Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Do tamanho da sua loucura

07 de maio de 202650min
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Ao longo de 40 anos de funcionamento, um hospital psiquiátrico em Santos se tornou exemplo do que não fazer em termos de saúde mental. A Casa de Saúde Anchieta ficou conhecida como “Casa dos Horrores", por causa das várias denúncias de maus tratos e violações de direitos dos pacientes. Até que passou por uma inédita intervenção da prefeitura, que nos anos 1990 tomou para si a responsabilidade por ela. E então o antigo hospital se abriu pra cidade – e, por meio de uma rádio feita pelos próprios pacientes, levou a história do prédio para muito além da Baixada Santista.

Anos depois, o antigo Anchieta voltou a ficar abandonado e virou uma ocupação, uma casa para dezenas de famílias – e o que era um símbolo do movimento antimanicomial no país se tornou um capítulo importante da luta por moradia.

Este episódio foi produzido com o apoio do Instituto Pólis, organização que atua para democratização do acesso à moradia digna no Brasil. Em parceria com o International Institute for Environment and Development (IIED) e a União dos Movimentos por Moradia, o Pólis busca, por meio deste episódio, fortalecer a Campanha Despejo Zero — mobilização nacional, que desde 2020, luta contra remoções forçadas no país e inspira iniciativas internacionais por justiça habitacional. Você pode saber mais acessando: polis.org.br e campanhadespejozero.org

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Palavras-chave: saúde mental; luta antimanicomial; moradia; despejo zero

Participantes neste episódio4
C

Carolina Moraes

Reporterjornalista
K

Kátia Costa Santos

Reporter
M

Mayra Vallejo

Reporterjornalista
P

Paulo Victor Ribeiro

Participantejornalista
Assuntos7
  • Casa de Saúde AnchietaHistória do hospital psiquiátrico em Santos · Denúncias de maus tratos e violações de direitos · Intervenção da prefeitura de Santos · Movimento antimanicomial no Brasil · Ocupação do prédio por famílias
  • Tecnologia de RádioCriação da rádio por pacientes do Anchieta · Programação e formato da rádio · Interação com ouvintes e figuras públicas · Legado da Rádio Tantan
  • Saúde mental e ansiedade no BrasilFim dos manicômios e tratamento em liberdade · Participação de pacientes, familiares e trabalhadores · Influência de experiências internacionais · Criação do SUS e condições para prosperar · Lei Federal 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica)
  • Problema de moradiaOcupação do antigo Anchieta por famílias · Campanha Despejo Zero · Justiça habitacional · Processo de usucapião do imóvel
  • Uso de AplicativosDesafios para mulheres entregadoras · Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike de Natal · Pontos de apoio para entregadores · Trabalhadores na informalidade
  • Mulheres na HistóriaSub-representação feminina na arquitetura · Cursos online da Escola MASP sobre arquitetas · Memória, cidade e direito à moradia
  • Participação política das mulheresFeminismo da transformação social · Debate sobre a política de cuidado · Direitos das mulheres
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Quando eu comecei, era muito difícil ter mulher nas entregas. A Natália Soares tem 27 anos e mora em Natal, no Rio Grande do Norte. E a Sete decidiu sair do trabalho CLT para ter mais liberdade de horários e começar uma faculdade. Então, valeu a pena no momento que eu tenho o meu horário.

Na minha vida pessoal, dá para se organizar. Mas não é fácil a rotina de quem trabalha com entregas em aplicativos, especialmente para quem é mulher. Porque tem muito estabelecimento que eles não liberam banheiro para a gente, para nós mulheres. Aí a gente vai no posto de gasolina. Só libera quando bota gasolina na moto. 95% dos trabalhadores do setor de logística e entrega são homens. Mas, ainda assim, o número de mulheres entregadoras e motoristas passa de 100 mil no Brasil.

Com o apoio do Labora, o Fundo de Apoio ao Trabalho Digno, Natália conseguiu organizar o grupo do qual faz parte e hoje é diretora da Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike de Natal. Graças a esse apoio, ela consegue levar a luta pela melhoria das condições de trabalho adiante.

Hoje, a principal demanda para as plataformas é por pontos de apoio para os entregadores em Natal. Um espaço com infraestrutura para higiene, alimentação e atendo os diferentes trabalhadores que atuam na economia informal. A última vez que a gente procurou, a resposta deles era que estavam mapeando onde tinha mais fluxo de entregadores para fazer. Só que foi há dois anos atrás.

Atualmente, 39 milhões de trabalhadores no país vivem na informalidade. O Labora é uma iniciativa do Fundo Brasil de Direitos Humanos e oferece apoio essencial à sobrevivência de movimentos e lutas por trabalho digno. Conheça o nosso trabalho em fundobrasil.org.br

Novelo. Alô, galera! Aqui é a Rádio Tantan, detonando teu baixo astral. Calma, você não clicou no podcast errado. Alô, Silvana! Um beijão pra você! Esse aqui é o Rádio Novelo Apresenta, e eu sou a Branca Viana. É, galera! Eu pirei geral! Já eu, não pirei geral. Pelo menos não que eu saiba.

Você que me esqueceu, mas eu não me esqueci de você. Um abraço para minha querida Letícia Ejuarez. O programa de hoje começa com esse clima de rádio ao vivo, com farta distribuição de abraços. O tabaco! Aquele abraço para você!

Sabe aqueles programas que você pode ligar e falar com o apresentador para participar ao vivo? E virava e mexia, tinha umas vozes conhecidas nessa rádio. A sociedade, que é o jovem, e o doente mental, que é sempre uma figura muito esquecida.

Tipo o Marco Nanini. Eu acabei de saber agora desse projeto de vocês, né? Através aqui da entrevista do Jô. O próprio Jô Soares participou. O componente da loucura é um componente que faz parte da criação. Quer dizer, todo artista tem um pouco dele. E também a Fernanda Montenegro. É muito duro lidar com o destempera total da loucura. Mas eu acho que, de uma certa forma, todos nós temos...

