Em águas profundas
Em meados de 2021, uma professora de Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, circulava pela escola na hora da merenda, quando percebeu um detalhe: os pratos das crianças voltavam pra cozinha praticamente intocados. Era sempre às segundas-feiras, dia de peixe na rede municipal. E, como ela logo descobriu, sempre o mesmo peixe: o “cação". Desde então, ela passou a lutar para mudar o tipo de peixe servido nas escolas da cidade. Até que um dia ela se deparou com uma repórter que se fazia a mesma pergunta: o que raios é o cação? E por que ele virou um enorme sucesso nas licitações de órgãos públicos brasileiros? Por Vitor Hugo Brandalise.
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Palavras-chave: alimentação escolar; infância; nutrição; pesca; meio-ambiente; oceanos; tubarão; cação
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Carolina Moraes
Mayra Vallejo
Carla Mendes
Roberto Kais
Solange Bergami
- Alimentacao EscolarSolange Bergami · Carla Mendes · Consumo de carne de tubarão · Licitações de merenda escolar · Impactos da alimentação na saúde
- Pesca de tubarão e comércio internacionalCódigo de Defesa do Consumidor · Mercúrio e saúde pública · Legislação sobre carne de tubarão
- Impacto Ambiental da PescaDesbalanceamento ecológico · População de tubarões
- Indústria de HollywoodEstrutura narrativa de filmes · Tubarão como metáfora
Rádio. Rádio. Rádio. Rádio. Rádio. Rádio. Rádio. Novelo. Está começando o Rádio Novelo Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Esses dias eu estava ouvindo um podcast desses que é mais antigo que a própria palavra podcast.
É um programa de rádio da BBC chamado In Our Time, que já tem quase 30 anos e mais de mil episódios. Um dia a gente chega lá. Dá pra chamar o In Our Time de Proto Mesa Cast, porque é um podcast conversacional. Mas não tem nada de papo descontraído entre amigos. No In Our Time, o anfitrião conversa a cada semana com um grupo de acadêmicos especialistas num determinado assunto.
Tem gente na novelo, e eu não vou citar nomes aqui, que ouve o In Our Time para pegar no sono. Enfim, esse episódio que eu estava ouvindo era sobre a Fossa das Marianas, que é o ponto mais profundo dos oceanos do planeta. A fossa é mais funda que o Everest é alto. O buraco é uns dois quilômetros mais embaixo. Os vários cientistas entrevistados ali, todos tinham ido lá embaixo.
E o interessante do que eles contam, entre muitas coisas, é que esse lugar tão extremo não é nada daquilo que a gente imagina. Não é nem um buraco morto sem vida, nem um refúgio de bichos monstruosos, tipo uns monstros do Lago Ness da vida. O que tem é vida adaptada a viver sob muita pressão. Bom, e também tem uma quantidade impressionante de lixo, aparentemente.
Mas mesmo que os oceanos não sejam um mundo alienígena, eles ainda guardam muitos mistérios. E o episódio dessa semana gira em torno de um deles. Tem alguns monstros também, mas provavelmente não os que você está imaginando. Ou não exatamente. A gente vai fazer um pequeno intervalo e já já o Vitor Hugo Brandalize conta essa história.
E se uma música pudesse te levar mais longe? Tá perto de novas histórias, misturando sonhos, culturas e pessoas na energia da latinidade. Com a Latam, você garante sua viagem completa e chega onde todo mundo vai se encontrar. O Rio de Janeiro, Latam Airlines. Bem-vindo a ir mais alto, é viajar com o ritmo da música. Companhia Aérea Oficial do Todo Mundo no Rio 2026.
Oi, aqui é a Carolina Moraes, da Rádio Novelo, e eu tô aqui pra te fazer um convite. No ano passado, eu, a Natália Silva e a Bia Guimarães passamos meses mergulhadas numa investigação sobre uma nova ameaça ao acesso ao aborto legal no Brasil.
O que disparou essa investigação, e que virou uma série chamada Sala de Espera, lá no feed do Rádio Novelo Apresenta, foi o fechamento de um serviço de referência, o do Hospital Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo. Depois de meses no embate jurídico, esse serviço acabou de ser reaberto. Mas as ameaças ao aborto legal continuam pairando.
Por isso, nós três resolvemos nos reunir para uma live no nosso canal no YouTube no dia 28, uma terça-feira, às 8 horas da noite. A gente vai conversar com os especialistas Romina Margarita Ramui e com o Rodolfo Pacanella para falar um pouco sobre a nossa série e entender o que está em jogo agora nessa disputa. É só procurar por Rádio Novelo no YouTube e se inscrever para não perder a conversa. A gente te espera lá.
Tem um texto que saiu no New York Times que analisa a estrutura narrativa dos filmes blockbuster, esses sucessos de bilheteria. Principalmente filmes de suspense.
O texto analisa a trama de mais de 50 filmes desses bem hollywoodianos. E os autores chegam a uma espécie de modelo, de template do blockbuster perfeito. É uma formulinha mesmo, com nove elementos que compõem a estrutura desses filmes. Vocês têm agora um mundo para abandonar o návido. A návida a se destruir automaticamente em um único...
Essa fórmula se repete em dezenas de filmes dos últimos 50 anos. Ela começa assim. Uma criatura misteriosa ameaça uma localidade remota. E aí essa criatura misteriosa ataca uma primeira vítima.
Uma comunidade local sob ameaça de uma força inexplicável é um ponto de partida tão instigante que funciona para praticamente qualquer assunto. De filme de monstro a de desastres naturais. De Alien, o oitavo passageiro, a Twister e a Jurassic Park. Para citar alguns dos filmes que estão tocando aqui nesses trechinhos.
