Ricardo Araújo Pereira
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Ricardo Araújo Pereira
- Politica e HumorO humor como exercício de ceticismo · A piada como milagre e a desvalorização do termo · O caso Joana Marques e a hipersensibilidade · Donald Trump e a dificuldade de satirizar · O discurso político e a linguagem
- Interfaces de Voz e Comportamento HumanoO significado de ser humano · Competência para verificar a humanidade · A internet e a verificação de humanidade
- Stand-up ComedyO humorista ou vence ou morre · Gestão de silêncios e relação com o público · Prazer e terror no palco · Exigência física e mental
- Politica e LiberdadeA liberdade como algo desagradável · Mecanismos de proteção da democracia · A intolerância e a violência · O papel das redes sociais no aumento da intolerância
- Humor e ComédiaObservações e colecionismo de ideias · A descoberta da piada e o prazer · A importância da reação do público · O método de trabalho e a confiança no público
- Imagem pública vs. realidadeA imagem pública do humorista · A percepção do público e o primeiro impacto · A vaidade e a auto-apresentação
- Liberdade Criativa do Novo MundoRelação com os números das audiências · Liberdade criativa na SIC · Intervenções da ERC
Boa noite, esta é a grande entrevista da RTP. O meu convidado é o humorista Ricardo Araújo Pereira, que estreou recentemente um espetáculo de stand-up intitulado Verificando se você é humano. Ricardo Araújo Pereira, muito obrigado por vir esta noite à grande entrevista. Eu que agradeço o convite, obrigado.
O Ricardo já disse que no stand-up o humorista ou vence ou morre. Estando à minha frente e sem quais carmazelas visíveis, posso concluir que sobreviveu aos espetáculos do Porto? Sim, sobreviveu aos espetáculos do Porto. O público do Porto é especialmente generoso, mas isso são, quando se fala em matar e morrer, essa linguagem bélica que muitas vezes é associada ao stand-up, e bem, deve dizer-se...
Tudo é metafórica, não é? Portanto, em princípio, eu não corri a risco. Era para levar a sério. Não corri a risco de vida. Talvez o meu ego corresse alguns riscos. Mas é isso. Normalmente, o que se sente é que não...
espetáculo como este, que é totalmente, digamos, descarnado, ou seja, não há mais adereços do Ricardo. É uma pessoa, um microfone e um bicho com tantas cabeças quantas que houverem na sala. E é isso que trata-se de...
lutar contra esse bicho que está numa posição de não rir e é preciso tirá-lo dessa posição e o Ricardo compreende quando é que o bicho está domado, já está do seu lado ou há sempre o risco de perder? Posso ser eu que eu sinto que ainda me falta sempre que estou quase sempre na estaca zero Que?
mas eu acho que ao longo da vida tenho estado perante várias plateias estou perante plateias todos os domingos à noite e sei duas ou três coisas às vezes são mais instintivas do que racionais, digamos assim sei alguma coisa sobre isso sobre gestão de silêncios
sobre o modo como se lida com essa relação, que é uma espécie de dança. É uma espécie de dança entre nós e o público. E qualquer coisa a pode perturbar. Uma respiração fora do sítio, uma palavra maldita, como aquela que eu acabei de dizer, qualquer coisa pode perturbar esse ritmo. Se vai lá, se vai lá.
E o Ricardo, quando está no palco, lhe tira um prazer desse momento? Para além de... Ok, tem que cumprir o seu papel e fazer... Para além disso, sente prazer em estar nesse bailado com aqueles milhares. No Porto, quantas pessoas aqui eram? Eu acho que no pavilhão... Como é que se chama aquilo? Superbocadena? No pavilhão Zorrosa Mota? Sim, é a mesma coisa. São levam quatro mil e tal. São muitas cabeças. São muitas cabeças. É um bicho com muitas cabeças. É um bicho com muitas cabeças.
Mas sente prazer nisso? Sim, sinto. Mas não lhe escondo que é um prazer temperado pelo terror. Ou seja, é como quando está à beira de... Quando chega a nossa vez de entrar no carrinho da montanha-russa. Aquilo a gente diverte-se enquanto lá está e depois chega ao fim e diz nunca mais. Mas há qualquer coisa que faz com que...
É muito exigente fisicamente? Sai cansado da experiência? Sim, eu sinto que andei à pancada durante uma hora, só porque há uma tensão, evidentemente, há uma tensão naquilo, mas basicamente o segredo é fingir que estou descontraído.
Estão leves. Eu acho que esse esforço agrava a condição de cansaço no final. Mas é uma sensação de alívio no final. Sim, com certeza. Não sei se volto a terá. Eu vou fazer isto. Antes de ser a montanha russa. Verificando-se, você é humano, que é aquela frase muito irritante que às vezes aparece quando nós estamos a entrar num site. Qual é exatamente a história deste seu stand-up, deste seu espetáculo?
Eu não quero que conte, porque há muita gente que vai ver. Claro. E convém que seja surpreendido. Mas, basicamente, qual a ideia a partir deste título? O espetáculo é sobre... Eu diria que é sobre estar vivo agora, em 2026. E, se calhar, no meu caso concreto. Eu sinto que não...
Digamos que não sou especialmente competente nisto da vida. Eu tenho a sensação de... Sabe aquilo que os franceses chamam de l'esprit descalier, que é quando uma pessoa acaba de fazer um discurso e quando deixa a escada da tribuna a caminho de casa, pensa, já sei o que é que devia ter dito. Agora ocorreu-me o que eu devia ter dito.
Eu acho que isso me vai ocorrer na altura de quando eu estiver moribundo, é isso que me vai ocorrer. Ah, era assim que se vivia, percebi agora como é que se vivia e isso vai ocorrer nessa altura. De qualquer modo, eu acho que é... Repare, eu adoro essa frase que me... Eu gosto muito quando isso me ocorre. Sim, o humorista mesmo ao morro.
