesquisa sobre repressão e memória · Análise de relatos de aparições e experiências
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Rádio. Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novelo Apresenta. Eu não sou a Branca Viana. Eu sou a Flora Tonso de Vô. E eu também não sou a Branca Viana. Eu sou a Paula Scarpin. A gente é diretora aqui do Apresenta. E a gente tá aqui porque a Branca Viana também é gente. E ela tá tirando umas férias. Hoje a gente queria começar te contando a história da Maru.

O nome completo dela é Maria Eugenia Canata. Eu li a história dela num livro argentino, um estudo etnográfico. É um estudo que tem a ver com a ditadura argentina, então ele fala de violência. Esse episódio todo vai tratar de violência, aliás, então já ficou o aviso. Bom, em março de 1977, a Maru tinha 21 anos. Ela morava com os pais e com os dois irmãos na casa da família em Bija Cabreira, um bairro da cidade de Córdoba.

Do lado da casa deles tinha um imóvel que era tipo um castelinho, e a família da Maru era dona dele também. Naquela época, eles estavam alugando esse castelinho para um grupo de jovens, tipo uma república. O pátio entre as duas casas era compartilhado. O pessoal fazia festa, jogava futebol lá fora. Um dos inquilinos dava aula de karatê para o pai e para os irmãos da Maru.

No dia 9 de março daquele ano, Amaru era a única pessoa que estava fora de casa quando militares armados com metralhadoras e bazucas invadiram o castelinho. Eles bombardearam o lugar e mataram seis militantes políticos que estavam se abrigando ali. Cinco deles morreram dentro de um banheiro do térreo da casa, onde eles estavam tentando se esconder.

O professor de Karatê foi morto pelas costas no pátio central. E depois da matança, os corpos das vítimas foram todos enfileirados lá. A família da Maru continuou morando na casa deles, mas o castelinho passou a ser controlado pelos militares. Uns soldados ficaram aquartelados ali e, pouco a pouco, eles iam depenando o lugar. Eles levaram dinheiro, levaram quadros, levaram móveis.

levaram até a fiação. Eles só não conseguiram levar a banheira, onde os militantes foram mortos, porque o teto do banheiro ameaçou cair. Os militares só foram embora no final da ditadura. Deixaram uma ruína para trás. Naquele ano, do fim da ditadura argentina, 1986, Amaru e o marido dela resolveram reformar o castelinho e morar lá com os dois filhos pequenos deles.

Eles demoliram uma parte do prédio e reconstruíram outra. Algumas marcas de bala, que estavam nas paredes desde a matança, ficaram lá. No lugar daquele banheiro, eles não construíram nada. Amaru queria que aquele espaço não tivesse paredes, que recebesse toda a luz possível. Eles voltaram a fazer jantares e encontros naquele pátio.

Desde pequeno, um dos filhos da Maru tinha dificuldade para dormir no quarto dele naquela casa. Ele sentia que tinha gente observando ele. Ele via vultos, ouvia uns barulhos esquisitos. Ele não queria apagar as luzes de noite. Ele era o mais sensível da família. Mas todo mundo dizia que percebia a presença deles. Daqueles seis.

E do mesmo jeito que ela tinha decidido deixar as marcas de bala na parede, a Maru aceitava os fantasmas. Porque afinal eles eram fantasmas de amigos dela. Não tinha sido ela quem tinha matado eles, ou mandado matar. A Maru não mandou benzer a casa, não tentou expulsar os fantasmas, nem quis se mudar de lá. Eles apareciam por ali sempre no fim da tarde ou à noite.

Às vezes era um barulhinho, às vezes era um arrepio. E nessas horas, Amaru falava com eles. A antropóloga para quem Amaru contou essa história chama isso de hospitalidade com a morte. A história que você vai ouvir aqui hoje se passa longe de Córdoba, longe da Argentina, longe dos anos 70.

Aliás, como o episódio da semana passada, ela se passa em Santos. Foi pura coincidência isso. O Rádio Nouvellapresenta tem dessas coisas. E tem outra coincidência que vai ligar a história da Maru com a história desse episódio. Daqui a pouco, depois de um intervalinho, quem conta é o Paulo Vitor Ribeiro.

Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia. Tchau.

Mais de 100 bilhões de reais. É o que os estados brasileiros investiram em 2024 com as polícias e sistema prisional. Mas a sensação de segurança não aumenta na proporção dos gastos. Na última década, a letalidade policial quase triplicou.

Essa engrenagem tem cor e endereço. Em 2025, mais de 6 mil pessoas foram mortas em ações policiais. 80% delas eram negras. É uma estrutura onde o cidadão mais pobre é tratado como inimigo e o território como campo de batalha.

A violência de Estado não reduz o crime. Ela o alimenta. Prisões superlotadas por crimes de baixo potencial ofensivo viram escritórios de recrutamento para o crime organizado. Onde deveria haver inteligência e investigação ganha força o ciclo da violação. Mas o custo humano não cabe numa cifra de milhões de reais. Ele está nas famílias interrompidas e nas periferias que vivem diariamente sob o medo. Existe outro caminho.

Um modelo baseado em prevenção, legitimidade e no fim da militarização do cotidiano. O Fundo Brasil de Direitos Humanos apoia organizações e movimentos que estão construindo essa nova segurança. Uma segurança que não reproduza o racismo, que seja democrática, eficiente e, acima de tudo, humana. Mudar a lógica dessa engrenagem, que fomenta a violência, é urgente.

Conheça o nosso trabalho e faça parte dessa rede. Acesse fundobrasil.org.br Você está ligado quando o PCC parou São Paulo?

Tá, talvez essa pergunta só faça sentido se você for paulista. Ou depende da sua idade também, porque foi em 2006. Mas sei lá também, porque foi um acontecimento importante. Tem música sobre isso, artigo científico, documentário. No meio da tarde de segunda-feira, a maior cidade da América do Sul para.

Isso aqui é um trechinho do documentário São Paulo sob ataque, produzido pelo Discovery Channel. Tem um filme ficcionalizando também, o Salve Geral, que é como esse evento ficou conhecido. O Salve Geral foi quando o Estado parou, porque centenas de membros do PCC, entre eles líderes importantes, foram transferidos para um presídio longe da capital. E isso às vésperas do Dia das Mães, que é uma data muito importante no sistema prisional. E aí... E aí

Três dias de terror. O PCC assassinou 46 policiais e agentes penitenciários. 78 pessoas ficaram feridas. 82 ônibus foram queimados em 280 ataques. Eu tinha só seis anos quando isso aconteceu. Mas eu tenho uma lembrança forte daqueles dias. Eu lembro de não ir pra escola, o que era bem raro. Não tinha muita desculpa com a minha mãe.

