Sob sanção
Uma ilha verde-e-amarela e uma menina num quarto.
No primeiro ato: uma cidade iraniana e um país, separados pela Pangeia. Por Roberto Kaz.
No segundo ato: dois diagnósticos e a prova do real. Por Carolina Moraes.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep175
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Palavras-chave: futebol, seleção, irã, sanat naft, transtornos mentais, doenças crônicas, Lygia Clark, Nise da Silveira
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Carolina Moraes
Mayra Vallejo
Mirelle Moraes Sanches
Roberto Kais
- Sancões dos EUA ao IrãGeopolítica das sanções · Futebol no Irã · Cultura brasileira no Irã
- Saúde MentalPsoríase · Transtorno bipolar · Impacto emocional de doenças
- Histórias Pessoais e de ViajantesMemórias de infância · Relação com a família
- Desenvolvimento CulturalLigia Clark · Nise da Silveira
- Relações comerciais e diplomáticas Brasil-IrãFutebol brasileiro no Irã · Cultura brasileira no Irã
Rádio. Rádio. Rádio. Rádio. Novelo. Bem-vindo ao Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. A gente estava conversando esses dias aqui na Novelo sobre linguagem. E sobre o pequeno milagre que é a gente conseguir, ainda pequenininho, internalizar as regras desse jogo maluco de comunicação.
Isso na nossa língua nativa, sem falar nas línguas que a gente aprende mais tarde na vida. E tem palavras que fazem a gente duvidar se a gente aprendeu mesmo as regras. Do tipo sanção, a palavra que está no título desse episódio. A gente pensou nela por causa das sanções ao Irã, à Cuba, à Rússia, por parte dos Estados Unidos e outros países. Nesse caso, quando você impõe uma sanção, é um castigo.
Só que quando você aprova uma lei, isso também é uma sanção. Ou seja, sanção pode significar, dependendo do contexto, aprovação ou castigo. No WISE, quando você busca sinônimos da palavra, está lá, validação. E quando você vai ver os antônimos da palavra, ou seja, aquilo que quer dizer o contrário dela, também diz validação.
Faz sentido de um jeito meio torto, né? Tem castigo, que é validação, e tem validação, que é castigo. A língua tem as razões dela, afinal. No episódio de hoje, a gente vai visitar dois territórios sob sanção. Sob sanção geopolítica, diplomática mesmo, e sob sanção mais metafórica também.
Quem vai atravessar essa primeira fronteira depois de um intervalinho rápido é o Roberto Cais.
Oi, aqui é a Carolina Moraes, da Rádio Novelo, e eu tô aqui pra te fazer um convite. No ano passado, eu, a Natália Silva e a Bia Guimarães passamos meses mergulhadas numa investigação sobre uma nova ameaça ao acesso ao aborto legal no Brasil. O que disparou essa investigação, e que virou uma série chamada Sala de Espera, lá no feed do Rádio Novelo Apresenta, foi o fechamento de um serviço de referência, o do Hospital Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.
Depois de meses num embate jurídico, esse serviço acabou de ser reaberto, mas as ameaças ao aborto legal continuam pairando. Por isso, nós três resolvemos nos reunir para uma live no nosso canal no YouTube no dia 28, uma terça-feira, às 8 horas da noite. A gente vai conversar com os especialistas Romina Margarita Ramui e com o Rodolfo Pacanella para falar um pouco sobre a nossa série e entender o que está em jogo agora nessa disputa.
É só procurar por Rádio Novelo no YouTube e se inscrever para não perder a conversa. A gente te espera lá. Antes de mais nada, eu preciso te contar uma coisa. Eu tenho Tara, o taxista. Não no sentido bíblico, é mais no filosófico. Esse caos que eu vou contar rapidinho, antes de pular para o que interessa,
atrás. Era uma segunda-feira bem cedo no Rio de Janeiro. Eu tava num táxi na Praia do Flamengo a caminho do aeroporto Santos Dumont. Papo vai, papo vem, o taxista me conta possesso do drama que ele tinha vivido no fim de semana. Pega a visão. Almoço de domingo, ele, a esposa, a filha e o namorado da filha. Clima tenso, porque o namorado da filha, recém-apresentado, tem aquela profissão que não pode ser pronunciada.
Ele é motorista de Uber. Hoje em dia, táxi e Uber conseguem viver em relativa paz. Mas naquela época, quando o armistício ainda não tinha sido acordado, a história era outra. Os taxistas faziam carreata pela cidade, fechavam o trânsito, chegavam até a bater na concorrência. Então era esse o contexto geopolítico daquele almoço em família.
O taxista, um sujeito de 60 anos, me contou que ele tava segurando as pontas pra aguentar a escolha amorosa da filha. E ele segurou, até o momento em que a filha e o rapaz se despediram. Aí, pelo relato dele, deu-se o seguinte diálogo. Taxista, como vocês vão embora? Filha, não sei. Esposa do taxista, chama um Uber. Sim! Uepa!
O sujeito se enfureceu, lembrou que tinha um ponto de táxi logo ali na esquina e deixou claro que, na casa dele, não era de bom tom, pediu um Uber. Claro, tudo isso uns 50 decibéis acima. E aí ele me disse uma frase linda, que eu guardo até hoje no coração, porque parece saída de uma peça do Nelson Rodrigues. Na minha casa, todo mundo tem sangue amarelo. Eu perguntei, sangue amarelo? E ele, é.
Sangue amarelo com faixa azul. São as cores dos táxis no Rio. Dá pra entender a minha tara, não dá? Mas a história que eu quero contar hoje é outra. E o que une as duas é só o fato de que ela também começa num táxi. Mas um táxi no Irã. O ano agora é 2022. Eu tava no Irã de férias com a minha irmã, a Ana, visitando a Clara Becker, uma grande amiga minha, que é casada com um diplomata.
Aliás, como eu sou judeu, eu só consegui entrar no Irã porque essa minha grande amiga é casada com um diplomata. Eu já tinha pedido visto por conta própria, sem a ajuda da embaixada, e ele foi negado. Mas enfim, eu tava lá com a minha irmã, a Ana, dentro de um táxi na cidade de Shiraz, que fica no sudoeste do país. Dessa vez, o papo vai, papo vem, era entre o taxista e a tradutora. A coisa ia calma até o homem descobrir de onde a gente vinha.
Do nada, ele ficou exultante e começou a repetir muito uma palavra, Abadã. Eu perguntei o que estava acontecendo, e a tradutora disse que Abadã era uma cidade, também no sudoeste do Irã, onde todo mundo era louco pelo Brasil. Chegando no hotel, eu fiz uma pesquisa básica, e aí entendi o seguinte.
Não só a cidade de Abadã era louca pelo Brasil, como o maior time de futebol da cidade, o Sanat Naft, tinha um uniforme idêntico ao da seleção. As imagens das poucas reportagens que eu achei na época mostravam homens iranianos vestindo camisa, chapéu e até uma túnica, feita com a bandeira do Brasil. Eu também fiquei fascinado com uma foto de uma mulher toda de preto, só com a cara descoberta, segurando uma faixa verde, amarela e azul com o nome do Brasil.
No dia seguinte, era um 12 de maio, eu escrevi para minha amiga, a Clara, perguntando se ela conhecia aquela macondo brasileira no meio do deserto. Ela disse que nunca tinha ido, mas contou que todo embaixador brasileiro tinha uma certa obrigação moral de visitar a cidade. Parece que ele é recebido tipo rei, assim, tipo Pelé, o embaixador do Brasil. Aí todo embaixador do Brasil aqui faz visita lá.
A Clara e o marido dela, o Felipe, me colocaram em contato com algumas pessoas que pudessem me ajudar a chegar lá. Uma delas era um agente de jogador de futebol chamado Nematola Raj. Ele falava um português fluente, possivelmente por já ter negociado jogadores do Brasil. Olá Roberto, bom dia!