Sim, quando vejo verificando se você é humano. Às vezes dou com frases comuns como essa e de repente ponho-me a pensar nelas e elas apresentam-se-me, deixam de ser corriqueiras e passam a ser mais significativas do que... Isso aconteceu-me uma vez, por exemplo, quando puse uma morada no GPS e o GPS disse-me aceitar destino e de repente a ideia de que aquilo era o meu destino, de que eu de repente estava numa...
peça do Sófocles, atingiu-me por causa daquela frase com a qual eu convivia todos os dias. No caso de verificando se fosse eu humano, acontece uma coisa parecida, que é aquela frase que de facto acontece muitas vezes, aparece muitas vezes quando estamos na internet. Para ver se não é uma máquina que está a entrar. Sim, para verificar se somos humanos e a questão é essa, é primeiro.
Quem é que tem competência para verificar? Será que eu passo nesse teste? Que teste poderia ser esse? E o que é que significa de facto? O que é que isso significa? Como é que alguém poderia verificar? Que eu não era humano. Sim. Como é que se verifica a nossa humanidade? Isso interessa-me.
E já chegou a alguma conclusão sobre isso? Quer dizer, cheguei a algumas. Na verdade, devo dizer que, sem estragar a surpresa, algumas respostas poderão passar. Não, eu acho que não cheguei a nenhumas. A grande maioria dos filósofos continuam a debater sobre isso, sobre o que é que significa ser humano. Sim, sobre o que significa ser humano e tal. Mas a internet, pelos vistos, acha que tem competência para verificar.
se nós somos um. Parabéns à internet. Conseguiu descobrir isso. Sim, ainda por cima à internet, onde eu já li algumas das coisas mais desumanas que já me foram dadas a ver. Eventualmente sobre si também. Bom, sobre mim não. Não tanto.
Não, eu evito, não aprecio esse assunto e portanto evito ler sobre ele. O Ricardo, muitas vezes os artistas referem aquela sensação de estar prestes a entrar em palco, isso que causa ali uma certa incómoda, um certo nervoso.
muitas vezes falam de barbaletas no estômago. Também sentiu isso? Sempre. Eu sinto isso todos os domingos. Faço um programa num canal que certamente conhece. E nesse dia estou sempre acometido de desarranjos muito variados. Não é uma coisa que já alida sem problema? Eu acho que nunca me habituarei a isso.
Tenho a impressão que ficaria desapontado se um dia estivesse muito confiante de que sei fazer isto e que está tudo ótimo. É isso que o deixa alerta? Talvez, sim. Acho que faz com que eu me esforce mais. Provavelmente há pessoas que estão desapontadas a pensar esforças-te muito e mesmo assim sai isto. Sai isto. Cada um dá algo. Tens precisar mais.
Estes dois espetáculos do Porto, com 4 mil em cada noite, correram bem. Isto é uma garantia de que tudo o resto vai funcionar? Ou o público pode ser sempre surpreendente? Sim, não é garantia nenhuma. Não está já adquirido. No meu caso concreto, nunca é uma garantia. Eu tomo sempre os momentos em que corre bem por...
a casos de sorte e se correr mal, eu penso cá está. Verifica-se a minha expectativa. A minha expectativa confirmou-se. Isso não é falsa modéstia? Não é, não. É uma coisa... É um...
Como é que se diz? Ia dizer um defeito, mas se calhar é um defeito de personalidade. É uma característica. Sim, eu não festejo quando corre bem, mas fico aterrorizado com a perspectiva de correr mal. Devia ser, eu devia ser, digamos, filosoficamente coerente. E se não festejo quando corre bem, também não devia ficar transtornado quando corre mal. Mas não é isso que acontece. Mas isso é uma...
É uma espécie de exigência que põe a si próprio e que faz, estou-lhe a perguntar, não tenho certeza, faz com que tenha um esforço maior para conseguir... Acho que é isso. Ir mais longe. É isso, acho que é isso. Para conseguir não falhar. Sim. É interessante, para além do que esteve no Porto, agora vai estar em Lisboa, em Meio Arena. Meio Arena tem 14 mil pessoas. Acho que são 14 mil cada vez. Sim, sim.
E depois ainda vai aos Açores, à Madeira e a outros sítios. Em junho irei às ilhas e depois, a partir de setembro ou outubro, vou ao resto do país. Vai ao resto do país. Há alguma piada, digamos, dirigida a estes públicos específicos? Ou, na verdade, o público é igual em todo lado?
Não, não, por exemplo, quer dizer, o público é, em geral, eu diria que sim, que é, em geral, é igual em todo lado. Mas, na verdade, só desculpa, eu te rompendo, porque na verdade, sendo um público tão grande, 4 mil ou 14 mil, provavelmente só lá todos os públicos, não é? É muito difícil dizer que há um público ali, não é? É isso, sim, tentar distinguir naquela massa enorme, é por isso que essa massa depois comporta-se como um organismo, quase como se fosse um organismo vivo.
que é formado por todas essas pequenas partículas. Estou a chamar partículas às pessoas. Isso é chuscante. Exato. Mas, sim, eu acho que, por exemplo, no Porto, eu tinha um segmento, não muito grande, mas especificamente sobre o Porto. Sobre a humanidade no Porto. Não exatamente sobre a humanidade. Nem sequer o confronto com as tecnologias. O espetáculo, lá está, como o próprio título indica.
também tem a ver com isso. Com a inteligência artificial? Sim, com o nosso confronto com isto, com a questão da tecnologia e tal. Sabe que no outro dia eu entrei no carro, liguei a ignição e o painel de instrumentos comunicou-me o seguinte. A temperatura exterior é de 40 graus negativos.
E eu tinha acabado de vir do exterior e pensei ou eu estou cada vez mais resistente ao frio ou isto é falso. E depois ele começa a dar-me outras notas do género. O sistema de detecção de peões não funciona. Eu nem sequer sabia que o carro tinha um sistema de detecção de peões. Eu tinha estado a detetar peões sozinho. Só colocou o olhar. Não fazia ideia que aquilo tinha detecção de peões.
E depois começaram mais uns 17 avisos de sistemas que estavam avariados. E eu, o carro ligava, o motor trabalhava, o carro andava, mas a direcção estava tão pesada que era difícil de... Estava a bloquear a conexão. E então tive que chamar o reboco. E depois da oficina ligaram a dizer assim, o carro está avariado. Eu disse, não está.
