Episódios de Rádio Novelo Apresenta

Veneráveis senhoras

30 de abril de 20261h11min
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A mãe de Jesus e a bisa da Carol.

No primeiro ato: Maria contra Marx. Por Vinicius Luiz.

No segundo ato: os perigos de investigar as lendas familiares. Por Paula Scarpin.

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Palavras-chave: Maria, Igreja Católica, Catolicismo, Nossa Senhora, Anticomunismo, Extrema-direita, Anguera, história familiar, bisavó, Guinness

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Participantes neste episódio7
C

Carolina Moraes

Co-hostjornalista
K

Kátia Costa Santos

Co-hostJornalista
M

Mayra Vallejo

Co-hostjornalista
P

Paulo Victor Ribeiro

Co-hostjornalista
S

Solange Bergami

Co-hostProfessora
P

Paula Scarpin

ConvidadoJornalista
V

Vinicius Luiz

ConvidadoJornalista
Assuntos4
  • Seguranca MaritimaFátima · Lourdes · Igreja Católica
  • Karl Marx e o capitalismoNicolás Maduro · Pedro Regis · Nossa Senhora de Anguera · Anticomunismo
  • Direitos TrabalhistasKarina Trindade · Trabalho por aplicativo · Labora
  • Endividamento das FamíliasDelfina da Costa Freire · História familiar
Transcrição176 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Não optei. Eu, na realidade, eu quase que fui forçada a estar no aplicativo porque eu trabalhava em cargo comissionado lá no Rio Grande do Sul.

A história de Karina Trindade se repete por aí. Aos 40 anos e mãe solo, ela ficou desempregada e viu nas viagens de aplicativo a chance de voltar ao mercado de trabalho, como muitas mulheres. As mulheres estão no aplicativo, muitas vezes, para garantir sair de casa, para garantir sair daquele relacionamento abusivo que ela sofre em casa. As mulheres que saiam para a rua só para comprar o remédio do filho.

Mas ao mesmo tempo que os aplicativos funcionam como porta de entrada para uma renda imediata, eles acabam deixando muitos trabalhadores vulneráveis pela falta de direitos. Sem férias ou seguro, a conta fica toda com quem dirige.

Eu entendo. As pessoas... Ah, não vou ter patrão. Não, a gente não tem um patrão formal. A gente tem um algoritmo que funciona como um patrão. É ele que determina se eu vou fazer corrida a 80 centavos o quilômetro rodado ou a 2 reais o quilômetro rodado.

Sete anos depois de começar a transportar passageiros, Karina preside um sindicato que representa os trabalhadores de transporte por aplicativo no Rio Grande do Sul. O trabalho de articulação e luta do sindicato ganhou ainda mais força com o apoio do Labora, o Fundo de Apoio ao Trabalho Digno. Com ele, ela conseguiu levar cursos de formação e conscientização para motoristas de todo o Estado. E hoje pode se sentar na mesa de negociação.

Garantir que a gente continue a nossa luta dentro do sindicato ou dentro do debate em si, né? Do trabalho de plataforma digital, que é uma categoria que está precarizada, que não está reconhecida ainda, que precisa ser reconhecida para ter políticas públicas.

Atualmente, 39 milhões de trabalhadores no país vivem na informalidade. O Labora é uma iniciativa do Fundo Brasil de Direitos Humanos e oferece apoio essencial à sobrevivência de movimentos e lutas por trabalho digno. Conheça o nosso trabalho em fundobrasil.org.br.

Está começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Você está sabendo do curso que a gente está para lançar na semana que vem, né? O Contando Histórias em Áudio com a Rádio Novelo, em parceria com o Night Center. Aliás, se você estiver interessado, ainda dá tempo de se inscrever.

Mas enfim, a Paula Scarpin e a Flora Thompson-Devaux, que organizaram o curso, elas foram organizando os módulos para cada um aqui da equipe dar dicas sobre as partes do nosso processo em que essa cada pessoa se destaca. E aí elas me pediram para preparar um vídeo sobre como eu entrevisto. De cara, eu falei que eu nem sei como que eu entrevisto, que eu só vou lá e faço.

Depois, como eu sou uma pessoa obediente, eu sentei para tentar organizar o meu processo de me preparar para uma entrevista e de como eu me comporto ali na hora. E não é que tem bastante dica para dar? Uma dessas dicas que eu acabei anotando é sobre um ajuste muito simples que eu faço na hora de fazer uma pergunta.

Porque assim, se você faz uma pergunta muito formal para alguém, tem uma boa chance da resposta dessa pessoa também ser muito formal. Agora, se você faz uma pergunta mais descontraída, o entrevistado ou a entrevistada costuma relaxar junto e falar mais naturalmente. Muitas vezes, quem é CDF que nem eu se prepara muito para as entrevistas.

E a gente tem o impulso de mostrar para o entrevistado o quanto que a gente se preparou, o quanto que a gente respeita o tempo daquela pessoa. Mas às vezes essa ansiedade faz a gente chegar meio trabalhado demais, quase querendo fazer discurso para o entrevistado, sabe? Ou então usar o entrevistado só para checar o que a gente já sabe.

Assim, o entrevistador faz uma pergunta longa e o entrevistado responde. Pois é, é isso. Muitas vezes eu também vejo um excesso de reverência, principalmente de entrevistadores mais jovens, que tendem a chamar, por exemplo, professores ou qualquer pessoa mais velha do que eles, de senhor ou de senhora. E raramente isso é uma boa ideia, porque cria uma distância entre você e o entrevistado, né?

Agora, eu disse raramente é uma boa ideia, não, nunca é uma boa ideia. Porque, claro, toda regra tem uma exceção. Às vezes, senhoras são senhoras mesmo. E as duas histórias do episódio de hoje têm protagonistas que, por motivos muito diferentes, certamente merecem o título de senhora. Você já vai entender porquê.

Daqui a pouquinho, depois do intervalo, o Vinícius Luiz traz a primeira senhora para a gente. Uma senhora que já estava olhando por nós há bastante tempo, na verdade.

No dia 3 de janeiro desse ano, um fato mexeu com a política de todo o continente americano. Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, foi capturado em casa por forças dos Estados Unidos. O ditador sofreu um sequestro surpresa, como imagino que sejam todos os sequestros, aliás. Mas o extremo do ato pegou muito analista político de surpresa.

Só que bem antes disso, aqui no Brasil, já tinha gente alertando que alguma coisa estava para acontecer no país vizinho. Intensa aflição viverá a pequena Veneza. A mensagem é de 10 de dezembro de 2005. E se teve uma coisa que os venezuelanos enfrentaram nas últimas décadas, foi aflição, para falar o mínimo.

Mas como a mensagem é ampla, ela dá margem para quem quer acreditar que essa aflição específica tinha a ver com a troca de liderança do país. Corta para o dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel atacam o Irã e matam o líder supremo do país, o Ayatollah Khamenei. Foi o começo da guerra que continua desde então.

Esse outro ataque também pegou muito analista político de surpresa. Mas a mesma fonte que soprou sobre a Venezuela já tinha falado isso aqui em maio de 2012. Um fato doloroso se dará no Irã e a dor será grande para os meus pobres filhos. As previsões para o Irã também vinham desde 2005, entre catombes atômicas, terremotos e outras tragédias horríveis.

A voz que você está ouvindo é de um homem, mas ele é só o mensageiro. E o remetente não é nenhum comentarista de geopolítica com poderes especiais. Ou talvez seja. As mensagens são atribuídas à Nossa Senhora Maria, a Mãe de Jesus. Quem recebe essas mensagens é o dono da voz, um homem chamado Pedro Regis.

E aqui, minha gente, em Anguera, eu estou com o Pedro Regis, né? Ele que é considerado esse confidente de Nossa Senhora. Quando Nossa Senhora aparece, traz essas mensagens aqui nesse lugar. E agora nós vamos conhecer um pouquinho dessa história, de quando tudo começou. Essa é uma reportagem feita pela TV Canção Nova em 2018. Bem, as aparições de Nossa Senhora aqui em Anguera começaram no dia 29 de setembro de 1987, um dia de terça-feira.

