T5 E21 | DEPRESSÃO NÃO É SÓ FALTA DE SEROTONINA | A NEUROCIÊNCIA POR TRÁS
E aí, tudo bem?
Fala pra gente, você acredita que depressão é só falta de serotonina? Frescura? Falta de uma enxada e um lote? A neurociência tem uma história muito mais complexa, e mais assustadora, para contar. 🧠
🔔 Episódio está super legal, mas antes de ouvir já segue a gente por aqui e aproveita pra deixar aquela constelação com 5 estrelas 🔔
Neste episódio mergulhamos fundo no que realmente acontece no cérebro de uma pessoa deprimida: atrofia do hipocampo, inflamação cerebral, redes neurais travadas e muito mais.
O que você vai aprender neste episódio:
- Por que a teoria da "falta de serotonina" é incompleta, e o que a ciência diz hoje
- Como a depressão crônica pode encolher o hipocampo em até 10 a 15%
- Por que a depressão não é fraqueza, é uma condição médica com base neurobiológica
- A dificuldade de diagnosticar depressão sem biomarcadores definitivos
- Por que transtornos como o bipolar podem levar 10 a 15 anos para serem diagnosticados corretamente
- Como a inflamação, o intestino e o estilo de vida afetam o cérebro deprimido
- Novos tratamentos: psilocibina, cetamina e neuromodulação
💬 Quer ir direto ao ponto? A gente te ajuda:
0:00 — Introdução: O mito da serotonina
3:00 — O que realmente causa depressão no cérebro
7:30 — Atrofia do hipocampo: o cérebro encolhe?
12:00 — Amígdala hiperativa e o alarme que não desliga
16:30 — Depressão como doença inflamatória
21:00 — O eixo intestino-cérebro e a saúde mental
25:30 — Default Mode Network: o loop da ruminação
30:00 — Novos tratamentos: psilocibina e cetamina
34:30 — Anedonia: quando o cérebro perde a capacidade de sentir prazer
38:00 — O desafio do diagnóstico — anos de espera
42:00 — Protocolos práticos para proteger o cérebro
46:00 — Considerações finais
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Ivo
Diogo Nunes
- Tratamentos e Medicamentos· SaudeConsumo Acidental de Psilocibina·Cetamina·Neuroplasticidade·Receptor 5-HT2A
- Teoria das Monaminas e a Hipótese da Serotonina· CienciaTeoria monoaminérgica·Serotonina
- Dopamina e Vício· SaudeDopamina·Circuito de recompensa·Perda de prazer
- Atrofia do Hipocampo na DepressãoHipocampo·Cortisol
- Doenças Neurológicas· SaudeEixo intestino-cérebro·Microbiota intestinal·Citocinas pró-inflamatórias
- Diagnóstico psiquiátrico· SaudeBiomarcadores·Escalas de avaliação·Transtorno Bipolar
- Ruminacao MentalDefault Mode Network (DMN)·Loop de pensamentos negativos
Fala, gente, bem-vindos ao Celebrando. Estamos na temporada 5, episódio 21. Aliás, no último episódio eu falei temporada 5, episódio 19, e não era, era o 20. Então fica aqui a correção, estamos no episódio 21 e hoje a gente vai falar sobre uma coisa que todo mundo conhece, mas quase ninguém tem direito. Depressão. A gente ouve muito a galera falar por aí, a depressão é falta de serotonina. Alguns dizem que é falta de serviço, alguns dizem que é frescura, outros dizem que é exagero.
Enfim, neurologia e neurociência estão aí para explicar isso para gente, literalmente mostrar que a depressão ela encolhe literalmente ali partes do nosso cérebro e altera a forma como nossas redes neurais estão funcionando. Então, para isso, nada melhor para bater um papo explicar sobre isso do que falar aqui com o nosso Dr. Diogo Nunes. E aí, Diogo, como é que tá?
E aí, amigo Ivo, tudo bem? E aí, pessoal, sejam muito bem-vindos e bem-vindas mais uma vez ao podcast Celebrando. E hoje a gente quer dar um— a gente já fez alguns episódios, Ivo, sobre depressão, sobre ansiedade, sobre saúde mental no geral, mas a gente quer talvez trazer um pouco mais de fisiopatogenia, como essa doença, como esse transtorno afeta o nosso cérebro. E também a gente vai querer trazer algo, a gente vai trazer na verdade algumas curiosidades, principalmente sobre um tema que tá sendo muito falado na mídia, que é a psilocibina, que é uma classe talvez nova de medicamentos.
Até porque uma gigante da indústria essa semana soltou uma nota que vai investir pesado nesse novo medicamento. Falaremos um pouco sobre isso. Será que tem evidência? Será que é mito? Será que não é? Vamos lá, Ivo!
Bora, vamos nessa, cara! Vamos começar falando um pouquinho sobre mitos aqui, já que neurociência tá cheio por aí, né, de mitos sendo criados na internet, principalmente. Quase nada. É muito comum de ver as pessoas falarem que a depressão ela é causada por baixa serotonina, né? A gente tem quase que um dogma aí que tá por décadas batendo em cima disso, mas a história é um pouco diferente, né? A gente sabe que tem vários estudos derrubando já isso hoje.
E eu queria que você explicasse um pouquinho para a galera entender aí o que que a gente sabe realmente sobre depressão hoje, como ela é causada no nosso cérebro, cara. O que que tá além da serotonina? Bora dar uma destrinchada nesse primeiro mito.
A grande dificuldade, Ivo, de conversar sobre questões cerebrais e transtornos e doenças é que a gente sabe muito pouco. Cada vez que a gente estuda mais, a gente sabe menos ainda. Mas houve uma época em que eles viram que uma região do tronco encefálico chamada núcleos da RAF, que possuem neurônios serotoninérgicos, em pessoas deprimidas havia um problema naqueles neurônios. E esses neurônios tinham como neurotransmissor serotonina.
Pensaram o seguinte: se eu tenho um problema chamado serotonina, se eu criar uma medicação que vai fazer uma inibição da recrutação da serotonina, eu curo a depressão. E então começou-se a fazer todas as pesquisas, a entender como eles poderiam fazer esses medicamentos. E aí viram que talvez fosse isso, mas não era bem isso conforme os estudos foram passando. E não é novo, a gente chama essa teoria de teoria monoaminérgica, mas não é novo que foi visto que algumas pessoas tinham uma taxa de remissão de depressão que era interessante, outras pessoas não.
E essa pergunta já vinha causando uma pulga atrás da orelha dos pesquisadores. Por que que eu tenho ali às vezes 30%, 40% em alguns estudos de pessoas que não têm uma remissão da depressão tomando medicamentos? E eles viram o seguinte: que nosso cérebro é todo interconectado. Portanto, aquilo que causa depressão em mim não causa em você. Não causa na Joaninha, não causa no João, e causa ainda mais em outra pessoa. Então, e aí essas áreas eram interconectadas, por exemplo, com o córtex pré-frontal.