Em Alien, a criatura é, bom, um alien, que persegue astronautas numa estação espacial. Não dá pra ficar mais isolado do que isso, né? Em Twister, a criatura é uma série de tornados que atinge uma cidadezinha no meio do nada, no Oklahoma. Eu estou meio apavorado aqui. E eu acho que você sabe quais são as criaturas que perseguem os protagonistas numa ilha isolada em Jurassic Park.
Tem filme em que o vilão é um urso, tem filme que são vermes gigantes subterrâneos, um vírus letal, um polvo mal intencionado. Tem alguma coisa esquisita aqui. Mas tem dezenas de histórias que começam assim. Numa comunidade isolada, com uma criatura fazendo uma primeira vítima e deixando os habitantes em pânico.
O texto argumenta que quando esses elementos são colocados na ordem certa, eles amplificam o suspense sem perder de vista os dramas humanos. Aqui fala Ripley, a última sobrevivente do Nostrão. Desde o encanto. A gente lembrou desse artigo do New York Times recentemente por causa dessa história que a gente vai contar hoje. Que é uma história real, mas que se encaixa perfeitamente nessa fórmula dos blockbusters que o New York Times mapeou.
O cheiro dele era muito forte, é muito forte, né? Mas espera aí, tem movimento. Um cheiro forte, né? Insoativo. Parece que tem vida, vida orgânica. A comunidade local que essa criatura misteriosa está ameaçando é a comunidade escolar de Duque de Caxias, a cidade mais populosa da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A gente já chegava no portão de entrada, a gente já falava, hoje é peixe, né?
E para ajudar essa comunidade, seguindo o modelo do blockbuster, entra em cena um novo personagem. O único capaz de enfrentar a criatura misteriosa. Um herói. Na maioria das vezes, esse herói não queria estar nesse papel. É um herói relutante.
Eu mesma consumia, até então, porque para mim eu sempre aprendi na minha cultura que peixe faz muito bem. Então eu comia bastante. Na nossa história de hoje, a heroína relutante é a Solange. Meu nome é Solange Bergami, eu sou professora, orientadora educacional da rede municipal de Duque de Caxias. Também sou professora da rede estadual. Há mais de 30 anos que eu trabalho em escolas.
Nesse tipo de história, o herói, nesse caso a heroína, ela é a única que consegue enxergar o problema com clareza, porque ela conhece aquele lugar. Nós que somos dessa área da Baixada, a gente conhece a periferia de perto, conhece a realidade, conhece as necessidades. A Solange sempre morou em Caxias. Então, a gente percebeu que, primeiro, a alimentação escolar é fundamental para o nosso aluno da Baixada.
A gente percebia que as crianças vinham com fome, e quanto que essa alimentação escolar era e é importante para elas. Essas crianças passam o dia na escola, e na hora da merenda, elas sempre raspavam o prato. Eu não cobrava nada, às vezes até faltava. Isso só não acontecia em um dia da semana. Na segunda-feira, dia de peixe na rede municipal.
Então isso chamou também muita atenção da gente. Havia muita rejeição. As crianças, pelo cheiro forte, não comiam. E aí elas passavam o dia com fome. E a gente via que eles precisavam de mais coisa.
Nesse tipo de filme, o herói relutante segue em frente porque ele se sente moralmente obrigado a encarar a criatura. A maioria é a invulnerabilidade social, tá? O nosso público de alunos, principalmente na faixa etária mais jovem, né? As crianças. A Solange começou a perseguir esse bicho. Então a gente começou a fazer esse movimento de acompanhar. Foi assim que eu descobri o Caio.
O CAE é o Conselho de Alimentação Escolar. Toda cidade tem um, para monitorar a qualidade da merenda escolar e ver se está dentro das regras do Programa Nacional que manda dinheiro para isso. A Solange viu que tinha uma vaga no Conselho de Caxias e pediu para entrar. Ia ser dali que ela ia observar o estrago que essa criatura estava fazendo.
Nós colhemos as informações através dos relatórios das visitas às escolas, que o Caio faz as visitas. Então, a gente começou a perguntar qual era o alimento que mais as pessoas sentiam uma diferença, ou rejeitavam, ou que sinalizava que tinha alguma coisa ali que não estava de acordo. Foi ali que a Solange percebeu que a ameaça não estava pairando só sobre a escola dela.
Todas as escolas, a maioria delas, mais de 90%, falavam que era um dia do peixe, que tinha algum problema no peixe. Ele está por aí, você precisa ter cuidado. No primeiro momento foi hoje é peixe, mas passado o tempo virou hoje é o cação. Entendeu? Seguindo o modelo narrativo dos blockbusters, qualquer coisa pode ser a criatura de um desses filmes. A da Solange é o cação.
O cação se tornou para a gente o inimigo também para que a gente pudesse trabalhar o consumo de peixe com as crianças. Num primeiro momento, o cação ainda era um inimigo totalmente desconhecido para Solange. Era um bicho que ela não sabia nem exatamente o que era. Ela nunca tinha visto um cação inteiro. Só as postas chegavam congeladas na cozinha da escola. O que ela sabia, e que agora estava anotado nos relatórios do Conselho de Alimentação, era que ele estava fazendo vítimas.
Nesse caso, o estômago dos alunos. E isso refletia em salas de aula. Elas também apresentavam alguma coisa diferenciada ali, por exemplo, na aprendizagem. Aí você via um desequilíbrio.
Será que a gente deveria mudar o tipo do peixe? A gente começou a pesquisar outros peixes. O que era antes? Era o merluza. As crianças com um era muito bom. A gente começou a perguntar. E daí começou esse conflito. A gente não pode mudar porque...
Não podia mudar porque nos contratos para fornecer merenda escolar em Duque de Caxias só tinha uma opção de peixe. O cação. A Solange foi tentar descobrir por quê. Porque é um peixe sem espinha e mais barato. Ele tem a espinha dele, o que tem, ela é fácil de tirar, para cozinhar.