Dado de tempero. Eles estavam falando de saúde mental, de loucura, porque essa rádio, a Rádio Tantan, ela era feita por uma equipe de pacientes de um manicômio em Santos. A Casa de Saúde Mental Anchieta. A Anchieta já foi conhecida como a Casa dos Horrores, de tanta denúncia de maus tratos e de violações dos direitos dos pacientes.

O manicômio ficava numa região central de Santos e muita gente preferia dar uma volta maior até que passar ali na frente. E aí, um dia, essa casa começou a abrir as portas para a cidade. E a história dela, por meio da rádio, foi para muito além de Santos. Quem conta como é que isso aconteceu e no que virou isso tudo é um outro filho ilustre da Baixada Santista, o Evandro Cruz Silva.

Já, já, depois desse intervalo curtinho. O primeiro programa da Rádio Tantã foi ao ar em novembro de 1990, pela Rádio Universal de Santos. Rádio Universal, não é da igreja, é a Rádio Universal. É, porque em Santos tem isso, né? Universal, clube, cultura, entendeu? Então, não é da Igreja Universal.

Esse é o Renato de Renzo. Foi ele quem idealizou a Rádio Tantã. E ele me contou da estreia do programa, bem antes dos pacientes encararem uma entrevista com o Jô, com o Marco Nanini, com a Fernandona. Para o programa existir, primeiro o Renato teve que tentar cavar um espaço na grade da Universal.

Aí fui lá falar com o cara, aí ele olhou pra minha cara e tal. A única pergunta dele foi, idiota, se a baba do louco pega, faz o microfone, aí comecei a rir. Mas tudo bem, me dá um horário aí que eu preciso fazer essa rádio e tal. Ele me deu um horário, da tarde, às quatro da tarde, das quatro, às quatro e meia, acho que é meia hora de programa. Diário? Diário, pra tu ver a boca. E o problema todo era o seguinte, que era uma rádio super tradicional e tal, e sei lá, e tudo mais, né?

E o Renato queria ousar no formato do programa. Apesar da equipe ainda pouco experiente. Eles não sabiam nada de rádio, né? Era novidade. Não sei o que tinha vontade de estar ali. Então nós fomos pra lá. Foi fantástico. Nós chegamos lá, 5 pras 4, 10 pras 4, sei lá o quê. O cara que tava fazendo o programa antes tomou um susto. Falou, os caras me contaram. Então é verdade. Falei, é. Tão uns loucos, todos loucos. Tudo louco, tudo louco. Pode ficar sossegado aí. Os pacientes foram tomando conta do espaço.

Um assumiu a mesa de som, o outro ficou ali do lado do telefone para atender as ligações do público e dois foram encarar os microfones. E aí, às quatro horas, meu filho, aquele troço tremeu. Que a nossa entrada era uma coisa louca, eram bombas, eram aviões.

Explosões... Menino, programa de meia hora. O telefone não parava.

Todo mundo quer saber o que é isso, o que está acontecendo com a rádio. De 88 graus centígrados aqui no Estúdio Tantan. E você por aí, se está com 33, se está com 35, a temperatura vai subir. Porque essa é a sua tendência. Pirei geral, galera. Eu pirei total.

Era uma revolução, entendeu? Só que pra essa revolução acontecer na rádio, teve que ter uma revolução no hospício. E tava precisando mesmo. O Anchieta foi um hospital psiquiátrico famoso em Santos, por mais de três décadas, entre os anos 50 e os anos 80. Era um prédio grande, que todo mundo da cidade conhecia. Mas era uma clínica particular, que tava sempre de portões fechados.

Às vezes os vizinhos ouviam gritos. No imaginário da cidade, era o equivalente ao Instituto Pinel, Rio de Janeiro, ou Juqueri, para São Paulo. Acontecia direto para quem cresceu na Baixada Santista, que nem eu. Discutar alguma coisa do tipo, olha, você vai parar numa chieta. Em tom de ameaça, claro. Com o tempo, o Renato de Renzo virou referência na inclusão de pessoas com alguma questão de saúde mental em Santos. E para muito além da rádio.

Ele também é daqui de Santos e ele me contou como é que foi quando essa casa de saúde foi fundada. Ela era considerada um modelo de hospício. A construção disso, que é de 51, 52, é uma obra muito bonita, muito moderna, muito fantástica, num bairro bacana, residencial. Bem pertinho da Vila Belmiro, o estádio do time do Santos.

É um hospício que não está afastado da cidade, ele está dentro da cidade. Então era um prédio que era referência da saúde mental, ou da saúde mental não, da psiquiatria de Santos. Mas, com o passar dos anos, a Casa de Saúde decaiu.

Notícias dos anos 80 falam de superlotação, tinha mais de 500 pessoas internadas na Ancheta, quando a capacidade máxima era de 280 pacientes. Também falam de um número de funcionários bem menor do que previa a legislação da época. Eram só 18, quando precisaria de ter pelo menos 120 funcionários. Imagina o caos que era essa proporção de paciente e funcionário.

Logo vieram as denúncias de maus tratos, pacientes amarrados nas camas, banhos frios, dados no pátio, com mangueira, doses excessivas de medicamentos e muita sujeira para tudo que era lado.

Com o tempo, assim como outros hospícios, é que foram ficando essa baderna, essa fusarca. Foi nessa época que o hospital ganhou o apelido de Casa dos Horrores. Já tinham acontecido várias denúncias desse hospício. Várias denúncias que as pessoas esconderam, que as pessoas calavam a boca. O dono do hospício era um figurão que era professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina. Como você pode falar que está errado? As pessoas que eram sócias também eram donas de grandes consultórios da cidade.

pessoas que a elite frequentava lá legal. Psiquiatria é daquela social, no sentido bacana fazer isso. Então, como você vai falar essa gente está errada, está fazendo isso, está fazendo aquilo? Não tem, é muito difícil. Então, muita gente calava a boca, muita gente não queria ver. Até que chegou um momento que não deu mais para fingir que não estava acontecendo nada. Até que mortes aconteceram no hospício. Dois pacientes morreram.