O modo como eu interpreto uma situação negativa, ou como eu levo a vida, vai ter uma influência no modo como meu cérebro se comporta. E nesse contexto todo, eles viram que nem todo mundo que tinha ali uma disfunção nos núcleos da RAF ou que passavam por eventos traumáticos acabavam entrando numa depressão. Então aí foi o turning point, na verdade, que mudou tudo, toda pesquisa. E hoje nós sabemos que a depressão afeta não somente uma área, mas várias áreas cerebrais.
Que você falar de serotonina talvez não seja 100% errado, mas é 100% incompleto. É algo pequeno perto do que a depressão causa em todo o nosso sistema, em todo o cérebro. Isso, isso porque, Ivo, nós sabemos que há um estresse crônico, há uma liberação maciça de cortisol de forma crônica. Nosso hipocampo, como já falei milhares de vezes aqui nos podcasts, ele tem receptor para cortisol, mas quando ele vem de forma crônica afeta também o hipocampo, atrofia o cérebro em algumas áreas, faz com que a pessoa tenha menos memória do que ela tinha no passado.
Afeta também um sistema que é um sistema de motricidade, porque lembrem, nós temos um, até a gente falou, o sistema chamado nigroestriatal, e ele é movido por dopamina, e ele tem uma relação com Parkinson. Então quer dizer, Diogo, que as pessoas que têm depressão elas têm uma motricidade alterada? Sim, sim, também. Então vocês vejam que são vários sistemas sendo afetados ao mesmo tempo, não é uma coisa só.
Ô Diogo, agora, cara, que você tá falando, a gente tem uma questão também que pega muito na questão de memória, né? Ou seja, formação de memórias, né, no hipocampo ali. Na prática, dá para se dizer hoje em dia que episódios de depressão crônica, eles atrofiam e talvez fazem com que o hipocampo possa diminuir, inclusive encolher de tamanho, certo?
Falar isso, com certeza está 100% certo. Não é para todo mundo, porque a medicina, a vida, ela nem nunca nem sempre. Mas sim, nós temos estudos que mostram de 10 a 15% de atrofia até do hipocampo. Então lembrem que a depressão não é apenas uma pequena tristeza. As pessoas levam a depressão e eu vou como falta de algo, falta de Deus, falta de dinheiro, falta de ambição, falta de qualquer coisa, trabalho. Ah, é porque a pessoa não tem nada para fazer, é porque os pais não deram desafios para essa pessoa.
Mas o transtorno depressivo, ele é tão grave que abrevia a saúde das pessoas. Mas não só a saúde, Ivo, mas também a vida. E eu falo isso em expectativas de anos de vida. Além de afetar o que a gente chama de QALYS lá, que é a qualidade de vida da pessoa, dias com qualidade de vida, afeta isso. Nós temos também alguns estudos mostrando que chega a mais de uma década de sobrevida a menos em pessoas com depressão crônica. Não é, não é nada, não é nada brincadeira você falar sobre depressão.
Aí as pessoas levam mais a sério alguém que quebrou uma perna. Aí eu pergunto: quantos anos de vida uma perna quebrada abreviou dessa pessoa? Praticamente nada. Ela vai lá, quebrou uma perna, faz fisioterapia, beleza. Só que quando tem alguém com uma perna quebrada, todo mundo ajuda. Agora, quando tem alguém que fala que tá deprimido, ah, pelo amor de Deus, vem esse cara aí, essa mulher me encher o saco, me incomodar, falar de depressão, vai, tem mais o que fazer.
Só que ela que tá correndo mais risco cardiovascular, oncológico, doenças autoimunes, abreviar a quantidade de vida em anos realmente. E aí, o que que vocês vão falar disso agora?
E tem um ponto, Diogo, me corrige, cara, se eu tiver errado, mas A identificação da depressão, a gente comentou algumas vezes sobre isso, mas não é algo tão simples, né? Porque você pode ter, por exemplo, vou dar um chute aqui, cara, sei lá, uma mulher que pode estar entrando na menopausa, por exemplo, que vai ter uma alteração hormonal bizarra, pode colocar ali um estado específico e dá para se confundir muito fácil alguns pontos, né?
O que a pessoa tá sentindo com relação à tristeza, não sabe o que tá acontecendo, a irritação, etc., não consegue pensar direito, vem névoas mentais. E por aí vai. Então, na prática, quando a gente tá falando da depressão, apesar da neurociência, neurologia estar avançando bastante, a gente tem um desafio bem grande ainda aí, né, que é a identificação correta ou não.
Muito, porque nós não temos hoje um biomarcador da depressão. Eu não consigo tirar o sangue de uma pessoa, ou até um líquor que seja, qualquer fluido corporal, e dizer: olha, você é deprimido porque esse marcador está elevado, está em falta. Eu não consigo, eu não consigo pegar um exame de imagem e comparar uma pessoa deprimida de uma pessoa não deprimida e falar, esse é o deprimido, esse não é. Hoje ainda, Ivo, nós vamos por escalas e com a noção que nós temos ali dois sintomas centrais, que é o humor deprimido a maior parte do dia junto de uma anedonia, que é a perda do prazer, somado a alguns outros fatores como fadiga extrema, perda de energia, insônia ou hipersonolência, perda de peso ou ganho de peso.
Então você tem ali alguns fatores que acabam levando você a fazer o diagnóstico da depressão. Não é uma tristeza, claro, momentânea de um dia a dois. A gente considera duas semanas ou mais para você começar a pensar em depressão. E tem vários tipos, tem a depressão melancólica, sazonal. Então depende às vezes de questões de tempo, a pessoa tem, fica mais deprimida nos invernos do que nos verões. Então são vários fatores hoje que vão colocar você para fazer um diagnóstico de depressão, e não é tão simples.
Inclusive, o próprio tratado de psiquiatria brasileiro, ele fala que um transtorno afetivo bipolar, por exemplo, pode demorar de 10 a 15 anos para se chegar a um diagnóstico correto. É muito sério isso, e nós precisamos avançar com essa, nessa parte, para ontem, para ontem.
Daqui a pouco eu quero entrar um pouco na questão de serotonina e do eixo cérebro-intestino também, porque você falou da vontade de viver. E aí eu lembrei de conversar com uma galera que toma Monroi diário. O pessoal fala que quem toma Monroi diário perde a vontade de viver, né? Pô, a comida perde o gosto, perde a vontade de viver, fica uma merda, não sei o quê. E de certa forma tem uma outra questão aí que ela pode se confundir também em alguns pontos, mas eu quero trazer depois essa pergunta aí.