Naquela época, o Pedro Regis era um estudante que estava se preparando para fazer o magistério, quando, segundo ele, ele começou a ter desmaios do nada. Ele foi num médico, depois em outro. Os médicos não descobriam o que me levava a ter esses desmaios. Eu apenas rezava e pedia o socorro da Mãe de Deus. E naquele dia, 29 de setembro...

Aqui perto de minha casa tem uma escola que quando criança eu estudei. Eu fui surpreendido com a presença de uma moça vestida como uma religiosa. Ela não disse quem era nem de onde veio, apenas disse eu vou te ajudar. A moça desapareceu do mesmo jeito que ela tinha vindo. Mas dois dias depois, ela apareceu de novo, agora dentro da casa dele. Quando aquela mesma moça, com as mesmas características, aparece...

Eu não sei como é que a família dele reagiu à ordem de uma desconhecida. E eu não pude perguntar porque eu não consegui entrevistar o Pedro Regis. Ele até atendeu a uma ligação minha e pediu para que eu ligasse de volta numa segunda-feira, ao meio-dia. Mas no dia e na hora marcada, ele não atendeu. Talvez porque estava falando com alguém mais importante, vai saber. É por isso que eu tenho só o que já foi publicado em vídeo.

E 3 de outubro, no dia de sábado, ela aparece pela terceira vez e foi nessa terceira aparição que ela disse, não tenha medo, eu sou a mãe de Jesus. Disse a mim que a partir daquele dia eu estava curado, que não teria mais os desmaios e pedi que eu voltasse ali todo sábado. O Ali, no caso, é uma elevação de terra que existe até hoje, perto da casa da família do Pedro. A partir desse dia até hoje eu nunca mais tive nada e ela continuou aparecendo até os dias de hoje.

A figura que aparece para Pedro Regis se identifica como Nossa Senhora da Paz. Mas como essas aparições acontecem no município de Anguera, na Bahia, ela é também conhecida como Nossa Senhora de Anguera. A imagem dela é parecida com outras representações de Maria. Branca, jovem, olhar calmo. Mas essa em especial tem o design de sobrancelha mais afinado. E de 87 para cá, ela já enviou quase 6 mil mensagens via Pedro Regis.

Todas essas mensagens estão publicadas num site chamado Apelos Urgentes, e às vezes elas são resgatadas para provar a concretização das profecias, como nos casos da Venezuela e do Irã que eu comentei agora há pouco. E ativação de conteúdo que chama, né? E já que Apelo Urgente precisa de alcance, as mais recentes também vão para o YouTube, para o Instagram, para o Facebook e para o TikTok.

18 de abril de 2026. Mensagem de Nossa Senhora de Anguera. Eu sempre tive uma pequena obsessão por aparições marianas. Mas eu achava que elas eram um fenômeno do passado. Só que uns anos atrás, bisbilhotando a internet, eu descobri que não. Que até hoje, tem gente que tem linha direta com a Mãe de Cristo.

Toda semana a gente tem uma reunião aqui na Rádio Novelo para debater como andam as pautas que estão em produção e para sugerir coisas novas. Numa dessas reuniões, a gente estava falando sobre a história de San Martín de Pores, que a Bia Guimarães produziu, quando a Paula Scarpin, que cresceu católica que nem eu, comentou uma coisa do tipo Nossa, é incrível como tem tanto santo da Idade Média e a coisa mais rara é alguém ser canonizado santo hoje em dia.

a gente fez algumas piadas sobre como a Igreja Católica deve ter melhorado as ferramentas de checagem nesse tempo. E aí outras pessoas lembraram de outros fenômenos paranormais que a gente costumava ver na infância na TV. Tipo o aparecimento de uma imagem de Jesus numa mancha da parede, ou imagens de santas que choravam lágrimas de sangue, até que alguém falou dos recados de Nossa Senhora. Nessa hora eu precisei intervir e deixar minha obsessão à mostra.

E contei que Nossa Senhora não apenas continua aparecendo, como ela dá pitaco e faz previsão sobre tudo quanto é coisa. E mais, que uma das grandes características dessas mensagens marianas é o anticomunismo. Infelizmente, essa reunião não estava sendo gravada, porque se fosse, você ia ter a oportunidade de ver várias carinhas de queixo caído com essa informação.

E foi assim que eu embarquei numa missão que ia me levar meses de entender e de explicar para o pessoal do novelo, e agora para você, como é que Nossa Senhora ficou anticomunista. A minha relação com a Mãe de Jesus começou muito cedo. A Ave Maria foi uma das primeiras orações que eu aprendi.

E na época da catequese, eu suei um bocado para decorar a salve rainha, que é tipo uma ave maria turbinada. Acho que a simpatia pela santa é coisa comum entre crianças católicas, principalmente do interior, que nem eu. Eu lembro que a Maria Bethânia já falou que ela tinha medo de Deus quando ela ia para a igreja, e que ela se sentia mais confortável com a mãe dele, que passava uma imagem mais amorosa.

A minha relação com a Nossa Senhora Anticomunista é um pouco mais recente, mas não muito. Quando eu fiz 12 anos, minha tia me deu um livrinho com a história de Nossa Senhora de Fátima. A capa tinha uma imagem da virgem rodeada de luz, com os três pastorinhos em volta dela, ajoelhados e com as mãos em posição de oração.

Essa capa resumia quase tudo que eu sabia sobre essa aparição, que ela tinha conversado com três crianças e contado alguns segredos, os famosos Segredos de Fátima. O livro contava que primeiro veio um anjo, tipo para fazer sala, que ele apareceu por três vezes em 1916, até que a Mãe de Deus em pessoa foi dar as caras em 1917. 1917, que foi o ano da Revolução Bolchevique na Rússia.

Guarda essa informação. E acabou que ela deu as caras para três crianças pobres da região de Fátima, em Portugal. A Lúcia, o Francisco e a Jacinta. A notícia se espalhou rápido e começou a brotar gente de tudo que é canto. E elas iam para lá mesmo sabendo que a santa não aparecia para todo mundo, só para as crianças. Tinha quem acreditasse e tinha quem desconfiasse.

E para provar que era ela mesma, Maria, que estava falando com as crianças, ela teria exibido os poderes dela e feito o Sol girar na frente da multidão. Segundo relatos, o Sol teria dançado pelo céu e lançado raios de cores até voltar para o lugar. Ninguém deu notícia se isso foi visto dos outros lugares ou se teve algum efeito nas revoluções planetárias, mas foi isso que ficou nos registros.

Fato é que as aparições de Fátima foram reconhecidas pela igreja e o lugar virou um santuário, que é ponto de peregrinação até hoje. Duas das crianças, o Francisco e a Jacinta, morreram poucos anos depois, de gripe espanhola. A Lúcia, que sobreviveu, ainda teria visto a santa mais uma vez quando ela ainda era criança, em 1921. Depois ela virou freira.

E lá no convento, ela teria visto Maria e o menino Jesus outras vezes ainda. E ela registrou tudo o que ela teria ouvido deles em livros de memórias. Era nesses livros que estavam os famosos Segredos de Fátima. O primeiro Segredo de Fátima foi a visão do inferno, literalmente.

Nossa Senhora já tinha prometido levar as três crianças para o céu, mas ela achou por bem dar uma amostra grátis do outro lado, para servir de alerta para os infiéis. O segundo segredo de Fátima era o fim da Primeira Guerra, o começo da Segunda e a necessidade da conversão da Rússia. Caso contrário, segundo Maria, o país ia espalhar os erros dele pelo mundo. O erro, no caso, era o comunismo.

