Episódios de Central 3

#95 História de Portugal Pt.1

06 de maio de 20262h39min
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A temporada 2026 do Fronteiras Invisíveis do Futebol, o podcast de História que você ama, é um oferecimento exclusivo @petlovebrasil!

O Brasil foi colonizado por portugueses, tendo assim uma História em comum com além-mar.

Já este ano marcará o que provavelmente será a última Copa do Mundo disputada por Cristiano Ronaldo, fazendo de Portugal o tema ideal para o retorno do Fronteiras Invisíveis do Futebol.

Nessa primeira parte, embarque desde a Lustiânia na antiguidade até a União Ibérica, em 1580, com muita informação, cultura e leveza, além dos quase 100 anos da seleção portuguesa e da volta da coluna O Livro, do nosso amigo Ubiratan Leal. Compartilhe e divulgue nosso retorno!

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Assuntos4
  • Retorno do Fronteiras Invisíveis do FutebolTemporada 2026 · Patrocínio da Pet Love · Formato da temporada · Cristiano Ronaldo
  • Invasão Muçulmana e ReconquistaCalifado Omíada e Al-Andalus · Al-Garb (Algarve) · Mossarabi e influência cultural árabe · Emirado de Andaluz e Califado de Córdoba · Reinos Taifas · Início da Reconquista cristã · Influência árabe na língua portuguesa · Condado Portucalense
  • Escravidão no Império PortuguêsInvasão da Hispânia · Província da Lusitânia · Urbanização e infraestrutura · Ponte de Trajano · Centro Romano de Évora · Cristianismo em Portugal · Origem da língua portuguesa
  • Origens de PortugalFóssil do Vale do Lapedo · Arte rupestre do Vale do Coa · Gruta do Escoural · Antas e Menires · Tribos celtas (Galaicos, Cinetes, Lusitanos) · Entrepostos fenícios e cartagineses · Caretos de Podense · Viriato e Guerras Lusitanas
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Central 3. Está no ar com Felipe Figueiredo e Matias Pinto, o Fronteiras Invisíveis do Futebol. O podcast que desvenda a geopolítica do planeta bola.

Boa alvorada, ouvintes da Central 3. Depois de uma longa espera de quase quatro anos, está de volta o Fronteiras Invisíveis do Futebol. Mais uma parceria aqui da casa com o Xadrez Verbal. Meu nome é Matias Pinto e, como sempre, estou ao lado dele. Meu amigo e companheiro, Felipe Nobre Figueiredo, o homem por trás do tabuleiro.

Olá, meu caro Matias, olá a todos os nossos ouvintes, todo mundo que passou esses anos todos pedindo pelo retorno do Fronteiras, apoiando o retorno do Fronteiras e ouvindo o Fronteiras, fazendo com que as métricas dele continuassem atraentes nos principais agregadores e possibilitaram, então, que a gente conseguisse viabilizar esse retorno.

Temos aqui que agradecer o Otávio por ter nos ajudado bastante nesse processo e principalmente a Bruna e a Mayara da Pet Love, pois a Pet Love vai ser a patrocinadora exclusiva dessa temporada do Fronteiras Invisíveis do Futebol em ano de Copa do Mundo. Então vocês...

retribuam a confiança que eles tiveram no nosso trabalho e que vocês têm no nosso trabalho e confiem no trabalho da Pet Love também. Então, vai ser uma temporada de 16 programas, tá, gente? Que vai começar em maio, vai até outubro. Antes da Copa do Mundo, ele vai ser quinzenal, às terças-feiras. Durante a Copa do Mundo, vai ser semanal.

Onde eu e o Matias vamos falar especialmente dos países estreantes ou de países que não tem programa ainda e que vão enfrentar o Brasil. E depois ele volta a ser quinzenal. Vamos tentar trazer convidados aqui no nosso programa. E a gente achou por bem... A gente não, eu, porque o Matias é hater dele.

Matias é hater do Cristiano Ronaldo. Mas, falando sério agora, a gente pensou em começar por Portugal, primeiro porque é um país que, devido inclusive aos laços históricos com o Brasil, vai ter muito conteúdo pra gente falar. A gente tem, basicamente, o quê? Dois semestres de história portuguesa na faculdade. E, além de ser um tema legal, um tema com muita história, né?

Tem o fato de que 2026 provavelmente vai ser a última Copa do Cristiano Ronaldo, um dos jogadores de mais destaque na história do esporte, além de termos outros grandes jogadores portugueses e clubes portugueses que vamos falar, mas vamos lembrar o principal, esse é um programa de história, de política, de cultura. Esporte é cultura, futebol é cultura.

Então, a gente vai começar a fechar essa abertura com aquele pedido, né? Espalha a palavra, né? Divulgue para as pessoas, avise com o programa de história, né? Compartilhe, divulgue esse retorno do Fronteiras e Visíveis do Futebol, porque a gente vai fazer um trabalho com muito carinho, com muito esmero, né? Como diria aquela musiquinha infantil, e que vocês vão gostar e não vão se arrepender de ter pedido o retorno dele.

E muito obrigado a todos vocês. E também fazendo um preâmbulo aqui, este é um díptico. A gente vai ter dois programas sobre Portugal. Então, nesta edição, a gente vai tratar sobre Portugal desde a Idade Antiga.

até mais ou menos ali a União Ibérica, no final do século XVI. E no bloco de futebol, a gente vai tratar sobre a seleção portuguesa. Já na segunda edição, a gente vai falar desde a restauração até a república e o fim do Império Português. E também falaremos sobre os clubes portugueses. Então, fazendo esse pequeno esclarecimento.

E, meu caro Matias, antes da gente passar nos legados do Império Romano que a gente vê em Portugal até hoje, vamos lembrar que o retorno do Fronteiras Invisíveis do Futebol é feito em parceria com a Pet Love. E esse mês de maio de 2026...

É o mês de aniversário da Pet Love. E a Pet Love aproveita essa data, então, para reforçar o compromisso da Pet Love com tornar o cuidado com os pets mais acessível para todos.

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A história

Bem, Felipe, toda história tem um começo, né? Então a gente volta a cerca de 24 mil anos na história para falar do que hoje é Portugal. Exato. A sua abertura foi muito precisa, né, Matias? A gente tem que lembrar os nossos ouvintes que, assim, Portugal é um estado que tem suas origens relativamente antigas.

Mas a gente vai falar muita coisa do que hoje, onde hoje é Portugal, mas que não era exatamente Portugal. Era antes de Portugal. E você mencionou os dados de 24 mil anos, porque uma coisa que a gente fazia nos roteiros e voltou a fazer, para dar uma ajudada, a gente procura os patrimônios da Unesco, de cada país.

E aí, no caso português, eu acho que tem algumas coisas que a gente pode destacar nessa idade mesolítica, antes do mesolítico também. O primeiro deles é que tem um fóssil de uma criança no Vale do Lapedo, que é um dos indicadores mais antigos da Europa.

do cruzamento de Homo sapiens com Neandertais, ou seja, uma população híbrida resultante do cruzamento dessas duas espécies. Existem muitas hipóteses sobre os Neandertais, inclusive que os Homo sapiens teriam extinto eles, e esse fóssil tem mais ou menos 24.500 anos de idade. E há mais ou menos 7.000...

e 500 anos atrás, nós temos uma cultura mesolítica em Portugal que deixa muitos vestígios como a arte rupestre do Vale do Coa, que é hoje patrimônio cultural da humanidade pelo Unesco. E também faz parte dessa cultura a Gruta do Escoural, que fica mais ao sul do país. E no Neolítico, meu caro Matias, tem uma coisa muito interessante que é ficar bem.

existiam as antas em Portugal. Mas esse caso não é anta o animal. Anta é o nome que se dá para um esconderijo grande, uma espécie de caverna, uma construção dentro da pedra feita pelos homens da época. Inclusive, o estádio anterior do Futebol Clube do Porto era o estádio das antas. Pois é, e não era a anta o animal. Ou tapir, como é conhecido aqui na América do Sul.

Eu não lembrava disso. Então nós temos a Anta Grande do Zambugeiro e nós temos também o registro de Menires no território onde hoje é Portugal. E aí falando em Menires, quando a gente fala Menir, pelo menos eu e o Matias, a gente pensa imediatamente no Obelix.

que era um gaulês, consequentemente era um celta. E o território onde hoje é Portugal, justamente no período neolítico, nós tivemos a chegada de diferentes tribos celtas, como os galaicos, os cinetes e os lusitanos. Já vamos falar mais deles. Ao sul do que onde hoje é Portugal, eu vou falar mais do que hoje é Portugal.

estabelecem-se também alguns poços comerciais na costa, alguns deles semipermanentes, por fenícios e depois cartagineses. E isso eu quero que o nosso ouvinte preste bem atenção. Ou seja, há 2.500 anos, nós já tínhamos entrepoços comerciais marítimos em Portugal. Por quê?

causa da localização de Portugal. A localização de Portugal vai ser muito importante para a gente entender a história portuguesa. E nesse momento aqui, qual é a importância, então, dessa localização? Fica depois do Estreito de Gibraltar, depois, pensando na lógica, um navio sai da Fenícia, onde hoje é o Líbano,

cruza o Mediterrâneo, vai parando os entrepostos comerciais, cruza Gibraltar, e aí você logo depois tem ali a costa portuguesa. Então ali é um local ideal para o entreposto. E depois esse local vai ser importante também para a conexão entre o Mediterrâneo e os mares do norte, como a gente vai ver. Inclusive, a cidade do Porto teria sido um entreposto fenício, teria sido fundada como entreposto fenício.

Uma origem celta, meu caro Matias, vista até hoje em Portugal...

e os nossos ouvintes que moram em Portugal, que são portugueses, talvez conheçam, é um dos carnavais tradicionais de Portugal, os caretos de Podense, a freguesia de Podense, que são patrimônio cultural e material da humanidade, é um carnaval tradicional, em que eles usam roupas representando espíritos para afastarem os maus espíritos, justamente.

usam colchas vermelhas, lã colorida e, como disse, máscaras, como esses carnavais tradicionais europeus, pré-cristianismo e muitos deles inclusive pré-romanos. E falando dos lusitanos, os lusitanos se tornam muito importantes. Lusitano é sinônimo de português, por conta do nome que os romanos vão dar à província, mas originalmente...

era uma tribo céltica, provavelmente oriunda dos Alpes. A maior parte das informações dos lusitanos foram transmitidas pelos textos gregos e romanos, algo parecido com o que acontece com os gauleses também. Porém, nós temos inscrições em língua lusitana

em alfabeto latino, o que é muito interessante, porque isso é algo relativamente incomum pensando nas outras populações celtas da Europa nesse mesmo período. Os lusitanos tinham...

um domínio metalúrgico muito avançado, e isso pode ser visto hoje no fato de que nós temos vários armamentos, armaduras, escudos desse período preservados em museus, como, por exemplo, o capacete de lanhoso, que está num museu em Portugal, um capacete da Era do Bronze, feito de bronze, e o principal líder lusitano, meu caro Matias, foi o viriato.

que liderou os lusitanos contra a expansão romana, nas chamadas Guerras Lusitanas. Ele que fazia uma liderança, uma guerra especialmente por guerrilhas.

E, aparentemente, o seu cargo de chefe tinha uma natureza eletiva a partir dos feitos militares daquele homem. Ele muito provavelmente era um pastor e que, a partir da sua bravura, da sua coragem, se torna o líder dos lusitanos. E o nome Viriato, inclusive, existem discussões sobre a origem desse nome.

Porque viriato, em latim, seria, fazendo uma tradução bem adaptada, bem informal, seria omão. O cara é um omão, ele é muito corajoso. Viril. Exatamente, ele é bravo, ele é viri e atos de grande. Porém, existem também interpretações que foi uma adaptação romana.

do termo céltico, né? Úrio, que significa também homem, também viril, ou então uma interpretação de que não seria um nome, mas seria até mesmo um título. E tem um cognato, tá? No galês até hoje, que é o guriad.

G-W-R-I-A-D. Então, muito provavelmente Viriato era um nome, mas ainda não sabemos direito se veio dos Celta, se veio dos Romanos, e tem essa possibilidade de ser um título. Vejam o que eu digo muito provavelmente, porque a gente, até como historiadores, nós vamos evitar...

dar aqui, vaticinar algumas coisas que existem em debates historiográficos. Então, o nosso ouvinte pode até trazer algumas informações, trazer, olha só, segundo tal ator já está pacificado, o que significa isso, isso e isso, mas nós aqui a gente vai tentar evitar esse tipo de coisa. E tem um monumento ao Viriato.

Existem vários monumentos ao Viriato, em Portugal. Um deles, um dos mais conhecidos, fica em Viseu, que fica na região central de Portugal. E o Viriato, como muitas, emulando até a trajetória do herói típica, ele foi assassinado pelos romanos depois de ter sido traído. Um general...

subornou guerreiros celtas que haviam sido enviados como embaixadores para os romanos. Esses embaixadores, então, retornaram para o seu acampamento

e assassinaram o viriato enquanto ele dormia. E depois, supostamente, reza a lenda, que quando os assassinos voltaram e pediram para o general romano o seu pagamento, ele disse que Roma não paga traidores.

e o general que termina por conquistar os lusitanos, como ele assassinou o Viriato, ele teve negado o seu triunfo em Roma, ele não teve o seu desfile triunfal, isso estamos falando de 139 a.C. ou antes da Era Comum, dependendo da terminologia que você preferir.

E durante a pesquisa do programa, eu cheguei ao nome do Viriato também, já que o Fernando Cruz, que foi um dos integrantes da seleção portuguesa de 66 e bicampeão europeu pelo Benfica, nasceu na freguesia de cabanas de Viriato.

que fica no município de Carregal do Sal. Eu adoro os nomes dos topônimos portugueses. E falando em topônimos, os romanos... Vejam, os romanos não invadiram Portugal apenas, eles invadiram a Hispânia como um todo durante a Segunda Guerra Púnica contra Cartago.

Inicialmente, a Hispânia, que é a Península Ibérica, foi anexada como duas províncias diferentes, a Hispânia Siterior e a Hispânia Ulterior, lembrando que a Península Ibérica tinha muitas minas de cobre, estanho, ouro e prata, porém, no final do século I, então aí estamos falando de quase 200 anos depois da invasão romana original, Então, vamos lá.

foi criada a província da Lusitânia, que correspondia mais ou menos à parte sul do que é Portugal hoje e uma parte do que hoje é Espanha. E a criação da província da Lusitânia também não veio.

acompanhada da total conquista da região. O sul foi ocupado com relativa facilidade, porém, no norte, a resistência dos lusitanos e outras resistências menores também permaneceram. Os romanos demoraram praticamente dois séculos para terminar de conquistar a Península Ibérica. Eles só foram terminar a conquista já no período do Imperador Augusto.

Então, olha só, a conquista da Península Ibérica começa na Segunda Guerra Púnica contra Cartago, ainda na República, e só vai terminar no Império com Augusto. Em 74, o imperador Vespasiano concedeu o direito latino à maior parte das habitações na região e, em 212, a cidadania romana foi garantida a todos os homens livres do Império na região.

A chegada dos romanos, já diria o mundo de Brian, o que os romanos nos deram? Os romanos trouxeram especialmente o processo de urbanização. Então você tinha, no que hoje é Portugal, além da mineração que nós mencionamos, muita agricultura, inclusive as terras portuguesas são muito férteis, muito propícias para o cultivo de cereais e, obviamente, de uvas.

A história do vinho em Portugal é bastante antiga, você também tinha a pesca, claro, porém, com a chegada dos romanos, você vai ter a expansão da infraestrutura, com estradas, aquedutos, pontes, cunhagem de moeda e um processo de urbanização.

E aí, meu caro Matias, nós temos, por exemplo, a ponte de Trajano, na cidade de Chaves, que está de pé até hoje. Ela foi construída no início do século II e está de pé até hoje. As pessoas atravessam a ponte de Trajano até hoje. Pelo que eu vi, apenas pessoas. Para veículos foi fechado, tem umas décadas, mas carruagens cruzavam essa ponte.