Deixa eu te fazer uma outra. Você acha que com o avanço da IA na identificação, análise de imagens agora, cara, a gente não pode começar a ver um cenário também onde, aliás, mesmo uma grande questão, né, ressonância magnética ou tomografias não é todo mundo que vai poder fazer, mas se a gente fosse olhar, digamos que fosse possível isso, será que não daria para começar a correlacionar também questão de áreas? Você tem um hipocampo que ele tá ali 10 a 15%, por exemplo, menor do que deveria.
Você tem a amígdala, que na depressão ela fica muito mais excitada, muito mais disparada, logo ela vai estar maior também. Você acha que com esses avanços aí a gente vai conseguir ver em um futuro meio que próximo uma análise mais efetiva desse ponto? Além de correlacionar os sintomas também, poder olhar para o cérebro ali e falar, caramba, cara, acho que aqui essa atividade nossa aumenta muito.
Eu não duvidaria, Ivo, mas ainda temos certas nuances. Eu não duvidaria porque Porque se nós sabemos que aí a dobra de potência a cada 6 meses, para vocês terem uma ideia, pessoal, quando eu entrei na faculdade de medicina, isso não faz tanto tempo assim, é só um pouquinho.
Eu vou ter que desmentir, viu, bicho?
Olha, já se conta em décadas isso, né, Ivo? Os professores diziam assim, pessoal, se prepare, porque nós temos um conhecimento dobrando a cada 2 anos, um conhecimento médico dobrando a cada 2 anos. E nós mal tínhamos o Google naquela época. Então, é, então nesse contexto todo, hoje nós temos uma IA que tá dobrando de potência a cada 6 meses. Portanto, eu não duvido. Para vocês terem uma ideia, se alguém não sabe o que que é, mas tem uma coisa chamada machine learning, que é você ensinar realmente a máquina sobre certos conceitos, e tem algumas pesquisas sendo feitas para identificar, ver se de entrada.
A tomografia de entrada, ela serve para nós, um olho humano, apenas para dizer se a pessoa teve um sangramento lá no cérebro ou não. E o AVC isquêmico, que é aquele que interrompe a circulação, é muito difícil para o olho humano ver os tons de cinza e falar de primeira já, ó, isso aqui de fato é um AVC. Mas o computador com machine learning e a big data, que colocaram mais de 3 milhões de exames nessa big data, para fazer a comparação, ele tá conseguindo um acerto de 98% com as tomografias de entrada, em falar é um AVC, não é um AVC, já é algo bem, bem interessante.
Agora, quando eu falo de transtornos, a coisa, o buraco fica um pouco mais embaixo, porque, por exemplo, quando eu falo de atrofia do hipocampo, não é só a depressão que faz atrofia de hipocampo. Eu posso ter a própria epilepsia, que a gente chama de esclerose mesial temporal, que se encontra ali nas ressonâncias de pessoas que têm epilepsia. Então há esse modo de confusão ainda de você tentar correlacionar, talvez por sintomas, talvez informando a IA que não tem epilepsia envolvida, que não tem doença neurodegenerativa envolvida, e é uma suspeita de depressão, e ela faz toda uma correlação.
Mas ainda eu acho um pouquinho arriscado. Agora, Ivo, eu não duvido de nada, porque pode ser que daqui meses alguém descubra que o processo de atrofia cerebral dentro da depressão tem marcadores. Isso já muda tudo. Já descobre que existe um padrão de atrofia que é diferente das atrofias cerebrais de outras condições. Então eu creio que sim, que nós teremos em breve talvez um biomarcador não só para depressão, mas para o espectro autista, para o TDAH e para outras comorbidades neuropsiquiátricas.
Boa, seria incrível isso. Ô Diogo, me tira uma dúvida aqui, cara, é minha, talvez muitas pessoas também pensem assim. Na prática, na neurologia, aliás, vamos falar de imagem, qual é a real diferença de alguém que tem, aliás, que passa por um exame onde você faça ali uma tomo do encéfalo e você faça uma RM, uma ressonância do encéfalo? Qual que é a diferença Os dois exames, cara, que você consegue ver em um que não consegue ver em outro.
Muito bom. A tomografia, ela é mais ou menos como se você incidisse na pessoa 200 raios-X. Então ela tem uma, ela tem um mecanismo de aquisição de imagem que é diferente da ressonância magnética, que é por campo eletromagnético. Tanto que a ressonância, ela é um grande ímã. Nós temos hoje, nós temos, por exemplo, hoje ressonâncias que estão já no mercado de 3 teslas. E para pessoas epiléticas, elas são, elas acabam sendo muito boas para analisar hipocampo, por exemplo.
A ressonância, ela pega melhor partes moles, isso tecido cerebral. Agora, se eu quero ver osso, a minha tomografia é melhor. Portanto, se eu quero ver um detalhe, e aí nós temos incidências na ressonância e janelas ali da ressonância, programas instalados nela, Que eu consigo olhar AVCs agudos. O primeiro exame que vai alterar nos meus exames de imagem num AVC, por exemplo, é a minha difusão, que é um local que eu olho na minha ressonância e eu vejo que houve um acidente vascular cerebral isquêmico por causa de locais que estão ali brilhando.
Então, para ver partes moles, para fazer uma comparação de tamanho de estruturas, É pela ressonância que eu vou conseguir.
Tá boa. Agora eu queria puxar um pouco daquele assunto que eu citei agora há pouco, né, falar da questão do eixo cérebro-intestino. Tem umas teorias na internet também aí que falam muito sobre essa questão da depressão ser também uma doença inflamatória, né, algo que começa ali no— aliás, que começa não, que pode também afetar o seu intestino. Cara, real, mentira, ou onde que entra aí o intestino nessa história real? Porque tem muita gente que vem com aquela teoria, né, fala: você sabia que quase toda a serotonina que seu corpo produz é produzida no intestino e por isso que afeta o seu cérebro?
Só que assim, cara, serotonina não vai ultrapassar a barreira hematoencefálica, a gente sabe disso. Então por aí já cai a história, para quem é leigo pelo menos, né, quando você vai olhar assim, tá, deixa eu ver, eu uma foto bem ampla sobre isso. Mas agora, quando a gente leva isso para neurologia e neurociência, o que que é real nisso daí, cara? Existe realmente um impacto do intestino na questão da depressão? Tem algum estudo que fala sobre isso? Como é que tá isso aí hoje?
Pois é, temos sim, temos sim, mas é que tem que tomar cuidado, porque quando a gente fala de neuroinflamação e de doenças, ou de intestino e doenças, nós ainda não temos um mecanismo certeiro, Ivo. Primeiro, a serotonina produzida no intestino não é usada no sistema nervoso central. Já começa por aí. O que vai ocorrer é que a serotonina é uma molécula gigantesca, ela não vai passar pela barreira hematoencefálica. Agora, nós sabemos sim que existem estudos sérios sobre a microbiota intestinal em várias comorbidades, como Parkinson, transtorno do espectro autista, até o próprio TDAH.