Ela mesma foi trabalhar, mas eu lembro dela chegando do trabalho mais cedo, ainda de dia. Isso também era bem raro. A memória que eu tenho é que nem um filme na minha cabeça. De estar esperando minha mãe no topo da escada e ver ela chegando do trabalho, assustada. Meu irmão, que é 10 anos mais velho e trabalhava no McDonald's, também foi mandado pra casa cedo.

Tava todo mundo com medo do que podia acontecer. Do PCC tocando terror na cidade, claro. Mas também do que a polícia podia fazer em retaliação. E como isso podia gerar mais retaliação. Enfim. Mas a minha memória desses dias para por aí. Nesse dia sem escola, vendo minha mãe chegar assustada em casa. E essa memória tava meio intocada até pouco tempo atrás.

Aí ele pegou e falou assim, ai mãe, ó, tô escutando o zuzuzum que, olha, tá morrendo polícia. Falei, como? Aí ele falou assim, ai, tô escutando uma conversa assim. Essa é a Débora Maria da Silva. Naquele maio de 2006, ela tava morando na periferia de Santos. Era o domingo de dia das mães.

Já fazia dois dias que os ataques do PCC estavam pipocando pelo Estado. Eles já tinham matado dezenas de policiais, de agentes penitenciários, de bombeiros. Isso foi no dia 14. Liguei a televisão e começamos a ver aquilo. Aqueles enterros de bombeiro, polícia, tendo uma noção. Aquela noção eu vi assim, sabe aquele apavoramento? Aí ele olhou assim e falou assim pra mim.

E a senhora vai ficar olhando essa desgraça, mas... Ele é o filho da Débora, o Edson Rogério Silva dos Santos. Mas ele tava chorando, porque a mãe do bombeiro que tava sendo enterrado, tava gritando muito e aquele toque da corneta, com o corpo em transo, no túmulo, que ele mexeu muito com nós três, eu, a irmã mais nova e ele.

a gente tinha acabado de comprar uma casa, casa no morro, pra ele e pra nós. A gente pagava aluguel, mas a casa era horrível, tinha que dar uma reforma, mas o terreno era bacana pra gente construir e sair do aluguel. E ele tava lá, porque ele tava começando a reformar.

O Rogério tinha tirado os dentes do siso naquela semana. Tava cheio de ponto na boca. Mas sabe como é que é? Dia das mães, churrasco. Ele não resistiu. Os pontos estouraram. A Débora queria que ele passasse a noite ali na casa dela. Pra ela cuidar. Ah, mãe, vou embora que eu vou trabalhar amanhã. Que era dia 15.

Eu falei, Rogério, tu vai trabalhar? Ele falou, vou, mãe. Eu não entreguei o atestado. Eu falei, Rogério, tu tá trabalhando desse jeito, escondendo de mim. Ah, mãe, então eu tava com medo de perder o emprego. Ela sacou que ele ia de qualquer jeito. Então ela fez o que tava no poder dela. Passou um sermão. Até porque, depois daquelas notícias na TV, o medo não era só de inflamar o siso. E eu olhei assim e falei, menino...

Tu não vai sair de casa. Tu fica dentro de casa. Tu não sai, Rogério. Tu não sai, Rogério. Repeti várias vezes. Falei pra ele assim, ó. Olha, se acontecer alguma coisa contigo, você sabe que eu não vou ter mais paz. Então fica dentro de casa.

Ele, não mãe, não, eu vou ficar dentro de casa. Eu só vou embora porque se eu acordar amanhã quente, corpo quente, pegar o vento da moto, ainda vai ficar pior. Eu vou pra casa que ele trabalhava no morro. E foi. Me pediu um beijo e foi embora. No dia seguinte, segunda-feira, o telefone da Débora tocou. Era um PM amigo da família.

Ele estava ligando porque algumas pessoas tinham sido mortas numa favela ali perto de onde ela morava. Aquilo me deu um choque anafilático tão grande assim que eu pensei que eu ia infartar. E comecei a conversar com os meus vizinhos, com as minhas amigas. A Débora era vendedora de lingerie. E ela era boa de papo. Então ela conhecia muita gente. De conversa em conversa, ela foi tentando entender o que tinha rolado. O pessoal estava falando que homens encapuzados tinham chegado já tirando.

Na verdade, o PM tinha ligado por causa disso. Ele queria saber se estavam falando que ele estava envolvido nessa matança. A Débora estava conversando com os vizinhos quando chegou um time de reportagem de alguma emissora de TV. E veio um carro de reportagem falando assim, vai ter toque de recolher ao meio-dia. Oi? Eu olhava pro céu assim e eu via o águia da polícia. Águia é o apelido do helicóptero da Polícia Militar de São Paulo.

Era notícia na TV de policial sendo morto. Era encapuzada entrando na favela atirando. Era helicóptero da polícia no céu. Eu entrei em paranoia. A Débora voltou correndo pra casa, desnorteada. Minha filha chegou. Logo em seguida chegou meu marido. Os dois tinham sido dispensados do trabalho no meio do dia mesmo, por causa do toque de recolher. A cidade tava um caos. Gente botando fogo em ônibus. Aquele policial, amigo da Débora, ligou de novo.

Ele falou pra mim, avisa pras pessoas de bem ficar em casa. Quem estivesse na rua é inimigo da polícia. Na hora ela pensou no Rogério. Mas quando ela foi tentar ligar pra ele, ela viu que o telefone tinha parado de funcionar. Eu achava que a telefônica tinha cortado o telefone do vizinho e cortou o meu, enganado. Fiquei no meio da rua pra perguntar pras pessoas se o telefone deles tava funcionando.

A loucura. Liguei várias vezes pra telefônica e ela não me atendia. De que a pouco me atenderam falando, nós estamos em modo inoperante. Eu não consegui mais ligar pro meu filho. No caso, que problema com a telefônica. Já tava ficando tarde e a Débora não tinha nenhuma notícia do Rogério. Daí ela pediu pra filha tentar ligar pra ele de algum lugar. Ela falou, mãe, vai dormir que o Rogério não vai ficar na rua.

