Volta a fita
Rebobinando filmes piratas e causos familiares.
No primeiro ato: Locadora Robin Hood. Por Paula Scarpin.
No segundo ato: Seu Canudo, Cantiliana e seus invisíveis. Por Katia Costa-Santos.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep173
Membros do Clube da Novelo podem ouvir os episódios do Rádio Novelo Apresenta antecipadamente, além de ter acesso a uma newsletter especial e a eventos com a nossa equipe. Quem assinar o plano anual ganha de brinde uma bolsa da Novelo. Assine em https://www.radionovelo.com.br/clube
Inscreva-se no curso "Contando histórias em áudio com a Rádio Novelo": https://journalismcourses.org/product/contando-historias-em-audio-com-a-radio-novelo/
Inscreva-se no canal da Rádio Novelo no YouTube: https://www.youtube.com/@R%C3%A1dioNovelo
Siga a Rádio Novelo no Instagram: https://www.instagram.com/radionovelo/
Palavras-chave: videolocadora, locadora, fita cassete, videocassete, filme pirata, vídeo pirata, Vidigal, Rio de Janeiro, anos 90, anos noventa, história negra, história familiar, Guerra de Canudos, fabulação crítica
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Mayra Vallejo
Solange Bergami
Kátia Costa Santos
Paula Scarpin
- Relações FamiliaresHistória da avó Emília · Guerra de Canudos · Relações familiares
- Identidade Racial e DiásporaMovimento negro · História da família negra
- Filmes dos anos 90Arthur Sherman · Pirateação de fitas · Cultura do VHS
- Memória e NarrativasGravações de fita cassete · Recontando histórias familiares
- Impacto da TecnologiaEvolução do videocassete · Mudanças na forma de consumir filmes
E se uma música pudesse te levar mais longe? Pra perto de novas histórias, misturando sonhos, culturas e pessoas na energia da latinidade. Com a Latam, você garante sua viagem completa e chega onde todo mundo vai se encontrar. O Rio de Janeiro, Latam Airlines. Bem-vindo a ir mais alto, é viajar com o ritmo da música. Companhia Aérea Oficial do Todo Mundo no Rio 2026.
Conforto para o seu dia a dia e atitude para o seu estilo. Encontre o tênis que acompanha o seu passo agora no App Net Shoes. Explore as categorias, garanta as melhores marcas e aproveite. Net Shoes, no seu ritmo. Baixe o app.
Bem-vinda ao Rádio Novela Apresenta. Eu sou a Branca Viana. Tem um documentário de 1980 chamado Poto e Cabengo, sobre duas meninas, irmãs gêmeas, morando na Califórnia.
Os nomes delas eram Grace e Virginia Kennedy, nada a ver com os Kennedy famosos da política. Mas o documentário tem esse nome diferentão porque elas se chamavam assim. A Grace era a Poto e a Jeannie era a Cabengo. E não eram só os nomes delas que elas falavam diferente. Elas tinham um jeito peculiar de falar.
Entre elas, elas se entendiam bem. Mas nem o resto da família que morava com elas entendia o que elas estavam falando. Eles achavam que era um nonsense. E no final dos anos 70, elas acabaram virando notícia nos Estados Unidos inteiro. Porque os fonoterapeutas do hospital local vieram com uma hipótese. A de que as meninas tinham inventado uma língua própria.
O documentário do Jean-Pierre Gorin acompanha Apoto e Acabengo enquanto elas brincam, enquanto os pais delas tentam lidar com os holofotes depois dessas reportagens e enquanto os cientistas tentam entender esse novo idioma delas. Tia linguista escutando e reescutando as gravações das meninas brincando e conversando, voltando a fita, tentando decifrar as palavras, a gramática.
E, desculpa, vou dar um spoiler desse documentário de quase meio século atrás, tá? Mas a gente acaba descobrindo que o que as meninas estavam falando não era nem nonsense, nem uma língua nova. Era inglês. Um inglês misturado com alguma coisa de alemão.
A mãe delas era alemã, o pai era norte-americano, logo, elas estavam falando inglês, com um sotaque um pouco estranho, e enfiavam algumas palavras inventadas no meio. O que é peculiar, mas não chega a ser uma língua nova pelos padrões da linguística.
O filme é bonito e triste, porque conforme fica claro que a forma de comunicação das meninas não é uma nova língua secreta, os holofotes vão se desligando e o que fica é uma pequena família bastante infeliz, que pelo jeito era infeliz já fazia um bom tempo. Era uma família em que as pessoas não se escutavam direito.
No Rádio Novelo Apresenta, dessa semana, a gente tem duas histórias sobre o poder de voltar à fita e o que essa repetição pode acabar mostrando para a gente. Daqui a pouco, depois de um pequeno intervalo, quem começa é a Paula Scarpini.
Quando Arthur Sherman tinha oito anos, o pai dele arrumou um emprego novo. Para trabalhar de atendente numa videolocadora ali no prédio da Quartier em Ipanema. Meu pai não era do cinema, não era cinéfono, não tinha nenhuma ligação com o cinema. Ao contrário do pai, o Arthur, sim, tem uma forte ligação com o cinema. Ele é diretor de fotografia. Mas a gente já chega lá. O pai do Arthur arrumou esse emprego de atendente numa videolocadora.
Uma videolocadora, para quem nasceu já no século XXI, era uma espécie de biblioteca em que se alugava fitas de filmes para assistir em casa, no seu videocassete. O DVD e o Blu-ray vieram depois. Foco nas fitas cassete aqui.
Era uma tecnologia revolucionária, se você pensar que antes dela, você só tinha acesso ao que estava passando no cinema ou na grade da TV. TV aberta, com tipo quatro, cinco canais no máximo. Se o sinal tivesse bom. Bombril na antena, outros tempos. Mas voltando, o pai do Arthur foi trabalhar de atendente na videolocadora.
Minha mãe era empregada doméstica e, paralelo a isso, ela fazia algumas viagens para o Paraguai, que ela trazia relógio e tênis para revender aqui no Rio de Janeiro. Vou fazer mais um pit stop de contexto aqui, para quem só conhece os anos 90 da aula de história.
Se até hoje o Brasil aplica um imposto bem alto para a importação de bens de consumo, nos anos 80, 90, essa taxa era ainda maior. E no Paraguai, ao contrário, esse imposto era baixíssimo. Daí já viu, né? Era só atravessar a ponte da amizade para fazer a festa dos produtos importados. Originais e piratas.
Era perfume, era roupa, eram eletrônicos em geral. E trazer esses produtos para o Brasil, na miúda, sem declarar nada na alfândega, virou um jeito de incrementar a renda para muita gente. Saiu um ônibus lotados das grandes cidades brasileiras para cruzar a fronteira, comprar o que desse para carregar e voltar, torcendo para não ser parado, ou numa casualidade, quem sabe, talvez molhando a mão do guarda ali.
Essa profissão tinha até nome. Sacoleiro. Ou muambeiro. Eu mesma tive uma tia sacoleira. E os meus amigos morriam de inveja de um estojo que eu tinha com um tecladinho de piano embutido e de um cachorrinho de pelúcia que dava uma cambalhota pra trás que ela trouxe pra mim. Mas de novo, voltando pro Arthur.
Tinha um primo meu que tinha uma barraca na Uruguaiana, que ele vendia material de pesca. Então ela sempre ia com esse meu primo, que é um cara que já conhecia mais o negócio, o Ponte da Amizade. Ele comprava o material de pesca lá no Paraguai também? Do Paraguai e revendia na Uruguaiana. A Uruguaiana é um ponto de comércio popular no centro do Rio.