Um peixe barato, fácil de cozinhar, com pouco risco de engasgo para as crianças, mas que elas não queriam comer. E que virou a única opção de peixe nas licitações para merenda de 75 mil alunos das 192 escolas municipais de Caxias. Ou seja, era um inimigo poderoso. O Caio, a gente está fazendo o que pode, tá? Mas, assim, muito difícil, porque a nossa luta é muito desigual.
Nos filmes de suspense, o herói geralmente não está preparado para enfrentar a criatura sozinho. Oh, Deus! Algo saiu errado. E aí ele recorre à ajuda de um especialista. Poxa, eu odeio ter sempre razão. Um experte com uma trajetória muito específica, que parece que foi talhado para enfrentar a criatura.
Pode ser um caçador que passou a vida estudando os hábitos do bicho ou um nerd autodidata que pesquisa no porão de casa. A Solange estava precisando de alguém assim. Não, eu só estou dizendo que a vida encontra um meio. E aí veio a Carla. Bom, eu sou Carla Mendes, mineroca, como costumo dizer, porque mineira que mora no Rio desde 2014.
A Carla Mendes é jornalista. Hoje ela trabalha no Mongabay, um site de notícias ambientais. Mas olhando a história pelo ângulo da heroína Solange, parece que tudo que a Carla fez antes foi para trazer ela até aqui, ao encontro da criatura. Começando pelo primeiro emprego dela. Então eu trabalhei cinco anos no estado de Minas, na editoria de economia. Comecei como repórter de defesa do consumidor. Ela enfrentava inimigos perturbadores.
Sabe aqueles sachês de ketchup e mostarda que não abre de jeito nenhum? Uma vez eu fiz uma matéria sobre aquilo, porque eu falei, gente, esse troço não funciona. E aí, enfim, eu fiz uma matéria sobre isso como se fosse um defeito de fabricação.
A Carla presta atenção em coisas que passam batido para quase todo mundo. Tipo da roupa, você compra a roupa e você vê aquela etiquetinha com um monte de símbolo. Que nem, não dá para entender o que está ali. E eu uma vez fiquei encucada com isso, eu falei, como assim? E aí eu fiz uma matéria falando, né, sobre essa falta de informação nas etiquetas das roupas que eles põem ali por constato.
e na verdade não estão te dando informação de como é pra você lavar a roupa. E aí eu me lembro, fiz uma tabelinha com tudo e tal, e eles disseram, bom, teria que ter o símbolo mais a explicação. E aí se a pessoa estragou a roupa porque não tem informação, ela tem direito a pedir a indenização e tal.
Os sachezinhos irritantes, as etiquetas inúteis, esses detalhes serviram para revelar a grande missão da especialidade da Carla. Era muito interessante porque, na Defesa do Consumidor, eu me lembro que muitas matérias que eu fiz, a gente conseguiu impacto. Porque são denúncias de problemas, de fraude, as empresas sempre tentam se esquivar e a partir do momento que vem para a imprensa...
e você se aprofunda naquilo e torna isso público, a questão é resolvida. Então, desde aquele momento, comecei a me mover, sabe? Como que eu poderia usar o jornalismo como instrumento para combater injustiça, para combater coisas erradas, assim. Dia após dia, a Carla acumulou conhecimento. Sei o código de defesa do consumidor de Coy Salteado, porque tem vários artigos que, né? Quem vê como que pode se aplicar e viria uma consumidora cri-cri, digamos assim, né?
E foi esse conjunto de experiências que, no fim, preparou ela para o primeiro contato que ela teve com Cassão. Fique totalmente imóvel. A visão dele é baseada em movimento.
Meu colega da Mongabay, o Philip Jacobson, ele cobra essa questão de oceanos há muito tempo. A minha área de cobertura na Mongabay, na minha área na carreira ambiental, desde 2017 sempre foi muito florestas, povos indígenas, povos quilombolas, crimes ambientais. E aí ele, enfim, lembro algumas vezes que ele entrou em contato comigo, falava o Brasil tem muita coisa acontecendo nessa área. Aí, em julho de 2023, rolou uma operação do Ibama em Itajaí, em Santa Catarina.
Uma mega apreensão do Ibama em 2023, que é considerada a maior da história do mundo. A Carla foi cobrir essa operação pelo Mongabay. Foi uma reportagem de poucos parágrafos que ela resolveu rápido. Mas depois, batendo papo com o agente do Ibama, o Leandro Aranha, ele fez um comentário parecido com o que a Solange tinha ouvido lá na escola. Ele falou, olha, toda essa questão da educação e tudo, ele falou, e tem uma coisa.
Se você pegar os contratos de licitação, você vai ver que eles fazem a licitação para compra de carne de cação, para merenda escolar, para hospitais, para prisões, porque é um peixe que não tem espinho. E aí ele começou a me explicar, eu falei, gente, mas isso é um absurdo. Absurdo não era a falta de espinhos. Hoje, cação é qualquer tubarão.
O Leandro me explicou. Olha, o governo é um dos maiores compradores de carne de tubarão. O Brasil é o maior consumidor de carne de tubarão do mundo. São aproximadamente 40 mil toneladas consumidas por ano no Brasil. E elas estão sendo consumidas de um jeito que não ia passar pela Carla.
Imediatamente me ligou a questão do Código de Defesa do Consumidor, porque o tubarão está sendo vendido com o nome de cação, as pessoas não sabem o que estão comprando, né? E aí o artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor fala que a informação tem que ser clara, precisa e ostensiva para o consumidor. Falei, isso está errado.
Nos filmes de suspense, a personagem da especialista é super obstinada. E a Carla faz jus a esse papel. Cinco graus a bom bordo! Tá bom, mantenha o curso! Nos meses seguintes, a Carla e o colega dela especializado na cobertura de oceanos, o Philip Jacobson, foram investigar a fundo como se dá o consumo da carne de tubarão por aqui.