Isto não é variado. O carro liga e é possível andar. O carro está armado em parvo. É muito diferente do que era antigamente. Antigamente os carros estavam variados. E pá, não liga. Isto é muito diferente. E depois eles disseram-me o seguinte. O que aconteceu foi um rato introduziu-se por baixo do capô.
E roeu uns fios. Sério? Sim. E eu devo confessar que adorei. Gostei imenso. Porque, repara, estava ali em um confronto entre duas entidades. A mais avançada tecnologia automóvel ou humana e um ratinho. E ganhou o ratinho. É incrível. E eu... Que...
Eu preferia que não tivesse acontecido, eu preferia que tivesse acontecido ao seu carro, eu achava mais graça se fosse o seu do que o meu. Eu estou com vontade de vir, mas estou com a ter a maior risa. Mas eu achei que aquilo era uma humilhação que eu apoiava relativamente à tecnologia, que é sempre tão sobrancelha, tão superior.
Então, ainda por cima, agora tem a mania... Não só que é inteligente, como que nos vai tornar mais humanos, que é uma, digamos, uma prosápia que eu pessoalmente acho ofensiva. E, portanto, o facto do ratinho ter ganho... Eu senti que, naquele confronto, eu estou mais perto do ratinho, partilho o mesmo desdém do ratinho pela tecnologia e pela...
e por este deslumbramento, um bocado saloio que há pelas tecnologias todas, estão mais do lado do ratinho do que do lado da tecnologia automóvel ou humano. Essa frase é uma frase que dá um título. Estou ao lado do ratinho.
Mas o Ricardo é um cético da tecnologia, deste mundo, que eu acho fascinante, por exemplo, da inteligência artificial. Eu também acho fascinante, mas eu diria... Fascinante e daquilo que eu vou conhecendo, pelo menos essa é a minha experiência, muito útil. Ah, sim. Eu acho que há um lado útil.
há um lado útil, no sentido em que, por exemplo, a gente pega num desses modelos de inteligência artificial e diz, organiza aqui este, seja o que for, organiza isto. Há dois ou três momentos em que ele é útil, como, por exemplo, ele às vezes funciona como um dicionário analógico, digamos assim, quando um dicionário, que não é exatamente um dicionário de significados, é um dicionário que nos explica os conceitos. Por exemplo, que nos dá um conjunto de palavras do mesmo campo lexical ou até conceptual de um determinado assunto.
Coisa que os dicionários normais não fazem, mas os dicionários analógicos, havia alguns antigamente, ainda há alguns disponíveis, fazem isso. Ou seja, para isso é útil, mas eu não sei se já é muito vigarista, é muito aldrabão. Esses modelos são muito aldrabões. A gente tem que verificar constantemente.
E eu acho, sobretudo, que há ali uma... Era aquilo que eu lhe disse. Uma sobranceria. Sim, sim. Há uma arrogância da parte daquilo que me repele, sobretudo também porque me parece que a tecnologia...
É sempre assim que nos é apresentado, um instrumento que nos vai permitir ter mais tempo, nos vai libertar de tarefas que nós não queremos fazer e nos vai dar mais tempo. E o que eu verifico é que nós estamos com esse...
Eu não sei em que é que estamos a aplicar esse tempo, a não ser em mais contacto com a tecnologia, até porque o que elas prometem é, digamos, humanizar-nos. Aquela ideia, por exemplo, das redes sociais, como o próprio nome indica... Que era a proximidade, não é? Exato, seriam tecidos, é isso que é uma rede social, não é um tecido que aproxima pessoas. E a questão é que neste momento a gente verifica, acho eu.
que nas redes sociais as pessoas fazem mais scroll, aquele movimento com o polegar, ou seja, veem mais o que lá está do que publicam coisas lá. E nessa medida as redes sociais hoje são mais o nosso grupo de chat no WhatsApp com os nossos amigos. Isso sim é uma rede social que estabelece essa...
É muito útil, há muitas redes familiares, há muitas redes de trabalho. Entre várias pessoas. E as redes sociais começam a ser outra coisa em que uma celebridade ou um influencer, ou seja, o que for, diz qualquer coisa e as outras pessoas limitam-se a ser espectadores disso. Essa ideia de que aquilo que a tecnologia humaniza...
parece-me bastante absurda. Eu lembro-me sempre daquele... Não sei se conhece aquele filme do David Fincher que se chama A Rede Social, precisamente, que é sobre a história do Facebook. Do Facebook, sim. Dos dois... Exato. Agora não lembro do nome. Sim, do Marcos Urquhart. Marcos Urquhart, dos seus irmãos. Há lá alguns momentos muito... Exato, entre aqueles irmãos Winklevoss. Há lá uns momentos muito interessantes em que nós percebemos...
que ali o Mark Zuckerberg não é exatamente um ser humano normal. E isso é dado magistralmente no filme, por exemplo, numa ocasião em que ele vai comunicar ao seu amigo e sócio, que ele depois mais tarde virá a atrair, evidentemente.
Ele vai comunicar-lhe uma novidade importante e entusiasmante. E o amigo sai do sítio em que está e está cá fora, em Boston, no inverno. Está muito frio. E ele comunica-lhe essa novidade, que é uma novidade entusiasmante, e o amigo, que está com frio, diz...
até estou a tremer. E o Mark Zuckerberg diz também, eu isto é mesmo muito entusiasmante. Ou seja... Ele estava a tremer de entusiasmo. Exatamente, ele nem sequer sente que está frio. Parece não ser capaz de uma emoção humana. Mas isso às vezes é típico daquelas personagens visionárias. O Elon Musk também tem esse perfil. São de tal modo tão distantes da realidade.
que há ali uma aparente falta de empatia. O Vítor escolhe a palavra... Visionário. Visionário, eu escolheria outra. Até porque, sabe, por falar em empatia, essa é outra coisa que eu acho que... O Vítor há bocado perguntou-me se eu era cético. E eu acho que o humor é...
um exercício prático de ceticismo. É isso. É isso que o humor faz. O humor duvida. Duvida. Duvida de... Quer dizer, duvida da linguagem, é cética em relação à linguagem, é cética em relação à autoridade. Não só à autoridade física.
a quem manda, mas, digamos, a certos dogmas, ao clichê, por exemplo, que é uma verdade comumente aceita. O humor deleita-se a questionar se isso será verdade, mas também é cético em relação a várias outras coisas. É cético em relação ao próprio ceticismo.