O primo do Arthur até dava um cantinho para a mãe dele vender os tênis e os relógios que ela comprava. Era na mesma barraca que ele vendia, os materiais de pesca. Então, quando ela não ia trabalhar de empregada doméstica, ela ia para a Uruguaiana. E mesmo quando ela não ia para a Uruguaiana, ela aproveitava para vender os relógios e os tênis para os vizinhos. No Vidigal. Vidigal é uma comunidade que fica na zona sul do Rio de Janeiro, né? É uma favela e tal. E eu sou de lá, sou nascido e criado dentro do Vidigal.
E aí o pai do Arthur, vendo aquela movimentação toda de importados e empolgado com o emprego novo na videolocadura, ele começou a matutar.
Bom, pra começo de conversa, urgia a necessidade de um videocassete na casa, né? Pra ele trazer uns filmes da locadora pra família assistir. Só tinha TV. Então ele teve uma ideia que era o seguinte. A minha mãe ia pro Paraguai, mais uma dessas viagens, e ela ia trazer... Não um, mas dois. Dois videocassetes de lá do Paraguai. E muitas fitas VHS virgens.
Porque a ideia que ele teve não era só de trazer um videocassete para ver filme. Era uma possibilidade de um negócio, junto com a minha mãe, de fundar uma videolocadora no Vidigal, que não existia videolocadora dentro da favela. Só para deixar claro, porque a gente está falando de uma tecnologia que já está antiga e pode ser que alguém não saiba. Não era assim que as videolocadoras funcionavam. No caso, as videolocadoras que trabalhavam com fitas originais.
Para ter uma fita original, você precisava comprar de uma distribuidora licenciada pelos grandes estúdios de cinema, tipo a Warner, a Columbia, Paris Filmes. As fitas originais eram muito caras. Então, a ideia do pai do Arthur era pegar filmes na videolocadora de Ipanema, onde ele estava trabalhando. E pirateavam, e a gente ia fazer cópias no Vidigal para fazer uma videolocadora no Vidigal. Uma videolocadora pirata.
Eu lembro que meu pai batia muito nessa e falava assim, Conceição, você tem que trazer um vídeo cassete transcodificado, que na época tinha uns vídeos que gravava, mas gravava só em preto e branco. Ele tinha que trazer um vídeo cassete que gravava em colorido, em cor.
Então tinha que ser um modelo específico. E ele anotou pra ela não errar nessa compra. Ele tinha especificado tudo. Ele tinha especificado tudo. Que tinha que ser fitas de 120 minutos. Que é pra dar um tempo de um longa metragem. Porque na época, quando o filme era muito longo. Aí tinha que ser duas fitas cassete, né? Você gravava até a metade do filme numa fita cassete. E a outra metade numa segunda fita. Eu lembro que Titanic era assim. O Titanic era assim, total.
Mas enfim, a mãe do Arthur embarcou num ônibus de sacoleiros pro Paraguai. E três dias depois, ela tava de volta. Teve aquela festa, conseguiu chegar, assim, que não tivesse passado na fiscalização, né? E eram equipamentos caros. Mesmo comprando no Paraguai, que era mais barato, eram equipamentos caros. Então, assim, eles tiveram um investimento grande, assim. E eu lembro muito bem, cara, eram duas caixas grandes.
de fita VHS em virgens. Tem ideia de quantas fitas que tinha ali? Cara, não lembro, mas eram muitas fitas. Acho que eram tipo umas 60 fitas, 60.
E aí, foi só a mãe do Arthur chegar em casa. E o pai dele já botou o negócio pra funcionar. Ele tinha todo o esquema já montado, que alguém lá dessa videolocadora tinha meio que feito e ele tinha pescado. Não que ele tinha ensinado ao meu pai, mas ele, pela observação, ele entendeu como que faria. Era botar um videocassete que ia o filme original, o outro videocassete que ia a VHS Virgem. E tinha todo o negócio de entrada e saída. Eu fiquei muito...
E o primeiro filme que ele trouxe pra copiar foi Dirty Dancing. Ritmo quente. Ninguém coloca a baby de lado. Ficou o Patrick Swayze aqui. Exatamente. Sim. E aí trouxe o filme que era o filme favorito da minha mãe, que minha mãe adorava ver dança e tal. Acho que minha mãe viu esse filme no cinema com meu pai. Então era um filme meio que especial pros dois ali.
A escolha foi carregada de simbolismo. Mas nesse dia, o lance nem era o filme. Era a tecnologia. Tava todo mundo na sala, tipo, super observando uma mágica acontecer ali, né? Tipo assim, eu quero ver a cópia.
O pai botou o filme original num videocassete, a fita virgem no outro, e apertou o play de um aparelho, o rack do outro, ao mesmo tempo. Então, pra fazer a cópia, não é uma coisa... O filme tem duas horas? A gente tem que esperar duas horas passar inteiro pra fazer a cópia. Não é mover um arquivo que nem a gente faz hoje em dia, assim, né? Era você ter que ver o filme inteiro.
Aí eles viram o filme inteiro, rebobinaram as duas fitas, tipo apertaram o rewind dos dois aparelhos, o com a fita original, pra devolver rebobinada na locadora. Aliás, as locadoras até davam uma multa pra quem não devolvesse rebobinada. E rebobinaram da cópia também, pra ver se tinha gravado direitinho. E bora de play de novo. E... E...
Não tinha dado certo. O som ficou meio arranhado e tinha algumas partes do filme que ficava meio rosa. Eles conferiram os equipamentos. Tinha vindo tudo certinho, que nem o pai do Arthur tinha listado. Mas será que a fita era de má qualidade? Ou pior, será que o videocassete era porcaria?
Naquela época até se falava de maneira bem preconceituosa de coisas do Paraguai, como sinônimo para coisa de má qualidade. Que nem tem gente que fala hoje em dia de uma coisa da Shopee, querendo dizer que tudo que vem da China é falsificado ou de baixa qualidade, enfim.
Mas não era, tava tudo certinho. De repente ele falou, não, de repente é porque o vídeo é novo, o cabeçote do vídeo é novo, alguma coisa assim. Aí depois ele viu que ele tinha gravado tudo num modo errado, que tinha, antigamente na Fita VHS, tinha um modo SP e LP. O SP era a alta qualidade e o LP é que você fazia render a fita videocassete. Uma fita de uma hora fazia uma hora e meia, mas você perdia a qualidade. E ele tinha feito...
Nessa qualidade menor. E aí a cópia não saiu boa. Bom, alívio geral, né? Era só mudar uma chavinha ali na fita. E o pai do Arthur estava na pilha de fazer a segunda cópia, ou a primeira cópia no modo certo, naquela noite mesmo. Só que minha mãe não teve paciência de ver o filme de novo. Nem o requebrado do Patrick Swayze estava convencendo ela de adiar o sono. Estava muito tarde, aí todo mundo foi dormir.
Ok. No dia seguinte, meu pai chegou, a primeira coisa que ele fez foi setar os vídeos tudinho de novo, tá, não sei o quê, com uma outra fita, botou uma outra fita virgem lá e a gente fez a cópia no modo certo. Mesmo filme? Mesmo filme. Aham. Mesmo filme. Só que ninguém tava achando a menor graça de ver o mesmo filme que eles tinham visto no dia anterior. Muito menos duas vezes em seguida. Só eu e meu pai.