A própria depressão. E aí vem vários estudos e hoje nós temos um conceito definido que a neuroinflamação é um mecanismo fisiopatológico relevante num subgrupo de pacientes que têm depressão maior, porque ele envolve aquela ativação glial, que é a nossa micróglia, nossos astrócitos. O que que é isso? Os astrócitos, eles têm uma função que é de pés vasculares, eles fazem então essa parte da barreira hematoencefálica. A micróglia é uma célula de defesa.
Eles viram nos estudos que existiam sim citocinas pró-inflamatórias e disfunções de algumas vias, mas isso ainda não se traduziu em biomarcadores ou terapias anti-inflamatórias com uma utilidade clínica estabelecida. E é nisso que eu quero deixar um ponto para vocês: nós sabemos sim que não é migué isso, que existe realmente isso, Agora, se alguém quiser vender para você um protocolo de R$10.000, como venderam para uma influencer que estava grávida por aí, e que agora eu vou te dar um protocolo aqui de R$10.000 para você fazer, que vai evitar doenças, não é assim que funciona.
Mas tem pessoas sérias trabalhando muito, inclusive a nossa grande amiga Dani Lodege, que trabalha bastante com essa parte e é uma pessoa séria. A pessoa que não tá ali dando golpes na praça e prometendo o que não pode, na neuronutrição, é aquela velha história, Ivo. Nós sabemos já de antemão que boa alimentação, então frutas, verduras, arroz, feijão, proteínas, vão acabar te dando uma proteção. Sim, nós não sabemos ainda como no geral, mas nós precisamos disso.
Nós temos também outro estudo bem interessante, Ivo, Crianças que tiveram uso, vamos dizer, de menos antibiótico até os 5 anos de idade possuem muito menos doenças neurodegenerativas no futuro, possuem menos problemas neuropsiquiátricos também. E tudo isso tem uma relação direta com as boas bactérias que vivem em nosso intestino. Mas aí te falam assim: hoje vale a pena tomar probiótico? Dinheiro jogado fora, ainda dinheiro jogado fora.
Não tem, não tem, não tem uma motivação para isso. Mas nós estamos cada vez mais evoluindo. Então já sabemos da B12, por exemplo, que aqueles idosos que tiveram B12 no limite inferior tiveram mais demência do que os que tiveram em limites mais superiores. Mas muita calma, pessoal, não comprem gato por lebre. Não aceitem soroterapia de R$3.000, não aceitem protocolo de R$10.000, porque essa pessoa não está sabendo nada ainda o que ela está fazendo, e provavelmente ela é uma pessoa que nunca leu esse artigo que eu tô comentando com vocês.
Aí a gente entra numa área que é complicada, né, cara? Porque cada dia mais a gente vê a galera inventando umas coisas aí, vale tudo por dinheiro, né? Vale comprar a mão de aro do Paraguai e vender por aqui, foda-se a saúde da pessoa. Fala um pouquinho de um assunto que eu acho ele muito interessante assim, cara, que é o transplante de fezes. Que eu sei que ele é feito aí, já foi feito com ratos, com humanos também, etc. Mas como que funciona isso aí, cara?
Porque na depressão inclusive tem estudos onde eles fizeram isso daí já, né? De conseguir na prática transplantar fezes. Então explica para galera que não é fazer alguém comer cocô, né? Porque, pô, galera, do jeito que tá hoje em dia, vai falar assim: ah, ouvi no Cerebrando que se o cara comer cocô de uma pessoa saudável, ele vai ficar bom, acabar com a depressão. Pô, nada disso. Então é meio cômico, mas é real. Então dá uma destrinchada aí.
Quando tudo isso veio, Ivo, é esse que é o problema, tá? Nós temos que dar tempo ao tempo para a ciência provar se isso tem feito efeito ou não. E o que eu digo para todo mundo, uma coisa é eu chegar para vocês e falar assim, olha, eu tenho aqui um fitoterápico de R$15, de R$20, vamos tentar, vamos tentar, tem estudo já de segurança, não é uma coisa que vai te fazer mal, não é uma coisa que vai te fazer, te dar efeitos colaterais graves, porque já tem estudo de segurança.
Tá sendo fabricado por uma indústria que é correta, que é séria, que passa por toda vigilância, ok. Outra coisa é você fazer um experimento em animais. E por que que a depressão é muito difícil de ser feita, de ser reproduzida em animais? Porque o ratinho não tem córtex pré-frontal como nós temos para entender estou triste, estou— então você reproduz nele às vezes falta de motricidade, uma falta de motivação para procurar comida, e eles interpretam isso como se fosse uma depressão.
Aí eles pegam esse ratinho e fazem um transplante de fezes, que é realmente você povoar esse intestino de volta com boas bactérias. E nos ratinhos eles encontram alguma vantagem sobre isso, eles encontram: nossa, ficou melhor, teve uma— Mas isso pode se reproduzir para os seres humanos? Não tá bem sacramentado, não tá nada bem sacramentado. A gente não sabe ainda se isso vai acabar dando para o ser humano algum efeito ou não. Já tentaram fazer, não conseguiram obter resultados satisfatórios ou estudos que sejam, sabe?
Mas o resumo é assim, Ivo, tem que tomar cuidado com essas técnicas, né? Porque é uma, ela é experimental, ela pode ser até promissora, mas ainda nós temos uma condição limitada e inconclusiva, totalmente inconclusiva. Mas tem evidência, nós temos já estudos sendo feitos, já tem basicamente estudos com mais de 700 pacientes, tá? Então vamos, vamos dar tempo ao tempo para ver se as coisas se caminham, né? Mas tem uma associação que o pessoal até pode procurar, que eu gosto muito de quando, para quem estuda, que é o CANMET, que é uma força-tarefa do Canadá, Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments.
E eles pegaram aqui 23 estudos randomizados, 8 meta-análises sobre essa intervenção, né, e deixaram tudo como terceira, quarta linha assim, porque ainda não tem de fato uma É muito heterogêneo ainda, muito heterogêneo realmente assim. Então não deve ser considerado terapia padrão, não, ainda não, para os seres humanos não.
Estamos longe de alguém começar a oferecer ali no Mercado Livre, na Amazon, na Shein, as pílulas de neuro cocôzinho, né, que vão resolver depressão. A galera não caiu nessa. Já tem um neuro shampoo que te deixa mais inteligente por aí, né? Então já vamos avisar também, cuidado com as pílulas de neurococôzinho, porque elas não são reais.
