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T5E22 | PARALISIA DO SONO E MEMBROS FANTASMA | A NEUROCIÊNCIA POR TRÁS

17 de agosto de 202645min
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Fala gente!

Diz aí, você já acordou sem conseguir se mexer? Ou quem sabe conhece alguém que diz sentir um membro que nem existe mais?

Essas experiências parecem saídas de um filme de terror, mas a neurociência mostra que elas têm explicações fascinantes.

Nesse episódio a gente explica como o cérebro pode criar sensações extremamente reais, desde a paralisia do sono, em que a pessoa desperta, mas o corpo permanece temporariamente "desligado", até o intrigante fenômeno do membro fantasma, em que pessoas amputadas continuam sentindo dor, coceira ou movimento em um membro que já não existe.

🧠 Você vai descobrir:

✅ Por que algumas pessoas acordam completamente conscientes, mas incapazes de se mover.

✅ O que faz tantas pessoas relatarem sombras, presenças ou figuras assustadoras durante a paralisia do sono.

✅ Como a amígdala cerebral intensifica o medo e leva o cérebro a interpretar incorretamente o ambiente.

✅ Por que pessoas amputadas continuam sentindo dor em membros inexistentes.

✅ O papel do hipocampo, da memória e da neuroplasticidade nesses fenômenos.

✅ Como experiências que parecem sobrenaturais podem ser compreendidas pela ciência.

Mais do que curiosidades, esses fenômenos revelam algo extraordinário: nosso cérebro não apenas interpreta a realidade, ele também pode construí-la, e daí a importância de você conhecer mais sobre isso.

Se você já viveu uma dessas experiências, ou conhece alguém que passou por isso, este episódio vai ajudá-lo a entender o que realmente acontece dentro da nossa mente.

🎙️ Bora ouvir esse episódio super curioso, e claro, já aproveita pra seguir a gente por aqui e deixar aquelas 5 estrelas super necessárias 🧠 .

📺 Podcast Cerebrando | Ciência aplicada à vida real.

#Neurociência #ParalisiaDoSono #MembroFantasma #Cérebro #SaúdeMental #Neurologia #Sono #Neuroplasticidade #PodcastCerebrando #Ciência

Participantes neste episódio2
I

Ivo

Host
D

Doutor Diogo

Convidado
Assuntos4
  • Paralisia do Sono e Medo· SaudeBloqueio de segurança muscular·Transição entre sono REM e despertar·Ativação da amígdala e medo·Interpretação de sensações e alucinações·Dificuldade para respirar
  • Membro Fantasma· SaudePersistência do mapa corporal no cérebro·Sensações de dor, coceira e movimento·Neuroplasticidade e economia de energia·Sinais anormais de nervos seccionados·Dor como experiência cerebral
  • Mecanismos Cerebrais e Percepção· CienciaÍnsula e interocepção·Amígdala e resposta ao perigo·Hipocampo e memória·Neuroplasticidade·Interpretação de estímulos sensoriais
  • Tratamento e Gerenciamento de Fenômenos· SaudeTécnica do espelho para membro fantasma·Realidade virtual em reabilitação·Gerenciamento do medo na paralisia do sono·Importância da fisioterapia e terapia ocupacional·Luto e adaptação após amputação
Transcrição73 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
IIvo

E esse episódio, ele é muito específico, especial para você que acorda de madrugada ou no meio da madrugada e não consegue se mover. Para você que tem algum amigo que por alguma infelicidade perdeu algum membro do corpo e ouve dele por várias vezes que, cara, tá doendo muito aquele membro, só que ele não existe. E aí, o que será que tá rolando nesse cérebro que perde o corpo, que perde algumas referências? Para isso, Doutor Diogo na área com a gente aqui. E aí, Diogão, tudo bem, Ivo?

DDDoutor Diogo

Tudo bem, pessoal? Sejam muito bem-vindos ao Cerebrando mais uma vez. E hoje falaremos sobre paralisia do sono e membro fantasma, Ivo. Umas curiosidades que a gente sempre gosta de trazer para o pessoal para que eles entendam Que não há nada místico nisso, não há nada de, não é tão bizarro assim diante da neurociência, da neurologia, mas que eu sei que incomoda muita gente, por mais bizarro que pareça. E vamos lá, pessoal, para você que acorda paralisado, esse episódio será muito legal, demais da conta.

IIvo

Não se assuste, começa por aí, né? Ô Diogo, vamos embora falar um pouquinho da questão de paralisia do sono, cara. Enfim, a pessoa tá acordada, tá dormindo, consciente, inconsciente, não consegue se mexer, e bate aquele desespero, né? Ou seja, a pessoa acorda na madrugada, a tendência é que seja tudo escuro no quarto dela, e a única percepção dela é: caramba, tô no meu quarto, tô acordado, só que meu corpo não me obedece. E aí, o que que tá rolando, cara?

O que que a gente tem nesse órgão maluco que a gente tanto discute por aqui para levar a pessoa a passar por uma situação como essa? Que cai entre nós, ela pode ser muito assustadora, sem dúvida alguma.

DDDoutor Diogo

E muito, Ivo. O que que acontece, para as pessoas entenderem? Existe muito, muita coisa mística em volta dos sonhos, tanto que os sonhos já foram interpretados, já foram tratados como sinais de premonição, etc., etc., etc. Mas basicamente, Ivo, quando nós dormimos, nós temos alguns receptores que são bloqueados. Por quê? Porque imagine que você esteja lá num sonho brigando com alguém e você começa a brigar de verdade dormindo.

Não faz sentido. Então, quando você tem um bloqueio desses receptores, a tendência do nosso corpo— eu digo tendência porque existem certas patologias, como os distúrbios do sono REM, por exemplo— é que você não se mexa, é que você fique paralisado. Então, você precisa ter uma paralisia durante o sono Tanto que quando você pega uma polissonografia, Ivo, de uma pessoa que tá acordada e uma pessoa no sono REM, a grande diferença que nós acabamos vendo nessa polissonografia é o que a gente chama de tônus muscular, que é uma atonia muscular na pessoa, basicamente uma hipotonia muscular na pessoa que tá em sono REM, enquanto você tem um tônus muscular preservado em quem tá acordado, porque a atividade cerebral é gigantesca naquele sono REM.