E, claro, a perseguição que os bolcheviques empreenderam contra a Igreja logo depois da Revolução. Quer dizer, Fátima marcou a estreia de Maria nesse fronte do anticomunismo. Esses dois segredos foram contados por Nossa Senhora nas aparições de 1917, mas eles só foram revelados pela Lúcia em 1941, quando ela escreveu o livro de memórias.

terceiro segredo ficou guardado por vários anos. Isso gerou muito burburinho entre os católicos. Mas não foi culpa da Lúcia. Ela escreveu as confidências dela, botou no envelope aos cuidados do Papa e recomendou que ele só abrisse em 1960. Acontece que o Papa da época, João XXIII, achou por bem manter o segredo guardado por mais tempo. Esse foi um dos embriões do buchicho de que o fim do mundo estava próximo e que ia ser no ano 2000.

Acontece que o ano 2000 chegou e, no dia 13 de maio, o Papa João Paulo II autorizou a revelação do terceiro segredo na cidade de Fátima diante de 800 mil fiéis. Segundo as memórias da Lúcia, Nossa Senhora teria dito que um bispo, vestido de branco, ia ser vítima de um atentado.

A igreja interpretou que se tratava do atentado a tiros que o próprio Papa João Paulo II tinha sofrido em 1981 e do qual ele sobreviveu porque ele estava lá no ano 2000 contando isso. Mas apesar da emoção com a revelação do segredo lá em Fátima, no resto do mundo a reação foi de decepção. Primeiro, por que eles seguraram esse segredo por quase 20 anos depois do atentado? Segundo, como assim o mundo não ia acabar?

De qualquer maneira, o livrinho de Fátima foi o que ativou minha curiosidade com as aparições. E na época, ele também me deixou com muito medo. Porque eu, enquanto criança católica do interior, pensei que eu podia virar alvo de uma aparição dessas. E eu morria de medo de alguma Nossa Senhora aparecer na minha frente. Primeiro, porque eu não tinha nenhuma vontade de me internar num convento que nem a Lúcia. E depois que eu nunca fui bom de guardar segredo.

Para quem conhece minimamente as aparições de Fátima, não é exatamente uma novidade esse teor anticomunista das mensagens marianas. Mas depois daquela situação na reunião de pauta, eu fui atrás de Nossa Senhora de novo. E foi aí que eu cheguei à Nossa Senhora de Anguera. Porque a Nossa Senhora de Anguera não fala só de conflitos ao redor do mundo.

Em 1989, no dia 13 de maio, que aliás é o dia da celebração de Nossa Senhora de Fátima, Maria teria aparecido em Anguera, se apresentando como a comandante celeste, e dito que as previsões que ela tinha feito em Portugal estavam se cumprindo.

Estáis vivendo os acontecimentos que então eu vos predisse. Tudo o que predisse em Fátima, a minha filha, a irmã Lúcia, torna-se hoje realidade. A luta entre mim, a mulher vestida de sol e o meu adversário, o dragão vermelho, já está chegando em sua fase decisiva.

Acho bom explicar que essa voz não é uma gravação da própria Nossa Senhora. Na verdade, eu encontrei ela num canal chamado Sou Católico e Amo Maria. E lá não tem nenhuma identificação de quem é essa mulher que está lendo algumas mensagens de Anguera.

Por isso é que ainda hoje apareço de maneira mais extraordinária, a fim de assegurar-vos de que estou sempre presente no meio de vós. Estáis vivendo agora os momentos em que o dragão vermelho, isto é, o ateísmo marxista, se espalhou por todo o mundo, causando estragos cada vez maiores nas pobres almas.

Lembrando, essas mensagens são de 13 de maio de 1989. Quer dizer, é curioso o timing da virgem para mandar essa mensagem, né? Pensando que ela teria falado isso só alguns meses antes da queda do Muro de Berlim, no momento em que a União Soviética já estava cambaleando. Mas eu fiquei me perguntando, por que a figura de Maria, que na Bíblia é tão associada à maternidade e ao acolhimento, por que ela virou essa mensageira do fim dos tempos?

Ela é a imagem da mãe que luta. Essa é a antropóloga Lília Maria Pinto Salles, professora da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo. A Lília defendeu a tese de doutorado dela sobre as aparições de Maria em Jacareí, no interior de São Paulo, que acontecem desde 1991. O fenômeno de lá já não foi reconhecido pela igreja, mas o fiel Marcos Tadeu, que se diz mensageiro de Maria, diz que ele continua recebendo os recados.

Porque quando a gente pensa em Nossa Senhora, não dá pra pensar numa figura. É como se fossem muitas mulheres numa só mulher. E aí ela tem o estereótipo da submissão. Tem, por exemplo, quando o anjo aparece pra ela e diz você vai ter o filho de Deus. E ela aceita submissivamente a missão. Ela tem esse perfil, mas ela também é o perfil da mãe guerreira. E é a partir desse perfil de mãe guerreira que vem as mensagens mais catastróficas, digamos assim.

No maior repositório de aparições marianas da internet, o site The Miracle Hunter, diz que Nossa Senhora aparece desde o ano 40. Não dos anos 40, mas desde o ano 40 depois de Cristo. Ou seja, considerando que Jesus morreu aos 33 anos, sete anos mais tarde Maria já estava fazendo aparições por aí. E detalhe, ela ainda estava viva.

Nesse caso, ela apareceu para o apóstolo São Tiago num fenômeno que ficou conhecido como bilocação. Ela estava viva num canto, mas apareceu em carne e osso em outro. Mas, segundo a Lilian, foi a partir do século XIX que se começou a formar um modelo de aparições marianas. Uma série de padrões que acontecem nas visitas da Virgem.

Então, tem uma série de elementos que vão se repetindo. Nossa Senhora não vai aparecer. Ela pode aparecer, mas para construir a legitimidade, vai ser para uma pessoa simples, uma criança, um inocente, num lugar distante. Ela é sempre jovem. A idade que ela aparece, ela nunca aparece. Nossa Senhora idosa. Ela tem uma idade, às vezes, até muito menina, com 14, 15 anos.

Dois fenômenos são importantes para criar esse modelo. A nossa já conhecida Fátima e outra que rivaliza em popularidade com a aparição portuguesa. A Nossa Senhora de Lourdes, na França, que apesar de ser contemporânea de Karl Marx, parecia ter outras preocupações.

Há de Lourdes um combate ao cientificismo, porque ela acontece em pleno contexto de anticlericalismo na França, do processo de laicização da França, final do século XIX, e de um combate muito claro às ciências, à medicina principalmente. Quer dizer, não é só anticomunismo.

De acordo com esses mensageiros, Nossa Senhora não curte nenhum tipo de mudança na sociedade. Nenhum mesmo. Ela enfrentava todas as revoluções. Ela foi contra, ela era anti-modernidade. Contra a revolução científica, contra o liberalismo, contra o comunismo.

Outra coisa que eu reparei nessas aparições de Nossa Senhora é que elas são meio meta, tipo, uma aparição costuma fazer referência à outra. Para ele titimar o que foi dito lá atrás e garantir que a mensagem está partindo da mesma fonte. A aparição em Anguera segue o mesmo modelo. Nossa Senhora se revelaria para um jovem pobre, de um lugar distante, e pediria para os fiéis tomarem cuidado com as novidades. E ela também repete o que Nossa Senhora teria dito em outras aparições.

mas em Anguera ela demonstra preocupação especial com o Brasil. Ouve só essa aqui. A capital do Brasil será vítima do seu próprio povo. Haverá grande destruição. Ela é de 13 de maio de 2007, de novo na data da celebração de Nossa Senhora de Fátima.

Essa profecia voltou a circular depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Mas essa reativação não foi obra do mensageiro, o Pedro Regis. Pedro, será que não tem alguma coisa a ver com o 8 de janeiro? Eu, particularmente, não acredito. Centenas de pessoas já disseram para mim que o 8 de janeiro...

Teve aquela quebradeira toda de gente infiltrada para jogar a culpa no outro partido, aquela cachorrada toda que teve lá. Essa interpretação sobre a tentativa de golpe já deixa claro o posicionamento dele, né? Mas o Pedro Regis não foi o primeiro a reivindicar o posto de Mensageiro de Maria aqui em território nacional.