Total, total, total, total, total. É uma coisa a gente passar por estudos. E uma coisa que eu quero só derrubar aqui rapidamente, bora, é essa história de que a ciência não tem interesse que essas coisas evoluam. Isso é tudo mentira. Só nesse mapeamento que eu já fiz, nós temos mais 23 estudos randomizados controlados do transplante fecal. Então não é uma coisa que a ciência não tem interesse, tem muito interesse sim. Tem muito interesse.
Não caiam nessa. Inclusive, o CanMetric não tem uma relação com indústria farmacêutica, ele é uma força-tarefa canadense, não é alguém que tá ali ganhando dinheiro em cima de remédio.
Então, deixar bem claro para o pessoal, é que é foda, porque hoje tudo que pode dar Ibope, alguém começa a explorar isso, né? Então assim, ah, isso aqui pode dar Ibope para cacete, a galera vai começar a explorar, seja aquelas mensagens do WhatsApp do tipo assim, sabia que a Meta invadiu seu telefone, eu vi todas as suas conversas agora? Até questões ligadas à neurociência, saúde mental, né? Pô, tava vendo uma reportagem ontem, cara, que o crime organizado começou agora a criar médicos através de app para vender consultas, etc., e levantando dinheiro com isso.
E vai levantar, né?
Vai, cara, vai, porque as pessoas estão desesperadas, né? Aí é fulano que é preso porque tava atendendo, sei lá, 3 anos hospital, não sei onde, Zona Leste de São Paulo, lá o cara nunca foi médico. Então assim, O grande problema são as pessoas, na verdade, né? Então assim, cara, complicado muito. Deixa eu puxar um outro ponto aqui, cara. Como a gente falou aquela hora do hipocampo e da amígdala também, deixa eu trazer um pouquinho da rede DMN para cá, porque— e aí você de novo me corrija, mas é muito comum também pessoas estão com depressão ficarem uma quase uma ruminação quase que eterna ali com relação a como ela é, né?
Ah, que as coisas não dão certo, que é comigo, que é um fracasso, que não sei, etc. Isso pode ter a ver com a rede modo padrão também, não? De certa forma, tem sim, também, tal como a amígdala fica super ativada. O que que tá rolando ali?
Na verdade, você tem uma DMN hiperativada e travada. Se fosse fazer uma função didática, isso implora. Por que que isso ocorre? É muitas das coisas que a gente não sabe, só que a pessoa fica naquele loop infinito de eu sou um fracasso, eu sou uma falha, sou uma pessoa que não vale nada, eu não tenho valor. Então é muito difícil você entender como que as coisas funcionam, mas a gente sabe que a DMN ela tem uma relação bem, bem clara com o quadro ruminante da depressão.
E talvez um dos efeitos que eu vejo que melhora bastante nos pacientes medicados é isso, eles relatam que acaba esse ruído interno, essa coisa de sou um fracasso, não valho nada, que incomoda muito a pessoa, acaba incomodando. Nós somos seres movidos por uma autoestima, por uma autoconfiança. Quando isso é quebrado no nosso meio, Ivo, é difícil viver com isso o tempo todo. Qualquer falha que aconteça, nossa, eu não sou nada realmente, eu sou alguém que não vale nada e coisas assim.
Tá, boa. Será que é por isso, Diogo, pensando aqui, cara, e agora trazendo o assunto que você falou lá no comecinho, que a gente vê terapias como aquela que você citou, por exemplo, com psicodélico, a psilocibina. Psilocibina começou a ganhar espaço no mercado e criou um mercado aí, cara, de bilhões de dólares de novo, justamente por essa questão de, cara, não tem biomarcador, é muito complicado, tá pegando o mundo inteiro, a internet tá piorando isso.
Pode ser uma das respostas. E aí, indo um pouco além, o que que é, cara, na prática, a psilocibina? Como isso aí funciona, para galera poder entender? Porque tem muita gente falando disso aí também, né, ainda mais agora que Teve um cara que vendeu lá, acho que foi 800 milhões de dólares, se não me engano, a empresa que ele tinha, que era à base de cogumelos. E aí, que mercado é esse que tá se criando, cara? O que que é a psilocibina e o que que isso aí tem a ver com depressão?
A psilocibina é um psicodélico. E o que que acontece? Primeiro eu quero deixar bem claro para as pessoas que viram defensoras de drogas por causa dessas, disso que vem à tona na ciência.
Você tirou a palavra da minha boca, cara, porque alguém já vai olhar isso aí também e falar: opa, eu tô falando faz tempo que é da hora ficar doidão que funciona, né?
Agora eu vou lá para o ayahuasca, eu vou tomar litros daquilo porque vai me fazer bem, tá?
Vamos mudar para São Tomé das Letras, né? Nada contra quem mora em São Tomé, agora é muito legal, não é isso? Mas a internet, né, as línguas dizem que é mais ou menos isso, né?
Nós temos milhares de drogas pessoais, drogas no sentido medicamentos, que podem ter potencial de abuso. Várias, várias que, se tomadas de forma errada, viram realmente drogas recreacionais e que causam vício e dependência, causam tolerância, que causam tudo isso. Então não me venham com essa, ah, é o preconceito contra a cannabis. Vocês quiserem saber de uma coisa que eu acho que pouca gente fala, mas a cannabis ela é investigada desde a década de 50 do século passado.
Nós temos mais de 80 anos Se for colocar em números aí, se for contabilizar em tudo, é mais de 80 anos praticamente aí que tem ciência sobre os possíveis efeitos do canabidiol. Nós temos agora a psilocibina vindo muito forte há vários anos já. Os anfetamínicos já foram usados como anoréxicos para controle de peso, ainda são usados para o TDAH. Então não venham com essa, ah não, a ciência tem preconceito.
Não tem preconceito nenhum.
Só que a diferença é que o medicamento tem doses que fazem sentido para tratar aquela pessoa. Então a psilocibina, ela vai atuar num receptor chamado 5-HT2A, que é um receptor de serotonina. E vários antidepressivos atuam também nesses locais. Isso gera uma grande neuroplasticidade, mas olhando para os estudos que nós temos aqui Nós temos alguns estudos hoje mostrando o efeito da psilocibina no cérebro. E aí, quando a gente fala da psilocibina no geral, ele já tem assim ensaios de fase 2 que já estão mais avançados, que mostrou que uma dose única de 25mg de psilocibina, ele faz um apoio psicológico enorme para pessoa, ele reduz significativamente, significativamente, desculpa, os scores de uma escala que a gente chama de MADRS.
E quando a gente compara com placebo, é uma diferença que é gigantesca, é gigantesca, tá? Isso rápido, começando aí perto dos 43 dias, 42 dias, cara, já tendo efeitos muito bons. E tem outro que foi publicado na JAMA Psychiatry, que eu li esses tempos, que ele relata um efeito antidepressivo rápido e duradouro, com 71% dos pacientes mantendo a resposta clínica.