E aí, nesse contexto todo, o que que nós precisamos é que esse músculo não funcione. Mas tem pessoas que nessa transição entre o despertar, entre sair do sono REM e o despertar, tem um delay em liberar esses receptores. E aí a pessoa fica paralisada, mas claro que deixa ela muito, muito estressada, muito nervosa, ansiosa muitas vezes. E é isso que a gente vai falar hoje para explicar melhor como tudo isso ocorre, o que fazer.

IIvo

Boa! Vamos dar uma desmistificada nisso, cara. E muita gente aqui não vai gostar, né? E só voltar alguns episódios nossos, galera, vocês estão ouvindo a gente, é muito comum quando a gente trouxer para vocês aqui informações baseadas em ciência explicando como algumas coisas não funcionam, que algumas crenças de vocês sejam quebradas ou seja colocadas em xeque. E quando isso acontece, é normal que o cérebro de vocês fique reativo, do tipo: que merda vocês estão falando?

Não é assim que eu aprendi, não é assim que acontece. Ou simplesmente: não, isso não assim, a gente esquece toda a ciência por trás. Então uma coisa muito legal quando a gente fala em paralisia do sono, e que o Dr. Diogo tá explicando super bem aqui, é esse bloqueio de segurança que existe, né? Então basicamente, como o nosso corpo aí ele é controlado por várias regiões do nosso cérebro, nesse momento que a gente tem ali é circuitos que estão ali no tronco cerebral, mantêm os músculos ainda sob inibição para continuar esse bloqueio, já que você deveria teoricamente estar no sono REM.

Mas aí você resolveu sair desse sono por sua mera vontade incontrolada e passa a sofrer então do que a gente chama de paralisia do sono. Então não existe algo místico por trás disso, apesar de existir coisas assustadoras, e a gente vai falar um pouquinho disso aí agora. Então deixa eu puxar a botão de jogo de novo aqui, cara. A pessoa tá lá deitadona, madruga, ela não consegue se mexer. A gente sabe que é porque algumas regiões aí do nosso corpo não voltaram, não se conectaram com algumas regiões do nosso cérebro.

Só que existe o chamado cagaço, né? Aquele medo das pessoas, tipo assim, caramba, o que que tá acontecendo, cara? E a grande maioria das pessoas que a gente conversa, e essa que é a parte legal e engraçada e assustadora para essas pessoas também, é que todo mundo, ou 99%, fala que tem alguém com ele, né? Cara, tem uma sombra aqui, eu senti uma presença na hora que aquilo aconteceu. Então bastasse estar deitado, fodido, não consegue se mexer, não consegue fazer nada, Você tem certeza, cara, que tem alguma coisa do seu lado?

E a maioria das pessoas falam assim, cara, e era uma coisa ruim ainda. Que coisa, que coisa ruim é essa que tá dominando o corpo da pessoa, cara?

DDDoutor Diogo

Ali é, primeiro, Ivo, tem aquela, aquela coisa popular que acontece alguma coisa diferente, as pessoas já tendem a interpretar como sobrenatural. Já começa por aí. E isso não é crítica a ninguém, mas é uma questão do ser humano realmente. Nós temos uma necessidade de tentar uma explicação sobrenatural para tudo. Ah, o copo se moveu. Ah, com certeza foram espíritos que estavam aqui na minha casa que acabaram movendo esse copo. Pode ser que sim, pode ser que não.

Então não vou questionar a crença de ninguém, mas eu falo isso porque o nosso hipocampo ele acaba puxando memórias E são memórias que nós temos e que criamos durante a nossa vida. Então esse é o primeiro ponto. E aí tem que entender o seguinte, pessoal: quando nós estamos numa paralisia do sono, nós estamos numa situação de alerta, numa situação de nervosismo, numa situação de estresse. Nossa amígdala cerebral vai acabar sendo ativada, os nossos sinais de perigo também estão sendo ativados.

E aí, nesse caso, todas as interpretações que o cérebro tem ali ao redor dele, que estão ali vindo e voltando, e as informações que estão entrando e saindo do nosso sistema, elas estão um pouco alteradas por todo esse contexto. Quem aqui já não passou por uma situação de medo extremo que acabou vendo coisas que não existiam? Isso acontece. Então a pessoa, sei lá, é assustada por um cachorrinho pinscher do tamanho do de 10 centímetros.

IIvo

Usa outro exemplo, cachorro Pinscher, todo mundo sabe que é um demônio, cara. Mas esse é real, esse quando aparece é aquela brincadeira, né?

DDDoutor Diogo

O Pinscher só, o leão só não sabe que o Pinscher existe, senão ele dominaria a selva, né, cara?

IIvo

É muito isso, cara. Já vi o pessoal brincando que aquele cachorro de 3 cabeças teoricamente vigia os portões lá daquela região de baixo, né, para onde algumas pessoas vão. Ele é um descendente de Pinschers, na verdade, né? Alguma mutação genética fez ter 3 cabeças, mas assim, tudo começou no Pinscher, cara.

DDDoutor Diogo

Então não duvidamos, não duvidamos, cara.

IIvo

Olha só, ele está falando aqui, o que a gente tá vendo basicamente ali é meio que o cérebro que de repente ele vira um roteirista de terror, né?

DDDoutor Diogo

Isso aí, isso aí.

IIvo

Em resumo, é isso, pegar tudo aquilo que existe ali. Você tem pouca luz, está deitado, você não consegue se mexer, disparou amígdala. A região sul que você tava comentando agora, tempo parietal, faz com que você perceba ou ache que tem alguém ali perto do seu lado. E aí de repente, para ajudar, tem o barulho do ar-condicionado ainda, né, que tá mexendo. E aí aquele ventinho bate na cortina e a cortina mexe. Cara, nessa hora sua vida acabou ali, né?

Aquilo vai virar uma história de terror efetiva para você. Agora a pergunta é, cara, de você ficar com medo, disparar amígdala e disparar o coração e mudar a forma como você percebe as coisas, ok. Mas como que o cérebro pega coisas tão simples, cara, como, putz, mexeu a cortina, ele transforma já aquilo quase em uma pareidolia, né? Já vê uma imagem ali, aquela imagem de repente senta no peito dele porque ele não consegue respirar.