Foi nos anos 30, depois de várias aparições registradas na Europa e até em outros países da América Latina, que Nossa Senhora finalmente teria resolvido dar as caras aqui no Brasil pela primeira vez. E você deve estar se perguntando, e Nossa Senhora Aparecida? Não é do século XVIII? Mas assim, sem querer ser um mariano pedante, a Nossa Senhora Aparecida tecnicamente não apareceu.

O caso dela é diferente, porque se trata de um milagre envolvendo uma imagem. Não teve um tete-a-tete entre a própria santa e um vidente. Mas essa aparição dos anos 30 teria acontecido em outra cidade do interior de São Paulo. Campinas, que aliás, é uma das maiores cidades do país. O que mais me chamou a atenção, porque destorava de tudo que eu já tinha lido sobre as aparições marianas. Que foi com a irmã Amália, de Jesus Flajelado.

Esse é o Magno Francisco dos Santos. Ele é professor do Departamento de História da Federal do Rio Grande do Norte e o campo de pesquisa dele é justamente as devoções católicas. O Magno foi um dos primeiros pesquisadores a apontar que o discurso anticomunista estava crescendo entre os grupos mais conservadores da igreja, principalmente a partir de 2016, no contexto do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Mas esse era um fenômeno que ele já vinha mapeando. Encontrei alguns cursos sendo realizados tratando do anticomunismo, das mensagens de Fátima, das aparições de 1917. Essas de 1917 eram repercussão das mensagens de Fátima em Portugal. Mas aí nos anos 30, aqui no Brasil, uma garota começou a receber mensagens também. A irmã Amália. Uma jovem espanhola.

que tinha ingressado numa congregação, uma congregação que foi criada em 1928, pelo próprio bispo de Campinas, Dom Francisco de Campos Barreto, que era a congregação das missionárias de Jesus crucificado. E um ano após a criação dessa congregação, uma das religiosas então começa a apresentar várias manifestações, estigmas, a visão de Cristo, de Jesus manietado, que é a imagem de Cristo sofredor amarrado.

de Pilatos, e a imagem, a visão também de Nossa Senhora, que se apresentava como Nossa Senhora das Lágrimas. Quer dizer, essa jovem espanhola, a irmã Amália, viu primeiro Jesus, em 1929, e até apresentou estigmas, quer dizer, marcas da crucificação de Jesus nela mesma. E que foi só depois, em 1930, que ela começou a receber visitas da mãe dele.

A primeira fonte que eu tive acesso foram as notícias dos jornais. E aí chamou muita atenção o estranhamento, a ausência de prudência. O Magno acha que teve uma ausência de prudência por parte do bispo de Campinas na época, o tal Dom Francisco de Campos Barreto.

porque ele teria corrido logo para reconhecer os milagres. Em 1929, nas primeiras aparições e o primeiro momento que a irmã Amália de Jesus flagelado apresentava os estigmas, isso já foi noticiado na imprensa e aí começou a circular amplamente nos jornais de São Paulo.

A mensagem que Nossa Senhora das Lágrimas teria mandado para ela era que ela ia salvar o mundo de um império infernal, desde que todo mundo fizesse as orações que ela pedisse. Essa talvez tenha sido a experiência que tenha tido o maior impacto na imprensa. E o próprio bispo, desde 1929, falava abertamente e dando credibilidade à religiosa.

Pela interpretação do bispo, as mensagens sobre o Império Infernal diziam respeito à ameaça comunista. E essa, aliás, era uma interpretação bastante alinhada às próprias convicções dele. O Francisco publicou entrevistas, concedeu entrevistas aos jornais na década de 30, dizendo que o integralismo não era, não tinha nada contrário, oposto ao catolicismo. Então ele é, assim, um adepto.

e vai para a imprensa e defende o integralismo. Então é uma figura extremamente controversa, anticomunista. Para quem não lembra das aulas de história, o integralismo foi um movimento nacionalista brasileiro dos anos 30, muito identificado com o fascismo e com o nazismo. Mas apesar de ter chamado a atenção da imprensa na época, as aparições de Campinas não conseguiram entrar no rol das grandes devoções.

Até porque o Vaticano nunca autorizou abertamente o culto a essa aparição. E aí, em 1936, foi registrada uma aparição de Nossa Senhora em outro lugar do país. Uma em Pernambuco, no sertão de Pernambuco, na população de Simbres, com duas mulheres. Duas crianças, na verdade. Uma menina branca e Maria da Conceição, uma menina negra. E a branca acabou tendo uma...

trajetória seguindo a vida de religiosa e Maria da Conceição praticamente desaparece. O caso de Pernambuco chama a atenção porque alguns padres que viviam naquela região realizaram entrevistas com essas jovens tentando averiguar se eram verdadeiras ou não as mensagens.

Os padres faziam perguntas em outras línguas para Nossa Senhora, que respondia para as meninas em português, tipo um Google Tradutor. Então, uma das perguntas é, se Nossa Senhora queria que Alice se transformasse em um grande santuário, se iria ser algo similar ao que tinha ocorrido em Fátima, em Lourdes. Ela dizia que não. Algumas perguntas é que o Brasil corria risco de derramar sangue. A resposta para essa pergunta também era não.

desde que fossem seguidas algumas condições, claro. O Brasil tem um futuro ameaçado. Não cita que seria o comunismo explicitamente, mas que muito sangue poderia ser derramado no país, no futuro, se não houvesse conversão, se não houvesse muita reza.

Detalhe, bem mais tarde, em 2005, já em Anguera, a vídia teria voltado a usar essa expressão. Derramamento de sangue. Quer dizer, tudo leva a crer que não teve conversão e reza suficiente. E o castigo já tinha lugar marcado. A capital do Brasil viverá momentos de angústia. E sangue correrá pela famosa praça.

Dobrai vossos joelhos em oração e buscai força no Senhor. Avante! Lembrando, pela interpretação do mensageiro de Anguera, o Pedro Regis, a previsão não tem nada a ver com o 8 de janeiro. Mas bom, se a profecia do Irã levou mais de uma década para se concretizar, quem sabe esse derramamento de sangue ainda venha aí. Tomara que não, claro.

Mas, voltando para 1936... O contexto marcado ali pós-Intentona de 1935 fazia total sentido. A Intentona foi uma tentativa frustrada de golpe. Um grupo de comunistas, liderado por Luiz Carlos Prestes, tentou derrubar Getúlio Vargas, mas ficou só na tentativa mesmo. As forças do governo sufocaram o movimento e o Getúlio ficou no poder até 1945.

Mas Recife, nem tão longe assim de Simbres, foi um dos pontos de levante da Intentona. E a coluna Prestes tinha passado ainda mais perto só uma década antes. Ou seja, o Dragão Vermelho estava no zeitgeist local dali. No mundo todo, o comunismo viveu seu auge a partir da Segunda Guerra Mundial, quando a União Soviética saiu fortalecida e se consolidou por décadas como uma das duas maiores potências mundiais.

e com a missão declarada de espalhar o comunismo não só pela própria Eurásia, mas também pela África e pelas Américas. Dentro da própria Cortina de Ferro, aliás, foi registrada outra aparição de Nossa Senhora, em Medjugorje, na Bósnia, que na época era parte da Iugoslávia Socialista. Essa aparição começou em 1981, para seis crianças, e tinha forte mensagem anticomunista. Mas essas aparições também não foram reconhecidas pela Igreja Católica.

Mas aí veio a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética e o discurso anticomunista perdeu pouco sentido. Fim da história? Não. Pouco a pouco ele foi voltando. Então, a retomada dessas questões...