Caramba, mas deixa eu tirar uma dúvida aqui. E quando a gente fala agora com relação à efetividade, beleza. Agora, e com relação ao tempo, cara? Você falou nisso agora, né, que ele teve uma janela de tempo específica, ele foi muito efetivo. Mas dá para a gente falar, será que de forma direta, ou já se dá, né, já que as pesquisas não são tão avançadas assim, que isso é algo realmente efetivo? Ou seja, que, cara, vai funcionar, vai ser matador, e vai continuar e vai resolver?
Ou será que isso não poderia criar um novo tipo de dependência para o seu cérebro, de forma que sem isso ele volta no estado antigo que ele tava?
Eu acho que ainda não dá, Ivo. Não dá para a gente pegar com toda certeza e falar, olha, vai ser promissor. Só que se tem uma indústria farmacêutica investindo bilhões de dólares já, eles estão sempre passos à frente de nós, já sabem o que tá acontecendo nos estudos. Então eu creio, eu creio que em breve nós teremos já comercializando psilocibina para depressão. É uma estimativa que eu tenho, até porque o perfil de segurança nessas doses é alto, poucos efeitos colaterais.
Então vai ser, acho que, algo um tanto quanto revolucionário quando a gente fala da depressão No quesito tratamento.
Tá boa. Eu quero te fazer uma outra pergunta, mas só por curiosidade, cara. Eu vim, eu coloquei aqui em uma plataforma, vou falar na plataforma de vendas aqui, psilocibina, cara. Tem gente vendendo já.
Ah, tem isso ali, não é novidade.
O brasileiro é foda, cara. Pô, os cara tá vendendo já. Cogumelo da psilocibina. Porra, caralho. Enfim, me tira uma dúvida aqui, cara. Putz, dá uma crise de riso isso aqui, cara. Cheio de anúncio já dessa porra. Me tira uma dúvida. E quando a gente fala agora, cara, da ketamina, que se fala há bastante tempo já, né, muito mais tempo que a psilocibina, Qual que é a diferença real? Porque a ketamina também aparentemente ela tem aí uma efetividade bastante grande, né, com relação à resposta, com relação ao tempo também. Onde que tá a diferença aí entre as duas, cara?
São drogas de classes diferentes. Primeiro, a ketamina ela ainda é muito usada pelos anestesistas, por exemplo, para indução anestésica. Acaba sendo uma medicação, um medicamento muito, muito interessante. Mas ela age no sistema totalmente diferente, que é com o glutamato, que é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro. Enquanto os antidepressivos mais clássicos, eles demoram semanas para fazer algum efeito, a acetamina vai causar um pico de glutamato que vai estimular a produção de BDNF, que é Brain Derived Neurotrophic Factor.
Que é o fator neutrófilo derivado do cérebro. Esse BDNF é como um fertilizante ali para o cérebro. Ele faz então os dendritos, aquele cabelinho que a Dani fala dos neurônios, crescerem espontaneamente.
A galera tá cultivando neurônios carecas, né, que tá na moda hoje em dia.
Exato, exato. E aí dá esse alívio de até aí de ações suicidas. Veja, já foi muito mais promissor A ketamina, Ivo. Quando eu tava lá na residência médica, eles tinham uma noção que a ketamina ia ser o carro-chefe da depressão em algum tempo, né? Ainda é algo interessante, mas não se popularizou na medida que eu achava que iria, porque até eles estavam vendo fazer spray de ketamina intranasal, fazer outros tipos de medicamentos que não realmente não pesquisei mais para ver como que Mas o Japão era muito, era muito forte nessa pesquisa, por exemplo.
Tá boa. Deixa eu puxar uma outra coisa que eu esqueci, lembrei agora. A gente começou falando da serotonina por causa da depressão, e é muito comum as pessoas associarem a depressão com tristeza. Só que quem passa por isso diz, cara, não é tristeza, é quase que uma anedonia, né? Assim, nada dá prazer, é muito diferente. Então quando a gente pensa um pouco em neurotransmissores, a gente tem a serotonina como talvez o que mais chama atenção, mas a gente tem um problema com dopamina aqui também, não tem? Já que te falta prazer para tudo, cara, você não consegue fazer nada.
E a dopamina não tá só envolvida no circuito de recompensa, mas no circuito nigroestriatal, que eu até falei para vocês, que é a parte de movimento também. Quando a gente fala da dopamina, aí vem o sistema de recompensa e vem talvez o principal sintoma da depressão, que é a anedonia, que é aquela sensação de Não tem prazer para nada. A tristeza é algo assim: eu não tô legal hoje, tô meio triste, eu vou pegar meu tênis, vou correr, vou para academia, vou fazer um exercício, eu vou dar uma trabalhada, vou conversar com alguém que eu gosto.
Agora, a pessoa deprimida, Ivo, muitas vezes não tem força para levantar da cama, escovar os dentes. É isso que acaba matando e dando mais doença para essa pessoa. Porque é alguém que não cuida mais da própria higiene tão bem, que não toma mais os remédios que deveria tomar, tem ali um problema cardíaco e acaba não tendo mais um cuidado em cima disso. Então é como se o nosso sistema de recompensa ele tivesse um pouquinho embotado nesse quesito, e ela não consegue sinalizar que algo é bom, que vale a pena o esforço.
A pessoa vai olhar para o filho, para quem quer que seja, e não tem essa recompensa, a vida fica cinza realmente. E isso não é apenas uma força de expressão, a visualização de cores é muito afetada na depressão também.
Eu ia falar isso agora, acho que é importante, né, cara, as pessoas saberem para a gente parar com esse pré-julgamento que a gente tem das coisas, né? Ou seja, se você não tem, quando você encontra alguém que tem, tendência é falar: frescura, vai para academia, né? Ou no interior, pega uma enxada e vai carpir um lote. Para com isso, né? Levanta, vai para fora, vai caminhar, que você vai ver que melhora. E a galera não entende que é mais complicado, né, cara?
Que o buraco é muito mais imenso quando se fala de cérebro. Talvez isso seja um efeito também do que a gente tá vendo com relação a esse reducionismo, né, na ciência, na neurociência principalmente. Quando você vê a galera fazendo vídeos super curtos aí: ah, tem depressão, faça isso. Tem, sei lá, você é procrastinador, faça isso que vai resolver. Cara, e não é por aí, não é bem assim. O pessoal não entende que cada cérebro é único, são crenças diferentes, estruturas diferentes, conexões diferentes, cara, vivências diferentes, não tem como ser igual.