Nessa situação que tá. Eu falei, não filho, tenta falar com o Rogério. Não consigo ligar pra ele. Não consigo, não consigo. Aí, fiquei zanzando na casa, porque elas não deram mais confiança pra mim. O Rogério tinha trabalhado durante o dia. Quando ele largou o expediente, ele foi direto pra casa dele. E acabou pegando no sono. Algumas horas depois, ele acordou com dor de dente. Quando deu mais ou menos umas dez e pouca, ele chegou.

Ele chegou atrás do amoxilina. Era o antibiótico que ele tava tomando depois de ter tirado os sisos, que ele tinha esquecido lá. Eu comecei a xingar, falando o que ele queria no meio da rua, que tava uma situação assim difícil, e contei. Porque eu tentava ligar pra ele pra contar o que o PM falou. Que quem estivesse na rua era inimigo da polícia.

Eu falei, fica aqui, meu filho, fica aqui, meu filho, não vai, não volta. Fica aqui. Ele falou, amanhã eu vou embora rapidinho, vou trabalhar amanhã. Eu vou embora rapidinho. Ah, fala nisso, me dá 10 mangos aí pra mim. Aí eu pôr gasolina na moto que eu não saio, não sei nem se chega lá em casa. Eu dei o dinheiro, ainda xingando, falando que ele não era pra estar no meio da rua, que eu tava agoniada, que eu tava ruim. Por que que ele saiu? Por que que ele não atendia o telefone? Ele falando que tava dormindo, me bebê.

Foi quando ele deu um chão e foi embora. Mesmo assim, quando ele foi embora, eu não dormi. Eu fiquei zanzando na casa o tempo inteiro, meu marido xingando e eu andando pra lá e pra cá.

Na manhã seguinte, a Débora foi tentar seguir a rotina dela. Eu fui lá pro fundo de casa pra ir limpar a sujeira do cachorro. E comecei, depois me lembrei que ia começar o Rádio Polícia, que era um programa policial que eu sempre escutava. Era assim, reloginho. Oito horas da manhã eu tava enfiada no Rádio Polícia.

Eu liguei o rádio. Quando eu liguei o rádio, eu escutei o locutor falar assim, houve uma matança na nossa região, eu vou dar por regiões, mas vou dar a primeira, que é a nossa, que é Santos. Eu fiquei assim, nossa, matança? Nossa, o coração ficou meio doente.

Aí essa dor no coração, eu parei e fiquei escutando assim. Eu confiava nesse locutor, era um programa muito bacana, mas só tinha desgraça. Até meu pai me criticava, meu pai falava assim, um dia tu vai escutar uma notícia nesse programa que tu vai ver. Quando eu prestei atenção com a lista de mortos que estava no ML, o terceiro da lista era meu filho. Eu comecei a gritar.

Eu comecei a gritar, meu marido saiu ensaboado do banheiro. E eu falei, mataram meu filho. E aí ele falava, que nada, tem muito Rogério. Eu falei, mas igual Rogério, Edson Rogério não tem. Igual Rogério não tinha. Eu era feliz com o meu mala, porque ele era um amante. Ele era um mala, ele era um amigo.

E ele era meu marido. Ele se sentia dono da mãe, né? O Rogério fazia pipa, que a molecada do bairro fazia fila pra comprar. Ele era louco por chocolate. Ele não gostava de eu, ele dizia que vinha pouco chocolate. Ele gostava das barras. A Débora disse que ele era careta, o chatão do rolê. O Rogério não bebia, não fumava. Eu fumo, eu pedia pra ele comprar uma cigarra e ele falava, não vou, não adianta pedir.

Na noite do 15 de maio, quando Rogério estava voltando da casa da mãe para a casa dele, o combustível da moto acabou. Ele parou num posto. Mas o posto estava fechado, como quase tudo na cidade. Ele ligou para um amigo vir ajudar. Quando o amigo estava chegando, ele viu Rogério sendo abordado ali no posto, por policiais militares. Ele foi liberado e foi subir o morro com a moto do amigo para buscar gasolina.

Às 11h30, com a rua vazia, ele foi parado de novo. Encostou a moto de um amigo num muro. Foi assim que ela foi encontrada. O Rogério levou um tiro em cada nádega, um tiro em cada pulmão e um no coração.

Os vizinhos vieram me acudir. Meu marido chamou meu pai, minhas irmãs, que são enfermeiras e tudo, vieram. E eu ligando, eu desesperada, ligando para o morro, para o encarregado dele. Ninguém atendia. Liguei para os mercados, todo mundo conhecia ele. Todo mundo não queria falar, mas todo mundo sabia que a polícia tinha matado meu filho. Minha irmã foi com meu marido e minha filha no ML e meu pai.

Eles chegaram, me apoiaram, me deram um monte de... Me doparam. Foi onde minha filha reconheceu que era meu filho. Ele foi para o ML reconhecido quem ele era, porque entregaram no ponto de socorro para minha filha um saco plástico branco com capacete, o olerite do mês, que eu fazia ele andar com o olerite do mês.

No começo, eles começaram a enterrar as pessoas em valas comuns. Eu consegui enterrar meu filho graças ao presidente do Conselho Regional de Medicina, o CamResp, o saudoso doutor Henrique Gonçalves, que ele vai no DHPP e ele viu pilhas e pilhas de corpos de 10. Ele disse que pior do que uma guerra do Iraque. Não ia ter velório. Eu falei, vai ter velório.

Já bati o pé e falou, vai, tem velório. Ele tem família. Ah, não pode fazer, e bim, bim, bim. Falei, vai fazer. E foi feito. O Rogério foi velado e enterrado vestindo uma camisa do Santos, seu time do coração. Tiraram quatro balas do corpo dele. Ali parou minha vida. Ali parou a vida da nossa família. Depois do enterro do Rogério, a Débora largou mão da própria vida. Eu caí na cama do hospital.

uma impotência muito grande, horrorosa, sem comer. Eu não tinha mais corpo, eu não sentia mais meu corpo. Cinco dias meu filho apareceu pra mim, me arrancando da cama. A Débora disse que ela lembra de estar na cama do hospital e de ver que o Rogério tinha vindo visitar ela. Só que ele tava bravo. Eu não acreditei, ele com uma cara feia, ele não era de cara feia, ele tinha um sorriso.

Não era aquele menino mais negro. Ele estava pálido, de raiva. Muita raiva. Muita raiva. Ele me pegou assim com a força pelos braços, me sentou. Ele estava com muito ódio. Ele falava, eu não quero a senhora aqui.