E principalmente a ressignificação dessas experiências ocorre exatamente no momento de polarização, não só do Brasil, mas praticamente todos os países do mundo perpassam por essa polarização, e principalmente de ascensão da extrema-direita. Lembra, o Magno identificou que essa retomada aconteceu com mais clareza aqui no Brasil depois de 2016. Encontrei alguns cursos sendo realizados.

tratando do anticomunismo, das mensagens de Fátima. De volta para Fátima, mas não só. É nessa fase que grupos de extrema direita passam a entender as aparições de Campinas, de Simbres e de Anguera como parte de um discurso contínuo e global de Nossa Senhora contra a ameaça vermelha. A ameaça vermelha que naquele momento, 2016, no Brasil, podia ser tanto o comunismo como o próprio PT.

É engraçado que o PT não apareceu como ameaça antes disso em mais de uma década na presidência. Mas eu ainda estava com muitas perguntas. Faz sentido esse timing do discurso anticomunista das aparições, no Brasil e no mundo. Só que eu ainda não tinha conseguido entender o fenômeno das aparições por si só. Nessa hora, eu me dei conta que eu só tinha uma coisa a fazer. Falar com o padre.

Eu encontrei o padre Domingos Barbosa na PUC Minas, e assim que ele me encontrou, ele já foi perguntando se eu sou católico. Ai, como é que eu posso dizer? Eu tenho um fundamento católico, mas eu sou aberto a outras crenças. A gravação não conseguiu pegar o comentário do padre, mas eu lembro que ele falou que com esse papo aí eu não sou católico.

Eu sou o padre Domingos, eu sou professor aqui na PUC Minas, professor de teologia, na área de teologia dogmática. E uma das especialidades dele é a Mariologia, que é um ramo da teologia dedicado a estudar a vida de Maria. Bom, a devoção à Nossa Senhora, podemos dizer que ela começa desde as origens do cristianismo.

Aliás, podemos dizer que já na Bíblia tem uma grande... A revelação cristã apresenta uma grande veneração por Nossa Senhora. Quando o Ângel Gabriel é enviado por Deus para anunciar a Maria que ela vai ser mãe do Salvador. Maria é uma das figuras bíblicas mais celebradas na Igreja Católica. Ela é como se fosse uma santa plus. Maria não é uma deusa. Maria não é um quinto evangelho. Maria é apresentada como uma figura humana.

ela é do lado de Adão, mas a grandeza de Maria é que ela se deixou moldar pelos apelos de Deus. A grandeza de Maria é ter feito a vontade de Deus em tudo e por tudo. Isso tudo está registrado na Bíblia.

Para os católicos, não tem contestação. É dogma. Quanto às aparições, isso é toda uma outra história. A revelação se encerrou com a morte do último apóstolo. No caso, São João, pelo ano 100 da era cristã, está certo? Ou seja, as revelações de Nossa Senhora se incluem numa categoria que nós chamamos de revelações privadas.

Para facilitar esse entendimento, eu vou cometer aqui um pequeno sacrilégio e te pedir para imaginar um Instagram. Imagina que tem um perfil da Igreja Católica. O feed é a Bíblia. E a gente está falando aqui de um feed tipo talhado em pedra, em que nada pode ser excluído e nada pode ser incluído mais. As revelações privadas não acontecem ali.

Elas são tipo mensagens diretas, no inbox, entre Nossa Senhora, Jesus, os santos e os videntes. Algumas poucas dessas trocas, tipo as de Fátima, são chanceladas pela Igreja Católica. E aí elas podem ir parar nos stories, nos destaques, mas jamais no feed.

A igreja não obriga ninguém a acreditar em revelação privada, tá certo? Se uma pessoa católica diz, olha, padre, eu não acredito que Nossa Senhora apareceu em Fátima. Por isso ela não está condenada. Ela não é herede por isso, não. E nem é excomungada pela igreja. Como eu lhe disse, a igreja não obriga ninguém a acreditar em uma revelação privada. A igreja não obriga, mas ela também não rejeita a fé nesse tipo de fenômeno assim, de largada.

Nós temos que ter cuidado também de entender que a nossa racionalidade, ela não pode colocar limites a Deus, está certo? Deus pode se comunicar com quem Ele quer, está certo? Deus pode continuar se dirigindo diretamente a algumas pessoas. Deus e Nossa Senhora também.

Ao longo da história, a Igreja estabeleceu critérios para o reconhecimento desses fenômenos. As normas mais recentes foram publicadas em 2024. O Vaticano notifica o bispo local, pede a ele para designar uma comissão para acompanhar o processo, os fenômenos. Essa comissão deve ter obrigatoriamente um teólogo, um especialista em direito canônico e um perito.

A partir daí, eles ficam responsáveis por acompanhar o fenômeno. Primeira coisa que você tem que olhar é se essa pessoa é sadia psicologicamente, tá certo? Então tem que ver o aclipo psicológico. E aí vem o segundo critério. O segundo critério é a honestidade e a sinceridade de quem se diz vidente. Tem que ver se essa pessoa está sendo sincera, está sendo honesta. Se essa pessoa não está com isso querendo fama, querendo lucro, querendo manipular a fé do povo.

Tudo isso porque Deus não contradiz a verdade nesse cérebro da mentira. Então tem toda uma investigação. Por isso é um processo lento, é um processo demorado. E ainda tem mais. Tem que se ver o conteúdo dessas aparições, tá certo? Ou seja, se esse conteúdo estiver contrariando o evangelho, jamais essa aparição pode ser aceita.

E isso inclui mensagens sobre o fim do mundo. Nem Jesus Cristo pregou um fim do mundo de maneira desastrosa, tá certo? Então a Igreja é monciosa, sobretudo quando se vincula algumas aparições a um partido político, a uma linha política, como o comunismo. Agora o comunismo é tomado de conta do Brasil. E tem também a quantidade de mensagens.

A igreja não vê com bons olhos a ideia de que Nossa Senhora fale tanto. O Papa Francisco, há um certo tempo, disse, foi assim, com tanta aparição no mundo, toda hora tem não sei quantas mil. Sabe o que o Papa disse? Vocês pensam que Nossa Senhora está sentada num birô, que não tem o que fazer, toda hora mandando bilhete. Então você vê que a igreja é muito ociosa, enquanto ela é encarregada de guardar o depósito da revelação. É ciosa, mas vai avaliar, né? Porque vai que...

E aí, quando a comissão termina de acompanhar o caso, o bispo então envia o caso para o Vaticano. E Roma dá a palavra definitiva. A congregação para a doutrina da fé que tem em Roma é o ministério da igreja, que tem um cardeal responsável como prefeito. É lá que tudo se decide. A Nossa Senhora de Anguera ainda está sob avaliação de Roma. Algumas avaliações demoram bastante mesmo.

mas em 2024, a arquidiocese de Feira de Santana, que é responsável pela área onde fica Anguera, ela divulgou uma carta sobre as aparições. Ela pede atenção e discernimento dos fiéis com relação às mensagens, principalmente as que questionam a autoridade do Papa. Sim, estava rolando isso. Porque alguns debates sobre a modernização da Igreja, que o Papa Francisco estava encabeçando, não estavam sendo muito bem recebidos por Nossa Senhora de Anguera.

Vou ler aqui um trechinho da carta da Arquidiocese de Feira de Santana. Queridos fiéis católicos, por esses motivos, dirigimos-nos a vocês com o desejo de orientá-los a fim de que não sejam, como ensina Paulo, apóstolo de Cristo, arrastados por qualquer vento de doutrina, ludibreados por esses presumíveis videntes e por eles com astúcia induzidos ao erro. Mais um trecho.

É questionável que Maria, a mãe de Jesus e da igreja, cale-se diante da crise ecológica, das guerras, da violência contra as mulheres, as crianças, do racismo, do consumismo, da miséria humana e da corrupção do mundo. Quem ignora esses clamores não é Maria, a mãe de Jesus e nossa mãe, e sim alguns videntes.