O principal jornal de Santos, o jornal A Tribuna, deu que um deles morreu depois de ser espancado pelos funcionários e que outro se suicidou lá dentro. Tudo dentro de um espaço de três meses, no começo de 1989. E aí foi quando teve a intervenção. Foi a deixa para um experimento que nunca tinha sido feito no Brasil.

1989. Janeiro, fevereiro e março, todo mês teve denúncias no jornal A Tribuna de mortes violentas no Hospital Anchieta. Bom, o secretário falou assim, nossa, isso aqui a gente não pode deixar passar. Por quê? Um, porque ele já tinha uma noção sobre o que é a reforma psiquiátrica. Esse é o Roberto Chicanori, que é psiquiatra e hoje é professor da Unifesp.

Ele foi um dos cabeças desse experimento no Anchieta, lá em 1989, inspirado justamente pela reforma psiquiátrica, que defendia o fim dos manicômios e o tratamento dos pacientes em liberdade, em unidades menores e abertas à comunidade. E nada disso podia rolar sem a participação de todos, dos pacientes, dos seus familiares e dos trabalhadores dos serviços da saúde mental.

Tudo isso fazia parte da chamada luta antimanicomial, um movimento influenciado por experiências internacionais e que, no Brasil, da redemocratização, com a constituinte e a criação do SUS, acabou encontrando condições para prosperar. Mas o Ticanori só conseguiu aplicar os preceitos dessa reforma noncheta porque ele tinha, do lado dele, o secretário de saúde de Santos na época.

O David Capistrano era uma liderança política muito forte. O David foi criado por dois pais extremamente militantes. Então ele cresceu nesse ambiente, um cara que 100% estava envolvido em mudança. Então quando ele chega em Santos, ele chega com vontade de ir, né? Como chama? Com sangue dos olhos. Vamos fazer coisas, vamos acontecer, vamos acontecer. O Roberto foi um interlocutor importante para esse desejo de mudança.

O mundo estava debatendo o fim dos manicômios bem na hora em que o Ancheta pintou no radar. Aparece a primeira denúncia na tribuna. Daí ele, opa, deixa eu olhar aqui. Daí ele já me liga e fala assim, de cada hora que tem um hospital, nós podemos fazer a nossa experiência de reforma psiquiátrica aqui. Daí ele foi tramando a política, o campo político e cultivando. Então amadureceu o cenário e fizemos a intervenção.

Lembrando que a clínica era particular. Então, em princípio, a prefeitura não podia simplesmente baixar e trocar a diretoria, fazer uma reforma por conta própria.

Mas a Constituição de 88 estava ali, fresquinha, e ela dava uma deixa. Nós precisamos assumir aquilo que a Constituição, a partir de 89, nos outorga como responsabilidade dos municípios, que é a saúde dos pacientes, do cidadão. Então o prefeito, a prefeitura, passa a ter responsabilidade sobre a saúde das pessoas. Até então não era objeto da responsabilidade do prefeito.

Então ele vai com essa tese para todo lado e diz, olha, estas mortes são nossa corresponsabilidade. E ele começa a questionar o Conselho Regional de Medicina, questiona a Secretaria de Estado da Saúde, questiona o Ministério da Previdência, que tinha convênio com o hospital e tal. E aí esse alvoroço todo vai se criando um clima favorável para criar essa condição de... Já que ninguém faz, o município vai exercer o seu poder de polícia de responsabilidade, ponto.

Então, a base legal para a intervenção do município num hospital privado era só a Constituição. E essa foi a tese central. Não tinha nenhuma portaria, nenhuma lei ordinária que desse essa margem de poder. Foi na raça.

Os donos até tentaram entrar na justiça, dizendo que o município não podia intervir daquele jeito numa propriedade privada. Mas a segunda instância deu ganho de causa para a prefeitura. A base legal era a carta constitucional e a vontade política, né? Sim. A Constituição tinha sido promulgada em outubro de 88. Então ela saiu do forno.

Mas o clima no país era um clima republicano, era um clima de construção da república. Havia a possibilidade desse debate ser visto como uma coisa mais do que natural. E foi nesse clima republicano que as portas do hospício foram abertas para a cidade.

Como estava anunciado, então virou um evento na cidade. Gente que veio de São Paulo, movimento de reforma e tal. E jornalistas de rádio, na época rádio. Três, quatro rádios que entraram junto com a gente falando ao vivo. Finalmente a cidade ia ver o que tinha lá dentro.

A gente vai fazer um intervalo curtinho e já já o Evandro Cruz Silva volta para contar o que aconteceu quando a prefeitura resolveu intervir no Anchieta. Como é que essa intervenção acabou dando margem para surgir a Rádio Tantan e o que é feito do Anchieta hoje. Continua sintonizado aqui que a gente volta já já.

Olha ao redor agora. O lugar onde você está foi projetado por alguém que pensou cada parede, cada janela e cada espaço antes de construir. Se esse alguém for um homem, você facilmente consegue descobrir quem é. O nome estará estampado em livros, prêmios ou no próprio espaço que ele construiu. Se for uma mulher, fica muito mais difícil. Não porque elas não existiram, mas porque tem uma conta que não fecha na história da arquitetura.

As mulheres são maioria na profissão desde os anos 80, mas ganham em média 30% menos que os homens. E no Pritzker, o Nobel da Arquitetura, só sete mulheres foram reconhecidas em quase meio século de história.

Não é que falte obra, o que falta é registro. Especialmente quando a gente olha para o sul global, onde arquitetas e urbanistas moldaram cidades e escolas, mas acabaram ficando de fora dos livros e das premiações. A Escola MASP está com inscrições abertas para dois cursos da arquiteta e urbanista Marina Grinover, que buscam puxar esses nomes de volta para a conversa.

São dois módulos online e sequenciais. Em maio, o foco é o século XX. Das pioneiras até nomes como Lina Bobardi e Mayumi Watanabe, discutindo a cidade como um espaço de direito e bem-estar. Em junho, o curso chega no século XXI para falar de moradia social, crise climática e da produção das arquitetas brasileiras contemporâneas. O link para a inscrição está na descrição do episódio.