Eles queriam descobrir por que o Brasil virou o país do cação. O ponto de partida na investigação da Carla e do Filipe para entender o sucesso do cação era justamente a questão do nome. Na luta da Solange em Caxias contra o peixe que estava assombrando a merenda, ela estava intrigada com a mesma coisa. Depois, só muito depois, é que a gente foi descobrir que ele é um tubarão. Isso não era uma coisa divulgada.
Essa é uma das principais ameaças dessa criatura quando ela sai do mar e chega na mesa. Ninguém sabe o que ela é. O que diabos é o cação? Em filme de suspense, isso faz sentido. E não é à toa que eu demorei para dizer aqui que estava falando de tubarão. Isso também está naquele modelinho. Faz parte da lógica narrativa desse tipo de filme. Adiar a entrada da criatura em cena até que não dá mais para segurar.
Tubarão, o filme clássico do Spielberg, de 1975, foi na verdade a obra que meio que criou esse modelo todo de suspense. A criatura do título, um tubarão imenso de 7 metros que pesa 3 toneladas, só aparece de corpo inteiro no começo da segunda hora do filme, quase na metade. O engraçado é que todo esse mistério até a criatura aparecer foi meio que uma gambiarra da produção. O tubarão mecânico que tinha sido encomendado para as gravações ficou péssimo, quebrava toda hora.
E aí a solução foi mostrar o bicho o mínimo possível nas cenas. Deu muito certo. Antes disso, aparece a barbatana, a boca enorme e os dentes. Cada um do tamanho da mão de um homem adulto. Muitas vezes o ponto de vista é o do próprio tubarão. Nadando sobre as pernas de uma banhista que não desconfia de nada. Ou do colchão inflável e amarelo de uma criança. É pra assustar mesmo.
Tem um ditado que é assim, quando é ele que come a gente, a gente chama de tubarão. Mas quando é a gente que come ele, a gente chama de cação. E não é porque essa cadeia alimentar está invertida que o perigo deixa de existir. Na verdade, a cadeia alimentar tem tudo a ver com o perigo. Pelo menos uma parte dele. A Carla e o Felipe descobriram isso rápido.
Tem um problema porque tubarão é topo de cadeia, então tem o processo de bioacumulação de metais pesados, principalmente mercúrio e arsênio, nele. E que isso, ingerido em grandes quantidades, pode levar a sérios problemas de saúde.
Por ser um predador, o tubarão vai comendo e acumulando os metais pesados que poluem as águas. Esse é um assunto discutido no mundo todo. Nos Estados Unidos, a FDA, que é a agência responsável por regular e fiscalizar os alimentos, a Anvisa deles, ela adverte que os adultos consumam carne de tubarão com moderação e que crianças pequenas, grávidas e lactantes evitem totalmente. Isso vale para a atum também.
Já no Brasil, o cação barra tubarão pode ser consumido sem restrições, por todos os públicos, inclusive por crianças bem pequenas. A Carla viu que o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, inclusive recomenda expressamente o preparo de cação para as crianças. Ele está ali, junto do tambaqui e do pirarucu. E por aquela mesma razão, isso é um peixe sem espinhas.
pelo fato de ser um peixe cartilaginoso. E um dos terrores das nutricionistas é imaginar uma criança engasgando com espinha. Mas o guia não tem nenhuma palavra de advertência sobre ele ser um alimento que pode conter traços de metais pesados. Depois de mapear algumas das questões sobre a carne de tubarão, a Carla e o Filipe foram seguir a pista que o agente do Ibama deu.
E aí a gente foi vendo várias instituições, aí a gente viu que repetia muito, né? Creches, escolas, enfim, comecei a pensar também, né? Penitenciárias, forças armadas. Eles foram puxando. Foram mais de mil contratos. 1.012 licitações para compra de 5.400 toneladas de carne de tubarão por governos municipais e estaduais em 10 dos 26 estados brasileiros. Quer dizer, tem cação para tudo quanto é lado.
E uma coisa que ninguém nunca tinha feito era fazer esse levantamento das licitações, né? Porque sem esse levantamento a pessoa podia achar que era um problema isolado de um lugar. Foi no meio das buscas pelas licitações de educação que a Carla conheceu a Solange. Ela estava rastreando palavras-chave e chegou num relatório do Conselho de Alimentação Escolar de Duque de Caxias.
tinha esse documento em que ela estava pedindo a suspensão da carne de cação da merenda escolar no município. E a partir dali ela começou uma batalha em relação a essa questão da carne de cação. E aí, nas pesquisas dela, foi quando ela descobriu que o cação era tubarão.
A Solange só soube que caçam é tubarão porque começou a circular no corredor da escola que ela e o conselho estavam se insurgindo contra a criatura. Os professores, principalmente de ciências, que estavam incomodados e que talvez soubessem.
começaram a mandar link pra gente, né? Aí quando chegou essa ventilação de que o caçom era tubarão, é tubarão, e que ele pode causar mal, a gente se interessou pra caramba. E daí a gente falou, não, então agora a gente vai fazer a recomendação pro governo. Não vai ter como o governo negar suspender isso, né?
Em nome do Conselho de Alimentação Escolar, a Solange entrou com um pedido para suspender a compra educação barra tubarão e para substituir ele por outro peixe. No pedido, eles citaram que não havia nada informando os alunos, os pais e nem ninguém da comunidade escolar sobre as questões envolvendo a carne de tubarão.
Não passa nem de longe a percepção para eles de que aquele peixe ali pode estar fazendo algum mal. Claro, você está consumido dentro de uma escola. Como que aquele alimento que eu estou consumindo dentro de uma escola vai poder me fazer mal? A gente volta daqui a pouquinho.
Chegou a hora de deixar os carros da idade da pedra para trás. O BYD Dolphin Mini foi o elétrico mais vendido no varejo por dois meses consecutivos. Pela primeira vez, um carro 100% elétrico lidera essa posição no Brasil. E chegou a sua vez de ter um carro mais econômico que moto. BYD Dolphin Mini, a partir de R$ 109.990 para a CNPJ. Fala até uma concessionária BYD e faça um test drive. Consulte condições em byd.com.br. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.