Deixa eu te falar, amigo. Eu estou inteirado. Não sei quando você ia chegar em Abadã, né? Aliás, eu sou de Abadã. Eu sou Abadã Berzilhete de verdade. Abadã Berzilhete. Guarda essa expressão que ela vai ser muito importante daqui a pouco. O Nema também me falou que o dia que eu estava planejando passar lá, numa quarta-feira, ia ser ruim por causa de uma tempestade de areia.
Mas aí ele me deu a informação mais preciosa que eu podia receber. Quinta-feira tem jogo Naftabadan contra Meskerman. Se você estará em quinta-feira em Abadan, eu consigo arrumar para você o VIP do estádio para você assistir jogo e ver de verdade. Todo mundo com bandeira do Brasil e a roupa do brasileiro, seleção brasileira.
Eu resolvi estender a viagem por mais um dia, claro. No Irã, é difícil encontrar quem fale inglês, e é impossível pagar qualquer coisa com cartão de crédito, por causa do boicote internacional. As passagens e os hotéis são reservados da mesma forma que faziam os sumérios, lá pelos idos do milênio passado, através de um agente de viagens. A gente definiu as datas certinho e chegou em Abadão uma semana depois, na noite de quarta-feira, 18 de maio.
Não sei se é porque estrangeiro é tão incomum por lá, mas nossos nomes, na passagem, estavam assim. Roberto Brasileiro e Ana Brasileira. Eu quero fazer um pequeno parênteses aqui pra explicar o que é Abadã. Seria tipo alguém visitar o Brasil e decidir conhecer Volta Redonda. E essa comparação nem é muito absurda.
Em primeiro lugar, porque Abadam não é especialmente pitoresca, histórica, nem é uma das maiores cidades do Irã. São 230 mil habitantes, que é um pouco menos que os 260 mil de Volta Redonda. E em segundo lugar, porque toda a economia de Abadam gira em torno de uma enorme refinaria de petróleo. Um pouco como acontece com a CSN, a Companhia Siderúrgica Nacional, ali em Volta Redonda.
Aliás, em farce, sanat naft, o nome do time, significa indústria de petróleo. Sanat, indústria. Naft, petróleo. O símbolo do time, dois arcos com uma chaminé no meio, é idêntico ao da refinaria. Tudo isso para dizer o seguinte.
O nosso Cicerone, em Abadã, dirigia um Cadillac daqueles americanos dos anos 50, um Chevrolet Impala, que devia beber mil litros de gasolina por quilômetro rodado. E o primeiro ponto da cidade que ele quis que a gente conhecesse foi justamente a refinaria de petróleo. Eu lembro também que tinha um museu, né, Beto? Que era o museu do petróleo. Essa é a Ana, a minha irmã, numa conversa que a gente teve recentemente para tentar relembrar a viagem.
E tinha lá um museu pequenininho numa casa ali ao lado, que contava a história do petróleo. Um dos pontos turísticos que o imã levou a gente era o primeiro posto de gasolina do país. O imã é o imã Spergman, o nosso Cicerone nos dois dias que a gente passou em Abadã. Uma figura de uns 50 anos que guiou a gente no 0800 por puro amor ao Brasil.
Antes mesmo da gente chegar, ele me encaminhou um texto, em inglês e fars, que dizia assim. Nos encontraremos às nove e meia no estacionamento do Naft Cinema, para um dia memorável com a presença de Roberto Brasileiro. Era assim que ele me chamava. E estimados membros do Grupo Cultural de Turismo Merrazi Abadam e Koramshar, além de professores e amigos.
Estamos orgulhosos dos amigos turistas que viajam ao Abadã para conhecer museus e realizar pesquisas científicas. O texto terminava com um emoji de agradecimento e outro de coração. Bom, mas voltando aqui ao percurso. Depois de visitar a refinaria, o posto de gasolina e o museu do petróleo, o Iman levou a gente para uma pracinha simpática no centro da cidade.
A praça tinha um coreto pintado em verde e amarelo, com uma bandeira do Brasil e um escudo do Sanat Naft no topo. Uns dez homens estavam esperando a gente, todos entre 40 e 70 anos, que eu interpretei como sendo uma espécie de, sei lá, velha guarda de torcedores do Sanat Naft. Rolou uma conversa sobre o Francisco Marinho, lateral esquerdo da seleção da Copa de 74. Rolou um discurso comemorativo.
E rolou uma explicação bem científica sobre a origem da ligação entre o Brasil e Abadã. Ele está dizendo que o Brasil era parte de Abadã num passado remoto, mas que, acidentalmente, os dois territórios teriam se separado. E o que sobrou foi o sentimento incomum. Na hora, eu pensei na Pangeia e concordei.
Ainda que, mesmo na Pangeia, os dois países ficassem um tantinho distantes um do outro. A verdade é que não tem uma explicação de consenso sobre esse parentesco inusitado. Me falaram que a seleção brasileira teria visitado Abadã, o que não é verdade.
O que aconteceu, isso sim, foi uma visita do Pelé, com o Santos, para jogar um amistoso em Teheran, em maio de 72. Aqui tem um vídeo que perguntam para ele se ele acompanha o futebol iraniano. Eu sempre ouço falar futebol de todo mundo, mas eu não posso acompanhar de perto, como esportista. De perto eu não posso ver.
Meu palpite é de que Abadam já estava encantada com a seleção brasileira campeã de 70, naquela que tinha sido a primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo e a cores. E aí, com a ida do Pelé ao Irã, foi juntar 2 mais 2 e correr pra homenagem. E deve ter sido nessa que surgiu o grito de guerra. Abadam! Bérezilhete! Abadam! Bérezilhete! Abadam! Bérezilhete! Abadam é o Brasil.
No segundo dia da nossa visita, o Iman levou a gente para conhecer uma lanchonete chamada Brasília, em um restaurante que tinha dois relógios na parede, um corário do Brasil, o outro com diabadã. Ele também mostrou para a gente vários cantos da cidade, uma sorveteria, um stand no mercado de peixes, um muro numa rua vazia, que tinham alguma referência à bandeira do Brasil.
Na sorveteria, um dos sabores era uma mistura de açafrão com pistache, que deixava o sorvete com as cores verde e amarelo. E o dono dessa sorveteria, que é o Akbar, ele pediu para a gente gravar um vídeo para promover e colocar no Instagram dele, que a gente falava Ice Cream Marraquim, que Marraquim é o nome da sorveteria. E na Badam, I love you Akbar, Brasil. Era esse o script.
De lá, o Iman levou a gente pra uma rua perto do estádio, que era ponto de encontro da torcida antes do jogo começar. Tipo a barreira do Vasco, numa versão menor, sem cerveja, já que o álcool não é permitido no Irã, e sem pagode. Mas em compensação, tinha essa música aqui. Eu sei que é meio difícil, mas tenta imaginar que todo mundo que tá dançando isso tá usando camisa verde e amarela.
Aliás, quando eu digo todo mundo, eu tô me referindo a homens e meninos. As mulheres não podiam se juntar. Tenta imaginar também que tem um freezer desses horizontais de chão plotado com duas fotos lado a lado. Uma dos jogadores do Sanat Naft e outra da seleção brasileira de 70. Essa imagem tá lá no post desse episódio no site da Novelo. Junto com o vídeo pra quem quiser acompanhar o meu gingado persa.
E dali, desse esquenta, a gente seguiu para o estádio. Inclusive, eu acompanhei o Beto até a entrada do estádio, e depois dali para frente não pude passar. Mas mesmo na entrada, eu lembro de chegar um cameraman e um repórter chegando com a câmera que eles queriam me entrevistar.
E a guia tava super me incentivando, falando, ah, go talk to them, fala com eles, fala com eles. E eu fiquei meio confusa, nervosa, sem entender, eu falei, não, não, não quero falar não, valeu. E depois ela falou, você devia ter falado com eles, é pra maior transmissão nacional do canal de esportes, todo mundo assiste esse canal, você devia ter falado. E eu pensei, sendo maior, canal do Irã, é aí que eu não quero falar mesmo, tipo. A gente tinha umas preocupações com a ideia de aparecer na TV.