E a pessoa ainda fala, porra, tava lá, é real, sentou no meu peito, senti apertar no meu peito, não conseguia respirar. Vira assim realmente um filme de terror, né? Dá uma explicada para o pessoal entender ali. Cara, o que que é esse negócio que senta no seu peito? Por que você não consegue respirar, né? Por que você tá vendo alguma coisa? Por que que o ar-condicionado bate na cortina, a cortina mexe e seu cérebro já cria toda aquela loucura ali?

Como que você consegue assim, cara, dormindo em um estágio que deveria ser o REM ou resquícios de sono REM, transformar algo simples em algo tão elaborado, cara?

DDDoutor Diogo

Nós temos, e o primeiro, uma região do cérebro chamada ínsula, que ela trabalha com a interocepção. O que que é isso? É meio que um radar que fica olhando para o nosso corpo, como que ele está se portando. É por isso que aqui um exemplo também que é rotineiro do pessoal: você começa com uma náusea, tá ali com uma náusea, que está com uma náusea. A pessoa ela não só sente a náusea como ela entra em desespero, ela sai correndo porque ela pode vomitar, ela pode passar mal, ela não tá sentindo bem.

Então esses sinais que a ínsula joga para todo o nosso corpo, tem que interpretar várias regiões cerebrais, Eles também vão acontecer na paralisia do sono REM. Esse é o primeiro ponto. Então nós temos ruídos, nós temos sinais mal interpretados pelo cérebro, sinais incompletos, e esses sinais acabam sendo interpretados de uma forma errônea. É como eu tava dando o exemplo do cachorrinho lá, que do Pinscher, que a gente vê ele como um pitbull quando sai correndo.

Por quê? Porque no momento do estresse, no momento da daquela, daquela, daquele momento adrenérgico mesmo, que a pessoa tá ali com simpático ativado, ficando muito nervosa, ela vai ter uma falta de percepção em algumas coisas, só que ao mesmo tempo você também tá ali percebendo muito mais. É, vamos, vamos dar aqui um exemplo, Ivo. Por exemplo, imagine que você foi para praia, pegou aquele solão bom, aquela, passou aquela vergonheira que muitos já passaram de ficar completamente vermelho É, se queimou inteiro e não sei o quê.

E de repente você tá sofrendo aí, tá ficando pondo camisa dessa maneira, tá que nem um tá pendurado no cabide, que o pessoal chamava, né, naquela época terrível, né. Você com certeza vai perceber muito mais a camiseta tocando o teu corpo do que agora, que você não tá sentindo dor nenhuma. Tem o que a gente chama de uma alodinia, é uma percepção diferente. Então nós trabalhamos com o nosso cérebro dessa forma, com percepções diferentes diante de certos estímulos, diante de certos contextos que nós estamos.

E é por isso que há uma interpretação errônea de barulho de ar-condicionado, uma cortina balançando, você vê uma face por trás da cortina, você acaba achando que tem alguém te perseguindo em casa, e entre outros que acabam acontecendo de forma bem, bem notória, inclusive em transtornos como da esquizofrenia. A pessoa tem um delírio persecutório. Daí você vai ver a fisiopatologia da esquizofrenia, é uma pessoa que tem, por exemplo, um excesso.

Não só isso, tá, pessoal? Antes que alguém diga, o jogo está sendo simplório, mas tem, por exemplo, um excesso de dopamina. E aí a pessoa acha que tem gente falando com ela, dando voz de comando, etc., etc., etc. Boa!

IIvo

Então o que a gente tem, até para não desmerecer quem passa por isso, né, que o pessoal vem te rindo, deve ficar puto, já falar assim, é porque não é com vocês, né? Não sei com você, mas comigo já aconteceu muito isso, bicho, no passado. Então o que a gente vê na prática então ali, cara, já que o nosso cérebro ele sempre tenta antecipar tudo aquilo que acontece. Então é meio que, cara, tá deitado, tá escuro, a cortina dá aquela mexida, você não consegue mexer os músculos, parou a amígdala, região temporoparietal sua tá afetada, que vai te fazer perceber que de repente tem alguém ali.

A gente tem a ínsula trabalhando também, e de repente tudo isso ao mesmo tempo aumenta muito aquele medo, aquela sensação. E daí vem essa questão então da dificuldade para respirar. Então a gente pode falar, cara, tem alguém sentado no meu peito ali me apertando. E não é, né? Acho que é legal a gente explicar que assim, é uma resposta do seu corpo, né?

DDDoutor Diogo

Sim, sim, sim.

IIvo

Com muito medo, cara, adrenalina jorrando no seu corpo ali, cara, cortisol lá em cima, você vai ter dificuldade para respirar. E a gente tem ali então o mesmo cenário, né? A pessoa, o cérebro dela tá tentando antecipar algumas coisas correlacionando as crenças que ela tem, tudo aquilo que ela acredita, e transformando aquilo em realidade nesse momento. Ou seja, se você possivelmente assistiu um filme de terror e ficou aquele cagaço gigante, é bem possível que nessa hora você tenha certeza que aquilo que tava no filme exista na sua frente.

DDDoutor Diogo

É meio que isso, basicamente isso. E tem que lembrar o seguinte: pensem em vocês quando estão com muito medo. Ninguém respira. E a mesma coisa, você tá ali com medo gigantesco porque você tá numa sensação diferente, você tá uma paralisia do sono, parece que você ficou paralisado por completo. Então isso é bem, bem aterrorizante para pessoa que passa, tá?

IIvo

E cara, olha só, pensando aqui, algumas pessoas sabem, tem paralisia do sono, né? Sabe que aquilo vai acontecer com ela novamente, e ainda assim aquilo continua sendo aterrorizante para cacete para aquela pessoa. Então teoricamente, se é algo que o nosso cérebro tá controlando, eu sei, eu tô ouvindo podcast agora, hoje eu conheci por isso, eu sei que não tem nada sobrenatural, não tem nenhum espírito ali, ninguém tentando me levar para um disco voador, ninguém tá pressionando no meu peito, etc.

Por que que ainda assim, cara, mesmo tendo informação e sabendo porque isso acontece, isso continua sendo tão aterrorizante para as pessoas? Porque teoricamente, quando você fala do nosso cérebro, a partir da hora que você passa a ter conhecimento, você gerencia melhor as coisas. E por que que paralisia do sono é diferente, cara? O que que rola ali que mesmo o conhecimento não tá ajudando a pessoa a resolver e não passar mais por isso?