Oi, aqui é a Sueli Carneiro. E aqui é a Neca Setúbal. Estamos aqui para te convidar a ouvir o episódio desta semana do Escute as Mais Velhas. Toda hora me espanta, eu fico assim chocada, né? Porque a gente passou por isso, né? Meus filhos foram sequestradas mesmo, foi torturada grávida com oito meses de gravidez. Nós recebemos a escritora, jornalista e advogada Amelinha Teles.
Nós temos que conhecer a democracia e defender a democracia. Não dá para achar que democracia é qualquer coisinha, não. Nós temos que levar a sério, porque eu acho que às vezes a gente trata com desdém, direito, cidadania.
A Melinha contou pra gente sobre a sua atuação no Partido Comunista, o enfrentamento à ditadura militar e também sobre sua identificação e atuação no movimento feminista. Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tid Setúbal, produzido pelo Estúdio Novelo e já está disponível em todos os tocadores de áudio. Com episódios novos a cada terça-feira. Siga o podcast para não perder.
Além de perseverante, o especialista dos filmes de suspense costuma ser completamente apaixonado pelo tema dele. Meu marido disse que você adora tubarões. Desculpa, olha, parece engraçado dizer isso, mas eu gosto sim. Adoro tubarões. Voltando à defesa do consumidor, toda a questão de embalagem é regulamentado por Anvisa, Ministério da Agricultura, por vários órgãos que têm normas da forma da embalagem.
Nem no mercado, nem na banca da feira, nem nos grandes fornecedores, nunca está escrito postas de tubarão no pacote. É sempre cação. A outra parte é a questão da saúde, por quê? De novo, tem alertas de açúcar, gordura, não tem alerta de mercúrio. Não tem esses alertas novos na embalagem, mas claro que tem regras para comercialização desse peixe no Brasil.
A Carla procurou a Anvisa. Eles responderam que os lotes de cação testados ficaram dentro dos parâmetros exigidos. No caso do mercúrio, por exemplo, é 1 miligrama por quilo do peixe. Mas os vários especialistas que a Carla ouviu falaram de como os níveis de contaminantes podem variar de tubarão para tubarão, por fatores como espécie e habitat. Tem vários estudos que mostram isso.
Um monitoramento da FDA, por exemplo, que analisou 356 tubarões, mostrou que os níveis de mercúrio, em média, ficavam abaixo de 1 mg por quilo. Mas em alguns deles, o nível chegou a 4,5 mg por quilo. Eu mesmo, na minha pesquisa para essa reportagem, levantei pelo menos 18 estudos acadêmicos que analisaram tubarões de várias regiões do planeta, do sul da Ásia, o Atlântico Sul e ao Pacífico, com grandes variações da presença de metais pesados, principalmente mercúrio e arsênio.
Por isso, a maioria das pesquisas recomendavam cautela. E a maioria concluía que idosos, crianças e mulheres grávidas deveriam evitar o consumo.
Uma outra questão é sobre como é feito esse controle de qualidade. Um dos mecanismos oficiais é o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes, do Ministério da Agricultura. Esse plano testa todo tipo de alimento, inclusive peixes. Mas nos relatórios, eles não dizem especificamente quais peixes eles testaram. Está tudo junto ali como pescado. A carne de raia também entra nesse bololô. Ela também é vendida com rótulo de cação, só que em menor quantidade que o tubarão.
Eu perguntei para o Ministério da Agricultura com qual frequência especificamente o cação barra tubarão é testado. Eles me disseram que em cinco anos eles fizeram testes em cinco amostras de carne de tubarão, uma por ano. E daí a importância, porque as regras para a compra de merenda escolar e de outras compras de alimentos, ele precisa ser saudável. Então não está tendo o devido rigor para provar que o alimento adquirido é saudável.
Mas a falta de transparência a respeito desse produto não é uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos eles chamam de dogfish, né? Que aí eles têm algumas coisas e tem uns outros estudos também mostrando esse problema de rotulagem em que tubarão também está sendo vendido sem a devida informação da espécie e tudo mais. Ninguém quer dizer que é carne de tubarão, né?
Eu acho que é isso, em função de todo esse imaginário do tubarão, a figura do mal e aquilo e tudo mais, sabe? E todo o medo que se tem e pânico do tubarão, eu imagino que tenha sido um consenso que a gente não pode falar que é tubarão porque as pessoas não vão querer comprar. E o filme Tubarão tem uma participação considerável na criação desse imaginário.
Muitos biólogos culpam o filme Tubarão por dessensibilizar as pessoas em relação aos tubarões. E depois daquele primeiro, vários outros filmes vieram para reforçar o estereótipo. E dos jeitos mais absurdos.
Tem filme com um tubarão furioso caindo do céu e as pessoas tendo que usar motosserra para se defender. O nome desse é Charquinado. Tem filme de tubarão que sai nadando pelo meio da areia da praia para pegar a vítima. E tem até filme de tubarão fantasma, que ataca em qualquer lugar que tenha água, seja na banheira ou numa piscininha de plástico. É um gênero que rende, mas que não representa bem a realidade.
Eles têm um papel importantíssimo no ecossistema, porque eles são topo de cadeia, eles falam, alguns falam até como se fosse lixeiro, entre aspas, do oceano, eles que se alimentam de restos ali, de outros animais vivos e tudo mais, e eles têm uma importância imensa para o equilíbrio.
E com a redução das populações de tubarões, começa a ter vários desequilíbrios ambientais. Pode ter superpopulação de outros peixes que pode acarretar desequilíbrios ambientais em diversas áreas.