Em primeiro lugar, porque eu sou jornalista, e o Irã não é lá um oásis da imprensa livre. Em segundo lugar, porque a Ana é mulher, e as mulheres têm muito menos direitos no Irã. Aliás, quando a gente foi pra lá, não fazia nem três anos que as mulheres tinham sido permitidas dentro de um estágio, pra ver um jogo da seleção nacional, depois de quase quatro décadas de proibição. Mas enfim, nesse dia a Ana voltou pro hotel com a tradutora, e eu entrei no estádio com o Iman.
Lá dentro, o imame fez conhecer os cartolas do time. E um desses cartolas levou a gente para o vestiário para conhecer os jogadores. Eu cheguei bem na hora da preleção, que é quando o treinador faz aquele discurso motivacional, sabe? A diferença, em comparação com o Brasil, é que a preleção não terminava com o pai nosso, e sim com todos os jogadores e comigo, colocando a mão ao mesmo tempo sobre o Alcorão.
Enfim, depois desse momento, eu segui com os jogadores pelo túnel de entrada. Eu entrei com eles no gramado. O estádio era pequeno, devia ter, sei lá, umas mil pessoas ali. Atrás do gol tinha um mural bem grande, com uma imagem do antigo Ayatollah, o Hulolá Komeini, morto em 89, e outra do Ali Kamenei, que foi assassinado agora, em 2026, por Israel e pelos Estados Unidos.
O jogo, afinal, não era contra o Meskerman, como Nema, aquele agente, sabe, tinha falado, mas contra o Mesk Rav Sanjão, um time meio novo patrocinado pela indústria do cobre. Ou seja, era petróleo contra cobre. No começo do jogo, eu fiquei sentado no banco de reservas com o resto do time e depois subi para a tribuna com os cartolas.
Do lado da tribuna, na arquibancada, estavam os amigos que eu tinha feito naquela tarde na barreira do Vasco. Quer dizer, o Sanat Naft. Quando eles me viram, começaram a gritar. Roberto, Roberto. E depois. Roberto é Brasili. E depois eles voltaram para o grito de guerra tradicional.
Bem que a Clara, a minha amiga, tinha avisado, brasileiro em abadã se sente rei. Mas eu também me senti um pouco Mick Jagger, já que o jogo terminou em 2x0 para o time de fora. No outro ano, o Sanat Naft acabou caindo para a segunda divisão.
Na manhã seguinte, a gente foi embora de Abadã, a bordo de um bimotor MD-82, que tinha até cinzeiro no braço da poltrona. Isso é um capítulo à parte no Irã. Também por causa do boicote internacional e da crise financeira, o Irã virou um ponto de desova de aviões que são antigos, mas que ainda conseguem voar. O MD-82, por exemplo, deixou de ser fabricado em 1999.
Lá eu também voei num British Aerospace 146, que não é produzido desde 2003, e num A300, o primeiro avião da Airbus, que saiu de linha em 2007. Pra quem é doido por aviação que nem eu, aquilo ali era um paraíso perdido. E tinha mais uma coisa interessante.
Como o passaporte iraniano é boicotado nos Estados Unidos em boa parte da União Europeia, as revistas de bordo tinham anúncio de como obter um passaporte de outro país. Eu tenho foto disso também, que eles vendiam, eram passaportes, nacionalidades. Tinha os países assim, mais ali da Oceania, aquelas ilhas, Piquiribá, Tito, Valú. Eu fui checar as fotos da Ana e as ilhas que ofereciam cidadania, na verdade, eram Vanuatu, na Oceania, e Dominica, no Caribe. O anúncio dizia assim.
Conquiste seu segundo passaporte e viaje para um mínimo de 130 países. Eu não sei qual era o processo, se seria uma lógica quase meio de visto gold, sei lá. Depois de deixar o Irã, a gente ainda manteve contato com algumas pessoas de lá. O Iman, de vez em quando, escrevia para mandar foto das intervenções artísticas que ele fazia na cidade. Ele pintou uma bandeira do Brasil no piso de uma ponte, outra no portão.
O Reza, que eu conheci durante o jogo, me escreveu para contar que um dos principais edifícios, o Metropol, desabou logo depois que a gente foi embora, matando 43 pessoas.
E a Ana troca ideia até hoje com a Faese, uma moça que ela conheceu em Esfarrã. A Faese que foi uma amiga que quando a gente estava passando por uma... A gente estava andando em cima de uma ponte pedonal, que tinha muitas pessoas lá, muitas famílias. E várias pessoas falavam pra gente, bem-vindos ao Irã. E falavam alguma frase ou outra assim em inglês. E teve essa menina que se aproximou da gente e começou a trocar mais uma ideia. Realmente começou a conversar, perguntando de onde a gente era.
A gente marcou de contra a Faese para tomar um sorvete no dia seguinte. Ela trouxe para mim de presente um quadrinho que ela tinha pintado com um retrato meu. Era a última foto que eu tinha postado no Instagram, que tinha umas flores rosas atrás. Ela fez esse retrato, desenhou. Tenho aqui o quadrinho, peraí, deixa eu pegar. A Ana falou com ela pela última vez no fim de fevereiro de 2026, logo antes dos primeiros bombardeios.
Ela respondeu há umas duas semanas só dizendo que está muito triste com a situação toda, enfim, e dizendo que está com pouco acesso à internet. Eu também mandei WhatsApp para os meus contatos em Abadã nessas últimas semanas. Nenhum deles recebeu as minhas mensagens. Sei que a cidade foi bobageada e que ela tem uma importância estratégica numa guerra por ter uma das maiores refinarias do país.
Tanto é que Abadã foi invadida pelo Saddam Hussein, lá nos anos 80, assim que começou a guerra com o Iraque. Aliás, naquele período a refinaria fechou, a população fugiu e o time do Sanat Naft migrou para Shiraz, aquela cidade onde essa história começou, no táxi, lembra? O Sanat Naft só voltou para Abadã em 88, com o fim da guerra Irã-Iraque.
E agora o time está há mais de um mês parado por causa dessa nova guerra que só faz sentido para esses dois psicopatas que planejaram ela, um em Israel e o outro nos Estados Unidos. E não é só o Sanat Naft que está parado. A seleção iraniana corre o risco de não jogar a Copa do Mundo desse ano, que vai ter três sedes, uma delas nos Estados Unidos. E pensa no seguinte, a Rússia foi suspensa de todas as competições da FIFA depois de bombardear a Ucrânia, né?
Mas a FIFA não quer nem saber de incomodar os Estados Unidos por jogar bomba no Irã. Ou por sequestrar o presidente da Venezuela. Fica aí o paradoxo para os universitários. No total, eu passei 20 dias no Irã. É um tempo curto que só me autoriza a emitir opiniões no máximo superficiais.
Claro que eu não sou simpático à ideia de uma teocracia, nem muito menos a de um regime moral, onde as mulheres não podem entrar num estádio e têm a obrigação de usar um pano na cabeça. Meses depois da nossa viagem, inclusive, aconteceu um caso marcante de uma jovem de 22 anos chamada Marcia Amini. Ela morreu depois de ser presa e, segundo testemunhas, espancada pela polícia da moralidade. Pois é.
Existe uma polícia no Irã voltada a reprimir crimes morais. E coloca muitas aspas nisso. O crime da Marça tinha sido usar o hijab de forma inadequada. E bota mais aspas aí. A morte dela acabou gerando uma onda de protestos no país que resultaram em outras 550 mortes, segundo a ONG Irã Human Rights.
Quando eu chamei a Ana para fazer uma viagem pelo Irã, ela tinha só 19 anos. E agora, quando a gente estava falando da experiência, ela lembrou o que ela sentiu quando eu fiz o convite. Fiquei com medo, sendo mulher e tal, Irã, tudo que a gente ouve, né? E a experiência lá foi completamente diferente. E eu lembro que uma das coisas, das frases, para além de bem-vindos ao nosso país, etc., eu lembro de ter ouvido mais do que uma vez que The people is not the government.