O tempo inteiro ele falava, eu não quero a senhora aqui. Eu não quero a senhora aqui. A senhora é minha guerreira, a senhora é minha mãe. Luta, eu não volto mais. Ele falou três vezes, eu não volto mais. A senhora tem que lutar. Levanta daí. Luta para os meus irmãos.

Eu estava com medo de voltar a deitar e ver ele com aquela raiva. Já estava escurecendo e eu com medo de deitar, cheia de soro. E com medo de ver a miragem. Eu achava que era a miragem. Eu achava que eram os remédios muito fortes que eu estava tomando para me ter essa visão. Depois de algum tempo, a Débora conseguiu voltar a dormir. Quando eu acordei no dia seguinte que eu fui tomar banho...

Na hora que eu passei o sabonete nesse braço, eu me lembro que foi nesse braço, eu senti uma dor, bem fininha. Aí eu olhei, eu vi uma manchinha roxa aqui. Aí eu olhei pro outro, a manchinha roxa, aí vem a lembrança dele me puxar da cama. Porque eu levantei os braços, estavam os quatro dedos dele aqui. Incrível!

O dedo dele, assim, dessa forma. Os quatro dedos pra baixo e esse dedo aqui, só um, uma mancha roxa. Os dois braços estavam. A marca de quatro dedos nas partes internas dos braços e a marca dos dedões nas partes externas. Justamente a marca que ficaria se alguém te puxasse com força pelos braços. E aí começou, eu continuei vendo aquele filme que passou um dia antes.

E vi que aquele recado que ele tinha dado, aquela missão que ele tinha dado pra me tomar, lutar pelos irmãos continuarem vivos, que ele não voltava mais, era uma missão. Entre aquele domingo de Dia das Mães, dia 14 de maio de 2006, e o domingo seguinte, o do dia 21, pelo menos 505 civis foram assassinados no estado de São Paulo.

Esse número é tomado como oficial, mas pode estar subestimado. Organizações da sociedade civil apontam para mais de 600 mortes no período, mais de 50 delas na Baixada Santista. Tem tragédia que fica marcada para sempre no imaginário coletivo. Vigário Geral, por exemplo, Candelária, Carandiru, mais recentemente teve a Penha. Você pode não saber de cabeça o que aconteceu, mas você sabe que alguma coisa aconteceu.

Mas nem toda tragédia chega nesse lugar de memória coletiva. Eu lembrava do Salve Geral, mas eu não tinha ideia do que veio depois. Quando a gente começou a falar dessa história aqui na novelo, muita gente não tinha a menor ideia dessa chacina, do tamanho dela. Mas se tem alguma memória viva do que aconteceu, dá pra dizer que a Débora faz parte disso. Depois de ter sido arrancada da cama pelo filho, ela teve alta do hospital. E ela foi atrás da Ednalva Santos.

A Ednalva era mãe do Marcos Rebelo Filho, que tinha sido morto no Dia das Mães. A ideia da Débora era encontrar mais mães das vítimas dos ataques e lutar, que nem o Rogério tinha pedido. Aí eu peguei e falei pra ela, Nalva, vamos, eu conheço a justiça. Eu conhecia pessoas, né? Justiça eu nunca conheci. E vamos, vamos, vamos, vamos, e ela se determinou e falou, vamos.

A Débora e a Ednalva começaram a mapear os casos que estavam passando na TV, no rádio, que saíram no jornal, e elas foram atrás dos parentes desses jovens assassinados. Elas saíram recrutando principalmente mães dessas vítimas da Baixada Santista.

Eu sou Ilza Maria de Jesus Soares, mãe de Tiago Roberto Soares, assassinada no dia 14 de maio de 2006 por agentes do governo. Eu me chamo Maria Sônia Lins, sou a mãe do Wagner Lins dos Santos, morto pelo Estado no dia 15 de maio de 2006.

O Tiago tinha 19 anos. O Wagner tinha 22. Os dois moravam em Santos. O Tiago estudava. O Wagner trabalhava. Ambos foram mortos a tiros nos crimes de maio. Ele era um menino muito bom. Era uma pessoa que, sabe, eu vou te contar, eu falei assim, arrancaram meu coração com tudo, levaram com tudo, sabe? Eu fiquei sem nada.

Porque os meus filhos são bons. Mas não tinha toda essa bondade dele. Sabe? O outro tem carinho por mim. Mas não é esse carinho chameguento que ele tinha, entendeu? Quando eu saía, ele ficava. Limpava a casa, um carpete maravilhoso. Ele fazia batata frita e macarrão.

maravilhoso. Mas ele botava rap, pagode, samba, sabe, botava nos estrondas. Quando eu estava perto de chegar, ele desligava tudo. Ele tinha essa caridade, essa bondade. O sorriso dele era de lado a lado. Você nunca via ele triste. E quando ele aprontava, ele sorria.

Na noite daquele domingo de Dia das Mães, o Thiago foi encontrar uns amigos numa lanhouse. A Ilza tinha acabado de ouvir a voz dele falando com os amigos no portão de casa, e dali a pouco ela recebeu uma ligação.

O meu telefone toca. Nisso que eu vou pegar o telefone, é uma menina desesperada gritando, Tia, socorre, Tia. O Tia acabou de matar o Tiago. Aí eu comecei a gritar, gritar, gritar, e eu não tinha a tela para descer. Eu sentei e fiquei gritando, gritando, gritando.

e disseram que eram um tal de ninjas, que antigamente chamavam esses encapuzados de mortos. E só conseguiram ver que eram policiais por causa do túmulo das portas. Eles mataram, eles chegavam atirando para matar mesmo.

Era o mesmo relato que a Débora tinha ouvido um dia antes de perder o filho dela. Com a Sônia foi diferente. Naquele dia das mães, ela não conseguiu almoçar com o filho dela, o Wagner. E aí ele ligou pra mim e falou, Mãe, eu não vou poder almoçar com a senhora. Que a gente tinha combinado de almoçar junto no dia das mães. Porque como ele era pizzaolo, a pizzaria estava muito cheia nesse dia.

Ele falou assim, mãe, eu não consigo sair da pizzaria. Então, eu vou amanhã. Tudo bem amanhã? Eu falei, tudo bem. Aí eu peguei, eu falei, quer saber, eu vou fazer uma lasanha pra gente comer na segunda-feira. E eu fiz a lasanha, né? E eu fiz aquele almoço bem gostoso pra gente comer na segunda-feira. E ele foi almoçar na segunda-feira.