Eu era o irmão do meio, tinha uma irmã mais velha. Ela tinha quantos? Eu tinha uns oito anos e ela é seis anos mais velha que eu. Então ela tinha quatorze anos. E eu tinha um irmão de menos de um ano também. A minha irmã já estava fazendo outras coisas, meu irmão de um ano já estava nas suas demandas, minha mãe lá no canto e eu e meu pai a gente vendo aquela coisa.
E aí o meu pai começou a me explicar. Eu fiquei muito, eu, uma criança de oito anos, eu fiquei muito encantado com aquela coisa, sabe? Era um cabo RCA, entrada, saída, é o rec, é o pause. A VHS, quando entrava no vídeo, fazia um barulho, né? Ela entrava lá dentro do vídeo e começava a fazer uns barulhos mecânicos lá dentro, né? Então isso me encantava muito. Na terceira noite, o pai do Arthur tentou reconquistar o resto da família com um clássico recém-saído do forno.
E ele trouxe Rei Leão. Olha em cima. Tudo isso que o sol toca é o nosso reino. Nossa! E aí era, pô, explosão pra mim, pra minha irmã e pro meu irmão de um ano. Então, assim, a gente fez mais uma cópia do Rei Leão. Só que a empolgação da família com a locadora tava meio indo pelo ralo, por causa do monopólio da televisão. E também com essa história de ver o mesmo filme duas vezes seguidas, que tava fazendo eles viverem, tipo, uma versão repaginada do Dia da Marmota.
E aí, de novo, o pai do Arthur pensou numa solução. Era um ritual. Meu pai chegava, tomava o banho e começava a fazer a cópia comigo. Antes da novela das oito começar. Porque tinha que dar espaço pra novela da minha mãe. Mas a revisão, quem fazia era eu no dia seguinte.
E ele tinha algum esquema lá na locadora? Ou ele alugava como se fosse, ah, eu vou pra ver? Não, ele não tinha esquema nenhum na locadora. Ele pegava escondido mesmo. Terminou o expediente? Ele terminou o expediente. Como ele fechava a loja, então ele ia escolher um filme que ele queria levar pra casa e levava pra casa.
Nesse começo, o pai do Arthur estava focado em copiar os filmes recém-lançados. Então foi nessa época que eu vi Fogo Contra Fogo. Qual que é Fogo Contra Fogo? Fogo Contra Fogo é um filme que tem o Al Patino e o De Niro. Coloque as mãos para cima! Para cima! Abaixados! É uma briga de rato entre os dois, um é gank e o outro é policial. É o único filme que tem os dois juntos. Ele trouxe todos os lançamentos possíveis nessa época e os filmes que eram muito ripados ainda na época, como Juraxi Parque. Pô, eu adorava ver Juraxi Parque, né?
criança era tipo uma explosão de cabeça. Sim, os dozentos bombavam o negócio de dinossauro. O Arthur tava pirando não só nos filmes, mas na mecânica da coisa toda. Quando meu pai viu que eu sabia fazer as cópias, então ele não tinha mais esse procedimento de chegar e fazer a cópia e eu revisar no dia seguinte. Ele já deixava tudo pra mim no dia seguinte. Mas nessa altura ele já podia ficar, assim, não era só durante a noite que ele tava com a fita, ele podia ficar um dia inteiro.
Podia ficar o dia inteiro. Ele deixava o dia inteiro lá em casa com a fita. Depois, o patrão dele sabia que ele tinha um videocassete, não sabia que ele tinha uma locadora. E aí ele começou a incentivar meu pai a levar filme pra casa pra ver, até mesmo pro meu pai ter o conhecimento pra ter argumento na hora de alugar as fitas. Mal sabia ele que quem tava adquirindo todo esse repertório era o Arthur, né? Do autor de seus oito anos.
Bom, mas fazer as cópias dos filmes era só uma parte, da preparação pra inauguração. E o resto do, assim, né, porque a caixinha do filme, vocês tinham? Vocês faziam um xerox da capa? Como era, assim? Era um padrão, né, que tinha. Meu pai trazia a fita, aí deixava a fita em casa.
Minha mãe pegava a capa, como ela ia ou trabalhar como faxineira ou ir pra Uruguaiana, então ela levava a capa da fita e fazia uma copa, uma xerox. Ela tentava sempre fazer uma xerox colorida, pra quando voltasse pra casa, essa xerox colorida, ela fazia uma capa pra esse filme pirata, que ficava lá em casa pra gente alugar. Nossa, ela odiava ter capa preta e branca.
E aí, às vezes, ela até pedia, Elias, quando você vier, traz aquele filme que eu vou tentar fazer a capa colorida em algum momento. Mas fora as fitas, a casa também precisou ser adaptada, né? Não é que tinha uma parte da casa que ia virar locadora. Não, a sala lá de casa virou uma locadora. Eu lembro da gente pegar o final de semana, meu pai acordar cedo e a gente mudar totalmente a sala. O que que mudou? Me explica como era e como que ficou assim. Por exemplo, tinha uma mesa.
Tinha uma mesa de almoço na sala. Ok. Essa mesa de almoço foi totalmente desfeita. E de quando a gente ia almoçar, tinha uma mesa... Essa mesa de bar de... De armar, sim. De armar, exatamente. Tinha uma estante de madeira que ele tirou.
Ele tirou, ele botou... Que tinha o que? Bibelou da sombra? É, tinha, exatamente. Tinha essas coisas, porta-retrato, pessoal e tal. Isso tudo foi embora, foi pro quarto. E ele foi abrindo espaço dentro da sala. Ele fez o que? Prateleira pra... Ele fez de prateleira. Ele comprou umas prateleiras de arame, onde você colocava as capas das VHS, todo mundo empilhadinha. E sofá? Ficou?
Sofá ficou, mas ficou do ladinho e aí a TV tinha que ficar na sala, né? Porque tinha que ficar passando fio e tal. E aí ele comprou um suporte de um gira-visão, que era o nome. E aí quando a sala virou, já estava consolidada que ali era uma videolocadora. Faltava uma placa. Uma placa com o nome.
E aí foi a ideia da minha mãe. Minha mãe falou assim, não, essa locadora aqui tem que ser Robin Hood. E a gente pega lá em Ipanema e a gente traz aqui pro morro. E aí eu lembro que teve um cara que fazia as placas no Vidigal, que fazia camisa de escola e tal. Ele tinha esse trabalho e ele fez uma placa lá pra casa. Pintor? Pintor. Era uma placa retangular assim, muito larga. E aí tinha uma flecha enorme.
E aí na pontinha da placa tinha uma seta. Aí essa flecha encontrava com essa seta. E é uma placa verde. Aí em cima dessa seta estava escrito. Vídeo locadora Robin Hood.
A inauguração foi discreta. O serviço só começou a acontecer. De manhã, os pais do Arthur iam trabalhar, ele e os irmãos iam para a escola, e a locadora ficava fechada. Ela só abria depois do almoço, quando as crianças chegavam do colégio. E como a irmã ainda tinha a incumbência de cuidar do irmão pequeno até a mãe chegar, o atendimento dos clientes era responsabilidade do Arthur.
E como eu tava vendo muitos filmes, eu também acabava falando do filme. Acabava fazendo uma propaganda. Falava, qual o filme que você quer ver? Ah, esse filme aqui é um filme mais romântico, esse aqui é um filme de terror e tal. Quando começou a ter muitas fitas, aí começou a separar por sessão, igual eram as sessões da locadora em Ipanema que o meu pai trabalhava.