E é por isso que muitas vezes, inclusive naquele lance de a galera sai vendendo o mesmo curso prometendo milagres, não vai funcionar, né, cara? Não tem como você pegar o mesmo curso, enfiar em todo mundo e falar: não, funciona para todo mundo isso daqui. Não dá, né? Então, de novo, não dá. A gente tem um problema. E eu perguntei dopamina pelo seguinte: será que esse bombardeio que a gente tá vendo aí constante de dopamina barata com mídias sociais, com TikTok, com scroll do Instagram e por aí vai, não pode estar causando também uma dessensibilização aí nos setores e isso possa estar levando as pessoas a terem também mais depressão?
Porque é bizarro esse quadro de depressão que a gente tá vendo no mundo todo, né? Não só no Brasil.
Na verdade, eu penso que a gente vive um tédio coletivo, é aquela É aquela sensação que eu nunca tô feliz fazendo o que eu tô fazendo. Sei lá, a pessoa não encontra mais um prazer estudando, não encontra mais um prazer lendo alguma coisa que gosta, saindo com os amigos e coisas do gênero. Então não tenho dúvida que o efeito TikTok, o efeito Instagram, para não até para nomear todas as redes, efeito YouTube. E veja, não coloco culpa das redes só, não é isso.
É o modo como nós usamos a ferramenta acaba gerando para pessoa um esgotamento, uma depressão. Até porque, como o nosso grande amigo Leandro sempre fala, ninguém vai postar na rede social que hoje fali a minha empresa, hoje tomei um prejuízo de R$10 mil, hoje minha mulher— está acontecendo, né? Fui traído pela minha esposa.
Tá acontecendo, cara, da mídia, né, cara? Da mídia vai acontecer, bicho.
É foda, tudo em busca do like. Mas eu tenho certeza assim, viu? Tenho certeza assim.
E agora um outro ponto, você sempre fala, cara, o sono. Sono pode ser um elemento também que, quando não bem trabalhado, não bem respeitado, ele aumenta também a probabilidade de soma depressão, né? Mas e o sono em pessoas deprimidas, cara? Existe uma diferença muito grande também?
Sim, bastante, porque a arquitetura do sono ela é totalmente modificada na depressão. E aí quando você vai, às vezes a pessoa entra muito rápido ali num sono profundo, até numa fase REM, só que é aquele sono bagunçado com micro despertares o tempo todo. A pessoa acorda às 5 horas da manhã e não consegue dormir mais, tá? E a gente sabe que é ali que o cérebro faz toda aquela depuração, que a gente já falou sobre isso também. Portanto, a gente vai acabar tendo um cérebro que não consegue se depurar mais tão bem quanto antes, não consegue mais se limpar tão bem quanto antes.
E aí a coisa fica toda bagunçada, as coisas não ficam, não caminham mais do jeito que deveriam caminhar, e já era. Aí a gente acaba tendo um problema, talvez até que acaba, é na verdade um efeito dominó. A depressão traz um efeito dominó porque a pessoa tá deprimida, ela come mal, vai ficar mais deprimida ainda. Ela dorme mal, fica mais deprimida ainda. Deixa de participar de eventos que são importantes, tipo exercício físico, mais deprimida ainda.
Tudo isso debilita a saúde física, mais deprimida ainda. É nisso que nós temos que ajudar a pessoa.
Boa, é super bem colocado, cara. Como a gente falou de psilocibina, de ketamina, etc., e quando a gente olha para essas, eu vou chamar de tecnologias meio bizarras, né, tipo a estimulação magnética transcraniana, assim, efetivamente, cara, dá choque no cérebro, realmente muda alguma coisa, tem impacto direto? O que que a gente tá vendo? Você consegue falar um pouco disso também?
É que ela vai usar pulsos magnéticos que vão estar focados exatamente ali, por exemplo, no córtex frontal, dorso lateral esquerdo, uma área que fica hipotiva na depressão. E esse pulso magnético, ele vai acabar induzindo corrente elétrica que meio que acorda esses neurônios adormecidos. Então você jorra neurotransmissor, tá? É mais ou menos como dar um tranco numa bateria de carro. Agora, sendo bem sincero, e as pessoas que trabalham com isso, não fiquem nervosas e chateadas, nós temos hoje ainda que estudar muito mais neurofeedback, estimulação magnética transcraniana, porque isso ajuda.
E eu sei que ajuda porque eu já vi muita gente ser ajudada, tem estudo também sobre isso. Mas ainda é uma tecnologia relativamente cara e precisa evoluir, e que nós precisamos ter estudos mais robustos para justificar a quantidade de investimento que alguém que quer fazer tem que fazer. Tem que tomar um pouquinho de cuidado ainda com isso.
Boa. E aí, o ASCA ajuda? Deixa quieto, a gente não vai entrar nessa discussão aqui. A gente vai ter uma outra discussão futura sobre esse tema aí com outra galera por aqui, então não vamos adiantar nada. Ô Diogo, bora para a gente começar a fechar, até pelo tempo, cara. Bora. Vamos parar pensar um pouco nas pessoas que estão ouvindo a gente aí, sem sentindo, ou que acham que, cara, será que eu tô nesse modo meio doente? Será que eu tô— aquilo que eu tô sentindo então pode ser depressão, né?
O que que essa pessoa deveria fazer, cara? O tipo de profissional que ela deveria buscar, ou algum tipo de protocolo meio assim que básico para ela falar, cara, deixa eu começar a aplicar esse protocolo para ver se muda. Se mudar, ok. Se não mudar, aí sim eu procuro um profissional. O que que você pode falar sobre isso?
Primeiro, procurar ajuda. Ninguém vai sair de uma depressão sozinho. Não é falta de nada que vai te causar uma depressão. A gente tem uma questão bem clara já, que nós precisamos de ajuda. Por quê? Porque a depressão pode ser endógena, ela pode ser exógena. Você pode ter uma pessoa que não sabe por quê, mas ela é deprimida e ela não tá brincando com isso, ela não tá tratando isso de uma forma leviana, não. Ela é deprimida. Por questões genéticas, por questões de ambiente, o que quer que seja.
E esse é o primeiro ponto a ser pensado. Segundo ponto a ser pensado é quem eu procuro. Normalmente pessoas que trabalhem bem com saúde mental, psiquiatras, psicólogos, alguns neurologistas que gostam da área também, que vão acabar ajudando nesses contextos todos. Então nós precisamos ter uma ajuda multidisciplinar para que você consiga ter uma melhoria da tua depressão. Às vezes até pagar um personal trainer, porque ele vai te estimular a fazer exercício físico.