E sabe como se referem a pedestres em Portugal? Como é? Peatone? Peões. Peões. Ah, olha só.

E nós temos também o Centro Romano de Évora, meu caro Matias, com o Templo de Évora. E o Centro Romano de Évora, esse centro histórico, é patrimônio mundial pelo Unesco também. Évora que fica mais ao sul de Portugal e no interior. Évora não fica perto da costa, não fica perto do mar. Eu, infelizmente, ainda não conheço Évora.

E, meu caro Matias, retomando, a gente falou da ponte de Trajano, a gente falou do centro de Évora, mas nós temos dois legados romanos importantes para os portugueses até hoje.

O primeiro deles é o cristianismo. Portugal é um dos países mais católicos do mundo, em proporção, e o cristianismo chega na região especialmente no século III. Já no século IV, ele já é a religião da maioria.

No século IV, inclusive, nós vamos ter um movimento considerado, naquele momento, herético por Roma em Portugal, o Priscilianismo, que tinha uma tendência ali assética. E é uma coisa interessante a gente lembrar, o cristianismo passou por muitos embates nos seus processos de, digamos assim, homogeneização.

Esses embates foram tanto intelectuais, e aí por isso que você tinha os concílios, então o concílio de Nicea. Vamos aqui reunir todos os teólogos, todos os intelectuais da igreja, para responder perguntas que as pessoas têm e para formular como vai ser o credo.

e nós também tivemos movimentos que estiveram à margem disso e que muitas vezes eram classificados como heréticos, consequentemente perseguidos, as pessoas mortas, etc. O início do cristianismo como religião oficial do Império Romano, os primeiros séculos do cristianismo, depois do Edito de Milão, de 313, do Constantino, foi um processo bastante violento também. E aí você teve os movimentos dos cristãos primitivos, os anabatistas, etc.

Então, um legado dessa presença romana foi o cristianismo. E o outro é o que o Olavo Bilac, o patrono do serviço militar obrigatório no Brasil, para quem não sabe, isso é verdade, o que o Olavo Bilac chamou de última flor do lácio.

o idioma português. O latim vulgar que vira a base da língua portuguesa, do idioma português, que hoje em dia está progressivamente se tornando o idioma brasileiro devido à diferença de números de falantes. Inclusive, uns tempos atrás, teve aquelas matérias que falavam que alguns portugueses estavam ficando bravos que os filhos estavam aprendendo gírias com o Felipe Neto e começando a falar com sotaque carioca. Uma coisa bem doida.

E lembrando que não é a primeira vez que a cultura de massas brasileiras interfere em Portugal, porque eles têm um índex de nomes por conta da influência das novelas brasileiras. Então, para registrar uma criança portuguesa tem que ser de acordo com nomes tradicionais do país. Não pode ter estrangeirismos, principalmente vindos do Brasil, por conta dessa influência cultural.

E em Portugal ocorre o fenômeno que ocorre no restante do Império Romano, especialmente no Império Romano do Ocidente. Esse processo que começa até antes nos territórios onde hoje são a França, parte da Bélgica, mas que é o processo da chegada dos povos germânicos.

Muitas aspas aqui, né, gente? Os bárbaros. Por que eu digo muitas aspas? Porque a gente diz muitas aspas e isso tem que ser colocado. A origem da palavra bárbaro está no grego, que é o bar-bar-bar, que é a pessoa que não sabe falar grego. Então ela só, entre aspas, balbucia na visão dos gregos porque ela não sabe se comunicar no idioma civilizado. Lembrando que foram os próprios gregos que cunharam o termo xenofobia também.

E o Aristóteles, especialmente, vai cunhar a visão de que os bárbaros eram inferiores e por isso poderiam ser escravizados, caso fossem derrotados em batalha. Essa é uma das origens da escravidão, é a origem clássica da escravidão, especialmente na Europa e pelo Mediterrâneo.

Porém, os povos germânicos eram outra civilização do que os romanos. Eles tinham seus costumes próprios, eles tinham inclusive costumes, palavras, tecnologias que ficaram nas civilizações até hoje, na cultura até hoje. Então, um exemplo que eu sempre dou, e é um exemplo que agradeço, um abraço para o professor Marcelo Cândido,

Eu acredito que todo mundo pense que é razoável uma pessoa, se comete um crime, ser julgada pelos seus iguais, no que a gente chama de júri hoje. O júri é uma herança germânica, uma herança, entre aspas, bárbara.

na visão romana você seria julgado pelo magistrado, que é a autoridade, muitas vezes, divinizada. E esse embate entre o direito romano codificado e o direito, o common law germânico, o direito constitucionário, o júri, etc., ele é muito forte até hoje, especialmente em países como...

Portugal, Espanha e França, que foram países que tiveram mais ou menos aí muitos das duas influências. Mas voltando, os povos germânicos começam a se assentar dentro do Império Romano, especialmente em modelos de federação, que a ideia é de, olha só, você, povo germânico, você recebe a terra, você vai ter direitos como romano, em troca você vai servir no exército, em troca você vai ajudar na guarda das fronteiras, você vai pagar impostos.

porque o Império Romano estava passando por um processo, inclusive, de declínio populacional, porque o Império Romano era baseado na expansão. Quando essa expansão territorial é freada, ou se esgota, ou se exausta, o Império Romano começa a entrar em decadência.

porque aí você já não tem fluxo de pessoas escravizadas, você não tem mais pilhagem, todo esse tipo de processo. Claro que esse não é o único motivo. Quem falar que só existe um motivo para a queda do Império Romano, para o declínio do Império Romano, está te enganando. É uma das coisas mais multifatoriais que existe. No caso português, meu caro Matias,

nós temos as chegadas dos suevos, dos vândalos e dos alanos primeiros. E depois dos visigodos. E aí nós vamos ter o estabelecimento de um reino suevo com capital em Braga, Braga onde hoje é Portugal, que vai ser basicamente a região norte do que hoje é Portugal, e o sul.

do atual Portugal, vai ser parte do reino visigótico, que tinha capital em Toledo. Sabe, você, nosso ouvinte, ah, eu visitei Toledo, aquela cidade medieval, eu comprei uma espada, ou então um parente meu visitou e me trouxe uma espadinha de lembrança, ou então você talvez já tenha conhecido o historiador e filósofo Isidoro de Sevilha, isso é o reino visigótico.

da Península Ibérica, que também incluiu o sul da atual Portugal. Então nós temos a chegada dos povos germânicos em modo de federação e progressivamente, com a decadência romana, consequentemente decadência das cidades, intensificação do modo de vida rural, nós vamos ter o estabelecimento desses reinos, muitas aspas novamente, bárbaros.

E, meu caro Matias, tem uma coisa muito interessante, que é o seguinte, os suevos, especialmente no norte, eles vão adotar o catolicismo, eles serão evangelizados pelo São Martinho de Braga, e, inclusive, alguns portugueses consideram o reino suevo o primeiro reino cristão da Europa.

porque aí você tem todas as discussões, porque você tem o batismo de Clóvis, mas foi o batismo do reino, foi o batismo da população, você tem o batismo coletivo lá na Ucrânia, enfim. Mas foi um dos primeiros reinos cristãos da Europa, o reino suevo de Braga, que adota o catolicismo e também usa a organização eclesiástica como ferramenta administrativa.

Isso quer dizer o quê? Que a partir de um documento de 569, o Paroquiales Suevorum, nós vamos ter a administração do reino dividida e centrada nas paróquias.

Por isso que até hoje a ideia de paróquias é tão importante em Portugal. Paróquia em Portugal não é apenas a região da autoridade de uma igreja. Também é uma divisão administrativa. Entre assas, um dos distritos em Portugal, inclusive nas eleições. Assim como as freguesias. Isso, freguesias e paróquias.

Enquanto isso, os visigodos, meu caro Matias, eles professavam o arianismo, embora eles tolerassem o catolicismo da população, porém, eles mantinham o arianismo como a sua religião, até como uma maneira de se separar, entre aspas, do populacho.

os visigodos progressivamente entraram em conflito com os suevos até que em 595 o rei visigodo Leovigildo conquistou o reino suevo de Braga e assim, os nomes nos reinos germânicos são sempre maravilhosos os reinos dos reis merovingios então é Chilperico Childerico aqui você tem Leovigildo são sempre nomes maravilhosos

Essa rivalidade entre os visigodos e os suevos, e depois também questões internas ao reino visigodo, incluindo nessa questão de integração religiosa e uma crise dinástica entre dois postulantes ao trono, faz com que o reino visigodo...

se enfraqueça e em 710 nós vamos ter a invasão do califado na Península Ibérica. Mas antes da gente falar do califado, meu caro Matias, é interessante que é nesse período

que se consolida o nome Portugal. Nós vamos ter os registros escritos do reino dos suevos falando da cidade de Porto Cale. Muito provavelmente se refere ao Porto...

Cale, palavras separadas, onde atualmente é a Vila Nova de Gaia, na região metropolitana do Porto. Então era o Porto Cale, que vira Porto Cale, tudo junto. Em 841 nós vamos ter a província portugalense.

E vai ser em 1129 que nós vamos ter o nome Portugal aparecendo numa carta de doação, no caso da igreja de São Bartolomeu de Campelo. Então veja, com o reino dos Suevos que nós vamos ter os primeiros registros escritos de Porto Cale.

Mas, muito provavelmente, se referia ao Porto de Cali, na atual Vila Nova de Gaia, e que possivelmente era um assentamento fenício mil anos antes, 800 anos antes, vamos colocar assim. Então, essa é a origem do nome Portugal.

E aí, em 711, um exército do califado Omíada, formado especialmente por berberes recém-convertidos ao Islã, liderados pelo Tarique, invade a Península Ibérica, ali na lógica da conquista religiosa, inclusive, rapidamente avançam pela Península Ibérica, que se torna uma província do califado chamada de Al-Andalus.

E o oeste da península, ou seja, onde hoje é Portugal, era o quê? O Ocidente. E o que é O Ocidente em árabe? Al-Garb, que é a origem de Al-Garve, uma das regiões portuguesas que inclusive está no título, por exemplo, quando o Brasil é promovido, a Reino Unido é Reino Unido de Portugal, Brasil, Al-Garve.

Algarve em último. As populações puderam permanecer nas suas terras e manter a sua religião, fossem cristãos ou fossem judeus. A gente vai falar mais da questão dos judeus em Portugal no último bloco desse programa. Porém, essas pessoas tinham que pagar um imposto dentro dos califados muçulmanos.

As religiões do livro, ou seja, as religiões monoteístas, podiam existir desde que pagassem o imposto. O que você não podia ser, e aí você ou se convertiu ou será morto, era politeísta. E você vai ter um processo de estabelecimento do Mossarabi.

que é uma língua que une o árabe, que une os idiomas românicos da região e influência cultural árabe e também influência cultural cristã. Vai ter a introdução de novas culturas na Península Ibérica com a chegada do califado dos árabes, então arroz e alguns cítricos.

pêssegos, eles foram introduzidos pelos árabes e também o estabelecimento de, em vez de grandes campos de produção, como no modelo romano, agora as pequenas hortas. Inclusive, horta é uma palavra de origem romana que significa terreno cercado, qualquer terreno cercado, porém, em português, ganha esse significado de ser uma pequena plantação.

por conta dessa influência dos árabes e do califado. Ainda no século VIII, meu caro Matias, em 756, nós temos a fundação do Emirado de Andaluz, que também vira o califado de Córdoba, que vai ser uma província, porém, já uma província com muita autonomia, inclusive resistência e conflitos internos dentro do califado islâmico.

E a cidade de Córdoba vai se tornar uma das principais cidades do mundo. Um centro financeiro, cultural, comercial. E você vai ter o quê? Universidades, bibliotecas, escolas de medicina e de tradutores. Isso vai permitir que conhecimento grego...

seja traduzido para o árabe e do árabe chegue na região, ou então do árabe seja traduzido para o latim, então a Península Ibérica, gente, no período do final da Alta Idade Média e início da Baixa Idade Média, é uma grande encruzilhada civilizatória, com influências romanas, germânicas, árabes, influências cristãs, judias e muçulmanas. Nem seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen seventeen

rotas comerciais por terra e por mar, introdução de novos produtos e novos cultivos, a presença de terras férteis. Tudo isso vai florescer em um fluxo muito grande de conhecimento e a gente vai ver o resultado disso posteriormente. Qual é esse resultado? A Península Ibérica, a partir do estabelecimento dos reinos de Portugal e de Leão.

castela, vai dominar o mundo por virtualmente três séculos. Mas isso é consequência desse processo, dessa grande encruzilhada civilizatória e dessa mistura, desse fluxo de informações, conhecimento, técnicas de plantio, todo esse tipo de coisa.

Em 1009 começa um período de guerra civil interna, Andaluz, com a formação dos vários reinos muçulmanos, as Taifas. Então você vai ter a Taifa de Badajosa, a Taifa de Sevilha, a Taifa de Alcácer e por aí vai.

Com isso, nós vamos ter um enfraquecimento do poder político e militar dos reinos muçulmanos e, ao mesmo tempo, nós vamos ter o início da reconquista pelos reinos cristãos, especialmente a partir dos reinos de Aragão, Leão e Castela.

onde hoje é Portugal, existiam três taifas. A taifa de Mértola, a de Silvis e a de Tavira. Vejam, um território relativamente pequeno estava distribuído em três reinos. E, por favor...

Isso acho muito importante a gente falar, né, Matias? Tanto por uma questão de evitar anacronismos, mas também de evitar essa visão muito romantizada e presente em alguns círculos políticos hoje, como os chamados Red Pill, que vem a ideia de guerras religiosas ou de guerras civilizatórias. Então, é o cristianismo versus o Islã, etc. Os deus voltinhos, né?

Os deus voltinhos, ótimo. Cujo maior símbolo deles está hoje no cargo de secretário de defesa dos Estados Unidos. Pois é, tem tatuado, inclusive. Pois é. Mas você tinha uma região com vários reinos. E reinos cristãos, reinos muçulmanos, diferentes forças econômicas agindo. Então a coisa não era...

preto no branco, não era os muçulmanos de um lado, os cristãos do outro, você tinha guerras entre cristãos, guerras entre muçulmanos cristãos se aliando com muçulmanos, muçulmanos contratando cristãos, um grande exemplo disso é que o grande símbolo da reconquista castelhana El Cid, Rodrigo de Bivar né

ele foi contratado por líderes muçulmanos, ele combateu pelos muçulmanos também, porque ele era um líder militar notável, era um tático aparentemente genial, etc.

Então, tirem da cabeça a ideia apenas de uma guerra religiosa de muçulmanos e cristãos de um lado. Essa poderia ser, como é que eu posso dizer, a linha mestra em muitos momentos, mas existiam muitas nuances também. A mesma coisa que ocorre no Cáucaso, a mesma coisa que ocorre nos Balcãs, a mesma coisa que acontece na conquista de Constantinopla.

A conquista de Constantinopla, que é um marco da expansão do Islã, ela só foi possível porque você tinha os húngaros protestantes lutando do lado dos exércitos otomanos. Por quê? Porque eles eram muito bem pagos, porque eles eram muito capazes, eram intelectuais, estavam construindo os melhores canhões do período, e aí o sultão foi lá e contratou eles. E eles falaram, olha só, a gente está lutando do lado dos muçulmanos contra outros cristãos,

cristãos, mas a gente está sendo bem pago para isso. Então, como eu disse, tem muitas nuances nesse processo todo. E aí, a presença árabe na Península Ibérica dura praticamente oito séculos, porém, a partir desse movimento de reconquista, que começa com os reinos de Leão, Castela, Aragão, Astúrias também, inclusive o título do príncipe herdeiro na Espanha é Príncipe de Astúrias.

porque foi a única região da Espanha que não foi ocupada pelos árabes. Exatamente, e era o apelido do Fernando Alonso. Que era natural das Astúrias. Quando ele era novo e quando ele ainda vencia corridas, um abraço para o nosso querido Augusto, Shidozik é o maior fã de Fernando Alonso que existe. Ele tem pôsteres, enfim, o sonho dele inclusive é conhecer o Fernando Alonso.