Então, realmente, tinha a parte de filmes de terror, tinha a parte dos filmes de comédia, de romance, e tinha uma parte mais altinha, que era dos filmes pornográficos. E esses você também fazia a cópia? Esse também, eu fazia a cópia também. Sozinho ou era seu pai, estava junto? Como era? Não. Meu pai fez umas duas, três cópias comigo, e aí depois virou um negócio meio de negócio. Ele falou assim, ó, tem esse filme aqui pra fazer, você faz amanhã durante o dia. Como foi a conversa? Aqui é diferente. A conversa aqui não teve conversa.
foi um negócio super tipo ô meu filho, isso aqui é isso que acontece é esse filme aqui, é um gênero a gente vai ter esses filmes aqui também só que você precisa fazer a cópia e é isso não tinha uma proibição, foi assim que você viu seu primeiro pornô exatamente, década de 90 cara era muito louco
eu falava assim, caraca, eu tô fazendo umas coisas que meus amigos não fazem. Então me dava um ar de superior, entendeu? Então muitas vezes quando a minha irmã saía com meu irmão de um ano, dois anos, que já tava ali pra alguma atividade na rua, eu chamava os amigos da rua pra gente ver, pra mostrar pra eles o negócio também. Então, nessa época eu virei uma celebridade na rua mesmo, sabe?
Mas não era só pornô que os amigos do Arthur apareciam ali para ver. Nessa época teve duas explosões, pelo menos para a criançada. Teve o Toy Story. Dois light years para Comando Estelar. Responda, Comando Estelar. Foi o primeiro Toy Story em 1995. Eu lembro que quando chegou essa fita lá em casa, foi o negócio assim, a primeira animação feita por computador. Então tinha uma curiosidade muito grande em cima do Toy Story. E tinha um chamado de um manje. Torrão! É um estouro! Ah! Puxa!
As criaturas fantásticas do jogo vinham para dentro da realidade. E era um filme com Robin Williams. Foram muitos os sucessos arrebatadores dos anos 90. Mas nenhum causou tanto impacto na turma do Arthur quanto Batman Eternamente. Eu poderia fazer uma ficha incrível de um homem crescido que se veste como um roedor voador. Morcegos não são roedores, doutora Meridio. É mesmo? Eu não sabia disso. Você é interessante.
que tinha um Jim Carrey como charada e tal. Não é o melhor filme do Batman, tá? Ok, ressalva feita. Só que essa é a opinião do Arthur de hoje em dia. Quando ele tinha 9, 10 anos, o filme virou um frisson entre eles, amigos. Quando esse filme chegou lá em casa, cara, acho que eu assistia todos os dias. Porque a galera sempre tinha alguém que não tinha visto. Aí ia lá pra casa e a gente via. Aí eu via de novo. Dava muita moral na rua.
E seu pai não se incomodava de você ficar passando pro pessoal em vez deles alugarem? Não, não, isso não. Empreendedorismo tem limite, né? Os pais do Arthur não estavam querendo lucrar em cima de curiosidade de criança. E o negócio estava indo bem até. A gente já estava assim, já estava meio consolidado como videolocadora lá do Vidigal e tal. Até que...
Eu abri uma outra videolocadora no Vigigal, que era a locadora da Dona Rosa, que era bem lá embaixo no morro. E a locadora da Dona Rosa era de fitas originais. E a minha saída da escola, eu passava em frente à Dona Rosa. Então praticamente todo dia eu entrava na Dona Rosa pra saber quais são os filmes que chegaram lá. E eu falava pro meu pai, eu falava, ô pai, a Dona Rosa já chegou o Cavaleiro do Zodíaco, você tem que dar um jeito de trazer o Cavaleiro do Zodíaco pra cá. Você tava de ouvindo um tipo de filme muito específico. Exatamente, eu tava no meu nicho ali.
Por um lado, na locadura da dona Rosa, os filmes chegavam antes. Por outro, ela cobrava mais caro. Ela cobrava tipo o dobro da gente. Mas tinha muita gente que não queria mais alugar com a gente, porque nossas vitas não eram originais. Porque tinha um boato de que fita pirata prejudicava o cabeçote do videocassete. O que, aliás, não é verdade. Claramente, lobby antipirataria. Ou lobby da dona Rosa. É igual quando a mãe da gente falava que jogar muito videogame e acabava com a TV.
E aí, de novo, o pai do Arthur pensou numa solução. Meu pai baixou mais ainda o valor da gente. A margem de lucro diminuiu. Mas eles se estabeleceram nesse filão mais popular, pra quem não fazer questão de fita original. E as coisas continuaram assim por alguns anos.
Até que, no ano de 98... Teve uma chuva muito forte no Vidigal, de vários dias, essas chuvas de verão, bem coisa. E desceu muito lixo nesse córrego. A nossa casa, ela ficava numa região chamada Biquinha. Nos primórdios, em algum momento, teve uma bica d'água ali, porque passava um córrego ali. Então, esse córrego virou uma manilha. E a casa que a gente morava foi construída em cima desse lugar. Então, passava mesmo uma galeria, um córrego por baixo da nossa casa.
E aí, nessas chuvas de verão de 98... A água que não tinha pra onde correr, entrou pra dentro de casa. E quando entrou pra dentro de casa, ela levou a casa inteira. Você lembra? Você tava em casa? Eu tava em casa, foi de noite. E aí, no começo da noite, começou a chuver muito forte, mas muito forte mesmo. A gente olhar a rua e você ver a força da água, né? E ali, por umas 9, 10 horas da noite... E aí
A água começou a entrar dentro de casa, mas não foi tipo assim, entrou um pouquinho. Foi tipo com muita violência e muita força. Era uma cachoeira, parece que era lá dentro de casa e virou uma cachoeira. Minha mãe tirou a gente tudo pela janela e a gente ficou na casa da vizinha, que era mais alta, uma parte segura, e o meu pai ficou dentro de casa tentando desobstruir o lixo que estava descendo. Meu pai ficou ali guerreiramente tentando tirar todo o lixo.
pra água escorrer. E a gente viu tudo indo embora, tipo, roupa, as fitas VHS todas. A gente perdeu 90% do acervo. Perdeu os vídeos de cassete, perdeu a TV.
E aí depois teve um período, assim, de uma semana que as pessoas começaram a achar as VHS pelo morro. E aí começava a devolver pra gente. Tipo, pô, achei essa fita aqui lá na Avenida do Nyamaia. As fitas foram parar muito longe, muitas coisas. Tipo, um retrato do casamento do meu pai e da minha mãe. A pessoa achou na Avenida do Nyamaia e devolveu.
Depois disso, não tinha como a família continuar ali. E aí a gente foi deslocado, a casa foi cobernada, a gente foi indenizado, a casa foi demolida e a gente foi morar em outro lugar do Vidigal. E com isso foi o fim da locadora Robin Hood também. Até porque... Essa casa que a gente vivia era na rua, na rua principal. Então a favela toda passava por ali. A localização era ótima para começar. Exatamente. Nesse outro lugar, no meio das vielas, não era.
Mas o espírito da Robin Hood é continuar vivo, de um jeito ou de outro. Sabe que tem uma coisa que é uma coisa dessa época das cópias, que eu levo até hoje, que é ver as coisas duas vezes. Eu escuto a Rádio Novelo duas vezes no mesmo episódio. O Foro de Terezinha eu escuto duas vezes. Às vezes eu vejo o mesmo filme duas vezes. É um modus operandi que vem, com certeza, da cópia da fita.