Ou seja, mantém presente que o ato de denunciar o ridículo também é... Ele próprio em si mesmo contém qualquer coisa de ridículo, é cético em relação à coerência pessoal de uma pessoa. Uma coisa que a gente adora é encontrar um hipócrita. Uma pessoa que diz uma coisa e faz outra.
Isso é um petisco humorístico que tem séculos. É o material, não é? É o material fantástico. O Ricardo seria incapaz, olhando para esse seu ceticismo, de procurar fazer um espetáculo, ou fazer, não digo um espetáculo porque isso é demais, mas procurar fazer um segmento, por exemplo, através da inteligência artificial, pedindo à máquina, para, pá, queria, quero fazer um espetáculo que faça ali 300 pessoas do Porto. Sim, sim.
toque nisto, naquilo e naquilo outro. Alguma vez perguntou fazer esse exercício? Eu às vezes tenho... É só para ver o que é que poderia sair. Sim, sim. Ele não tem graça nenhuma. Atenção, os modelos de linguagem... Nunca encontrou nenhuma coisa com graça nos modelos. Eu acho que eles... Essa é uma coisa que me tranquiliza, por enquanto... Há ali uma concorrência que ainda não está alerta. Pelo menos até agora. Não sei se isso não é uma evidência.
de que há qualquer coisa de inerentemente humano na ideia de... De criar essa... Do riso, sim. Na ideia de riso e que por isso isso lhe é estranho.
Mas, portanto, eu ainda, até agora, não estou assustado porque acho que ele não tem graça nenhuma. Às vezes discuto com ele sobre... Por exemplo, às vezes ponho... Já não sei por que razão pus-me a falar com ele sobre, digamos, a questão ética. Relativamente a questões éticas que às vezes... Que às vezes se aplicam ao humor. Sim, mas que se aplicam especificamente ao humor.
E ele é muito, digamos, puritano. E diz que piadas sobre determinados assuntos... Não pode ser. Sim. Muito politicamente correto. E eu respondi que isso não é assim, não faz sentido que isso seja assim, que todos os assuntos podem ser tocados pelo humor e que, de facto...
É possível que as pessoas se ofendam, mas as pessoas ofendem-se com várias coisas que nós não controlamos. Podem ofender-se com palavras, com silêncio. Às vezes ofendem-se com um elogio. É possível, eu já consegui essa proeza de ofender pessoas com um elogio. E ele respondeu-me, não, mas repare, é possível fazer humor sem ofender, porque Ricardo Anos Pereira, por exemplo, não acredito que este palerma está a atirar-me à minha própria cara.
mas enfim o processo de escrita do espetáculo de stand-up tem alguma semelhança com o processo de escrita do programa de televisão? sim, tem várias é uma história no fundo pode haver um arco sim, mas eu acho que a unidade básica disto que é
Aquilo a que nós chamamos muito prosaicamente uma piada. A palavra piada deve dizer que, em português, tem muito menos prestígio do que merece. Em inglês, ninguém olha de cima para baixo para a palavra joke. Os escritores...
dizem que incluem jokes nos seus romances. Não há nenhum priorito sobre isso. Ainda no outro dia estava a ouvir um programa de televisão em que alguém dizia que o rei Carlos III...
Tinha ido a falar com o Trump e tinha feito umas piadolas. Piadolas? Não me pareceu que ele tivesse feito piadolas. Acho que ele fez piadas e até eram boas. Mas essa ideia de que piadas são sempre piadolas... Desvaloriza. Não faz mais desvalorizar. São uma coisa que não tem valor. Eu tenho a perspectiva oposta. Eu acho uma piada um milagre. Uma coisa que exerce sobre mim um fascínio que dura até hoje e eu já sou velho.
Portanto, começou quando eu era pequeno. E é isso que o motiva, não é? Exato. E, normalmente, qual é a origem da piada? É uma ideia, é uma observação, ou pode ser tudo, na verdade? Sim, muitas vezes são observações. Por exemplo, este espetáculo agora que está a fazer.
São observações que eu vou colecionando. Toda a gente que tem a minha profissão faz isso. Tem sempre um caderninho, uma... Não usa o telefone. Quando não tem, dita-me no telefone ou escreve no telefone. E isso, à medida que o tempo vai avançando, gera-se um armazém.
de coisas que algumas estão prontas, outras estão tão longe de estar prontas que não são nada. Quando eu vou lá ver já nem sequer percebo que ideia que tive naquele dia em que a apontei. Outras estão a meio de se tornarem qualquer coisa interessante.
E consegue descobrir o momento, perceber o momento. Para si também é um momento de prazer para descobrir esta piada. Isso é ótimo. Eu que aguardou uma piada só para si. Uma piada tão boa. Repare, isso não faz nenhum sentido. Seria o antipiado. Não, porque isto... Isto é uma coisa de exibicionismo. Repare, é chegar ali e só quando a gente a diz ao público e provoca no público aquele barulho,
É que nós sabemos que é uma piada mesmo engraçada. E, portanto, sim, sim, isso é fundamental. Mas quando encontra uma piada que se sabe que vai ser engraçada é um momento de contentamento. Com certeza que é, sim. É um momento de contentamento. É um momento de grande contentamento.
porque sei que ela, ou melhor, suspeito que ela vai ter aquela efeito. Eu continuo a suspeitar e não ter a certeza. Eu acho que tenho mais certeza hoje do que já tive no início, mas tenho a suspeita forte de que ela vai resultar. Isso é uma excitação, evidentemente. Eu vivo para isso.
É isso que faz o seu sucesso ou o seu insucesso. O Ricardo já falou há pouco e tem falado bastante nas suas intervenções da questão da forma como as pessoas visadas nas piadas viajam a elas têm, aliás, um pensamento que já expressou sobre ele várias vezes. E houve aquele caso paradigmático dos anjos no ano passado, nos últimos meses, que processaram a Joana Marques. Acha que hoje há uma hipersensibilidade?