Mas nós temos então o processo de reconquista, e antes da gente falar da reconquista em Portugal, a gente tem que falar do aspecto mais conhecido, quase clichê e mais visível da influência desse legado árabe em Portugal, que é nas palavras.

Então, muitas palavras, tá, gente, que começam com A ou AL, e tem o AL em algum momento da palavra, ou o ZEM, o fonema, né, Z, então, azeitona, azeite, armazen, tudo isso é palavra de origem árabe. Açúcar, açafrão, também de origem árabe. Você tem a expressão Oxalá, que vem de Inxalá. Sim, e no espanhol vira Orhalá.

E, meu caro Matias, o que pouca gente fala, ninguém fala nada, é o caminho reverso. Porque, por exemplo, em árabe, na maior parte dos países árabes, a fruta laranja é al-Bortugal. Tipo, a fruta é de Portugal. Em persa, é Portugal. Bússola, em árabe, é bússola.

E banco é banca. Palavras que vieram do português. Do português barra castelhano, do latim falado na Península Ibérica nesse momento. Então também tem um movimento reverso. Nesse sentido, a gente vai ter também o galaico português do noroeste da Espanha e de Portugal. Inclusive, fica aqui um abraço para o professor João Paulo Garrido Pimenta, cujo primeiro texto que eu li na faculdade era em galaico português. Ele falou que era um divisor de águas.

Lembrando que nós temos um programa sobre a Galícia. Sim, o primeiro, inclusive. O primeiro, inclusive. É um dos casos de a gente eventualmente fazer um remake. Nessa temporada a gente ainda não vai fazer remakes. A gente achou que como a gente está retornando ainda na hora de remake. Mas a gente vai fazer alguns remakes. Vai ter um quase remake. É, é. Vai ter uma cidade importante.

E falando da reconquista em Portugal, a reconquista no que hoje é Portugal começa justamente a partir de visigodos do reino das Astúrias, como você mencionou. Em 868 é estabelecido o condado portugalense, como parte desse processo de reconquista.

que era a região entre os rios Límia e Douro. E era um condado, com perdão da redundância, sob a autoridade do rei Alfonso III das Astúrias. Porém, esse condado, que veja, era uma unidade, usando o termo bem banal, aquela coisa de vassalo e suzerano, esse condado vai se tornar cada vez mais forte, mais influente.

A partir, já no final do século X, o título utilizado na região vai ser Magnus Dux Portugalensium, ou seja, Granduque de Portugal. E nós vamos ter o Conde Gonzalo Menendez.

e o seu filho Menendo, que vão se tornar ali os fundadores desse condado, já com uma força muito grande, que tinham um variado grau de autonomia, e essa autonomia, primeiro dentro do reino das Astúrias, depois dentro do reino de Leão, depois dentro do reino da Galícia.

nesse período, meu caro Matias, o que nós teremos em Portugal é o ataque, saques, pilhagem, feitas por nórdicos na década de 960, o que popularmente é chamado de vikings, mas lembrando que viking não é um povo, viking é um ato. É uma ocupação.

uma ocupação. Viking é o ato de ir pilhar. Então você tinha um nórdico que passava o ano pescando, plantando, etc. E ele ia viking, ele ia pilhar. Aí chegava um camarada dele e falou vamos roubar uns cristãos ali? Aí bora! Vamos escravizar uma galera? Mais ou menos isso. Como já disse o nosso querido Marco Gomes, o viking é o cangaceiro do mar da Idade Média.

só que como ele é branco, tem aquela ideia, muitas pessoas constroem. Uma vez teve um cara, ele veio me perguntar, por conta de... Tem mais de uma década isso. Quando a gente começou a produzir conteúdo na internet, ele veio me perguntar, ele falou assim, não, porque eu acho que eu tenho ascendência viking, eu descendo de vikings. Eu falei assim, porque o seu pai saiu para saquear um monastério, por acaso?

tipo, você pode ter a sedência nórdica alguma coisa assim, mas enfim isso é outra discussão

O ponto aqui é, nós temos a formação do Condado Portocalense em 868, ou seja, final do século IX, e do final do século IX até então o século XII, nós vamos ter esse condado crescendo em poder militar e poder econômico, especialmente pelo seu acesso ao mar. Lembre-se, o centro do reino de Leão e Castela...

é Toledo, que hoje é parte da Grande Madri, é interior, é campo. O Condado Porto Calense está no mar, então ele tem acesso a outras atividades econômicas, como a pesca, e acesso ao comércio, ou seja, mais dinheiro, e o estabelecimento de uma elite mercantil. Elites mercantis, falando de uma forma geral, são uma das coisas que movem mudanças da história, o fluxo comercial. Tá?

E nesse processo, então, que dura três séculos, nós vamos ter tentativas, inclusive, de independência, quando o Reino da Galícia derrota o Condado Portocalense, como na Batalha de Pedroso, e nós vamos ter a formação do centro do Condado Portocalense,

na cidade de Guimarães, e o centro histórico de Guimarães é patrimônio cultural da Unesco. O Conde Henrique, ou seja, o Conde do Condado Portucalense, ele continua esse processo de reconquista, ou seja, o Condado Portucalense vai se expandindo na direção ao sul, porém vai navegando nas intrigas políticas da corte de Leão, que está a leste, até o momento em que...

Quando o Conde Henrique morre em 1112, a população do condado, especialmente essas famílias, essa elite mercantil, falam, agora é hora de independência. A viúva do Conde Henrique, a Tereza, assume o poder em nome de seu filho.

Ela se associa à nobreza da Galícia para desafiar o domínio da rainha Urraca de Leão, que era irmã dela, porém as forças de Leão derrotam as forças do condado portocalense. Em 1121, a Tereza tem que assumir uma posição de vassalagem, de submissão à rainha Urraca.

Só que então, o filho dela, o Afonso Henriques, depois de chegar à maioridade, derrota as forças da própria mãe na Batalha de São Mamede em 1128 e passa então a liderar esse processo de independência.

Em 1139, ele derrota um exército árabe-muçulmano, chamado pelos portugueses de Mouros, na batalha de Ourique. Ele passa a utilizar o título de rei dos portugueses, depois dessa vitória, na Reconquista.

E, em 1143, o rei Alfonso VII de Leão e Castela tem que reconhecer a independência portuguesa no Tratado de Zamora, que foi assinado na Catedral de Zamora, que fica na cidade de mesmo nome, dentro da Espanha. Então, nós temos o ano de 1143 a formação de um Portugal independente.

Inclusive, a gente já repercutiu no xadrez verbal que existe um coletivo ultra em uma das claques do Sporting Clube de Portugal, sediado em Lisboa. Eles detestam que fale Sporting de Lisboa, que chama Grupo 1143. Por conta dessa data. E nem preciso dizer que é um núcleo chauvinista. São deus voltinhos, usando o seu termo.

E três anos depois, meu caro Matias, é fundada a Ordem dos Cavaleiros de São Bento de Avis, que é uma das ordens mais antigas de cavalaria que existe, que segue a constituição da Ordem Cisterciense, que é a constituição das principais ordens de cavalaria, como a Ordem de Calatrava, a Ordem dos Templários, etc. Eles eram reis beneditinos.

E a ordem de Avis e a dinastia de Avis vão se tornar muito importantes na história de Portugal, tanto...

na política, na influência política e militar, como especialmente na simbologia. Aquela cruz verde que vocês muitas vezes já devem ter visto, que muitas vezes simboliza heraldicamente ou o Estado português, ou então a coroa portuguesa, ou então as forças armadas portuguesas, ela é a cruz da Ordem de Avis, que é uma cruz verde.

que é a cruz que está no distintivo da Associação Portuguesa de Desportos aqui de São Paulo, a Popular Lusa. Exatamente. E para os nossos ouvintes que são militares ou se interessam...

A principal honraria do exército brasileiro, a Ordem do Mérito Militar, o desenho dela é baseado na antiga Ordem de São Bento de Aviz, que foi uma ordem imperial brasileira, porque o Brasil foi fundado por um herdeiro do trono português. Só que hoje a cruz é branca e a fita é verde, mas em Portugal a cruz que é verde.

E, além da Ordem de Avis, nós tivemos, em 1319, a formação da Ordem de Cristo em Portugal.

que é a sucessão da ordem dos Templários. E os Templários é um tema que, por um lado, é um tema que poderia ser fascinante. Por outro lado, é um tema que dá muita preguiça, porque tem os deus Vultinho, que você mencionou, mas especialmente tem a galera que vê muita teoria da conspiração. Tem muita teoria da conspiração ligada aos Templários, devido às origens da maçonaria, aí depois teve os Código da Vinci, do Dan Brown, todo esse tipo de coisa. Mas aqui a gente vai nos ater aos fatos.

os templários estavam em Portugal desde 1122, e em 1312, o Papa Clemente V, ele abole a ordem do templo, porque ele via os templários como uma ameaça ao poder dele, porque eles estavam ficando muito poderosos, do ponto de vista militar e também do ponto de vista econômico, já que os templários tinham muitos bancos pelo Mediterrâneo.

Qual era a ideia do banco? Você era um cruzado, por exemplo, você era um nobre normando que saiu lá da França para ir lutar na Terra Santa. E aí você pilhou, você conquistou e você tinha, sei lá, quantos baús de coisa para levar de volta.

você entregava na mão dos templários. E aí você pagava uma taxa, mas você entregava na mão deles. Então você entregava o ouro para eles, voltava para casa sem precisar carregar as coisas, chegava lá e sacava o seu ouro de volta, pagando as devidas taxas, é claro. Então os templários estavam ficando muito fortes, claro que isso é uma visão muito, muito resumida. E com o fim dos templários, o rei português...

estabelece a ordem de Cristo para ser uma sucessão dos templários dentro de Portugal. O rei de Nis, ele vai ser muito inteligente, que ele fala, em vez de perseguir esses caras, eu vou querer esses caras do meu lado. Então ele cria uma ordem nacional, a ordem de Cristo.

abriga os templários e vai ter então do lado dele cavaleiros que serão líderes militares, serão administradores e vão também financiar as expedições portuguesas. E em Portugal nós temos o Convento de Cristo, que fica em Tomar, que às vezes é chamado de Convento de Tomar, que era uma fortaleza templária, que depois foi reformada, foi expandida, etc.

e que foi, durante muito tempo, a sede da Ordem de Cristo. E por isso que quando vocês olham nos quadros das grandes navegações, do Cabral chegando no Brasil, vocês veem aquela cruz vermelha, que era a cruz da Ordem de Cristo. E por que é importante a gente entender a Ordem de Avisa, a Ordem de Cristo, meu caro Matias? Não apenas por conta desses símbolos, dessa importância política, mas para a gente entender que a Consolidação Portuguesa,

a criação de Portugal e a expansão portuguesa, o que inclui as grandes navegações, são totalmente ligadas ao chamado espírito cruzadístico.

é uma das bases ideológicas, é um dos fatores que explica a expansão portuguesa, que é a ideia de, olha só, terminamos aqui da reconquista da Polícia Libérica, o que tem do outro lado? Ah, tem essa cidade aí de Ceuta, que também é habitada pelos mouros, vamos conquistar deles. Então, a expansão portuguesa tem vários fatores que explicam, a gente vai tentar explicar todos eles nesse programa, pelo menos um pouquinho de cada, mas um deles é esse fator ideológico muito importante do espírito cruzadístico.

que é de manutenção das cruzadas. As cruzadas não é um termo que se aplica apenas à Terra Santa. A gente teve cruzada nos Bálticos, nós tivemos cruzadas contra hereges, e a expansão portuguesa pela costa da África, especialmente onde hoje é Marrocos, Saaro Ocidental, Mauritânia, Senegal, todo esse trecho era movido pelas cruzadas. Era ideia das cruzadas ainda.

Aí vamos falar das primeiras décadas, então, de Portugal, meu caro Matias, já para começarmos a fechar esse bloco. A independência portuguesa é reconhecida em 1143. Em 1147, com o apoio dos templários, o rei Afonso I conquista Lisboa e segue-se essa expansão ao sul.

Em 1211, nós temos a primeira reunião das cortes em Coimbra, com representantes do clero e da nobreza, e com a publicação das primeiras leis portuguesas, com o rei Afonso II, buscando justamente o apoio dessa nobreza e do clero. Lembrem-se...

A independência do condado portugalense vem com o apoio da elite mercantil. Agora o rei vai buscar o apoio dos cavaleiros, da nobreza e do clero. Vocês vão ver onde a gente vai chegar nisso. Em 1249, o Algarve é conquistado pelos portugueses. Daí vem o título rei de Portugal e do Algarve, porque o Portugal histórico é esse núcleo do condado portugalense em torno de Guimarães e da cidade do Porto.

As cortes depois se estabelecem em Leiria. Em 1290, o rei Diniz vai estabelecer não apenas o português como um idioma oficial, mas vai estabelecer a Universidade de Coimbra.

fundada em 1º de março de 1290, uma das universidades mais antigas do mundo, um centro que vai preservar e desenvolver o conhecimento daquela grande encruzilhada civilizatória que a gente falou, e que é patrimônio cultural da Unesco. E que, inclusive, tem ligação com o futebol por conta da Associação Acadêmica de Coimbra. Que é um time profissional, não é um time dos alunos. Tem o time dos alunos, mas é como se fosse uma estrutura paralela.

Em 1336, o rei Afonso IV realiza a primeira expedição ultramarina portuguesa, as Ilhas Canárias, que era disputada com o reino de Castela, e o papa reconhece a posse casteliana das ilhas.

E em 1369 nós vamos ter um elemento importantíssimo, porque nesse momento está ocorrendo a Guerra dos Cem Anos. A Guerra dos Cem Anos foi uma enorme briga pelo terreno da sua avó.

De um lado você tinha o pretendente ao trono francês, do outro lado o pretendente inglês e a Borgonha no meio do caminho, mudando de lealdades de acordo com o período. Lembrando que a Guerra dos 100 anos, na verdade, foi uma série de guerras e tréguas, guerras e tréguas, que duraram 116 anos. Não foi nem uma guerra contínua, mas também nem durou 100 anos.

E o rei de Portugal, Fernando I, morre sem herdeiros masculinos. Sob a regência de Leonor Teles, nós vamos ter uma disputa pelo trono entre a facção da Leonor Teles, com apoio da Galícia, e a facção do meio-irmão do rei falecido, o João, mestre da Ordem de Avis. Vejam só.

O João de Avis lidera uma revolta contra a rainha regente Leonor, a população de Lisboa aclama ele como defensor do reino e as forças de Castela, que apoiavam a rainha regente, entram em Portugal contra ele.

Nós temos, em abril de 1384, a Batalha dos Atoleiros, quando os portugueses, em menor número, usam basicamente uma tática de guerrilha contra uma força casteliana muito maior. E, em 1385, os castelianos avançam para tentar tomar o reino de Portugal. Por quê? Porque os castelianos falavam, olha só...

teve a crise dinástica, não tem sucessor, o trono é nosso porque o antepassado disse disso, então eu tenho essa reivindicação ao trono. Castela, que nesse momento... Por que eu falei da Guerra dos Cem Anos? Porque Castela era aliada do reino da França. Então Portugal vai ter apoio de quem? Da Inglaterra, justamente. Da dinastia Lancaster, naquele momento.

um grupo de nobres e a elite mercantil portuguesa vai apoiar o Dom João Mestre de Avis contra a rainha regente Leonor, que era apoiada por Castela.

nomeiam o João Mestre de Avis como rei de Portugal. Então vejam, o João Mestre da Ordem de Avis, ele era mestre da Ordem de Avis, ele é aclamado rei pela nobreza e pela elite mercantil. É o fim da dinastia de Borgonha e inicia-se a segunda dinastia lusitana, a dinastia de Avis.