The people is not the government. O povo não é o governo. É nesse ponto que eu queria chegar. Eu só tive 20 dias de Irã, mas eu tenho 20 anos de jornalismo. E desse tema eu tenho alguma autoridade para falar. Eu sei que pouca gente lê editorial de jornal, mas eles importam, por serem uma espécie de inconsciente em que aflora a visão de mundo dessas empresas.
E desde que essa nova guerra começou, os editoriais de certos jornais andam assim... inspirados. No dia 28 de fevereiro, o Estadão publicou um editorial com o seguinte título Ninguém vai chorar pelo Irã. Ele se referia ao regime iraniano com palavras como pária, criminoso, autoritário e nefasto. E ele ainda trazia uma declaração do Benjamin Netanyahu, o premier de Israel.
Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se do julgo da tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz. Eu achei curiosa a ideia de trazer uma citação sobre liberdade e paz do líder de um país que está sendo acusado pela ONU de cometer um genocídio.
No dia seguinte, o Globo publicou um editorial celebrando o assassinato do Ayatollah Khamenei, lembrando que ele havia sido responsável por comandar, por quase quatro décadas, abre aspas, um dos regimes mais cruéis do planeta. Fecha aspas.
Que regime bombardeou Irã, Iraque, Síria, Líbia, Iêmen, Líbano, Afeganistão e Paquistão só para ficar nos arredores do Oriente Médio nessas últimas quatro décadas? Algum desses países atacados alcançou paz e liberdade? Em algum desses as mulheres conquistaram direitos por causa disso? Que eu saiba, não.
O que eu sei, o que eu li no estudo da Universidade de Brown, é que pelo menos 4 milhões e meio de pessoas morreram no Oriente Médio desde o começo do século XXI, como consequência direta e indireta das investidas militares norte-americanas. Eram 4 milhões e meio de terroristas? Esses dias eu revi o filme Argo, que levou o Oscar de melhor filme uns 10 anos atrás. Eu tinha visto naquela época, cheguei a gostar.
Mas assistindo de novo agora eu vi outra coisa. No filme, um agente de origem latina, o Tony Mendez, é interpretado pelo muy latino Ben Affleck. Num roteiro que se diz baseado em fatos reais, mas que está muito longe da realidade, o Ben Affleck chega no Irã em 79 para resgatar seis americanos do serviço consular escondidos na casa do embaixador do Canadá.
E lá, ele enfrenta os perigos de um país em que as pessoas são enforcadas na rua, as crianças trabalham de maneira forçada, as mulheres andam de burca e metralhadora na mão e os homens, sempre brutos e com a barba mal feita, falam uma língua bárbara. Falando com todas as letras, a história é uma peça de propaganda explícita da CIA.
Tem uma hora no filme em que o Jimmy Carter, o presidente americano da época, aparece meio que de fundo falando na televisão que o Irã é uma ameaça, abre aspas, ao mundo civilizado. É esse tipo de pensamento preconceituoso, excrescente, que faz com que um míssil americano mate mais de 100 crianças numa escola, no sul do Irã, e gere uma cobertura pífia por parte da imprensa. É como se só existisse gente de verdade de um lado.
O Irã é um país complexo, que resiste há décadas a todo tipo de sanção econômica e diplomática. Um país de palácios e ruínas históricas, que foi berço da civilização persa. Um país de maioria muçulmana, mas onde quase não se fala árabe. Um país tão diferente que o relógio precisa ser ajustado a três horas e meia do meridiano de Greenwich.
Um país onde vivem pessoas, 93 milhões delas, que nascem, crescem, estudam, trabalham e se casam, assim como a gente. E que, por isso mesmo, merecem ser vistas pelo que são. Pessoas. A última mensagem que recebi do irmão Spergman, de Abadã, foi em janeiro de 2023.
Era um texto em face que eu joguei no Google Tradutor e entendi que era uma carta aberta para o abre aspas, honorável ministro do petróleo do nosso amado país, o Irã. Fecha aspas. O imã estava convidando o ministro a visitar o Museu de Arquitetura, Urbanismo e Desenvolvimento de Abadã. Ele tinha muitos argumentos para justificar essa visita. Vou ler aqui. Abadã, a porta de entrada para a modernidade do Irã, é uma cidade especial.
Seu tecido industrial e urbano, bem como seus grupos étnicos, nacionais e estrangeiros, a distinguem de outras cidades do Irã. Seus habitantes, de todas as etnias e nacionalidades, são, sem dúvida, abadanes. Vamos juntos apresentar Abadã ao mundo novamente. Vamos reviver a história desta cidade mágica e torná-la conhecida por todos.
A história de Abadam precisa ser recontada para que as futuras gerações possam se beneficiar das lições que aprendemos, compreender sua história social e pensar em um futuro pacífico onde o povo de Abadam, sejam iranianos ou não, dentro ou fora de Abadam, possam reviver a magia de sua cidade.
Esse foi o Roberto Kais, vulgo Roberto Brasileiro. A gente volta já já.
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Oi, aqui é a Sueli Carneiro. E aqui a Neca Setúbal. Estamos aqui para te convidar a ouvir o episódio desta semana do Escute as Mais Velhas. Toda hora me espanta, eu fico assim chocada, né? Porque a gente passou por isso, né? Meus filhos foram sequestrados, mas foi torturada grávida com oito meses de gravidez. Nós recebemos a escritora, jornalista e advogada Amelinha Teles.
Nós temos que conhecer a democracia e defender a democracia. Não dá para achar que democracia é qualquer coisinha, não. Nós temos que levar a sério, porque eu acho que às vezes a gente trata com desdém, direito, cidadania.
A Melinha contou pra gente sobre a sua atuação no Partido Comunista, o enfrentamento à ditadura militar e também sobre sua identificação e atuação no movimento feminista. Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tid Setúbal, produzido pelo Estúdio Novelo e já está disponível em todos os tocadores de áudio. Com episódios novos a cada terça-feira. Siga o podcast para não perder.
No segundo ato, a sanção da história não vem de nenhuma autoridade global. Ela vem vindo aos poucos. E quando ela finalmente é nomeada, isso traz até um pouco de alívio. Quem narra essa segunda história, e faz parte dela também, é a Carolina Moraes. Eu sou a Carol. Eu tenho nove anos e eu estou gravando uma fita que espero que...
Eu gosto muito de ir na escola e adoro minha família. Eu sou a Carol, uma versão bem mais velha que essa da gravação. Por aqui eu já virei Carolina Moraes. Essa fita ficou guardada por quase 20 anos. E eu passei um tempo me perguntando se ela de fato tinha existido. Ou se era uma memória inventada de criança. Meu hobby preferido é cantar, dançar.
Eram várias fitas, na verdade. E a Carol das Fitas passava bastante tempo falando sobre o que ela gostava de fazer, achava que tinha um programa de rádio. Agora eu vou cantar uma música que eu inventaria.
Ela recomendava uns livros. Bom, isso é um livro super legal, da Ruth Rocha, um menino que aprendeu a ver. Muito legal, que ensina um recadinho muito legal. Quando a gente nasce, a gente não nasce sabendo tudo. A gente ainda tem que aprender muitas coisas. Viu? Um beijo. É uma sensação estranha me ouvir assim, pequena.
Porque não parece que sou eu. Claro, ninguém se reconhece com a voz assim de criança. Mas é o jeito da Carol pequena, esse jeito expansivo, meio sem vergonha, que me deixa esquisita. Porque não é essa a personalidade que eu lembro de ter quando eu era criança.
Quem me deu um gravador para registrar minhas brincadeiras foi minha madrinha, a Aurora, que também era minha tia, a irmã mais velha do meu pai. Ela morava bem pertinho da gente e, pelo menos uma vez por semana, eu ia lá na casa dela. Nenhuma lembrança da minha infância me traz mais conforto do que o quarto da minha dinda.
Não tinha nada de especial à primeira vista. Era uma cama de solteiro, sempre com uma manta em cima e um terço na cabeceira, uma poltrona de poliéster, umas estantes abarrotadas de livro ou de porta-retrato, um cavalete de madeira, sempre com uma pintura para terminar, e um radinho azul.