E ao mesmo tempo uma hipervalorização daquilo que os amoristas dizem. Isto é, as pessoas, em vez de dizer, é uma piadola. Não vou ligar, isto é uma piadola. Mas porquê que as pessoas ficam tão, digamos, irritadas e mesmo furiosas com isso, que até levam o caso a tribunal? Não só levam o caso a tribunal, como, repara, que é uma coisa, é uma epidemia.
global. Note que o mesmo Donald Trump que recusa qualquer responsabilidade na invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro. Eu queria dizer, desculpa, Ricardo, que recusa qualquer responsabilidade. Sim, exatamente. Mas no caso do 6 de janeiro especificamente ele convocou um comício para Washington. Ele disse aos seus apoiantes que eles tinham o poder de impedir a tomada de posse do Biden.
cuja eleição era, aliás, fraudulenta, segundo ele disse, pediu-lhes que marchassem até o Capitólio e depois disse que, apesar disso tudo, eu não tenho nenhuma responsabilidade no facto dos meus apoiantes terem invadido o Capitólio. É a mesma pessoa que agora diz que uma piada do Jimmy Kimmel sobre a diferença de idades entre ele e a mulher, que vai ser viúva, quer dizer, é uma mera constatação, se tudo correr como é costume. É uma probabilidade enorme.
ele acha que isso esteve na origem, ele, a porta-voz da Casa Branca, e a própria Melania Trump também fez isso, acham que isso está na origem do ataque, que isso instigou um maluco qualquer a ir disparar para o jantar dos correspondentes. E, portanto, sim, eu acho que há... Repare que neste caso concreto, cá em Portugal, o caso que se abateu sobre a Joana, e ao qual ela reagiu com um grande desportivismo, acho eu...
Eu acho que é significativo de um mesmo ambiente que tende a considerar que uma piada é uma agressão. E, portanto...
Vai que está no sentido literal. Às vezes no sentido literal, sim. E é por isso uma transgressão ética. Isso é uma coisa curiosa, porque normalmente as pessoas que acusam, por exemplo, a minha amiga Joana Marques, de estar a praticar essa transgressão ética, porque acham que ela não tem o direito de fazer uma piada sobre elas,
Curiosamente, a Joana faz piadas sobre o que as pessoas dizem e pensam. As pessoas que têm respondido à Joana falam sobre o que ela pesa e mede. É uma coisa realmente curiosa. E que não se coaduna bem com a de um paladino da ética. Não é? Quando...
Quando um paladino da ética lamenta a transgressão ética da Joana e depois reage desta maneira, acho que é legítimo suspeitar que ele talvez não seja um grande paladino da ética. No outro dia eu estava a ler um livro que eu tinha lido na faculdade, com grande fastio, porque às vezes na faculdade é assim, mas agora li com um grande prazer que se chama...
A apresentação do Eu na vida todos os dias, do Goffman, em que ele fala sobre isso, sobre o modo como isto é, digamos, uma espécie de teatro em que nós nos apresentamos de um determinado modo, até porque temos uma vontade de ser entendidos, de ser percebidos de acordo com a máscara que afivolamos.
Eu lembrei-me da Joana a todo o passo, porque a Joana é uma espécie de desmancha prazeres, que está a dizer às pessoas, olha, essa pose que tu puseste tem este e este aspecto exagerado ou ridículo.
e, além disso, não corresponde à figura porque eu encontro esta e esta brecha no teu discurso. Mas eu imagino que isso seja doloroso. Uma coisa que a mim me surpreende é o facto de...
das pessoas não perceberem que quando há essa reação, isso muitas vezes é dar continuidade à história. É valorizar a história. No fundo estão a sublinhar, isto é mau, mas eu vou sublinhar que isto é mau. E, portanto, toda a comunidade fica... É interessante como isso... Como não se pensa nisso. Muitas vezes a desvalorização, o ignorar é a resposta mais óbvia para quem não quer alimentar aquela controvérsia. Ou quem acha aquela controvérsia injusta ou que está a ser vítima de uma justiça.
Aliás, eu acho que a Joana até tem feito alguns amigos.
justamente porque reagiram àquilo que ela disse com esse tipo de desportivismo, disseram, bem observado o que tu disseste. Ou então... Sim, exatamente. Mas é engraçado porque no caso americano, Jimmy Kimmel disse esta frase, mostrando a imagem da fotografia da primeira dama, Melania Trump. Melania Trump tinha o brilho de uma futura viúva.
E dois dias depois acontece aquele ataque ou no dia seguinte. E isso está a levar a administração Trump a pedir o próprio despedimento do Jimmy Cable da ABC. Nós estamos muito longe, apesar de tudo, não sei se concorda comigo desta forma de reação. Sim, eu acho que... As pessoas aqui criticam muito, mas na verdade não é a mesma coisa que acontece na América, que é um poder a dizer que este tipo tem que ser despedido.
Sim, eu acho que vontade não falta. Aliás, se fizeram um péri pelas redes sociais, há muita gente a apelar ao despedimento de algumas pessoas. Mas, portanto, vontade não falta. Mas isso, sim, é o presidente dos Estados Unidos que está a apelar ao despedimento de um humorista porque não gostou de uma piada.
É uma profissão perigosa, repare. Não se esqueça que há, sei lá, quatro anos um humorista foi agredido no palco dos Oscars, por dizer uma piada também. E no Brasil houve um parísmo, não é? Houve oito anos de cadeia, embora no recurso tenha ganho. Sim, elevado. O que reintroduziu alguma sanidade, digamos, neste processo. Mas sim, existe essa inclinação. Parece-lhe que esta inclinação normalmente é o sinal de fraqueza dos políticos.
Sim, sabe que eu acho que às vezes é por isso que, por exemplo, uma personalidade como Donald Trump reage assim e as pessoas apressam-se para concluir que cá está, o humor é muito poderoso, tanto é que ele tem tanto medo dele que os quer abater.
A questão não é essa. Eu acho que é um raciocínio que tem algumas falhas. Porque o facto de Donald Trump ter medo de uma coisa não significa que ela lhe faça mal. Eu acho que está mais do que provado que aquilo não lhe faz mal. Eu tenho 1,93m e tenho medo de aranhas. E nunca uma aranha me fez mal. Isso não é o poder das aranhas. É só o retrato do meu medo. Nesse caso concreto, também é o caso do medo de Donald Trump. Ele não gosta de ser ridicularizado.