A Sônia trabalhava como cabeleireira e o Wagner queria aproveitar a visita para dar um tapa no visual. Ele chegou lá e falou assim, mãe, hoje eu quero tudo, eu quero cortar o cabelo, fazer as coisas. Ainda brincou, né? Quero depilar as pernas, não sei o que lá, não sei o que lá. E aí, quando deu uma e meia, ele falou assim, ah, eu vou embora, vou descansar aqui, eu vou na pizzaria. Aí a gente escuta aquele negócio, a minha filha liga, mãe, o mercado está fechando.

Quando deu cinco horas, cinco e meia, ele ligou pra mim e falou assim, mãe, eu tô aqui na frente da pizzaria, mas tá tudo fechado. Eu conversei com ele e falei, meu filho, pelo amor de Deus, vá pra casa, não saia de casa, tá tudo fechado, não vai trabalhar hoje, tá tudo fechado, descanse, vá pra casa. Aí ele ainda brincou, né? Ele falou assim, dona Maria, eu vou pra casa, eu garanto que eu não vou sair pra lugar nenhum. Eu falei, não saia, tá bom. Mas ele saiu.

Mas aí à noite, eu não sei quem chamou quem, né? Se foi o meu sobrinho que chamou ele ou vice-versa. E ele foi jantar na casa da minha filha. Depois ele saiu de novo. De novo com o primo. Pra ir pra casa jogar videogame. Naquele dia, a gente já ia deitar. Ia dar 10 horas. E tocou o telefone.

E aí, como a gente não tinha esse telefone móvel, né? Era só o fixo. Meu marido levantou e foi atender. Nisso que ele foi atender o telefone, eu tava deitada. Aí eu senti o negócio ali assim. Me puxou. Aí voltou. Aí daqui a pouco, de novo, aquela força.

Parecia meu espírito saindo do meu corpo, né? Eu falei, vixe, eu tô morrendo. Meu espírito tá saindo do meu corpo. Eu falei pra mim mesmo, só tinha eu no quarto. Aí o meu marido voltou e falou assim, ah, toma aí, é a sua cunhada. Ele se chateou, né? Porque ela ligando 10 horas da noite pra mim. Aí eu atendi, olha, né? Oi, Sônia, os meninos levaram o tiro. Falei, que esse menino? Ela falou, o Wagner e o Diego. Eu falei assim, o Wagner tá como?

Aí ela falou assim, então, o Diego está bem, levou o tiro na perna, passou de um lado para o outro. E o Wagner, ele levou um tiro no abdômen. Aí você imagina o quê? É o abdômen, então deve ter mexido com o fígado ou alguma coisa, o intestino, então vai ficar, né? Vai se recuperar, mas dentro da gente, mãe, a gente já sente. A pancada já vem antes de você ter a certeza.

A Sônia foi chorando o caminho todo para o hospital. E o meu marido, não, fica calma, vai, sabe? Eu ali chorando tudo, chorando mesmo. E ele, fica calma, chega lá, você vai ver, ele vai estar bem, a gente vai cuidar dele, não sei o que lá, tudo bem. Aí me chamaram para uma salinha, mandou eu sentar. Eu sentei. Quando ela deu a notícia, ela não fala assim, olha, morreu.

Ela fala assim, olha, dona Sônia, sabe, o Wagner chegou aqui, a gente fez tudo, não sei o quê, mas sabe. E vai dizendo. Olha, eu dei um grito, eu dei um grito tão forte que eu acordei o hospital todo. É uma agonia tão grande, você não tem noção. Eu andava, parece que você não anda no chão, você fica patinando, sabe? Você não sente o chão.

As pessoas se abraçam, você não sente o abraço, é muito esquisito, é muito esquisito. É uma dor tão forte, porque dói tanto, dói tanto, tanto, que você não tem como explicar essa dor. Assim como a Débora, nem a Ilsa, nem a Sônia tiveram forças para reconhecer os corpos dos filhos delas ali no hospital. E que nem aconteceu com a Débora, essa não ia ser a última vez que eles se veriam.

Na segunda parte do episódio, o Paulo Vitor Ribeiro continua contando essa história. A gente já volta. O dia já exige demais da gente. Nossa roupa não precisa exigir também. A ideia da Insider é levar tecnologia para aquilo que você veste no dia a dia. São peças que desamassam no corpo, facilitam a evaporação do suor e seguem confortáveis por horas, sem virar mais uma coisa para você administrar.

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A gente já vai voltar na história da Débora, da Ilse e da Sônia. Mas antes, eu queria falar um pouco da história da Mariana. Meu nome é Mariana Tejo Weiss. Eu sou antropóloga, vivo na Argentina. E sou, entre outras coisas, a filha de uma pessoa assassinada na ditadura. Quando a Mariana tinha nove meses de idade, a mãe dela foi assassinada pelo regime militar argentino.

Depois de adulta, quando ela já estava estudando antropologia, a Mariana voltou o foco dos estudos dela para a repressão e para a memória. E parte desse trabalho era entrevistar gente que estava na mesma condição que ela, a de parentes de vítimas da ditadura. E aí que, de tempos em tempos, tinha um elemento que acabava aparecendo nos relatos que ela colhia. Um elemento com o qual ela não sabia muito bem como lidar.

Aparições de fantasmas da ditadura. Fantasmas literais. Ficção, porque as pessoas não tinham provas das coisas que elas estavam contando para ela. Só que nem por isso essas experiências deixavam de ser reais.

Foi um trabalho muito grande encontrar um marco teórico, umas ferramentas analíticas que me permitieran analisar essas coisas. Em 2025, a Mariana publicou um livro chamado Fantasmas de la Dictadura. Foi dali que veio a história que abriu esse episódio, da Maru e do Castelinho Assombrado. A Mariana diz que as malas muertes, as mortes violentas, os corpos ocultos, elas tendem a produzir fantasmas.

A literatura está cheia desse tipo de exemplo. Uma injustiça sempre gera uma sorte de vitalidade em os mortos. Essa vitalidade dos mortos pode se manifestar de formas diferentes. Eles podem direcionar, acompanhar, cuidar dos familiares. Eles podem fazer pedidos ou ajudar nas buscas. E eles também podem ser assombrações assustadoras.

Logo depois que a mãe da Mariana morreu, as tias dela fizeram uma sessão de espiritismo. Ela dizia que estava num lugar escuro e pedia luz. A família não sabia muito bem como interpretar aquilo, mas eles não duvidaram do pedido dela. Eles acenderam velas e mandaram rezar uma missa pela alma dela.

