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Xenotransplante no Brasil: da clonagem ao paciente, com Ernesto Goulart

29 de setembro de 202653min
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Existem hoje mais de 60 mil brasileiros na fila de transplante de órgãos. Quase 30 mil esperam por um rim. A resposta que a ciência brasileira está construindo pode vir de um porco.

Ernesto Goulart é professor do Instituto de Biociências da USP e pesquisador principal do XenoBR, o centro de pesquisa em xenotransplante financiado pela FAPESP. Em março deste ano, sua equipe apresentou o primeiro suíno clonado da América Latina, marco de um projeto que começou do zero há sete anos e que hoje coloca o Brasil entre os poucos países do mundo a dominar essa tecnologia.

Mas esta conversa começa antes da ciência. Ernesto perdeu o tio, que não resistiu à espera por um transplante de fígado, vítima de cirrose por hepatite C. Foi essa dor que o levou a dedicar a carreira inteira a um único problema: a escassez de órgãos. Ao longo do caminho, teve a sorte de trabalhar ao lado do saudoso Dr. Silvano Raia, responsável pelo primeiro transplante de fígado intervivos do mundo, da geneticista Mayana Zatz e do Dr. Jorge Kalil, hoje à frente do projeto.

Nesta conversa, falamos sobre:

Por que o suíno, e não o primata, é o animal escolhido para o xenotransplante, uma questão de tamanho, ciclo de vida e disponibilidade que a maioria de nós nunca parou para considerar.

O que se edita geneticamente num suíno para que seus órgãos deixem de ser rejeitados pelo corpo humano, do bloqueio dos açúcares que disparam a rejeição hiperaguda à inserção de genes humanos que regulam coagulação e resposta imune.

Como funciona, na prática, a clonagem por transferência nuclear somática, a mesma técnica que gerou a ovelha Dolly, e por que ela tem eficiência baixíssima mesmo décadas depois.

O dia em que o primeiro clone nasceu, depois de três anos de tentativas e uma jornada de seis.

O arranjo que sustenta o projeto: a parceria com a farmacêutica EMS desde 2019, a entrada da FAPESP, a criação da spin-off XenoBrasil, e a colaboração com o Instituto de Zootecnia, o IPT e o Hospital das Clínicas, um exemplo raro de cooperação de longo prazo entre ciência pública e indústria no Brasil.

A ausência de marco regulatório brasileiro para xenotransplante, e como o diálogo com a ANVISA está tentando resolver isso antes que a lacuna vire barreira.

O revés recente: em julho, a equipe precisou antecipar a eutanásia do primeiro clone, uma decisão já prevista cientificamente mas acelerada por restrições orçamentárias em projetos federais.

E a visão de futuro: em cinco anos, ensaios clínicos em curso no Brasil; em dez, órgãos suínos disponíveis à população pelo SUS, de forma gratuita e universal. O objetivo declarado é transformar São Paulo na capital do xenotransplante da América Latina.

Esta é a segunda temporada do INOVASAU, que percorre a cadeia inteira da inovação radical em saúde no Brasil: o desenho da política pública, a infraestrutura de pesquisa, a propriedade intelectual, a regulação, o capital, a indústria e a fronteira científica.

O INOVASAU é criado e apresentado por Marcio de Paula, sócio-fundador do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS.

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