Pessoas que têm a personalidade que ele tem normalmente reagem assim, reagem dessa maneira. Isso é bastante perturbador, até porque nós sabemos que em Portugal ele tem alguns fãs. Em todo lado. Em todo lado, sim, mas como eu vivo aqui me interessa mais os fãs que ele tem. Mas é uma figura interessante para um humorista, não é? O Donald Trump.
Eu não sei dizer se... Eu faço esta pergunta, porque na verdade nós vemos programas de humor na América, e por exemplo na campanha houve vários, em que os humoristas ativamente faziam piadas diariamente com ele, na verdade viu-se que ele foi eleito também.
O efeito do humor, quer dizer, houve as piadas, mas as pessoas riram e votaram como quiseram. Portanto, não há aqui uma ligação direta. Mas a questão é esta. Na verdade, ele é uma figura, um bom material para ser tratado como... Eu não diria isso porque ele tem esta característica.
que o torna quase impossível de satirizar. Porquê? Porque é impossível, normalmente, repare, que instrumentos é que um humorista tem? Tem o de, por exemplo, vários, a gente olha para uma caricatura e percebe que alguns dos instrumentos estão lá, por exemplo, a aumentar muito.
É isso, exagerar. O discurso dele já é excessivo. Já é excessivo para além do que... Isso é uma coisa curiosa, que é, às vezes, há uma sátira sobre o Donald Trump, só falta ele dizer isto e ele, passado uma semana ou duas, diz. E, portanto, isso torna difícil. Outro instrumento é, por exemplo, virar pernas para o ar. Virar ao contrário, ver como é que fica. São os instrumentos que uma criança tem quando está a brincar. Virar o Trump ao contrário...
produz um resultado que não tem graça. Porque o inverso do Trump é, sei lá, é uma pessoa que está a dizer coisas sensatas, está a não apelar ao despedimento de humoristas por lhe terem dito uma piada de que ele não gostou, sendo que o seu vice-presidente tinha vindo em fevereiro do ano passado à Europa a dar-nos umas lições sobre liberdade de expressão. Neste momento eu gostava de ouvir o que é que o vice-presidente acha de um país em que o presidente...
Ele não está a manobrar na sombra. Ele está a pedir abertamente para as pessoas. Esse lado muito óbvio que afinal o torna menos interessante para ser tratado. Acho que sim. O Ricardo gosta muito de fazer o humor com a política. Mais do que, por exemplo, a que a Joana faz muito com as pessoas...
personalidades públicas de vários minutos da televisão, o Ricardo tem este fascínio pela política. Estou a perguntar-lhe. Daquilo que eu observo nos seus programas é fundamentalmente isso, não é? Sim. Estes programas são claramente programas de sátira política. A política interessa-me. Acho que interessa... Sempre interessou a política. Interessou, sim. Eu acho que há qualquer coisa bastante saudável na ideia de nós podermos rir dos nossos dirigentes.
Mas ali é a questão do jogo político ou a questão do poder? Porque há sempre aquela coisa que vamos estar aqui a questionar o poder. É um bocado essa lógica ou a lógica do jogo que a política também é dos ataques, dos contra-ataques, das respostas, dessa dinâmica que existe. Repare, a questão de... Às vezes há essa ideia de questionar o poder, dizer a verdade.
Nós é que vamos dizer a verdade. Eu não sou messias. Não tenho nenhum impulso messiânico nem a ideia de... De uma missão salvadora. Nem a ideia de que eu tenha a verdade. Embora hoje em dia, não sei se já reparou, mas é uma coisa que eu acho que nos últimos anos aconteceu, que é a privatização da verdade. Eu lembro que quando eu era pequeno não era assim. O que é que acontece com isso?
É porque as pessoas agora dizem, não, esta é a minha verdade. Cada pessoa tem a sua. Privatizaram a verdade. Antigamente havia a verdade, não é? Ninguém dizia possuí-la. Havia a verdade e depois as pessoas estavam a dizer uma coisa e correspondia à verdade ou não correspondia.
Mas agora as pessoas têm esta mania que é a minha verdade, eu tenho a minha verdade, depois o Vítor diz qualquer coisa e é a sua verdade, mesmo que seja o contrário da minha verdade, vamos os dois para casa satisfeitos porque cada um tem a sua verdade. Mas eu não tenho esse impulso de ser a pessoa que diz a verdade. O meu impulso é mais infantil, é acertar com uma maçã podre na testa de um grande dirigente. Isso interessa-me. O nosso programa é sobre...
É sobre política, mas talvez seja sobretudo sobre o discurso político e é também sobre o discurso acerca da política. E é por isso que às vezes também... Também entram os jornalistas. Exato, também entram os jornalistas. Tudo isso é fascinante para nós. Eu acho, aliás, que o meu primeiro interesse é na linguagem.
É isso que me interessa acima de tudo. Portanto, não é o escrutínio, não é o verificar se quer que o poder faz ou não faz. É, no fundo, encontrar ali, digamos, as pequenas contradições. O meu prazer e intenção é muito mais infantil do que isso. Do que essa coisa boa. Exatamente. Do que essa visão. É claro que sempre que apanha alguém numa contradição.
alguém que está a dizer hoje uma coisa que três semanas antes ou três anos antes ou três horas é claro que isso me satisfaz mas pelo facto disso ser como lhe dizia há pouco um petisco humorístico que tem milénios ver uma pessoa dizer uma coisa e o seu inverso e praticar o contrário é mais por isso do que
por eu ter alguma ambição de moralizar a vida pública. Acho que às vezes o discurso que os jornalistas têm. Estamos aqui para manter a saúde da democracia. Mas eu acho muito bem que os jornalistas tenham... Rapaz, é por isso que os jornalistas e eu temos profissões tão diferentes. É por isso que eu não tenho uma carteira profissional, é por isso que eu não estou sujeito a um código de ontológico. Não tem que fazer o contraditório, tem uma série de coisas. Voltando um pouco...