E o agora João I lidera as tropas lusitanas com apoio inglês contra um exército muito maior casteliano na famosíssima Batalha de Aljubarrota, que é um marco da narrativa histórica portuguesa. Um abraço para o nosso querido Daniel, para o Daniel e para o Tanguy lá do Petit Jornal, porque o Daniel sempre fala da Batalha de Aljubarrota.

O Nuno Álvares Pereira, que é o comandante das tropas portuguesas, que vai ser nomeado Condestável do Reino, chega a invadir Castela, impõe uma derrota aos castelianos na Batalha de Valverde, e o novo rei português, o João I, vai se casar com Filipa de Lancaster, uma princesa inglesa, para marcar essa aliança luso-britânica. Que aí você vai ter o Tratado de Windsor, de 1386, e depois de um novo rei português,

que é, na mitologia luso-britânica, a concretização do que eles chamam de mais antiga aliança diplomática do mundo. A aliança começa em 1373, como uma cooperação contra os inimigos em comum, e vira uma aliança propriamente dita com esse tratado de Windsor. E por que eu digo que isso é uma narrativa? Porque as relações entre...

Portugal e Inglaterra, embora muitas vezes elas tenham sido de aliados e tiveram vários momentos de cooperação com um país invocando o acordo em relação ao outro, nós também tivemos muitas tensões entre os dois países. E a gente vai ver isso no nosso próximo programa, talvez o ápice dessas tensões.

Para marcar essa batalha, meu caro Matias, nós temos a construção do Monastério da Batalha, que também é patrimônio cultural da Unesco. Então nós temos o ano de 1386 com Portugal governado por João I de Avis, que foi aclamado ao trono, casado com uma princesa inglesa, sacramentando agora uma aliança entre Portugal.

e Inglaterra. Então, como a gente resume esse primeiro bloco e o que eu acho que é muito importante o nosso ouvinte ter em mente aqui. Como se desse a formação do Reino de Portugal, então? E aqui um abraço pra professora Vera Lúcia, que me aguentou 22 anos atrás, já estou um idoso.

Vera Lúcia Amaral Ferline. Isso daqui não é literalmente anotação, porque infelizmente o caderno dessa época já se perdeu, mas são coisas que estão na minha cabeça desde essa época. Nós temos a formação do reino português com uma centralização política, com um rei eleito com apoio de nobres e de elites mercantis. Isso quer dizer o quê?

Primeiro, que o rei vai ter uma capacidade, uma capilaridade de financiamento das suas expedições navais e militares maiores do que o habitual, porque ele é um aliado desde a primeira hora desses nobres e desses mercadores. E segundo, é um reino que é fundado...

mais liberal do que os outros reinos na Europa. Não que Portugal não tenha tido períodos de absolutismo, não que Portugal não tivesse as mesmas influências ideológicas, mas a força dos nobres e das elites mercantis em Portugal, desde o início, é muito maior...

do que, por exemplo, ocorreu na França. A França, que é o grande centro, o grande parâmetro do absolutismo. Já está aí o livro do Perry Anderson, que não nos deixa mentir. Então, isso que é interessante sobre essa formação do reino de Portugal. Ele nasce de um rei aclamado.

por lideranças militares e, por isso, ele vai ter acesso a mecanismos da sua nobreza e da elite mercantilocal que não eram tão comuns para esse período. Bem, a gente passa agora para uma novidade dessa nova temporada, que é um oferecimento dos nossos patrocinadores da Pet Love.

Bem, Felipe, e é muito comum, não só no futebol, como em outras modalidades esportivas, o uso de animais que representem uma equipe. Isso, ou então existem também os animais símbolos de um país, de uma região. Então, por exemplo, no caso do Brasil, a seleção brasileira é a Canarinho.

ou então existem outros símbolos, ou às vezes com status oficial também. No caso português, meu caro Matias, para esse bloco inaugural do mascote oferecido pela Pet Love, a gente selecionou três animais, porque Portugal não tem oficialmente um animal símbolo.

E a seleção portuguesa também não tem um mascote oficial. Inclusive, quando Portugal sediou a Euro, o mascote era um menino, chamado Quinas. Por conta da seleção das Quinas. Exatamente, mas era um menino com superpoderes. E os superpoderes eram da paixão dele pelo futebol, um negócio assim.

Mas a gente pegou então três para destacar para o nosso ouvinte. Um deles é o lobo ibérico, que é uma subespécie do lobo cinzento, que reside justamente na Península Ibérica.

Hoje, a sua população é de apenas cerca de 2 mil espécimes, das quais cerca de 300 habitam o norte de Portugal. Isso é justamente onde Portugal nasce, Portugal começa.

E por que nós selecionamos o lobo ibérico, uma das nossas seleções? Porque é um animal que devido ao seu risco de extinção, já que ele teve a redução do habitat natural, e também ele foi muito caçado com a ideia de temos que caçar o lobo para proteger os rebanhos dos animais comercialmente explorados.

Então, em Portugal, você tem uma área de distribuição de mais ou menos apenas 18 mil quilômetros quadrados, especialmente no norte, e ele tem hoje um status protegido dentro de Portugal, inclusive com políticas e iniciativas para não apenas preservá-lo, mas tentar aumentar os seus números.

E assim, esse lobo ibérico, é claro, o nosso ouvinte que estiver ouvindo e mora em uma região que tem lobos, por favor, não interaja com lobos selvagens. Mas esse lobo, como ele não é tão grande assim, comparado com outras subespécies,

ele permite claramente você ver o elo entre o lobo e o cachorro doméstico. Assim, a diferença entre esse lobo e um pastor alemão, por exemplo, não é tão grande assim. Outro animal português muito tradicional, muito conhecido, que acho que vale a gente destacar, meu caro Matias, é o puro sangue lusitano.

o PSL, também chamado de apenas lusitano. É um cavalo de sela, uma raça de cavalo desenvolvido em Portugal, e os portugueses reivindicam como o cavalo de sela mais antigo do mundo de linhagem rastreável.

Então, os especialistas conseguem afirmar que o cavalo puro-sangue lusitano tem 5 mil anos de linhagem rastreável. Os cavalos da Península Ibérica existem há pelo menos 22 mil anos, e já há 3 mil anos a região já era conhecida pelo uso do cavalo, inclusive em combates.

E, coincidentemente, a primeira medalha olímpica de Portugal veio com bronze por equipes no hipismo em 1924. Então, palmas para os cavalos portugueses que ganharam a medalha. Pois é, para o puro-sangue português. A maioria dos puro-sangues portugueses são ou cinzentos ou baios, que é o que no cachorro a gente chamaria de caramelo.

E, como você mencionou, inclusive, eles são muito utilizados em competições equestres, não apenas por competidores portugueses, mas também por competidores de outros países. E ele depois foi cruzado com os cavalos árabes, que também são extremamente famosos, que são menores e mais ágeis.

o lusitano é mais forte, mais parrudo, e desse cruzamento nós tivemos o desenvolvimento também de outras linhagens. E, inclusive, no nosso próximo programa, a gente até vai falar um pouco mais sobre esse assunto, por conta da Escola Portuguesa de Arte Equestre, já que desde o século XVIII existe uma academia...

inicialmente real, né, portuguesa, apenas para os esportes equestres, e aí, como você disse, né, parabéns pros cavalos, e aí, um puxão de orelha, né, nos portugueses, o cavalo português, né, o puro sangue português, ele também é utilizado na tourada portuguesa, porque a tourada portuguesa, muitas vezes, é a cavalo, o toureiro está a cavalo, e o que é uma pena, porque aí a gente tem que torcer pro touro,

mas também não torcer pro touro machucar o cavalo, só o toureiro. E claro, a gente fala isso porque a preocupação é o bem-estar do animal. É uma brincadeira que a gente faz, mas tanto eu quanto o Matias somos contra as touradas e acreditamos que as touradas já não fazem sentido nenhum no século XXI continuar existindo.

E, finalmente, meu caro Matias, talvez um dos símbolos mais icônicos de Portugal é o galo, que é explorado em marcas, inclusive, e tal. Mas a origem do galo português, que é a origem do galo de artesanato, aquele bastante pintado, bem colorido, feito em barro e tal, é a lenda do galo de Barcelos.

que qual que é a lenda? Um peregrino, ele estava fazendo uma, com perdão da redundância, peregrinação religiosa. Muitas vezes isso é associado ao caminho de Santiago de Compostela. Que é próximo de Portugal.

E aí ele é convidado por um fazendeiro para um banquete. E nesse banquete roubam a prataria do fazendeiro. O peregrino vai para uma pousada local e o proprietário da pousada, que seria o verdadeiro ladrão da prataria, acusa o peregrino de ser o ladrão.

E aí, o peregrino é falsamente condenado à forca. Ele é condenado de forma injusta à forca. E ele, então, diz que ele não roubou nada, que ele é um peregrino de coração puro, que ele está sendo acusado injustamente, e que, para provar a sua inocência, o galo que foi assado para o banquete vai cantar.

E aí, na hora que o peregrino é levado à forca, ou então a hora que colocam a forca no pescoço do peregrino, enfim, tem várias versões, mas nesse momento, o galo assado vem à vida e canta.

e então mostra a inocência do peregrino e a pureza do coração dele, e como os outros que foram corruptos e gananciosos e injustos. E isso ocorre na cidade de Barcelos, que fica perto de Braga, justamente ao norte de Portugal.

Então, essa é basicamente a versão dessa lenda medieval. Inclusive, no passo dos condes de Barcelos, passo aqui, pequeno palácio, existe um cruzeiro, ou seja, uma cruz com uma imagem embaixo, esculpida em pedra, contando essa lenda, em que você tem um homem...

claramente ali opulento provavelmente representando o dono da pousada ganancioso e mentiroso o peregrino sendo enforcado e acima dele o galo e acima do galo Jesus Cristo crucificado

Então, essa é a origem do galo de Barcelos, que se torna esse grande símbolo português e também um grande símbolo do artesanato, com galos de cerâmica, pintados, etc. E muitas pessoas que vão em Portugal compram galos de Barcelos como souvenirs, e o galo é um símbolo português, é utilizado em produtos de origem portuguesa, etc.

Então, acho que para essa edição inaugural do bloco O Mascote, acho que a gente fez três destaques legais. O lobo ibérico, que tem esse status protegido dentro de Portugal, o puro sangue lusitano, por essa importância cultural e histórica, e o galo de Barcelos, pela lenda importante para a cultura e para o folclore português. Bem, passemos agora para o bloco futebolístico.

O campo.

Bem, Felipe, o primeiro registro da prática do futebol em Portugal data de 1875, quando o intercambista Harry Hinton trouxe uma bola da Inglaterra e explicou brevemente as regras para amigos no Largo da Achada, na freguesia de Camacha, na Ilha da Madeira.

Ou seja, o futebol português começou na ilha onde nasceu o maior português da história do esporte. Há controvérsias. Você não gosta dele porque ele é bonito. Porque eu não posso chamar ele de feio.

Já em Portugal continental, o dono da bola atendia pelo nome de Guilherme Pinto Bastos, sem parentesco, também trazida da Inglaterra em 1888. E o couro rolou no relvado da Quinta do Bom Jardim, na freguesia de Belas, no município de Sincla.

A modalidade, contudo, levou décadas para cair no gosto dos tugas, superando o boxe, ciclismo, esgrima, hipismo, natação e remo somente nos anos 1920, quando justamente a seleção das Quinas fez a sua estreia em Madrid ao perder da Espanha em 18 de dezembro de 1921.

Depois de mais três derrotas para os vizinhos ibéricos, somente em 18 de junho de 1925, veio a primeira vitória lusa ao bater a Itália por 1 a 0 em Lisboa. A primeira competição oficial foram os Jogos Olímpicos de 1928, realizados em Amsterdã, quando os portugueses se despediram nas quartas de final após eliminarem Chile, vitória por 4 a 2, e depois...

E reino dos sérvios, croatas e eslovenos por 2x1, o que depois viria a ser a Iugoslávia, que inclusive tem fronteiras assim como o Chile. A eliminação veio na derrota por 2x1 para o Egito, que também tem duas fronteiras, inclusive. Vitor Silva, do Benfica, anotou gols em todas as partidas.

Portugal disputou as eliminatórias mundialistas sem sucesso entre 1934 a 1962, conquistando sua primeira classificação em 1966, ao vencer o grupo compartilhado com Romênia, Tchecoslováquia e Turquia. Os três também têm fronteiras.

Não, e é interessante notar que a Tchecoslováquia era a vice-campeã mundial nesse momento. Pois é. Não era baba, não. E tanto Romênia quanto Turquia já tinham jogado edições anteriores do Campeonato Mundial de Futebol.

Aquela seleção memorável, comandada pelo treinador brasileiro Otto Glória, entrou para a história sendo apelidada de Os Magriços, inspirada na lenda do cavaleiro Álvaro Gonçalves Coutinho, que viajou com 11 colegas portugueses para a Inglaterra no século XIV para defender a honra de 12 damas. O mito do Magriço foi reproduzido no canto I, estrofe 12, do poema épico Os Lusíadas, de Luiz de Camões.

4 dos 22 convocados eram nascidos na então província ultramarina de Moçambique, outrora conhecida como África Oriental Portuguesa. Entre eles, o capitão Mário Coluna e Eusébio, artilheiro da competição com 9 gols. E isso é uma coisa interessante, Matias, porque a gente vai até falar um pouco mais disso no programa que vem.

mas o Estado Novo Português tentava vender a ideia de que não existia um império colonial português, que era tudo Portugal. Inclusive tem um mapa famoso de propaganda salazarista que era Portugal não é um país pequeno. E aí você tem Moçambique, Angola, Cabo Verde sobrepostos ao mapa da Europa.

Ou seja, tudo território português, é tudo nosso. Então, isso é interessante porque dialoga com essa questão. Em sua estreia na Copa do Mundo, os portugueses surpreenderam ao eliminar o Brasil, bicampeão mundial naquela altura na fase de grupos, terminando na frente também de Bulgária e Hungria.

Nas quartas de final, Portugal venceu de virada por 5 a 3 a Coreia do Norte, outra estreante surpreendente, que havia eliminado a Itália na fase anterior. Já na semifinal, a seleção portuguesa foi batida pelos donos da casa por 2 a 1, mas se despediu dos gramados ingleses, vencendo a forte União Soviética pelo mesmo placar.

A estreia da Eurocopa veio 18 anos depois ao vencer sua chave nas eliminatórias contra Finlândia, Polônia e União Soviética. Na fase final, dividiu o grupo com Alemanha Ocidental, Espanha e Romênia, empatando na pontuação e saldo de gols com os vizinhos, mas ficando atrás nos gols marcados. Na semifinal, enfrentou os anfitriões franceses e se despediu na prorrogação 3x2 após empate em um gol no tempo normal.

Assim como no Brasil, o futebol feminino foi proibido em Portugal durante décadas. Sendo assim, a seleção feminina só fez sua estéia em 24 de outubro de 1981, ao empatar contra a França em Le Mans, quase 60 anos depois em relação aos homens.

Já a primeira vitória veio dois anos depois, ao bater a Espanha por 1 a 0. Portugal voltou a disputar o Mundial em 1986 e flertou com uma nova classificação para o mata-mata, ao vencer a Inglaterra por 1 a 0 na primeira rodada. Mas depois perdeu para Polônia e Marrocos e terminou na última colocação do grupo.

Em 1989 e 1991, os miúdos portugueses conquistaram o bicampeonato mundial sub-20, vencendo Nigéria e Brasil nas finais, respectivamente, sendo que o segundo título foi diante de sua gente em Lisboa, já que Portugal sediou o torneio. A geração de Luiz Figo e Rui Costa levou Portugal novamente para as grandes competições internacionais, disputando a Euro de 1996.

Trinta anos depois, os portugueses lideraram novamente o seu grupo na Inglaterra, deixando para trás Croácia, Dinamarca, então campeã europeia, e Turquia. Contudo, não foi páreo para a República Tcheca nas quartas de final, perdendo por 1 a 0.