Mas não para por aí. Lá em 99, um ano depois do fechamento da locadora, o Arthur soube que o grupo de teatro Nós do Morro estava com vagas abertas. Eu fui lá para estar perto dos meus amigos. Vamos fazer teatro. Eu fiz o teste para entrar, passei e comecei a frequentar o grupo Nós do Morro como ator. Eu tinha 13 anos.
Só que eu era muito ruim ator. Eu não era bom. Mas eu queria fazer parte daquele ecossistema, do teatro e tal, não sei o quê. E aí abriu algumas vagas pra equipe técnica, nessa época. Iluminação, cenário. Iluminação, exatamente. E aí isso já foi um pouquinho mais tarde, tipo 2000, 2001 e tal. E nessa época tinha o núcleo de cinema do Nós do Morro, que ganhou uma visibilidade muito gigante na época do filme Cidade de Deus.
Minha fotografia podia mudar minha vida. Mas na Cidade de Deus, se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come. Um elenco forte saiu de dentro do Nós do Morro. Você chegou a concorrer? Eu cheguei a fazer teste para a Cidade de Deus. Algum papel específico? Não, eu não passei, porque era ruim.
Eu não passei, mas eu cheguei a fazer teste pro Cidade de Deus. E aí começou as aulas de cinema pra minha idade. Eles começaram a falar de filmes que eu já tinha visto. Ou tinha visto, ou sabia. Tava ali no meu radar, sacou? Já tinha meio que visto. Quando ele falou de Star Wars, eu sabia de Star Wars inteiro.
Você tinha um repertório muito maior que o Rez. Eu já tinha, exatamente. O Arthur começou a se destacar nessas aulas. E aí eu comecei a estudar muito, uma coisa que eu gostava muito eram os planos, né? Ele lembra que o professor dessa aula era o Vinícius Reis. Eu lembro que na aula ele começou a falar o que era um plano de sequência, e aí ele mostrou um plano de sequência que era um filme do Orson Welles, Marca da Maldade.
que é um plano de sequência enorme no começo do filme. E aí eu lembro que eu tinha feito uma cópia dos Bons Companheiros, do Scorsese. E eu tinha visto o João Cochonheiro. E na aula eu falei assim, cara, esse plano de sequência desse filme dos Bons Companheiros, onde o gangster sai da rua, ele passa por dentro do teatro, entra dentro da cozinha e sai dentro de um teatro, é um plano de sequência. Aí ele, é, isso, isso é um plano de sequência.
Nessa época, o Vinícius, ele levou pra gente um nome muito famoso, que era o Eduardo Coutinho, que é um super documentarista brasileiro. E aí ele apresentou dois filmes, Cabra Marcado pra Morrer e O Edifício Master. Mas o que me pegou mesmo foi O Edifício Master. Um edifício em Copacabana. Há uma esquina da praia.
porque era um filme que se passava ali no edifício em Copacamana, meio perto da gente, e eram histórias mais maravilhosas e tal, eu fiquei muito encantado pelas histórias, e eu fiquei encantado que no filme, no começo do filme, parece uma câmera de segurança do edifício.
E nessa câmera de segurança aparece a equipe de cinema entrando. É o começo do filme. E aí, quando aparece essa galera com câmera na mão, boom, entrando pra dentro, eu fiquei muito encantado. Falei assim, caraca, velho, acho que eu gostaria de ser aquele cara ali com a câmera na mão que aparece nesse vídeo, nesse filme. E com toda a quilometragem de cinema que o Arthur tinha por causa da locadura, ele nunca tinha visto uma tomada que nem aquela. De ver a feitura do filme dentro do filme.
E o Nós do Morro ainda proporcionou outras baitas experiências pra ele. Tipo uma masterclass com o Cacá de eggs. E o Cacá foi a primeira pessoa a meio que notar que eu tinha um talento com a câmera na mão.
O Cacá estava filmando o filme dele, O Maior Amor do Mundo. E ele chamou o Arthur para fazer um estágio na assistência de direção. Então, pô, quem era o fotógrafo do filme era o Lauro Escorel. Uma super sumidade da fotografia brasileira. Pô, era película, então eu ficava muito encantado. O posicionamento da luz, do jeito que ele estudava o sol. Falei assim, não, a nuvem chegou, vamos esperar sair a nuvem para a gente poder filmar, procurar o contra-luz, compensar com uma outra luz.
Você fazia pergunta também ou você só ficava... Não, eu sou muito tímido, né? Então eu fazia pouquíssimas perguntas porque eu tinha medo danado de levar expor daquelas pessoas. Mas não teve expor nenhum. Pelo contrário. Você acaba conhecendo as pessoas do mercado, falando que quer ser assistente e tal, não sei o que. E a vida foi acontecendo.
Desde então, o Arthur foi emendando um trabalho no outro, de assistente de câmera, passando por câmera, até chegar em fotografia. E ele trabalhou bastante com TV além de cinema. E aí, no ano de 2023, eu fiz o meu primeiro fotografia, o meu primeiro longa-metragem, que é o Casa Branca, que é um filme ficção, que é roteirizado pelo Luciano Vidigal, também do Nós no Morro, também meu grande parceiro de vida, desde o início. E aí ele dirigiu o primeiro longa e me chamou para ser fotógrafo do filme.
Vamos voar porra toda com a minha avó. A gente ganhou 13 prêmios. Eu ganhei o prêmio de melhor fotografia no Festival do Rio, ano 2024. Olha como é que eu, a vida, dá essas voltas, né? Na pré-estreia do Casa Branca, quem foi assistir o filme foi o Jacques Chouich. O Jacques Chouich é o fotógrafo do Eduardo Coutinho, que fez muito, ele fez Cabral Marcado pra morrer, e ele fez Edifício Master.
aquele cara que tava com a câmera na mão, que eu vi, que eu falei que queria ver esse cara, ele tava na plateia vendo o meu filme. Você foi falar com ele? Ele veio falar comigo. Falando, elogiando a minha fotografia. Eu fiquei tão nervoso, que eu não consegui contar essa história pra ele. Mas eu fiquei, tipo, numa excitação. Foi assim, caraca.
O Jacques Chouiz estava vendo meu filme e ele falou que gostou da minha fotografia, velho. Ali foi tipo, eu zerei a vida, legal, acho que tá bom, tá ligado? Pra mim, ali como criança, vendo aqueles filmes, era uma coisa meio inalcançável, né? Porque não tinha muito filme brasileiro. Pra mim, o cinema era uma coisa americana, uma coisa de outros países, umas coisas super estruturas e tal. Não tinha nenhum filme brasileiro naquela? Não tinha nenhum filme brasileiro, cara.
Nenhum filme brasileiro. E aí com a democratização do audiovisual, com a chegada do cinema digital, aí eu acho que caiu a ficha mesmo. Falei assim, caraca, eu acho que eu consigo fazer aqueles filmes que aquela criança gostava. Eu acho que é possível. Eu viver de cinema, eu fazer cinema, eu contar outras histórias, sacou? Acho que ali caiu uma ficha mesmo.
E aí, mais recentemente, uma ideia metalinguística está tomando forma. Cara, eu tenho muita vontade de transformar essa história num filme, que eu acho que seria uma grande homenagem ao cinema, né? Uma grande homenagem ao cinema que transformou a minha vida totalmente.
Essa foi a Paula Scarpino. A gente já volta. Oi, aqui é a Neka Setúbal. E aqui é a Sueli Carneiro. Esta semana, no Escute as Mais Velhas, a gente conversa com a educadora ambiental e ativista Rosália Lemos.