E o Clube Novelo tem 10% de desconto com o cupom que será enviado na newsletter exclusiva para assinantes. Oi, aqui é a Sueli Carneiro. E aqui a NECA Setúbal. A gente está aqui para te convidar a ouvir o mais novo episódio do Escute as Mais Velhas.

Eu sou de um feminismo da transformação social. Ele é incompatível, ele não existe como força de direita. Essa é a nossa convidada desta semana, a socióloga e ativista Bethânia Ávila. Eu acho que esse movimento que a direita faz é enganoso, porque é incompatível você ter uma sociedade justa e igual do ponto de vista de raça, de classe e de gênero, com esse grau de desigualdade, com esse grau de exploração,

A Bethânia contou pra gente como ela começou a lutar pelos direitos das mulheres e como aprofundou o debate sobre a política de cuidado. Agora, ela questiona quem cuida das mulheres que sustentam o mundo.

O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tietz e Tubo, produzido pelo Estúdio Novelo e já está disponível em todas as plataformas de áudio. Toda terça-feira tem episódio novo. Siga o podcast para não perder.

Quando os portões da Anchieta abriram, teve um espanto dos dois lados. Dos repórteres, que ficaram filmando as celas onde os pacientes eram mantidos na solitária, os pátios com pessoas sentadas ou deitadas no chão, as salas onde eram dados castigos corporais, os corredores estreitos onde mais de 100 pessoas eram amontoadas para serem dopadas, e, do lado dos pacientes, eles finalmente tiveram a chance de serem ouvidos.

Quando eu fico internado, eu fico nervoso muito. Eu não gosto de ficar internado. Eu tenho um pavor de ficar internado, eu não gosto. A gente precisa de carinho. A gente vem aqui atrás de carinho. Porque lá fora a gente não consegue carinho da família. A família trata a gente como louco. Isso era muito maluco. Porque os pacientes reclamavam, reclamavam. E ao vivo, né?

Já mandei o choque umas três vezes. Quase que eu morro um dia do cego-leão. Aí teve uma mulher e falou assim, não, porque eu venho aqui, não sei o que, me dão eletrochoque, eu fico que nem uma galinha tonta aqui, não sei o que, não sei o que. Bom, o cara lá na sede do rádio falou assim, por que esse médico não vai dar eletrochoque da sua mãe?

Aqui o que tem errado é que os funcionários que tomam conta da gente é tudo internado, já mais doido que a gente. É tudo no grito, na ignorância, entendeu? As pessoas entraram no clima, né? É um absurdo o que está acontecendo. É um abuso, é um abuso, é um abuso. Isso foi criando um clima extremamente positivo do público, em geral, para a questão da intervenção.

Era uma abertura que chegou também para os pacientes. Agora, algumas decisões iam ser tomadas em assembleias. Na assembleia, a primeira coisa que nós colocamos é assim, não se resolve nada na porrada.

Bom, é proibido tentar resolver na porrada. Ah, por quê? Porque não pode. Porque as pessoas são pessoas, pode divertir, pode discutir, mas não pode resolver na força. Só o fato de você ter as pessoas não exercendo esse micropoder todo dia de opressão, de oprimir, de submeter aos outros...

Muda muito, rapidamente. A gente abriu as portas dos quartos, das salas, os pacientes podiam circular, ficavam trancados. Outra coisa, alimentação. A gente tem uma injetada de comida boa, não chique, boa. Arroz, feijão, carne e tal, mas assim, bem feito. Com nutricionistas e tal, tal.

O paciente sentiu a diferença nas primeiras 24 horas, já sentiu que estava diferente. Tanto é que era muito bagunçado. A lógica era da opressão, do controle, de manter as pessoas submetidas. Quem não se submetia era castigado. Com solitária, ficar numa sala solitária que ele chamava de chiqueirinho.

que é uma sala de 80 centímetros por 1,5m, você fica lá trancado, sem nada. Não tem torneira, não tem privada, sem nada. Você come e dorme ali durante dias, e sem luz. Então tem uma porta que tem uma janelinha assim, com recorte na porta só, e mais nada. Então esse era um dos castigos, vamos chamar assim, disciplinadores, botar pessoas nesse tipo de solitário.

A outra coisa era eletrochoque. A gente proibia eletrochoque. Por quê? O eletrochoque era usado estritamente como um mecanismo de punição. Não obedeceu, fez o que não devia, sei lá, brigou, bateu, sujou, né? Abusou, eletrochoque, vai para a fila do eletrochoque. Eram colocados todos os pacientes, um do lado do outro.

amarradas, conscientes, e o cara ia passando com a maquininha. Um do lado do outro. Então imagina você com o cara do lado vendo as pessoas se convulsionando e chegando a sua vez. O terror que era isso. Então esse tipo de coisa realmente foi proibido. Nas assembleias, a equipe de médicos reforçava que esse tipo de coisa não ia acontecer mais. Então passou a ter uma rotina de conversa, de discussão sobre o dia a dia cotidianamente.

Aos poucos, seguindo os preceitos da reforma psiquiátrica, os pacientes passaram a circular fora dos muros da instituição. Tinha passeios pela cidade, por exemplo, tipo no horto botânico ou no orquidário. É a primeira vez que eles saem assim. Quem viu o grupo descendo do ônibus não imagina que são todos doentes mentais.

Óbvio, a gente tinha receio, e na primeira vez que você sai, como que o público vai reagir, né? Porque não é que você fecha o orquidário pra isso, o orquidário tá aberto, tá todo mundo lá. E aí, de novo, é uma grande surpresa, uma mulher dando entrevista assim. A senhora não teve medo de que a moça pegasse sua filhinha? De jeito nenhum, imagina, eu acho que elas são crianças também, né?

precisam de apoio, de ajuda para poder sair dessas condições de doença. Então é curioso, se você desmonta um pouco o cenário, as pessoas passam a ter menos medo e passam a ter a possibilidade de olhar para o outro lado. Essa é uma lógica, uma estratégia para a desmontagem de uma instituição fechada. Você trazer a cidade para dentro e levar a instituição para fora. Quando você abre e interage, literalmente, você é obrigado a civilizar as relações.