Tem uma série de histórias como essa no livro da Mariana, de médiums que conseguem se conectar com desaparecidos e ajudam a guiar as buscas de familiares, de amigos e familiares que ficam sabendo da morte de parentes de maneira sobrenatural, de aparições de fantasmas de mortos e desaparecidos nos locais de repressão. Mas, por mais que essas histórias sejam comuns, entre aspas, não foi fácil chegar nelas.

Tudo o que é espiritismo, trato com os espíritos, isso não é algo que se conte muito abertamente. A Mariana diz que as pessoas hesitam antes de falar desse tipo de coisa porque é como se tivesse uma separação entre as práticas sérias, entre aspas, e relatos que talvez pudessem colocar em xeque a legitimidade das famílias das vítimas. O que se trata de evitar é ficar como alguém louco.

Não sei, estou, a aclaração é, eu não estou louco, mas me passam essas coisas. Porque ninguém quer parecer louco. Falei, eu não estou chapada, eu não estou louca. Mas se eu contar, ninguém acredita. Foi isso que a Débora pensou, depois que o Rogério apareceu para ela no hospital. Mas assim que ela começou a falar com outras mães de vítimas, ela foi ouvindo outras histórias parecidas com a dela.

Uma semana depois que ele faleceu, foi de manhã isso. Aí o meu portão é de madeira, baixinho de madeira, né? Aí o portão ficou assim, braca, braca, braca, braca, braca, braca, braca. Já viu, né? Pancada de coisa. Eu falei, nossa, vamos quebrar o portão. Essa, de novo, é a Sônia, mãe do Wagner.

Aí eu saí da cama, aí eu falei assim, nossa, eu não vi nada batendo o portão. Aí eu fui indo pro portão de ferro. Aí ele foi chegando, andando muito rápido. Andando, andando, andando. É o quê? Um metro e meio a calçada? Dois metros? E chegou no portão e ficou assim, ó. Abriu os dois braços. Aí eu vi ele com uma camisa azulada,

Um azul bem clarinho, de bermuda, porque eu vi as pernas. Mas assim, amarelo que não tinha um sanguinho. E em seguida, eu vi chegando uma luz. Eu sabia que era uma criança, mas eu não via criança. Eu via a luz. Uma luz bem grandona, assim.

uma luz linda do lado dele, mas eu sabia que era uma criança. Aí eu falei assim, menino, como você está amarelo. Aí quando eu olhei, eu falei, Wagner, eu disse, Wagner, eu levei um choque na ponta do pé até a cabeça, assim, bum. Aí onde eu estava com a cabeça no travesseiro, eu acordei sentada. Eu sentei, não sei como eu fiz aquilo. Nunca mais eu vou fazer isso, eu acredito. Mas um choque assim, zum.

Olha, eu acho que é tempo de você levar um choque assim no pé, em alguma tomada. É um choque tão forte. Aí eu acordei. Aí eu fiquei assim pensando, eu falei, eu tava sonhando. Eu tava vendo ele, eu vi ele. Aí eu fui lá no portão. Aí eu balancei assim o portão pra ver se chacoalhava mesmo, né? Nem tanto, né? Não faz aquele barulho todo. Mas o portão parecia que ia quebrar, bra-bra-bra-bra-bra.

Aí eu falei, eu não vi nada. E essa visão ficou comigo. Sabe? O Wagner também apareceu para outras pessoas. Na mesma semana da morte dele, o enteado do pai do Wagner, que tinha só 10 anos, viu o Wagner nadando na piscina da sua casa. Uma criança de 10 anos não vai inventar uma coisa dessa. E o bichinho assim me fechou todo. Fechou xixi da roupa.

Aí ele falou assim, ai, tia, foi a única vez que eu fiz xixi na roupa, viu? Mas é porque eu fiquei com muito medo. Falei, mas ele não fazia medo a ninguém, não. Ele só passou para dizer que estava feliz. Eu acredito que ele esteja bem feliz, porque ele foi uma pessoa, assim, de um coração muito bom. Então, acredito que todos eles, sabe, todos eles, devem estar todo mundo junto. E aí, o que é que eles fizeram? Juntaram as mães.

Eu vejo meu filho, as primeiras vezes que eu vi, eu nunca vejo ele triste, pelo contrário. A Ilza também contou sobre os sonhos que ela tem com o Tiago. Eu sempre correndo atrás dele, entendeu? E ele olhando pra mim, correndo em campos.

Eu não consigo a coisa. E eu quero tentar pra pegar ele. Pegar ele. Eu quero tocar, entendeu? E eu não consigo, entendeu? Eu não consigo. Mas eu fico feliz. Sempre ele correndo, sabe? E olhando pra trás e sorrindo. Por mais que ela não consiga encostar nele, ela não acorda com uma sensação de falta.

Ele está feliz, entendeu? Porque ele juntou tanta família, porque nós somos uma família. As mães continuamos como... Às vezes é mais do que o próprio sangue da gente. Eu acho que esse aspecto é inescapável para quem convive com as mães.

Há muitos relatos sobre isso, as mães comentam sobre isso com alguma frequência. Eu soube dessas histórias, da Ilza, da Débora e da Sônia, por causa do Matheus de Araújo Almeida. E assim como a Débora traz esse relato, todas as outras mães relatam situações semelhantes, em que, dormindo, acordada, pelo cheiro, por um objeto, pela roupa.

por um animal, enfim, as mães tiveram contato com os mortos. O Matheus é doutorando em antropologia pela USP. E desde 2019, ele está pesquisando o movimento dessas mães, as Mães de Maio. Lá em 2006, elas começaram a se mobilizar para buscar informações e tentar conseguir justiça pelas mortes dos filhos delas. Mas não demorou muito para esse movimento crescer. Na medida em que o Estado nunca para de promover essa política de morte,

Novos massacres foram realizados, novas mães perderam seus filhos, novas mulheres se tornaram mães de fritmas. Aos poucos, elas viraram uma referência. Surgiram as mães de Maio do Nordeste, de Minas Gerais. O Maio do nome deixou de significar o Mês das Mortes e começou a representar a organização de familiares que estão procurando a responsabilização do Estado pelos crimes cometidos.

Talvez você conheça a história das outras Mães de Mayo. E talvez, só de ter ouvido a Mariana agora há pouco aqui, você já tenha sacado o paralelo que eu estou desenhando. Numa tarde de abril, no meio da ditadura militar argentina, um grupo de mulheres se juntou na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, bem em frente ao Palácio do Governo. Os filhos delas tinham sido sequestrados, desaparecidos, mortos. E elas foram lá para pedir justiça, para pedir os filhos de volta.