Eu comecei a refletir que a favelada fazia luta ambiental também, né? Só que a nossa luta ambiental não era uma luta em defesa do mico-leão dourado, em defesa da mata atlântica, da floresta amazônica. A busca por dignidade em territórios periféricos sempre foi um dos motivadores da Rosália.
A nossa luta era em defesa do saneamento básico, da água potável canalizada dentro de casa. Então era uma luta ambiental da pobreza, era uma luta ambiental da miséria.
E a Rosália também contou para a gente um pouco da trajetória dela dentro de uma das principais organizações pelos direitos das mulheres no Brasil, o Nizinga. O Escute as Mais Velhas é um podcast da Fundação Tietze Tubal, produzido pelo Estúdio Novelo, com episódio novo toda terça-feira. Siga o podcast no seu aplicativo de podcast favorito para não perder nenhum episódio.
No comecinho da Rádio Novelo, há uns cinco anos, a gente botou um anúncio na rua pedindo histórias, obsessões e mistérios de pequeno porte. Era por um projeto da Paula Scarpin e da Flora Thompson-Devaux, mas que acabou sendo uma semente do Rádio Novelo Apresenta. E, recentemente, a gente voltou a fita para uma daquelas primeiras conversas que a gente teve. Uma história que só está saindo agora e que ganhou outro significado nesse meio tempo.
Quem vai contar pra gente é a Kátia Costa Santos. E soma um aviso que essa história faz referência à violência sexual. Minha avó não era uma mulher comum. E ela era velha. Muito velha.
Ela estava sempre sentada numa caixa de madeira, uma caixa que tinha sido feita por um dos filhos dela, meu tio Paulo. E ela estava sempre ou cortando fumo de rolo ou fumando o cachimbo dela. Minha avó, sentada naquela caixa, em diferentes casas, todas alugadas, com um cachimbo na mão e uma lata de fumo no colo. É essa a imagem que guardo dela.
Ela contava histórias pra gente entre uma pitada e outra. Mas quando ela não queria contar a história, e às vezes ela não queria de jeito nenhum, ela só dizia. Era uma vez uma vaca vitória. Deu um peido e acabou-se a história. E se a gente continuasse pedindo, ela só repetia aquilo. Não adiantava insistir.
Essa é a lembrança mais forte que eu tenho da minha avó materna. Maria Emília da Costa, nascida em 1905, segundo muitos primos. Ou Emília Pereira da Costa, nascida em 1901, segundo a própria. Ou Emília Maria da Conceição, nascida em 1903, segundo a certidão de nascimento dela. Em muitas situações, o documento venceria essa queda de braço.
Mas ela não é a certidão de nascimento original dela. É uma certidão judicial, que só foi emitida em 1985 só com o nome da mãe dela. E diz que ela nasceu no Rio, o que a gente sabe que não é verdade. O que a gente sabe com certeza é que até o fim da vida ela se chamou Emília. Milota para os íntimos.
que ela nasceu em Minas Gerais, que a gente celebrava o aniversário dela no dia 23 de novembro, que ela morreu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, no dia 18 de junho de 2006, e que era velha, muito velha. Pelo menos era assim que nós, os netos e as netas dela, víamos aquela senhora, sempre com um cachimbo no canto da boca e um lenço na cabeça.
Quando eu era criança, uma coisa que me intrigava sobre a minha avó era que ela tinha pele clara. Uma das irmãs dela, a tia fiinha, que era filha do mesmo pai e da mesma mãe, para a gente ela era branca. Os nove filhos da minha avó nasceram com quase todos os tons possíveis da pele preta. A gente não chegou a conhecer o nosso avô, mas dizem que ele era preto retinto.
A tia fiinha, além de ter a pele mais clara, casou branco, como diziam na família. E por isso, a nossa família tinha um ramo branco ou quase branco. Isso era um motivo de piada, de intriga, de ressentimento, mas nunca teve uma conversa, não que eu me lembre, sobre o porquê daquelas diferenças todas de tons de pele.
Um dia, acho que no final dos anos 80, eu estava indo para a casa da minha avó. Ela morava na Covanca, em Duque de Caxias. Passei por uma feira livre no centro da cidade e vi uma senhora vendendo umas bonecas de pano. Elas eram bonitas, baratinhas, feitas com tecido acinzentado. Resolvi comprar duas. Quando cheguei na casa da minha avó, ela ficou encantada.
Ela pegou as bonecas, riu, contou histórias sobre outras bonecas de pano, perguntava rindo por que elas eram tão pálidas e queria saber qual das duas eu ia deixar para ela. Antes mesmo de eu responder, ela me contou que a mãe dela fazia bonecas para as filhas, lá em Minas, e que a mãe cortava os próprios cabelos para costurar nas bonecas.
O jeito que ela contou isso me chamou a atenção. Ela imitou o gesto da mãe, cortando os cabelos. E alguma coisa no jeito que ela imitou, segurando a mão na altura dos ombros, me indicou, num estalo, que o cabelo dela não era igual o nosso, que cresce para cima. Eu não fiz mais perguntas naquele dia.
Mas um tempo depois eu voltei ao assunto com ela, querendo saber que cabelo era aquele da minha bisavó. E ela me disse que o cabelo da mãe dela era liso, porque a mãe dela era branca, filha de uns italianos pobres, segundo ela, que moravam num lugar chamado Santana do Deserto.
Ela disse isso de um jeito muito displecente. Eu pedi para ela repetir. E ela repetiu, também muito tranquilamente, como se sempre tivesse contado aquela história. Tantas vezes que nem ela se interessava mais pelo assunto. Para mim, foi um susto. Como assim, Branca? Que italianos pobres eram aqueles.
Ela não sabia dizer. E nem se importou com o meu espanto.
Mas lembra, minha avó já era uma velhinha de cachimbo e lenço que nunca saía de casa e nem cozinhava mais. Só o copinho diário de pinga ainda não tinha sido cortado pelos filhos. Naquela época, ela morava com três filhos, dois solteiros e um viúvo. E tinha uma filha, a caçula, que morava na casa ao lado e cuidava dela o tempo todo.
Perguntei sobre essa bisavó para todos eles. Um deles só disse sem me dar muita bola. É, às vezes ela conta essas histórias assim, mas a gente não sabe nada porque ninguém conheceu as famílias dos pais dela. Eu fiquei insistindo pela casa. Então é por isso que a tia Finha é branca?
Minha tia respondeu, também sem dar muita importância. Esbranquiçada, né, Catinha? E a tia Lourdes, irmã da mamãe, era assim também, bem clara. Essa era mais pra branca mesmo. Quando você nasceu, ela já tinha sumido no mundo. Mas tem uma foto dela aí.
Eu percebi que aquela brancura distante não despertava o mesmo interesse no resto da família. Talvez porque ela nunca tenha servido de nada para eles. Então, voltei para minha avó.
Em linhas gerais, ela me contou que o pai dela tinha sido soldado na Guerra de Canudos. Soldado no Exército mesmo, em alguma das levas que ajudou a massacrar os seguidores de Antônio Conselheiro. Muitos soldados do Exército morreram naquelas campanhas. Mas o pai dela, não.
Quando ele voltou, sobrevivente de guerra, para Santana do Deserto, ele passou a ser chamado, com muito respeito, de seu canudo. Um dia, o seu canudo, do alto do seu cavalo, avistou uma moça. Uma menina branca, branca de verdade, disse minha avó. Um tempo depois, o seu canudo passou de novo na casa da moça com um aviso para a família.
Ele ia casar com ela e voltaria para buscar a noiva em breve. Quando esse dia chegou, a família da moça só entregou ela para o seu canudo. Eles fecharam a porta e nunca mais falaram com ela. Era isso que a minha avó tinha para contar. Ninguém tinha mais detalhes e eu tinha a impressão de que eles nem queriam saber.