A República Tchek que viria a ser vice-campeã. E você destacou o Figo e Rui Costa, por motivos óbvios. O Figo foi o melhor do mundo e tal. Mas essa geração também tinha o Vitor Bahia no gol. E a dupla de zaga, talvez uma das duplas de zaga mais carniceiras que já jogou na história, que era Fernando Couto e Jorge Costa. Pois é. Esses dois batiam até na sombra da mãe. E eu gostava muito dos nomes, principalmente de secretário e boa morte.

O secretário da lateral direito, o Boa Morte, acho que era tipo um ponta, chegava mais pra frente. Mas o Luiz Figo e o Rui Costa, obviamente, acabam estourando os grandes símbolos dessa geração portuguesa, como você mencionou, foram bicampeões mundiais sub-20. Isso acho que tem que ser muito destacado pro nosso ouvinte. É, e nos Jogos Olímpicos de 96, disputa a medalha de bronze com o Brasil, mas toma uma goleada de 5x0.

É, 96 que o Brasil perdeu para a Nigéria antes, gol do Canu. Quatro anos depois, liderou o Grupo da Morte, no qual Portugal e Romênia se classificaram, enquanto Alemanha e Inglaterra foram eliminadas. Nas quartas de final, venceu a Turquia com dois gols anotados por Nuno Gomes, que voltou a balançar as redes contra a França na semifinal.

mas os portugueses foram eliminados pelo Golden Goal de Zinedine Zidane na prorrogação, convertendo o pênalti. E, cara, durante a pesquisa, Felipe, eu vi a quantidade de gol decisivo que o Nuno Gomes fez pela seleção portuguesa. Ele não é tão levado em conta, mas muitos gols de Portugal nas grandes competições foram anotados pelo Nuno Gomes.

As boas campanhas europeias terminaram em frustração quando a seleção portuguesa foi eliminada na fase de grupos da Copa do Mundo de 2002, ficando atrás da anfitriã Coreia do Sul e dos Estados Unidos, mais à frente da Polônia, ao qual goleou por 4 a 0 na segunda rodada. Em 2004, Portugal sediaria a Eurocopa pela primeira vez.

E para não fazer feio em casa, a federação local decidiu apostar no então treinador campeão mundial, o brasileiro Luiz Felipe Scolari. Sob o comando de Filipão, o primeiro sinal de alerta foi dado na derrota para a Grécia, por 2 a 1, na abertura da competição, em pleno estádio do Dragão, na cidade do Porto. Passado o susto, vieram duas vitórias contra a Rússia e a Espanha, além da classificação em primeiro lugar do grupo.

Os donos da casa se vingaram da Inglaterra ao vencerem os Three Lions nas penalidades por 6x5 após empate em um gol no tempo normal e mais um gol para cada lado na prorrogação. E essa decisão por pênaltis ficou famosa porque o Ricardo, o goleiro de Portugal, tirou as luvas para catar os pênaltis.

O fornecedor de luva que não gostou. O patrocinador odiou, mas a imagem dele defendendo o penalti com as mãos nuas ficou muito marcante em Portugal. O adversário na semifinal seria os Países Baixos, mas Portugal abriu vantagem de dois gols e sofreu um gol contra de Andrade, o que não impediu a sua classificação para a decisão.

Na final, novamente a zebra grega, que voltou a vencer os anfitriões com um gol de Angelus Caristeas, que apagou o Estádio da Luz. O título da Euro da Grécia é uma das maiores zebras da história. E 2004, a gente vai ver no próximo programa também, foi o ano das zebras. Por um lado, era um time muito consciente das suas limitações, que jogava de forma disciplinada.

Por outro lado, era uma retranca horrível e feia de se assistir. Então, obviamente, para os gregos foi um paraíso, mas foi uma das maiores zebras da história do futebol. Filipão foi mantido no cargo para a Copa do Mundo de 2006, a ser disputada na Alemanha. Após uma fase de grupos tranquila, com vitórias magras contra Angola, Irã e México, veio a Batalha de Nuremberg contra os neerlandeses nas oitavas de final.

com dois jogadores expulsos de cada lado e 20 cartões no total ao longo dos 90 minutos, o que é um recorde em Copas do Mundo. Mas, para além das agressões, Portugal venceu com um gol solitário de Maniche e avançou para as quartas de final, na qual voltou a eliminar a Inglaterra nas penalidades, desta vez 100 gols nos 120 minutos anteriores.

Os portugueses retornavam a uma semifinal mundial 40 anos depois, novamente treinados por um brasileiro. Entretanto, Zidane foi novamente o algoz dos lusitanos ao anotar mais um pênalti decisivo. Na disputa pelo terceiro lugar, Portugal não foi páreo para os anfitriões alemães, que venceram por 3x1.

Mas assim, essa decisão de terceiro lugar foi contra o time da casa e Portugal entrou completamente destruído nesse jogo. E eu lembro que o Felipão disse algo que depois ele repetiu em 2014, que ele fala que o jogo de terceiro lugar não deveria existir. Então assim, os caras entraram completamente desanimados em campo. Nem teve jogo direito. Lembrando que em 2014 o Brasil perdeu de 3x0 para os Países Baixos na disputa pelo terceiro lugar. Isso, depois de tomar de 7x1 na semifinal com o mesmo Felipão.

Com o protagonismo cada vez maior de Cristiano Ronaldo, a seleção portuguesa não passou de uma coadjuvante de luxo nas competições internacionais nos 10 anos seguintes. Foi na Euro de 2016 que a chave virou. Após uma campanha discreta na fase de grupos, empatando contra a Islândia, Áustria e Hungria, os Tugas se classificaram para as oitavas de final como um dos melhores terceiros colocados.

Nas oitavas de final, vitória magra contra a Croácia no finalzinho da prorrogação, com gol anotado por Ricardo Quaresma. Novo empate nas quartas de final, dessa vez contra a Polônia, e vitória nas penalidades por 5 a 3.

Já na semifinal, vitória mais tranquila contra o país de Gales, por 2 a 0. Gols de Cristiano e Nani. Na decisão, novamente a França cruza o caminho de Portugal para a glória. Cristiano Ronaldo sentiu ainda no primeiro tempo e teve que ser substituído aos 25 minutos.

Do banco de reservas, o Puto Maravilha observa Eder Zito, nascido em Guiné-Bissau, marcar o gol decisivo no segundo tempo da prorrogação em pleno estado de France, dando o primeiro título oficial para a seleção masculina adulta em quase 100 anos de história.

Tem um momento que viralizou muito nessa época, nessa Euro, que durante os pênaltis contra a Polônia, eu peço que tire as crianças da sala, porque eu vou ter que falar um palavrão, que foi o Cristiano Ronaldo instigando os companheiros, porque o Cristiano Ronaldo era o capitão da seleção também, e ele instigando os companheiros dele a bater. Eu não lembro quem é agora, que ele fala... Não...

Tu vai já bater, tu vai já bater, tu bates bem. Se perder, que se foda. Foda, foda. Tu bates bem, vai bater. Uma postura muito interessante. E o discurso dele no vestiário também, antes da final, também viralizou bastante. E é uma postura, assim, antônima do menino de 33, 34 anos, que fala, ah, não, deixa que eu bato o quinto, porque eu me consagro. E no final das contas, deixa o moleque lá, o Rodraigo, na fogueira.

No ano seguinte, as navegadoras fizeram sua estreia na Eurofeminina, disputada nos Países Baixos, vencendo a Romênia na repescagem pelo saldo qualificado após dois empates em 0x0 e 1x1. Após derrota para a Espanha na estreia, as portuguesas venceram a Escócia por 2x1, mas voltaram a perder para a Inglaterra na rodada derradeira, despedindo-se na fase de grupos.

Cinco anos depois, por conta do adiamento pela pandemia de Covid-19, a seleção feminina de Portugal voltou a ser eliminada na fase de grupos, após empatar com a Suíça e perder para Países Baixos e Suécia. O Diário de Notícias revelou, à época, que apenas 125 jogadoras da Liga BPI eram profissionais, contrastando com outros campeonatos nacionais da Europa na modalidade.

Mesmo com todas as adversidades, as portuguesas conseguiram a classificação para a sua primeira Copa do Mundo em 2023, sediada por Austrália e Nova Zelândia, ao vencerem Camarões por 2x1 no playoff intercontinental.

Na estreia mundialista, derrota por 1x0 para os Países Baixos, depois uma vitória confortável por 2x0 contra o Vietnã e, para finalizar, um empate sem gols contra as tetracampeãs mundiais dos Estados Unidos.

Voltando aos gajos, Portugal sagrou-se campeã da primeira edição da Liga das Nações da UEFA, realizada entre 2018 e 2019, ao liderar o grupo compartilhado com Itália e Polônia, eliminar a Suíça na semifinal e bater os Países Baixos na decisão, ambas jogadas no Estádio do Dragão.

O bicampeonato dessa competição veio no ano passado, quando Portugal voltou a liderar o seu grupo, dessa vez dividido com Croácia, Escócia e Polônia. Nas quartas de final, eliminou a Dinamarca pelo placar global de 5x3, após perderem Copenhagen por 1x0.

e golear os nórdicos por 5x2 em Lisboa. E no Final Four, realizado na Alemanha, eliminaram os anfitriões por 2x1 e depois empataram com a Espanha por 2x2, vencendo os rivais ibéricos por 5x3 nas penalidades.

Aqui entra uma coisa que eu vejo algumas pessoas diminuírem a Liga das Nações, porque é um torneio novo, um torneio criado para tampar as datas FIFA, mas eu acho um modelo muito interessante, porque a Liga das Nações, para o ouvinte que não saiba, é um torneio europeu que tem divisões, algo que eu nunca tinha visto antes em torneio de seleções, então você tem quatro divisões.

Então, você tem Portugal jogando contra Itália, Países Baixos, Alemanha, Espanha. Porque nas eliminatórias você tem Andorra, San Marino. Com todo respeito, não é uma seleção lá grandes coisas.

Então, assim, eu acho que são dois títulos realmente muito valiosos. Eu não sei porque algumas pessoas diminuem a Liga das Nações só pelo fato de que é um campeonato novo, um campeonato que a gente ainda não está habituado. Mas, claro, deve ter um oportunismo financeiro ali da UEFA, mas, enfim, eu não entendo isso.

Bem, e passando aqui os números da seleção portuguesa, ela tem o título da Eurocopa de 2016, além do vice-campeonato em 2004 e três terceiras colocações em 84, 2000 e 2012. Lembrando que na Euro não tem a disputa do terceiro lugar, os dois títulos da Nations League, ou Liga das Nações, em 2019 e 2025.

e o terceiro lugar na Copa do Mundo de 66 e o quarto em 2006. Lembrando que em ambas as ocasiões o treinador da seleção portuguesa era brasileiro. Agora, passando aqui por alguns recordes, a maior vitória de Portugal foi por 9x0 diante de Luxemburgo em 11 de setembro de 2023. É o que a gente estava falando, tipo, desculpa.

Qual é o sentido desse jogo existir, gente? Lembrando que Luxemburgo é a seleção C de Portugal, né? Não, o melhor jogador da história de Luxemburgo joga pela seleção dos pais, que é o Pjanic, jogava pela Bósnia. A maior derrota foi um 10x0 sofrido contra a Inglaterra em 25 de maio de 1947, jogo realizado em Lisboa.

O jogador com mais participações e golos no masculino é o Cristiano Ronaldo, com 226 partidas e 143 tentos anotados. Ele que joga pela seleção portuguesa desde 2003, vai completar 23 anos atuando pela seleção portuguesa.

E a gente costumava colocar no roteiro, até te mandei por WhatsApp, a gente colocava assim, o maior participações no geral e o na ativa. No caso, o Cristiano Ronaldo é os dois. E assim, desculpa, 226 jogos por uma seleção nacional não é normal.

Esse cara realmente é bizarro. A disciplina dele, claro, ele é um completo sociopata quando se trata de disciplina. Ele, inclusive, projeta isso nos filhos. O filho dele, coitado, nunca pôde tomar uma Coca-Cola na vida. Mas o cara é realmente outro patamar, como diriam alguns.

Mas cabe destacar também, né, Felipe, o Pepe, que foi o jogador mais velho a disputar uma partida pela seleção portuguesa, com 41 anos, 4 meses e 9 dias. Recorde que eu acho que o Cristiano Ronaldo vai quebrar também. Bem possível. E lembrando que você falou Pepe, eu chamo ele de Pepe, eu não sei, mas ele é brasileiro e você já vai falar um pouco mais disso também.

Sim. Daí no feminino, a atleta com mais participações foi a Ana Borges, com 179 partidas desde 2006, ela que ainda está na ativa, e a que anotou mais gols foi a Edith Fernandes, com 39 tentos entre 1997 a 2016.

Passando aqui por algumas rivalidades, a Espanha, eu acho que é o principal rival de Portugal, principalmente nos últimos anos, lembrando da final do ano passado da Liga das Nações, e a vantagem é a espanhola, com 6 vitórias portuguesas, 18 empates e 17 derrotas. Depois vem a França, com 6 vitórias portuguesas, 4 empates e 19 derrotas. Inglaterra.

10 vitórias portuguesas, 5 empates e 11 derrotas, o mais equilibrado aí, né? E a gente citou diversas vezes o nome da Inglaterra durante o programa. E, por conta, né? De 2004, tem essa rivalidade com a Grécia, né? E também um equilíbrio, são 4 vitórias portuguesas, 5 empates e 5 derrotas. Já contra o Brasil, né? Apesar da Copa de 66, é uma paternidade brasileira aqui, né? São...

13 vitórias brasileiras, 4 portuguesas e 3 empates. E foram 39 gols anotados pelo Brasil contra 16 portugueses. E foram 8 brasileiros, meu caro Matias, que já se nacionalizaram para defender Portugal. Provavelmente o mais conhecido deles é o Deco. Mas qual é a lista?

É, começa pelo Lúcio Soares, esse eu confesso que eu não me recordava, um zagueiro nascido em Manhoaçu, em Minas Gerais, e que teve a sua primeira internacionalização pela seleção portuguesa em 27 de abril de 1960. Ele que jogou muito tempo no Sporting, então acabou atuando pela seleção portuguesa por conta...

De ser um zagueiro goleador, inclusive. Ele marcou 30 gols pela equipe Lisboeta. Depois tivemos o Celso Matos, que era outro zagueiro, que jogou pelas duas equipes do Porto, o Boa Vista e o Futebol Clube do Porto.

e que foi nacionalizado em 1976. Aí você citou o Deco, que acabou se nacionalizando em 2003, um pouco antes de conquistar a Champions League pelo Futebol Clube do Porto, e daí disputou a Euro de 2004, Copa do Mundo de 2006. Aí depois destacamos o Pepe, cujo nome de batismo é Kepler Laverin de Lima Ferreira, ele que é alagoano, nascido em Maceió.

que se nacionalizou em 2007 e atuou em 130 partidas por Portugal, anotando 7 gols também. O Lee Edson se naturalizou em 2009, ele que foi apelidado pela imprensa portuguesa de Levezinho e atuou em 15 jogos, anotando 4 gols por Portugal.

E mais recentemente tivemos os casos do Diego Souza, que se nacionalizou em 2019, o Matheus Nunes, que fez o mesmo em 2021, e o Otávio, que também se nacionalizou em 2021. E tanto ele quanto o Matheus foram convocados para a última Copa do Mundo por Portugal junto do Pepe. Então tivemos três brasileiros atuando por Portugal na última Copa do Mundo.

E daí, Felipe, como a gente já falou em outras edições do Fronteiras, é muito difícil achar estatísticas confiáveis sobre o futebol feminino. Infelizmente, a gente tem a memória pouco preservada da modalidade. Então, eu não achei o número exato de jogos entre Portugal e Brasil. Existem algumas divergências, mas o que sabemos é que no ano passado, a seleção brasileira fechou a temporada num amistoso contra...

Portugal, numa vitória por 5x0, né? Inclusive, o Record, né? Que é um dos principais diários esportivos portugueses, deu a seguinte manchete, né? Cabo das Tormentas teve mão pesada. Navegadoras tiveram sorte madrasta no primeiro jogo da sua história frente ao Brasil. E daí que eu falo da divergência, porque eu vi em outras fontes que já tiveram outros dois.