Na reportagem que a Carla publicou no Mongabay, ela traz o dado de que as populações de tubarões em alto mar caíram 71% nos últimos 50 anos. Isso faz com que os tubarões sejam um dos grupos de vertebrados mais ameaçados do mundo. A União Internacional para a Conservação da Natureza coloca 15 das 31 espécies de tubarões e raias que habitam o mar aberto como criticamente em perigo ou em perigo. E os problemas de rótulo que a Carla apontou têm tudo a ver com isso.
E fora isso, a gente também viu que, em função dessa, como não tem no rótulo que espécie que está ali, essa falta de regulação para dar um nome e dizer exatamente que espécie que está sendo vendida, abre brecha para que espécies ameaçadas sejam sendo vendidas com a mutação. Tanto o tubarão quanto a raia, porque entra tudo sob esse nome genérico.
No Brasil, a única espécie de tubarão autorizada para captura pelo Ministério da Pesca é o tubarão azul. Mas no fim, ele acaba sendo comercializado com o mesmo nome que os outros, cação. E quando uma escola, uma creche ou uma penitenciária compra cação, não dá para saber se aquilo é tubarão azul ou uma espécie mais ameaçada.
A Carla levantou uma boa hipótese para esse peixe ser tão barato e para ele ter emplacado tanto no Brasil. Tem a ver com uma característica específica do mercado de carne de tubarão. Esse peixe pode pesar toneladas, mas o que ele tem de mais valioso para a venda é bem mais leve. A barbatana.
A sopa de barbatana de tubarão é considerada uma iguaria, principalmente no mercado asiático. Por causa disso, se desenvolveu uma prática cruel chamada shark fining, de pescar o tubarão, só cortar a barbatana e jogar o bicho de volta para agonizar no mar. Depois de várias denúncias e campanhas, muitos países proibiram a prática. O Brasil foi um dos primeiros, ainda em 1998.
Você não pode chegar no porto só com a babatana. Você tem que trazer o corpo, que eles chamam de charuto. A hipótese da Carla é que a proibição do Finning teve um efeito colateral não intencional de criar uma nova oferta de carne de tubarão.
Já que eles pescavam tudo, mas só queriam mesmo a barbatana, tinha que vender o charuto, o resto do corpo do tubarão, em algum lugar. E como tem dezenas de milhões de pessoas de baixa renda no Brasil, o país virou um alvo fácil para esse mercado. E aqui, de novo, essa história se encaixa no modelo dos filmes de Hollywood. Esse tipo de trama geralmente tem uma hierarquia nas vítimas.
No próprio artigo do New York Times, tem uma declaração do John Sayles, o diretor do filme Alligator, que resume isso bem. É assim. O crocodilo enorme aparece em um bairro pobre e começa a comer pessoas lá. E ninguém presta atenção. Até que ele chega na classe média.
O que aconteceu aqui foi parecido. Na reportagem do Mongabay, tem um gráfico que mostra certinho o aumento das importações de carne de tubarão justamente a partir do início dos anos 2000, logo depois da lei da barbatana. As importações eram quase zero nos anos 90, e a partir da virada do século, elas sobem sem parar. E, como é barato, acabou fazendo sucesso nas licitações para órgãos públicos. Virou um blockbuster.
Ações de governo também tiveram uma participação nessa história. Um dos atos do segundo mandato do presidente Lula foi decretar o direito à merenda escolar universal e gratuita para todos os alunos da rede pública, do ensino infantil, fundamental e médio. E ainda no primeiro mandato, o governo também promoveu o consumo de peixe de forma geral, como alternativa aos alimentos ultraprocessados. Nessa época, o consumo de peixe per capita subiu 40% no país.
Claro que isso conta como ação positiva do governo, mas também é por isso que o mercado de cação barra tubarão chegou onde ele está hoje. Porque ele é mais barato, talvez mais fácil acesso. Então, você ali tem as empresas que querem fornecer o cação. Para a empresa é mais barato e já tem a contratação e é isso o ponto final. Então, é isso aí que vai ter, entendeu? E a qualidade da alimentação fica comprometida. E aí
A Carla passou mais de um ano investigando a indústria da carne de tubarão. E ela saiu com alguns caminhos para tentar melhorar. A ideia não é proibir o comércio, banir o tubarão da mesa dos brasileiros. É trazer transparência em todos os setores. A gente tem que saber o que está comendo.
Pode ter alguém que fala, ah, eu amo cação, eu quero comer. Tudo bem, mas eu acho que ela tem que ter no mínimo, entre parênteses, carne de tubarão. Só que você vai comer um pedaço, comer de vez em quando que você vai ter todos esses problemas. O problema é a acumulação disso ao longo dos anos. Então, a pessoa precisa ter todas as informações para ela fazer a escolha.
Entre essas informações, tem que estar que tipo de tubarão é aquele. No caso, o único autorizado, o tubarão azul. Tem que ter uma fiscalização disso. E tem informação da questão de que aquela espécie não é ameaçada. Os governos também têm que ter clareza do que eles estão comprando. Você vê que nas licitações, em tese, teria que ser exigido os testes para mostrar que você tem que comprar um produto saudável.
E não é exigido. O produto que está sendo entregado não vem com laudos mostrando qual é o nível de presença de mercúrio naquele produto. A Carla e o Filipe não encontraram nenhum laudo assim nos mais de mil contratos que eles rastrearam nessa investigação. Nenhum desses contratos exigia um laudo indicando que a carne de tubarão estava com os níveis de contaminantes dentro do que é autorizado pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura.
assim como nenhum deles também pedia que fosse indicada a espécie de tubarão, para saber se é mesmo tubarão azul ou alguma outra. Um especialista em conservação dos oceanos que eu ouvi para essa história me disse o Brasil pesca no escuro e consome no escuro. Jogar luz sobre essas questões pode ajudar a resolver alguns problemas mais espinhosos lá da ponta.