A polícia falou que elas não podiam ficar paradas ali. Então elas começaram a caminhar, a dar a volta na praça. Toda quinta-feira, dali em diante, sempre às três e meia da tarde, elas estavam ali, dando a volta na praça, com panos brancos na cabeça. De quinta em quinta-feira, de caminhada em caminhada, as Madres de La Plaza de Maio viraram um símbolo internacional contra uma política de morte encampada pelo governo argentino.

Eu fiquei pensando muito nessa conexão entre as mães argentinas e as mães de Santos, e depois de todo o Brasil, unidas por esse mês, que ainda por cima é o mês das mães. E tem uma diferença crucial entre o movimento das nossas mães de maio e o das madres. É que os crimes que as argentinas denunciaram aconteceram na ditadura, num período de exceção, e as chacinas das mães de maio brasileiras aconteceram sobre o que a gente considera o Estado Democrático de Direito.

As Mães de Maio costumam dizer que os crimes de Maio são um resquício da ditadura militar. As outras operações policiais que impõem terror, as outras chacinas, também, claro. Que nas periferias, a repressão chegou bem antes do regime militar, e ela não acabou depois da redemocratização. Depois de 1985, aliás, o Estado brasileiro levou quase 30 anos para começar a assumir alguma responsabilidade pelas mortes provocadas pela ditadura. Para fazer algum aceno de justiça.

Era de se esperar que o Estado brasileiro levasse menos tempo para assumir a responsabilidade pelas mortes que ele cometeu em plena democracia, né? As mães de Maio estão lutando para isso. Elas começam a se posicionar dentro do movimento, não porque ainda há esperanças de que meu filho tenha, enfim, o seu caso reconhecido, a justiça obtida, e aí, a partir desse momento, eu saio do movimento. Não.

Muitas vezes os casos desses seus filhos já foram arquivados na justiça e ainda assim essas mães continuam presentes nesses movimentos. Elas fazem isso, eu diria, tanto porque as relações que elas constroem umas com as outras são relações vitais para a manutenção da sua vida.

Como também porque elas veem que o seu filho não é um caso isolado, mas um caso inserido dentro de um histórico maior de violências de Estado. Elas ganham essa dimensão política a partir do convívio com as outras mãos. O governo paulista nunca assumiu ter ordenado os ataques, ou sido conivente com eles. Na versão oficial da polícia, mais de 100 das vítimas daquela semana foram mortas por policiais em legítima defesa.

E outras tantas teriam sido mortas pelo tráfico, por dívida. 20 anos depois, a autoria da maioria das mortes continua em aberto. Com raríssimas exceções, os casos foram arquivados, a pedido do Ministério Público. Ao longo das investigações, o Estado se posicionava dizendo que não havia elementos para concluir a autoria dos crimes.

Mesmo com todas as provas coletadas e trazidas pelos familiares, nunca se chegava a uma conclusão, seja por parte dos inquéritos formados pelos policiais ou por parte do Ministério Público, que solicitava o arquivamento dos casos.

porque, bom, não há testemunhas, não há provas ou provas que não são consideradas a contento dentro das investigações. E a maior evidência, digamos assim, entre aspas, que é considerada nessas investigações é tão somente o relato do policial. Em raros casos, os policiais são indiciados, são levados a juros, são condenados.

Quando a gente tem uma injustiça desse tamanho, como é que isso não vai produzir fantasmas? A Débora passou muito tempo batendo ponto no túmulo do filho. Tanto pra estar junto com ele, quanto pra vigiar o lugar. Porque ela tinha medo de que o túmulo dele fosse violado. Eu vivi durante seis anos com... J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J J

a cabeça no túmulo do Rogério. Tinha vez que eu dormia até na frente do cemitério. Eu tinha falado que, antes do enterro do Rogério, quatro balas foram retiradas do corpo dele. Mas ele tinha levado cinco tiros. E a quinta bala tinha ficado ali, alojada na coluna dele. E depois de ter brigado pelo velório, a Débora passou anos lutando pela exumação do corpo do filho dela, porque ela queria aquela prova.

Depois de seis anos, o corpo do Rogério foi levado para análise no DHPP, o Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa da Polícia Civil de São Paulo. E cinco dias depois, a Débora foi chamada lá. Aí quando eu cheguei na porta do legista, ele me pegou pelo braço, assim. Aí ele falou pra mim assim, não sou catecista, eu acredito em Deus, mas os ossos dos seus filhos falaram comigo.

Ele me mostrou, no saco dos materiais, ele me mostrou onde estava o projétil. Só que ele gritava assim, os ossos gritavam o tempo inteiro. Veste minha roupa, veste minha roupa, não deixe minha mãe me ver assim. O tempo inteiro. Ele falava, os ossos falavam comigo. E aí ele falou, que roupa que eu vou vestir? Aí ele disse, procurou.

nos outros sacos que eles trouxeram de material do cemitério e foi achando as roupas. E aí era uma roupa do santo, estava até bege por causa do corpo que detenora, né? Mas a camiseta estava intacta. Ele pegou, lavou a camiseta, lavou a calça, lavou a meia e pegou, secou e estendeu na maca de aço e colocou o crânio dele.

A camisa, a calça e a meia. Os ossinhos pequenos, tudo dentro da meia. E o esqueleto dele montado do lado das roupas. Para mim, entrar para ver. Se fosse um trabalho de perícia e também de investigação judiciária, aquele projeto não está no corpo do meu filho. Que é uma peça fundamental de crime contra a vida, um projeto.

Agora, sem essa última bala, o corpo do Rogério voltou para Santos. A Débora e as filhas dela foram receber ele lá no cemitério. E o médico legista do DHPP foi também. Rezou um pai nosso e ele falou assim para mim, agora a senhora coloca ele no lugar porque ele está falando que passou a ter paz. Fazia seis anos que eu vivia dentro do corpo do meu filho depois de morto, por causa desse projeto que estava no corpo dele.

A gente comenta isso sem perder uma vírgula nem a meada da história, porque é real. Quando a Mariana estava escrevendo o livro dela, ela falou com um dos membros mais antigos da equipe argentina de antropologia forense, que é um grupo que se formou para investigar os restos mortais dos desaparecidos da ditadura lá. E ele não via nenhuma contradição entre a busca formal e as aparições sobrenaturais.

Ele falou pra ela que, quando você lida com os mortos, os fantasmas vêm no mesmo pacote. Em alguns casos que a Mariana estudou, as manifestações sobrenaturais desapareceram depois de alguma medida de justiça, ou de memória, ou depois de algum pedido dele ser atendido.