Eu fiquei pensando aqui que mesmo que a igreja tenha muita cautela com a quantidade de aparições de Maria, não dá para dizer que esse fenômeno não seja fruto da devoção que ela mesma incentiva. Ao longo do Novo Testamento, Maria é citada poucas vezes, mas ela aparece em momentos fundamentais da vida de Jesus Cristo.

no anúncio da gestação e no nascimento, por óbvio. Nas bodas de Caná, quando ela pede para Jesus resolver o problema da falta de vinho na festa de casamento, eu preciso dizer aqui que nesse ponto eu sou muito devoto de Maria, e ela aparece por fim na crucificação do filho. Nenhum livro explica o destino dela depois da ressurreição de Cristo. A igreja tem um dogma que diz que ela não teve um fim igual ao de qualquer mortal. É a Assunção de Maria.

Ao fim da vida, ela teria sido levada de corpo e alma para o céu. Foi só depois disso que ela se tornou uma mensageira do céu, falando diretamente para alguns escolhidos, fazendo as tais revelações privadas. Mas depois de fazer essa recapitulação de Maria na Bíblia com o padre Domingos, essa história de Maria anticomunista estava fazendo ainda menos sentido para mim.

Por que as mensagens que são espalhadas por alguns videntes, tipo Pedro Regis, mostram a Maria mais à direita que aquela que aparece na Bíblia?

Está lá no Evangelho de Lucas. Maria diz, minha alma engrandece o Senhor e exulta o meu Espírito em Deus, meu Salvador. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Saciou de bens os famintos e despediu ricos de mãos vazias. Você quer uma mensagem mais social que essa? É claro que Maria não é uma pessoa, enquanto tal, não foi uma discípula alienada de Cristo. Porque o Evangelho não é alienação.

O fato de a gente se preocupar com a plenitude da vida da pessoa, com a sua dignidade, inclusive a dignidade dos valores humanos, não significa dizer que a igreja está se politizando, não. A igreja está simplesmente fazendo jus ao Evangelho.

Para o padre Domingos, essa ideia de justiça, de igualdade, ela não é uma mensagem só para a vida após a morte. Jesus disse, eu vim para que todos tenham vida e a tenham plenamente. Então, vida plena não é só a vida no céu depois, não. A vida plena também nesse mundo é ter casa, ter comida, ter trabalho, ter educação, ter como se tratar. Então, a mensagem de Maria é como a mensagem do Evangelho como tal.

O evangelho todo tem uma mensagem política com P maiúsculo, não uma politiquinha com P minúsculo partidária. Mas toda mensagem do evangelho aponta para um compromisso cristão com o mundo. Todo mundo sabe que a igreja não é exatamente fã do materialismo marxista e que a recíproca é verdadeira. Mas isso não quer dizer que a instituição toda está alinhada com o conservadorismo ou mesmo com o liberalismo.

Existe até um documento, a Doutrina Social da Igreja, um documento oficial, que aplica os princípios religiosos à política econômica e social. Ele fala sobre direitos trabalhistas, sobre solidariedade, mas também sobre o papel dos empresários e da iniciativa privada. Mas o que chama a atenção no caso da Nossa Senhora Anticomunista é que esse discurso, que já existia em correntes dentro da Igreja Católica, está ficando mais visível e mais vocal.

Não sei se você reparou que está rolando uma onda de catolicismo cool. Tem os textos do Frei Gilson, que reúne milhões de pessoas para rezar de madrugada. Tem o disco da Rosalia, o Lux. Mas parte dessa retomada católica não tem jeito. Ela está alinhada com uma ala muito conservadora da igreja. E a interpretação das mensagens supostamente atribuídas à Nossa Senhora não são só anticomunistas.

Elas são anti qualquer coisa fora do conservadorismo, até mesmo dentro da igreja. Em Anguera, ela teria alertado por perigo de uma participação maior das mulheres no clero. Caminhais para um futuro de confusão e divisão. Eva ganhará poder e dará ordens a Adão. Em outro momento, Pedro Regis teria recebido uma mensagem de Nossa Senhora fazendo referências a Sodoma.

Sodoma, que na Bíblia, foi a cidade que foi destruída junto de Gomorra por causa da imoralidade sexual dos seus habitantes, mas que na leitura de muitos conservadores é praticamente uma alusão à homossexualidade. Os anjos de Sodoma virão à terra, e ai daqueles que vivem na imoralidade e na desobediência ao Senhor. Sofro por aquilo que vos espera. Arrependei-vos dos vossos pecados.

Essas são só algumas amostras do pacote conservador que empurra para o guarda-chuva do comunismo qualquer tipo de luta por igualdade. E como destacou a arquidiocese de Feira de Santana naquela carta, essa Nossa Senhora tem fechado os olhos para chacinas em favelas, para a fome, para a proteção integral das crianças, para o feminicídio.

Professor Magno, que a gente ouviu agora há pouco, ele também me chamou a atenção para isso, quando a gente estava falando sobre o tal sangue derramado que estavam nas mensagens de Nossa Senhora em Simbres e em Anguera. É interessante a gente pensar qual sangue foi derramado no Brasil nos últimos anos, se não foi o sangue da periferia, se não foi o sangue da população marginalizada, que é exatamente a população que não quer enxergar. Então, temos muito sangue derramado.

Mas não é o sangue que estão alegando, efetivamente. O professor Magno também acha que essa história de fim de mundo, como os videntes estão anunciando, ele não vai vir de nenhum comunismo imaginário. Pelo contrário. No meu entendimento, o sentido que nós podemos encontrar na religião é exatamente a má humanidade.

Não há nada mais humano do que amar a humanidade em toda essa diversidade. Infelizmente, o discurso e a apropriação que vem ocorrendo, que é algo que me preocupa muito, inclusive mostra o quanto nós estamos perdendo de humanidade. Talvez o caminho do colapso esteja exatamente aí. Usar um discurso que seria voltado para o amor para alimentar o ódio. Então, essa talvez seja a minha melhor preocupação.

Essa história foi produzida pelo Vinícius Luiz. A gente volta daqui a pouco. Oi, aqui é a Neka Setúbal. E aqui é a Sueli Carneiro. Esta semana, no Escute as Mais Velhas, a gente conversa com a educadora ambiental e ativista Rosália Lemos.

Eu comecei a refletir que a favelada fazia luta ambiental também, né? Só que a nossa luta ambiental não era uma luta em defesa do mico-leão dourado, em defesa da mata atlântica, da floresta amazônica. A busca por dignidade em territórios periféricos sempre foi um dos motivadores da Rosália.

A nossa luta era em defesa do saneamento básico, da água potável canalizada dentro de casa. Então era uma luta ambiental da pobreza, era uma luta ambiental da miséria.

E a Rosália também contou para a gente um pouco da trajetória dela dentro de uma das principais organizações pelos direitos das mulheres no Brasil, o Nizinga. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tietze Tubal, produzido pelo Estúdio Novelo, com episódio novo toda terça-feira. Siga o podcast no seu aplicativo de podcast favorito para não perder nenhum episódio.

Agora, para fechar o episódio de hoje, a gente quis revisitar uma história do baú do Rádio Novela Apresenta, de janeiro de 2023. Ela tem a ver com outra venerável senhora, que dessa vez apareceu não para algum jovem pobre e inocente, mas no meio da árvore familiar da jornalista Carol Pires. Quem foi puxar esse fio foi a Paula Escarpi.

O estudo da história, assim como todos os estudos, é dado a modinhas. E aqui eu estou falando de história com H maiúsculo. Teve a fase de estudar os grandes acontecimentos, a história dos vencedores. Depois alguém se tocou de que podia ser bem interessante mergulhar na história dos vencidos, dos que sobreviveram aos genocídios.

Aí teve uma tendência divertida de se debruçar na micro-história, uma história de um único moleiro na Itália no século XVI e o que a história daquele um cara ajudava a entender sobre a Inquisição. E teve uma modinha mais ou menos recente, que era de investigar a própria família.