Vocês já falaram para alguma criança? Já teve isso de contar? Olha, esse peixe que você não gosta, que é cação, na verdade é tubarão. Então, existe um conflito, né? Porque às vezes a criança come, porque ela está com a necessidade de comer. Então, você jogar isso é uma responsabilidade muito grande. Você entra num conflito, assim...
Parece que você está negando que ela coma aquilo ali. Claro que você, na consciência, fala assim, poxa, aquilo ali pode vir a passar mal. Mas, pelo outro lado, você cria um movimento dentro das escolas em que você está respaldada por um cardápio. Aí você fala contra aquilo ali. Eles vão perguntar, mas por que está sendo, então, servido? Então, há um conflito. A gente não tem ainda segurança sobre o que fazer em relação a isso. Não vou mentir.
No fim de muitos desses filmes de suspense, a gente descobre que as criaturas misteriosas não são o problema principal. Nunca foram. Por quê? O tubarão, muitas vezes, ah, Recife, ah, tubarão atacou. Por quê? Porque construíram um porto lá que provocou todo aquele desequilíbrio ambiental. É um clássico dos filmes de monstro. Porque o homem está destruindo o ambiente, invadindo, né? E aí colocam a culpa no pobre do animal.
O problema eram os humanos. A criatura vem para mostrar isso. Doutora Eleis, só uma pergunta. Tiraram foto da perna? Não, nenhuma foto.
No filme O Agente Secreto, do Kleber Mendonça Filho, tem várias referências ao tubarão do Spielberg. Ainda mais depois que uma perna humana aparece na barriga de um tubarão. A criança, o menino que é filho do Wagner Moura no filme, morre de medo do bicho. Mas a gente sabe que o terror de verdade é o clima de repressão do Estado que permeia a história toda. Doutora, esse tubarão é macho ou fêmea? Macho.
Os conflitos com as criaturas são sempre amplificados pelas nossas decisões, humanas. Um dos conflitos do filme Tubarão se dá porque o prefeito do balneário, por onde o bicho está rondando, decide manter as praias abertas mesmo depois que uma mulher e uma criança são devoradas pelo animal. É o que me disseram, Marte, é tudo psicológico. Se gritar barracuda, todo mundo diz, aham, o quê? Se gritar tubarão.
Vamos ter pânico aqui em 4 de julho. No caso da professora Solange, de Duque de Caxias, ela entrou com um pedido para suspender a compra da carne de tubarão na rede municipal em abril de 2023. Foi esse o documento que o Filipe e a Carla encontraram.
recomendando que o poder público não incluísse mais na licitação o cassal. Já vai fazer quase três anos que a gente fez a recomendação. O pedido era para excluir o tubarão e colocar o filé de merluza na próxima licitação. Quando a Carla entrevistou a Solange para a reportagem do Mongabey, ela ainda estava esperando a resposta da prefeitura.
Para seguir a lógica do blockbuster até o fim, a Solange e a Carla precisam encarar o inimigo frente a frente. É o confronto final da história delas. Não dá para terminar essa história sem isso. E aqui o tubarão, barracação, congelado, impostas na peixaria ou na cozinha da escola é só uma pontinha da questão. Mas para mim fica muito claro quanto dinheiro se envolve. A gente rastreou mil contratos. Só o município são cinco mil. Quanto de dinheiro está em jogo?
O inimigo não é o cação, né? É a falta de regulamentação dos governos e da indústria pesqueira. A reportagem da carne do Philip foi publicada em julho de 2025. Depois que ela saiu, o setor pesqueiro se manifestou em massa, escrevendo para o Mongabay e divulgando notas públicas de repúdio. Basicamente, eles defendem a pesca e dizem que o consumo dessa carne é seguro. Sempre citando que estão dentro dos parâmetros da Anvisa.
E eles enfatizam que os dados públicos mostram índices de contaminação próximos a zero. Mas o mecanismo regulatório que eles citam é o mesmo Plano Nacional de Controle de Contaminantes do Ministério da Agricultura, aquele que só analisou cinco amostras de cação nos últimos cinco anos. Aliás, outra informação que o Ministério da Agricultura me passou é que essas amostras foram colhidas no litoral sul e sudeste. E tem pesca de tubarão no litoral do Brasil todo.
No final desse tipo de filme, é comum o diretor esticar a corda, exagerar um pouquinho.
Os minutos finais de Tubarão estão entre os mais influentes da história do cinema, ou pelo menos desse gênero de filme. Eles continuaram ressoando pelas próximas décadas. Na cena, o herói, que é o policial Martin Brody, tem pavor de nadar no mar e está no barco já semi-afundado por dentadas do tubarão, sozinho, sem um especialista, sem ninguém.
Quando o barco já está indo a pique e o herói está prestes a entrar para a lista de vítimas, ele dá um tiro certeiro num tanque de oxigênio que ficou entalado na bocarra do tubarão. Sorri, filho da mãe! E o tubarão vai pelos ares. É um clímax arrebatador para a tensão que vinha sendo construída cuidadosamente ao longo de duas horas.
Esse não é um final dos mais realísticos. Mas como o próprio Spielberg disse numa entrevista, se você segurou o público por duas horas, eles vão acreditar no que você quiser nos próximos três minutos. E no filme Educação de Duque de Caxias, como é que vai ser o final?
não existe final aberto no modelo dos blockbusters. Para Carla, o desfecho foi o impacto que a reportagem dela e do Philip teve entre quem acompanha a pesca de tubarão no Brasil. O deputado Newton Tato, coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, disse que ia chamar uma audiência pública no Congresso Nacional para rediscutir as regras de consumo da carne de tubarão no Brasil.
O Ministério do Meio Ambiente disse que está revisando as normas para pesca de tubarões e importação da carne. E a reportagem do Mongabay foi citada nas discussões para essa revisão.