Foi assim com o pedido que a alma da mãe da Mariana fez para as tias dela. Foi assim também com um dos entrevistados dela, que recebia contatos dos pais e dos irmãos dele, também desaparecidos da ditadura argentina. Esses contatos pararam depois que ele cumpriu um pedido, escrever um livro com a história da família.

A Mariana também conta do prédio de Campo de La Ribeira, que foi um centro clandestino de detenção, utilizado pelos militares, e que ficou povoado de fantasmas que eram vistos, ouvidos e sentidos pela comunidade ao redor. Essa vitalidade toda diminuiu bastante quando o lugar foi transformado num espaço para memória, proteção e defesa dos direitos humanos. Uma das minhas interlocutoras dizia que no momento em que encontramos o corpo de minha mãe, sua voz se apagou.

Mas essas coisas raramente seguem uma lógica matemática.

A gente não sabe quando um fantasma pode decidir voltar. A injustiça nunca termina, nunca. Isso não termina nunca. Se não é essa injustiça, há outras. Ou seja, lamentávelmente, nossas sociedades são uma fábrica constante de espectros. Pode ser que os espectros dos mortos pelo Estado continuem aqui. Que eles continuem acompanhando essas mulheres.

Na psicanálise, muitas vezes se pensa como uma espécie de superação do morto, né? O trabalho do luto como essa fase intermediária em que o morto, ele é...

esquecido de uma certa maneira. Você tem que se desapegar do morto para levar a vida adiante. Isso não existe entre mães e vítimas. Ninguém desapega do morto, ninguém para de falar do morto, o morto não é superado, ela carrega o morto consigo pelo resto da sua existência. Então não se trata de um trabalho do luto como uma superação do morto, se trata de uma relaboração do lugar do morto na vida dessa mãe.

A violência vem e cria um buraco, um espaço, que para algumas pessoas acaba sendo ocupado por uma experiência sobrenatural. Não por fantasmas assustadores, mas pela convivência com aquelas pessoas queridas, de um jeito novo. Eu sinto, eu sinto mesmo de perto, é...

Meu filho, colocando palavras na minha boca, me ensina no caminho da luta, me ensina no caminho de uma reparação. Então, eu acredito de tudo isso que a gente vê que é real, que o Rogério, ele parte dessa terra, mas ele não parte totalmente. Ele é um espírito de luz.

Para mim não é subnatural, eu acho que todos os filhos que é morto, assim, cruelmente, ele acompanha a mãe. Essa história foi produzida pelo Paulo Vitor Ribeiro.

O episódio foi produzido com o apoio da Conectas Direitos Humanos, organização não governamental que atua para efetivar os direitos humanos na vida de todas as pessoas. A Conectas impede retrocessos e denuncia violações para produzir uma sociedade mais justa, livre e democrática. Saiba mais em conectas.org. Fica aqui um agradecimento especial ao Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo.

Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. E aqui tem um trecho do que vem por aí. E aí eu mandava mensagem por e-mail também. Nunca tive retorno. E aí eu falei assim, ah, quer saber? Também pode ser bom eu não saber. Mas eu ficava com esse questionamento. Será que um dia eu vou descobrir o que aconteceu? Quem será que ele era? Será que um dia ele me amou? Sabe, esses questionamentos.

Quem é membro do clube da Novelo consegue ouvir o Apresenta um dia antes e sem anúncios. Pra se juntar a gente e ganhar esse e outros benefícios, inclusive uma bolsa bonitona da Novelo, é só ir lá no nosso site. Inclusive, na semana que vem, vai ter um episódio bônus pros membros em que o Paulo Vitor conta pra gente algumas das muitas histórias que ficaram de fora desse episódio. E como essa apuração toda mexeu com o jeito que ele vê o mundo. A gente volta daqui a pouquinho.

Oi, aqui é a Neka Setúbal. E aqui é a Sueli Carneiro. No episódio desta semana do Escute as Mais Velhas, a gente conversa com uma das referências no estudo de relações raciais e do trabalho no Brasil. Nós nunca escrevemos nada que a gente não trouxesse as questões de classe.

A psicóloga social e escritora Cida Bento. As mulheres negras, brancas, a luta feminista sempre traz os dados, as diferenças de salário, de cargo, a segmentação. Mas parece que em algum momento o crescimento das nossas vozes fez com que tudo que não fosse apenas luta de classe fosse considerado identitário.

Nessa conversa, a Cida conta pra gente sobre os caminhos que a levaram ao conceito de um pacto narcísico da branquitude. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tite Setúbal, produzido pelo Estúdio Novembro. Disponível em todas as plataformas de áudio, com episódios novos, toda terça-feira. Siga o podcast para não perder.

No post desse episódio, no nosso site, a gente vai deixar uma foto do castelinho em ruínas, aquele da história da Maru, lá do começo, junto com um link para o livro sobre os fantasmas da ditadura argentina. Também tem o link da dissertação do Matheus Almeida sobre as mães de Maio, imagens das entrevistas com elas e um clipe muito bonito do Emicida, em que as mães participam.

E você sabia que dá para ouvir todos os episódios do Apresenta também no YouTube? Aliás, no canal da Rádio Novelo tem uma porção de conteúdos exclusivos. Por exemplo, a gente fez playlist no YouTube com várias histórias do Apresenta de até 30 minutos, para te acompanhar naquela atividade rápida, de meia horinha, do dia a dia. Segue a gente também por lá para não perder nenhum conteúdo. Para quem é de redes, a gente está no arroba Rádio Novelo, no Instagram, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok.

Para quem é de e-mail, dá para mandar críticas, elogios, etc. para o e-mail apresenta.radionovelo.com.br. A gente também recebe sugestões de história por lá. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em comercial.radionovelo.com.br.

O Rádio Novelo apresenta um original da Rádio Novelo. A direção criativa é minha e da Flora Thompson-Devô. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e do Juliana Yeager. Nossos repórteres e roteiristas são o Vitor Hugo Brandalize, a Carolina Moraes, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira, o Vinícius Luiz e o Paulo Vitor Ribeiro. A Mayra Valejo é nossa trainee de criação. A Ashley Calvo é nossa produtora.

A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudnitsky. Esse episódio teve montagem e desenho de som do Amon Medrado. A mixagem é da Mariana Leão e da Bia Guimarães.

A gente usou música original de Luna França e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira. E o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até semana que vem. Obrigada, gente.

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