Começava com essa coisa de entender quem era o avô, quem era o bisavô, e acabavam chegando a histórias incríveis, outras trágicas, então, sei lá. Essa é a Carol Pires. Carol Pires, sou jornalista e roteirista. E ela ficou interessada em entrar nessa modinha. Tinha esses meus amigos argentinos, que eram sempre de famílias de judeus, então chegavam também em lugares assim. E aí eu lembro de, nessa época, ficar pensando, né? Não tem nada na minha vida que eu posso investigar pra...

virar um livro, porque é tipo, todo mundo de Alexânia morreu ali a história. Minha família é muito latino-americana gabesca.

Gabesca de Gabo, o apelido do Gabriel Garcia Marques, o grande escritor colombiano, o maior expoente do realismo mágico. Foi aquilo, mas não foi exatamente aquilo. Não tem fundamento científico. Eles contam melhor do que foi. E tinha uma história espetacular sobre a família da Carol, que ela ouvia desde pequena. Acho que a minha mãe sempre dizia essa coisa de que sua bisavó está no livro dos recordes como a mulher mais velha do mundo.

Eu nunca dei muita bola, porque eu acho que eu fiz uma pesquisa rápida, tipo, no Google, mulher mais velha do mundo, e era, sei lá, uma indiana. Não era a minha avó. Mas era uma lenda familiar. É uma lenda familiar, e ela sempre mencionava isso, ou então minhas tias. Mas elas têm pouca informação sobre a própria família. Então, a minha avó, mãe da minha mãe, se chamava Maria. Só que ela morreu quando minha mãe tinha uns sete anos.

E a minha mãe não sabe o sobrenome dela, então ela é Maria Pires, porque meu avô era Miguel Pires. Mas a gente não sabe qual é o sobrenome original de solteira dela. Quando eu comecei a investigar, era março de 2017. Perguntei pra minha mãe se ela tinha certidão da avó Maria, ela disse que não. Ok, a família da Carol é dessas muitas famílias brasileiras que nem tem como ter grandes árvores genealógicas.

E também tem essa história que minha mãe sempre conta, de que minha avó foi pega no laço numa tribo e tal. Então tem essa minha avó indígena, que a gente não sabe exatamente se era minha avó, se era minha bisavó, quem era realmente indígena que morava em tribo antes de morar em cidade. Mas essa família indígena que eu não consigo terminar de descobrir. Os registros são escassos. E a família da Carol, digamos, tem uma relação diferente com a memória.

Lembra, a Carol é jornalista. E no jornalismo a gente trabalha com checagem, com documentos para embasar. Era tudo que a família dela não tinha. A mãe dela não tinha nem a certidão de nascimento da avó. Mas se essa bisavó dela tivesse ido parar em alguma edição do Guinness, no livro dos recordes, não devia ser tão difícil assim de achar.

Daí eu decidi investigar a história, se ela tava ou não no livro dos recordes. Você sabia o nome dela, o que você sabia, como você podia procurar? Eu sabia que o nome dela era Delfina, e eu acho que ela, na época, minha mãe só sabia um dos sobrenomes dela, que eu não lembro se era Freire ou da Costa, que é Delfina da Costa Freire. Então eu comecei a pesquisar isso de mulher mais velha, não lembro agora o tipo de busca que eu tava fazendo na Biblioteca Nacional,

Até que eu achei essa história da mulher que morreu com 154 anos, que era a Delfina da Costa Freire. Que era de quem minha mãe sempre estava falando. Aí eu fiquei enlouquecida. Mas não era possível. Porque 154 eu nunca ouvi falar. Já ouvi falar em 120. Sim, a idade nunca fez muito sentido. Vamos ver. Lista das pessoas mais velhas do mundo.

Fala aqui de uma francesa que morreu com 122. Acho que isso é uma lista mais crível, né? Uma americana com 119, uma japonesa que ainda está viva com 118. Outra japonesa com 117. É por aí. Acho que é isso. Máximo 122.

Você tinha achado a primeira vez num livro ou num jornal? Folha de Goiás. Era um jornal de Goiânia. Primeiro eu achei a matéria, aí tinha o nome de um jornalista assinando. Então eu liguei para um amigo em Goiânia.

perguntando se ele conhecia esse jornalista. Ele não conhecia, mas lembrava o nome, que era da velha guarda, assim. E aí descobriu que ele já tinha morrido. Mas aí, então, eu entrei em contato com a família do jornalista que me disse que talvez o fotógrafo soubesse. E aí fui atrás do fotógrafo. E também não... Acho que o fotógrafo eu não consegui encontrar. Isso aí, o que eu fiz? Na época, eu contratei um pesquisador lá em Goiânia.

pra ele tentar achar os arquivos desse jornal, que era um jornal que não existia mais. E aí ele chegou lá numa semana, eles iam queimar todo o arquivo desse jornal. E ele foi e falou, olha, consegui, e consegui pegar o original, porque eles iam queimar. E deram pra ele o original? É, eu vou ler aqui.

A Carol estava com uma cópia digitalizada dessa reportagem no celular dela. Diz, José Luiz foi o recenseador que entrevistou a senhora Delfina da Costa Freire, viúva, residente na zona rural de Alexânia. A senhora Delfina, por sua vez, seria simplesmente uma das tantas pessoas entrevistadas para efeito da realização do oitavo recenseamento geral do Brasil. Não tivesse o recenseador procurado descobrir a sua idade, que a anciã ignora por completo.

Gente velha não sabe nada, diz sempre. José Luiz procurou descobrir algum documento de identidade e encontrou seu batistério. A data do nascimento estava bastante clara. 12 de abril de 1816. Isso era um jornal de 1970, né? Quase mecanicamente, fez a anotação no formulário.

Só então se dá conta de que está diante de um caso fantástico. A mulher brasileira, que presta as informações para o censo, tem nada menos do que 154 anos. O recenseador acautela-se, examina mais detidamente o documento, mas a data está firme. Não houve engano. Dona Delfina é a pessoa mais idosa de todo o recenseamento.

Só do recenseamento não, meu senhor, que eu fico besta com isso. Como assim, gente? Se o registro da pessoa mais velha gira em torno de 120 anos, como é que dá pra engolir alguém que viveu mais três décadas? Mas tá, o recenseador também não comprou informação assim de pronto. Ele foi puxar um outro documento pra comprovar.

Na paróquia de Santa Luzia de Lusiânia, entretanto, o livro de batismos, os números 6, as folhas 65, está lá o registro do batismo. Dona Delfina nunca fumou. Gosta de cheirar rapé.

Ou seja, é da minha família mesmo. E a propósito, se queixa de que os netos não deixam parar um pedaço de fumo dentro da sua casa. Por suas mãos já passaram muitas gerações. Era parteira renomada, conhecida em toda a região. Até hoje, ministra os remédios para os filhos e netos. Tudo na base de raiz ou de ervas do campo, pois nunca tomou uma gotinha sequer de remédio de doutor.

Não conhece injeção, vacina, nunca viu televisão nem telefone e não sabe o que é jardineira. Para as doenças, porém, tem sempre uma receita. Se for dor de cabeça, tome chá de folha de laranja. Para gripe, limão fervido. Para queimaduras, emplastro de mastruz. Agora diz, se for mal-olhado, nada melhor do que três ave-marias rezadas enquanto se faz três cruzes com raminhos verdes. E para se viver 150 anos, pergunto-lhe, Ah, meu filho, isso eu não sei, é só Deus.

Depois que saiu essa matéria e os outros jornais descobriram, começaram a ir lá para a Alexânia gravar a Delfina e fazer reportagem. E que aí o padre da cidade foi lá e levou a Delfina numa missa. Então ela virou uma celebridade no mundo e tal. Uma celebridade no mundo. Porque a lenda familiar não parou por aí. Ela teve uma reviravolta.

E aí aparece que ela fez uma viagem aos Estados Unidos, isso eu nunca consegui encontrar, mas que ela teria sido levada para os Estados Unidos. E a teoria é que lá nos Estados Unidos, como ela comeu besteira, hambúrguer e não sei o quê, ela morreu no ano seguinte.