Amistosos, mas enfim, um dos principais veículos portugueses, diz que esse foi o primeiro encontro entre as seleções adultas de Brasil e Portugal. E fica sempre o agradecimento ao amigo Vinícius Incrote, que ajuda na pesquisa deste bloco. Bem, e nessa temporada temos a volta de um velho conhecido aqui deste podcast.

O livro

Olá, Matias. Olá, Felipe. Olá, ouvintes do Fronteiras Invisíveis do Futebol. Quanto tempo que a gente não conversa aqui. Muito bom estar de volta. E vamos aqui falar de Portugal, que por um termo bem antiquado, pra lá de incorreto, mas é um termo ainda muito presente nas nossas vidas. Muitos de nós fomos educados aprendendo isso, que o Brasil foi descoberto por Portugal.

Então eu vou falar como um brasileiro ajudou Portugal a descobrir um pouco a si próprio. E a gente vai ter que ir lá para os anos 90, os anos 2000. É muito comum com países que tiveram governos ditatoriais, governos totalitários com discurso nacionalista muito forte. Portugal, após se livrar desse governo, no caso de Portugal com Salazar,

acabou criando uma certa rejeição ou um certo incômodo com símbolos nacionais muito fanistas, muita presença de símbolos nacionais ou um patriotismo manifestado de maneira muito visceral. Isso é uma realidade que a gente no Brasil vive muito, desde a ditadura militar, passou a viver de novo nos últimos anos também. Então, muitas vezes esse tipo de discurso acaba causando polarização dentro do país ou incômodo.

geral. Isso a gente viu também na Alemanha, por exemplo, na Inglaterra, em relação a símbolos de patriotismo inglês. Na Espanha, na Espanha, eles até tiraram a letra do hino. Então isso também acabou acontecendo com Portugal. Só que, a partir dos anos 90, com a União Europeia, Portugal começa a crescer e começa a ter um ciclo de desenvolvimento econômico-social muito grande e começa a querer se lançar ao mundo.

É muito falado como a Espanha usou o ano de 92 como um marco para o lançamento da Espanha aos olhos do mundo. Teve a Expo, a Exposição Universal de Sevilha naquele ano, e também teve os Jogos Olímpicos de Barcelona, em que eles redesenharam toda a cidade de Barcelona e transformaram Barcelona num dos grandes...

destinos turísticos do mundo e num destino de referência cultural em várias áreas da cultura para o mundo inteiro. Portugal não teve esse ano de 92, mas teve um período entre o final dos anos 90 e o começo dos anos 2000 que Portugal começou a ensaiar isso também. E isso não é tão falado quanto deveria. Primeiro teve a Expo, a Exposição Universal de Lisboa em 98, que até foi revitalizado toda uma região no norte de Lisboa, a construção do Aquário de Lisboa.

Houve um investimento muito grande, até no metrô, em transporte público ali, para transformar Lisboa numa cidade mais moderna. E culminava isso com a Eurocopa de 2004. E a Eurocopa realizada em Portugal. E Portugal investiu pesado nessa Eurocopa. Construiu grandes estádios, modernos. Então Portugal tinha três estádios gigantescos. O estádio das Antras do Porto, o estádio José de Alvalade do Sporting e o estádio da Luz do Benfica. Esses três estádios foram demolidos.

para a construção de estádios novos, que é o Estádio do Dragão, o Estádio José de Alvalade manteve o nome, o Estádio da Luz, o novo estádio também manteve o nome, mas é outro estádio. Mas teve estádios até meio elefante branco, na divisa entre Faro e Loulé, para registrar Loulé, terra dos meus bisavós. Também teve estádio em Aveiro, estádio em Leiria, em que há muita discussão se essas cidades precisavam ter estádios tão grandes assim.

De qualquer maneira, era um momento importante de Portugal para se relançar, até porque a economia portuguesa estava realmente crescendo bastante, Portugal estava ganhando uma cara cosmopolita, uma cara diferente aos olhos do mundo. E daí vinha a seleção portuguesa, que tinha que fazer um bom papel. Portugal contratou o Filipão.

para ser técnico, ele tinha levado o Brasil ao título mundial em 2002 daí Portugal foi atrás dele para comandar, Portugal tinha tido um bom passado com um técnico brasileiro nos anos 60 com o Otto Glória, que levou Portugal a terceira posição na Copa do Mundo de 66 aquele time do Eusébio do Coluna José Pereira e...

O Filipão chegou e uma das coisas que o Filipão fez, e a gente aqui no Brasil conhece muito bem o Filipão, a gente sabe como é o jeito o Filipão de ser, né? Ele já quis trazer a torcida pra jogar junto, né? Ele percebeu que não ia adiantar ele fazer um grande trabalho, tudo se o apoio nas arquibancadas, o apoio nas cidades, se a seleção portuguesa não sentisse aquilo.

E Portugal tinha uma geração muito boa, mas que já tinha ido mal na Copa de 2002, justamente por atritos internos. Era uma seleção muito rachada, caiu na primeira fase, ganhou da Polônia, mas perdeu de Estados Unidos e Coreia do Sul.

Era um elenco rachado entre jogadores de origem no Benfica e jogadores com origem no Porto, por exemplo. Isso era uma coisa histórica da seleção portuguesa. Uma seleção que tinha resultados muito inferiores ao que ela poderia. Inclusive, ela jogava muito pouco Copas do Mundo. A Copa de 2002 foi só apenas a terceira Copa que Portugal jogou. E muitas vezes porque havia rachas internas. A seleção portuguesa não conseguia se unir como deveria.

E daí o Filipão percebeu que tinha que dar um jeito. Primeiro, tem uma questão da habilidade dele no vestiário.

uma questão de habilidade que ele sempre teve para mobilizar jogadores e tudo mais, ele começa também a se comunicar com a imprensa, a se comunicar com o público, de maneira a trazer de dentro dos portugueses esse orgulho de ser português. E fazer com que apoiar, mostrar símbolos portugueses, a bandeira de Portugal, botar na janela, no carro, não era um motivo de vergonha, constrangimento ou de incômodo.

porque não precisava necessariamente ter uma conotação diferente da conotação do momento que era apoiar um time de futebol. Então ele começa até a pedir para os cidadãos portugueses, para os torcedores da seleção portuguesa, colocar em bandeira na janela, sair com camisa da seleção portuguesa. Afinal de contas, Portugal estava em um outro momento, era uma nova Portugal, uma Portugal moderna, e no futebol uma Portugal...

que estava sediando o principal evento esportivo da história do país e que tinha possibilidades de ser campeão, com uma geração fantástica ainda de Portugal, inclusive ensaiando uma futura. E deu certo. De fato, os portugueses começam a abraçar essa ideia do Filipão.

O ambiente dos jogos na Eurocopa é um ambiente fantástico e é um ambiente que, para muitos portugueses, até virou muito notícia na época como era um negócio diferente, que eles não estavam acostumados a ver tanta gente se envolvendo, se mobilizando pela seleção portuguesa. Independentemente de ter jogadores do Benfica, do Porto ou do Sporting, o envolvimento era geral. Benfiquistas apoiando jogadores do Sporting ou do Porto, ou jogadores ligados ao Sporting ou ao Porto, né? Não precisava necessariamente ser jogadores que fossem dos clubes.

e vice-versa, esportinguistas com jogadores ligados ao Benfica e do Porto. E Portugal cresce bastante. Portugal faz uma boa primeira fase, termina em primeiro lugar no grupo. No mata-mata elimina a Holanda, nos pênaltis elimina a Inglaterra também. Daí o grande anticlímax, acaba caindo para a Grécia.

Portugal elimina uma Inglaterra fantástica, com Beckham, com Lampard, Gerrard, uma grande geração inglesa. Elimina a Holanda, que também tinha uma grande geração, mas acaba perdendo a Grécia na final. A Grécia que já tinha sapecado Portugal na primeira fase, na abertura da competição, as duas estavam no mesmo grupo. Basicamente porque a Grécia sabia defender muito bem, Portugal não sabia.

abrir a tranca da defesa grega. E daí, numa bola parada, a Grécia ganhou por 1x0. Mas foi um momento marcante de Portugal. Não foi um título, um título que Portugal tinha condições de conquistar. Até porque pensando que aquele time de Portugal não conseguiu ganhar da Grécia porque não conseguia fazer gols, e pensar que um dos maiores artilheiros da história do futebol estava naquele time, o Cristiano Ronaldo. É que ele era muito novo.

tinha 17 anos e naquela época ele era só um ponto habilidoso, ele ainda não tinha desenvolvido totalmente o seu talento para fazer gols, inclusive ele ainda desperdiçava mais gols do que deveria, ele era criticado por isso no começo da carreira, mas aquela seleção portuguesa mudou o momento e a forma como os portugueses passaram a ver até alguns dos seus principais símbolos nacionais.

E apoiar Portugal deixou de ser algo passível de constrangimento, vergonha ou medo de parecer outra coisa.

Mas é isso, então. Queria também deixar um recado aqui, que estou muito feliz com o Retorno Fronteiras. Durante esse período todo, esse ato, que foi um grande ato, né? Um ato, assim, enorme. Muita gente me abordava, me mandava mensagem querendo a volta do podcast. Voltou, gente! Voltou! Estamos de volta. Mas é isso, então. Um abraço a todo mundo e até a próxima.

O mapa.

Bem, Felipe, e falar de Portugal é falar do mar. Pois é, quase o Fernando Pessoa. Então, a gente falou da capacidade de captação da coroa portuguesa, nós falamos da presença de entrepóstolos marítimos fenícios 2.500 anos atrás.

E tem uma questão que acho que a gente precisa destacar também para o nosso ouvinte entender, essa expansão marítima portuguesa, as várias influências dela, os vários motivos. Então temos esses que citamos, temos a questão do conhecimento náutico acumulado na região, que a gente vai mencionar um pouco de novo, mas a questão geográfica não pode ser...

subestimada, tá gente? Por quê? Porque Portugal, se você olhar Portugal no mapa, pensando num mapa da Europa, exclui a costa do Marrocos. Portugal é uma ilha, cercada ou de água ou de Espanha. O reino espanhol, muito maior, mais poderoso, em teoria. Então, a expansão portuguesa, baseada nesse espírito cruzadístico, e nas expedições comerciais, etc., ela tem que ir para o mar.

Portugal está na ponta da Europa. Portugal não tem outro lugar para onde ir que não seja o mar. Ou o mar ou uma briga com a Espanha. E essa posição geográfica portuguesa também explica o fato de que os portugueses adoram bacalhau.

Por quê? Porque estando onde está, Portugal era um dos principais entrepostos para a ligação entre o mundo do Mediterrâneo e o mundo do Mar do Norte. O contato com Inglaterra, a costa de Flandres, a costa norte da Alemanha. Quais eram as duas maneiras desses contatos?

ou essa via marítima, e que os portugueses vão se destacar nisso, e aí os navegadores portugueses saiam de Portugal, iam para o Mar do Norte fazer comércio, e esse comércio incluía ou a pesca do bacalhau, ou o comércio do bacalhau salgado, ou então essa ligação entre o Mediterrâneo e o Mar do Norte era feita pelas conexões fluviais da bacia do Reno, e daí inclusive parte da importância da região de Flandres, que é essa boca desses corações que vão capilarizar o continente europeu.

O Diniz, que nós citamos, Diniz I, ele já começa a organizar o comércio marítimo português, instituindo em 1293 a Bolsa dos Mercadores, que era um fundo de seguro marítimo justamente para os comerciantes que faziam comércio com Flandres.

e aí que pagava determinadas quantias pela tonelagem, então você levava vinho, fruto seco, sal, couros portugueses para a região, e voltavam com armas, tecidos finos, outros produtos importados e o bacalhau, porque os portugueses são viciados em bacalhau, mas não tem bacalhau em águas portuguesas, um dos pratos símbolos de Portugal é o bacalhau a bras.

não tem bacalhau em águas portuguesas. Então, a origem é essa, esse intenso fluxo mercantil ainda na Idade Média. E depois, o rei Diniz faz um acordo com o navegador e mercador genovês, chamado Manuel Peçanha, em português. O nome dele era Emanuele Peçanho, e ele tomou o nome aportuguesado, e nomeia ele como o primeiro almirante real de Portugal. E aí

Então, como é essa nomeação? O mercador genovês vai ter privilégios comerciais, em troca ele vai trazer os seus navios e a sua tripulação para proteger Portugal contra a pirataria cometida pelos árabes e também para proteger os navios mercantes portugueses. E isso...

vem do fato de que os mercadores genoveses, que eram muito presentes no Mar Negro, passam progressivamente a perder espaço lá, por conta, inclusive, da expansão otomana, e vão voltar-se para o outro lado do Mediterrâneo. Então,

a questão marítima portuguesa, a expansão marítima portuguesa, se dá muito por essa posição geográfica. E aí você tem o famoso marco das navegações que fica perto da Torre de Belém, que Henrique Navegador, na Infante Henrique Navegador, você tem ali uma caravela estilizada no monumento, mas ele está basicamente andando para a água, porque aquele é o caminho. Esse é um dos significados desse monumento. Né?

O mar é o caminho para os portugueses.

E, junto com a questão do espírito cruzadístico, que nós mencionamos, em 1415, João I conquista a cidade de Ceuta, no norte da África, que atualmente é uma cidade espanhola, dentro do Marrocos, e é o início do expansionismo português, marcado também pela importância da Ordem de Cristo, que tinha como seu grão-mestre o próprio príncipe Henrique, o navegador que mencionamos.

O reino de Portugal faz um acordo com a ordem, pelos direitos, as terras e riquezas conquistadas, e aí, por conta disso, a ordem de Cristo, ou seja, originalmente os templários portugueses, vão investir na expansão marítima portuguesa. Então, essa base ideológica da expansão ultramarina se soma à questão geográfica, na expansão do cristianismo, a ideia cruzadística e o apoio da igreja.

E com o Príncipe Henrique Navegador, nós vamos ter a consolidação das navegações e da expansão ultramarina com uma política de Estado. Em 418, os portugueses chegam no arquipélago da Madeira e em 1427, chegam nos Açores. A gente, quem sabe, no ano que vem vai fazer um programa só sobre a comunidade açoriana no Brasil, sobre os Açores e a comunidade açoriana.

estabelecendo o primeiro sistema de capitanias, um preâmbulo do que viria a ser estabelecido no Brasil, e a indústria do açúcar, da cana-de-açúcar, que os portugueses aprenderam com os árabes.

justamente naquela ideia de ser uma grande encruzilhada civilizatória. A cidade de Angra do Heroísmo, que fica na Ilha Terceira, fundada em 1478, é patrimônio da Unesco também. Em 1434, o navegador Gil Eanes transpôs o cabo do Bojador, e já disse Fernando Pessoa, que tudo vale a pena, essa unha pequena, para quem quer ir além da dor, tem o cabo do Bojador.

E em 1479, os portugueses cruzam a linha do Equador. E eu quero que o nosso ouvinte saiba o quão importante foi isso. Por quê? Como você navegava? E como você ainda navega, de certo modo? Guiando-se pelos astros. Então você tem o astrolábio, você tem o cestante, você tem as constelações.

Só que, quando você cruza o Equador, gente, o céu muda. No Hemisfério Norte, você tem a famosa Estrela do Norte. Depois do Sul do Equador, você tem o quê? Você tem o Cruzeiro do Sul. Mas você ainda não sabia que você tinha o Cruzeiro do Sul.

Então, requer anos, décadas de expedições investigativas, de prospecções, de espionagem, de contratar intelectuais e navegantes que já operam nessa região, muitos deles africanos ou árabes ou indianos, para te ensinarem como navegar nessas águas, cruzar a linha do Equador foi um processo muito complicado.