Você ir a uma nutricionista, porque ela vai te estimular a fazer uma dieta mais regrada, mais interessante para o teu quadro depressivo. Então, para mim, Ivo, é uma somatória de pontos que devem ser colocados ali para que nós tenhamos uma saúde mental cada vez melhor e que as coisas de fato caminhem. Não é somente uma pessoa que vai tratar depressão. Adianta eu ir somente a um médico e tomar remédio? Não. Adianta eu somente ir à terapia e fazer a terapia? Provavelmente não. Somente exercício físico?
Não. Eu acho que é uma soma de questões multidisciplinares, multidisciplinares e também multiprofissionais, para que daí a gente consiga ter uma depressão muito bem tratada, atrelada inclusive à autorresponsabilidade, né, cara, de querer realmente fazer Esses dias eu vi um comentário bem interessante do Taylor, que aliás vocês estão ouvindo a gente, a gente vai ter um episódio mensal com o Taylor por aqui com a gente para dar risada, discutir sobre algumas coisas.
Mas alguém foi falar para ele, falar, é porque não adianta, que remédio não resolve nada, que só leva as pessoas a ficarem gastando dinheiro à loucura, resolve temporariamente. E talvez aí que as pessoas não entendam, né, cara? O papel do remédio não é efetivamente criar aquela cura para pessoa, cara, tomei, curei. Muitas vezes o grande papel do remédio é evitar que aquilo piore, né? Você pode falar muito melhor do que isso aí, mas o gato te fala.
Sim, sim, sim.
Importante ter essa noção também, né? De não achar que, ah, não vou tomar porque não resolve, não vou tomar porque eu li na bula e eu vi que o placebo dele foi 60% das pessoas que participaram do teste. Acho legal para fechar só você falar um pouquinho disso aí, correlacionando que você trouxe agora para o pessoal entender a importância disso, né? Porque da depressão Cara, surgem quadros muito piores, né, que levam as pessoas a fazerem coisas que na prática elas não querem.
Elas querem se livrar de uma dor, ou elas querem voltar a sentir, né, elas querem ter uma vida depois do Monjaro, né, cara, que tem a graça, onde você tem a vontade de comer e por aí vai. Fala um pouquinho dessa questão só pra gente poder fechar.
É, primeiro, hoje eu acho que em 2026 eu não entendo pessoas que têm medo de tomar remédio para depressão. Eu realmente não entendo ainda como a gente não quebrou esse paradigma. Porque o remédio, ele não é tudo, mas ele é muita coisa. Assim, remédio é coisa boa, remédio não é coisa ruim. E quando você toma o remédio, você nota que a pessoa tem um grau de melhora, que ela faz novas conexões neuronais. Só que isso, ah, mas eu não tive essa melhora tão, tão bem estabelecida.
E eu pergunto por quê? Porque você precisa junto disso uma dieta adequada, Você precisa, junto de exercício físico, o remédio por si só ele não vai fazer um milagre para você. Mas aí a pergunta que eu faço: o prejuízo do transtorno, ele é pior do que tomar um remédio ou ele é melhor? Essa é a pergunta que eu deixo para todo mundo. Então você se sente bem ficar numa cama que não consegue se levantar, olhar tudo de uma forma muito na perspectiva negativa da coisa?
Eu penso que isso é muito desconfortável para todo mundo. E aí, se a pessoa não aceita o tratamento, pelo menos por um breve período, o que que ela vai fazer da vida dela? Ela vai deixar o cônjuge, alguém do trabalho deprimido, para baixo. Eu conheço pessoas hoje que por preconceito a tratamentos, e a mãe não deixou tomar remédio, o pai não deixou tomar remédio, que não deram em nada na vida, que estão 10, 15 anos aí nesse lenga-lenga de vai, não vai, tão passando mal e não sei o quê.
Não sei o quê, e nunca saíram disso, e nunca saíram disso. Enfim, cada um faça sua reflexão. Mas eu hoje, se fosse para minha vida, eu não hesitaria em procurar um tratamento caso tivesse uma necessidade, como eu já procurei, porque isso é algo primordial para que nós possamos viver, ter um prazer nas coisas, ter uma alegria nas coisas. Mas é claro, Você tomar o remédio sem haver uma mudança de hábito, sem você criar ali— eu estou no trabalho tóxico, adianta tomar remédio em cima disso?
Não.
Eu estou num relacionamento tóxico, não é isso que vai te resolver. Você tem que resolver sanando essa questão, mas ao mesmo tempo você tem que ter a força para sanar essa questão. Ponto final.
Boa.
E é mais ou menos isso.
Boa, fechou. Bom, galera, obrigado. Vocês estão ouvindo a gente, essa foi nossa temporada 5. Episódio 21, agora sim corretamente falado. Quem tava, o Doutor Diogo aqui. Então batemos um papo sobre depressão e os efeitos no cérebro para vocês. Já perguntaram para gente, vocês estão conversando, vocês olham tanto do lado, que às vezes o Diogo acabou de sair de um plantão e tá resolvendo coisa de paciente, porque eu tô resolvendo coisa do trabalho em outros monitores aqui.
A gente encaixa esse bate-papo no meio aqui e consegue fazer ele para vocês. Para quem conhece muito de neurociência, tem algum assunto interessante aí, ou seja, da área da saúde, quer bater um papo com a gente, Vai lá no ibrace.org/podcast, lá tem um form curtinho para vocês enviarem para cá para a gente conseguir fazer um convite para vocês também. Obrigado pelo carinho. Vocês nos encontram no @podcastcelebrando em todas as mídias sociais, Spotify, Deezer, Tidal, YouTube e tudo mais.
E deixa agora vocês com o Doutor Diogo para fazer o fechamento. Então a gente se fala daqui alguns dias com algum novo assunto que, como sempre, não sabemos qual é. Tá com você, Diogo. Valeu, gente!
Pessoal, muito obrigado por tudo. Obrigado pelos feedbacks que temos recebido do podcast. Para nós isso é muito importante. Então comentem, compartilhem. Espero que um episódio como de hoje tenha sido muito proveitoso para vocês, que vocês tenham gostado bastante desse tema. Mas caso tenham mais sugestões, estamos totalmente abertos para que vocês sugiram temas, sugiram pautas. Para nós isso é extremamente importante. Nosso muito obrigado.
Lembrem que depressão é coisa séria, merece um bom tratamento. Não caiam em fake news, procurem as evidências verdadeiras. Nós temos ainda hoje o padrão ouro de tratamento, nós temos ainda hoje profissionais adequados para que você procure e para que seja muito bem tratado. Mas fiquem atentos Porque a oferta de coisas que ainda não tem evidência, ela está crescente na rede social, principalmente. Isso vai só te prejudicar, não vai resolver nada.
E o pior de tudo, fazem com que você gaste dinheiro que às vezes não tem para conseguir resolver algo que não vai ser solucionado. Então, nosso muito obrigado mais uma vez e até a próxima, pessoal. Valeu!