Então eu fiquei cozinhando essa história em mim.
Foi pela internet, ainda quase uma novidade naquela época, que descobri que tinha de fato um lugar em Minas Gerais chamado Santana do Deserto, bem no sul do estado. Foi na mesma época que eu descobri que existia o movimento negro, como eu costumava dizer, como se fosse uma única entidade suprema. Um movimento que nos encorajava a conhecer de verdade a nossa história, a história das nossas famílias.
Duque de Caxias, 10 de abril de 1998, entrevista com Emília Pereira da Conceição, minha avó. Bem, eu ia perguntar o nome completo da senhora, porque eu vi num documento que o seu nome é Emília Pereira da Conceição. Mas qual o seu verdadeiro nome? Meu nome é Emília Pereira da Costa.
Eu gravei uma fita cassete naquele dia com a minha avó. Eu perguntei sobre a vida dela na roça, sobre as festas, sobre os irmãos dela, sobre a vinda para o Rio. Ela disse que não queria vir de jeito nenhum. Eu quis fazer essa gravação, em parte, para a posteridade. Quantos filhos a senhora teve? De quanto é que eu não sei? Nove. Nove? Mas em parte também porque eu queria esse registro para mim.
Não muito tempo depois, minha avó começou a apresentar lapsos de memória. Um quadro que hoje a gente talvez identificasse como demência. Tem pistas disso na gravação. Ela lembrava de cantigas da infância, mas volta e meia me perguntava de qual dos filhos dela eu era filha. E isso várias vezes ao longo da conversa.
Ainda assim, ela lembrava de me chamar de Tunica e se divertia muito com aquilo. Tunica era um apelido que sempre me tirava do sério quando eu era criança. E qual o nome dos pais da senhora?
Doutor Nino Francisco Pereira. No nome do pai? Doutor Nino Francisco Pereira. Aproveitei aquele dia para pedir para minha avó contar de novo a história dos pais dela. Minha mãe é cantiliana Maria da Conceição. Cantiliana Maria da Conceição? Eu nem precisei pedir, na verdade. A história veio. Mas a mãe da senhora era de Santana de Deserta? Minha mãe não, porque sua mãe foi roubada. Sua mãe foi roubada? Minha mãe roubou agora. Seu pai roubou sua mãe? De onde?
Eu nem sei o lugar que eu vou. Porque todo mundo tinha muito medo dela. Não é fácil entender o relato da minha avó. Ela tinha um jeito próprio de falar. Um léxico próprio também. O que ela falou várias vezes era isso. Que todo mundo tinha medo do pai dela. O Saturnino. Ou o seu canudo. E que era, nas palavras dela, um criolão forte. Bonito.
Depois, ela contou uma cena que eu não entendi direito, mas eu entendi que era sobre aquele rapto. Na cena, tinha o seu canudo chegando numa casa onde havia umas moças. E ela falava alguma coisa disso, vó? Assim, tipo, de início. Porque de início ela deve ter tido muito medo, né? Ah, é? Isso. Se tu tinha um sujeito dele, ela foi por medo. Foi por medo? Foi por medo.
Ela contou que depois disso, o pai dela levou a mãe para a fazenda e que ele tinha muito ciúme dela. Ele que teve que ensinar ela a fazer tudo. Cozinhar, lavar roupa. Ele teve que cuidar das fraldas do primeiro filho deles, porque ela não sabia fazer nada. Isso porque ela era muito nova. Menina nova mesmo, minha avó disse.
Perguntei sobre a família dela. Minha avó não sabia dizer nada. E sobre a família dele? Ih, aí então piorou. Eu só fui ouvir essa fita direito alguns anos atrás. Isso porque eu vi uma chamada de um podcast novo que queria contar histórias estranhas e mal resolvidas.
E eu escrevi para a Rádio Novelo para ver se eles conseguiam achar mais informações sobre o seu canudo. O meu bisavô que teria lutado contra os conselheiristas e teria ganhado fama na cidadezinha dele. A ponto de poder raptar a moça que viria a ser a minha bisavó.
Eu soube que vasculharam caixas e caixas no arquivo histórico do Exército, mas que não acharam nada sobre o Saturnino Francisco Pereira. E essa história ficou parada. Mas ela ficou cozinhando dentro de mim. E eu agora tinha uma cópia digitalizada dessa fita, para ouvir quantas vezes eu quisesse, sem medo de estragar.
Duque de Caxias, 10 de abril de 1998. Entrevista com Emília Pereira da Conceição, minha avó. Eu botei o fone e sentei para ouvir a história que eu achava que conhecia. Sua mãe foi roubada? Ela foi roubada. E o que eu não lembrava é que na fita a minha avó contava a história duas vezes.
Na segunda vez, ela também começou falando do medo que todo mundo tinha do seu canudo. Não tinha medo dele. Aí a mulher estava, já três filhas dela fechadas na casa lá. Mas a história era outra. Ela disse que o meu bisavô, de quem todo mundo tinha medo, estava passando de cavalo, mas que uma mulher tinha chamado ele.
Isso porque as filhas dela estavam presas dentro de uma casa na fazenda e ela queria a ajuda do seu canudo. Eu não sei quantas vezes eu tive que voltar à gravação para conseguir entender o desfecho da história que ela conta. A voz dela vai sumindo no final.
Ela diz que quando seu canudo botou o pé na porta, os homens que estavam dentro da casa pularam pela janela e que as moças saíram pela porta com seu canudo e que os homens tinham passado elas na cara. Essa era uma expressão que o não ouvia há muito tempo.
Até onde eu sabia, uma pessoa passada na cara tinha sido abusada sexualmente, o que me leva a crer que as moças teriam sido estupradas. Depois, eu voltei no começo da gravação, na primeira vez que minha avó contou a história. E ela não tinha contado diferente. Eu que não tinha ouvido.
Ela também falou em moças presas numa casa, com quatro homens de um lado e quatro homens de outro. Homens que só soltaram as moças quando o seu canudo mandou. Só porque todo mundo tinha medo do seu canudo.
Desde a primeira vez que ouvi falar no seu canudo, eu achei que um dia eu ia contar a história de um bisavô famoso que ficou do lado errado de um episódio da história brasileira, que participou do massacre do Antônio Conselheiro e dos seguidores miseráveis dele. Eu quero de verdade entender como aquele criolão bonito e forte virou um soldado no exército brasileiro logo depois da abolição.
A minha fantasia era que saber sobre ele me ajudaria a construir a árvore genealógica da minha família, o que não é pouca coisa para uma família negra brasileira. Até agora, eu não falei nada da minha família paterna. O meu pai chegou no Rio de Janeiro aos 14 anos, depois de fugir de casa em Salvador, na Bahia. Ele nunca mais retornou, por isso não sabemos nada sobre a família dele.
E não tem nada mais peculiar à experiência negra no Brasil, ou mesmo nas Américas, do que esse não saber. Mas desde a primeira vez que eu vi essa história, desde a primeira versão dela, quem não sai da minha cabeça é a menina cantiliana. Foi ela que ficou em mim.
Eu queria recuperar o nome de solteira dela, o nome dos pais, dos avós, saber se eles eram mesmo italianos ou se isso era só um jeito de identificar brancos quase pretos de tão pobres. Eu queria saber mais sobre essa menina que, quando virou mãe, fez bonecas para as filhas com os próprios cabelos. Será que ela, que não teve infância, brincava de boneca com as filhas?