Traz ao centro, centrando-nos ainda nesta questão da vida política, da saúde da democracia. O Ricardo, há pouco já disse que era cético em relação aos novos mecanismos da inteligência artificial. Em relação à democracia, há muito discurso atualmente que a democracia está em risco, nós temos que ser muito vigilantes. O Ricardo partilha desse receio ou acha que há aqui algum sucesso? Eu acho que a liberdade costuma estar em risco, sim. Dão a uma unidade adquirida.
Não, porque a liberdade, repare, é desagradável. Porque implica... Eu pessoalmente sou fã, mas a liberdade... Não tinha ouvido ninguém dizer que sou fã da liberdade. Sou, mas a liberdade implica...
A gente ouvir coisas que não gosta implica nós assistirmos a pessoas que estão a viver de uma maneira que nós não consideramos que seja a correta. Tudo isso às vezes causa engolhos, aborrecimentos.
Mas nos regimes em que está tudo mesmo muito certinho, eu acho que se vive pior. Tudo de grado, não é? Exatamente. E, portanto, sim, sou um grande adepto dessa coisa tão problemática e desagradável que é a liberdade.
Eu estava a falar um pouco de democracia. E a democracia? Eu vi, por exemplo, que havia este discurso em relação à Hungaria e de repente os eleitores foram votar e escolheram outro governo. E, portanto, o que significa é que ok, provavelmente o risco foi superado. Há sempre mecanismos de superação.
Se as regras forem cumpridas, digamos assim. Eu espero, sim. Espero que as democracias mantenham a sua capacidade. Lá está com esses mecanismos, porque a democracia não se esgota no facto de nós irmos 4 em 4 anos a uma cabine de voto. Tem outros mecanismos que a protegem, e ainda bem.
E eu espero que esses mecanismos sejam robustos, suficientemente robustos, para resistir aos ataques. Eu acho que os ataques são inegáveis, os ataques existem. Às vezes há pessoas que... Estamos numa fase maior, de alta nesses ataques? Acho que sim, acho que estamos numa fase em que esses ataques são mais intensos. Mas às vezes há pessoas que dizem, é uma prática muito comum, que é, por exemplo, citar aquela frase do Karl Popper.
segundo a qual a democracia deve não tolerar os intolerantes. E essa frase, que normalmente circula num meme na internet,
O meme, como é próprio dos memes, é uma versão, digamos, reduzida. Até tem uns bonecos, é muito giro. Mas a frase não diz exatamente o que as pessoas acham que ela diz. Porque essa é uma frase do Popper que está numa nota de rodapé da Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, desse livro. Está numa nota de rodapé. Nada contra as ideias que se exprimem em notas de rodapé. No lugar da frase, na página que conta.
Mas a frase seguinte àquela que aparece citada no meme é não quero com isto dizer que todos os discursos intolerantes devam ser censurados porque isso seria contraproducente. É o que diz lá. O que o Popper está a dizer é quando as pessoas que têm discursos intolerantes
recorrem à violência, ou seja, deixa de ser possível no espaço público o diálogo, rebater os seus argumentos e rebater-los com os nossos. Quando elas recorrem às armas, à violência física, é aí, é isso. Isso é que significa intolerância para ele.
É essa intolerância que nós não podemos tolerar. Concordo. E é uma intolerância que as redes sociais fizeram aumentar. Quer dizer, as redes sociais são barulheiras, não é? São barulho, são barulho. Eu não tenho, como sabe, não tenho redes sociais. Às vezes as pessoas... Há pessoas à minha volta que têm redes sociais.
eu não tenho interesse naquilo não vejo a relação que elas têm com as redes sociais e mesmo não sendo assim tão intensa aquilo não me agrada mas o que me repele nas redes sociais às vezes até pessoas dizem tu não queres porque depois apareciam pessoas a criticar-te eu com as críticas estou ótimo até porque elas continuam a chegar-me eu não suporto os elogios eu acho que isso seria ok
Às vezes nas redes sociais acontece uma coisa que é, por exemplo, morre alguém. Uma excelente pessoa. E as pessoas comportam-se como se fossem a casa civil de si próprias. Como se elas fossem presidente da república e agora a casa civil vai emitir um comunicado sobre o David Bowie. Ou então, quando é uma figura portuguesa mais próxima, normalmente a mensagem diz o seguinte.
jamais esquecerei as últimas palavras que trocámos quando tu me disseste que eu era ótimo. E eu acho isso mais obsceno do que uma piada de mau gosto sobre o defunto. É transformar tudo aquilo que é o beito do outro no nós. Nós nesse momento. É isso, nós somos sempre o centro da história. É isso, lá está. Era isso que eu, a propósito do Goffman e da apresentação do Eu na Vida Todos os Dias, era isso que me fazia constantemente lembrar da Joana.
Porque ela adora vaidade. Adora. Ela acha realmente aquilo espantoso. E é. E é porque a vaidade, repare, quando se o Leonardo da Vinci...
agora aparecesse aqui e dissesse eu sou o maior artista de sempre. Acho que é quase indiscutível. Nós dizíamos, o Leonardo está bem, está certo, mas agora estamos aqui a conversar, volta para a tumba. Quando não é o Leonardo da Vinci, quando é um mesequinha qualquer,
que tem o discurso do Leonardo da Vinci. Eu sou muito da bom. Eu fiz agora, fiz um espetáculo. Fiz um espetáculo que foi ótimo e tinha tanta gente a ver. Eu lancei um álbum. Quer dizer, no Leonardo da Vinci é uma coisa fanfarrona, aborrecida. No Zequinha é ridículo.
Como é que lida com os números das audiências? É muito interessado. A primeira coisa que quero fazer no dia seguinte é ir ver. Tenho a mesma relação que tenho com a bruxaria. Eu não acredito. Na segunda-feira, o Daniel Oliveira manda-me o gráfico.
O gráfico não, manda-me a lista. Às vezes, no princípio, mandava-me o gráfico e disse, Daniel, eu não sei ler isto. Não vale a pena. Não sei o que é que isto quer dizer. Estes risquinhos, eu não percebo o que é que isto quer dizer. Ele manda-me a lista. A ordem do programa. Exato. Às vezes ficamos em primeiro, outras vezes não ficamos em primeiro.