Mas eu me lembro, e é uma lembrança que me deixa feliz da vida, que o quarto dela tinha um cheiro muito macio. Tudo cheirava a madeira, a tinta a óleo, a vários perfumes. Parecia que o quarto tinha o cheiro de um outro tempo. A Dinda também parecia de outro tempo. Ela foi a pessoa mais vaidosa que eu já conheci. Se emperequetava toda de bijuteria, de lenço de seda.
a vida dela sempre me pareceu muito mais legal que a do resto dos adultos. A irmã dela, com quem ela morava, passava o dia trabalhando. O meu pai, que é o irmão caçula dela, também. A minha mãe cuidava de mim e da minha irmã em tempo integral. E eles todos estavam sempre preocupados com dinheiro, com questões práticas.
E aí, quando eu ia visitar a Dinda, ela me contava dos cursos de galeco e de espanhol que ela estava fazendo. Me mostrava os quadros que ela tinha pintado naquela semana. Falava com uma paixão fervorosa das missas que ela frequentava, dos museus que ela queria visitar. Era uma mulher na casa dos 50 anos que tinha tanto tempo. E que gostava de preencher esse tempo de um jeito diferente dos outros adultos.
Os compromissos dela pareciam menos utilitários. Utilitário é uma palavra que não fazia parte do meu vocabulário de criança, claro. Mas era uma coisa que eu já percebia nela. As fitas eram outra coisa pouco utilitária e muito divertida que ela fazia. E ela não gravava só comigo. Ela começou essas gravações antes de eu nascer. Às vezes sozinha, às vezes com outros primos meus. Você gostaria de viajar?
Eu passei um tempo procurando a Dinda nas fitas, pra ver o que ela dizia dela mesma naquela época. Não foi uma tarefa fácil, porque tirando as minhas gravações, todo o resto era uma bagunça de ruídos e de vozes embaralhadas. Teve uma hora que eu até reconheci meu pai falando. Vamos ver se ficou boa. Mas não reconheci ela em nada.
O que tinha dela, e isso dava para saber que era dela, era uma seleção do que ela ouvia. Umas discussões sobre religião. Não são muitas pessoas que têm condição de estar acompanhando o cristianismo. Tem também umas músicas de que ela gostava. E só.
No quarto da Dinda, quando a minha mãe me levava lá de tarde pra ficar só nós duas, eu podia pintar e bordar igual a ela. Eu aproveitava o armário dela pra me enrolar nos lenços de seda, pra passar batom, pra usar anéis. A gente brincava de se fotografar depois que eu botava as roupas dela. Eu descobri em maio de 2021 que ela tinha guardado todas essas fotos num álbum.
Minha tia, a irmã dela, com quem a Jinda morou quase a vida inteira, começou a distribuir entre a família as coisas dela. Ela morreu quando a gente ainda estava sem se ver por causa da pandemia. A Jinda teve uma série de complicações de saúde que foram agravadas pela covid que ela pegou no hospital. Ela tinha 73 anos.
Os meus pais me entregaram essas fotos e um quadro que a gente pintou juntas, muitos anos atrás. Eu pedi também as fitas. E depois de procurar muito, minha tia achou um pacotinho com um gravador e três fitas. Você não lembra, né? Tipo assim, desde quando ela me dava pra gravar, né? Impossível. Não, eu acho que desde sempre. Porque desde sempre que você começou a falar... Quer dizer, pera. Volta um pouco. Então eu queria pedir pra você se apresentar.
Bom, eu sou a Mirelle, a Mirelle Moraes Sanches, e eu tô aqui pra gente poder bater um papo sobre a nossa vida. Então tá. Oi, mãe. Oi, filha. Essas primeiras fitas de quando eu comecei a falar, se é que elas existiram, a gente nunca encontrou. O que a gente achou foram fitas gravadas entre os meus 7 e 9 anos de idade.
Eu continuei indo na casa da Dinda depois dos meus nove anos. Mas eu desconfio que não tinha nenhuma fita gravada depois dessa idade. E minha mãe concorda com o meu palpite. Porque quando eu tinha nove anos de idade, uma coisa importante aconteceu na minha vida.
Esse foi o período logo antes de aparecer a primeira lesão de psoríase, né? Na minha cabeça, eu tinha de 8 para 9 anos. Foi isso? 9. De 9 para 10. De 9 para 10. Então, pega bem no momento em que eu paro de gravar as fitas, né? Sim. Apareceu no meu cotovelo uma casquinha esbranquiçada, bem grossa, que parecia um machucado.
E que a gente passe uma pomada, uma machucadinha, porque não bateu, sei lá, uma alergia, uma coceira, qualquer coisa. Não melhora, não melhora. E ela se estendeu, mas ainda ficou localizado. Tipo, aumentou de tamanho, mas não foi para outros lugares do corpo. Exato. E meio irritada, e você dizia que coçava. E aí, eu agendei uma dermatologista. Nós fomos. E ela disse o que era. Ela falou o nome, mas...
com uma forma muito velada do nome e que o que era para fazer. Então, passava uma pomadinha, envolvia com um plastiquinho para não sair para dormir e esquece e deixa ela viver. Esquece, esquece porque isso é estresse. Minha mãe disse que a dermatologista falou de uma forma velada porque ela não explicou muito bem o que era. Mas a psoríase é uma doença autoimune bastante comum.
A gente ainda não entende direito a causa da psoríase. Ela é mais comum na vida adulta, mas pode começar a qualquer idade.
O que eu aprendi ali, criança, era que a minha pele trocava rápido demais. Foi isso que meus pais me ensinaram a falar quando algum amiguinho perguntava o que era aquele machucado. O que os adultos sabiam é que é uma doença ligada ao sistema imunológico, que ela tem uma característica genética e que ela pode ser desencadeada por estresse e outros fatores, uma inflamação qualquer, uso de álcool, de cigarro.
O que acontece, basicamente, é que o corpo ataca as próprias células da pele. E aí a produção dessas células aumenta muito. Pode criar vermelhidão, ferida de vários tipos, às vezes dor nas juntas. O meu caso veio com o pacote completo de opções.
Eu sinto muito pelos milhões de colegas de psoríase que eu tenho por aí. Mas descobrir que era uma condição comum me deu um alívio enorme. Eu lembro direitinho de quando eu li um texto na revista Piauí sobre isso, do Leandro Sarmaz. Era 2016, eu já era adulta. E acho que foi a primeira vez que eu consegui dar risada dessa situação epidérmica absurda. Ele falava dessa loucura que era o corpo simplesmente resolver se atacar. Vou ler um trechinho.
Desorientado, o sistema imunológico entra em convulsão, atacando o próprio corpo. Um desequilíbrio interno, uma guerra intestina, Caim contra Caim. A família se digladiando no almoço de domingo.
A psorias do Leandro começou na adolescência. Ele teve uma experiência de vida sem a doença, na condição de saudável. E para descrever essa nova existência, ele pega emprestado uma metáfora que a Susan Sontag criou no ensaio famoso dela, chamado A Doença como Metáfora, que ela escreveu quando ela estava tratando um câncer de mama. Ela diz que a doença é uma cidadania mais onerosa. Eu não senti esse peso todo quando apareceu aquela primeira lesão no meu cotovelo.
Segundo a médica, era só passar uma pomada, não se estressar com nada, o que quer que isso queira dizer, que tudo ia sumir. Mas eu passei a sentir essa cidadania mais onerosa muito rápido. Porque começaram a aparecer outras lesões no corpo todo.
Quando eu falo no corpo todo, é tudo mesmo. No rosto, nos braços, nas pernas, no torso, na cabeça. Elas eram de vários tipos. Algumas eram pequenininhas e aos montes, tipo umas feridas de catapora, e me davam muita coceira. Outras eram umas placas extensas, de vários centímetros, que ficavam bem endurecidas.
Primeiro elas também goçavam bastante, mas depois, como elas ficavam mais grossas toda vez que eu arrancava a casquinha, e eu fazia isso o tempo todo, elas começavam a virar umas feridas abertas, bem doloridas.