DDDoutor Diogo

Pois é, em primeiro lugar, Ivo, com o passar do tempo a pessoa sim, ela consegue interpretar de uma forma um pouquinho mais tranquila, ela consegue se controlar melhor diante da paralisia. Isso ela acaba melhorando com o passar do tempo. Não cessa o medo porque pensa o seguinte, vamos lá, é uma pessoa que tem medo de altura, eu posso até dessensibilizar ela levando ela para lugares mais altos, mostrando que não tem aquele perigo como ela acha que tem.

No entanto, ela não vai perder aquele medo se ficar repetindo as experiências, ela vai ter ainda medo de altura. E como a paralisia do sono é algo muito traumático, que a pessoa realmente não consegue se mexer, ainda é uma experiência que tem quesitos de terror. Ela fica aterrorizada por não se mexer e também associado, como eu disse, à nossa cultura. A gente fala sobre filmes de terror, a gente fala sobre crenças, a gente fala sobre ritos, a gente fala sobre sinais e sintomas de possessões e coisas assim.

E aí, claro que o que vai acontecer é que o nosso hipocampo, guardando tudo isso, vai chegar lá e vai: ah, beleza, você tá tendo isso, lembra que você viu naquele filme de terror que a pessoa foi enfeitiçada, não sei o quê? Inconscientemente joga para pessoa e ela entra em desespero. Pronto, estou enfeitiçada, estou ali possuída, alguma coisa assim. E aí, nesse contexto, também é um motivo para que não cesse tão rapidamente esse medo.

IIvo

Ô Diogo, agora deixa eu voltar em um ponto aqui que ele é simplesmente importante também, até para o pessoal não achar que de repente, pô, vocês estão ridicularizando a minha crença em algo. Não, a gente tá falando de ciência, né, aqui do que acontece efetivamente no corpo das pessoas. E acho que prova disso é que se a gente pegar uma pessoa que tem paralisia do sono, essa pessoa, sei lá, ela mora em uma tribo indígena, ela vai ver uma coisa diferente.

Com certeza, uma pessoa no Ocidente ela pode ver outra coisa. Então a gente tem pessoas aí que vão, sei lá, achar que estão sendo abduzidas, outras vão ver um ET, outras vão ver um diabão, outras pessoas vão ver, sei lá, a sogra, no meu caso, né, querendo levar ele embora naquela noite lá. E vai muito de cultura, né. Então o que a gente tem basicamente é uma experiência universal e uma narrativa que muda de acordo com aquilo, com as suas crenças, né.

Acho que isso é legal. Tá boa. E se a gente fosse levar para um lado agora de, beleza, eu sei que a paralisia do sono, eu sei o que ela acontece, eu sei que é uma falha, ou seja, eu tomei consciência antes que meu corpo efetivamente devolvesse para mim tudo aquilo que é necessário, como a gente falou lá no começo. Mas deve ter algum momento, algumas pessoas que têm que procurar também alguma investigação médica, não? Sei lá, quando isso começa a ficar muito frequente.

Ou a pessoa diz, ah, isso para mim virou comum, que acontece demais da conta. Tem algum limite aí, cara, que as pessoas que passam por isso fala, pô, nesse limite então deveria me preocupar um pouco mais?

DDDoutor Diogo

Eu sigo sempre assim, Ivo, e é o que é o recomendado, que você, se tem um episódio isolado, não se preocupe tanto, comece a descansar melhor, comece a dormir melhor, comece a ficar mais tranquilo e tranquila. Agora, se tá tendo repetições de paralisia do sono, é interessante fazer uma polissonografia, pesquisar se não há uma narcolepsia, se não há outra parassonia envolvida. Então a gente acaba alimentando um pouco essa investigação em determinados casos, mas normalmente, pela minha experiência, a gente não acha tanta coisa.

Não é uma coisa tão comum de ser achado algo patológico, por exemplo. Então o pessoal pode ficar até tranquilo e tranquila que não é uma coisa maligna, vamos dizer assim, que é uma palavra que a gente não gosta de usar, mas realmente é uma coisa que te traz estresse, mas talvez não é maligna.

IIvo

Não é maligno porque não acontece com você, né?

DDDoutor Diogo

Porque para as pessoas, graças a Deus, não aconteceu, nunca tive isso, cara.

IIvo

Será? Você conhece alguma informação sobre isso acontece mais com adolescentes do que com pessoas já na fase adulta? Já viu algo assim, cara? Curiosidade.

DDDoutor Diogo

Não, não vi. Nunca vi faixas etárias, e sendo bem sincero, não me lembro de ter lido sobre, né? Mas tem muita gente, especialmente quando ela tá privada de sono, estresse, horário bagunçado, pode acabar precipitando paralisia do sono. Então provavelmente pacientes mais jovens que durmam mal, que estejam ali estressados, então estão ali no mundo corporativo, no mundo da saúde, dormindo mal e coisa assim, talvez seja mais fácil ter paralisia do sono que outras faixas etárias.

IIvo

Inclui-se adolescentes então, né? O cérebro não tá pronto, estresse com estudo. Perfeitamente. Boa. E olha só, cara, pensando aqui no pessoal que sofre com isso, que nunca passou por isso, de repente isso acontece. O que fazer, né? Putz, assim, eu tenho conhecimento, isso ajuda muito já. E aí aquilo aconteceu, para onde eu corro, cara? Aliás, para onde eu corro não, né?

DDDoutor Diogo

Porque você não vai correr.

IIvo

Para onde essa pessoa direciona o pensamento, já que vai ser a única coisa que ela tem naquele momento que pode ajudá-la? Dá para falar um pouquinho de alguma dica legal, do tipo, pô, aconteceu, tenta fazer isso?

DDDoutor Diogo

Vamos lá, primeiro reconhecer que aquilo é uma coisa temporária. Se você já sabe, não, calma, isso é uma coisa temporária, para que você não transforme essa sensação em vir catástrofe. Porque no momento em que você transforma isso em catástrofe, tudo dispara. A tua amígdala vai sinalizar para o teu sistema nervoso autônomo simpático de que tá tudo errado. Taquicardia, taquipneia, que é uma aceleração respiratória, desculpe, é uma aceleração da respiração.