Precisamos mais uma vez dar ouvidos aos loucos e aos profetas. Precisamos recuperar a nossa cabeça. Eu e você juntinhos. Formou não só o que estava internado, mas formou a cidade em termos de como encarar a loucura, de como ver isso, como contracenar com o outro.

Nesse início do processo de intervenção, os pacientes do Anchieta continuaram internados na casa de saúde. Eles saíam para passeios como esse e depois eles voltavam. Quando a intervenção começou, tinha mais de 500 pacientes no Anchieta, e muitos deles já estavam internados fazia tempo, anos ou até décadas. Uma parte dessas pessoas tinha transtornos mentais graves. Outros continuavam internados por razões como abandono familiar ou dependência de álcool ou drogas.

Era com esse conjunto diverso de pessoas que a equipe da intervenção estava trabalhando, para tentar reconstruir os laços afetivos e sociais que tinham sido perdidos ao longo do tempo. Foi nesse momento de abertura do Ancheta para a cidade e de ressocialização dos pacientes que o Renato de Renzo foi chamado. Naquela altura, ele estava trabalhando com teatro em São Paulo. E ele já tinha no currículo um projeto com fotografia no Juqueri, o mega manicômio de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.

Foi uma conhecida que indicou ele para o Roberto Chicanuri. Em lancheta, ele também começou com teatro. Ali a gente fez um monte de coisa, viu? Como eu e o Julieta, fez um monte de peças no pátio. Contavam os seus dramas pessoais, eram jogados na roda e costurados com cenas e tudo mais. E aí, logo o projeto começou a ficar forte. E aí, eu com quatro, cinco pessoas, fomos para uma salinha e ali nasceu o Tantan.

Era um grupo de pacientes que já tinha mostrado interesse nas sessões de teatro e em outras atividades culturais que o Renato começou a fazer. Tipo oficina de pintura.

O Renato convidou eles para um projeto mais complexo. Por quê? Porque a gente queria que esse grupo, que esse negócio, né, tivesse um nome, esse encontro que a gente fazia de teatro à tarde. Esse grupo, o Tantan, ele começou a imprimir um jornalzinho, que era distribuído no Pacho da Anchieta e depois nos arredores da Vila Belmiro. E aí, a partir daí, a gente fez um monte de coisa, fizemos...

camisetas, fizemos um ponto. Um projeto interessante que aconteceu nessa fase. Foi nessa época de animação com o grupo recém-criado que surgiu a ideia de uma rádio. Fizemos portas com vidros, tudo que tinha sobrado lá na marcenaria do Anchieta, e montamos a cabine de som, com três em um, microfone e só. No começo, era uma rádio poste. Ela era transmitida do estúdio diretamente para o pátio, em umas caixas de som que o Renato instalou ali.

Até que o Renato resolveu vender a ideia na Rádio Universal, e a coisa ficou mais séria. E foi aí que surgiu uma das marcas registradas da Rádio Tantan.

E aí eu falei que a rádio precisava de um sobrenome. Então é Rádio Tantan. Está no ar a Rádio Tantan. Hã? Está no ar a Rádio Tantan. Hã? Cadê o sobrenome? Entendeu? Então ficou na batida de um coração. Não sei mais o que e tal. Até que saiu o slogan maravilhoso que é... É a Rádio Tantan, o programa do tamanho da sua loucura.

Rádio Tantã, um programa do tamanho da sua loucura. Ficou esse slogan aí com a rádio e a gente então foi pra montar o programa. Muita música e tal, falas curtas e tal. E vamos começar o programa. Pra fazer esse episódio, a gente ouviu umas 10 horas da Rádio Tantã. Tudo que tem disponível no YouTube.

Os programas têm uma estrutura bem definida, e numa linha geral que lembra um pouco o programa Pânico na Jovem Pan dos anos 90, que era bem diferente do Pânico na TV e que é bem diferente da Rádio Jovem Pan que virou depois. Mas, além disso, detalhe, a Rádio Tantan foi lançada até uns anos antes do Pânico. Hey, hey, hey, DJ! Hey, hey, hey, hey, hey! Yeah! Yeah! Uno, dos, três, quatro...

O programa abre saudando todo mundo, aquela profusão de abraço e apresentando a equipe. Viva a vida! Viva tudo! Viva a loucura do mundo! Viva essa maravilha que somos eu e tu! E viva o Rabo do Tatu!

Alô Paulinha, tudo bem? Boa tarde, Marcelo Bruno, boa tarde ouvinte Tantã. Um beijo Tantã pra você Paulinha. E aí Leandro, hoje a casa cai ou não? Não sei, deve cair porque todo dia tá caindo, acho que hoje também cai.

O Renato me contou que todos os nomes dos internos do Ancheta que eram radialistas na Rádio Tantã eram nomes inventados. Que era uma forma de proteção. Ele queria que eles tivessem liberdade total no ar. E além de toda a interação real com os ouvintes, o programa tinha interações fictícias em quadros de humor. Alô, Rosiclér! Boa tarde! Alô, Juninho! Oi, gente!

Tinha reportagem também. Às vezes rolava por telefone, mas também tinha entrevistas que eles faziam pessoalmente, como foi com o Nanini, com o Jô, com a Fernanda Montenegro. Então tinha coisas pesadas, assim, que você não pode perguntar, mas a criança, o jovem, os loucos podem, entendeu? Então era isso que deixava rolar. Isso pode acontecer? Pode, pode acontecer, vamos lá. Às vezes era em época de política, a gente levava todos os candidatos à Prefeitura de Santos.

Mas uma coisa estava bem clara para o Renato.