Depois de um tempo, eu comecei a sentir também uma rigidez nas minhas pernas. Porque tem um tipo de psoríase, a artrite psoriática, que causa uma inflamação nos tecidos das articulações. E aí, toda vez que tinha uma mudança brusca de temperatura, eu sentia as minhas juntas todas duras. E isso tudo mesmo quando eu não tinha nenhum estresse novo na minha vida.
Isso foi me incomodando porque o estresse foi transformando todo o ambiente. A minha perspectiva daquilo é que eu era a causadora daquele estresse. Então, o que eu estou fazendo que eu estou estressando? Ou o que eu não estou fazendo que eu estou estressando? Mas por que você achava que era você? Porque eu ficava na escola um tempão por dia, papai sempre foi de bastante convivência, tinha a Camila, minha irmã mais nova. Por que você?
Porque eu acho que tudo que acontece com o filho, a mãe acha que ela é responsável. Tem isso. Mas também tem o fato de que alguns dos quase 20 dermatologistas que minha mãe procurou na época deixaram no ar que podia, sim, ser culpa dela.
Então vem, você pressiona muito ela pra estudar? Ela vai pra escola, ela tem amiguinhos, ela... E aí entra, ela tem pai presente? Você trabalha fora? Aí não, aí que ótimo, porque se você trabalhasse, era bom você parar de trabalhar. Falaram isso pra você? Falaram. Minha nossa. Pra ficar, porque às vezes tem crianças que ficam muito na escola. Então assim... A minha mãe tinha exatamente a idade que eu tenho hoje quando isso começou. 29 anos.
Até hoje, eu fico sem saber o que fazer quando eu tenho algum problema com o plano de saúde para liberar o meu remédio, ou quando parece que os sintomas vão voltar. Agora eu fico pensando como seria se eu tivesse que lidar com tudo isso acontecendo com uma filha minha.
Tava pensando hoje de manhã. É. A Carol tem 29 anos. Há 20 anos que a gente tem esse... A gente, né? Eu uso a gente, parece que é nosso, né? Meio que foi. É. Mas é você que sente, né? E eu acho que o fato de eu também ter tido você muito jovem...
Também me fez questionar se eu era responsável por isso. Porque assim, eu acho que a gente nunca sabe o que tá fazendo. No sentido de maternar, a gente aprende maternando. Não há outra forma. Mas pra mim não entrava na minha cabeça, porque o meio que eu tava inserida era que a mulher tem um instinto, ela sabe. Não é assim que funciona, óbvio. Nem eu, nem ela sabíamos direito o que fazer.
Eu não lembrava que a primeira lesão tinha sido no cotovelo e nem o quão rápido os sintomas se espalharam. Minha mãe disse que não demorou nem um ano. O grande marco pra mim foi quando eu comecei a ter psoríase no couro cabeludo, que deixava todas as minhas roupas sujas, parecendo que eu tava com caspa. É, porque aí eu lembro que a gente passava horas passando pomada na cabeça toda e não resolvia. Aí mudava pra um tônico e não resolvia. Aí começou a me machucar. Exato. Aí eu lembro que eu já tinha vergonha de ir na escola. Sim. Aí eu já tava...
É, porque foi tudo muito rápido de ser lesões espaçadas para o couro cabeludo e depois o corpo todo. E eu acho que... Eu acho que a coisa mais dolorida dessa época...
não ter encontrado um médico que falasse, é alguma coisa, você não está fazendo nada errado, né? E tem um fator muito, muito, muito desgastante que só quem está dentro sabe, que é o quão estressante é para uma criança parar para fazer isso. É definir que roupa que ela vai usar, é definir se ela quer ir no passeio, porque...
Isso começou a ser uma discussão, ir pro passeio ou não, que roupa que dá pra usar pra mostrar as lesões o mínimo possível, porque no começo eu fui criando uma vergonha sozinha mesmo, sem nenhum colega me deixar constrangida. A única coisa que meus amiguinhos faziam era me perguntar o que eram aqueles machucados. E eu aprendi a falar que eu trocava de pele rápido demais e a mudar de assunto. Mas depois de um tempo, eu comecei a ouvir comentários na rua, de gente desconhecida, meio enxerida.
Uma vez um cara parou a gente na praia pra perguntar pra minha mãe na minha frente se aquela alergia horrorosa era de alguma comida pra ele evitar pros filhos dele. Eu pedi pra minha família pra não ir mais pra praia depois disso. Eu lembro que às vezes a gente saía e você tava com um vestido e alguma coisa e as pessoas ficavam olhando, tinha que arrancar os olhos das pessoas. Ai, gente, não põe nisso. Eu vou colocar assim. Não.
O resto da família também foi ficando tão preocupado comigo que toda vez que eu ia visitar algum parente ou chegava para o aniversário, para o Natal, esse era o assunto. Não sei se destruindo é a palavra, mas foram se reconfigurando.
A tua personalidade, as suas características, a sua curiosidade, a sua falta de vontade de estar em ambientes que você sempre gostou. Tipo o quê, assim? Tipo estar com os seus amigos. Aí eu acho que quando começou a limitar as decisões, o que vamos fazer para não te expor a situações constrangedoras e tristes, ela se instalou de vez.
Por isso que é tão estranho me ouvir nessas gravações. Eu não tinha lembrança de ser curiosa, brincalhona, até meio espalhafatosa. Eu ainda tenho as melhores lembranças das brincadeiras do quarto da Dinda. Mas o que ficou na minha cabeça, de quem eu era criança, não tinha nada a ver com essas fitas. Até porque eu me lembrava sempre dela, da Dinda, não de mim. Eu me sentia sempre muito tímida, querendo sumir um pouquinho.
Eu gostava daquele quarto também por isso. Porque eu podia sumir. E também porque eu sentia que a psoríase não entrava no quarto da Dinda.
Eu tenho a impressão que ela se via um pouco. Porque quando a gente chegava... Aí, como é que você tá? Porque sempre você chega e chega... A doença chega na frente, né? Até hoje, eu chego em qualquer evento familiar. É como você está. E a psoríase, como se fosse, sei lá, o meu gato que tá em casa. É, tem uma vida própria ali e chega. Então, sempre... É, tem uma vida própria.
E aí eu me lembro que uma vez ela falou, vamos parar com isso. Se ela quiser contar, ela conta. Se ela estiver feliz, ela vai falar. Eu estou feliz porque está bom. Eu estou brava porque está ruim. Nós vamos brincar agora. Eu estava lendo um livro chamado Estranhos a Nós Mesmos, da jornalista americana Rachel Aviv, quando eu trombei com um trecho que me deu vontade de reouvir essas fitas.
Ela escreveu assim, O filósofo Ian Hacking usa o termo efeito looping para designar a forma como as pessoas ficam presas a narrativas autorealizáveis sobre uma doença. Um novo diagnóstico pode mudar, segundo ele, o espaço de possibilidades para a individualidade.
O Ian Hacking, esse filósofo que a Rachel Aviv está citando, ele estava olhando para vários tipos de diagnósticos. De obesidade, de autismo, de câncer. Mas ela, a autora, estava enquadrando esse termo para pensar transtornos mentais. O que acontece quando uma pessoa recebe um diagnóstico de alguma questão psiquiátrica e fica perdido na percepção de quem ela é.
Então, eu não sei se ela entendia o que era esse peso. Além de se lidar com isso, você ter gente o tempo todo perguntando como se você não tivesse mais nada para dizer. Ela blindava você um pouco disso, sabe? Do convívio. Eu tenho certeza que a Dinda interrompia aquelas conversas sobre a minha doença porque ela prestava muita atenção nas crianças da família. Em mim e em todos os meus primos.
Ela tinha uma sensibilidade enorme para perceber o que acontecia no entorno dela. Uma sensibilidade que eu nunca mais encontrei em ninguém. Mas eu também tenho certeza que ela prestava atenção nisso especificamente, de quando um diagnóstico vira o grande e único assunto na vida de alguém, porque ela se viu nessa situação. Muitas, muitas vezes. Ela também sentia esse cansaço das coisas que não dá para mudar.