Então tudo isso vai acontecer e aí vai desencadear mais ansiedade, mais estresse, e aí fica pior ainda, tudo fica pior ainda. Você pode levar a tua atenção para uma imagem, tem pessoas que gostam de rezar, que gostam de pensar numa frase, que gostam de respirar mais tranquilamente, depende de como você se sente bem, e evitar aquela briga tentando contrair os músculos de forma forçada. É respirar, ficar tranquilo e tranquila, pensar numa frase e tentar levar isso da melhor forma possível, porque aí sim você vai conseguir vencer a paralisia do sono de uma forma mais natural.

IIvo

Cara, você tá falando, eu tô pensando aqui, acho que tem um pouco do conceito da meditação nesse meio também aí, né? Porque muita gente quando tá meditando e não consegue meditar, não consegue, enfim, se colocar em estado base, em um estado mais tranquilo, muitas vezes a principal razão geralmente que a pessoa tenta brigar com o cérebro, né? Tipo, eu sou mais forte, eu vou conseguir. E na meditação, cara, a partir da hora que você decide brigar com o cérebro, tá errado.

Alimentar quimicamente tudo que você não queria e mudar totalmente as conexões. Acho que tem um pouco disso também, né? Não tentar falar, ah, eu tenho um superpoder, eu sou mais forte, eu vou conseguir dominar. Você tem meio que caminhar junto, né? Acho que está o core na meditação. Quando você aprende a caminhar junto, facilita demais. Então, acho que essa questão que você falou é bem legal agora, porque eu tenho informação, eu reconheço, eu sei o que está acontecendo.

O que eu tenho que fazer é, de repente, levar o foco para a respiração, tentar trazer algo feliz que eu fique confortável na minha cabeça. Para que a amígdala então não dispare e aos poucos comece a ter um controle melhor, né? Acho que é bem similar o conceito nesse ponto aí.

DDDoutor Diogo

É isso mesmo, Ivo, isso mesmo. E aí a pessoa ela consegue fazer um certo controle, e aí a tendência ela conseguir não se abalar mais tanto por causa disso.

IIvo

Boa. Menos se for a minha sogra ali, cara, não tem respiração, meditação que—

DDDoutor Diogo

no way, no way.

IIvo

Olha só, É brincadeira, Dona Josefina. Eu sei que você ouve a gente todos os episódios aqui.

DDDoutor Diogo

O Ivo te ama, Dona Josefina, então pode ficar tranquila. É verdade mesmo.

IIvo

Vamos voltar para cá. Deixa eu falar um pouquinho agora que a gente conseguiu dar uma, acho que uma repassada legal na paralisia do sono, porque apesar de tudo que acontece, é meio que simples explicar, né, o que tá rolando por trás ali. E eu queria trazer algo que é interessante para caramba também, cara, que membro fantasma. Aí a bola quica mais embaixo, né? Fica um pouco mais difícil, porque, pô, a gente tá falando de alguém que sente coceira, né?

Que sente dor, que sente o aperto, sei lá, em uma mão que ela perdeu, em um pé, que uma perna que ela perdeu. E aí, bicho, o que que tá acontecendo com esse cérebro para ele conseguir chegar nessa parte do corpo que não existe mais? Manter aquele mapa ativo e ainda explorar aquele mapa e fazer coçar e fazer doer.

DDDoutor Diogo

É que na verdade o teu cérebro ele ainda tem as coordenadas. Lembra daquele jogo Batalha Naval em que você— então a gente que é mais velho vai lembrar, jogava bastante Batalha Naval. E é mais ou menos assim, você pode ter a coordenada que for, se você vai acertar o barco, acertar a bomba ou acertar o navio, não sabemos, Ivo, não sabemos. Mas o teu cérebro não vai perder o mapa do teu corpo porque você perdeu um membro. E é por isso que a pessoa às vezes perde, por exemplo, um dedo, perde uma mão, ela vai sentir a mão, ela vai sentir aquele dedo.

E aí não é uma invenção, não é coisa da cabeça da pessoa no sentido de algo falso, como as pessoas acham. Não, a pessoa tá fingindo aquilo. Não, é uma experiência corporal que ela é real. Ela é criada por um cérebro que ainda continua esperando sinais de uma parte do corpo que já não pode mais enviar aqueles sinais de maneira habitual, ponto final. E aí é tempo, né?

IIvo

Mas deixa eu jogar, dar uma apimentada aqui agora, cara. Cabeça começa a dar uma fervilhada por aqui, né? Porque assim, a gente fala muito sobre neuroplasticidade, sobre economia de energia, né, economia de ATP, cara. Teoricamente, e aí que é legal o cérebro, né, que você vê que a gente não sabe nada sobre isso ainda, cara. Por mais que a gente Teoricamente, se uma pessoa por uma infelicidade perde, sei lá, uma mão ou perde a parte de baixo da perna esquerda, por exemplo, teoricamente o cérebro deveria podar algumas conexões do tipo: cara, isso aqui não existe mais, eu sei que aconteceu a cirurgia.

Então ele deveria podar aquelas conexões e fazer um ajuste no mapa que para ele seria relativamente tranquilo. Agora, o que a gente está vendo é quase que existe um corpo guardado dentro do cérebro ali, né, cara? O órgão não existe mais, aquele, aquela região, aquele pedaço ali do corpo não existe mais, e o cérebro continua controlando, cara, ele continua mantendo aquilo ativo. E é meio doido isso, né? Porque se a gente fosse olhar em termos de economia de energia, que a gente discute tanto, neuroplasticidade, o cérebro deveria redirecionar as conexões, né, não continuar com elas ali.

Mas ele não só não faz isso, como ele mantém a dor, né? Como mantém, porra, coceira, cara. Isso é muito doido.

DDDoutor Diogo

Eu vou explicar uma coisa para vocês, para que vocês entendam melhor como funciona o sistema. Para, veja só, Ivo, o cérebro, nosso tema, na verdade, ele é tão louco, tão, tão surpreendente, que é pensar da seguinte maneira: nós temos músculos, mas quem percebe a posição do nosso corpo é um sistema que não é o muscular. Entendem essa lógica? Tinha uma doença, falo que tinha porque graças a Deus nós não vimos tanto, que se chamava neurosífilis, que é a fase terciária da sífilis.

Nós não temos mais tanto porque graças a Deus temos tratamento hoje para sífilis, é pegar no começo, demora décadas para desenvolver neurosífilis. Mas a neurosífilis, ela destruía bem o funículo posterior da nossa medula. E nós temos uma condição chamada propriocepção, que é na verdade você saber a posição do teu corpo. E essa posição, ela é basicamente coordenada por sistema vestibular, posição da cabeça, é coordenada por visão.