Ele não queria que a Rádio Tantan fosse uma rádio sobre transtornos psiquiátricos. Só que é uma rádio cênica, uma rádio que é outra coisa, expiração, quero muito que vocês possam jogar pra fora, brincar e tal. Não quero a doença, ela entra como, sei lá, outra coisa. Não quero que seja uma rádio pra falar de doença, que fale da doença de vocês. De tempos em tempos, eles inventavam uns bordões, umas frases que iam se repetindo nos programas.

igual a mim, ou parecida, capaz de acordar o mundo, capaz de alegrar a vida! Rádio Tantan! Então muita gente ouvia e tal, não sei o que. E aí, a rádio pertencia ao Pelé. A Rádio Tantan foi transmitida por mais de uma emissora, além da Universal.

A que o Pelé era dono era a Rádio Clube de Santos. Aí um dia o Pelé estava nos esperando, porque ele falou assim, meu, eu sou parado nos lugares do mundo, e o caramba, me perguntam sobre a Rádio Tantan, eu não conheço, quero conhecer vocês e tal, vocês podem ficar aqui à vontade, nunca paguei um tostão, entendeu? O Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, estava esperando vocês para gravar o programa.

pra falar com a gente. Exatamente o Pelé. Além da diversão, tinha essa sensação de estou fazendo algo novo, sou criador. Participo de uma coisa que eu tô gerando, fazendo e tal. Eu vou falar uma coisa que é raro isso, né? Quando você fala assim, pô, eu que fiz. E não é eu que fiz pra mim, é o que fiz que tem público. E aos poucos, a turma do Anchieta, pra cidade de Santos, deixou de ser a turma que ficava trancada no hospício.

Se antes os vizinhos só ouviam os gritos, agora eles estavam podendo escutar o que eles queriam falar. Teve, como diz assim, um efeito importante. Isso aqui existe a possibilidade de ter interações curiosas, interessantes, inteligentes, né? Com pessoas que têm problemas mentais.

Por isso que essa importância do projeto ter visibilidade. O projeto ser forte. Porque ele consegue abrir portas. Ele consegue chamar outras figuras. Ele consegue somar. Se você tem uma coisa tímida, uma coisa que... Você vai ficar ali. Entendeu? Você vai pedir esmola.

assistencialismo, entendeu? Mas quando você começa a ter um outro patamar, porra, aí sim de fato você faz um trabalho de saúde mental com a cidade, e não somente atender aquelas pessoas naquele momento que precisam, necessitam de aba-quarta, entendeu? Quer dizer, você explora, o projeto se torna uma coisa maior.

Se os pacientes estão em todos os lugares, é como se a cidade toda tivesse tratamento. A gente fala, pensando que só do Anchieta, mas o quanto que tem o outro lado que não aparece. Os vizinhos do Anchieta que se modificaram todos por causa do projeto. Modificaram. Pessoas que paravam quando a gente estava pintando a porta do Anchieta. A gente pintou todo o Anchieta, né? Ficou colorido. Quando as pessoas paravam com o carro e acendiam os faróis para a gente poder pintar à noite.

e trazer um Coca-Cola, pizza, trazer um bolo para a gente poder continuar pintando. E teve muita transformação na cidade, entendeu? A cidade foi transformada, isso é muito importante. Vamos detonar essa tarde com toda alegria! Vamos arrepiar! Eu quero invadir a tua praia, meus queridos convididos!

Você é o meu show! Porque gente é para brilhar! Gente é demonstravelmente a maior maravilha do universo! Só que as transformações não pararam por aí. A intervenção da prefeitura de Santos-Lancheta tinha uma data para acabar. A gente foi desmontando o hospital. Esse desmonte foi uma estratégia de descentralização.

estava tudo dentro dos ideais da reforma psiquiátrica que o Roberto Chicanori estava ajudando a conduzir. Era contra a própria existência de manicômios, lembra? Então não era para o Anchieta ficar colorido e divertido. Era para aquele lugar deixar de existir, para não ter mais ninguém confinado lá. E para concretizar isso, tirar todas essas ideias de reforma do papel, dois movimentos importantes estavam rolando no Anchieta.

O atendimento da antiga casa de saúde foi dividido entre cinco enfermarias, uma para cada região da cidade. E os pacientes também seguiram essa mesma divisão. Quem tinha vindo de uma determinada região da cidade ficava na ala correspondente e era sempre atendido pela mesma equipe.

O outro movimento é que, também seguindo o conceito da descentralização da reforma psiquiátrica, foram sendo abertos pela cidade os NAPS, o Núcleo de Assistência Psicossocial. Era a versão santista dos CAPS, o Centro de Assistência Psicossocial, que estão em vigor na rede de atenção e saúde mental por todo o país ainda hoje. A sigla CAPS foi a que acabou pegando, mas naqueles primórdios da implementação da reforma psiquiátrica no Brasil, estava tudo em disputa, até as siglas.

Os interventores criaram em Santos 5 NAPs, também um para cada região da cidade. Essa coincidência numérica com as aulas de Anchieta não é à toa. Isso foi feito justamente pensando que, em algum momento, com a ressocialização, os pacientes não iam mais precisar ficar na casa de saúde.

Depois de anos de trabalho e de reconstrução de laços familiares e comunitários, cada um ia voltar para o lugar de onde tinha vindo e ia encontrar o apoio que precisasse nos NAPs, inclusive internação, se fosse preciso. Os NAPs foram feitos com leitos para isso. Mas eles tinham uma diferença importante em relação ao manicômio. A ideia era evitar longos períodos de internação.

O Roberto Ticanori me explicou que um paciente ia poder ser internado num dia ruim, e na manhã seguinte ele voltava pra casa. Isso evitava situações de atrito e desgaste pra todo mundo. Pro paciente, pros familiares e também pra equipe médica. Então, com o passar dos anos, o Anchieta foi sendo desativado. Ala por ala.

Quando a gente sentia que tinha maturidade, fechava a ala, abria o CAPS na região e o paciente equipe. Então, isso foram cinco passos grandes. Primeiro foi em setembro de 89 e o último foi em 94. Então, não é que é muito fácil e nem rápido fazer essa transformação. Levava tempo para entender as demandas de cada paciente e de cada região. E como esse novo NAPS, que ia ser aberto no lugar de cada ala do Anchieta, ia conseguir atender.