E esse processo das grandes navegações vai ser acompanhado por uma navegação, especialmente de cabotagem, pela costa da África. Os portugueses não navegavam mar adentro, numa linha reta só. Não, você ia pela costa da África para mapear a costa, mapear inclusive as possíveis riquezas, e nesse processo estabelecendo as primeiras feitorias.

que a gente vai falar, em 1471 foi estabelecida no Golfo da Guiné a feitoria de São Jorge da Mina, que estabeleceu comércio de ouro, cachaça,

e pessoas escravizadas, pessoas que eram normalmente escravizadas entre conflitos tribais africanos, originalmente, que aí você tinha a lógica da escravidão antiga, essa escravidão pela conquista, porém a demanda europeia por pessoas escravizadas vai, inclusive, interferir nisso, vai aumentar essa demanda.

E vamos lembrar que a escravidão pelo Atlântico, e a gente vai retomar esse ponto, que foi recentemente classificada pela Assembleia Geral da ONU como o maior crime da história da humanidade, ela tinha um caráter racial. As pessoas escravizadas no Império Romano, elas podiam ser... O Espartacus era um trácio, ele era um búlgaro, ele era branco de pele.

Elas podiam ser núbios, de pele escura, podiam ser egípcios, podiam ser gregos, podiam ser gauleses. Tinham todos os tipos de pessoas escravizadas no Império Romano. E todas elas podiam eventualmente conquistar a cidadania ou terem a liberdade. No Atlântico, a escravidão passa a ser sinônimo de cor de pele da pessoa. Fazendo um pequeno auto jabá, se o Matias me permite, tem um vídeo no Nerdologia.

com um roteiro, locução minha, chamado A Origem da Escravidão no Brasil, em que eu abordo um pouco melhor, um pouco mais aprofundado, essa questão. E tem o Fronteiras também do 13 de Maio, no qual a gente contou com a participação do Luciano Jorge Jesus e do Davi Correia.

Exatamente. E um grande exemplo dessa mudança racial, dessa estrutura racial que vai ser imposta aos países do Atlântico pelo comércio de pessoas escravizadas europeu, está na frase do então chefe de polícia do Rio de Janeiro, Eusébio de Queiroz, autor da lei que proíbe o tráfico negreiro.

que ele diz, abro aspas, mais razoável a respeito de pretos presumir a escravidão, enquanto por assento de batismo ou carta de liberdade não mostraram o contrário. O que isso quer dizer? O que essa frase quer dizer? Que a cor da pele era prova suficiente da escravização, era sinônimo. E além disso, você tem a inversão do ônus da prova. A pessoa, por ter a pele escura, que tinha que provar sua inocência.

porque mais razoável presumir a escravidão, palavras dele, que era um moderado em sua época ainda por cima. Então nós vamos ter esse processo pela costa africana.

Esse processo vai ser marcado por vários avanços náuticos, tecnológicos portugueses. Então a caravela, que para nós, a gente ouve a palavra caravela desde que a gente é criança, na escola, Pedro Álvares Cabral, chegou aqui na caravela, a caravela era um avanço tecnológico enorme para a sua época, porque ela conseguia navegar contra o vento.

Eles faziam uma espécie de zigue-zague e conseguiam navegar contra o vento. Isso é algo assim, um avanço tecnológico muito grande. O nome desse zigue-zague, eu juro para vocês que é um nome técnico, chama Bolinar.

você bolina, você vai para um lado e para o outro e você consegue navegar contra o vento. Você vai ter a hipótese da escola de Sagres, que muito provavelmente não foi uma escola literal criada pelo Henrique Navegador. É a ideia de você ter ali uma tradição de pensamento e o desenvolvimento da ciência náutica portuguesa com novos instrumentos, todo esse tipo de coisa. Tanto que os portugueses vão ser os principais navegadores da época mesmo que a serviço de outras coroas.

tipo Magalhães exatamente, Fernão de Magalhães chamado de Magalhães em castelhano era português ele que começa a primeira circunavegação do globo mas não chega porque é morto nas filipinas e está para sair um filme dele com o Gael Garcia Bernal

Ele é interpretado pelo Galgarcia Bernal? Se eu não me engano, é isso. Aí nós mencionamos as feitorias, que era por conta dessa navegação costeira. Então, os portugueses, eles sempre dependiam de alianças diplomáticas, de boas relações.

com os reinos do continente, para manter essas feitorias funcionando e para manter a proteção delas. É por isso que a correspondência diplomática portuguesa, os diplomatas portugueses desse período, eles eram extremamente bem treinados e eram sempre comunicados diplomáticos muito corteses.

é algo que tem que ser colocado no contexto da sua época e é muito diferente, por exemplo do que vai ser a diplomacia da canhoneira europeia no século XIX que é, olha só, ou você obedece a Rainha Vitória ou a gente enche de porrada e a gente te derruba e coloca outra pessoa no seu lugar, então os portugueses dependiam

dessas boas relações diplomáticas, e junto com essas relações diplomáticas vinham o quê? As ações missionárias. Você enviava missionários cristãos, missionários católicos, do padroado português, para aprender um idioma local, para começar a converter as pessoas locais, o que levaria a melhores relações. Você batizar o relocal, coisas do tipo.

As feitorias, vem do latim facere, significando fazer, ou seja, ali onde se faz. Então, era um lugar fortificado na zona costeira, em que você tinha, ao mesmo tempo, um mercado, um comércio, você tinha um armazém, por quê? Porque você vai armazenando o ouro, você vai armazenando...

o pau-brasil, até o próximo navio passar e levar a carga. Não era que nem o canal do Panamá, que você tem dezenas de navios por dia. Não, você tinha que armazenar tudo. Um ponto de apoio à navegação, onde os marinheiros podiam descansar, abastecer de água potável, de comida, e também uma guarnição militar.

para garantir a proteção disso tudo e garantir a presença portuguesa naquele território. Então, entre os séculos XV e XVI, meu caro Matias, foram construídos cerca de 50 feitorias pelos portugueses nas duas costas africanas, tanto na costa atlântica quanto na costa índica, pelo resto do oceano índico, inclusive ali na Península Arábica e na Índia, e no Brasil.

elas eram abastecidas pelo mar e eram bases praticamente autônomas que requeriam, inclusive, muito pouco recursos humanos portugueses. Porque a maior parte das pessoas que operavam feitorias, e tenham isso em mente, eram muitas vezes nativos. Quem carregava a carga, quem fazia todo esse processo, normalmente eram nativos. Os portugueses cuidavam da administração e lideravam a defesa.

No século XV, a partir de João II, nós vamos ter o novo objetivo português, que é estabelecer uma rota comercial marítima direta com a Índia para romper o monopólio das cidades italianas no comércio de especiarias, especialmente de Veneza.

Esse processo acompanhado pelas feitorias. Então, assim, Vasco da Gama não saiu de Portugal, engatou a quinta marcha e chegou na Índia. Ele foi pingando, pingando e pingando. Inclusive, quando você chega no extremo sul do continente africano, o Vasco da Gama contrata navegadores indianos para navegar por Madagascar, porque ele não conhecia aquelas águas.

famosamente, meu caro Matias, o rei João II mandou dois espiões para a Índia para enviar informações, o Pero da Covilhã e o Afonso de Paiva, que nunca se sabe o que aconteceu com eles, mas a correspondência deles chegou. Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, entrando pela primeira vez um europeu no Oceano Índico via o Atlântico.

E é muito curioso, porque o nome do cabo era Cabo das Tormentas, devido à dificuldade com tornar. Que nem eu citei na manchete do Amistoso entre a seleção feminina de Brasil e Portugal. Exatamente. Mas o rei João II que ordena a mudança de nome. Fala, não, não, não, é Cabo da Boa Esperança. Porque agora a esperança é de chegarmos na Índia. De ganharmos muita grana com isso, inclusive.

O Bartolomeu Dias, né? Ele, repito, ele faz essa viagem perto da costa, só que no Atlântico Sul a coisa começa a ficar diferente. De novo, gente. Por quê? Os ventos do Atlântico, gente, eles fazem tipo um oito.

o miolo desse 8 é perto de Natal, vamos colocar em termos bem genéricos. Por isso que tem aquela hipótese antiga de que Pedro Álvares Cabral chegou na Bahia porque ele foi pego por uma calmaria e o vento levou ele para Porto Seguro, porque de fato a corrente de ventos no Atlântico é um 8. Então isso quer dizer que no sul, no continente africano, você está contra o vento de novo.

E Felipe, eu fui até colar aqui para ver que Portugal foi eliminado na Copa de 2010 na África do Sul, jogando na Cidade do Cabo, perdendo para a Espanha nas oitavas de final. Bartolomeu Dias deu 15 tuits escarpados no túmulo dele, de desgosto.

Então, a viagem do Vasco da Gama, ela teve um Manaus que foi construída especialmente para a viagem, pensando nessa logística, nessa diferença dos ventos, etc. E aí, Vasco da Gama chega em Calicut em 20 de maio de 1498, estabelecendo essa conexão direta entre Portugal e a Índia, consolidando Portugal como esse grande império marítimo.

Três anos depois, em 1501, é construído o Mosteiro dos Jerônimos, que é justamente para celebrar a descoberta. Em 1519 é construída a Torre de Belém, que é oficialmente a Torre de São Vicente, que era uma torre em que originalmente era para os monges orarem.

pelos navegadores portugueses. Era pelos monges intercederem perante a Deus e perante Jesus Cristo pelos navegadores portugueses. A ideia ali de claustro, de concentração, de dedicação a essa causa espiritual por conta, inclusive, daquele espírito cruzadístico que mencionamos. Só que, meu caro Matias, tem uma coisa. O Camões já falou da vancobícia de mandar. Então você tinha lá Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, estavam buscando a glória.

você tinha o espírito cruzadístico, você tinha os investidores lá em Portugal, na ordem de Cristo, os mercadores, querendo botar dinheiro para lucrar em cima.

O que motivava o marinheiro comum? O cara comum que se alistava ali na marinha com 13, 14 anos, muitas vezes um camponês, às vezes, e ele topava uma viagem para a Índia completamente desconhecida, muitos não voltavam, muitos portugueses morreram no mar. O que motivava esse cara?

especialmente duas coisas. Primeiro, a busca por riqueza, quando estamos falando especialmente de continente africano e de subcontinente indiano. E aí você tinha, por exemplo, o mito do reino do Presti João, que era uma espécie de Eldorado africano, um reino onde tinha muita riqueza e os portugueses seriam bem recebidos, etc. E depois, com a chegada dos portugueses no continente americano, a popularmente chamada Descoberta do Brasil, muitas aspas,

quando você tem aquelas paisagens mais idílicas, uma temperatura muito mais agradável e tudo mais, você tem a ideia de que encontramos o paraíso, encontramos o Jardim do Éden, ou então, aqui é a rota para acharmos o Jardim do Éden, ou o Reino da Cocanha, ou o que for. E aí você tem um livro de um cara relativamente conhecido, Sérgio Buarque de Holanda, chamado justamente Visões do Paraíso.

de como essa busca, ou pela riqueza, ou pelo paraíso, ou por uma mistura dos dois, é o que motivava o cidadão comum, o português comum. Nesse processo, meu caro Matias, que a gente vai ter introdução em Portugal dos famosíssimos azulejos portugueses. Azulejos que vêm do árabe, Al-Zilij, que o rei Emmanuel I visita Sevilha em 1503.

e ele vê aquela herança árabe-muçulmana, ele fala, vou fazer a mesma coisa lá na minha quebrada. E leva a ideia dos azulejos para o Palácio Nacional de Sintra, com o Salão dos Árabes, e a partir disso se envolve a tradição do azulejo português, especialmente o azulejo, em azul e branco. Senão seria vermelhejo.

para marcar as navegações portuguesas, grandes conquistas portuguesas, etc. Mas, falando sério agora, por conta do azul e branco, que eram as cores da bandeira do reino de Portugal, que a gente vê uma predominância no estilo arquitetônico colonial aqui no Brasil, muitas casas brancas e azuis. Isso. E que é o mesmo motivo pelo qual a camisola do futebol clube do Porto é azul e branca.

Isso, eles deviam se chamar azulejos do porto. E aí nós temos os portugueses chegando na Índia, estabelecendo feitorias por toda a costa africana, chegando na Península Arábica, vamos falar de Península Arábica, ao mesmo tempo, Cristóvão Colombo.

o genovês treinado por portugueses a serviço dos espanhóis chega no continente americano em 1492, nós vamos ter em 1494 o famoso Tratado de Tordesilhas, que vai dividir o mundo em duas esferas de influência.

Uma portuguesa e a outra espanhola. Estabelece uma linha a 370 léguas ao oeste de Cabo Verde e a leste desse meridiano estará de Portugal e a oeste estará da Espanha. E aí quando a gente vê esse mapa, a linha de Tordesilhas, num mapa 2D, num livro escolar, a gente fala, pô, os portugueses são mó otários, hein? Só ficaram com um pedacinho da América, olha só, o resto todo ficou pra Espanha.

Gente, Portugal ficou com a Índia. Portugal ficou com o Oceano Índico. Ficou com tudo que tinha, da costa da África até a Indonésia. Que essa era a prioridade dos portugueses. Os portugueses queriam garantir o Oceano Índico. O mundo foi dividido em dois e o mundo é redondo. Então a linha que passa ali, ela continua do outro lado, gente. Então os portugueses, na verdade...

eles garantiram o que eles queriam no Tratado de Tordesilhas, que foi mediado pelo Papa Alexandre VI, o Papa de Borgia, corrupto, que não apenas tinha filhos, mas possivelmente teve uma filha com a filha dele.

tem essa lenda e gerou uma reação pelo restante da Europa com o rei da França o rei Francisco, famosamente dizendo eu quero ver o testamento de Adão, onde ele deixou o mundo para Portugal e Espanha

E justamente por conta da tecnologia da época, era muito difícil precisar qual território era de qual coroa, porque, por exemplo, os espanhóis conquistam as Filipinas, justamente o nome, a gente já falou isso no Fronteiras, sobre o arquipélago vem do rei Felipe, mas que pelo tratado era possessão portuguesa.

Assim como os portugueses aqui no continente americano dominaram vários territórios que, pelo tratado, seriam dos espanhóis. E nesse processo entre Portugal e Espanha, meu caro Matias, nós vamos ter perseguição aos judeus na Península Ibérica. Em 1492, a coroa espanhola expulsa os judeus da Espanha.

tanto por razões ideológicas antissemitas, mas principalmente por questões materiais. Você confiscar a riqueza dessas comunidades, que eram especialmente comunidades mercantis ou que trabalhavam com bancos. E qual a origem desse esterótipo, muito presente na Idade Média, do judeu banqueiro, o mercador de Veneza, do Shakespeare?

Porque os judeus, por serem uma população diaspórica, não tinham acesso à terra. O judeu, muitas vezes, não podia legalmente ter a terra, ele não podia ser sepultado, muitas vezes, na sua vila, alguma coisa assim, por ser judeu. Aí você tem todos os pensamentos antissemitas tradicionais do cristianismo. O antissemitismo antecede o cristianismo, mas com o cristianismo ganha muita força. É importante lembrar que uma coisa que a gente sempre fala no xadrez herbal, Lutero, um dos maiores antissemitas da história,

inclusive, a ideia de que os judeus que mataram Jesus, etc. Enfim, o ponto é, os judeus, nesse momento, não podiam ter terra.

muitas vezes eram expulsos de suas cidades, tinham que estar sempre em deslocamento, sempre buscando refúgio. Então, o que acaba acontecendo com uma comunidade diaspórica que tem dificuldades de acesso à terra? Ela vai fazer uma das duas coisas, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Um, vai buscar conhecimento acadêmico para se tornar um profissional valioso onde quer que você vá.

Ou então você vai trabalhar com comércio, porque você não precisa trabalhar com a terra. E nesse caso específico tem a questão do comércio do tempo, porque o banqueiro é o comércio do tempo. Eu te empresto hoje para você me pagar depois com juros. E a igreja católica condenava a usura. Exatamente. O cristão, o católico, teoricamente não podia fazer usura, não podia cobrar juros. Mas o judeu podia. Então por isso que você vai ter...

os judeus se tornando, muitas vezes, ou profissionais capacitados nesse momento, como médicos, e aí esse é outro esterótipo, o médico judeu, por exemplo, Freud, ou então vão se tornar comerciantes e banqueiros. E é interessante a gente ver, fazendo um parênteses, como isso também acontece em outras comunidades diaspóricas. Isso acontece, por exemplo, com os armênios pós-genocídio.