Então alguns pacientes, quando você pedia para fecharem os olhos, não conseguiam ficar em pé, para ver quão louco é esse sistema quando ele tá com problemas. Porque eu faço a minha posição de equilíbrio estando de olhos abertos e tendo sistema vestibular que tá presente. Aquela brincadeira que todo mundo fazia quando era criança de girar no próprio eixo e ficar brincando de ir para um lado e para o outro, isso demonstra como você não consegue mais se controlar quando você perde o teu sistema vestibular.

Por exemplo, você fica ali mexendo, girando no próprio eixo. E aí, esse é o ponto que eu quero chegar com vocês quando fala de membro fantasma. O cérebro, com o passar do tempo, ele vai entender que não há mais aquela mão, talvez, mas essa conexão ele sempre existiu. Então é uma economia, na verdade é uma economia de energia manter aquela conexão, porque ela tá há anos, anos e anos ali. A falta de economia de energia é ele pegar, não, beleza, agora vou destruir uma conexão inteira porque eu perdi uma mão.

IIvo

Tem sentido.

DDDoutor Diogo

Então, com o passar do tempo, sim, a fisioterapia vai treinando. A gente vai falar daqui a pouquinho sobre a técnica do espelho. Você vai melhorando a postura do próprio paciente, prótese, etc., e o cérebro vai entender que ele perdeu aquele membro, que ele não tem mais aquele membro como tinha antes. Agora, nesse exato momento que a pessoa perdeu, ele ainda não tem essa noção e não perdeu essa conexão. É por isso que ele vai acabar ficando com essas sensações: contração muscular, coceira, dor, etc.

IIvo

Tá, ficou super claro agora, cara. Mas deixa eu pegar um outro ponto aqui. Aí a gente tá falando da percepção, né? Aquilo sempre existiu. Então o cérebro mantém aquele mapa ativo, economia de energia, porque não precisa mudar nada, ele continua ali. Agora, e se eu pegar a dor, cara, será que a questão— e dizem que algumas pessoas sentem uma dor terrível, né?

DDDoutor Diogo

Tipo, pessoas horríveis.

IIvo

Se eu tô pensando, me baseando no que você falou aqui agora, tá? Se eu tô pensando que aquela pessoa sofreu uma amputação e ela seccionou ali alguns nervos, será que mesmo pessoa estando anestesiada, aquela amputação, no momento que ela aconteceu, os nervos seccionados ali, eles estão disparando sinais anormais que podem deixar umas regiões mais sensíveis e com isso criar a sensação de dor. Aí estamos falando de tálamo, de medula, enfim, o próprio córtex.

Eles ficam mais sensíveis, mais receptivos a esses sinais dos nervos seccionados. Será que é isso que provoca essa dor? Porque eu não consigo imaginar algo que seja diferente para explicar uma dor em algo que não existe, né?

DDDoutor Diogo

Exatamente, também é, tá? Também é. Não é só isso, mas você tem ali uma bagunça do sistema nervoso central que vai acabar mandando sinais e não recebendo de volta sinais. Então essa bagunça ajuda. A pessoa pode ficar em posições viciadas, pode parecer estranho, mas ela fixou como se ela tivesse com a mão fechada. Isso faz uma contração muscular em outros grupos musculares que ela tá no braço, antebraço, por exemplo, e faz ela sentir dor por essa contração exagerada.

Então são várias questões que podem acabar gerando para pessoa uma sensação incompleta, uma sensação desconfortável. O cérebro, ele estranha essa incoerência, mas no membro fantasma essa incoerência ela vai envolver o próprio corpo e pode durar muito tempo. Então é isso que é o problema, tá? Isso que gera problema para pessoa.

IIvo

Então, baseado no que você tá falando aqui, cara, Quando alguém ouve de uma pessoa que não tem ali parte do corpo, que aquela pessoa tá com muita dor, é meio que, aliás, meio não, é errado dizer então que aquilo tá só na cabeça da pessoa, né? Do tipo assim, cara, não existe mais, isso tá só na sua cabeça. O que a gente tá vendo ali efetivamente são as conexões acontecendo, o sistema de dor sendo estimulado, a região do cérebro que aonde a dor grita ali efetivamente tá sendo estimulada, tá muito ativa. É isso, né? Não dá para falar então, ai, coisa da sua cabeça.

DDDoutor Diogo

Até porque quem sente dor é o cérebro, não é o membro. Então todos nós aqui, quando você vai lá e faz aquela famigerada batida do dedinho na quina da cama assim, você chora de dor. Se você tira toda a inervação que se conecta ao sistema, inevitavelmente você não vai sentir. Pergunta para um diabético, por exemplo, quando ele tem aquele pé diabético que ele perdeu a inervação, que ele fez uma polineuropatia. Se ele sente o pé dele machucar, não vai sentir tão bem quanto os outros.

Por quê? Porque ele perdeu aquela conexão. Só que ele continua tendo o pé se machucando, ele continua tendo infecções ali no pé e não tendo tanta dor, etc. Ele vai acabar sentindo isso, desculpe, vendo isso, que ele tá, que as coisas não estão indo bem, que as coisas estão indo com problemas. No entanto, ele não sente mais dor como uma pessoa porque aquela via de conexão tá falhada, ela tá destruída. Só que nesse caso do membro fantasma não é assim.

A pessoa não tem o membro, mas aquela via que levava a noção de dor para o cérebro ainda existe. E aí aquela pessoa vai sentir dor. Então realmente assim, não é uma dor que a pessoa finge, não é uma dor criada por psicologia, por questões psicológicas. É uma dor que ela é verdadeira porque o cérebro está sentindo dor. Ele sente aquele movimento, ele sente aquela mão fechada, e aí isso gera um desconforto.

IIvo

Uau, caramba, cara! E se a pessoa, imaginando aqui, né, conhecendo um pouco de como o cérebro funciona, quando a gente consegue trazer mais informação e mostrar algo para ele, fica mais claro de conseguir chegar alguns resultados ou direcionar alguns resultados. E se aquela pessoa que não tem a mão ou o pé Na hora daquela dor absurda, ela vai para frente de um espelho e permite, cara, que o cérebro receba ali os impulsos visuais, bate lá no córtex visual dela, fala aí lá no occipital, fala beleza, tô sentindo dor como se não tá aqui, sério, perceba, não tá ali, não tem nada ali, para com essa dor.