Mas, em algum momento, eles foram conseguindo. A cada vez que um grupo saía, uma ala inteira fechava. A intervenção estava cada vez mais perto de chegar ao fim.

Esse experimento concreto vivido em Santos deixou um legado. Ele serviu de referência na formulação da Lei Federal 10.216, de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, com a diretriz de reformar o modelo para o padrão descentralizado e que hoje virou a política nacional de saúde mental, álcool e outras drogas.

Quanto ao prédio do Ancheta, quando a intervenção chegou ao fim, em 1996, a Prefeitura de Santos tentou devolver as chaves do prédio para os antigos proprietários, mas eles não aceitaram. Eles pediram uma indenização por causa das modificações que a equipe da Prefeitura tinha feito no espaço físico e também um valor de aluguel relativo a sete anos de ocupação do espaço físico. O processo foi parar na justiça e o prédio ficou vazio.

É aí que começa a última transformação na casa de saúde. Primeiro, um novo período de decadência. Aí ficou alguns anos abandonado. Quando a intervenção acabou e os antigos proprietários não quiseram receber o prédio de volta, teve início uma ocupação por moradia no Anchieta.

E aí, o prédio que já tinha sido manicômio, a Casa dos Horrores, depois virado referência em saúde mental e abrigado à sede da Rádio Tantan, agora era moradia de dezenas de famílias. A ocupação começou nos anos 2000 e dura até hoje. Para entender esse último e atual ciclo da Ancheta, eu falei com a Gabriela Ortega, advogada popular que acompanha o que está acontecendo por lá.

Eu já atuo na questão de moradia há alguns anos, acompanho algumas ocupações aqui na cidade de Santos e São Vicente, Morro, Palafita, sempre tive uma atuação em defesa das comunidades.

A Gabriela me contou que, em 2009, um grupo de empreendedores tentou comprar o prédio e ofereceu uma indenização de 30 mil reais para cada família que morava ali, um valor bem baixo para essa região de Santos. Mas a justiça barrou o negócio. Isso porque o imóvel estava numa disputa judicial para pagar uma dívida trabalhista, justamente como a antiga funcionária da Casa de Saúde. E nenhuma tentativa de transação era permitida enquanto isso não fosse resolvido.

E o que está ocorrendo hoje é um processo de uso capião, para decidir se as pessoas podem continuar morando em uma encheta ou não. E, hoje em dia, para quem passa pelas ruas dessa região de Santos, décadas depois da desativação do manicômio e do fim da intervenção, e de tudo que ela representou, parece que um estigma foi substituído por outro.

um antigo manicômio que depois vira uma ocupação. E tanto antes como agora tem esse estigma, tinha muito preconceito da ocupação, de desolher de droga, de só ter maconheiro. Então acho que do manicômio para a luta da moradia é isso, é o lugar daquilo que a sociedade não quer e não quer dar conta.

E por isso que morar lá, onde antes eram ambulatórios, consultórios e celas fortes, isso tem sido uma luta para essas pessoas. A atual ocupação enxeta foi um dos lugares que serviram de argumento para embasar a campanha do despejo zero. Essa foi a campanha que ajudou a preservar as casas de milhares de famílias brasileiras que estavam correndo risco de serem despejadas durante a pandemia de covid.

Na prática, funcionou como uma força-tarefa. Frentes de luta como a Povo Sem Medo e o MTST organizaram vigílias pelo país para mapear despejos e conectaram um lugar sob risco com o outro.

Essa rede fazia o monitoramento de liminares, de ações jurídicas estratégicas e pressionava autoridades para impedir que mais gente ficasse sem teto no meio de uma emergência sanitária. No fim, a questão chegou no Supremo Tribunal Federal, que suspendeu os despejos temporariamente. Isso não resolveu a questão da moradia, mas criou um precedente que ainda está reverberando nos processos atuais.

Eu acho que o Anchieta é um dos casos mais vitoriosos da campanha Despejo Zero, aqui na região, mas também no Brasil inteiro. Porque foi graças à campanha que a gente conseguiu tempo, fôlego, para poder se dedicar ao processo judicial, que era muito complexo.

Mas eu imputo isso, é claro, ao trabalho jurídico, ao trabalho dos movimentos sociais de Santos, que abraçaram o Anchieta. O Anchieta foi abraçado por todos os movimentos e partidos de Santos, coletivos. Foi uma ocupação que conseguiu agregar muitos apoiadores em torno do Anchieta. Então, acho que isso foi importante, a luta jurídica foi importante. Mas o tempo que a campanha de Espejo Zero conseguiu foi fundamental.

Colocar o vidro. Muita criança, nós estamos falando. Ali moram... São famílias. Numa segunda-feira de março de 2026, eu fui até a Ocupação Anchieta junto com a Bárbara Rubira e o Paulo Vitor Ribeiro, aqui da Rádio Novelo.

A Gabriela Ortega e a Fabiana Prado, sócia de advocacia da Gabriela, também foram juntos para guiar a gente e apresentar os moradores.

Meu nome é Josélia, Josélia Nascimento de Jesus. Aqui quando eu entrei era um pouquinho mais desorganizado, né? Hoje vira uma comunidade que todo mundo se ajuda uma ou outra. Eu tenho minha família, tenho minha filha que mora aqui também. É um lugar onde eu posso dormir, acordar, até porque se eu tivesse condições, hoje em dia eu não estaria aqui, mas não tenho condições porque eu tenho só um salário, e um salário não daria para pagar um aluguel, né?

Mandaria então aqui, eu sou grata a Deus por ter esse cantinho, que é o meu conforto. Enquanto eu caminhava pela ocupação e conversava com os moradores, que nem a Josélia, eu fiquei pensando que não deixa de ser curioso, que durante décadas, tanta gente lutou para ter o direito de sair desse prédio, e agora essas pessoas estão lutando pelo direito de ficar. Na verdade, elas já estão nessa luta há décadas também.