A Carla também procurou o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, que é o órgão máximo desse tipo de causa no Brasil, no Ministério da Justiça. E depois de analisar as informações que ela passou, esse departamento disse que fez um monitoramento de mercado e que, a princípio, a venda de cação no Brasil está realmente em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor. Eles disseram para a Carla que o caso está em processo e que medidas a respeito vão ser anunciadas.
E por fim, em dezembro de 2025, o governo do estado do Rio de Janeiro anunciou que estava proibido servicação nas escolas da rede estadual do Rio de Janeiro. Foi uma resposta a uma nota técnica da ONG C. Sheffield, que também incluía a reportagem da Carly do Filho. Já na nossa comunidade local, sob ameaça de uma criatura, a rede municipal de Duque de Caxias, a professora Solange recebeu uma notícia que encheu ela de esperança.
A prefeitura se comprometeu a não incluir o filé de cação já na licitação seguinte, a que começava a valer agora, no começo de 2026. Talvez por uma atitude de tentar se redimir um pouco, porque, na verdade, no fundo, os técnicos sabem. O substituto ia ser o que a Solange tinha indicado.
Ele fala, deixa eu ver se eu tenho aqui, filé, peixe, né? Filé de merluza de primeira qualidade, limpo, sem couro ou escamas. Ela ficou contente, claro. As crianças iam poder comer merluza. E depois de tanto conversar com a especialista dela, a Carla, a Solange já estava sonhando com um impacto mais amplo. Se ela tinha conseguido substituir o cação na cidade dela, de repente estava para sensibilizar as autoridades de outras cidades, de outros estados ainda.
Tirar os tubarões de todas as escolas brasileiras. Só que aí, quando o filé de melusa chegou na escola... Esse lote que foi, ele tinha espinha pequena. Aí você não pode servir peixe com espinha para as crianças.
Apesar de a licitação prever melusa sem espinha, não foi isso que a empresa mandou. A entrega foi suspensa até segunda ordem. Algum peixe ia ter que entrar no lugar. E quando a Solange foi ver o que ia ser... Porque eles deixaram o cação lá também, né? 79 toneladas. Do cação, o tubarão.
E no termo de referência para essa nova licitação, a exemplo dos mais de mil contratos que a Carla levantou, não tinha nenhuma palavra sobre testes para contaminação por metais pesados. E nem a exigência de informar qual é a espécie de tubarão que vai vir para a cozinha da escola. A gente vai continuar buscando alternativa para buscar camisa aí.
Tá com toda a pinta de que nesse verão, no cinema mais perto de você, vem aí uma sequência. Bate a perna, vai. E eu que odiava a água. Eu não sei porquê. Esse foi o Vitor Hugo Brandalize.
E essa reportagem foi produzida a partir da cobertura da Carla Mendes para o site Mongabay. Depois que a gente gravou esse episódio, teve duas notícias sobre a pesca e o consumo de carne de tubarão no Brasil. No fim de março de 2026, o governo brasileiro anunciou regras mais rígidas para a importação e exportação do tubarão azul, o único que pode ser pescado no país.
As novas regras prevêem que todo lote de carne de tubarão que chegue ao Brasil tenha uma licença comprovando, entre aspas, que a exploração não prejudica a sobrevivência da espécie. O texto fala ainda que o Ibama pode via solicitar testes de contaminantes, mas isso ainda não vai ser obrigatório.
E a outra notícia é que a Justiça Federal determinou que a União não poderá mais fazer compras públicas de carne identificada como cação sem indicar qual é a espécie do animal. Isso vale para licitações de todas as instituições federais. A decisão não abrange estados e municípios, que são a maior parte das licitações mostradas na reportagem do Mongabey.
Essas mudanças ainda não alteram os rótulos dos produtos vendidos no Brasil com o nome de cação. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novelo Apresenta. Toda quinta-feira a gente traz mais histórias que vocês nem sabiam que precisavam ouvir.
E quem é membro do Clube da Novelo consegue escutar antes, na quarta-feira. E, além disso, ainda tem acesso a conteúdo bônus e a possibilidade de desfilar por aí com uma belíssima bolsinha para mostrar para todo mundo que é nosso ouvinte. Fica aqui um gostinho da semana que vem. E aí
Eu sei que é meio difícil, mas tenta imaginar que todo mundo que está dançando isso está usando camisa verde e amarela. Aliás, quando eu digo todo mundo, eu estou me referindo a homens e meninos. As mulheres não podiam se juntar. Tenta imaginar também que tem um freezer desses horizontais de chão plotado com duas fotos lado a lado. Uma dos jogadores do Sanat Naft e outra da seleção brasileira de 70.
Para fazer parte do clube e ganhar esse e outros benefícios, é só seguir o caminho das pedras no nosso site. A gente volta daqui a pouco. Olá, eu sou o Cristiano Botafogo do Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Sensacional.
Pois é, aquele podcast de política. Aquele podcast. Na primeira vez, ouvir a gente pode ser um pouquinho desagradável. Medo, delírio, invasileiro, delírio. Mas aí depois você abraça a loucura. Deixa com a cara magoada. A gente tá lá na Central 3 ou em todos os outros agregadores de podcast. Eu não ouço medo e delírio. Medo, delírio, invasileiro, invasileiro, invasileiro. Medo, delírio, delírio. Puxa daí, Eduardo Cunha. Que Deus tenha misericórdia dessa nação. Ouça o medo e delírio.
Na página desse episódio, no nosso site, tem o link para aquela reportagem do New York Times sobre a estrutura dos grandes blockbusters hollywoodianos e também a cobertura da Carla Mendes pelo Mongabay.
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Os nossos treinis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Vallejo. A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farah. Esse episódio teve desenho de som da Bia Guimarães, que, diga-se de passagem, é uma grande entusiasta tanto de Tubarão quanto do filme Tubarão, e que também mixa o programa junto com a Mariana Leão.
Nesse episódio, a gente usou o músico original de Vitor Rodrigues Dias e também da Blue Dot. O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Tainá Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. Obrigada e até a semana que vem.
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