Dá para enganar, cara? Você acha? Quando eu trago consciência para ele, eu faço alguma coisa?

DDDoutor Diogo

Tem um episódio do House, mas o House é o House, né?

IIvo

Então não dá, cara. A gente não pode, acabou, não tem, né, cara?

DDDoutor Diogo

E que ele resolve um vizinho chato dele lá que tinha um membro fantasma em uma sessão só, que ele coloca um espelho lá e pede para ele abrir a mão, e numa sessão ele resolve já. Mas não é bem assim para no mundo real, tá? Você acaba tendo que fazer várias sessões, como fisioterapeutas fazem. O que acontece, não sei se alguém aqui já viu aquela experiência que eles põem uma mão de borracha e fazem um esquema com espelhos que parece que estão dando uma martelada na tua própria mão.

Bizarro, é bizarro, cara. Todo mundo tira a mão, mesmo sabendo que vai ter que ter uma mão de borracha ali, que é onde ele vai dar uma martelada. O cara faz ali um pulo para trás quando isso acontece.

IIvo

Isso é pessoal, né?

DDDoutor Diogo

Porque assim, exatamente, exatamente. E aí é isso que ocorre, basicamente. Eu pego um membro que ainda existe, eu faço ele num espelho Nisso de haver um reflexo, o cérebro começa a entender que nós temos ali duas mãos, dois braços. E aí você pede para a pessoa: olha, abra a tua mão e feche bem devagar. Agora você relaxou. Isso gera para o cérebro um sinal. Esse sinal é interpretado como relaxar, como abrir uma mão. E pronto. Com o passar do tempo, você faz treino em cima de treino e a pessoa acaba melhorando, acaba ficando com bem menos dor do que tinha antes.

IIvo

Cara, isso é muito legal. É meio que se fosse pegar essa ideia, né? Quando você consegue mostrar, o cérebro consegue ver aquilo, tenta mover e vê que não mexe, e tenta sentir, e de repente tá vendo que não existe mais, os processos se conectam e ele começa meio que a redesenhar os caminhos. Então seria mais ou menos isso, né?

DDDoutor Diogo

Sim, sim, sim.

IIvo

Deixa eu atualizar agora sim, atualizar esse mapa aqui, porque eu tô vendo que isso não existe, então não tem muito sentido. Agora, sabe o que é muito legal? Eu queria puxar um pouco para cá, cara. Realidade virtual, porque a gente tem visto cada vez mais aí, e agora com a IA eu imagino que a gente deve em algum momento ter um boom também, daquelas próteses, né, que a pessoa coloca e aí ela pensa e a prótese se mexe. E eu sei que utilizam muito realidade virtual para isso aí também, né?

Então coloca aquele óculos na pessoa ali para que ela consiga fazer, que o músculo responde. Dá para falar um pouco de como isso acontece, cara? Que isso é uma coisa super legal e interessante, né? Tipo, cara, o seu membro não existe, colocaram uma prótese, e aí você vai treinar o seu cérebro, condicionar para aquela prótese responder a quando você pensa também. Pô, isso assim, eu acho demais isso, cara. Seria muito legal se pudesse falar um pouco aí.

DDDoutor Diogo

Eu tô rindo aqui porque eu lembro de um senhor que colocaram um óculos de realidade virtual nele e o cara quebrou a televisão, cara.

IIvo

Então O senhor é meu sogro, para quem tá vendo o jogo da risada aqui. Colocamos ele para remar em um lago, ele começou a remar o caiaque muito fortemente. A hora que ele levantou, ele foi apoiar as duas mãos no caiaque, o caiaque não existia, e ele infelizmente sofreu uma quase fatalidade. A minha televisão sofreu uma fatalidade porque 90 polegadas, se, cara, é uma TV pequena você entende, mas assim, 90 polegadas, cara, Quase deu para ver o sinal, sabe, fazendo assim de cava de ponta a ponta na TV.

DDDoutor Diogo

Então aí pronto, respondeu a pergunta, cara.

IIvo

Digna do Diogo foi sobre a história do meu sogro. Muito bom, daqui a pouco você vai mostrando aí quem você é.

DDDoutor Diogo

Vamos lá então, vamos mudar, vamos mudar um pouquinho de assunto aqui.

IIvo

Para da risada, me explica isso, cara.

DDDoutor Diogo

Mas não, mas essa é essa realidade, ele já mostra, já responde pergunta, porque o cérebro ele não vai conseguir interpretar o que é real, que não é nesse contexto ali. Então o que que a gente vai ver? Se, por exemplo, se eu consigo construir uma mão virtual para uma pessoa que perdeu aquele braço e eu consigo dar comandos para elas entre abrir e fechar e relaxar e fazer movimentos, o meu cérebro ele vai acabar ficando acostumado com aquilo e ele vai dar um sinal para o músculo relaxe, o músculo relaxa Então eu consigo com essa tecnologia dar um conforto enorme para pessoa.

Então é por essa razão, Ivo, que a pessoa vai conseguir utilizar às vezes uma realidade virtual para melhorar muita coisa na vida dela. Inclusive, não sei se vocês sabem, mas tem pesquisas bem avançadas para colocar a realidade virtual em UTIs. A pessoa fica, por exemplo, numa UTI acordado, para ela, nossa, vem delírium, vem um monte de problemas, vem depressão. A depressão que ela já tinha desencadeia mais ainda. Pessoas com Alzheimer pioram da demência quando estão internadas.

Eles estão testando colocar, por exemplo, um ambiente de praia, um ambiente de tranquilidade, e por incrível que pareça, está dando certo. Está dando certo da pessoa melhorar bastante esses componentes.

IIvo

Caramba, pô, isso aqui daria um outro podcast agora, né? Porque com certeza, imaginando o que acontece no cérebro com estímulo diário de você dentro, sei lá, de uma praia, de um lugar super específico, E aí de repente você volta à realidade, aquilo não acontece, e de repente você vai para lá de novo. Será que, só pegando um gancho aqui, isso não pode criar uma tendência do cérebro querer ficar ali no virtual, cara, e não mais aqui no físico?