Mas é uma coisa que condiciona o seu trabalho? Não, nada. E também não condiciona a maneira como a SIC entende o meu trabalho. Porque, repare, a SIC não se mete em... Essa é uma coisa que eu, se calhar, digo vezes de menos. Eu gozo de total liberdade na SIC. Como me deve calcular, por exemplo, uma opção minha como não convidar o André Ventura?
isso imagino que tenha custos para a SIC. Já percebem, inclusive, reparos da ERC. Repares da ERC, sim, mas a ERC faz muitos reparos. Estou farto de escrever textos sobre... Normalmente chamam-se de a entidade reguladora não regula muito bem, porque são coisas que, de facto, evidenciam que se passou ali qualquer coisa.
Aliás, uma vez foi sobre este canal, foi sobre a RTP, foi quando José Rodrigues dos Santos estava a entrevistar Marta Temido e ela disse que há países que estão numa situação difícil e por causa disso têm dificuldade de entrar na União Europeia e ele disse o caso da Ucrânia. E a ERC analisou a entrevista e ouviu José Rodrigues dos Santos a dizer que por acaso não creio.
Eles transformaram o caso da Ucrânia em, por acaso, não creio. E, portanto, é com este rigor que... Pois, mais tarde, tiveram de corrigir quando o Zé Rodrigo Santos explicou o que é que tinha nisso. E toda a gente pôde a ver. Sim, no nosso caso, eles também têm feito algumas intervenções que me parecem absurdas, como essa de recomendar à SIC, alertar à SIC para a necessidade de, se necessário, compensar o André Ventura com participações noutros...
A ser relacionada na linguagem também é um elemento interessante. Mas eu vou fazer-lhe essa pergunta porque é o facto de ser um programa em horário nobre, de pretender e conseguir, a maior parte das vezes, ser líder da audiência, já que àquela hora, obrigou a um determinado tipo de humor que pode ser menos arriscado, tem que ser mais mainstream.
Não, nós não sentimos isso de todo. Era o que eu lhe dizia. Por exemplo, a SIC não faz imposição nenhuma, até porque a SIC costuma dizer uma coisa. Sabe aquele vocabulário que as estações costumam ter, que é, não te preocupes com as audiências, o programa é importante para nós em termos de posicionamento da marca. É claro que se eu passar a ter 100 mil espectadores, em princípio vou posicionar a marca para as duas da manhã. Em princípio será isso que acontece. Mas, devo dizer que a SIC não...
Eu não estou a falar assim, estou a falar assim próprio. Pessoalmente, repare, nós no outro dia, a propósito daquele... Eu acho que foram aqueles militares da Marinha que recusaram embarcar numa... Na Madeira, não é? Na Madeira, sim. Foi o Almirante fazendo aquele discurso. Nós fizemos uma coisa chamada a nau-pespineta, que é uma referência à nau-catrineta. Ou seja, como eles estavam a ser... Lá está, a pespineta. A pespineta.
Nós fizemos isso, a Naupe Spinetta, é uma referência à Naupe Catrinetta. Quer dizer...
Não sei se é assim a referência que as pessoas... Cá está a coisa... Isto é ótimo para o horário nobre da SIC, com certeza. Mas, portanto, não tem a nota. Se a sua pergunta é... Aquilo que tu fazes é um bocado rasteiro. É para caber naquele sítio? Eu aceito a sua crítica. Mas eu não faço por causa disso. É porque sou mesmo emprestado.
nós não temos nenhum prioridade de as pessoas não vão saber o que isto é. Até porque esse é o meu método desde sempre. Eu não... Desvalorizou. Não suponho que o público sabe menos do que eu. E não me tenho dado mal com isso. Aliás, neste espetáculo, eu tenho um segmento sobre Camilo Castelo Branco.
É uma coisa bastante comum, acho eu, em stand-up comedy. Camilo Castelo Branco. Camilo Castelo Branco e literatura portuguesa do século XIX. E não me posso queixar da recepção que isso tem. Porque o público percebeu. Sim, sim, não me posso queixar da recepção que teve. Ricardo, a televisão cria versões de nós próprios, no sentido em que cada espectador cria uma imagem a partir daquilo que vê.
Não sei se o Ricardo é a pessoa certa para responder a isto, mas parece-lhe que a imagem pública que existe de si corresponde àquilo que o Ricardo é, pessoalmente. Há aqui uma grande distância. Ou pode haver? Eu, repara, creio que em cada casa haverá uma imagem... As pessoas farão uma imagem minha. Não sei se ela é sempre coincidente. Há pessoas que acham que eu sou o demório.
como era a casa da minha avó. Mas outras... Se calhar com fundamento. Sim, provavelmente com fundamento. Quando no ano passado o Papa convidou vários humoristas de todo mundo para lá irem e eu fui na comitiva, não parava de me ocorrer a ideia de que se a minha avó fosse viva, ela teria ligado para o Vaticano a dizer... Pensem melhor. Não sei o que aconteceu aí, mas não recomendo isso. Eu, quer dizer, eu não sei, a minha...
A minha experiência, quando estou na rua e as pessoas contactam comigo, é que a minha imagem pública... Eu não sei se é coincidente com aquilo que eu sou, até porque isso não será exatamente possível. Se acharmos que o que eu sou é aquilo que eu sou em casa...
nesse caso a minha imagem pública é uma versão exagerada disso porque eu estou muitas vezes calado não tanto quanto as pessoas que vivem comigo gostariam mas estou muitas vezes calado estou muitas vezes a pensar em coisas que não têm a ver com isto mas sinto que isso é uma coisa que me agrada às vezes uma pessoa cruza-se comigo na rua e olha para mim e faz o primeiro impacto é ah
este tipo é meu amigo, eu sei. Há um centésimo de segundo em que as pessoas dizem eu sei quem é, é aquele meu amigo que... Ah não, já sei tanto é que eu conheço. Mas o facto do primeiro impacto ser esse, ser de nós temos uma relação e é uma relação agradável, agrada-me.
Ricardo, o nosso tempo terminou. Muito obrigado por ter vindo à grande entrevista. Até uma próxima oportunidade. O melhor para o seu espetáculo que se chama Verificando Se É ou Se É. A grande entrevista pode ser vista na RTP Notícias e noutros horários, na RTP1 e também na RTP Internacional. Fica disponível a partir deste momento em RTP Play e em podcast. Muito obrigado. Boa noite.