Como você, ela gostava muito de viajar, ela gostava muito de estudar, ela gostava muito de conhecer. E tudo isso mudou radicalmente quando ela teve um surto psicótico aos 35 anos. Foi nessa idade que ela descobriu que ela tinha transtorno bipolar.
Nos anos 80, quando isso aconteceu, essa condição ainda era chamada de psicose maníaco-depressiva, porque se acreditava que o que caracterizava a bipolaridade eram só esses casos clássicos de pessoas que têm períodos de uma mania intensa, ficam hiperprodutivas, hiperfelizes, dormindo pouquíssimo, e uma depressão profunda. Esse era o caso da minha dinda mesmo. Ela oscilava entre quadros bem extremos de mania e de depressão.
Mas hoje em dia, o transtorno bipolar é entendido numa régua bem mais ampla, com casos que não oscilam nesses extremos. E a compreensão do que fazer com esse diagnóstico também mudou muito. Naquela época, os médicos e os chefes dela acharam que era o caso de aposentá-la compulsoriamente. Sim, aos 35 anos. Ela nunca mais conseguiu trabalhar.
A família também tinha medo de deixá-la sozinha, de ela fazer as viagens e os passeios que ela sempre gostou de fazer sem companhia. E, ao contrário de como era com a minha psoríase, falar do transtorno bipolar da Dinda passou a ser o oitavo pecado capital da família. Era quase como se só de dizer essas palavras uma crise fosse acontecer. Mas não fala disso nunca impediu que uma crise chegasse. E foram muitas, muito intensas, que fizeram ela correr risco de vida.
Por isso a gente entendia o excesso de zelo. Mas, ainda que quase não se falasse nisso, o que definia a sociabilidade dela com todo mundo era a sombra dessas crises. A possibilidade delas acontecerem. Com raras exceções. Tipo, quando minha mãe me deixava lá na casa dela pra brincar só nas duas, sem supervisão.
Eu acho também que tinha uma preocupação dela, dos próximos acharem que estava saindo do controle e realmente limitar o acesso dela às coisas que ela gostava. Sair sozinha, ir para o Rio de Janeiro, que era uma cidade que ela amava de paixão.
E tinha muito, e eu acho que ela já comentou com você sobre isso, do Rio de Janeiro, que ela gostava muito, mas as pessoas à volta associavam o Rio de Janeiro com as crises, porque ela só queria ir ao Rio de Janeiro quando ela estava entrando em crise. Talvez fosse a forma que ela conseguia de falar, quero ir para o Rio de Janeiro. Então, se ela não tivesse eufórica, ela não ia conseguir, porque ela ia falar, não vou, porque vão pensar que eu estou... Não, ela só queria ir para o Rio de Janeiro.
Ela nunca falou diretamente comigo, né, sobre o transtorno de bipolaridade. Mas a única vez em que ela mencionou essas restrições foi uma vez que ela foi em casa. Eu tava no segundo ano de faculdade e eu ia viajar pro Rio pela primeira vez, assim, pra conhecer a cidade. E aí eu, com os amigos de faculdade...
E aí ela perguntou por que eu tava arrumando mala. Aí eu falei, ai, Dinda, eu vou pro Rio. Vou pela primeira vez com meus amigos, não conheço a cidade. Ela ficou muito feliz, assim, ela esboçou um super sorriso. Mas aí o comentário dela em seguida foi, ah, é... Queria muito poder ir sozinha pro Rio. Queria muito poder ir sozinha pro Rio.
Ela falou isso já com lágrimas nos olhos. Eu não sabia muito bem o que responder. A essa altura eu já sabia que ela tinha transtorno bipolar, minha mãe tinha me contado. Mas isso nunca foi um assunto entre a gente. Se entre os adultos já não era muito, entre as crianças, menos ainda. E até ela morrer, eu ainda era considerada parte do time das crianças.
Naquele dia, o que eu consegui, depois de uns segundos em silêncio, foi dizer que um dia a gente ia junta pro Rio.
Eu passei bastante tempo arrependida de não ter aproveitado aquela brecha pra gente conversar sobre o que ela tinha, sobre como ela se sentia. Nunca mais teve nenhuma outra brecha assim. E desde que ela morreu, eu fui atrás de tudo que eu podia sobre transtorno bipolar, pra tentar entender se tinha outra forma dela ter vivido a vida dela. Claro que a experiência de cada um com qualquer transtorno é diferente. Mas essa busca foi tão importante pra mim quanto os primeiros textos que eu encontrei falando sobre psoríase.
Tem um depoimento de uma psicóloga que tinha transtorno bipolar e a idade parecida com a da minha dinda, a Kay Redfield Jamison. Ela conta assim nesse livro. Como minha doença de início parecia ser simplesmente uma extensão de mim mesma, ou seja, dos meus entusiasmos, energias e humores naturalmente inconstantes, talvez eu tenha sido complacente demais com ela.
E ela explica que, quando ela já estava adulta e bastante consciente das oscilações dela de humor, foi super importante encontrar um médico que entendesse direito o caso dela.
Eu também conversei com vários profissionais de saúde que me deixaram bastante esperançosa com como o transtorno bipolar e outras questões de saúde mental, na verdade, podem ser cuidados hoje. E no centro de tudo está uma ideia de autonomia, de pensar em sessão de psicoterapia, em medicamento, em exercício físico, em alimentação, enfim, em quaisquer tratamentos, a partir de como cada pessoa quer viver sua vida.
Eu descobri, conversando com a minha mãe, que a minha Dinda achou esse lugar pra ela. Depois de um bom tempo, já com seus quase 60 anos. Mas ela achou. Esse último médico dela, que ficou com ela por muitos anos, eu acredito que foi ele que foi ajudando ela a entender o transtorno como bom.
Tem o transtorno, ele tá aí? Como é que a gente lida? Como é que você percebe que você tá... Você não tá legal? Como é que você percebe? Tá na hora de me ligar, vamos fazer um exame, vamos fazer não sei o quê. Ah, tá bom, não tá bom.
Essa coisa de ter um bom médico, um bom acompanhamento profissional, muda tudo. Eu lembro que quando eu encontrei a médica que me acompanha até hoje, a primeira coisa que ela me falou é que não adiantava pensar em não se estressar para não ter psoríase. Que não existe uma vida sem estresse. O que a gente tinha que fazer era encontrar um tratamento que fizesse sentido para a vida que eu queria viver.
Faz quase seis anos que eu comecei a tomar o remédio que eu tomo até hoje. É um medicamento caríssimo, na casa das dezenas de milhares de reais, e que eu tenho acesso a isso por causa do plano de saúde. Desde que eu comecei esse tratamento, eu entrei em remissão. A cada três meses, eu tomo esse remédio que faz todas as lesões sumirem e que me dá pouquíssimos efeitos colaterais. Eu fico só com uma fadiga de um, dois dias depois da aplicação e esqueço por meses que aquilo existiu.
É o que eu desejei a vida toda, porque eu nem lembro direito da vida sem psoríase.
Mas eu confesso que quando isso aconteceu pela primeira vez, quando eu fiquei sem as lesões pela primeira vez desde os meus nove, dez anos, eu fiquei muito frustrada. Eu tinha uma fantasia de que sem as lesões eu ia poder ser automaticamente outro tipo de pessoa. Uma caralho que não precisava lidar com aquela cidadania onerosa da doença. Que eu achava que era eu de verdade. Como se eu tivesse passado esses anos todos sendo uma versão piorada de mim mesma.
Só que não sumiu da noite pro dia o receio que eu tinha de botar uma roupa mais curta, mesmo sem precisar esconder nenhuma lesão mais. Nem sumiu o medo de ficar com dor nas juntas depois de uma mudança brusca de temperatura, mesmo que essa dor nunca tenha voltado. Você sabe do que você se privou. Não tem como fugir disso. Se você sabe quando você pensa numa viagem a longo prazo, o que vem primeiro à cabeça?