Você vai ter uma comunidade armênia no Brasil, por exemplo, que muitos vão chegar, vão trabalhar com comércio, porque eles não tinham acesso à terra, então vão trabalhar com comércio. Então vão abrir um restaurante em Osasco para vender esfirras, ou uma sapataria, uma oficina de sapatos, uma pequena fábrica de sapatos.

ou então vão valorizar o conhecimento intelectual. Por isso que você vai ter muitos armênios que vão ser médicos, você vai ter armênios advogados, você já tem um reitor da USP de origem armênia. Isso é muito comum, infelizmente, em sociedades diaspóricas que têm que buscar refúgio e que chegam num lugar desamparado. Você vai trabalhar com algo que normalmente não depende da terra, porque você não vai ter acesso à terra.

porque ela já tem dono, ou porque vão dificultar o seu acesso, vão impedir o seu acesso. E, no caso, então, dos judeus, e claro, isso é um resumo muito breve desse período, os reis da Espanha vão expulsar os judeus da Espanha em 1492, para especialmente confiscarem a riqueza deles, e muitos vão buscar refúgio em Portugal, mediante pagamento.

O rei Manuel aceita os judeus em Portugal desde que eles paguem para entrar. Porém, em 1495, eles são novamente expulsos, agora de Portugal, como parte das negociações do casamento com Isabela de Aragão, justamente. E aí você vai ter uma política de assimilação forçada em que as crianças judias, menos de 14 anos, serão sequestradas para serem criadas por famílias cristãs.

o fechamento das sinagogas e os judeus adultos sendo forçados a se converter ao cristianismo, os chamados cristãos novos. E o que tudo isso tem a ver com o que a gente está falando? Porque além de ser um fenômeno muito importante da história portuguesa, é um fenômeno que também vai contribuir para o processo de colonização portuguesa, porque muitos desses cristãos novos vão fugir de Portugal e aí virão, por exemplo, para o território que hoje é o Brasil.

Então você vai ver, por exemplo, no sertão pernambucano, até nos dias de hoje, ritos judaicos que foram sincretizados na igreja católica. Ou então a ideia de que, olha só, vamos confiscar aqui a grana desse pessoal, vamos cobrar um resgate para eles poderem entrar em Portugal, para financiar as nossas expedições.

e em 1506 nós vamos ter um infame massacre de cristãos novos, que eram acusados de não terem se convertido de forma sincera, que especula-se que entre 3 mil e 4 mil pessoas foram mortas apenas em Lisboa. Então, esse processo também do antissemitismo, do processo de estabelecimento dos cristãos novos, que é um fenômeno bem português, inclusive,

E aí tem as lendas, que os cristãos novos são aqueles que têm nomes ligados à natureza. Então Pereira seria um sobrenome cristão novo, porque era o sobrenome dado para o judeu converso. Mas isso possivelmente é lenda. E aí chegamos na Ásia e no Índico, meu caro Matias, que como a gente mencionou, era a prioridade dos portugueses.

Os portugueses derrotam o sultanato Mameluco e a República de Veneza na Batalha Naval de Diu, em 3 de fevereiro de 1509, próximo da Índia. Garante, então, o domínio marítimo pelo Oceano Índico por, basicamente, 200 anos.

Portugal manda expedições pesadamente armadas pra região, inclusive a expedição do Pedro Álvares Cabral era uma expedição militar você vai ter o saque de portos africanos você vai ter um famoso incêndio de um navio que carregava 400 peregrinos muçulmanos pra Meca e ele vai ser incendiado com praticamente todas as pessoas a bordo

E você vai ter, então, a Constituição em 1510, sob o governo de Afonso de Albuquerque, o Estado Português da Índia, com capital em Goa. Os portugueses vão se expandir para Malacca, na atual Malásia, vão chegar...

nas ilhas Molucas, na Indonésia, que os portugueses chamavam de Ilhas das Especiarias, por conta da origem da canela. Vão chegar na China em 1513. Em 1529 foi estabelecido o acordo entre Portugal e Espanha sobre as ilhas Molucas, que as Molucas ficam para Portugal, as ilhas Filipinas ficam para a Espanha.

Os portugueses também vão chegar no Japão nesse processo, com o missionário jesuíta Francisco Xavier em 1542, chegando em Goa, e depois com comerciantes no porto de Nagasaki, no Japão.

então os portugueses chegam em 1542 em Nagasaki, em 1557 as autoridades chinesas autorizam o estabelecimento do protetorado na prática portuguesa em Macau, os portugueses chegam em Macau em 1597 e vão ficar até a década de 1990.

estamos falando de mais de 400 anos de presença portuguesa em Macau, do outro lado do mundo. Então, o que acontece? No final do século XVI, ou seja, pouco antes da União Ibérica, uma cadeia de feitorias entre poços liga a costa da Bahia A CIDADE NO BRASIL

até Portugal, aí de Portugal, costa do Marrocos, costa da Guiné, costa do Congo, costa de Angola, costa de Moçambique, sul da Península Arábica, Oman, Índia, Tailândia, Malásia, Indonésia, Macau e Japão.

é o primeiro império global da história. Você podia ir da costa da Bahia até Lisboa, e daí de Lisboa até Nagasaki, passando por entrepostos e veitorias portuguesas. E, falando em futebol, meu caro Matias, o time de Nagasaki é o V-Varim Nagasaki. E o V é de Vitória.

Vitória em português, em homenagem, inclusive, a serança portuguesa no Japão. E que, inclusive, no fronteira sobre o Japão, eu lembrei do fato de que a primeira frota europeia a chegar no Japão era comandada pelo Fernão Mendes Pinto, que é quase o nome do meu irmão.

E esse programa vai ao ar em maio de 2026, não sabemos como estar ao mundo em maio de 2026, mas nos meses anteriores, os ouvintes e os ouvintes do Xadrez Herbal viram muito no noticiário a questão do estreito de Hormuz.

É importante lembrar que os portugueses viram como o Estreito de Hormuz era um ponto estratégico crucial no Golfo Pérsico e dominaram ele por mais de um século. Os portugueses chegam no atual Oman em 1507, cuja capital é Mascate, que é termo para Mercador depois, com Alfonso de Albuquerque.

Os portugueses conquistam a região, constroem fortificações, inclusive o forte de Nossa Senhora da Conceição, cujas ruínas existem até hoje, localizado na ilha de Gerum, e apenas em 1622, quando os persas, com apoio dos ingleses, expulsam os portugueses, que acaba o domínio português.

E os portugueses também vão dominar a ilha de Socotra, que é uma ilha que hoje pertence ao Iêmen, perto da costa da Somália, que basicamente governa ali o fluxo marítimo em relação à Península Arábica.

Falando da América, meu caro Matias, o caso da presença portuguesa na América acaba simbolizando bem os aspectos religiosos que a gente tanto falou do expansionismo. Qual é a primeira coisa que os portugueses veem e dão nome no território que hoje é o Brasil? O Monte Pascual, porque era a época da Páscoa.

Aí, o Pedro Álvares Cabral desembarca no que hoje é Porto Seguro, e nós temos, qual a primeira coisa que eles fazem? A primeira missa em solo brasileiro, pelo Frei Henrique de Coimbra. Batizam a terra, o local, como Ilha de Vera Cruz, ou seja, a Cruz Verdadeira, a Cruz de Cristo, no dia 1º de maio. Tem uma nova missa, em que eles tomam posse oficialmente das terras, fazem um marco de posse e vão embora.

Em 1511, temos a primeira expedição exploratória na costa brasileira, que vai começar a exploração do pau-brasil, que é a origem do nome do país, que tem esse nome porque é uma madeira avermelhada, usada na tinturaria, vermelha como brasa, o que tem dado muita discussão esse ano, no ano de 2026.

E você vê que todos os acidentes geográficos que os portugueses vão, entre aspas, descobrindo, eles dão nomes relativos ao santo do dia ou a uma data religiosa daquele momento. Porém, durante as primeiras três décadas, além da exploração do pau-brasil, o litoral da Bahia servia principalmente como apoio à Rota da Índia, porque a Rota da Índia era muito mais lucrativa.

e para explorar a madeira, quem que a coroa portuguesa fez? A mesma coisa que ela fazia já há 200, 300 anos, que a gente explicou. Foi buscar apoio nos mercadores, na nobreza, nos particulares, incluindo cristãos novos.

para fornecer, vender concessão da exploração do pau-brasil, e aí eles que financiavam a exploração para recuperar o seu investimento. A primeira feitoria portuguesa foi estabelecida no Brasil, no que hoje é o Brasil em 1504, na ilha de Fernando de Noronha, por um cara chamado Fernão de Loronha.

E em 1504 também tivemos a feitoria de armazenamento de pó Brasil de Cabo Frio, como um entreposto no litoral. E por conta da presença da pirataria francesa, que os portugueses em 1530 vão mandar o Martim Afonso de Souza para estabelecer fortificações, núcleos populacionais permanentes. Ele funda São Vicente, primeira vila do Brasil em 1532.

quando na América Hispânica você já tinha uma universidade, inclusive. Ou seja, a colonização portuguesa no Cajobrasil foi bastante tardia em relação à colonização hispânica na América. Por quê? Porque, novamente, os portugueses estavam focados na Índia. Apenas quando vira a competição francesa aqui na região que eles começaram a agir, se mexer, e teve o estabelecimento das capitanias hereditárias, as 15 capitanias hereditárias. Tem um vídeo no Nerdologia também sobre pirataria no Brasil que pode ajudar.

E falando de tudo isso, meu caro Matias, em 1572, um tal Luiz Vaz de Camões publicou Os Lusíadas, três anos depois dele mesmo regressar dos territórios da Ásia, que é a grande epopeia da exploração marítima portuguesa. E para a gente fechar, meu caro Matias, a gente tem de novo passar rapidamente pela escravidão.

Por quê? Porque a escravidão de pessoas negras no Império Português é essencial para a gente entender o Império Português. O Império Português não foi apenas uma história de bravura, heróica, desbravamento dos mares para comercializar tempero.

também teve aspectos extremamente violentos, extremamente cruéis, e o tráfico transatlântico de pessoas africanas é o mais marcante, lembrando que o Brasil recebe cerca de 35% de todos os africanos que são escravizados num período de basicamente 350 anos, e...

A escravidão transatlântica tinha bases ideológicas, bases mercantis e também estava ligada com a questão cruzadística. A escravidão dos africanos começa...

como a escravidão, entre aspas, antiga e baseada nesse espírito cruzadístico. E o grande documento símbolo disso é uma bula papal, ou seja, um documento do Papa, que era a principal autoridade do mundo, o Papa Nicolau V, em 1452, na bula Dundiversas, que autoriza Portugal a conquistar terras não cristãs.

e subjugar e escravizar sarracenos pagãos e outros infiéis inimigos de Cristo, onde quer que se encontrem. Então a ideia de expansão do cristianismo, das cruzadas, ela é essencial para a gente entender não apenas a expansão portuguesa, mas também a expansão da escravização pelo Atlântico.

A primeira grande operação de comércio de pessoas escravizadas pelos portugueses, inclusive, antecede essa bula, foi a Partilha de Lagos, em 1444.

E, no total, cerca de 4,8 milhões de pessoas africanas foram trazidas para o litoral brasileiro. Isso faz com que Portugal torne-se, pelos séculos 15, 16, 17, o principal centro mercador de pessoas escravizadas da Europa.

ao ponto que o mercado de pessoas, o comércio de pessoas, vai se tornar tão importante quanto, se não mais, do que o próprio comércio de especiarias e de outros produtos, ou dos produtos agrícolas, que originalmente faziam parte desse comércio, dessa expansão comercial marítima portuguesa.

Lembrando que também tivemos no Brasil a escravização do indígena, mas que ela foi proibida, por exemplo, por Marquês de Pombal em 1755. Em outras palavras, a escravização das pessoas indígenas no Brasil foi oficialmente proibida mais de um século antes da comercialização e escravização de pessoas negras.

Isso mostra como essa escravização tinha um componente racial ligado ao continente africano. E aí você vai ter questões teológicas também, aquela questão da maldição de Khan, etc. Tanto que a mais famosa obra de arte sobre o branqueamento da população no Brasil se chama Redenção de Khan.

E em 1580, devido a uma crise dinástica, a gente vai ter o estabelecimento da União Ibérica, mas esse vai ser o ponto de partida do nosso próximo programa. Então, para fechar, Portugal, primeiro império global da história. O que explica esse sucesso marítimo português? A posição geográfica estratégica?

a centralização política precoce que contribui para a capacidade de financiamento, os avanços náuticos e tecnológicos, incluindo os absorvidos dos árabes, a experiência marítima e militar da reconquista e das expedições no norte da África,

e as bases ideológicas religiosas da expansão do cristianismo, da conversão das pessoas, de espalhar a boa nova, e também do espírito cruzadístico de que essa expansão do cristianismo tem que ser feita nem que seja na base da espada.

Bem, Felipe, como sempre, a gente encerra o Fronteiras Invisíveis do Futebol com uma dica cultural que tem a ver com o que foi exposto no episódio. Então, meu caro Matias, eu vou dar duas sugestões de leitura. Um é um clássico que, de certo modo, já está um pouco obsoleto do ponto de vista historográfico.

que é O Império Marítimo Português, do Charles Boxer, historiador inglês. O livro foi publicado na década de 1950, ou seja, repito, já é um livro um pouco mais antigo, mas é um clássico, é uma leitura que, como introdução, vale a pena. Um abraço para o professor Marquesi. E a outra leitura mais contemporânea...

é o livro Conquistadores, como Portugal forjou o primeiro império global, do historiador também inglês Roger Crowley. Já a minha dica é o livro A Pureza Perdida do Desporto, futebol no Estado Novo, do pesquisador Rahul Kumar, que foi lançado em 2017 pelas edições Paquidermi e que me ajudou bastante na pesquisa não só sobre o futebol, mas o esporte como um todo.

em Portugal e me foi trazido pelo amigo Emanuel Leite Jr., que é ao Virrubro, no Recife, mas adepto do Futebol Clube do Porto, em Portugal, ele que morou bastante tempo no norte do país europeu. Então fica essa recomendação para quem se interessar sobre os primórdios do esporte e do futebol em Portugal e também dessa relação da prática esportiva e da ditadura salazarista.

E Matias, antes de você passar para a música de encerramento, que eu não faço a mínima ideia do que ele escolheu, tá gente? Não briguem comigo. Mas, novamente, agradecer todos os nossos ouvintes por esses anos todos de acompanhar o nosso trabalho. Espero que vocês tenham gostado desse programa. Resultado de estudo, resultado de dedicação. Pode ter tido algum erro, pode ter tido algum probleminha, mas fique à vontade para sempre escrever. A gente sempre faz erratas quando necessário. E...

Pedir que compartilhe o programa, espalhe o retorno do Fronteiras Invisíveis do Futebol. Novamente, agradecer a Pet Love, especialmente as pessoas da Bruna e da Mayara. E contamos com vocês para a segunda parte sobre História de Portugal.

Bem, e a música que eu acabei escolhendo, na verdade, não foi nenhuma escolha minha, foi escolha dos próprios jogadores de Portugal, após vencerem a Eurocopa de 2016, que é o cover A Minha Casinha, interpretado pela banda Chutos e Pontapés, que foi lançado em 1988.

mas que é uma versão de uma música que apareceu pela primeira vez no filme O Costa do Castelo, de 1943, e desde a conquista do primeiro título da seleção portuguesa adulta virou o tema da seleção das quinas. Então é com essa música que a gente encerra mais uma edição do Fronteiras Invisíveis do Futebol.

És tu o primeiro

E aí

E não puder, não puder, não puder

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