Quer entrar na minha casa? Posso? Essa convidando a gente pra entrar na casa dela é a Maria Piedade da Silva. Linda? Linda, linda, linda, linda. Aí Deus mandou. Why? Não, é porque eu falo assim, né? Só alguém falou que a senhora foi a moradora número zero da ocupação. E quando é que você chegou aqui? Eu cheguei em 2002. Dia 6 de maio de 2002.

Aí eu queria ter um lugarzinho assim, pra mim. Porque você ficar morando na casa dos outros, às vezes você queria ter um dia de folga, você era obrigado a ficar ali, né? Você morava onde você trabalhava? É. Aí eu falei, não, eu preciso de arrumar um quarto pra mim e tal, ter minhas coisinhas e tal, né?

Aí eu tenho meu banheiro, que é só meu, né? Individual, separado. E quando é que você está dispossomendo que aqui era um hospital psiquiano? Aí depois é que eu vi, sabe? Ah, mas isso nunca me afetou, não. Você recebeu essa notícia? Ah, pra mim. Eu peguei um Uber há pouco tempo, o cara falou comigo, nossa, dona, a senhora é doida, irmão, aqui? Diz que aqui é mal-assombrado. Aí aquele me deu revolta, sabe? Eu virei pelo almoço, acho que o senhor está enganado.

Eu moro aqui há mais de 20 anos, nunca encontrei com nenhuma assombração aqui, não.

Esse moço eu detonei ele. Pra o pessoal em volta, que não conhece muito a gente, que não sabe que aqui existe, eu, ele, gente que trabalha, gente que sai, são muitos, mas tem muita gente do bem, gente que trabalha, sabe? Isso acontece muito, você tá sentado ali fora e a pessoa vem, critica o lugar.

Sem conhecer. Mas graças a Deus, vivo bem, sou feliz, sou abençoada, tem meu trabalho. Né? Isso é quem for. Fente. Quando a gente estava saindo dessa visita na ocupação, eu dei de cara com um lugar sobre o qual eu estava querendo falar desde que comecei a pesquisar para esse episódio.

Uma coisa que nunca me tirou da cabeça é que o Anchieta agora fica na frente do CAPS-AD. Tem essa coisa simbólica. De lá para cá, o Brasil se transformou muito no sentido do tratamento da saúde mental. E eu acho que o Anchieta e o CAPS-AD estarem na mesma rua, indicam um pouco desse caminho.

Eu entendo o seguinte, a experiência do Anchieta foi estratégica e a questão do Anchieta é que foi uma ação concreta. Concreta, literalmente. Chuta a porta, entra, abre a porta. Como é que se lida com as pessoas sem amarrar, ou se amarra, desamarra?

Como é que se lida com as pessoas sem usar cela forte, sem eletrochoque? Como é que se lida com as pessoas que estão agressivas e ao mesmo tempo você tem que dizer que nós não vamos agredir? É um jogo delicado ali. Então você tem que segurar o sujeito e você dar porrada, sabe? Ao mesmo tempo, se você simplesmente vira saco de pancada, também não dá, né? Então é um jogo, certo? Então essa desmontagem foi muito importante, mas é no micro, é no dia a dia que você vai fazer isso.

E as pessoas cometem erros, falham, ninguém é anjo, faz besteira, fala, não cumpre, volta para trás. Esse jogo é um jogo de humanização. Alô, galera! Aqui é Marcelo Bruno, seu louco do! Essa aí, galera! Desconhamos o tempo achastral, mas amanhã estamos de novo com o moleque! Aquele abraço, galera!

Essa história foi produzida pelo Evandro Cruz Silva, com o Vítor Hugo Brandalize, a Bárbara Rubira e o Paulo Vítor Ribeiro.

Esse episódio foi produzido com o apoio do Instituto Polis, organização que atua para a democratização do acesso à moradia digna no Brasil. Em parceria com o International Institute for Environment and Development e a União dos Movimentos por Moradia, o Polis busca fortalecer a campanha Despejo Zero, iniciativa contra remoções forçadas no país.

Você pode saber mais acessando polis.org.br e campanhadespejozero.org. A gente também queria agradecer a Nicola Vorkman, que a gente consultou na escrita do roteiro. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. E semana que vem vai ter isso aqui.

Não era aquele menino mais negro. Ele estava pálido, de raiva, muita raiva. Ele me pegou assim com a força pelos braços, me sentou. Ele estava com muito ódio. Ele falava, eu não quero a senhora aqui.

Para quem é membro do Clube da Novelo, vai dar para ouvir essa história até antes, na quarta-feira, e sem anúncios. Para virar membro e ganhar esses e outros benefícios, inclusive uma bolsa lindíssima da Novelo, o passo a passo está no nosso site. A gente volta daqui a pouquinho.

É tempo de Copa do Mundo e a Central 3 chega com um podcast narrativo com histórias da seleção brasileira. É o Amarela Ouro. Personagens do passado, debates do presente e uma viagem por causos do maior time de futebol da história. Amarela Ouro, semanalmente no seu tocador. Uma produção Central 3. Faz bebê! Faz bebê! Faz bebê!

No post desse episódio no nosso site, dá para ver fotos dos bastidores da Rádio Tantan e links para algumas matérias em vídeo da época da intervenção. E também tem fotos da ocupação Anchieta atualmente e na época da campanha do Despejo Zero. Para quem é de redes sociais, a gente está no arroba radionovelo no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok.

Para quem é de e-mail, dá para mandar críticas, elogios, etc. Para o e-mail apresenta.com.br A gente também recebe sugestões de história por lá. E não precisa ser a história da sua vida, nem uma pauta muito séria, tipo denúncia. A gente também adora uma boa bobagem.

Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em comercial.radionovelo.com.br.

O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson-Devô. A direção executiva é da Marcela Casaca e a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager.

Nossos repórteres e roteiristas são o Vitor Hugo Brandalize, a Carolina Moraes, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira e o Vinícius Luiz. Os nossos treininhos de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Vallejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farah. Esse episódio teve desenho de som do Bauer Marim com mixagem da Mariana Leão e da Bia Guimarães.

O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Taina Nogueira. E o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.

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