DDDoutor Diogo

É de se pensar, é de se pensar. E não só isso, Ivo. Imagine você que fica scrollando Reels aí o dia inteiro, só com notícia que o algoritmo manda, por exemplo. A pessoa vive naquela bolha dela. E vive naquilo. Então não consegue sair daquela bolha realmente. É, e a gente sabe que, por exemplo, televisão, algoritmos, é notícia de crime, é golpe, é pegadinha, é isso. Então enfim, dá outro podcast realmente essa conversa.

IIvo

Boa, ô Diogo. Deixa aí para uma última, uma última pergunta aqui agora, porque eu acho que a gente conseguiu dar uma geral boa aí na questão do membros fantasma. E também da paralisia do sono, né? Depois, pensando aqui, cara, e depois que acontece a amputação? A gente sabe já o que vai acontecer com relação aos nervos que foram seccionados, sinais que vão continuar chegando no cérebro, etc., né? Mas tem um desafio aí que não é só questão do fazer a pessoa viver com essa dor, né?

Tirar a dor da pessoa é meio que, cara, tem quase que reaprender a viver em um corpo diferente, que vai afetar equilíbrio, vai afetar muita coisa para ela. Onde que entra aqui, cara, identidade, autonomia e até a compaixão nessa conversa do cérebro?

DDDoutor Diogo

É que isso na verdade é um luto. Quando você perde um membro, quando você sofre um acidente, deixa esse membro não funcional, isso dali vira um luto para pessoa, porque muda para ela questões sexuais, questões físicas, questões psicológicas. Ela não— vamos supor que você, isso vai marcar um encontro com uma pessoa, Você é solteiro, solteira, e marca um encontro. Dá uma insegurança maior, principalmente no começo, quando ela tem ali uma falta de uma mão, ou usa uma prótese, ou ela tem uma falta de uma perna.

A gente sabe isso. Então esse luto, esse costume, acaba gerando para ela um estresse naquele exato momento. E aí que vem essa compaixão da gente tentar ajudar a pessoa, não ser apenas gentil com ela, Mas entender que ela perdeu às vezes aquele pedaço para que aquele todo ficasse, para que ela ainda existisse, para que aquele cérebro inteligente ainda existisse e ajudasse muitas pessoas, ajudasse ela mesma, ele mesmo. Então essa mudança de paradigma de pensamento que vai acabar ajudando a superar esse momento e a conseguir vencer uma perda Que é uma perda bem pesada, inclusive, que é perder um membro e modificar quase toda a tua vida por causa disso.

É algo que se torna muito diferente. Imagina alguém que é destro perder uma mão direita. Como que as coisas vão? Como que as coisas serão agora? Vai ter que aprender a escovar os dentes com a mão esquerda, a usar talher com a mão esquerda, amarrar o tênis com apenas uma das mãos. E aí vem nossas queridas colegas e colegas que são terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos que vão trabalhar muito, muito bem nessa área. Vai ser muito legal trabalhar nessa área.

IIvo

E esses casos, pelo que você tá falando aqui agora, também a gente consegue ver ali de forma direta um aumento no risco de depressão, de ansiedade e etc. também, por conta— imagino que sim, né?

DDDoutor Diogo

Sim, sim, sim. Até porque, veja aí, não é nada simples uma pessoa perder um membro. Então ela vai se sentir mais insegura, ela vai se sentir mais desesperada. Se ela era uma pessoa que tinha uma profissão que dependia daqueles dois membros, vai fazer o quê? A pessoa tocava violão, tocava guitarra, é, a pessoa trabalhava numa linha de produção de fábrica ou operava, como que ela vai trabalhar agora? Então claro que depende muito da situação de cada um, mas nos contextos gerais, sem dúvida alguma, aumenta muito o quadro de ansiedade, depressão, Perda de prazeres.

IIvo

Caramba, uau! Bom, acho que é isso, né? Você já contou aí, já queimou a imagem do meu sogro aqui hoje. Acho que tá na hora de encerrar esse podcast. Minha sogra pode, meu sogro não, senão é um problema, bicho. Aqui, galera, para vocês que estão ouvindo a gente, tentei falar um pouquinho aqui hoje sobre paralisia do sono e sobre membro fantasma aqui com o nosso incrível Doutor Diogo também, que apesar de ser assuntos diferentes, já que um acontece na calada da noite, naquele momento que você menos espera e te leva quase que a agonizar durante alguns minutos.

O outro acontece depois de uma perda enorme, né? E eu acho que é muito interessante trazer essa curiosidade para cá, porque a gente consegue perceber que a gente não tá simplesmente vivendo dentro de um corpo pronto, né? O cérebro, ele monta o tempo todo as sensações, aquilo que tá acontecendo ao nosso redor, ele mapeia, remapeia, ele muda. E acho que isso é uma coisa muito legal, porque mostra o potencial que a gente tem, inclusive para conseguir olhar para aquilo que a gente tá passando agora e querer mudar de verdade, né, como as coisas acontecem.

Então Bom, pô, Diogo, obrigado, cara, pelo papo de novo aí. Para vocês que estão ouvindo a gente, esse foi o Podcast Celebrando, aqui comigo, Ivo, Doutor Diogo. Vocês nos encontram lá nas mídias sociais, streamings e etc., e website e tudo mais, no @podcastcelebrando ou lá no ibrace.org também. Deixo com vocês aqui agora, Doutor Diogo, para fazer o fechamento. A gente se fala daqui a alguns dias. Valeu, gente! Jogão com você, cara.

DDDoutor Diogo

Muito bom, meu amigo Ivo, muito bom mesmo. Pessoal, muito obrigado pela presença mais uma vez. Para vocês que nos ouvem, nos assistem, deem seu like, por favor, curtam, comentem nosso episódio, pois assim mais episódios como esse virão em sequência. E agradecemos pela imensa audiência que tem nos mandado mensagem, que tem feito comentários muito positivos. E essa nossa tendência que a gente queira alimentar em vocês curiosidades, conhecimentos, e esses conhecimentos possam ser usados no dia a dia, e que mais assuntos interessantes como esse venham à tona para que as pessoas hoje consigam ocupar o próprio tempo com coisas interessantes e não perdendo tempo com coisas vazias.

Então, nosso muito obrigado mais uma vez. Valeu, Ivo, e valeu a todos que nos assistem, nos ouvem, e até o próximo episódio.

IIvo

Obrigado, valeu, gente!

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