Porque a teoria não é essa, sempre morou no mato, só comia coisa natural da horta, não sei o que. Levaram ela pros Estados Unidos e ela ficou meses lá comendo coisas que ela não tava acostumada. E passou um ano e ela morreu. E realmente ela morreu depois de um ano. Envenenada. Assassinada pelo McDonald's. A Carol até achou referências à Delfina em jornais americanos.

Aí fala no Los Angeles Time. Woman is 154 dies in Brazil. E nunca falava, fazia nenhuma menção a essa viagem. Não, não achei nada disso de que ela teria ido lá ou, sabe?

As notícias da morte eram de junho de 1971. Ou seja, se a Delfina nasceu em abril de 1816, ela teria morrido com 155 anos. Nessa altura, Carol estava viciada na investigação. E ela descobriu que a Delfina teria aparecido no Fantástico da Rede Globo.

Então eu fui atrás, claro... Ela escreveu para o acervo da Globo, pedindo para ver essa reportagem. Eles ficaram um tempo procurando isso no acervo deles, e aí eles me responderam. Olá, Carol, boa tarde. Infelizmente, não dispomos da reportagem no acervo. Pode ter se perdido no incêndio. Tinha tido incêndio na Globo décadas antes, e parece que a reportagem da bisa da Carol virou fumaça aí.

Jornal queimado, fita queimada. Era como se tivesse uma conspiração mundial pra pagar as provas de que a bisavó da Carol tinha sido a mulher mais velha do mundo. Mas tinha alguma coisa nessa história que não tava batendo. Sua mãe lembra dela, né? Tipo, sua mãe... Não, minha mãe é de 66. Ah, então ela é muito novinha. Minha mãe é de 66, vamos lá. Sua mãe é de 66. Pera, deixa eu pegar o caderno.

Eu vou te poupar dessa nossa matemática estabanada e resumir rapidinho. Quando a Carol olhava as datas de nascimento da mãe, da avó e da bisavó, a conta não fechava. Então, a Joana nasceu em 1966. Isso. E minha avó morreu em 1973.

Ela chama Maria? Maria. Maria morreu em 73. A minha mãe não sabe quantos anos a minha avó tinha quando morreu, porque lembra que a gente não tem documentação sobre ela. Mas a minha avó tinha, no máximo, uns 40 anos. Porque senão ela não teria tido filho. Sim. Então pensa aqui. A minha avó Maria deve ter nascido... Em 33. Em 33.

No máximo 33. É isso, as contas, nenhuma conta bate. Então tem que ter, entendeu? Tem que ter uma geração entre a Delphine e minha avó. Eu fiquei muito tempo nesse limbo de entender que não fazia sentido ela ser minha bisavó se ela nasceu em 1816. Ela teria que ser minha tataravó mínimo, assim. Dando um... Vidas bem longas. Vidas bem longas e gravidezes tardias.

Então essa matemática eu nunca fechava. E eu não conseguia avançar porque eu não sabia os nomes da avó Maria. Mas aí a Carol continuou procurando. E quem procura, a gente sabe, corre o risco de encontrar. Aí foi isso. Aí eu fui refazer minhas pesquisas para ver se eu tinha deixado passar alguma coisa e para organizar tudo direito. E aí eu achei uma reportagem que fala.

Também se pensou ter sido descoberta a mulher mais velha do mundo, Delfina Freire, de Alexânia Goiás. Mas ela tem só 97 anos. Havia apresentado por engano a certidão de nascimento de sua mãe, datada de 1816. Antes que fosse descoberto o equívoco, ganhou muitos presentes e sua casa foi reformada, numa campanha dos diários associados.

A Delfina não foi a mulher mais velha do mundo. Aquela que nasceu em 1816 não era bisavó, era tataravó da Carol. No mínimo tataravó, na verdade, porque, seguindo a matemática, a Delfina mãe teria tido a Delfina filha aos 57 anos. Isso no século XIX. Era mais provável que uma Delfina fosse a avó da outra. Eu fiquei tão passada com essa reviravolta que o primeiro comentário que eu pensei em fazer pra Carol foi e...

Eu tô pensando que, tipo, Delfina era muito mais apegada a documento do que a sua mãe. Ela guardou da mãe dela. Ela guardou da mãe dela.

Sim, mas aí o que aconteceu? Quando eu descobri isso, eu contei isso pra minha mãe e pedi pra ela não contar pra ninguém. Eu fiquei um pouco com pena de desmanchar a história, de dizer pra elas que não existe. Eu tava checando no Gabriel Garcia Marques, assim, pra checar, fact check. Fact check no realismo fantástico. Não choveu, besouro, nada, assim. Tipo, qual a chance de aparecer uma pessoa que nem a Carol?

nem falar, peraí, deixa eu pegar esses acervos. Tem isso, assim, eu sou um ponto fora da curva da minha família materna, né? Antes de mim ninguém tinha feito faculdade, enfim, eu morei fora, outra cabeça, assim, eu sou jornalista, né? Então, ah, eu achei sacanagem falar pra eles.

A Carol tinha embarcado nessa missão investigativa para tentar honrar, enriquecer a história da família dela. E ela usou todas as ferramentas que a formação dela tinha dado. Finalmente, a família ia sair do terreno do realismo fantástico e ia entrar para o mundo do jornalismo. Se desse certo, ela podia reivindicar para a dinastia Pires a glória da longevidade suprema. Mas não foi isso que rolou. Depois que eu descobri que ela não tinha, eu fiquei tão mal.

Porque eu acho que era melhor ter ficado o mistério do que era. Ou não, não sei. Você sempre foi mexendo esse negócio. Você podia ter só acreditado. Mas não é a sua cara. É. Essa foi a Paula Escarpi.

Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Quinta-feira, você sabe, é dia de episódio novo por aqui. A menos que você seja membro do Clube da Novelo. Nesse caso, o episódio chega antes, ainda na quarta. Fica aqui um trechinho do que você vai ter por aqui na semana que vem. E aí, às quatro horas, meu filho, aquele troço tremeu.

que a nossa entrada era uma coisa louca, eram bombas, eram aviões. Menino, era um ano de meia hora, o telefone não parava.

Se você quiser conhecer os outros benefícios do Clube da Novelo, todas as instruções estão lá no nosso site. Já te adianto que quem assina o plano anual ganha uma bolsa belíssima. A gente volta já já.

Bom crepúsculo, ouvintes da Rádio Novelo. Meu nome é Matias Pinto. E eu sou Felipe Figueiredo. E juntos nós fazemos o Xadrez Herbal, a sua revista semanal de política internacional em formato podcastal. E a gente sabe que é um pouco longo, mas é para você ouvir durante toda a semana e ficar atualizado. E você pode nos acompanhar em todos os agregadores. Então se inscreva no feed do Xadrez Verbal.

Na página desse episódio, no nosso site, tem links para toda a pesquisa mariana em que o Vinícius Luiz teve mergulhado nos últimos meses, além de imagens belíssimas das diferentes Nossas Senhoras. E tem também as reportagens sobre a dona Delfina, a Bisa da Carol Pires. Para quem é de redes sociais, a gente é facilmente encontrável no arroba Rádio Novelo, no Instagram, YouTube, Twitter, Treads, Blue Sky e TikTok.

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O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Escarpim e da Flora Thompson Devoer. A direção executiva é da Marcela Casaca. E a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Jäger.

Nossos repórteres e roteiristas são o Vitor Hugo Brandalize, a Carolina Moraes, a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, a Bárbara Rubira e o Vinícius Luiz. Os nossos treinis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Vallejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Ethel Rudinitsky e pela Marcela Ramos.

Esse episódio teve montagem e desenho de som do Amon Medrado, da Bia Guimarães e da Paula Escarpim e a mixagem da Mariana Leão e da Bia Guimarães. Nesse episódio, a gente usou música original de Chico Correia e também da Blue Dot. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Taina Nogueira e o nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães.

Obrigada e até a semana que vem.