Por que será que ela frisava tanto para sua filha, Emília, que ela tinha sido roubada? Era só ela quem contava essa história? Será que foi ela quem disse para a filha que ela tinha sido passada na cara? Não tem mais como saber.
Por isso, só me resta contar do jeito que a minha avó me contou. E assim, eu me eximo da responsabilidade de apresentar uma versão final para essa história, que não é uma história só da minha família, como a gente bem sabe.
No mundo de lacunas historiográficas, a pesquisadora negra estadunidense Saidiya Hartman faz o que ela chama de fabulação crítica. Ela recria histórias negras com uma dose de desobediência deliberada com relação aos documentos oficiais.
Nesses anos de buscas, a gente não achou nenhum rastro documental da família formada a partir do roubo da menina cantiliana Maria da Conceição pelo soldado Saturnino Francisco Pereira. E essa ausência dá uma tremenda sensação de invisibilidade, sobretudo porque, quando eu me pus a investigar a história dessa família, a minha, percebi que as ausências foram se acumulando.
Os filhos da Cantigliana e do Saturnino viveram, trabalharam, foram registrados em cartório, tiveram seus próprios filhos. Mas tudo o que sobrou foram alguns poucos documentos improvisados com informações avulsas e desconexas. As pessoas tiravam, colocavam, reinventavam seus sobrenomes e o fio documental que conectava a elas foi se esfarelando.
O que ficou foram as histórias contadas em família, as diferentes versões dessas histórias. Quando descobri a segunda versão da história dos meus bisavós, comentei com alguns familiares. Ninguém parecia estar muito interessado. Era mais uma obsessão da Kátia. No máximo, era mais um caos contado pela avó Emília. E os caos não têm carimbo, nem selo, nem firma reconhecida.
Meu tio, Tião, foi o grande guardião do pouco papel que restou da família, de algumas poucas certidões e de muitos atestados de óbito. E agora há pouco, o atestado de óbito do próprio tio Tião se juntou a esse acervo.
No velório dele, olhando para aquele tanto de gente preta, espremida numa pequena capela, de gente que ele criou ou ajudou a criar, fiquei pensando quantos de nós ali, naquele quilombo circunstancial e familiar, saberia dizer que o nome completo dele era Sebastião Antônio da Costa.
Numa noite recente, a sobrinha neta do tio Tião, a Larissa, passou em frente à casa dele, no Jardim Ana Clara, e tirou uma foto. Com o penúltimo salário dele de aposentado, o nosso tio tinha conseguido realizar o sonho dele de refazer a parte elétrica da casa. No Natal, ele me mostrou toda a reforma, apoiada no cabo de vassoura que ele usava para andar.
Ele tinha uma bengala, mas só usava na rua. Aquela foi a última casa dele. E antes de ser dele, ela tinha sido também a última casa da minha avó. Na foto que a Larissa tirou, as luzes da casa estão todas acesas. A casa fechada está toda iluminada. É quase um farol na escuridão da rua.
Eu quero ter cópias dos documentos da família que o Tietchan conseguiu guardar. Mesmo que os documentos mintam. Porque, de algum jeito, esses documentos são os registros de uma história. Imperfeita. Mas, ainda assim, é a nossa história.
Aqui nós nos despedimos da dona Maria Emília, que já me mandou procurar um trabalho, entendeu? Pra ganhar dinheiro. Cansou de ser explorada, disse que assim que bobo cai. E que não tem mais nada a declarar para os seus ouvintes. É isso mesmo, dona Maria Emília? Tá. O que você não vai fazer agora? Feita-feira santa. Vamos ao baile. Vamos ao baile? Vai sozinha? Não, vou ter uma namorada. Falei e disse.
Minha avó não era uma mulher comum. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Vamos lá. Deu um peso, acabou. Essa foi a Kátia Costa Santos. Obrigada por ouvir mais esse Rádio Novela Apresenta. Toda quinta-feira tem episódio novo. E para quem é membro do Clube da Novelo, essa alegria vem até antes no dia anterior.
No próximo episódio, vai ter isso aqui. O cheiro dele era muito forte. É muito forte, né? Mas espera aí, tem movimento. O cheiro forte, né? É enjoativo. Parece que tem vida. Vida orgânica. Para fazer parte do clube e ganhar esse e outros benefícios, é só seguir o caminho das pedras no nosso site. A gente volta daqui a pouco.
Olá, eu sou o Cristiano Botafogo do Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Medo e Delírio em Brasília. Sensacional.
Pois é, aquele podcast de política. Na primeira vez, ouvir a gente pode ser um pouquinho desagradável. Mas aí depois você abraça a loucura. A gente tá lá na Central 3 ou em todos os outros agregadores de podcast. Puxa daí, Eduardo Cunha. Que Deus tenha misericórdia dessa nação. Ouça o Medo e Delírio.
Na página desse episódio, no nosso site, a gente vai deixar um link para o primeiro longa filmado pelo Arthur Sherman, que se chama Casa Branca. E tem link para o livro da Kátia Costa Santos sobre Dona Ivone Lara. Se você for de redes sociais, a gente está nas redes no arroba radionovelo, no Instagram, no YouTube, no Twitter, no Threads, no Blue Sky e no TikTok.
Se você é de e-mail, dá para mandar sugestão de história, crítica, elogia, etc. para o e-mail apresenta.com.br. Se você tem uma marca ou cliente que tem tudo a ver com os nossos podcasts, você pode contratar o Estúdio Novelo para criar seu próprio podcast ou anunciar nos intervalos dos nossos episódios. É só escrever para a gente em anuncie.com.br.
O Rádio Novelo Apresenta é um original da Rádio Novelo. A direção criativa é da Paula Scarpin e da Flora Thompson Devoe. A direção executiva é da Marcela Casaca. E a gerência de produto é da Bia Ribeiro e da Juliana Yeager. Nossos repórteres e roteiristas são a Evelyn Argenta, a Bia Guimarães, o Vinícius Luiz, a Bárbara Rubira, o Vitor Hugo Brandalize e a Carolina Moraes. Nossos treinis de criação são o Paulo Vitor Ribeiro e a Mayra Vallejo.
A Ashley Calvo é nossa produtora. A checagem desse episódio foi feita pela Caroline Farah e pela Eta Rudnitsky. Esse episódio teve desenho de som da Andy Lopes, da Bia Guimarães e da Mariana Leão, que assina a mixagem junto com a Bia Guimarães. Nesse episódio, a gente usou música original de Pedro Nego e também da Blue Dot.
O design das nossas peças é do Gustavo Nascimento. Nossos coordenadores de parceria são o Pedro Lopes e a Ellen Pimentel. A nossa analista administrativa e financeira é a Taina Nogueira. Nosso analista de produto e audiência é o Vinícius Magalhães. E quem faz a revisão das transcrições dos episódios para a gente é a Flora Vieira. Obrigada e até a semana que vem.
Chegou a hora de deixar os carros da idade da pedra para trás. O BYD Dolphin Mini foi o elétrico mais vendido no varejo por dois meses consecutivos. Pela primeira vez, um carro 100% elétrico lidera essa posição no Brasil. E chegou a sua vez de ter um carro mais econômico que moto. BYD Dolphin Mini, a partir de R$ 109.990 para a CNPJ. Fala até uma concessionária BYD e faça um test drive. Consulte condições em byd.com.br. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.
BYD
Carro elétrico BYD Dolphin MiniLatam Airlines
Viagem com a LatamNet Shoes
Tênis para o seu dia a dia