Se eu vou conseguir pedir a liberação do remédio. Como é que eu faço para tomar medicamento se eu estiver no país X? Mas não eram só esses aspectos práticos que ainda existem e vão existir sempre, mesmo sem nenhuma lesão. É que essa doença ficou tanto tempo entre mim e o mundo, que eu não sabia mais enxergar o mundo sem ela. Eu não sabia nem entender qual era a minha personalidade antes de ter psoríase.
Mesmo me reouvindo nas fitas, já sem nenhuma lesão na pele, eu não conseguia encontrar o fio que me ligava aquela Carol criança. Oi, tudo bem? Sou Edenova, Carol. Bom, agora eu vou cantar uma música que não é espanhol. Eu nunca consegui ir para o Rio de Janeiro com a Dinda, mas eu fui sozinha para a cidade muitas outras vezes. Até morei lá um tempo.
Eu acabei indo pela segunda vez ao Rio, quando o remédio que eu tomo até hoje finalmente estava fazendo efeito. Quando eu estava começando a me perguntar quem eu era de verdade.
Uma coisa que nunca mudou sobre mim é que eu continuei adorando artes visuais. E eu fui para o Rio conhecer um projeto que me interessa faz muitos anos. Quando eu cobri artes plásticas na Folha de São Paulo, em 2022, eu pedi para fazer uma reportagem sobre o Espaço Aberto ao Tempo, um centro psiquiátrico comandado por um médico chamado Lula Vanderlei, na zona norte da cidade.
O Lula Vanderlei teve como mentoras duas pessoas geniais, a psiquiatra Nise da Silveira e a artista plástica Ligia Clark. Esse centro psiquiátrico funciona no mesmo hospital em que a Nise montou os ateliês de pintura com os clientes, porque é assim que ela e também o Lula se referem aos pacientes, e mudou os rumos da psiquiatria no Brasil. E ele usa naquele centro, até hoje, uma terapia criada pela Ligia chamada Estruturação do Self.
Essa terapia é feita com uma série de objetos. São tipo umas almofadas de plástico ou de tecido, preenchidas com materiais diferentes. Terra, areia com água, bolinhas de isopor, sementes. A ideia é que o terapeuta passe esses objetos pelo corpo do cliente, que está sempre com as orelhas tapadas por conchas e com os olhos vendados.
Não é simples entender o que acontece nesse processo terapêutico. Mas quando eu estava lá, eu vi um garoto muito jovem, com um quadro de depressão severo e que estava há meses indo e vindo de centros psiquiátricos, falar que aquela terapia tinha mudado a vida dele. O que o Lula me explicou na época é que o tecido que reveste essas almofadinhas impede uma leitura imediata do que tem dentro delas. Você não entende direito do que aqueles objetos são feitos.
E nesse processo de tentar dar um significado a esses objetos, os clientes vão conseguindo criar outras formas de lidar com o sofrimento que eles sentem. O que está no centro dessa terapia é dar autonomia para aquela pessoa poder criar novas conexões dentro dela. Para ela desenvolver melhor o que ela está sentindo.
Tem uma música do Caetano Veloso, If You Hold A Stone, que foi feita em homenagem à Ligia.
Ele estava exilado em Londres por causa da ditadura militar. E a música, assim como várias outras desse mesmo álbum, falam da saudade do Brasil. Uma saudade da Bahia, da casa dele. Mas ele acabou homenageando a Lígia nessa música, porque ele se lembrou de uma amiga contando de uma exposição dela que aconteceu no Museu de Arte Moderna da Bahia. E o que ficou na cabeça dele dessa conversa foi a palavra pedra, que a amiga usou para descrever o que estava exposto lá.
o Caetano não chegou a ver essa amostra. E ele só foi criar uma relação de amizade com a Ligia muitos anos depois. Ele chegou até a fazer a estruturação do selfie. Mas por essas coincidências da vida que ninguém explica, as sessões de terapia da Ligia fizeram a música ganhar mais uma camada de significado. Principalmente esses versos que ele canta em inglês. Isso porque enquanto as almofadinhas eram passadas pelo corpo dos clientes, a Ligia sempre deixava na mão deles uma pedra.
Uma pedra que ela chamava de prova do real. Era o objeto que mantinha eles conectados ao real, ao espaço em que eles estavam. Eu acho muito bonito o que o Caetano fala nessa música. Que em português seria, se você segurar uma pedra, segure-a na mão. Se você sentir o peso, você nunca vai se atrasar para entender.
Quando eu penso nesse trecho e nessa proposta terapêutica da Ligia, de dar autonomia para as pessoas que estão em sofrimento, eu sempre fico com a sensação de que não tem outra saída que não seja sentir o peso. Agarrar as coisas que são nossas, olhar para elas de frente. Acho que talvez, sem saber, a Jinda me deixou com a prova do real. Essa pedra para eu sentir o peso e tentar entender o que dá para ser com a vida que eu tenho.
Eu deixei de sentir que existia uma Carol de verdade que eu precisava retomar. Não tem um antes e um depois da doença. Essa é a realidade que eu tenho. Vai sempre ser. Mas ouvir a Carol criança das fitas me fez querer dar mais espaço pra ela. Pra ser um pouco mais curiosa, um pouco mais divertida, até um pouco mais ingênua. É uma Carol que eu achei que eu não ia encontrar mais. Que eu nem sabia se tinha existido mesmo.
mas que a Dinda me deixou reencontrar quando foi embora. Se você quiser alguma música ou uma poesia, pode ter dito pra mim, tá? Eu não reconheci a voz da Dinda em lugar nenhum das fitas, mas eu não achava possível não ter um trecho que fosse dela nessas gravações. E por isso eu resolvi escutar tudo de novo com a minha mãe, que tem muito mais memória dela do que eu. Até que a gente chegou nesse trecho aqui.
21h03 do dia 30 de sete de noventa. Alexandre vai pra Campo Grande e eu fico por aqui. É, esse jeito de ela abrir o ar, assim, sabe? Beijo grande, Ale. A saudade também fica e o coração vai junto.
Ela falando com a lei do clima, né? É, ela falando com a lei. Sim. Provavelmente quando ele saiu de São Paulo e foi morar com a mãe em Campo Grande. Ela se despedindo, que ele era bem próximo ali dela também. Como todos ali os sobrinhos até você chegar. A saudade também fica e o coração vai junto.
Tente-a em sua mão Se sentir o peso Você nunca será tarde Para entender Se sentir o peso Tente-a em sua mão Se sentir o peso Você nunca será tarde Essa foi a Carolina Moraes.
Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira a gente traz mais histórias que vocês nem sabiam que precisavam ouvir. Mas os membros da novelo têm a chance de ouvir cada episódio do Apresenta um pouco antes de todo mundo, ainda na quarta-feira. Semana que vem vai ter isso aqui.
Falei, gente, descobriram tudo, eu vou ser presa. Eu fiquei tão angustiada que eu mandei mensagem pra minha mãe. Contei tudo pra minha mãe, como que diz assim, se eu sumir, mãe, saiba que foi isso, entendeu? Saiba que me mataram. Eu voltei pra sala da operação e conversei com o pessoal, gente, esses policiais aí, o que eles estão fazendo aqui? Ah, não, isso aí é cotidiano, eles vêm sempre. Uma vez por mês eles estão aqui.
A gente está produzindo conteúdo bônus exclusivo para os membros. E quem assina o plano anual ganha uma linda bolsa com o logo da Novelo. Para fazer parte do clube e ganhar esse e outros benefícios, é só seguir o caminho das pedras no nosso site. A gente volta daqui a pouco. Olá, eu sou o Cristiano Botafogo do Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Sensacional.
Pois é, aquele podcast de política. Na primeira vez, ouvir a gente pode ser um pouquinho desagradável. Mas aí depois você abraça a loucura. A gente tá lá na Central 3 ou em todos os outros agregadores de podcast. Puxa daí, Eduardo Cunha. Que Deus tenha misericórdia dessa nação. Ouça o medo e delírio.
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